Volume 2
Capítulo 16: A Zona de Trovões
O fogo das tochas projetava sombras longas pelo cais subterrâneo. O cheiro de peixe e sal dominava o ar.
Korr estava de braços cruzados diante de Garwin — o rosto imóvel, o olhar firme, como quem se sabe no controle.
— Quinze mil peças de ouro é muita coisa — disse Garwin. — Isso é o preço de um aeroplano pequeno.
— É o preço de um aeroplano pequeno e sem equipamento nenhum — retrucou Korr. — E se você comprasse um desses, o que faria? Transporte de pessoas? Nem carga dá pra levar.
Thurstan se adiantou, empolgado.
— A gente podia oferecer dez mil. Dez mil e...
Garwin ergueu a mão.
— Espera.
Korr arqueou a sobrancelha.
— Dez mil? Por um barco próprio pra esse tipo de negócio? Vocês estão é com sorte de eu querer vender.
Cailynm apoiou a mão na borda do barco.
— Se for pra arrendar, prefiro arrendar algo que valha o preço. Quinze mil é muito.
— Muito pra quem não entende valor — respondeu Korr, virando o peixe na brasa. — Isso aqui não é um barco. É uma promessa.
Arastine bufou.
Korr soltou um riso rouco.
— Gosto dessa. Sincera. Mas vamos simplificar: me deem cinco mil agora. O resto, pagam com o lucro das viagens. Metade do que fizerem, até quitarem a dívida.
Garwin cruzou os braços.
— E se o barco afundar antes disso?
— Então a dívida morre — disse Korr, sem humor. — E vocês também. Justiça do mar.
O som das ondas ecoou pelo cais. Garwin assentiu devagar.
— Feito. Cinco mil agora; o resto quando a sorte permitir.
Korr sorriu, satisfeito.
— É assim que gosto de fazer negócio.
O grupo se entreolhou. Cailynm tirou uma pequena bolsa do casaco e despejou moedas no chão de pedra. Arastine fez o mesmo. Garwin colocou uma caixa de metal amassada ao lado. Por fim, Thurstan contou as últimas moedas, murmurando números.
Korr conferiu com rapidez, o olho bom seguindo o movimento do ouro.
— Certo. Negócio fechado.
Ele os guiou para dentro do barco. Depois de saltar a bordo, acenou para que o seguissem.
— Cuidado com o degrau. Tá meio gasto.
A parte transitável do convés era pequena, cercada por cordas e painéis gastos. Atrás, um golem de ferro girava lentamente uma roda de pás, soltando gemidos de esforço. Vapores azulados escapavam das juntas.
— Esse é o coração dela — explicou Korr. — O bicho só entende o que a interface mandar; operem errado e ele para. Se esquentar demais, abram a válvula ali. — Apontou um cano torto preso com arames. — Se não, ele ferve. Ou explode.
Thurstan se aproximou, curioso.
— E ele trabalha sozinho?
— Trabalha sozinho — disse Korr — e reclama como todo bom marujo.
Cailynm inclinou-se sobre a borda inundada do convés.
— E a caçamba?
— É onde os peixes fazem a mágica. A água tem de estar limpa, senão eles morrem. E sem eles, vocês só têm um barco velho e inútil.
Garwin examinou o convés, os olhos correndo pelas juntas enferrujadas.
— E o que fazemos se o motor — ou essa roda — parar em alto-mar?
— Rezem — respondeu Korr. — Ou empurrem até voltar a funcionar.
Alguns riram, sem convicção.
O cozinheiro desceu do convés e segurou a corda que prendia o barco.
— Quando quiserem partir, soltem o nó. O mar cuida do resto.
Garwin olhou para os companheiros.
— Tudo bem. Então é isso. Vamos ver do que essa coisa é capaz.
Thurstan puxou a alavanca principal. O golem rangeu, e a roda começou a girar mais rápido, empurrando o barco adiante. As pás batiam na água, o som reverberando pela gruta como um tambor distante.
Cailynm ajeitou o casaco, o cabelo agitado pelo vento.
— Agora é tarde pra voltar, não é?
Garwin sorriu de canto.
— Já era tarde desde que saímos do nosso casebre.
O barco deslizou pela fenda estreita; o reflexo das tochas cintilava sobre a água.
No alto do cais, Korr observava. O fogo tremeluzia no olho único, misturando-se ao brilho azul das gaiolas. Um sorriso breve curvou o seu rosto, distorcido pelo brilho das chamas.
O barco avançava devagar; as pás misturavam seu ritmo ao das ondas que batiam nas paredes da caverna. As lamparinas do convés lançavam reflexos dourados na água escura.
