Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 4 – Arco 3

Capítulo 29: Conversa na Madrugada

Era madrugada. Os corredores do palácio estavam relativamente vazios. Não era para menos, afinal, já era passado a hora de todos retornarem aos seus respectivos quartos. Cerca de mais de uma hora havia passado desde que Zero havia conversado com Ryota pela última vez. Agora, ele estava caminhando pelo castelo silencioso, o som de seus passos ecoando infinitamente. O lugar era iluminado pelas luzes fracas e internas, as cortinas das janelas foram fechadas para que a luz da lua não adentrasse e interrompesse o sono de qualquer hóspede. Poucos guardas faziam ronda ali, evitando andarem para que suas armaduras não fizessem sons altos e irritantes. A maior parte da segurança se concentrava do lado de fora do palácio.

Porém, era curioso que pessoas comuns precisassem cuidar daquelas que estavam nos quartos. Afinal, na verdade, eles eram facilmente muito mais poderosos do que pareciam à primeira vista. Era quase irônico que um grupo de simples guardas precisasse vigiá-los. Na verdade, deveria ser o contrário.

De toda forma, para aqueles que mantinham a guarda no corredor dos quartos dos nobres, a chegada de Zero não foi estranha, então eles sequer se moveram. Ele ainda era um guardião de Fuyuki, no fim das contas, e poderia visitá-la quando quisesse. Entretanto, ele não estava ali para vê-la.

O rapaz passou a passos lentos e firmes na direção de uma das portas, respirando profundamente para que mantivesse sua coragem de pé, até que algo lhe tocou no ombro. Zero deu um pulo, mas não gritou quando se voltou para a beldade atrás dele.

Ela era consideravelmente mais alta e possuía uma face exuberante, apesar de não usar muita maquiagem. Era uma mulher de cabelos esverdeados e olhos azuis profundos que pareciam analisar os arredores. Mas, no momento, se concentravam completamente no garoto surpreso. Ela cruzou os braços com suavidade, parecendo brilhar sob a luz fosca do corredor quando abriu um sorriso enigmático.

— Ora, eu te assustei? Peço perdão por isso. Não era minha intenção — Sofia falou com uma graciosidade quase tocável — Mas eu não pude deixar de me perguntar: “O que será que uma figura peculiar como essa faz a esta hora da madrugada fora de seus aposentos?” 

Zero baixou os ombros diante das palavras. Ele sabia que não podia ser grosseiro com ela, agora. E nem haviam razões para tal, por mais que desgostasse de seu jeito superficial de falar e pensar. 

Havia em Sofia, apesar de toda a sua beleza, uma sensação estranha, que não era ameaça, irradiando de seu ser. Era confuso demais. Como uma atração unilateral, que fazia o corpo querer conhecer o desconhecido e tocar naquilo que era proibido. Ter conhecimento daquilo que lhe era estranho, mas não demonstrava ameaça. 

Era essa a sensação de estar diante de Sofia Megalos.

Zero, ignorando seus próprios pensamentos, fez uma rápida reverência. Ele não deveria esquecer de seus modos como guardião, no fim das contas.

— A senhorita estava me observando?

— Não. Apenas senti sua presença por perto. E então? Não me parece que estava indo ao toalete.

Sofia observou que ele se dirigia perfeitamente ao quarto de outro nobre e assim apontou com o queixo.

— … E este também não é cômodo de sua mestre. 

Pressionado por suas palavras e presença, Zero se manteve em silêncio. Estavam falando baixinho, mas aquilo ainda o incomodava. Lendo-o como um livro, Sofia deu uma risadinha com a garganta.

— Pode dizer e fazer o que quiser, Zero Furuto, mas você ainda não é um nobre. Nem no papel, e nem aqui — Ela tocou o próprio peito, acima do coração — Vai precisar de muito mais do que isso para se provar digno.

— Como o quê?

— Parceiros de crime.

O rapaz torceu as sobrancelhas para o que ouviu, mas ela apenas se divertiu ainda mais com essa reação esperada.

— Estou me referindo a contatos. Não pode sobreviver neste mundo sem carregar isso consigo. É como sacar uma arma invisível e atirar sem que percebam que sequer foram alvos. As palavras têm bastante poder, sabia?

— O que está me sugerindo, então?

Parecendo fisgar sua atenção, a bela moça deu alguns passos para trás, tocou na maçaneta de uma das portas e a abriu, deixando o braço estendido para dentro, como se o convidasse para entrar.

— Pode continuar correndo em círculos até a Coroação e perder a oportunidade de ganhar o coração da família real e da nobreza, ou tomar um drinque comigo para que possamos conversar melhor sobre isso. A escolha é sua.

— Está me oferecendo seu apoio?

— Interprete da forma como desejar.

Zero cruzou os braços.

— Que curioso. Achei que talvez fosse contra reerguer uma família nobre.

— Não sei de onde tirou tal informação sobre mim, mas está terrivelmente enganado.

— Então irá apoiar minha retomada?

Em resposta à sua pergunta, Sofia apenas deu de ombros e indicou com o queixo a porta aberta ao seu lado. 

