Volume 2
Capítulo 12: A Selva de Vharan
— Finalmente chegamos — disse Thurstan, desmontando do veículo.
As libélulas foram deixadas sob abrigo, ainda úmidas de sal e do vento. As asas dobradas pingavam sobre o chão de terra batida enquanto o grupo atravessava o pátio da hospedagem.
— Agora sim. — disse Garwin. — Um descanso.
O lugar era antigo, de madeira escura e paredes grossas, com o cheiro morno de lenha e especiarias. Lamparinas pendiam das vigas, tremulando em laranja e cobre.
Uma atendente os recebeu sem perguntas — apenas um aceno e a entrega das chaves.
Mais tarde, o vapor dos banhos se espalhava pelos corredores. O som da água correndo misturava-se ao estalar da lenha e ao ranger do assoalho. Thurstan saiu primeiro, com o cabelo molhado e a camisa semiaberta, rindo da própria exaustão. Arastine veio logo atrás, usando roupas leves e uma toalha enrolada na cabeça.
— Esse sabão parece feito de pedra. — disse ela, tentando ajeitar o pano.
Garwin e Cailynm chegaram por último. Ela prendeu o cabelo úmido numa trança improvisada, e juntos seguiram até o salão.
A mesa era simples, afastada do burburinho das outras. O fogo da lareira iluminava o rosto deles em tons dourados. O cheiro de pão e caldo quente preenchia o ar.
— Nunca pensei que ia agradecer por um prato de sopa. — disse Arastine, empurrando o cabelo para trás da orelha.
— Depois de quase morrer esmagado por montanhas voadoras, tudo parece um banquete. — respondeu Thurstan, apoiando o queixo nas mãos.
Cailynm mexia o caldo na tigela.
— Foi sorte o portal nos deixar tão perto de uma vila. Mais um salto errado e nem imagino onde a gente ia parar.
Garwin assentiu, o tom calmo.
— Sorte... e um pouco de cálculo. Não é, Thurstan?
O loiro ergueu o olhar.
— Então conseguimos. Amanhã chegaremos à Baía do Relâmpago.
Garwin ergueu um canto da boca.
— E como será a viagem a partir daqui?
— Pelo que vi no mapa, as libélulas terminam o trabalho por aqui. — disse Arastine.
— Verdade. — respondeu Thurstan. — Agora seguiremos para o norte até um portal. Depois, atravessaremos a Selva de Vharan.
O som do fogo preencheu o breve silêncio que se seguiu. O tilintar de pratos e vozes distantes do balcão se misturava ao vento batendo nas janelas.
— E como é esse lugar? Já teve lá? — perguntou Garwin.
Thurstan pousou a caneca sobre a mesa.
— É uma selva complicada. Jaguares, cobras, mosquitos peçonhentos — e piratas, claro. Depois da selva vem a montanha, com um vilarejo no alto.
— E esse vilarejo é a Baía do Relâmpago? — perguntou Cailynm.
— Não. — respondeu ele. — A Baía é mais ao sul, num refúgio de cavernas marinhas nas encostas do arquipélago. Só os piratas ousam atracar lá. O mar é instável, mas há refúgio entre as falésias.
Garwin recostou-se na cadeira, as luvas ainda úmidas repousando sobre o tampo.
— Então eu tenho duas dúvidas: uma para você, Thurstan, e outra para Arastine.
Arastine arqueou a sobrancelha.
— Então pergunte.
— Se o lugar onde o seu pai está é um arquipélago, como chegaremos até lá? Portais? E a selva, Arastine? Como vamos atravessar sem sermos dilacerados?
Thurstan soltou um riso breve.
— E esse é o capitão que eu conheço. O que eu sei dizer é que no vilarejo depois da selva há um transporte por cabos. Um sistema antigo de rodas, movido por um albastrógeno. Ele leva do continente até a cidade no alto da montanha — Uncro, o refúgio dos piratas do ar. Lugar perigoso.
— E quanto à defesa — disse Arastine. — Eu tenho minha espada, mas podemos comprar paus de fogo primo no vilarejo. Servem bem contra feras e contrabandistas.
— Boa ideia. — disse Cailynm. — Mas por que vamos para Uncro, e não direto até o pai de Thurstan?
— Vamos, sim. — respondeu o loiro. — Uncro dá acesso a uma rede de túneis que atravessa a montanha. Do outro lado fica a base dos piratas do mar.
Garwin assentiu.
— Lugarzinho chato de chegar, hein? Tudo bem. Estamos conversados, então.
O grupo terminou a refeição aos poucos. Lá fora, o vento frio varria as ruelas, trazendo o cheiro de chuva distante. O salão se esvaziava; só o crepitar da lareira permanecia.
Garwin trocou um olhar com Thurstan — breve, cúmplice.
— Descansa, garoto. Amanhã o mar vai nos testar de novo.