Cailynm foi a primeira a notar.
— O que é aquilo ali?
Garwin levantou a tocha. A luz atravessou o nevoeiro e revelou uma sombra colossal adiante.
O casco emergia das rochas, remendado por placas de ferro e correntes grossas. A estrutura era disforme, costurada com pedaços de embarcações distintas — o corpo de um cruzador, a frente de um encouraçado, unidos à força como uma criatura feita de naufrágios.
Tubos de escape soltavam filetes de fumaça rosada, e o leve tremor do metal deixava claro que havia movimento lá dentro.
— Por todos os deuses… — murmurou Thurstan. — Como é que isso ainda flutua?
Arastine estreitou os olhos.
— Isso devia ser proibido.
— É. — disse Garwin, examinando o casco. — Se ele realmente era dois aeroplanos que viraram um só navio, já dá pra imaginar quem fez.
O barco passou devagar ao lado daquele remendo grotesco. As correntes que o prendiam se moviam devagar com o balanço da água.
Cailynm virou o rosto para Garwin.
— Você acha que tem gente aí?
Ele demorou a responder.
— Acho que sim. E que não querem ser vistos.
Thurstan tentou rir, mas a voz saiu fraca.
— Uma beleza dessas escondida aqui… deve ter história.
— Se duvidar, até fantasmas. — disse Arastine, baixo.
O reflexo das lamparinas dançava sobre o metal corroído. Por um instante, algo pareceu se mover por trás das escotilhas — um lampejo breve, ou talvez apenas o reflexo da luz.
Cailynm sussurrou:
— Vamos logo. Esse lugar tá me dando calafrios.
Garwin manteve os olhos no casco por mais um momento antes de virar o leme.
— Concordo. — disse, baixo. — Não foi boa ideia termos visto essa coisa.
O barco se afastou, e o som das pás foi se perdendo aos poucos. Atrás, o colosso permaneceu imóvel sob o teto da caverna.
Garwin mantinha uma das mãos no leme, a outra no corrimão.
— A maré parece que tá subindo — disse. — O que isso significa, Thurstan?
Thurstan mexia nas alavancas do golem.
— O barco velho ainda responde bem. — comentou. — Se continuar assim, a gente sai da enseada antes do pôr do sol.
O golem soltou um sopro metálico; vapor azul escapou pelas juntas. O casco gemeu, mas o barco respondeu firme.
Cailynm se inclinou sobre a borda, o vento balançando o cabelo.
— Olha isso… — disse, vendo sombras submersas acompanhando o casco. — É bonito.
— Bonito vai ser o que vão fazer com você — respondeu Arastine, com ironia. — Se cair na água, já era.
Eles riram; o som se espalhou pelo convés, leve, diferente do silêncio de antes.
Pouco depois, o mar se abriu diante deles — o som, a luz e o ar mudando tudo de uma vez. A caverna ficou atrás, como uma boca escura engolida pela sombra das falésias. A enseada se estendia à frente, cercada por rochedos e colunas naturais. O céu, salpicado de nuvens pesadas, filtrava a luz do fim da tarde.
Garwin abriu o mapa sobre o painel improvisado.
— Pela marcação, a Baía do Relâmpago fica depois da enseada. A gente dobra à esquerda e segue a formação rochosa até chegar no portal.
Thurstan olhou o traço desenhado.
— Parece fácil no papel.
Arastine o fitou.
— Você fala isso de tudo que dá errado depois.
Cailynm se aproximou da mesa, o olhar voltado para a água.
— Estranho. Essas sombras não deviam estar tão perto.
Thurstan piscou.
— O quê?
Garwin ergueu o olhar.
— Você não jogou o repelente na água?
— Acho que jogou, sim — disse Arastine. — Não jogou, Thurstan?
O rapaz empalideceu.
— Eu… achei que alguém tinha jogado!
Cailynm girou no mesmo instante, correu até a lamparina azulada presa na lateral do convés.
— Thurstan! Isso devia estar na água desde que saímos da doca!
Ela soltou o gancho e arremessou o frasco. O vidro mergulhou com um estalo seco, e um brilho suave se espalhou sob o barco — uma névoa luminosa que ondulou sob as ondas. O mar pareceu reagir: as sombras que acompanhavam o casco se dispersaram rapidamente.
Garwin soltou o ar, o ombro rígido.
— Essa foi por pouco.
Thurstan coçou a nuca, sem graça.
— Infelizmente, ainda somos inexperientes…
— Por falar em inexperiência, onde vamos dormir? — perguntou Arastine, cruzando os braços.
