Sangue Azul Brasileira

Autor(a): NAI


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 4: A presa e o caçador.

Dia 30, mês 5  do ano 362, vinte cinco dias após a luta. 18:39 Krista - Cidade Baixa.

Mais um dia se passava; Louis voltava de mais uma caça, totalmente encapuzado, trazendo consigo dois coelhos brancos de olhos amarelos. Ele percorreu a cidade baixa, uma área pobre da capital, porém bem movimentada. Caminhando calmamente enquanto atravessava um beco escuro.

Ao sair do beco, ele ouviu dois guardas de vestes pretas com as mesmas máscaras entalhadas, gritando com um rapaz.

— Você viu este rapaz? — perguntou um dos guardas rispidamente.

— Nã — engasgou — Não senhor!

— Não sei por que continuamos procurando por ele — o guarda retirou o capacete — Você ouviu o que disseram sobre o incidente?

— Todos nós ouvimos.. Foi um verdadeiro massacre, quem imaginaria? — Riu — Logo o filho do nosso comandante. — Encostou na parede — Acho melhor pararmos por hoje.

— Com licença… Posso ir embora? — perguntou o rapaz encolhido.

— Suma logo daqui!

O rapaz rapidamente se retirou, correndo pelo beco escuro.

— Eu ouvi dizer que ele tem magia.

— Você está maluco? Não saia falando isso por aí! Mas caso seja verdade.. Eu temo o que possa acontecer a esse reino, o último… — Balançou a cabeça em negação — Melhor voltamos ao quartel, desde a prisão do Krave aquilo lá está uma zona.

Os dois guardas se retiraram, e pela primeira vez em quase um mês, Louis obteve notícias de Krave. Não conseguiu evitar de soltar um leve sorriso.

“Então você ainda está vivo..”

Sem perder o foco, continuou a avançar pelo beco estreito até alcançar uma casa de madeira velha.

Ao alcançar a maçaneta, ele a abriu calmamente e entrou. O chão, desgastado, rangia a cada pisada, enquanto o teto havia diversas áreas com goteiras. O interior possuía alguns poucos móveis: mesa, sofá, cama, alguns armários e uma lareira.

Louis deixou o capuz pendurado atrás da porta e se dirigiu à cozinha, Sobre a mesa, deixou um dos coelhos, levando o outro até a pia. Lavou-o cuidadosamente e o colocou sobre uma tábua ao lado. Retirou de um dos armários uma faca já desgastada, lavou-a e começou a retirar toda a pele do animal.

Em seguida, buscou em outro armário uma pequena panela, colocando-a sobre o forno a lenha. Voltou sua atenção ao coelho, cortando e o separando em partes. Dirigiu-se a um pequeno balde cheio de gelo e colocou as partes que não usuária. Apenas com a parte central do corpo, retornou à panela. Junto a ela, cebola, tomate, pimenta e uma flor especial na cor azul, todos já igualmente cortados, foram adicionados com água à panela. 

Dentro do forno, já se encontrava algumas madeiras cortadas, prontas para serem aquecidas.

“Uma casa de madeira e colocam o forno logo aqui?!“ 

Enquanto esperava a refeição cozinhar, Louis dirigiu-se a outro cômodo, onde estava sua cama e um armário médio. Ao abri-lo, deparou-se com sua adaga e o colar dado por seu pai juntamente de dois pares de roupa. Ao escolher a roupa, se dirigiu ao banheiro.

A água que ali escorria era pouca e fria, mas Louis já havia se acostumado com tal.

Ao finalizar seu banho, ele se secou e vestiu a roupa. Diante do espelho, arrumou seu cabelo liso para os lados, enquanto observava seu rosto já totalmente recuperado. Suas olheiras cercavam seus olhos como se já não dormisse há dias.

Às 19:14, sua comida estava pronta, pegou a pequena panela e levou à mesa e, com um talher também antigo e enferrujado, comeu lentamente enquanto pensava sobre o que fazer.

“Talvez eu devesse me entregar. Como será que meu pai e minha mãe estão? Talvez eu devesse ir vê-los também..”

Louis levou a carne à boca mais uma vez e, em um ato súbito de raiva, acertou o prato, fazendo-o voar longe. Com a cabeça cheia, ele logo encostou a cabeça na mesa e refletiu.

