Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 13: Eu Não Sou Todo Mundo

O terreno cedeu num estalo seco, e o grupo despencou alguns metros. O impacto foi amortecido por um colchão de folhas largas e molhadas. A luz filtrava em colunas verdes, úmida e imóvel.

— Todos inteiros? — perguntou Garwin, ajeitando o bastão descarregado no coldre lateral.

— Só o orgulho amassado — respondeu Thurstan, limpando lama do rosto.

— Como assim? — perguntou Arastine, ainda olhando para cima, a espada em punho.

— “Como assim”? — remendou ele. — Caí de cara no lodo.

Garwin riu. Cailynm deu um cutucão nele enquanto ela e Thurstan recebiam um pau de fogo primo cada.

Cailynm se levantou devagar, o olhar girando ao redor.

— Que lugar é esse…?

— Tanto faz — disse Garwin, olhando para cima. — O sol tá pra lá. Vamos. O sul é pra cá.

Arastine chutou uma das folhas. A planta era espessa, quase carnuda, e soltava um vapor doce.

— Pelo aspecto estamos nas partes mais profundas da selva. Esse tipo cresce onde o sol mal chega.

Um estampido ecoou acima. O grupo se abaixou instintivamente quando o disparo faiscou no solo, levantando lama por todo lado.

— Droga — rosnou Thurstan. — Tão atirando de cima!

Garwin ergueu o olhar para o barranco. Silhuetas se moviam entre os troncos.

— De baixo que não ia ser, né?

Cailynm ajoelhou, apoiando o bastão no ombro de Garwin e mirando.

— Pronto!

— Espera o clarão, amor. — Ele ergueu a mão, firme. Quando o brilho azul cruzou o ar, gritou: — Agora!

O disparo riscou o verde e atingiu uma sombra no alto. O corpo caiu entre cipós e raízes. Thurstan avançou, atirando também; o pau de fogo primo soltava labaredas curtas e quentes.

— Dois a menos! — gritou ele.

— Continua o movimento! — Garwin puxou Cailynm pelo braço, desviando de outro tiro. — Se ficarmos parados, viramos alvo!

Eles seguiram por uma fenda estreita, o chão cada vez mais mole. O ar cheirava a seiva e ferrugem.

Arastine, na frente, afastou um esqueleto humano para abrir passagem.

— Eles não vão descer — disse, sem fôlego. — Devem saber o que tem aqui embaixo.

Garwin olhou por cima do ombro. — O quê?

Ela não respondeu. Apenas encarou o solo, onde as folhas tremiam com um movimento sutil — um respirar que não vinha do vento.

Cailynm franziu o cenho.

— Vocês sentiram isso?

Thurstan chutou o chão, irritado.

— Isso o quê?

O solo respondeu com um estalo profundo. As raízes se mexeram. Um dos talos subiu, grosso como um braço humano, pontiagudo como uma lança.

— Recuem! — gritou Arastine, a espada saindo da bainha num lampejo.

O tentáculo atravessou o espaço onde Garwin estava um momento antes. Ele rolou para o lado e disparou o bastão — a descarga etérea dilacerou o talo, que recuou, soltando um ruído rouco.

Mais dois emergiram, chicoteando o ar. Um deles atingiu uma árvore, partindo o tronco ao meio. Fragmentos de folhas caíram sobre eles.

— Fica junto! — gritou Garwin. — Thurstan, fogo rápido! Mira no centro!

— No quê?! —

— Ali! —

Os disparos se alternaram com o zumbido quente das essências. Garwin e Thurstan derrubaram um deles. Arastine cortava os que chegavam perto; Cailynm recarregava os bastões de Garwin com movimentos rápidos.

O ar se encheu de calor, fumaça e cheiro de seiva queimada.

Garwin ergueu o olhar — o solo inteiro pulsava, como se algo enorme respirasse sob a terra.

— Isso não é uma planta comum — disse ele.

A selva respondeu com outro rugido surdo, profundo, como se o chão tivesse voz.

As folhas tremiam. O chão respirava sob eles. Dos veios encharcados de seiva, novos talos emergiam, afiando-se como lanças.

— Thurstan, Cailynm! Padrão alternado! — gritou Garwin, a voz firme no meio do estrondo.

O garoto disparou. O clarão azul riscou o ar. Cailynm pegou outro bastão e atirou em seguida. A sequência iluminava o breu em rajadas curtas e quentes. Arastine cortava os tentáculos que vinham pela lateral — lâmina contra fibra viva, cada estalo acompanhado de respingos dourados.

O chão tremeu. Um tronco partiu ao meio. A água acumulada nas folhas caiu como chuva grossa.

