Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 14: Uncro, a Cidade Suspensa

O sol subia firme, refletindo nas águas esverdeadas que batiam contra os penhascos. O vento trazia sal, calor e o som grave das cordas estalando no alto.

O teleférico balançava devagar — uma estrutura de madeira antiga, sustentada por grossos cabos de cânhamo que se perdiam nas alturas.

— Isso aqui é mais resistente do que parece — disse Thurstan, observando o mecanismo girar. — As runas fazem um conjunto de rodas metálicas girar pelos cabos. Como o funcionamento é feito com dois Zig-Resil e um Etherdoorium, é praticamente infinito.

— Infinito até o metal enferrujar com a maresia — retrucou Garwin, olhando pela janela.

— Mas eles devem fazer manutenção de tempos em tempos — comentou Arastine, passando a mão pela parede da cabine.

— É o que eles querem que a gente acredite.

Cailynm apoiou o cotovelo no parapeito, o olhar voltado para baixo.

— E se essa coisa parar?

— Aí a gente reza. — Thurstan girava entre os dedos um pequeno conjunto de engrenagens portáteis que trazia consigo. — Dizem que isso não acontece desde a vez que um pirata tentou cortar um cabo.

Arastine mantinha os olhos nas falésias. O reflexo do sol se espalhava pela encosta à frente, e nela, a cidade de Uncro.

— Estamos chegando — disse ela. — A forma como as casas se encaixam nas paredes da montanha... parece um monte de ninhos.

Pilares de madeira e cordas cruzavam o ar em dezenas de direções, sustentando pontes, trapiches e guindastes. Aeroplanos de aparência e procedência duvidosas flutuavam presos por correntes, velas coloridas tremulando como bandeiras de guerra. Outros chegavam ou partiam, impulsionados por velas traseiras que batiam como foles.

— Verdade… — disse Cailynm, o olhar ainda na cidade. — Parece uma colmeia.

Garwin manteve-se junto ao vidro da cabine, os olhos presos num ponto. Um aeroplano menor, de velas negras, estava ancorado em uma plataforma discreta. A proa era alongada, com marcas de queimadura e remendos de corda grossa.

— Olha! É ele.

Thurstan se inclinou para o lado.

— O Chacal…

O som do nome ficou suspenso por um instante.

— Chacal... — repetiu Arastine, tocando a madeira da cabine com a ponta dos dedos.

— É um baita sem-vergonha — disse Thurstan, quando ela o interrompeu.

Arastine passou a mão no cinturão, sem tirar os olhos do navio.

— Poderíamos pegar aquele. — A voz saiu baixa. — Subir e partir antes que percebam.

Garwin ajustou o peso no apoio lateral.

— Roubar de quem rouba não é má ideia. O problema é o preço que vem depois.

Thurstan cruzou os braços, acompanhando o balanço leve da cabine.

— Ainda assim, é estranho ver esse cara aqui.

— Eu não vejo nada de estranho — disse Garwin, lançando um olhar rápido ao garoto. — São piratas. E aqui é um refúgio de... piratas, não?

O vento soprou mais forte. As cordas estalaram no alto enquanto o teleférico avançava rumo à sombra da montanha.

O veículo rangeu ao encostar na torre de atracação. As cordas vibraram quando travaram o movimento. O impacto sacudiu a cabine, espalhando o eco mágico pelos cabos suspensos.

O portão se abriu com um estalo. Calor, vento e cheiro de cânhamo vieram juntos.

A plataforma oscilava sob o peso das pessoas, madeira escura molhada de maresia. Homens com martelos batiam nos ganchos das correntes; mulheres empurravam carrinhos cheios de sucata. Acima, outras passarelas cruzavam o ar — umas de ferro, outras de corda e tábuas.

Aeroplanos ancorados balançavam nas alturas. Alguns soltavam vapor rosado; outros gotejavam um líquido escuro sobre o abismo. Bandeiras coloridas tremulavam entre mastros, presas por fios de cobre e fitas vermelhas.

Thurstan saltou primeiro e estendeu a mão.

— Cuidado, o chão escorrega.

Arastine recusou o gesto com um aceno.

— Eu sei me equilibrar.

— Só tô tentando ser gentil.

