Shern Brasileira

Autor(a): Richard P. S.


Volume 2

Capítulo 12: A Selva de Vharan

— Finalmente chegamos — disse Thurstan, desmontando do veículo.

As libélulas foram deixadas sob abrigo, ainda úmidas de sal e do vento. As asas dobradas pingavam sobre o chão de terra batida enquanto o grupo atravessava o pátio da hospedagem.

— Agora sim. — disse Garwin. — Um descanso.

O lugar era antigo, de madeira escura e paredes grossas, com o cheiro morno de lenha e especiarias. Lamparinas pendiam das vigas, tremulando em laranja e cobre.

Uma atendente os recebeu sem perguntas — apenas um aceno e a entrega das chaves.

Mais tarde, o vapor dos banhos se espalhava pelos corredores. O som da água correndo misturava-se ao estalar da lenha e ao ranger do assoalho. Thurstan saiu primeiro, com o cabelo molhado e a camisa semiaberta, rindo da própria exaustão. Arastine veio logo atrás, usando roupas leves e uma toalha enrolada na cabeça.

— Esse sabão parece feito de pedra. — disse ela, tentando ajeitar o pano.

Garwin e Cailynm chegaram por último. Ela prendeu o cabelo úmido numa trança improvisada, e juntos seguiram até o salão.

A mesa era simples, afastada do burburinho das outras. O fogo da lareira iluminava o rosto deles em tons dourados. O cheiro de pão e caldo quente preenchia o ar.

— Nunca pensei que ia agradecer por um prato de sopa. — disse Arastine, empurrando o cabelo para trás da orelha.

— Depois de quase morrer esmagado por montanhas voadoras, tudo parece um banquete. — respondeu Thurstan, apoiando o queixo nas mãos.

Cailynm mexia o caldo na tigela.

— Foi sorte o portal nos deixar tão perto de uma vila. Mais um salto errado e nem imagino onde a gente ia parar.

Garwin assentiu, o tom calmo.

— Sorte... e um pouco de cálculo. Não é, Thurstan?

O loiro ergueu o olhar.

— Então conseguimos. Amanhã chegaremos à Baía do Relâmpago.

Garwin ergueu um canto da boca.

— E como será a viagem a partir daqui?

— Pelo que vi no mapa, as libélulas terminam o trabalho por aqui. — disse Arastine.

— Verdade. — respondeu Thurstan. — Agora seguiremos para o norte até um portal. Depois, atravessaremos a Selva de Vharan.

O som do fogo preencheu o breve silêncio que se seguiu. O tilintar de pratos e vozes distantes do balcão se misturava ao vento batendo nas janelas.

— E como é esse lugar? Já teve lá? — perguntou Garwin.

Thurstan pousou a caneca sobre a mesa.

— É uma selva complicada. Jaguares, cobras, mosquitos peçonhentos — e piratas, claro. Depois da selva vem a montanha, com um vilarejo no alto.

— E esse vilarejo é a Baía do Relâmpago? — perguntou Cailynm.

— Não. — respondeu ele. — A Baía é mais ao sul, num refúgio de cavernas marinhas nas encostas do arquipélago. Só os piratas ousam atracar lá. O mar é instável, mas há refúgio entre as falésias.

Garwin recostou-se na cadeira, as luvas ainda úmidas repousando sobre o tampo.

— Então eu tenho duas dúvidas: uma para você, Thurstan, e outra para Arastine.

Arastine arqueou a sobrancelha.

— Então pergunte.

— Se o lugar onde o seu pai está é um arquipélago, como chegaremos até lá? Portais? E a selva, Arastine? Como vamos atravessar sem sermos dilacerados?

Thurstan soltou um riso breve.

— E esse é o capitão que eu conheço. O que eu sei dizer é que no vilarejo depois da selva há um transporte por cabos. Um sistema antigo de rodas, movido por um albastrógeno. Ele leva do continente até a cidade no alto da montanha — Uncro, o refúgio dos piratas do ar. Lugar perigoso.

— E quanto à defesa — disse Arastine. — Eu tenho minha espada, mas podemos comprar paus de fogo primo no vilarejo. Servem bem contra feras e contrabandistas.

— Boa ideia. — disse Cailynm. — Mas por que vamos para Uncro, e não direto até o pai de Thurstan?

— Vamos, sim. — respondeu o loiro. — Uncro dá acesso a uma rede de túneis que atravessa a montanha. Do outro lado fica a base dos piratas do mar.

Garwin assentiu.

— Lugarzinho chato de chegar, hein? Tudo bem. Estamos conversados, então.

O grupo terminou a refeição aos poucos. Lá fora, o vento frio varria as ruelas, trazendo o cheiro de chuva distante. O salão se esvaziava; só o crepitar da lareira permanecia.

Garwin trocou um olhar com Thurstan — breve, cúmplice.

— Descansa, garoto. Amanhã o mar vai nos testar de novo.