“Que merda eu to fazendo? Se o Krave foi preso, então meu pai que escondeu tudo até hoje… “ — Deu um leve soco na mesa, fazendo-a desmontar, derrubando o resto da comida — “Talvez eu devesse apenas descansar.”

Levantou-se da mesa e recolheu a sujeira que se espalhou por toda sala.

21:18 Já mais à noite a chuva recaía sobre a cidade, as janelas velhas balançavam sem cessar, as goteiras voltaram e dessa vez aumentaram, mas esses dias todos já o fizeram se acostumar com tudo isso. Dirigiu-se para a cama e se permitiu dormir mais cedo.

Quando a madrugada chegou, a chuva, que não dava sinais de parar, cessou abruptamente. Às 2:03, ouviram-se do lado de fora pequenos murmúrios. Louis, embora estivesse cansado, ainda possuía ouvidos aguçados. Mesmo dormindo, ele percebeu os tais murmúrios. Ele compreendeu a real situação, quando ouviu a maçaneta da porta se movendo. Normalmente, não faria barulho, mas, naquela casa tudo fazia.

Levantou-se com calma, apoiando-se na parede, mas não ousou dar nenhum passo naquele momento, até ter a certeza de que era uma invasão. Seu quarto e banheiro não possuíam janelas, então ele não esboçou preocupações com possíveis pontos cegos.

O barulho na maçaneta cessou por 5 segundos, até que..

cábuuum!!

Um estrondo.

Louis levou a mão ao bolso e percebeu: — “Droga! Esqueci a adaga”.

Novamente, aquela madeira desgastada voltou a ranger com os passos, quando então eles cessaram.

— Você está aí… Não é, Louis? — Uma voz feminina veio do outro cômodo. — Perdão se te acordei assim… Venha até aqui para conversarmos.

“Ela sabe meu nome…Quem é? Nyx? Não impossível, ela teria enviado seus capangas primeiro” 

Calmamente, Louis seguiu em direção ao seu armário se esforçando para gerar o mínimo de ruídos. Assim que conseguiu alcançá-lo, pegou sua adaga. Sem perder tempo, fez um corte em sua mão e, com ela apontada para onde deveria estar a invasora, lançou uma bola de sangue azulada que atravessou toda a casa.

Em meio à grande fumaça gerada, ele avançou com uma espada azulada, entretanto, quando chegou no que restou da sala, já não havia ninguém ali.

— Então é VERDADE!!! Você tem MAGIA!!. — disse a voz gritando

— Quem é você?! — gritou.

Naquele momento, uma sombra foi avistada em meio à fumaça, mas antes que conseguisse reagir, Louis foi acertado com força no rosto, o que o fez ser jogado com força contra a parede, atravessando-a e parando no meio da escura rua.

“Que força monstruosa é essa?”,  pensou cuspindo o sangue.

Louis encarou o buraco por onde foi jogado e ouviu passos se aproximando, até que, enfim, da poeira apareceu uma mulher com um curto cabelo loiro, olhos vermelhos, brincos em formato de sol, 186 de altura, usando um top verde, uma calça larga cor pastel e um par de botas pretas.

— Ele pediu para eu ser mais discreta.. Eu tentei né! Mas você chegou estourando tudo, assim ficou difícil, uff — suspirou se aproximando cada vez mais. 

— Quem você? — perguntou enquanto tentava se levantar.

— Se você for tudo o que me disseram, talvez eu conte — Deu um sorriso.

“Ela não parece fazer parte dos fieis, não possui nenhuma máscara entalhada na roupa, mas então por que..”

A misteriosa mulher continuou a se aproximar lentamente, com um pequeno sorriso em seu rosto.

— Calma! — Ela parou abruptamente — Eu não sei quem é você, mas imagino que se você está aqui, provavelmente é uma caçadora de aluguel. Eles te pagaram para me achar, certo?

A mulher interessada, abaixou a guarda e perguntou: — Sei onde você quer chegar, eu amo dinheiro, mas nesse caso não posso ir embora sem você.

— Imaginei — Deu um sorriso.

Ele juntou as duas mãos e fez um sinal de pistola — Vaza daqui sua esquisita — da ponta de seus dedos saiu uma linha azul de sangue, tão rápida que mal deu tempo da mulher desviar fazendo-a atravessar diversas casas atrás.

