Volume 2
Capítulo 14: Uncro, a Cidade Suspensa
O sol subia firme, refletindo nas águas esverdeadas que batiam contra os penhascos. O vento trazia sal, calor e o som grave das cordas estalando no alto.
O teleférico balançava devagar — uma estrutura de madeira antiga, sustentada por grossos cabos de cânhamo que se perdiam nas alturas.
— Isso aqui é mais resistente do que parece — disse Thurstan, observando o mecanismo girar. — As runas fazem um conjunto de rodas metálicas girar pelos cabos. Como o funcionamento é feito com dois Zig-Resil e um Etherdoorium, é praticamente infinito.
— Infinito até o metal enferrujar com a maresia — retrucou Garwin, olhando pela janela.
— Mas eles devem fazer manutenção de tempos em tempos — comentou Arastine, passando a mão pela parede da cabine.
— É o que eles querem que a gente acredite.
Cailynm apoiou o cotovelo no parapeito, o olhar voltado para baixo.
— E se essa coisa parar?
— Aí a gente reza. — Thurstan girava entre os dedos um pequeno conjunto de engrenagens portáteis que trazia consigo. — Dizem que isso não acontece desde a vez que um pirata tentou cortar um cabo.
Arastine mantinha os olhos nas falésias. O reflexo do sol se espalhava pela encosta à frente, e nela, a cidade de Uncro.
— Estamos chegando — disse ela. — A forma como as casas se encaixam nas paredes da montanha... parece um monte de ninhos.
Pilares de madeira e cordas cruzavam o ar em dezenas de direções, sustentando pontes, trapiches e guindastes. Aeroplanos de aparência e procedência duvidosas flutuavam presos por correntes, velas coloridas tremulando como bandeiras de guerra. Outros chegavam ou partiam, impulsionados por velas traseiras que batiam como foles.
— Verdade… — disse Cailynm, o olhar ainda na cidade. — Parece uma colmeia.
Garwin manteve-se junto ao vidro da cabine, os olhos presos num ponto. Um aeroplano menor, de velas negras, estava ancorado em uma plataforma discreta. A proa era alongada, com marcas de queimadura e remendos de corda grossa.
— Olha! É ele.
Thurstan se inclinou para o lado.
— O Chacal…
O som do nome ficou suspenso por um instante.
— Chacal... — repetiu Arastine, tocando a madeira da cabine com a ponta dos dedos.
— É um baita sem-vergonha — disse Thurstan, quando ela o interrompeu.
Arastine passou a mão no cinturão, sem tirar os olhos do navio.
— Poderíamos pegar aquele. — A voz saiu baixa. — Subir e partir antes que percebam.
Garwin ajustou o peso no apoio lateral.
— Roubar de quem rouba não é má ideia. O problema é o preço que vem depois.
Thurstan cruzou os braços, acompanhando o balanço leve da cabine.
— Ainda assim, é estranho ver esse cara aqui.
— Eu não vejo nada de estranho — disse Garwin, lançando um olhar rápido ao garoto. — São piratas. E aqui é um refúgio de... piratas, não?
O vento soprou mais forte. As cordas estalaram no alto enquanto o teleférico avançava rumo à sombra da montanha.
O veículo rangeu ao encostar na torre de atracação. As cordas vibraram quando travaram o movimento. O impacto sacudiu a cabine, espalhando o eco mágico pelos cabos suspensos.
O portão se abriu com um estalo. Calor, vento e cheiro de cânhamo vieram juntos.
A plataforma oscilava sob o peso das pessoas, madeira escura molhada de maresia. Homens com martelos batiam nos ganchos das correntes; mulheres empurravam carrinhos cheios de sucata. Acima, outras passarelas cruzavam o ar — umas de ferro, outras de corda e tábuas.
Aeroplanos ancorados balançavam nas alturas. Alguns soltavam vapor rosado; outros gotejavam um líquido escuro sobre o abismo. Bandeiras coloridas tremulavam entre mastros, presas por fios de cobre e fitas vermelhas.
Thurstan saltou primeiro e estendeu a mão.
— Cuidado, o chão escorrega.
Arastine recusou o gesto com um aceno.
— Eu sei me equilibrar.
— Só tô tentando ser gentil.