— Gentileza não combina com você — disse ela, descendo logo atrás.

Thurstan fez uma careta curta.

— Não sei se você sabe, mas aqui embaixo, até gentileza é contrabando.

Garwin pousou no assoalho por último. A madeira gemeu sob o peso das botas. Ele olhou ao redor, o casaco arrastando na água que escorria da plataforma.

— Tudo bem, o poeta. Agora, vamos sair dessa área de carga.

— Só um pouquinho — disse Thurstan, apontando para o penhasco. — A vista é bonita, não?

— É bonita, sim. Mas não é boa ideia a gente ficar aqui fora como se a gente fosse um bando de turista — respondeu Garwin.

Arastine riu de leve.

— Mas o que a gente é, afinal?

Eles avançaram pela passarela que levava ao centro da cidade suspensa. O barulho era constante — risadas, martelos, correntes. Em algum lugar, um sino batia sem ritmo, abafado pela fumaça.

Cailynm ergueu o rosto, observando as camadas de pontes acima.

— Quantos níveis tem isso?

— Uns dez, se contar os ilegais — respondeu Thurstan.

— Ué? Pensei que todos fossem ilegais — disse Garwin.

Mais adiante, o som mudou. Gritos. Não de trabalho — de briga. A multidão se concentrava numa plataforma circular mais abaixo, vozes e faíscas subindo pelo ar.

Cailynm parou por um instante, olhando o brilho avermelhado entre as cordas.

— O que é aquilo?

— Só mais um espetáculo — respondeu Thurstan, com um meio sorriso. — São piratas. Brigam por qualquer coisa.

O som vinha de baixo, misturado ao burburinho — gritos, risadas e o estalo de metal ecoando pelas camadas da cidade.

— Ali — apontou Thurstan.

O grupo se aproximou da beirada da plataforma.

Dali, a vista descia por dezenas de níveis até uma praça suspensa. No andar inferior, dois bandos se encaravam de frente, separados por uma passarela coberta de fumaça.

— Que bagunça é essa? — perguntou Cailynm, apoiando as mãos no corrimão.

— Disputa, pelo que parece — respondeu Thurstan. — Se não estivessem fazendo isso, não seriam quem são.

Garwin franziu o cenho.

— Disputa de quê?

— Vento, saque, passagem... qualquer coisa que dê lucro.

Lá embaixo, os dois bandos correram um contra o outro. O choque veio com o som de sabres se encontrando, faíscas riscando o ar.

Arastine inclinou-se sobre a grade.

— Então isso aqui pode virar um campo de guerra a qualquer instante?

— Sim. Aqui, as coisas são instáveis por natureza. — disse Thurstan.

Dois piratas de um dos lados subiram num patamar improvisado e começaram a atirar com paus de fogo primo contra o outro bando. Cada disparo fazia a estrutura tremer.

Cailynm estreitou os olhos.

— Olha! Tem um conjurando.

— Espetáculo — respondeu Thurstan. — Vamos ver no que dá.

O conjurador do outro bando mordeu o pulso, espalhando sangue no ar. O sangue virou vapor e ficou vermelho; o chão vibrou.

Os disparos se detiveram no ar e voltaram contra os dois atiradores, atingindo-os no peito. Os corpos despencaram pelo penhasco abaixo.

Garwin se escorou no parapeito precário.

— Ainda não acabou.

Um dos piratas ergueu o braço; runas azuis giraram ao redor da mão. Os tiros que ricochetearam e atingiram os atiradores se voltaram mais uma vez contra o grupo rival.

— Olha o que ele tá fazendo. — disse Thurstan, em tom baixo. — Espelho de feitiço.

O clarão azul se espalhou pela praça. A multidão vibrou, batendo nos tambores de ferro.

— A plateia tá adorando — comentou Arastine.

Garwin se afastou meio passo da grade.

— É, mas isso tá saindo do controle.

— Ele tá conjurando uma magia de rancor — disse Cailynm. — Sacrifica os próprios pra causar mais dano.

O ar encheu-se de fumaça, nublando a visão. Lá embaixo, o chão rachado começou a ceder. Um aeroplano, ancorado mais à frente, soltou as amarras.

— O que eles vão fazer com aquele aeroplano? — perguntou Arastine.