Os estrondo provocado fez com que diversas pessoas acordassem em suas casas, procurando saber o que estava acontecendo.

Louis aproveitou a oportunidade e saiu correndo em direção a um beco escuro.

“Consegui me livrar dela por um tempo.. Estou perto do portão principal, se eu for rápido consigo sair antes dela ver.”

Louis continuou a seguir o beco até uma rua totalmente sem iluminação das lamparinas, continuou avançando aos poucos, atravessando beco por beco, até conseguir chegar em uma rua que ligava diretamente ao portão central da cidade baixa.

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Ao olhar de longe, ele já conseguia visualizar uma silhueta, lhe aguardando em pé em frente ao portão.

— Essa maldita não larga do meu pé mesmo... — Coçou a cabeça enquanto caminhava em direção a ela. — Não pense que eu vou deixar você fazer o que fez agora pouco — gritou.

A mulher começou a avançar em sua direção.

Os dois andaram até 50 metros um do outro e se encarando, ela disse: — Você é interessante, agora entendo o porque me enviaram.

— Vocês prepararam tudo, não é? Os guardas que normalmente circulam por aqui, sumiram. 

— Não sei o que você quer dizer com “vocês”, mas não me interessa.

Louis deu um sorriso e, dando um pulo para trás, juntou as duas mãos novamente e lançou o mesmo ataque de antes, a caçadora o bloqueou com apenas uma das mãos, aproveitando a abertura ele lançou sua adaga que passou pelo rosto da mulher, fazendo um pequeno corte.

— Teve algum problema aí? — Sorriu

Ela levou a mão ao rosto, vendo o sangue nas mãos e fechou a cara.

— Eu vou te fazer pagar isso. 

Ela avançou em grande velocidade, quebrando a pequena distância entre eles. Seu movimento foi rápido e direto, ela mirou um soco em direção à barriga de Louis, que, por instinto, defendeu-se de última hora com as duas mãos.

O impacto do soco foi forte, fazendo Louis ser levado a alguns metros de distância. Seus pés deslizaram pelo solo molhado. A chuva, que havia parado, começou a cair novamente.

Louis se recuperou rapidamente, as poucas luzes presentes naquela região iluminaram os olhos vermelhos de sua adversária, que avançava como um predador desferindo uma série de golpes.

Ele conseguiu reagir rapidamente, esquivando-se e bloqueando os ataques. Cada movimento dos dois estava sendo processado rapidamente em suas mentes, a luta mais parecia uma dança entre dois opostos.

A rua, antes quieta, tornou-se cada instante mais barulhenta devido à chuva e ao atrito do combate. O som dos passos rápidos e os respingos de água criaram uma sinfonia, que ecoava no vento e nas paredes da construção ao redor.

Conforme a luta se estendia, a caçadora sorria de maneira sádica. Seus olhos vermelhos brilhavam com cada vez mais intensidade, refletindo a luz das tochas ainda acesas nas proximidades.

Em um breve momento de distração, a mulher deu um passo em falso. Louis aproveitou a oportunidade, concentrando toda sua força no punho esquerdo, ele a atingiu com um golpe certeiro na barriga, lançando-a a uma distância de 100 metros.

Sem dar tempo para que ela pudesse se recuperar, Louis avançou rapidamente. E com sua adaga em mãos novamente, ele saltou mirando em perfurar sua barriga. No entanto, antes que tivesse a chance de acertá-la, ela contorceu seus braços para trás e, com os dois pés, acertou a barriga dele com força, arremessando-o para mais longe ainda.

— Tsuchinoko, apareça! — gritou 

— O que você quer? Não vai me dizer que tá em apuros com esse ai. — De repente, ao redor da misteriosa mulher, surgiu um ser semelhante a uma serpente, de pele cinza e diversos pontos espetados em seu corpo.

— Claro que não, sua besta. Eu preciso da Orochi.

Louis de joelhos, encarou distante, tentando entender com quem ela estava conversando.

O ser de repente expeliu de sua boca uma espada com diversas gravuras na lâmina e com um cabo envolto por uma fita preta.

— Com quem diabos você está falando? E que espada é essa? — gritou de longe.

— Não consegue ver? Estranho.. — Tsuchinoko interrompeu. — Olhe para o Mukai dele. Esse garoto não possui nenhum treinamento.