— Gentileza não combina com você — disse ela, descendo logo atrás.
Thurstan fez uma careta curta.
— Não sei se você sabe, mas aqui embaixo, até gentileza é contrabando.
Garwin pousou no assoalho por último. A madeira gemeu sob o peso das botas. Ele olhou ao redor, o casaco arrastando na água que escorria da plataforma.
— Tudo bem, o poeta. Agora, vamos sair dessa área de carga.
— Só um pouquinho — disse Thurstan, apontando para o penhasco. — A vista é bonita, não?
— É bonita, sim. Mas não é boa ideia a gente ficar aqui fora como se a gente fosse um bando de turista — respondeu Garwin.
Arastine riu de leve.
— Mas o que a gente é, afinal?
Eles avançaram pela passarela que levava ao centro da cidade suspensa. O barulho era constante — risadas, martelos, correntes. Em algum lugar, um sino batia sem ritmo, abafado pela fumaça.
Cailynm ergueu o rosto, observando as camadas de pontes acima.
— Quantos níveis tem isso?
— Uns dez, se contar os ilegais — respondeu Thurstan.
— Ué? Pensei que todos fossem ilegais — disse Garwin.
Mais adiante, o som mudou. Gritos. Não de trabalho — de briga. A multidão se concentrava numa plataforma circular mais abaixo, vozes e faíscas subindo pelo ar.
Cailynm parou por um instante, olhando o brilho avermelhado entre as cordas.
— O que é aquilo?
— Só mais um espetáculo — respondeu Thurstan, com um meio sorriso. — São piratas. Brigam por qualquer coisa.
O som vinha de baixo, misturado ao burburinho — gritos, risadas e o estalo de metal ecoando pelas camadas da cidade.
— Ali — apontou Thurstan.
O grupo se aproximou da beirada da plataforma.
Dali, a vista descia por dezenas de níveis até uma praça suspensa. No andar inferior, dois bandos se encaravam de frente, separados por uma passarela coberta de fumaça.
— Que bagunça é essa? — perguntou Cailynm, apoiando as mãos no corrimão.
— Disputa, pelo que parece — respondeu Thurstan. — Se não estivessem fazendo isso, não seriam quem são.
Garwin franziu o cenho.
— Disputa de quê?
— Vento, saque, passagem... qualquer coisa que dê lucro.
Lá embaixo, os dois bandos correram um contra o outro. O choque veio com o som de sabres se encontrando, faíscas riscando o ar.
Arastine inclinou-se sobre a grade.
— Então isso aqui pode virar um campo de guerra a qualquer instante?
— Sim. Aqui, as coisas são instáveis por natureza. — disse Thurstan.
Dois piratas de um dos lados subiram num patamar improvisado e começaram a atirar com paus de fogo primo contra o outro bando. Cada disparo fazia a estrutura tremer.
Cailynm estreitou os olhos.
— Olha! Tem um conjurando.
— Espetáculo — respondeu Thurstan. — Vamos ver no que dá.
O conjurador do outro bando mordeu o pulso, espalhando sangue no ar. O sangue virou vapor e ficou vermelho; o chão vibrou.
Os disparos se detiveram no ar e voltaram contra os dois atiradores, atingindo-os no peito. Os corpos despencaram pelo penhasco abaixo.
Garwin se escorou no parapeito precário.
— Ainda não acabou.
Um dos piratas ergueu o braço; runas azuis giraram ao redor da mão. Os tiros que ricochetearam e atingiram os atiradores se voltaram mais uma vez contra o grupo rival.
— Olha o que ele tá fazendo. — disse Thurstan, em tom baixo. — Espelho de feitiço.
O clarão azul se espalhou pela praça. A multidão vibrou, batendo nos tambores de ferro.
— A plateia tá adorando — comentou Arastine.
Garwin se afastou meio passo da grade.
— É, mas isso tá saindo do controle.
— Ele tá conjurando uma magia de rancor — disse Cailynm. — Sacrifica os próprios pra causar mais dano.
O ar encheu-se de fumaça, nublando a visão. Lá embaixo, o chão rachado começou a ceder. Um aeroplano, ancorado mais à frente, soltou as amarras.
— O que eles vão fazer com aquele aeroplano? — perguntou Arastine.