— Sim, capitão. — respondeu ele, com um meio sorriso.
Subiram as escadas em fila, o som dos passos ecoando pelo corredor. Lá embaixo, o fogo da lareira baixou aos poucos, até restar só um fio de luz e o vento suave contra as janelas.
O sol mal nascia quando as ruas do vilarejo começaram a ganhar som. O vento frio trazia o cheiro de pão fresco e maresia. Thurstan ajustou o típico casaco amarelo sobre os ombros e olhou para os lados.
— Acordaram cedo demais pra quem quase morreu ontem — disse, com um meio sorriso.
— E quem dorme demais perde as boas ofertas — respondeu Garwin, amarrando as tiras do macacão. — Vamos comprar o que precisamos rápido, pra chegar ainda hoje à Baía do Relâmpago.
O mercado era pequeno, espalhado em frente à estalagem. Barracas de madeira cobertas por panos coloridos, fumaça de caldeirões e mercadores sonolentos organizando caixas e tecidos.
Cailynm se aproximou de uma banca que exibia bastões curtos empilhados, envoltos em couro e cobre. Um homem gordo, com avental manchado de fuligem, levantou o olhar.
— São paus de fogo primo? — perguntou ela, passando os dedos pela superfície dos bastões.
— São, sim, senhora. Esses aqui são de uma conflagração; aqueles, de três. — O vendedor bateu um no balcão, e o bastão soltou um brilho avermelhado. — Chegaram ontem de Jillar.
Garwin examinou o objeto com calma.
— Os de uma conflagração bastam.
— Não querem levar também os de três? — o homem coçou o queixo.
Thurstan se adiantou, encostando o cotovelo no balcão.
— Não, mas vamos levar todos os de uma conflagração, não é? — O sorriso era leve, mas o tom firme. — Espero que o desconto seja bom.
O homem olhou de um para o outro e acabou assentindo.
— Tá bom, tá bom. Quatro pelo preço de três.
Garwin deixou as moedas sobre o balcão.
— Fechado.
Cailynm amarrou os bastões em um fardo e ajeitou a tira sobre o ombro de Garwin.
— Prontos?
— Sempre — respondeu Thurstan, olhando para a estrada ao norte. — O portal fica depois da trilha da colina.
Arastine esperava na esquina, o cabelo preso numa trança detalhada, a espada pendendo nas costas.
— Já compraram tudo? — perguntou. — Espero que pelo menos não tenhamos que usá-los.
— Se for assim, também perde a graça — respondeu Thurstan, rindo.
— Vocês ainda brincam com coisa séria. — resmungou Garwin.
Eles seguiram pela estrada de terra batida. A vila ia ficando menor às costas — telhados de ardósia, fumaça subindo das chaminés, o som distante de martelos e sinos. À frente, o caminho estreitava entre paredões de pedra cobertos de musgo.
Um guarda de manto grosso estava sentado à entrada de uma gruta. Tinha o rosto marcado por rugas e segurava uma lança curta. O brilho amarelado do portal tremulava atrás dele, iluminando o chão úmido.
— Ninguém passa — disse o homem, sem se levantar. — Ordem do conselho da vila. Esse portal é instável.
Thurstan deu um passo à frente.
— A gente só precisa ir. — A voz era calma, quase amistosa. — Prometemos não deixar criança cair lá dentro.
O guarda arqueou uma sobrancelha.
— E quantas crianças podem cair?
Thurstan tirou duas moedas de ouro e as deixou sobre uma pedra.
— Duas crianças. Que valem ouro. Afinal, a floresta é perigosa.
O homem olhou para as moedas, depois para eles.
— Vou dar uma mijada — disse, pegando as moedas. — Espero que já tenham desistido quando eu voltar.
Garwin soltou um riso curto.
— Thurstan, não nega que é filho de pirata mesmo.
O grupo entrou na gruta. A luz dourada do portal refletia nas paredes cobertas de limo. O som do vento do lado de fora foi substituído por um zumbido grave e constante.
Cailynm ajeitou o casaco, a voz baixa.
— Do outro lado é a Selva de Vharan, certo?
— É. — respondeu Thurstan, apertando o punho da luva. — Dizem que o ar de lá brilha quando chove.
Garwin olhou para o arco reluzente diante deles.
— Então vamos descobrir.
Arastine pousou a mão na espada.
— Que comece o inferno verde.
Eles deram um passo à frente, e a luz do portal os envolveu.
O som se dissolveu num instante.
Do outro lado, o mundo exalava calor e umidade. Árvores colossais erguiam-se como torres cobertas de névoa, e o ar vibrava em tons dourados e esmeralda.
A Selva de Vharan os recebeu com o som de mil insetos e o cheiro espesso de terra molhada.
Garwin respirou fundo e disse, sem virar o rosto:
— Bem... agora é só seguir para o sul, certo?
— É — respondeu Cailynm, afastando uma folha do tamanho do braço. — Parece que entramos num outro mundo.