— Sim, capitão. — respondeu ele, com um meio sorriso.

Subiram as escadas em fila, o som dos passos ecoando pelo corredor. Lá embaixo, o fogo da lareira baixou aos poucos, até restar só um fio de luz e o vento suave contra as janelas.

O sol mal nascia quando as ruas do vilarejo começaram a ganhar som. O vento frio trazia o cheiro de pão fresco e maresia. Thurstan ajustou o típico casaco amarelo sobre os ombros e olhou para os lados.

— Acordaram cedo demais pra quem quase morreu ontem — disse, com um meio sorriso.

— E quem dorme demais perde as boas ofertas — respondeu Garwin, amarrando as tiras do macacão. — Vamos comprar o que precisamos rápido, pra chegar ainda hoje à Baía do Relâmpago.

O mercado era pequeno, espalhado em frente à estalagem. Barracas de madeira cobertas por panos coloridos, fumaça de caldeirões e mercadores sonolentos organizando caixas e tecidos.

Cailynm se aproximou de uma banca que exibia bastões curtos empilhados, envoltos em couro e cobre. Um homem gordo, com avental manchado de fuligem, levantou o olhar.

— São paus de fogo primo? — perguntou ela, passando os dedos pela superfície dos bastões.

— São, sim, senhora. Esses aqui são de uma conflagração; aqueles, de três. — O vendedor bateu um no balcão, e o bastão soltou um brilho avermelhado. — Chegaram ontem de Jillar.

Garwin examinou o objeto com calma.

— Os de uma conflagração bastam.

— Não querem levar também os de três? — o homem coçou o queixo.

Thurstan se adiantou, encostando o cotovelo no balcão.

— Não, mas vamos levar todos os de uma conflagração, não é? — O sorriso era leve, mas o tom firme. — Espero que o desconto seja bom.

O homem olhou de um para o outro e acabou assentindo.

— Tá bom, tá bom. Quatro pelo preço de três.

Garwin deixou as moedas sobre o balcão.

— Fechado.

Cailynm amarrou os bastões em um fardo e ajeitou a tira sobre o ombro de Garwin.

— Prontos?

— Sempre — respondeu Thurstan, olhando para a estrada ao norte. — O portal fica depois da trilha da colina.

Arastine esperava na esquina, o cabelo preso numa trança detalhada, a espada pendendo nas costas.

— Já compraram tudo? — perguntou. — Espero que pelo menos não tenhamos que usá-los.

— Se for assim, também perde a graça — respondeu Thurstan, rindo.

— Vocês ainda brincam com coisa séria. — resmungou Garwin.

Eles seguiram pela estrada de terra batida. A vila ia ficando menor às costas — telhados de ardósia, fumaça subindo das chaminés, o som distante de martelos e sinos. À frente, o caminho estreitava entre paredões de pedra cobertos de musgo.

Um guarda de manto grosso estava sentado à entrada de uma gruta. Tinha o rosto marcado por rugas e segurava uma lança curta. O brilho amarelado do portal tremulava atrás dele, iluminando o chão úmido.

— Ninguém passa — disse o homem, sem se levantar. — Ordem do conselho da vila. Esse portal é instável.

Thurstan deu um passo à frente.

— A gente só precisa ir. — A voz era calma, quase amistosa. — Prometemos não deixar criança cair lá dentro.

O guarda arqueou uma sobrancelha.

— E quantas crianças podem cair?

Thurstan tirou duas moedas de ouro e as deixou sobre uma pedra.

— Duas crianças. Que valem ouro. Afinal, a floresta é perigosa.

O homem olhou para as moedas, depois para eles.

— Vou dar uma mijada — disse, pegando as moedas. — Espero que já tenham desistido quando eu voltar.

Garwin soltou um riso curto.

— Thurstan, não nega que é filho de pirata mesmo.

O grupo entrou na gruta. A luz dourada do portal refletia nas paredes cobertas de limo. O som do vento do lado de fora foi substituído por um zumbido grave e constante.

Cailynm ajeitou o casaco, a voz baixa.

— Do outro lado é a Selva de Vharan, certo?

— É. — respondeu Thurstan, apertando o punho da luva. — Dizem que o ar de lá brilha quando chove.

Garwin olhou para o arco reluzente diante deles.

— Então vamos descobrir.

Arastine pousou a mão na espada.

— Que comece o inferno verde.

Eles deram um passo à frente, e a luz do portal os envolveu.

O som se dissolveu num instante.

Do outro lado, o mundo exalava calor e umidade. Árvores colossais erguiam-se como torres cobertas de névoa, e o ar vibrava em tons dourados e esmeralda.

A Selva de Vharan os recebeu com o som de mil insetos e o cheiro espesso de terra molhada.

Garwin respirou fundo e disse, sem virar o rosto:

— Bem... agora é só seguir para o sul, certo?