— Amor! — gritou Cailynm, passando-lhe um bastão novo.

Ele pegou e girou o corpo, mirando no centro do emaranhado. O disparo abriu um buraco num tentáculo próximo. Um grito gutural ecoou sob a terra.

Por um instante, o grupo avançou.

Enquanto isso, um dos talos se ergueu atrás deles — rápido e afiado. Atingiu Thurstan com força, rasgando sua jaqueta e espalhando sangue por todos os lados. Arastine cortou o tentáculo, mas foi arremessada para trás por outro golpe na retaguarda, caindo em meio à vegetação rasteira.

— Arastine! — Garwin correu, mas ela já se levantava, a espada pronta.

Outro talo emergiu, cortando o espaço entre ela e o grupo. A distância cresceu num instante.

— Vai! — gritou ela. — Eu seguro!

Garwin parou, os olhos fixos nela.

— Não! — Ele disparou. O tentáculo se partiu em dois. — Ninguém fica pra trás!

Ela girou a lâmina, fendendo dois talos.

— Eu não preciso de você pra me salvar!

Outro golpe, outra fibra cortada. Mas o chão se movia sob os pés dela, respirando.

Garwin pegou outro bastão e atirou. A descarga atingiu um ponto mais distante, desviando a atenção da planta.

— Arastine, recua! — A voz dele quase se perdeu no rugido.

Ela não respondeu.

— Amor, vamos! — gritou Cailynm. — Vai morrer aí!

Thurstan atirou mais uma vez, cobrindo a retaguarda. Garwin hesitou, depois lançou um olhar rápido para os dois.

— Sigam adiante! Encontrem passagem! — E avançou.

O calor o atingiu primeiro. A seiva fervia sobre o solo. Os bastões queimavam nas mãos. Um talo cortou o ar e acertou-lhe o ombro. O impacto o jogou contra o chão. A dor subiu pelo braço; o sangue escorreu.

Mesmo assim, ele se ergueu e disparou de novo.

Arastine lutava alguns metros à frente, o corpo coberto de cortes.

— Você é teimosa demais! — gritou ele, ofegante.

Ela riu, sem humor.

— Já ouvi esse discurso. Todo mundo diz o mesmo antes de me deixarem pra morrer!

Outro golpe. A lâmina raspou o tentáculo, arrancando uma lasca viscosa.

Garwin avançou, cambaleando.

— Eu não sou “todo mundo”!

Ela girou o rosto, furiosa.

— Não? Vendeler confiou em você, e olha o que aconteceu! — O grito dela cortou o ar mais que a espada. — Você manda, a gente obedece, e no fim sobra o quê?

Um tentáculo passou rente ao rosto dela, rasgando o ar. Garwin a puxou pelo braço, empurrando-a pro lado.

— Eu errei, sim! Mas tô aqui agora!

Ela se desvencilhou, o olhar em brasa.

— Eu fui traída uma vez por seguir ordens. Por líderes fracos como você. Nunca mais!

Outro talo desceu, cortando o chão entre eles.

Garwin se jogou contra ela, empurrando-a pra fora do alcance. O golpe o atingiu de raspão — suficiente pra abrir um corte largo no abdômen. Ele caiu sentado, o bastão escapando da mão.

— Não, Garwin! — Arastine gritou, a voz rouca.

O sangue manchava a lama.

Ela se ergueu, girou a lâmina e atacou o centro da planta com toda a força. Os tentáculos se voltaram para ela. Dois a atingiram, atravessando o ombro e a perna. Mesmo assim, ela avançou mais um passo e cravou a espada até o punho na carne viva.

Um rugido subterrâneo percorreu o chão. As folhas se retraíram, os talos afundando devagar.

Garwin cambaleou até ela, o rosto pálido. Ajoelhou-se e a segurou antes que o corpo tombasse.

— Eu... — murmurou Arastine, a voz fraca. — Você devia ter deixado.

Garwin a puxou para o peito. — Nunca mais.

O som da selva voltou em ondas — o zumbido dos insetos, o farfalhar das folhas.
Garwin se levantou com ela nos braços, mancando.

Atrás, o solo afundava enquanto novos tentáculos irrompiam, se contorcendo na escuridão.

Mais adiante, Thurstan e Cailynm surgiram entre as árvores, sujos de lama e fuligem. Cailynm correu até ele.

— Garwin! Você—

Ele balançou a cabeça, ainda firme.

— Ela tá viva. Eu já tomei uma poção. Precisamos sair daqui.

Thurstan o ajudou a andar; Cailynm carregou Arastine. O grupo seguiu, o som dos passos se misturando ao das gotas que voltavam a cair das copas.