— Então você consegue trocar socos comigo sem ao menos ter conhecimento básico em Mukai? — Ela riu — O chefe estava certo.

Louis sem prestar atenção, rapidamente fez um corte em sua mão direita e tentou criar uma pequena pistola.

“Fiquei esses dias todos sem usar direito, estou desacostumado” 

Com grande esforço, ele conseguiu criar uma de tamanho médio.

— Não sei o que você quer dizer com isso, muito menos me importo com essas palavras inventadas — Apontou a arma — Agora vamos terminar isso aqui.

A caçadora avançou com um olhar tenaz, e novamente a luta se iniciou. Louis constantemente tentava evitar os ataques da espada, enquanto procurava o momento exato para disparar.

Em determinado momento, ele conseguiu dar uma rasteira com sua perna direita, desestabilizando-a. Nesse instante, Louis apontou a arma, prestes a atirar. Porém, ela conseguiu, com a outra mão, se apoiar no chão e, usando os pés, chutou o queixo dele, fazendo-o se desestabilizar.

A mulher rapidamente se levantou e, com a espada, fez um corte na diagonal mirando na pistola, cortando-a ao meio. Com sua mão direita, ela pegou Louis pelo pescoço, deu-lhe uma cabeçada e chutou-o para trás, finalizando com um corte perfeitamente calculado do ombro à barriga, fazendo-o cair ao chão.

— Como eu disse, você ia pagar pelo corte, mas enfim agora que você acalmou..

No chão, coberto de sangue, que aos poucos se misturava à água da chuva, ele a encarou e, dando um último sorriso, disse: — Eu não pretendia te vencer assim.

Louis juntou as duas mãos, e todo o sangue e objeto criado por ele começaram a se mover e, antes que ela pudesse reagir, o sangue em volta grudou-se em seu corpo prendendo-a.

— Não diga essas merdas novamente. — Ele soltou as mãos e bateu uma palma — Agora veja.

O sangue que a cercava começou a pressioná-la com força; a caçadora que não esboçava tantas reações, naquele instante, começou a gritar de dor, largando sua espada em seguida. Assim, ele se levantou e, de frente para ela, fez a pressão parar.

— O sangue solidificado consegue ser tão duro quanto o aço.

Com sangue escorrendo por sua boca, ela disse: 

— Impressionante.Haha!. Você nunca teve nenhum problema com a reposição desse sangue? 

— Sim — Apontava para o corte que se curava em seu peito — O normal é repormos o plasma em nosso sangue em até 24 horas; já os glóbulos em si são repostos em 4 semanas. O meu sistema por inteiro, sempre teve um funcionamento diferente; minha reposição total pode acontecer em até 1 hora. 

Louis a encarava com um sorriso no rosto, em seguida se abaixou e pegou a espada caída.

— Obviamente não é tão simples assim, eu tenho um limite natural, então se eu usar mais que meu corpo repõe nesse tempo… Bom talvez eu tenha problemas, apenas uma vez cheguei perto desse estado.

Ela retribuiu o sorriso.

— Gostei dessa magia, adoraria tê-la para mim. Daria para usá-la mais discretamente que a minha.

Louis encarava surpreso.

— Sua? O que você quer dizer com isso?

O sangue que antes estava solidificado, começou aos poucos a se rachar até quebrar em pedaços. 

— Sabe, você me divertiu, talvez você mereça saber ao menos meu nome. — Sacudiu a poeira pelo corpo.

— Mas… Como?!

— Esqueci que você não consegue enxergar o Tsuchinoko; talvez sem ele as coisas ficassem um pouco mais pesadas para você. 

Sem tempo para descansar, ela deu um rápido chute em Louis, fazendo-o largar a espada, já com ela em mãos, flexionou suas pernas e avançou em alta velocidade, passando por Louis e cortando o corpo dele em diversos pontos.

— Está feito. Meu nome é.. — Antes que tivesse tempo para dizer, Louis se virou e gritou:

— Merda!! 

Ainda de pé tentou desferir um golpe no rosto dela, mas antes que a acertasse, com o girar rápido de sua espada, ela decepou sua mão esquerda e acertou um soco em sua barriga, finalizando-o

— Prazer! Me chamo Mika Claus. — Segurou Louis pelo cabelo — O chefe não vai gostar disso. — Jogou ele nos ombros. — Vamos indo, espero que aguente até lá.

 



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