— É — respondeu Cailynm, afastando uma folha do tamanho do braço. — Parece que entramos num outro mundo.

— Mas entramos — disse Thurstan, empurrando um cipó com o ombro. — Bem-vindos à parte mais úmida de todos os planos infernais.

Cailynm ajeitou o casaco, o olhar subindo para o topo das árvores.

— Que árvores mais altas. Que calor. Como será que essa floresta se formou?

— Chuva — respondeu Garwin. — As correntes de ar vêm do norte e não conseguem passar pela cordilheira que divide o sul de Jillar com Sam Brehim.

— Eu pensei que era o contrário — disse Thurstan, abanando o rosto para afastar um inseto. — Quanto mais roupas, melhor.

Garwin riu.

— Não, é tudo pelas correntes de ar. Se o vento parar, acabou selva.

— Vocês perceberam isso? — perguntou Arastine. Ela andava à frente, os passos firmes, os olhos atentos.

Todos se voltaram para ela.

— Já estive em florestas parecidas — disse, passando a mão em um tronco coberto de musgo. — Mas nenhuma delas tinha esse silêncio intermitente.

Garwin arqueou uma sobrancelha.

— Silêncio? Tá parecendo tudo, menos silenciosa.

— Os pássaros. Faz um tempo que pararam — respondeu ela. — Quando a selva para de fazer barulho… é porque algo a faz parar.

Thurstan deu uma risada curta.

— Ah, ótimo. Então eles devem estar perto.

Cailynm olhou de relance para o loiro.

— Eles?

— Sim, essa selva é cheia de portais — respondeu ele, sem olhar para trás. — Os piratas usam esse caminho. Quando não vêm de aeroplano, atravessam por aqui.

Garwin desviou de um galho baixo.

— Então é uma rota de contrabando.

— É óbvio, esperto — completou Thurstan. — Ninguém de bem se esconde numa floresta como essa. Achou que a gente ia chegar na Baía do Relâmpago, um refúgio de piratas, por uma rota oficial de Jillar?

— Faz sentido. — disse Cailynm olhando para seu companheiro.

O grupo avançou devagar. O ar parecia mais pesado a cada metro, as botas afundando na lama fofa. Às vezes, feixes de luz revelavam lagartos imóveis nas pedras, ou olhos piscando entre as folhas.

Arastine parou de repente e ergueu a mão. O som da floresta cessou. Nenhum inseto, nenhum pássaro.

Garwin franziu o cenho.

— Agora eu ouvi o seu silêncio.

— Fiquem atentos — disse ela, a voz baixa.

Garwin tirou os bastões da bolsa e distribuiu: dois para Cailynm, dois para Thurstan, e manteve dois consigo.

Cailynm girou o olhar por entre as árvores.

— O que foi isso?

Um estalo ecoou acima. Algo se mexia no alto — rápido demais para ser um animal grande. Arastine ergueu o braço. Garwin estendeu o pau de fogo primo.

O disparo de essência mágica cortou o verde. Atingiu o peito de um homem camuflado, que despencou da árvore, o corpo se chocando com as raízes embaixo.

Garwin se abaixou, os olhos duros.

— São eles.

Thurstan xingou baixo.

— Eu avisei.

O primeiro tiro veio logo em seguida, despedaçando a casca de uma árvore. O grupo se abaixou. Faíscas azuis cruzaram o ar.

Garwin respondeu com um disparo rápido — o bastão soltou uma pequena bola incandescente, que riscou o ar e se perdeu nas folhas.

— Movimento! — gritou ele antes de jogar o artefato descartável no chão. — Pro sul!

O grupo começou a andar rápido, as botas afundando no barro. O som dos paus de fogo ecoava entre as árvores. Cailynm pegou um dos bastões e atirou de volta, o impacto acertando a perna de um pirata que gritava entre a fumaça.

Ele caiu à frente deles, perna despedaçada, o corpo se contorcendo. Garwin apontou o pau de fogo primo para o rosto do homem, hesitou por um segundo — tempo suficiente para Arastine avançar e cravar a lâmina no pescoço do homem.

O som foi seco.

— Tem medo de sujar as mãos, capitão?

Thurstan olhou de relance, o rosto tenso.

— Que azar o nosso. É um bando grande.

Garwin assentiu.

— E agora serve pra correr?

— Não faz isso! — disse Arastine, colocando o braço à frente. — Anda rápido, mas não corra.

Eles seguiram em uma marcha acelerada. A vegetação se fechava atrás, os sons voltavam — gritos distantes, galhos se partindo, o zumbido de tiros perdidos.

A trilha terminou em uma encosta. Thurstan apontou.

— Por aqui!

O grupo saltou para um nível inferior da floresta. O solo era coberto por plantas largas, úmidas, pteridófitas de folhas espessas que se moviam levemente com o vento. O cheiro era doce, quase enjoativo.

Garwin se virou.

— Continuem. Eu cubro a retaguarda.

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