Volume 2
Capítulo 13: Eu Não Sou Todo Mundo
O terreno cedeu num estalo seco, e o grupo despencou alguns metros. O impacto foi amortecido por um colchão de folhas largas e molhadas. A luz filtrava em colunas verdes, úmida e imóvel.
— Todos inteiros? — perguntou Garwin, ajeitando o bastão descarregado no coldre lateral.
— Só o orgulho amassado — respondeu Thurstan, limpando lama do rosto.
— Como assim? — perguntou Arastine, ainda olhando para cima, a espada em punho.
— “Como assim”? — remendou ele. — Caí de cara no lodo.
Garwin riu. Cailynm deu um cutucão nele enquanto ela e Thurstan recebiam um pau de fogo primo cada.
Cailynm se levantou devagar, o olhar girando ao redor.
— Que lugar é esse…?
— Tanto faz — disse Garwin, olhando para cima. — O sol tá pra lá. Vamos. O sul é pra cá.
Arastine chutou uma das folhas. A planta era espessa, quase carnuda, e soltava um vapor doce.
— Pelo aspecto estamos nas partes mais profundas da selva. Esse tipo cresce onde o sol mal chega.
Um estampido ecoou acima. O grupo se abaixou instintivamente quando o disparo faiscou no solo, levantando lama por todo lado.
— Droga — rosnou Thurstan. — Tão atirando de cima!
Garwin ergueu o olhar para o barranco. Silhuetas se moviam entre os troncos.
— De baixo que não ia ser, né?
Cailynm ajoelhou, apoiando o bastão no ombro de Garwin e mirando.
— Pronto!
— Espera o clarão, amor. — Ele ergueu a mão, firme. Quando o brilho azul cruzou o ar, gritou: — Agora!
O disparo riscou o verde e atingiu uma sombra no alto. O corpo caiu entre cipós e raízes. Thurstan avançou, atirando também; o pau de fogo primo soltava labaredas curtas e quentes.
— Dois a menos! — gritou ele.
— Continua o movimento! — Garwin puxou Cailynm pelo braço, desviando de outro tiro. — Se ficarmos parados, viramos alvo!
Eles seguiram por uma fenda estreita, o chão cada vez mais mole. O ar cheirava a seiva e ferrugem.
Arastine, na frente, afastou um esqueleto humano para abrir passagem.
— Eles não vão descer — disse, sem fôlego. — Devem saber o que tem aqui embaixo.
Garwin olhou por cima do ombro. — O quê?
Ela não respondeu. Apenas encarou o solo, onde as folhas tremiam com um movimento sutil — um respirar que não vinha do vento.
Cailynm franziu o cenho.
— Vocês sentiram isso?
Thurstan chutou o chão, irritado.
— Isso o quê?
O solo respondeu com um estalo profundo. As raízes se mexeram. Um dos talos subiu, grosso como um braço humano, pontiagudo como uma lança.
— Recuem! — gritou Arastine, a espada saindo da bainha num lampejo.
O tentáculo atravessou o espaço onde Garwin estava um momento antes. Ele rolou para o lado e disparou o bastão — a descarga etérea dilacerou o talo, que recuou, soltando um ruído rouco.
Mais dois emergiram, chicoteando o ar. Um deles atingiu uma árvore, partindo o tronco ao meio. Fragmentos de folhas caíram sobre eles.
— Fica junto! — gritou Garwin. — Thurstan, fogo rápido! Mira no centro!
— No quê?! —
— Ali! —
Os disparos se alternaram com o zumbido quente das essências. Garwin e Thurstan derrubaram um deles. Arastine cortava os que chegavam perto; Cailynm recarregava os bastões de Garwin com movimentos rápidos.
O ar se encheu de calor, fumaça e cheiro de seiva queimada.
Garwin ergueu o olhar — o solo inteiro pulsava, como se algo enorme respirasse sob a terra.
— Isso não é uma planta comum — disse ele.
A selva respondeu com outro rugido surdo, profundo, como se o chão tivesse voz.
As folhas tremiam. O chão respirava sob eles. Dos veios encharcados de seiva, novos talos emergiam, afiando-se como lanças.
— Thurstan, Cailynm! Padrão alternado! — gritou Garwin, a voz firme no meio do estrondo.
O garoto disparou. O clarão azul riscou o ar. Cailynm pegou outro bastão e atirou em seguida. A sequência iluminava o breu em rajadas curtas e quentes. Arastine cortava os tentáculos que vinham pela lateral — lâmina contra fibra viva, cada estalo acompanhado de respingos dourados.
O chão tremeu. Um tronco partiu ao meio. A água acumulada nas folhas caiu como chuva grossa.