— E você ainda pergunta? — disse Thurstan. — É o que chamam de saída estilosa.
O aeroplano subiu de lado, arrastando cabos. Piratas escalavam pelas cordas enquanto outros atiravam paus de fogo primo das pontes. Faíscas voavam.
— Isso vai dar problema — disse Cailynm.
— Sempre dá — respondeu Thurstan.
O aeroplano se ergueu o bastante pra sumir na névoa. Um estrondo veio logo depois, abafado e distante.
A multidão gritou mais alto.
Garwin virou-se, ajustando a alça do macacão.
— Chega. Vamos sair daqui antes que sobre pra nós.
Thurstan olhou por mais um segundo e assentiu.
— Sim. Boa ideia.
O grupo recuou da beirada. O som dos gritos continuava ecoando entre as torres.
— O caos é o melhor manto — murmurou Thurstan, antes de seguirem em silêncio, deixando o tumulto para trás.
Depois de caminhar um pouco, o garoto os conduziu até casa sem teto e afastou uma lona rasgada. Por trás dela, uma escada de ferro coberta de musgo descia para as entranhas da montanha.
— Por aqui. — disse, prendendo o casaco amarelo na cintura. — Essa entrada vai nos levar até o outro lado.
Garwin observou o buraco e franziu o cenho.
— Isso parece um esgoto.
— Até parece que uma cidade como essa teria esse luxo. — respondeu Thurstan, começando a descer.
A escada enferrujada rangia, molhada pelo vapor quente que subia. Lamparinas mágicas, presas às paredes, oscilavam em tons amarelados.
— Esse vapor todo… — Arastine passou a mão pela parede. — Essa montanha é vulcânica, Thurstan?
— Acho que não. Mas talvez tenha um vulcão embaixo d’água aqui perto.
No fim da escada, o corredor se estreitava em pedra úmida. Arcos de ferro enferrujado sustentavam o teto baixo. A água pingava ritmada, e o ar tinha gosto de ferrugem.
— Provavelmente esse vapor vem da água que escorre lá de cima. — disse Cailynm.
— Como assim? — perguntou Arastine, com a mão ainda encostada no musgo, enquanto dois homens mal-encarados passaram, fitando-os de cima a baixo.
— Água que vem de cima, Arastine. — Cailynm falou, observando algumas mulheres puxando caixas em um carrinho de mão.
— Acho que eu entendi. — disse Garwin, olhando para a parede com o nariz franzido.
— Ainda não entendi. — murmurou Thurstan, enquanto passava por dois sujeitos que trocavam moedas.
— Quando o pessoal lá de cima faz as necessidades… onde você acha que vai parar? — perguntou Cailynm.
Arastine tirou a mão da parede num pulo.
— Ai! Que nojo!
— Afinal, que lugar é esse que você nos trouxe, Thurstan? — perguntou Cailynm, observando a passagem.
— Os túneis da Baía. — respondeu ele. — Se a gente não se perder, chegamos às falésias. Lá onde meu pai está.
Arastine limpou a mão suja de limo na túnica.
— Parece um formigueiro.
— Sim. Só que aqui cada formiga tem pelo menos uma faca. — completou Thurstan.
Os túneis se ramificavam em todas as direções. Algumas curvas tinham tochas; outras, lamparinas presas por fios de cobre. Num vão maior, barracas improvisadas ocupavam o espaço: tecidos pendendo das paredes, bancadas de ferro, e o cheiro de sangue seco misturado à maresia.
Um homem vendia lâminas sobre uma tábua rachada. Outro trocava moedas por runas quebradas. Uma mulher contava paus de fogo primo. Ninguém falava — só o som das gotas preenchia o ar.
Garwin diminuiu o passo.
— Isso tá ficando estranho. — Puxou Cailynm pelo braço. — Tem certeza que é seguro?
— Claro que não. — disse Thurstan.
Arastine tocou o cabo da espada, o olhar firme.
— E se for uma emboscada?
Thurstan sorriu de canto.
— Se mostrar medo, aí sim te pegam.
Cailynm o empurrou de leve.
— Então fala menos, amor. Vamos fingir que somos deles também.