— E você ainda pergunta? — disse Thurstan. — É o que chamam de saída estilosa.

O aeroplano subiu de lado, arrastando cabos. Piratas escalavam pelas cordas enquanto outros atiravam paus de fogo primo das pontes. Faíscas voavam.

— Isso vai dar problema — disse Cailynm.

— Sempre dá — respondeu Thurstan.

O aeroplano se ergueu o bastante pra sumir na névoa. Um estrondo veio logo depois, abafado e distante.

A multidão gritou mais alto.

Garwin virou-se, ajustando a alça do macacão.

— Chega. Vamos sair daqui antes que sobre pra nós.

Thurstan olhou por mais um segundo e assentiu.

— Sim. Boa ideia.

O grupo recuou da beirada. O som dos gritos continuava ecoando entre as torres.

— O caos é o melhor manto — murmurou Thurstan, antes de seguirem em silêncio, deixando o tumulto para trás.

Depois de caminhar um pouco, o garoto os conduziu até casa sem teto e afastou uma lona rasgada. Por trás dela, uma escada de ferro coberta de musgo descia para as entranhas da montanha.

— Por aqui. — disse, prendendo o casaco amarelo na cintura. — Essa entrada vai nos levar até o outro lado.

Garwin observou o buraco e franziu o cenho.

— Isso parece um esgoto.

— Até parece que uma cidade como essa teria esse luxo. — respondeu Thurstan, começando a descer.

A escada enferrujada rangia, molhada pelo vapor quente que subia. Lamparinas mágicas, presas às paredes, oscilavam em tons amarelados.

— Esse vapor todo… — Arastine passou a mão pela parede. — Essa montanha é vulcânica, Thurstan?

— Acho que não. Mas talvez tenha um vulcão embaixo d’água aqui perto.

No fim da escada, o corredor se estreitava em pedra úmida. Arcos de ferro enferrujado sustentavam o teto baixo. A água pingava ritmada, e o ar tinha gosto de ferrugem.

— Provavelmente esse vapor vem da água que escorre lá de cima. — disse Cailynm.

— Como assim? — perguntou Arastine, com a mão ainda encostada no musgo, enquanto dois homens mal-encarados passaram, fitando-os de cima a baixo.

— Água que vem de cima, Arastine. — Cailynm falou, observando algumas mulheres puxando caixas em um carrinho de mão.

— Acho que eu entendi. — disse Garwin, olhando para a parede com o nariz franzido.

— Ainda não entendi. — murmurou Thurstan, enquanto passava por dois sujeitos que trocavam moedas.

— Quando o pessoal lá de cima faz as necessidades… onde você acha que vai parar? — perguntou Cailynm.

Arastine tirou a mão da parede num pulo.

— Ai! Que nojo!

— Afinal, que lugar é esse que você nos trouxe, Thurstan? — perguntou Cailynm, observando a passagem.

— Os túneis da Baía. — respondeu ele. — Se a gente não se perder, chegamos às falésias. Lá onde meu pai está.

Arastine limpou a mão suja de limo na túnica.

— Parece um formigueiro.

— Sim. Só que aqui cada formiga tem pelo menos uma faca. — completou Thurstan.

Os túneis se ramificavam em todas as direções. Algumas curvas tinham tochas; outras, lamparinas presas por fios de cobre. Num vão maior, barracas improvisadas ocupavam o espaço: tecidos pendendo das paredes, bancadas de ferro, e o cheiro de sangue seco misturado à maresia.

Um homem vendia lâminas sobre uma tábua rachada. Outro trocava moedas por runas quebradas. Uma mulher contava paus de fogo primo. Ninguém falava — só o som das gotas preenchia o ar.

Garwin diminuiu o passo.

— Isso tá ficando estranho. — Puxou Cailynm pelo braço. — Tem certeza que é seguro?

— Claro que não. — disse Thurstan.

Arastine tocou o cabo da espada, o olhar firme.

— E se for uma emboscada?

Thurstan sorriu de canto.

— Se mostrar medo, aí sim te pegam.

Cailynm o empurrou de leve.

— Então fala menos, amor. Vamos fingir que somos deles também.