Zero desceu os olhos prateados, levemente escuros em suspeita, para o quarto meio iluminado, e então para a Megalos diante de si. Ela, em momento algum, retirara o sorriso do rosto. Era uma isca perfeita.

— Qual sua condição?

— A que se refere? — Sofia inclinou a cabeça — Só gostaria de um pouco de companhia nesta madrugada tediosa. Mas se está se referindo à condição para eu lhe ajudar… Bem, existe algo que quero de você. Mas podemos conversar melhor sentados em um lugar mais privado, não acha? 

Ela tinha razão. Haviam guardas por todos os cantos os observando, e não havia a garantia de que os ouvidos de outros nobres ou seus guardiões estivessem à espreita, prontos para fazer bom uso de toda palavra e atitude que tomassem agora. Após alguns segundos em silêncio, Zero soltou um suspiro frio e apenas caminhou para dentro do quarto de hóspedes padronizado, acompanhado logo em seguida por uma Sofia sorridente.

***

— Confesso que não estava esperando uma visita sua a essa hora. Ou melhor, sequer achei que viria ao meu encontro por vontade própria.

O clima de tensão havia se dispersado como uma pena caindo em direção ao chão. Assim que o rei se colocou de pé e se aproximou, ele pediu para que dissesse o que desejava dialogar.

— Peço perdão por minha visita fora de hora, Majestade. Mas há algo que preciso conversar com o senhor.

Como não havia dito diretamente o assunto, Fanes pareceu curioso. Então, ele indicou com a mão para que ela se colocasse de pé e o acompanhasse até a roda de poltronas que estavam em frente a uma lareira bem aquecida. Parecia que ele não estava muito afim de sentar em uma mesa para conversarem mais seriamente, então adotou uma forma mais casual. Bem, não que Ryota fosse reclamar. Ela também estava sentindo bastante frio, então acompanhou-o até as poltronas e se sentou.

Seu corpo afundou e relaxou. Ela não conseguiu deixar de soltar um suspiro de tranquilidade. Era realmente uma posição agradável. O calor do fogo chegava aos seus pés e pernas, se espalhando lentamente para seus dedos e resto do corpo. Ryota reparou que Fanes havia colocado de lado um livro, com um título ao qual não conseguiu ler, de lado. Ficou surpresa que fosse o tipo de pessoa que lia antes de dormir e seu conceito com o rei cresceu um pouquinho, mas ela logo deixou aqueles pensamentos bobos de lado para se concentrar na conversa.

Então, quando abriu a boca para falar… Fanes bateu palmas.

— Ah! É mesmo! Eu deveria servir um chá! Ou melhor, um café. Ouvi falar que não gosta de chá, não é? — O rei, de repente, pulou da poltrona e correu até o outro lado do quarto, e então voltou tão rapidamente quanto foi, trazendo duas xícaras, uma jarra com leite e uma garrafa térmica em uma bandeja.

Ryota quase pulou na direção dele quando o rei fez menção de que iria tropeçar no tapete, mas ele milagrosamente conseguiu recuperar o equilíbrio e pousar o que carregava na pequena mesa diante deles.

Agora entendo um pouco da preocupação do Miura. Esse cara é realmente sem jeito.

— Majestade, está tudo bem?

— Aaaah, está sim. Me pergunto quem foi que colocou aquele tapete ali. Hmmm.

Ele estava ali o tempo todo!

Ryota quis gritar, mas se conteve. Em contrapartida, não conseguiu segurar direito a pequena risada que lhe escapou aos lábios, mas que logo se transformou em uma careta. Suas bochechas avermelharam de vergonha ao perceber que tinha sido desrespeitosa.

— Ah… Sinto muito — ela cobriu os lábios e desviou os olhos, mas Fanes apenas sorriu abertamente, concentrado em servir as xícaras.

— Está tudo bem, de verdade. Para ser honesto, fico feliz em saber que posso recepcioná-la desta forma. Na verdade, a pessoa mais exagerada em relação a essas regras de conduta e normas é o Miura. Ele é simplesmente insuportável algumas vezes, sabe? Prefere com leite ou sem?

— Com leite.

— Aqui tem um pote com açúcar se preferir adoçar. Ah, e tem um adoçante também, só um instante que vou buscar.

Ryota pegou a xícara entregue por Fanes e o observou retornar para buscar o adoçante. Algo nela, depois desses poucos minutos de conversa com o rei, pareceu relaxar. Ela deu um gole no café amargo e sorriu. Antes, quando havia conversado com Edward, tinha ficado realmente preocupada com a sua relação com o pai. Pelas palavras do príncipe, Fanes parecia um tipo de pessoa horrível que maltratava os outros.

Mas, na verdade, ele só parecia bastante desajeitado em ter que lidar com as pessoas. Ou, talvez, ele sequer percebesse isso direito. Ryota reparou que ele sempre era bastante gentil com todos, até com os nobres, ao qual deveria tratar com respeito. Ele poderia simplesmente ser ignorante e arrogante, afinal, era um superior, mas atuava de forma contrária. Sempre elevando o clima e sorrindo, agindo normalmente em qualquer situação. Até mesmo diante de seu próprio reino, durante o discurso, ficou claro que ele nada mais era que desajeitado. Havia em Fanes uma alegria contagiante que fazia qualquer um sorrir ao seu lado. Era impossível ficar rígida ou temerosa perto dele.