— Amor! — gritou Cailynm, passando-lhe um bastão novo.
Ele pegou e girou o corpo, mirando no centro do emaranhado. O disparo abriu um buraco num tentáculo próximo. Um grito gutural ecoou sob a terra.
Por um instante, o grupo avançou.
Enquanto isso, um dos talos se ergueu atrás deles — rápido e afiado. Atingiu Thurstan com força, rasgando sua jaqueta e espalhando sangue por todos os lados. Arastine cortou o tentáculo, mas foi arremessada para trás por outro golpe na retaguarda, caindo em meio à vegetação rasteira.
— Arastine! — Garwin correu, mas ela já se levantava, a espada pronta.
Outro talo emergiu, cortando o espaço entre ela e o grupo. A distância cresceu num instante.
— Vai! — gritou ela. — Eu seguro!
Garwin parou, os olhos fixos nela.
— Não! — Ele disparou. O tentáculo se partiu em dois. — Ninguém fica pra trás!
Ela girou a lâmina, fendendo dois talos.
— Eu não preciso de você pra me salvar!
Outro golpe, outra fibra cortada. Mas o chão se movia sob os pés dela, respirando.
Garwin pegou outro bastão e atirou. A descarga atingiu um ponto mais distante, desviando a atenção da planta.
— Arastine, recua! — A voz dele quase se perdeu no rugido.
Ela não respondeu.
— Amor, vamos! — gritou Cailynm. — Vai morrer aí!
Thurstan atirou mais uma vez, cobrindo a retaguarda. Garwin hesitou, depois lançou um olhar rápido para os dois.
— Sigam adiante! Encontrem passagem! — E avançou.
O calor o atingiu primeiro. A seiva fervia sobre o solo. Os bastões queimavam nas mãos. Um talo cortou o ar e acertou-lhe o ombro. O impacto o jogou contra o chão. A dor subiu pelo braço; o sangue escorreu.
Mesmo assim, ele se ergueu e disparou de novo.
Arastine lutava alguns metros à frente, o corpo coberto de cortes.
— Você é teimosa demais! — gritou ele, ofegante.
Ela riu, sem humor.
— Já ouvi esse discurso. Todo mundo diz o mesmo antes de me deixarem pra morrer!
Outro golpe. A lâmina raspou o tentáculo, arrancando uma lasca viscosa.
Garwin avançou, cambaleando.
— Eu não sou “todo mundo”!
Ela girou o rosto, furiosa.
— Não? Vendeler confiou em você, e olha o que aconteceu! — O grito dela cortou o ar mais que a espada. — Você manda, a gente obedece, e no fim sobra o quê?
Um tentáculo passou rente ao rosto dela, rasgando o ar. Garwin a puxou pelo braço, empurrando-a pro lado.
— Eu errei, sim! Mas tô aqui agora!
Ela se desvencilhou, o olhar em brasa.
— Eu fui traída uma vez por seguir ordens. Por líderes fracos como você. Nunca mais!
Outro talo desceu, cortando o chão entre eles.
Garwin se jogou contra ela, empurrando-a pra fora do alcance. O golpe o atingiu de raspão — suficiente pra abrir um corte largo no abdômen. Ele caiu sentado, o bastão escapando da mão.
— Não, Garwin! — Arastine gritou, a voz rouca.
O sangue manchava a lama.
Ela se ergueu, girou a lâmina e atacou o centro da planta com toda a força. Os tentáculos se voltaram para ela. Dois a atingiram, atravessando o ombro e a perna. Mesmo assim, ela avançou mais um passo e cravou a espada até o punho na carne viva.
Um rugido subterrâneo percorreu o chão. As folhas se retraíram, os talos afundando devagar.
Garwin cambaleou até ela, o rosto pálido. Ajoelhou-se e a segurou antes que o corpo tombasse.
— Eu... — murmurou Arastine, a voz fraca. — Você devia ter deixado.
Garwin a puxou para o peito. — Nunca mais.
O som da selva voltou em ondas — o zumbido dos insetos, o farfalhar das folhas.
Garwin se levantou com ela nos braços, mancando.
Atrás, o solo afundava enquanto novos tentáculos irrompiam, se contorcendo na escuridão.
Mais adiante, Thurstan e Cailynm surgiram entre as árvores, sujos de lama e fuligem. Cailynm correu até ele.
— Garwin! Você—
Ele balançou a cabeça, ainda firme.
— Ela tá viva. Eu já tomei uma poção. Precisamos sair daqui.
Thurstan o ajudou a andar; Cailynm carregou Arastine. O grupo seguiu, o som dos passos se misturando ao das gotas que voltavam a cair das copas.
