Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 15: A Baía do Relâmpago

O grupo seguiu por um corredor estreito, o som das botas ecoando entre as paredes úmidas. Tochas espaçadas lançavam luz amarelada no chão irregular. Piratas encostavam no muro quando Draegan passava, desviando o olhar.

Garwin quebrou o silêncio.

— Thurstan me disse que o senhor tem lucrado bastante com a coleta do gás de trovão.

Draegan caminhava à frente, mãos cruzadas nas costas.

— Disse isso, foi?

— Disse. E que já teria até uma posição estável pra nós na sua frota. — Garwin não alterou o tom.

O pirata soltou um riso breve.

— Estável… essa palavra não existe no mar, capitão.

Thurstan baixou o olhar, fingindo ajustar o casaco.

Atrás deles, o corredor se alargava um pouco. Homens com tatuagens de bússolas e presilhas douradas pararam o trabalho para olhar o grupo. As conversas diminuíram, substituídas por murmúrios num dialeto áspero.

Cailynm sentiu as atenções pesarem.

— Estão dizendo o quê? — perguntou, em voz baixa.

Garwin respondeu sem mudar o tom:

— Coisas que você não gostaria de entender.

Um riso curto veio de um canto da passagem, mas se apagou rápido quando Draegan virou o rosto na direção. Bastou o olhar dele para que o som morresse.

Eles seguiram.

Cailynm trocou um olhar rápido com Arastine; as duas mantiveram o passo próximo de Garwin.

— Então o gás é real? — perguntou Cailynm, retomando a conversa, tentando disfarçar o desconforto.

— É. — respondeu Draegan. — Mas não é como o meu garoto descreveu, não.

Garwin acompanhava os seguia no mesmo ritmo.

— E o que você acha que o Thurstan descreveu?

Draegan inclinou a cabeça.

— Aposto que disse que o gás era um repelente natural de criaturas do mar. E que as famílias nobres estão pagando fortunas por ele.

Arastine virou o rosto, desconfiada.

— E, não é?

— A parte do repelente é. — respondeu Draegan, com um gesto curto. — Mas famílias nobres comprando… essa é boa.

Garwin não diminuiu a passada.

— Ele também falou que vem de peixes voadores, certo?

Draegan assentiu.

— Sim. Eles coletam o gás nas zonas tempestuosas e o condensam na água. Quando caem de volta no mar, o corpo libera um líquido instável — inflamável, volátil. Dá pra guardar em frascos, se tiver coragem.

O som das ondas começou a surgir pelas fendas das rochas. A luz das tochas tremulava, substituída por um brilho natural que vinha adiante.

Garwin olhou para o lado, onde a parede se abria em rachaduras.

— Então o produto é funcional, mas a rota é mortal… e mesmo assim tem quem compre. Thurstan não mentiu em nada.

— Não mentiu? — disse Draegan. — Desde que se contente em vender para piratas.

Thurstan tentou aliviar a tensão com um sorriso.

— Então o senhor me incentivou tudo isso só pra gente se tornar seus fornecedores, é isso?

Draegan desviou o olhar por um instante.

— Ingênuos. Desde que os Santos tomaram Latrixx, só piratas são loucos o bastante pra navegar.

Garwin parou, encostando uma das mãos na parede.

— Então o lugar não existe, como seu filho disse?

O pirata virou-se, o rosto iluminado por uma chama próxima.

— Eu disse isso por acaso? — Ele riu baixo. — O portal respira. Abre e fecha quando quer. O maior problema é a zona de tempestade em si. Mas existe.

Silêncio. O vento atravessava o túnel, trazendo o cheiro de sal e ferrugem.

Cailynm apertou o casaco no corpo.

— E quem entra lá dentro… volta?

Draegan pousou o olhar nela, sereno.

— Às vezes. Já viu como o mar fica em meio à tempestade?

Eles retomaram o passo. O chão começou a descer, e a luz das tochas foi substituída por um clarão avermelhado, vindo de baixo.

A cada curva, o ar ficava mais quente e úmido. Até que o corredor se abriu num salão gigantesco, moldado por séculos de erosão marítima. A água batia nas rochas logo abaixo, e o som das ondas ecoava pelas fendas.

Dezenas de aberturas no penhasco deixavam entrar o brilho do mar. Lá embaixo, um cais fervilhava de vida: tendas, ferreiros, vendedores de mapas e contrabandistas disputavam espaço entre cordas e caixotes. O cheiro de peixe salgado e pólvora se misturava ao som das correntes.

— Olha isso, Arastine. — Cailynm apontou para o cais.

Correntes pendiam das abóbadas, içando cargas. Homens gritavam ordens sobre o barulho das marés.

— Aquilo era um mercado de navegadores e piratas. um ecossistema inteiro sustentado pela ousadia de enfrentar o mar.

Draegan parou diante da imensidão. O vento fazia o casaco dele bater nas pernas.

— Se querem entender o que é o mar de verdade… comecem por aqui.

O ar ali era denso e salgado; o som das ondas subia pelas frestas do penhasco, misturado ao ruído das forjas e martelos.

