Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 8 – Arco 3

Capítulo 97: Demônio

Em meio a cidade que parecia se desfazer, após seu encontro não muito agradável e o presenciar do fim de um guerreiro, o velhote de cabelos brancos e olhos dourados desapareceu nas ruelas. Ele assistiu a curandeira, com uma mentalidade admirável, mas que parecia se degradar cada vez mais, rumar sozinha em direção a algum lugar antes de deslocar seus passos na direção contrária.

Ele se misturou à cidade e seus passos lentos não podiam ser ouvidos. Com uma expressão sem qualquer sinal de emoções, o velhote guardou sua espada claymore, transformando-a novamente em uma simples pulseira de fios trançados pretas, que ocultou-se sob as mangas da roupa.

À distância, ouviu explosões e sons de combate. Sentiu a terra tremer levemente e vozes bem longínquas. Ainda que não presenciasse nenhuma daquelas situações, era quase como se soubesse exatamente o que acontecia. E, evitando se aproximar, rumou pelos becos na direção do palácio. Em silêncio completo, ao som ambiente e de seus solitários passos, Albert continuou sua caminhada.

No caminho, acabou parando diante de um ou dois bandos de mors. As criaturas feitas de carne e sangue, com ossos expostos e baba escorrendo de suas bocas cheias de dentes estavam prontas para atacá-lo. No entanto, quando as íris douradas eram levadas na direção daquelas criaturas, elas imediatamente recuavam, abaixando até sumir qualquer sinal de ameaça, Não era como se Albert fizesse algo — ele sequer precisava fazer. Sua presença intimidade era o bastante para fazê-los entender que, ainda que fosse apenas um, aquela presa não era nada fácil de ser capturada.

O instinto de sobrevivência e ameaça daquele que era mais forte predominava diante dos números. Então, mesmo criaturas do tamanho de cavalos ou leões recuavam, deixando-o passar. Albert não precisava nem conjurar sua espada para isso.

Seu andar elegante, sua postura digna de um homem da realeza, e a serenidade em sua aura — apesar de poder direcionar uma pressão assustadora em alvos específicos — permitiu que se aproximasse bem a tempo do grande palácio real.

Ele ainda podia ouvir sons vindos da cidade, mas ergueu seus olhos para a construção que havia se rachado e pedaços dela haviam caído em direção ao chão, acumulando-se como escombros. Observando aquilo com um ar apático, seus passos continuaram a rumar. 

Foi quando precisou parar e se virar na direção de onde os ventos mudaram. E então, dando um passo para trás, ele desviou de um golpe que despedaçou o chão atrás de si, criando uma cratera. Os pedaços voaram e poeira entrou em seu nariz, o fazendo espirrar baixinho. Enquanto coçava o nariz, afinando os olhos na direção da pessoa responsável por causar tamanha destruição, a expressão apática de Albert se tornou levemente mais dura, mais fria.

Quem se aproximou a passos lentos, mas pesados, foi uma mulher de cabelos negros estilo short bob e olhos igualmente escuros. Sua pele branca, unida à vestimenta, dava-lhe um ar distorcido naquele ambiente caótico. A única cor que quebrava os tons preto e branco de sua aparência era o cachecol roxo que pendia de seu pescoço, voando ao vento quando se aproximou a uma distância segura do velho.

Os olhos dourados e negros se encararam.

Albert baixou os ombros e parou de coçar o nariz. Gê uniu ainda mais as sobrancelhas, fazendo uma expressão de raiva crescente. Era como se os sentimentos lentamente crescessem, dando-lhe aquela aura perigosa.

Não eram necessárias apresentações para nenhum dos lados — ambos sabiam quem eram e a razão daquele embate.

Porém, o silêncio que Albert deu após olhar a curandeira de cima a baixo com um ar frio foi ensurdecedor.

— Você finalmente chegou… Senhorita Gê.

Ela apertou os lábios.

— Estive lhe procurando… Esse tempo todo. 

Albert ficou em silêncio. Gê deduziu imediatamente que era porque ele sempre soube, e por isso continuou a se movimentar. Ele jamais permitiria que eles se encontrassem caso não fosse o acaso do Destino ou pelas próprias vontades dele. 

Mas a curandeira não havia passado uma semana inteira se preparando para aquele momento por nada. Ao ver sua reação imediata, Albert suspirou.