Mais à frente, o corredor se abriu. O ar ficou frio e parado. Quatro figuras pálidas ocupavam o centro da passagem — roupas limpas demais, olhos de âmbar que refletiam a luz. Um homem de barba rala empurrou uma caixa e a abriu: dentro, frascos com líquido vermelho, tampados com cera escura.

— Não é o melhor tipo de sangue, mas é isso ou torpor. — disse uma das figuras pálidas, examinando o frasco.

— É, mas vocês me devem da última vez. — respondeu o homem. — Sem dinheiro, sem sangue.

O grupo passou. As figuras os acompanharam com o olhar até que o som do gotejar voltou a preencher o túnel.

Arastine ajeitou o manto.

— Vampiros.

— Não encara. — murmurou Thurstan. — Eles notam.

O caminho seguia em declive. O teto ficava mais baixo a cada curva. Raízes desciam das fendas, pingando sobre as botas. A luz rareava, e o ar se adensava.

Garwin ergueu o olhar.

— Quanto mais fundo, mais quente.

— Ou mais vivo. — respondeu Thurstan, ajustando o capuz.

Cailynm desviou de alguns homens que subiam com caixas nas costas. Um deles esbarrou nela, mas ninguém disse nada.

Arastine olhou pra trás.

— Eles tão experimentando a gente.

— Tão procurando fraqueza. — disse Thurstan. — Ninguém confia em ninguém.

O túnel fez uma curva longa. As tochas se apagavam aos poucos, e o som do gotejar foi substituído por um murmúrio profundo, como se viesse das pedras.

Garwin tomou uma das últimas tochas do caminho e olhou em volta.

— Isso aqui tá ficando apertado demais.

— Continua. — disse Thurstan. — O caminho é escuro, mas tenho certeza de que é por aqui.

— Afinal, quantas vezes você veio nessa Baía do Relâmpago, Thurstan? — perguntou Cailynm.

— Uma vez. Por quê?

O chão começou a descer em curva. A chama vacilava, projetando sombras que se moviam nas paredes. Cada respiração saía visível, lenta, branca.

— Isso explica tudo. — murmurou Arastine, suspirando.

O som seguinte foi só o eco dos passos desaparecendo na escuridão.

— Tá dizendo que eu me perdi? — perguntou Thurstan.

O ar ficou mais frio. O som do murmúrio das pedras deu lugar a um sopro constante.

— De jeito nenhum. — retrucou Arastine. — Foi só impressão sua.

Garwin ergueu a tocha; o fogo vacilava.

— Isso tá virando uma viagem sem fim.

— Continua. — disse Thurstan, em voz baixa. — Já tô sentindo o vento.

Cailynm ajeitou o capuz, o rosto iluminado pela chama trêmula.

— Vento, aqui embaixo?

— Do mar. — respondeu ele. — Estamos perto.

O túnel se alargou aos poucos, até que a parede cedeu num arco natural. O grupo saiu para uma abertura ampla. O vento entrou de súbito, frio, e a tocha quase se apagou.

Lá fora, o mundo se abria em um penhasco sobre o oceano. O sol da tarde recortava o horizonte, e abaixo, a enseada fervia em fogo e fumaça. Três navios piratas disparavam contra um quarto, que estava encurralado entre as pedras. O estalar dos canhões reverberava pelas falésias.

Cailynm recuou um passo.

— O que é aquilo?

Thurstan apertou os olhos para o brilho das chamas.

— Outro ataque… piratas contra piratas.

Garwin se apoiou na parede, o olhar fixo nas luzes que explodiam no mar.

— Caramba, esses piratas tão sempre brigando. Eu não sabia que navio podia soltar faísca assim.

— Acho que não é faísca. — disse Arastine, levantando um dedo até ouvido. — É magia?

— Não. — respondeu uma voz atrás deles. — É pólvora.

O grupo se virou.

Um homem alto se aproximava, o casaco escuro aberto pelo vento, cabelos grisalhos presos por uma faixa vermelha. O rosto trazia cicatrizes antigas e um olhar sereno, firme, de quem já viu demais. Atrás dele, vinham piratas armados, em silêncio.

Thurstan empalideceu.

— Pai.

O homem parou a poucos passos, as mãos cruzadas nas costas.

— Bem-vindo de volta, filho. — disse com um meio sorriso. — E pelo jeito, trouxe companhia.

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