— Pois é, amor. Eu não quero dormir lá naquele porto, com aqueles piratas — disse Cailynm.
O barco seguia embalado por ondas suaves. O golem girava a roda de pás num ritmo constante, o vapor azul se dissipando ao vento.
Garwin olhava o horizonte.
— Podemos atracar numa praia e acampar.
— Desde que não seja perto de piratas — disse Cailynm.
— Ou de plantas carnívoras — completou Thurstan, leve.
Garwin apenas sorriu, mantendo o leme firme.
— Mas antes de anoitecer, quero tentar pelo menos uma coleta. Só pra saber o que nos espera.
Ninguém discordou.
O barco saiu da enseada. O sol se escondia atrás das nuvens, e o reflexo dourado se dissolvia na superfície. O vento soprava frio, trazendo o cheiro distante de tempestade.
Garwin não soltou o leme.
— A maré tá subindo. Se quisermos sair da Baía do Relâmpago ainda com luz, é bom acelerar.
Thurstan girou uma das alavancas. O golem respondeu com um gemido metálico, soltando vapor azul pelas juntas.
— Você já disse isso antes. Não é a maré, é a hora da enchente. — Sorriu, confiante. — Mas fica tranquilo, ele aguenta. Devagar, mas aguenta.
Cailynm se apoiou na borda, o cabelo batendo no rosto.
— O ar mudou. — disse. — Tá mais pesado.
— E bonito — comentou Arastine, observando o reflexo do sol entre as rochas. — Nunca tinha visto o mar assim.
— Mas a sua cidade não era costeira? — perguntou Cailynm.
— Era.
Elas se calaram. O mar se abria diante deles — amplo, vivo, dourado nas bordas.
Garwin estendeu o mapa sobre o painel improvisado.
— Tá aqui. Agora vira à esquerda e segue a formação rochosa. Aí dá no portal. É isso mesmo, Thurstan?
O garoto apontou.
— É isso. Vamos contornar pela esquerda?
— Pelo menos é onde diz que fica o portal — respondeu Garwin. — Vamos por aí mesmo.
Thurstan assentiu e ajustou a direção.
— Se o mapa estiver certo, a gente chega lá antes do pôr do sol.
O barco seguiu o curso indicado. Depois de algum tempo, algo brilhou adiante — uma luz azulada nas ondas, desenhando um círculo perfeito.
A fenda girava devagar, pulsando. O mar subia ao redor, formando redemoinhos rasos.
Garwin estreitou os olhos.
— É o portal.
— Que droga… é selvagem — resmungou Arastine.
— Pensa bem, Arastine. Se a gente fizer dinheiro pra caramba, eu compro uma moldura. Só pra domesticar ele — debochou Thurstan.
— Para de falar besteira — retrucou ela.
Garwin fez sinal com a mão. O golem respondeu, e a roda de pás girou mais rápido, lançando espuma pelas bordas.
— Vamos atravessar. Segurem firme.
O barco entrou no vórtice. Por um instante, tudo se dissolveu — som, vento, luz. As chamas das lamparinas se apagaram, e as vozes se perderam dentro do rugido da água. Depois, o som voltou aos poucos, como se o mundo respirasse de novo.
O mar reapareceu, mas diferente.
O céu era azul-escuro, quase negro; as nuvens pesadas pareciam tocar o oceano. Relâmpagos riscavam o horizonte, e o ar cheirava a ferrugem.
— Pelos Cinco Santos… — murmurou Thurstan. — Isso é… lindo.
Ao longe, uma nuvem imensa descia até o mar — uma coluna de tempestade girando lentamente, rasgada por faíscas brancas.
Garwin manteve o olhar fixo.
— Aí está. A Zona de Trovões.
Cailynm se aproximou, os olhos brilhando.
— Se conseguirmos tirar o gás daqui, podemos encher barris em dias.
— Sim. É só conseguirmos sair vivos — disse Arastine.
O golem girava a roda com esforço. As pás batiam em ondas mais pesadas. As gaiolas vibravam — os peixes-inseto batiam as asas dentro d’água, emitindo lampejos azulados.
Thurstan olhou, fascinado.
— Estão agitados. Devem estar reagindo ao trovão.
— Ou chamando ele — disse Cailynm.
O barco seguiu. Só o som do mar e dos motores preenchia o ar.
Garwin quebrou o silêncio:
— Isso tudo é muito estranho.
— O que é estranho, amor? — perguntou Cailynm.
— Tudo.
— O quê, exatamente? — perguntou Thurstan.
— Se esse portal é tão perto… por que ninguém nunca explorou? — disse Garwin, ainda fitando a coluna colossal à frente.