Lamparinas pendiam em fileiras irregulares, iluminando o que parecia uma cidade escondida: barracas de lona, cais improvisados, ferreiros, vendedores e caixotes de carga. O cheiro constante de peixe, suor e pólvora dominava o ar.

Piratas andavam em todos os sentidos, alguns carregando redes, outros armas. Draegan seguia à frente, e os demais o acompanhavam. Onde ele passava, o caminho se abria — olhares abaixavam, vozes se calavam.

Thurstan manteve o passo próximo, as mãos presas no cinto.

— Eu lembrava desse lugar menor.

— Talvez porque tenha se expandido — disse Garwin.

Arastine olhou ao redor, desconfiada.

— Lugar simpático. Pena que é tão sujo quanto um covil de orc.

— Covil de orc? — murmurou Cailynm, também ficando para trás. — Acho que você está ofendendo os orcs.

Os risos se apagaram rápido quando mais uma vez perceberam os olhares. Frases em um idioma rude ecoavam entre as tendas.

Cailynm e Arastine trocaram olhares incertos.

— E aí, Garwin? O que esses caras estão dizendo? — perguntou Arastine, mas Garwin já estava longe.

Um pirata cruzou o caminho delas, olhando demais. Outro assobiou, rindo.

Cailynm fingiu ignorar, mas o maxilar travou.

— Quantos idiotas tem nesse lugar? — murmurou ela.

— Todos — respondeu Arastine. — É a fossa do submundo.

Cailynm lançou-lhe um olhar rápido.

— Fala baixo.

Um dos homens à frente riu alto e estendeu a mão.

O toque veio súbito, bruto, na bunda dela. Cailynm girou o corpo e empurrou o homem com força.

O pirata cambaleou um passo para trás, a surpresa estampada no rosto.

Garwin surgiu antes que ele abrisse a boca, sacando o pau de fogo primo num só movimento; o cano encostou sob o queixo do sujeito.

— Repete o que você fez — disse, a voz grave, controlada. — Vai. Repete.

O silêncio caiu como uma maré fria. Arastine levou a mão à espada, os olhos varrendo o entorno.

Draegan já vinha se aproximando.

O pirata tentou falar, mas a voz falhou.

Draegan o fitou — e a simples presença bastou para que todos ao redor se afastassem. Depois, veio o golpe: o dorso da mão abrindo o rosto do homem num som seco.

O sujeito caiu de joelhos, o sangue escorrendo do lábio.

Ninguém falou nada.

Cailynm ajeitou o casaco, os olhos fixos à frente.

Garwin baixou a arma, a respiração ainda pesada.

Draegan virou-se e retomou o passo, calado.

— Me desculpe, garota — disse ele, sem alterar o tom. — Isso nunca mais vai se repetir.

O grupo seguiu em silêncio.

Atrás deles, o mercado voltou a respirar: martelos, vozes e o som distante das ondas.

— Você sempre sabe fazer uma entrada, velho enferrujado — disse uma voz ao fundo.

A claridade aumentava conforme desciam. O ar cheirava a fumaça e peixe grelhado, quente e úmido. O som do mar vinha de perto — ondas batendo contra as rochas, misturadas ao chiado da gordura nas fogueiras.

O túnel se abriu em uma praça irregular, cercada por muros de pedra cobertos de musgo. No centro, um homem negro, largo de ombros e com um olho só, virava peixes e legumes sobre uma grelha enferrujada. O avental dele estava escurecido de gordura e sal.

— Esse é Korr. — disse Draegan, parando ao lado do fogo. — Cozinha melhor do que fala, mas fala o bastante pra encher o saco de qualquer homem.

Korr ergueu o queixo, o olho bom refletindo o fogo.

— Fala isso de quem salvou o seu traseiro da última vez.

— Devia me agradecer. — respondeu o pirata lendário. — Graças a isso, ganhou esse visual de pirata de verdade.

Garwin cruzou os braços.

— É com ele que vamos tratar?

— Com ele. — disse Draegan. — Se as coisas derem errado… me procure.

Sem mais palavras, o pai de Thurstan se afastou, o casaco tremulando no vento que entrava pelas fendas da caverna.

Korr virou o peixe na brasa e fez sinal para que se sentassem em torno do balcão de pedra. Bancos improvisados, feitos de barris virados, cercavam o local. Ao redor, piratas comiam em silêncio, alguns rindo entre goles de rum.

— Então… — disse Korr, limpando as mãos no avental. — Vieram saber do gás de trovão.

Garwin assentiu.

— Disseram que o senhor é o homem certo.

— Homem certo? — Korr riu. — Talvez o único ainda vivo pra falar disso.

Ele espetou um pedaço de peixe e soprou o vapor.

— A Baía do Relâmpago é um verdadeiro santuário. E não bastasse o formato natural que ela nos oferece, ao sul dessa enseada há um portal. Do outro lado, uma zona de tempestades: chuva sem fim, trovões constantes e um tipo de peixe-inseto que vive no meio desse caos. Essas criaturas engolem o ar carregado e criam dentro delas o gás. Quando cheias, liberam a substância em estado líquido.

Cailynm o observava, curiosa.