— Mas entramos — disse Thurstan, empurrando um cipó com o ombro. — Bem-vindos à parte mais úmida de todos os planos infernais.
Cailynm ajeitou o casaco, o olhar subindo para o topo das árvores.
— Que árvores mais altas. Que calor. Como será que essa floresta se formou?
— Chuva — respondeu Garwin. — As correntes de ar vêm do norte e não conseguem passar pela cordilheira que divide o sul de Jillar com Sam Brehim.
— Eu pensei que era o contrário — disse Thurstan, abanando o rosto para afastar um inseto. — Quanto mais roupas, melhor.
Garwin riu.
— Não, é tudo pelas correntes de ar. Se o vento parar, acabou selva.
— Vocês perceberam isso? — perguntou Arastine. Ela andava à frente, os passos firmes, os olhos atentos.
Todos se voltaram para ela.
— Já estive em florestas parecidas — disse, passando a mão em um tronco coberto de musgo. — Mas nenhuma delas tinha esse silêncio intermitente.
Garwin arqueou uma sobrancelha.
— Silêncio? Tá parecendo tudo, menos silenciosa.
— Os pássaros. Faz um tempo que pararam — respondeu ela. — Quando a selva para de fazer barulho… é porque algo a faz parar.
Thurstan deu uma risada curta.
— Ah, ótimo. Então eles devem estar perto.
Cailynm olhou de relance para o loiro.
— Eles?
— Sim, essa selva é cheia de portais — respondeu ele, sem olhar para trás. — Os piratas usam esse caminho. Quando não vêm de aeroplano, atravessam por aqui.
Garwin desviou de um galho baixo.
— Então é uma rota de contrabando.
— É óbvio, esperto — completou Thurstan. — Ninguém de bem se esconde numa floresta como essa. Achou que a gente ia chegar na Baía do Relâmpago, um refúgio de piratas, por uma rota oficial de Jillar?
— Faz sentido. — disse Cailynm olhando para seu companheiro.
O grupo avançou devagar. O ar parecia mais pesado a cada metro, as botas afundando na lama fofa. Às vezes, feixes de luz revelavam lagartos imóveis nas pedras, ou olhos piscando entre as folhas.
Arastine parou de repente e ergueu a mão. O som da floresta cessou. Nenhum inseto, nenhum pássaro.
Garwin franziu o cenho.
— Agora eu ouvi o seu silêncio.
— Fiquem atentos — disse ela, a voz baixa.
Garwin tirou os bastões da bolsa e distribuiu: dois para Cailynm, dois para Thurstan, e manteve dois consigo.
Cailynm girou o olhar por entre as árvores.
— O que foi isso?
Um estalo ecoou acima. Algo se mexia no alto — rápido demais para ser um animal grande. Arastine ergueu o braço. Garwin estendeu o pau de fogo primo.
O disparo de essência mágica cortou o verde. Atingiu o peito de um homem camuflado, que despencou da árvore, o corpo se chocando com as raízes embaixo.
Garwin se abaixou, os olhos duros.
— São eles.
Thurstan xingou baixo.
— Eu avisei.
O primeiro tiro veio logo em seguida, despedaçando a casca de uma árvore. O grupo se abaixou. Faíscas azuis cruzaram o ar.
Garwin respondeu com um disparo rápido — o bastão soltou uma pequena bola incandescente, que riscou o ar e se perdeu nas folhas.
— Movimento! — gritou ele antes de jogar o artefato descartável no chão. — Pro sul!
O grupo começou a andar rápido, as botas afundando no barro. O som dos paus de fogo ecoava entre as árvores. Cailynm pegou um dos bastões e atirou de volta, o impacto acertando a perna de um pirata que gritava entre a fumaça.
Ele caiu à frente deles, perna despedaçada, o corpo se contorcendo. Garwin apontou o pau de fogo primo para o rosto do homem, hesitou por um segundo — tempo suficiente para Arastine avançar e cravar a lâmina no pescoço do homem.
O som foi seco.
— Tem medo de sujar as mãos, capitão?
Thurstan olhou de relance, o rosto tenso.
— Que azar o nosso. É um bando grande.
Garwin assentiu.
— E agora serve pra correr?
— Não faz isso! — disse Arastine, colocando o braço à frente. — Anda rápido, mas não corra.
Eles seguiram em uma marcha acelerada. A vegetação se fechava atrás, os sons voltavam — gritos distantes, galhos se partindo, o zumbido de tiros perdidos.
A trilha terminou em uma encosta. Thurstan apontou.
— Por aqui!
O grupo saltou para um nível inferior da floresta. O solo era coberto por plantas largas, úmidas, pteridófitas de folhas espessas que se moviam levemente com o vento. O cheiro era doce, quase enjoativo.
Garwin se virou.
— Continuem. Eu cubro a retaguarda.
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