***

Arastine abriu os olhos num sobressalto. A luz entrava fraca pela janela e pelas frestas das paredes de madeira, riscando o chão de pedra com faixas douradas.

— Que lugar é esse? Cadê minhas roupas?

Ela olhou ao redor. O teto era baixo, de vigas escuras. A respiração vinha rápida até ela virar o rosto e ver Garwin — deitado na cama ao lado, também nu, o corpo coberto por lençóis e faixas. A pele do ombro e do peito ainda trazia manchas de sangue seco.

Por um instante, ela permaneceu imóvel. Depois, aproximou-se, os dedos trêmulos tocando o braço dele.

— Graças aos deuses... ele ainda tá vivo.

Um soluço escapou, abafado. Arastine caiu de joelhos ao lado da cama e o abraçou, o corpo escondido contra o lençol.

— Eu… eu não devia ter dito nada… — sussurrou. — Você me salvou… de novo…

A porta rangeu. Cailynm entrou primeiro, o cabelo preso, o rosto ainda cansado, mas limpo. Thurstan veio logo atrás, com um embrulho nas mãos.

— Ah, já acordou — disse Cailynm, aproximando-se devagar. — Foi por pouco.

Arastine se levantou com dificuldade, enxugando o rosto com o antebraço.

— Eu... — começou, a voz embargada. — Me perdoa. Por tudo o que eu disse pra ele lá na selva. Eu não devia ter—

Cailynm não a deixou terminar. Apenas a abraçou, firme.

— Calma… já passou. — murmurou. — Conseguimos tirar vocês de lá. Agora vai ficar tudo bem.

Thurstan colocou o embrulho sobre a mesa.

— Trouxemos poções. A mulher da tenda disse que, com uma dessas, o capitão vai estar de pé antes do meio-dia. Foi sorte terem algo do tipo num lugar como esse.

Abriu um dos frascos — o líquido pálido balançou sob a luz.

— Ainda por cima, um pirata resolveu se meter com a Cailynm… — Ele fez uma careta. — Agora vai precisar de uma perna de pau depois do tiro que eu dei nele.

Cailynm riu baixo, balançando a cabeça.

— Exagerado, como sempre.

Arastine olhou novamente para Garwin.

— Ele vai se recuperar?

— Vai sim. — respondeu Cailynm, abrindo o frasco e encostando-o nos lábios dele. — Assim que ele beber, já vai estar de pé.

Garwin gemeu baixo. O corpo reagiu à poção, e o corte do ombro começou a fechar devagar, deixando apenas um traço rosado.

Arastine segurou a borda da cama, os olhos marejados outra vez.

— Obrigada… — murmurou. — Por não desistirem de mim.

Cailynm pousou a mão sobre a dela.

— Achou mesmo que ia nos tirar da nossa casa pra tudo acabar naquela selva?

O silêncio encheu o quarto. Do lado de fora, o som das cordas se misturava ao das gaivotas e das vozes do cais. O sol subia, dourando o lençol, o vidro do frasco e o rosto ainda pálido de Garwin.

Arastine se recostou na cadeira ao lado da cama enquanto vestia as roupas.

Thurstan estendeu um frasco para ela.

— Toma. — disse. — Trouxe um pra você também.

Arastine pegou o frasco das mãos de Thurstan e o virou de uma vez. O líquido tinha gosto metálico e amargo, mas o efeito veio rápido — o calor subiu pelo peito, costuras de dor se desfazendo. Ela respirou fundo, e por um instante pareceu não acreditar.

— Já... já passou — murmurou, flexionando o ombro. — É como se nada tivesse acontecido.

Thurstan riu de leve.

— Essas poções deviam ser vendidas em caixa.

Cailynm recolheu as bandagens da mesa.

— Deviam, mas custam o preço das velas de um aeroplano.

Ela o olhou de lado.

— E agora? Vamos pra Uncro?

Thurstan assentiu, mas o olhar ficou preso nos paus de fogo primo espalhados sobre o lençol. Começou a contá-los, virando um a um.

— Quatro... cinco... seis. — Fechou o punho. — Só isso.

Cailynm arqueou uma sobrancelha.

— Ainda acha que vai precisar deles? Achei que o perigo tivesse ficado naquela selva.

Thurstan desviou o olhar para a janela. O vento trazia o som distante dos cabos metálicos e das gaivotas.

— Uncro é tudo menos segura — disse, baixo. — E as cavernas até as falésias da baía... muito menos.

Ele fez uma pausa, a voz quase sumindo.

— Até eles saberem que estamos com o meu pai, qualquer passo pode virar armadilha.

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