— Então, você realmente deseja isso?

— Eu não estaria aqui por outra razão — respondeu ela rapidamente, curta e grossa.

Para controlar as próprias emoções, ela tragou de seu cigarro com brutalidade, quase sugando as cinzas para si mesma. Enquanto fazia isso, os restos que caiam no chão fizeram sair cada vez mais e mais raízes com espinhos, enroscando em suas pernas e crescendo. Elas nasceram como aquelas que usava para curar, mas se tornaram brutas, comandadas através de seu poder e sentimentos borbulhantes.

Gê terminou de tragar seu cigarro até o final e expirou a fumaça entredentes, dando todas as cinzas que possuia para a terra, e largou os restos para ela consumi-la.

— Prometi que te mataria com minhas próprias mãos, afinal.

Instantaneamente a isso, um chicote foi segurado por sua mão direita — era feito de raízes com vários espinhos nas pontas, de uma extensão muito além do que o velhote podia enxergar. Ao seu redor, o restante de seu poder fez com que as raízes se tornassem tão extensas e grossas quanto as de uma árvore. 

Fechando os olhos uma vez antes de abri-los, Albert ergueu o rosto e pronunciou as palavras que desencadeariam na explosão da curandeira:

— … Venha.

O chão rachou sob seus pés quando Gê fez as raízes cheias de espinhos se estenderem ao redor deles como numa prisão. Elas os fecharam em um círculo único, impedindo que pudessem escapar. Enquantro observava essa transformação, Albert virou a cabeça, mas seus olhos dourados captaram a chegada de uma ameaça. Era como uma cobra pronta para picá-lo, e ele deu um salto para o lado, desviando da chicotada desferida por Gê.

O golpe, mais uma vez, abriu um buraco no chão e fez pedaços caírem para dentro. O velhote desviou várias e várias vezes das investidas da curandeira, que balançava o braço direito ferozmente. Os ataques voavam contra seus pés e o faziam saltar, então vinham de baixo para cima, mas mesmo sem ter onde se apoiar, seu corpo era capaz de se inclinar o bastante para evitar ferimentos. 

— … Maldito — praguejou baixinho Gê, ao ver que seus golpes não o acertavam mesmo daquela distância e em um espaço relativamente pequeno.

Em resposta aos seus reflexos anormais, ela optou por usar um outro estilo de combate. Algumas das raízes espinhosas se desenrolaram e avançaram por conta própria também, criando assim um misto de golpes para ele desviar. Albert deslizou seus olhos para a cena que era criada e franziu a testa.

Agora que os golpes vinham de praticamente todos os lados possíveis, era impossível um ou outro arranhão passarem despercebidos. Ele sentiu sua carne queimar e sangue escorrer conforme os espinhos eram capazes de alcançá-lo, mas as cobras não o acertavam diretamente. 

Era uma batalha de resistência e reflexos. Gê precisava ser capaz de acompanhar seus movimentos e garantir que sua fuga fosse difícil ou impossível, enquanto Albert moldava seu corpo para desviar dos ataques que pareciam cercá-lo. Em determinado momento, ele precisou pisar sob as raízes e apoiar-se nelas para desviar dos golpes mais perigosos, o que imediatamente fez com que sua carne fosse perfurada por eles em um só segundo. O sangue voltou a escorrer e a carne queimar, mas ele não demonstrou qualquer sinal de dificuldade. 

— Parece que não tenho escolha.

Eles poderiam permanecer naquilo para sempre, mas eventualmente Gê conseguiria se sobressair. Enquanto brandia um chicote nas mãos, ela foi capaz de acender outro cigarro e tragá-lo com um pouco mais de calma, embora estivesse perfeitamente focada no combate. Seus olhos negros, ainda com um brilho furioso, acompanhavam silenciosos os movimentos do adversário.

E então, quando Albert mostrou sua pulseira à luz do dia, a arma se revelou, transformando-se dos fios negros em uma gloriosa espada claymore. Tal qual seu modelo, ela era grande e pesada, mas sua lâmina poderosa foi capaz de revidar os ataques que se seguiam. Com um brandir, ele partiu ao meio as cobras de espinhos, impedindo que voltassem a atacá-lo, e Albert rasgou as raízes que se acumulavam.

Gê estalou a língua.