Mais à frente, o corredor se abriu. O ar ficou frio e parado. Quatro figuras pálidas ocupavam o centro da passagem — roupas limpas demais, olhos de âmbar que refletiam a luz. Um homem de barba rala empurrou uma caixa e a abriu: dentro, frascos com líquido vermelho, tampados com cera escura.
— Não é o melhor tipo de sangue, mas é isso ou torpor. — disse uma das figuras pálidas, examinando o frasco.
— É, mas vocês me devem da última vez. — respondeu o homem. — Sem dinheiro, sem sangue.
O grupo passou. As figuras os acompanharam com o olhar até que o som do gotejar voltou a preencher o túnel.
Arastine ajeitou o manto.
— Vampiros.
— Não encara. — murmurou Thurstan. — Eles notam.
O caminho seguia em declive. O teto ficava mais baixo a cada curva. Raízes desciam das fendas, pingando sobre as botas. A luz rareava, e o ar se adensava.
Garwin ergueu o olhar.
— Quanto mais fundo, mais quente.
— Ou mais vivo. — respondeu Thurstan, ajustando o capuz.
Cailynm desviou de alguns homens que subiam com caixas nas costas. Um deles esbarrou nela, mas ninguém disse nada.
Arastine olhou pra trás.
— Eles tão experimentando a gente.
— Tão procurando fraqueza. — disse Thurstan. — Ninguém confia em ninguém.
O túnel fez uma curva longa. As tochas se apagavam aos poucos, e o som do gotejar foi substituído por um murmúrio profundo, como se viesse das pedras.
Garwin tomou uma das últimas tochas do caminho e olhou em volta.
— Isso aqui tá ficando apertado demais.
— Continua. — disse Thurstan. — O caminho é escuro, mas tenho certeza de que é por aqui.
— Afinal, quantas vezes você veio nessa Baía do Relâmpago, Thurstan? — perguntou Cailynm.
— Uma vez. Por quê?
O chão começou a descer em curva. A chama vacilava, projetando sombras que se moviam nas paredes. Cada respiração saía visível, lenta, branca.
— Isso explica tudo. — murmurou Arastine, suspirando.
O som seguinte foi só o eco dos passos desaparecendo na escuridão.
— Tá dizendo que eu me perdi? — perguntou Thurstan.
O ar ficou mais frio. O som do murmúrio das pedras deu lugar a um sopro constante.
— De jeito nenhum. — retrucou Arastine. — Foi só impressão sua.
Garwin ergueu a tocha; o fogo vacilava.
— Isso tá virando uma viagem sem fim.
— Continua. — disse Thurstan, em voz baixa. — Já tô sentindo o vento.
Cailynm ajeitou o capuz, o rosto iluminado pela chama trêmula.
— Vento, aqui embaixo?
— Do mar. — respondeu ele. — Estamos perto.
O túnel se alargou aos poucos, até que a parede cedeu num arco natural. O grupo saiu para uma abertura ampla. O vento entrou de súbito, frio, e a tocha quase se apagou.
Lá fora, o mundo se abria em um penhasco sobre o oceano. O sol da tarde recortava o horizonte, e abaixo, a enseada fervia em fogo e fumaça. Três navios piratas disparavam contra um quarto, que estava encurralado entre as pedras. O estalar dos canhões reverberava pelas falésias.
Cailynm recuou um passo.
— O que é aquilo?
Thurstan apertou os olhos para o brilho das chamas.
— Outro ataque… piratas contra piratas.
Garwin se apoiou na parede, o olhar fixo nas luzes que explodiam no mar.
— Caramba, esses piratas tão sempre brigando. Eu não sabia que navio podia soltar faísca assim.
— Acho que não é faísca. — disse Arastine, levantando um dedo até ouvido. — É magia?
— Não. — respondeu uma voz atrás deles. — É pólvora.
O grupo se virou.
Um homem alto se aproximava, o casaco escuro aberto pelo vento, cabelos grisalhos presos por uma faixa vermelha. O rosto trazia cicatrizes antigas e um olhar sereno, firme, de quem já viu demais. Atrás dele, vinham piratas armados, em silêncio.
Thurstan empalideceu.
— Pai.
O homem parou a poucos passos, as mãos cruzadas nas costas.
— Bem-vindo de volta, filho. — disse com um meio sorriso. — E pelo jeito, trouxe companhia.
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