***
Arastine abriu os olhos num sobressalto. A luz entrava fraca pela janela e pelas frestas das paredes de madeira, riscando o chão de pedra com faixas douradas.
— Que lugar é esse? Cadê minhas roupas?
Ela olhou ao redor. O teto era baixo, de vigas escuras. A respiração vinha rápida até ela virar o rosto e ver Garwin — deitado na cama ao lado, também nu, o corpo coberto por lençóis e faixas. A pele do ombro e do peito ainda trazia manchas de sangue seco.
Por um instante, ela permaneceu imóvel. Depois, aproximou-se, os dedos trêmulos tocando o braço dele.
— Graças aos deuses... ele ainda tá vivo.
Um soluço escapou, abafado. Arastine caiu de joelhos ao lado da cama e o abraçou, o corpo escondido contra o lençol.
— Eu… eu não devia ter dito nada… — sussurrou. — Você me salvou… de novo…
A porta rangeu. Cailynm entrou primeiro, o cabelo preso, o rosto ainda cansado, mas limpo. Thurstan veio logo atrás, com um embrulho nas mãos.
— Ah, já acordou — disse Cailynm, aproximando-se devagar. — Foi por pouco.
Arastine se levantou com dificuldade, enxugando o rosto com o antebraço.
— Eu... — começou, a voz embargada. — Me perdoa. Por tudo o que eu disse pra ele lá na selva. Eu não devia ter—
Cailynm não a deixou terminar. Apenas a abraçou, firme.
— Calma… já passou. — murmurou. — Conseguimos tirar vocês de lá. Agora vai ficar tudo bem.
Thurstan colocou o embrulho sobre a mesa.
— Trouxemos poções. A mulher da tenda disse que, com uma dessas, o capitão vai estar de pé antes do meio-dia. Foi sorte terem algo do tipo num lugar como esse.
Abriu um dos frascos — o líquido pálido balançou sob a luz.
— Ainda por cima, um pirata resolveu se meter com a Cailynm… — Ele fez uma careta. — Agora vai precisar de uma perna de pau depois do tiro que eu dei nele.
Cailynm riu baixo, balançando a cabeça.
— Exagerado, como sempre.
Arastine olhou novamente para Garwin.
— Ele vai se recuperar?
— Vai sim. — respondeu Cailynm, abrindo o frasco e encostando-o nos lábios dele. — Assim que ele beber, já vai estar de pé.
Garwin gemeu baixo. O corpo reagiu à poção, e o corte do ombro começou a fechar devagar, deixando apenas um traço rosado.
Arastine segurou a borda da cama, os olhos marejados outra vez.
— Obrigada… — murmurou. — Por não desistirem de mim.
Cailynm pousou a mão sobre a dela.
— Achou mesmo que ia nos tirar da nossa casa pra tudo acabar naquela selva?
O silêncio encheu o quarto. Do lado de fora, o som das cordas se misturava ao das gaivotas e das vozes do cais. O sol subia, dourando o lençol, o vidro do frasco e o rosto ainda pálido de Garwin.
Arastine se recostou na cadeira ao lado da cama enquanto vestia as roupas.
Thurstan estendeu um frasco para ela.
— Toma. — disse. — Trouxe um pra você também.
Arastine pegou o frasco das mãos de Thurstan e o virou de uma vez. O líquido tinha gosto metálico e amargo, mas o efeito veio rápido — o calor subiu pelo peito, costuras de dor se desfazendo. Ela respirou fundo, e por um instante pareceu não acreditar.
— Já... já passou — murmurou, flexionando o ombro. — É como se nada tivesse acontecido.
Thurstan riu de leve.
— Essas poções deviam ser vendidas em caixa.
Cailynm recolheu as bandagens da mesa.
— Deviam, mas custam o preço das velas de um aeroplano.
Ela o olhou de lado.
— E agora? Vamos pra Uncro?
Thurstan assentiu, mas o olhar ficou preso nos paus de fogo primo espalhados sobre o lençol. Começou a contá-los, virando um a um.
— Quatro... cinco... seis. — Fechou o punho. — Só isso.
Cailynm arqueou uma sobrancelha.
— Ainda acha que vai precisar deles? Achei que o perigo tivesse ficado naquela selva.
Thurstan desviou o olhar para a janela. O vento trazia o som distante dos cabos metálicos e das gaivotas.
— Uncro é tudo menos segura — disse, baixo. — E as cavernas até as falésias da baía... muito menos.
Ele fez uma pausa, a voz quase sumindo.
— Até eles saberem que estamos com o meu pai, qualquer passo pode virar armadilha.
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