— Então, você finalmente a revelou… Doanta, A Invencível.

A espada segurada pelo velhote, que após destroçar todas os chicotes, começou a andar em sua direção, não era tão visualmente graciosa quanto Gore, A Magnânima. Enquanto o tesouro da realeza era extremamente belo e de uma riqueza absoluta, aquela portata pelo velhote estava longe de ser visualmente agradável. Ela era simples, com prata e preto sendo suas cores principais. Entretanto, apesar de sua simplicidade, o poder de resistência aderido a ela estava longe de poder ser calculado.

Tal como seu nome, a espada era, literalmente, invencível. Ninguém jamais poderia sequer rachá-la ou causar-lhe danos — mas era apenas isso. Em si, não havia nenhum poder dentro dela, e ela não transmitia tal resistência ao portador.

Com fios de sangue escorrendo por todo o corpo, Albert ergueu os olhos dourados para Gê, que mostrava os dentes, irritada.

— Acabou?

Ela praticamente mastigou o cigarro ao ouvi-lo dizer aquilo com serenidade.

— … Desgraçado.

Eu sempre soube que precisaria encarar meus pecados.

Seus pensamentos, acompanhados dos desvios, foram aturdidos pelos chicotes cheios de espinhos que voaram contra seu rosto. Albert desviou de uns e cortou outros, mas percebeu que suas consistências estavam ainda mais fortes, então não foram cortados de imediato, precisando colocar um pouco mais de força em seus movimentos para tornar isso real.

Ainda que continuasse fugindo, eventualmente, seria necessário.

— … Como consegue… Como consegue continuar lutando desse jeito apático, Albert?!

Sem conseguir mais conter suas próprias frustrações, vendo o espadachim lidar com os ferimentos com uma tranquilidade assustadora, Gê ergueu a voz. Ela continuou a brandir seus chicotes contra ele, alguns até foram capazes de perfurá-lo um pouco, mas bem a tempo do velhote cortá-los e se afastar com saltos.

Os ombros da curandeira tremiam. Ela bateu o chicote que segurava contra o chão e fez erguer poeira, mas mesmo assim o espadachim continuou a desviar e relutar. A lâmina de Doanta rasgava até mesmo os ares, fazendo toda a sujeira que ameaçava seu campo de visão desaparecer. Ele afastou o ar e, ao mesmo tempo, conteve as raízes por tempo o bastante para cortá-las.

— V-Você ousa… Você ousa me enfrentar desse jeito?! — Gê segurou o mais forte que conseguiu o chicote, sacando outro cigarro para fumar.

O chicote que foi levado ao chão repentinamente se ergueu e segurou sua canela — então, como num flashback da luta anterior, ele viu seu próprio corpo voar pelos ares, batendo contra a parede de espinhos. Sentiu-os perfurarem suas costas e ele tossiu sangue, mas não demonstrou um único gemido ou expressão de dor além do franzir de sua testa.

Parecia que aquilo corroía Gê por dentro. Aquela falta de qualquer sofrimento, de qualquer sentimento em relação a ela ou a si mesmo… 

— Então, esse sempre foi o seu plano? Me humilhar dessa forma? Me permitir ir atrás de seu paradeiro por tantos anos, preparar uma vingança adequada… Para isso?!

Ainda com o chicote enrolado em sua perna, a curandeira levou o corpo do velhote para os ares, batendo-o contra as paredes de espinhos. Eles perfuraram sua carne e fizeram sangue jorrar rapidamente, e, aos poucos, a resistência de Albert começou a se esvair.

Ele poderia ser um espadachim habilidoso e ter sido um lutador admirado no passado — mas o tempo passou, e seu auge não era mais o mesmo. Era inevitável que a juventude superasse a geração antiga, e mesmo Gê, que não era exatamente uma pessoa agraciada pelo poder ofensivo, era capaz de desferir golpes mortais contra o velho.

Mas mesmo vê-lo ter seu corpo rasgado e desfigurado, com sangue e pedaços sendo arrancados, não parecia o bastante. Afinal…

— … Como… Pode…? — ela continuava a se perguntar, com lágrimas de raiva lhe subindo aos olhos — Como pode ser tão negligente com seus atos e responsabilidades, Albert?!