— Então é natural.

— Natural, sim. Mas instável como raiva de pirata. Fora da tempestade, evapora em instantes. Só mantém o estado líquido se for selado em vidro.

Thurstan se inclinou à frente.

— E o gás repele mesmo monstros marinhos?

— Deve até matar. — respondeu Korr. — Mas é o ouro líquido do mar. Sem isso, como poderíamos saquear? E eu sou o único comprador da região. Pretendo continuar assim.

Os piratas ao redor do balcão de pedra riram. O som das ondas preencheu o ar.

Arastine olhou ao redor, desconfiada.

— E ninguém mais tenta competir com você?

— Tentam. — disse ele. — Mas a Baía não gosta de ganância. Ela engole quem quer demais.

Korr tirou outro peixe da grelha e o pousou sobre um prato de lata.

— Vocês têm navio?

— Ainda não. — respondeu Garwin.

— Pois é o primeiro passo. — Korr se levantou devagar, o avental rangendo. — Tenho um barco velho ancorado ali fora. Não é bonito, nem rápido. Mas flutua. Se trabalharem direitinho, em breve poderão melhorar.

— Pode ser. — disse Garwin se levantando. — Viemos de longe para isso.

O ar cheirava a ferrugem e maresia. O grupo descia por uma caverna através de uma escada entalhada na pedra. O som das ondas batia nas paredes, abafado e constante.

Korr seguia à frente, o passo firme, a voz ecoando.

— Cuidado com o degrau. — disse, passando sob um arco de pedra.

A luz da caverna era difícil de se adaptar à visão. Tochas presas em colunas naturais refletiam na água que tomava metade do salão.

Lá estava a embarcação.

— O que é isso? — disse Arastine.

— Um aeroplano lixeiro de Jillar? — perguntou Thurstan.

— Se fosse isso, era luxo. — comentou Garwin, aproximando-se.

— É isso mesmo. — disse Korr, puxando-o por uma corda. — Só que virou barco.

Cailynm olhou o casco.

— Ele é... bem modificado.

Garwin passou a mão na lateral.

— Modificado é pouco. Isso aqui é uma colcha de remendos. Thurstan, olha isso.

Korr apertou o único olho.

— É verdade, o casco tá todo remendado. Placas de metal, madeira, cabos de cobre... e as velas-leme, uns trapos.

— Todo o sistema de levitação foi removido. — disse Korr, cruzando os braços. — No lugar, tem a cabine de operação e a roda de pás. Vê aquele golem de ferro ali? É ele que empurra tudo.

Garwin assentiu.

— Entendo. E a caçamba? Por que está inundada?

— Aí que fica o ouro. — Korr puxou uma corrente e mostrou as gaiolas.

Eles se aproximaram da água. Dentro das jaulas, peixes-inseto batiam as asas submersas, soltando lampejos azulados.

— Então é esse o seu “barco”? — disse Arastine.

— Barco não. — respondeu Korr, orgulhoso. — Obra de arte. Essa velha já sobreviveu a três tempestades e dois portais selvagens.

Garwin examinou o casco corroído.

— E ele aguenta bem?

— Se o mar quiser, sim. — Korr deu um meio sorriso. — E o mar gosta de mim.

Thurstan se inclinou sobre a borda.

— O mar gosta de você... mas e se ele não gostar da gente?

Korr riu baixo.

— Aí ele escolhe quem fica.

— Deixa eu explicar direito. — disse o cozinheiro. — Os peixes ficam submersos. Quando chegam na zona tempestuosa, eles respiram o ar da tormenta. O gás se condensa na água, vocês drenam o líquido e trocam. Cada ciclo vale um frasco.

Cailynm ajeitou o cabelo.

— E quanto tempo leva pra encher um frasco desses?

— Depende da sorte. E da coragem. — respondeu ele. — As zonas abrem e fecham quando querem. Mas essa já tá lá há mais de dez anos.

Garwin olhou o golem, que girava a roda devagar.

— Interessante até é... mas esse casco parece pedir socorro.

— Bobagem. — Korr deu um tapa no casco. — Essa velha aqui aguenta mais do que parece.

Arastine examinou o construto e a roda de pás.

— E quanto você quer por ela?

— Pelo conjunto todo, com o golem e as gaiolas? — Ele fez uma pausa. — Quinze mil moedas de ouro.

O silêncio caiu.

— Quinze mil? — repetiu Thurstan. — Por essa carcaça?

— Isso mesmo. — Korr manteve o tom firme. — E ainda tô sendo generoso.

Cailynm cruzou os braços.

— Com esse valor, dava pra comprar dois aeroplanos novos.

— Então comprem. — respondeu Korr. — Nenhum deles vai cruzar a Baía do Relâmpago e voltar inteiro.

Garwin desviou o olhar para o mar.

— E quanto vale um litro de gás trovão?

Korr sorriu.

— Na alta? Dá pra pagar esse barco com umas dez viagens.

Garwin olhou pros companheiros. Ninguém falou, mas o silêncio bastou.

Korr apoiou as mãos na borda da embarcação.

— Então? O que vai ser?

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