A pergunta ficou suspensa. O trovão respondeu por todos.
Arastine manteve o olhar no horizonte.
— Porque pode ter alguma coisa escondida lá dentro — murmurou.
O vento ganhava força. As luzes da tempestade refletiam nos rostos do grupo, o brilho cortando o convés em flashes prateados.
Então Arastine falou de novo, sem virar o rosto.
— Eu conheço esse som — murmurou. — Me lembra a noite em que minha cidade caiu.
O grupo se entreolhou. O silêncio que veio depois foi pesado.
Ela continuou, a voz firme, mas distante:
— Quando as pessoas começaram a perder a fé, os sacerdotes se desesperaram. Tentaram reviver a devoção de qualquer forma. No fim, buscaram nos mortos o que já não encontravam nos vivos. — Respirou devagar. — Formaram um secto de necromantes e subjugaram a cidade.
Cailynm a olhou de lado, mas não disse nada. Thurstan baixou os olhos.
— Eles trocaram o domínio da fé pelo domínio do medo. Nós tentamos resistir… mas no fim, eu os deixei lá. — Ela parou. — Como posso não ser uma covarde?
O trovão respondeu antes de qualquer palavra.
Garwin observava a coluna negra crescer no horizonte, rasgada por relâmpagos.
— Você nunca tinha falado disso antes. — disse. — O que te fez tocar nesse assunto justo agora?
— Essa nuvem. Ela é igual à que aparece nos meus sonhos. — respondeu. — Sempre o mesmo pesadelo. Uma estátua erguida em minha homenagem. Eu a encarando de baixo, enquanto fujo no meio da tempestade.
Garwin manteve o olhar no mar.
— Eu não vejo isso como covardia — disse, baixo. — Às vezes, sobreviver é a única forma de continuar lutando.
Arastine não respondeu. O vento levantava alguns fios do cabelo dela, iluminados pelos relâmpagos distantes.
As pás do barco diminuíram o ritmo. As luzes das gaiolas cresceram em intensidade.
Uma descarga elétrica cruzou o céu — um traço branco que dividiu o horizonte em dois.
Garwin olhou para o grupo.
— Vamos?
Ninguém respondeu. O barco avançou em direção à coluna de trovões.
***
O vento cortava o topo das falésias. As nuvens, avermelhadas pelo fim da tarde, se acumulavam sobre a enseada.
Lá embaixo, o mar estava calmo, e o pequeno barco de Garwin já desaparecera há muito, engolido pela curva das rochas.
Dois homens observavam.
Um deles mantinha o capuz abaixado; o sobretudo escuro batia contra as pernas com o vento.
O outro, mais velho, apoiava-se num cajado curto de metal. O rosto, marcado por cicatrizes antigas, lembrava um mapa de sal e tempo.
— Então, eram eles. — disse o velho, a voz arrastada. — Achei que demorariam mais.
O homem de capuz não respondeu. Olhava o ponto onde o barco sumira — firme, imóvel.
— Você sabe o que vem agora, não sabe? — continuou o velho, um sorriso sem dentes abrindo-lhe o rosto. — O mar não deixa concorrência. O Korr vai sair pra caçar com o seu monstro.
O homem de capuz virou o rosto apenas o suficiente para que a rajada de ar revelasse parte da mandíbula — a sombra de um sorriso contido.
— Que ele venha. — murmurou.
O velho riu, um som rouco e breve.
— Você fala isso como se soubesse o que é morrer no mar.
— Eu já morri uma vez. — respondeu o de capuz, baixo. — O mar só esqueceu de me manter lá.
O vento cessou por um instante. Então, lá embaixo, algo mudou.
Um eco metálico rompeu o murmúrio das ondas — o estalo de correntes, o ranger de placas, o suspiro do Etherdoorium espalhando-se pelo ar.
Das sombras da caverna, o aeroplano remendado — uma fusão grotesca de dois outros — começou a emergir. Correntes se soltaram, estalando.
A proa deformada cuspiu vapor rosado, e as gaivotas fugiram em debandada.
A massa de madeira e ferro se ergueu, rangendo e tremendo. As soldas antigas brilharam como cicatrizes incandescentes.
O velho ergueu os olhos, o reflexo do metal tremulando neles.
— Viu? O monstro acordou.
O homem de capuz deu um passo à frente, o sobretudo abrindo-se ao vento como uma asa.
— Então a caçada começou.
Com um rugido de vapor, o aeroplano ascendeu, rompendo as nuvens.
A sombra colossal cruzou o mar — seguindo o mesmo rastro de luz onde o barco de Garwin havia se perdido.
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