Ela bateu seu corpo contra o chão e criou um buraco. Poeira se ergueu, acabando com sua oportunidade de vê-lo estendido. Depois de tantos ataques, era impossível que continuasse a se movimentar com tanta maestria quanto antes. Lentamente, Gê afastou a raiz que segurava a perna dele e tentou abafar a poeira para enxergá-lo melhor.

— Meus pecados não podem ser pagos por ninguém mais que eu mesmo — disse ele, atrás dela, de braços cruzados. Gê sentiu um arrepio percorrer sua espinha, e ela congelou no lugar — Portanto, não existe razão para demonstrar qualquer remorso ou arrependimento perante as pessoas que guiei ao sofrimento.

Era um pensamento terrível e que a curandeira não estava disposta a entender. Apesar de corpo a corpo não ser seu estilo, ela desferiu um soco na direção do velho que apareceu, intacto, atrás de si. Porém, com um passo, ele desviou, permitindo que ela praticamente voasse em direção ao chão, mas conseguiu recuperar o equilíbrio em seguida.

— Estou vendo que minhas ações causaram impacto em seu coração.

— … Você… É um desgraçado…!

Como se entendesse aquilo, o velho apenas suavizou as sobrancelhas, tal como sua expressão.

Estava claro que, mesmo parecendo muito irritada, ela parecia ainda mais frustrada por seus golpes e esforços terem sido em vão. Afinal, o corpo que deveria ter sido perfurado e ter tido ferimentos cruéis a fazendo ganhar na resistência surgiu perfeitamente bem ao seu lado. 

— Não deveria ficar tão surpresa — como se lesse sua mente, Albert falou — Como compartilhamos do mesmo elemento, somos capazes de entender perfeitamente um ao outro… Embora seu controle de absorção seja perfeito, minhas hipnoses e ilusões são igualmente boas, não acha?

Pela primeira vez, ele abriu um pequeno sorriso, como se estivesse se divertindo. Apesar disso, não surgiu em seus olhos aquele mesmo sentimento, e Gê entendeu que era um reflexo de sua personalidade terrível.

— Não, não seremos capazes de nos entender… — ela arrumou a postura e enxugou as lágrimas que ameaçou escorrer por seu rosto — … E eu jamais lhe perdoarei.

— … Está em seu direito, afinal — respondeu ele, dando de ombros e desfazendo o sorriso.

Albert não mais segurava sua espada — ou melhor, será que ele a havia desembainhado em primeiro lugar?

A curandeira apertou os lábios e quase os mordeu com os dentes, impaciente. 

— Sabe quantas vidas destruiu por conta de seu ego e ações impensadas? 

— … Eu-

— Você tirou tudo de mim!

Ela o interrompeu imediatamente, apontando-lhe o dedo indicador. O velho deslizou as íris douradas dele para a ação, e então voltou a lhe fitar com apatia. Percebendo que, não importava o que dissesse, suas emoções não viriam à tona, Gê transformou sua expressão em puro ódio.

— … Você é um demônio.

Mas mesmo aquelas palavras não foram capazes de mudá-lo, sequer o fizeram reagir, como se seu orgulho fosse ferido. Ela queria fazê-lo sofrer, queria vê-lo se arrastar pelo chão pedindo para poupar sua vida, queria destruir cada um que amava diante de seus olhos… Queria fazê-lo passar tanta dor quanto ela mesma passou. Entretanto, nada além de mais e mais ódio fervia em seu peito, sem qualquer satisfação pelo sofrimento passado sendo capaz de envolvê-la.

— Eu sei.

A resposta dele veio atrasada, mas ela a ouviu perfeitamente. Entretanto, mesmo erguendo as íris negras, esperançosa de vê-lo demonstrar qualquer reação…

— Portanto, acabemos com isso.

… Albert apenas inclinou levemente a cabeça para o lado, as íris não mudando um centímetro de lugar. Sua aura fria, quase impassível, era quase dolorosa de se ver. Mas, ao contrário de compaixão por sua falta de noção, a curandeira apenas ficou ainda mais furiosa.

— … Não me culpe pelo o que acontecer a seguir.

E assim, largando a mão de seu chicote despedaçado e cuspindo o resto do cigarro, ela se aproximou dele com passos pesados antes de lhe desferir um golpe com a ponta afiada da raíz que saiu da manga de seu jaleco.



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