Ele falava e agia com ela como se fossem amigos de longa data. Como se ela não o visitasse há anos e agora poderiam colocar os assuntos em dia. Era o tipo de clima agradável que acontecia entre ela e Fuyuki, às vezes, quando se sentavam juntas para beber de um bom vinho. Fanes poderia ser o tipo de pessoa que usava do álcool para se aproveitar dos outros, mas não. Ele lhe ofereceu café. E sabia que desgostava de chá desde cedo, de alguma forma.

Foi algo bastante bobo, mas a deixou feliz.

Ryota pressupôs que os alertas e falas de Edward na verdade fossem apenas imaginação dele. Quer dizer, olha para ele. Fanes estava literalmente saltitando na direção dela com um sorriso trazendo o adoçante. É possível que ele fosse apenas desastrado com as palavras e ações perto do filho, que também agia rigidamente perto dele. É possível que, por saber que ele era sem jeito nestas situações que exigiam seriedade, Fanes buscasse o melhor para seu próprio filho, o que poderia ter gerado um certo mal entendido entre ambas as partes. Talvez, de fato, uma conversa realmente acertasse as coisas.

De certa forma, ambos fingiam ser quem não eram perto um do outro. Edward, por baixo daquela máscara de quem estava certo de tudo o tempo todo, tinha um lado brincalhão e que ficava envergonhado com facilidade. Havia também seu lado temeroso e amargurado pela sua má relação com o pai. Fanes, em contrapartida, apesar de agir normalmente perto dos outros, era bem mais sério com o filho. Talvez ele desgostasse desse seu lado descontraído? Era realmente esquisito e Ryota não sabia dizer com certeza apenas pensando.

Talvez fosse uma boa ideia falar sobre isso naquela conversa? Ela considerou se poderia ajudá-los a se reconciliarem de alguma forma quando Fanes colocou em cima da mesa o adoçante e se sentou, dando um suspiro cansado.

— E então? Como está o fogo?

— Está ótimo, obrigada, Majestade.

Fanes sorriu e também tomou sua xícara em mãos, adicionando uma quantidade grandiosa de colheres de açúcar antes de beber com gosto.

— E então? Sobre o que gostaria de falar?

— Certo. Primeiramente — Ryota pousou a xícara na mesa, contendo seu nervosismo agora que ela tinha virado centro das atenções — Me permite pedir desculpas por antes.

Ela inclinou a cabeça e assim falou.

— Hã? Pelo o quê, exatamente?

Ele se esqueceu???

Fanes inclinou a cabeça, sem entender. Ryota apenas o olhou nos olhos, mantendo o queixo reto, como foi ensinada a fazer, e continuou:

— Acredito que minha apresentação foi bastante indelicada e talvez o fator de eu ter sido nomeada como guardiã sem seu consentimento tenha afetado a forma como o senhor me vê. Em nome de meu mestre, e também por tê-lo envergonhado diante da corte nesta noite, eu peço perdão, Majestade.

Ryota novamente inclinou a cabeça e assim pediu, deixando o rei em silêncio.

— … Por favor, levante a cabeça, Ryota. 

Ela obedeceu, com cautela.

— Não precisa pedir perdão a mim. Estou ciente de que algumas vezes Edward pode ser um pouco precipitado com suas decisões, então já deveria estar acostumado. Sinto que posso tê-la magoado pela forma como reagi, então acho que também devo pedir desculpas.

— Hã?! N-Não, claro que-

Mas Fanes já havia inclinado a cabeça também, deixando Ryota chocada e completamente sem graça. Ela balançou as mãos no alto, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas com o ato. Foi tão repentino e tão… Sutil.

— P-P-Por favor, levante a cabeça, Majestade. Não há necessidade disso. Está tudo bem, de verdade. Por isso, por favor…

Fanes fez como pedido e, vendo-a completamente perdida em como agir, deu um sorriso gracioso. 

— Parece que nós tivemos uma primeira impressão bem errada um do outro, não é? Não tinha percebido que poderia ficar nervosa dessa forma. Por favor, pode se soltar um pouco mais comigo. Neste momento, não sou um rei, está vendo? — ele apontou para a própria cabeça, isenta da coroa — Sou apenas Fanes, um homem que gosta de passar suas noites frias lendo um bom livro perto da lareira e bebendo café. Pelo jeito, nisso nós somos um pouco parecidos, não é?

Ele balançou os ombros, deixando de lado sua forma boba de falar e agir, tentando acalmá-la. Ryota, então, respirou fundo e limpou os olhos, dando um outro gole no próprio café.

— Sim. É verdade. 

— Como foi depois… Daquilo? Conseguiu se acalmar?

O rei torceu as sobrancelhas e lembrou a Ryota sobre seu estado de algumas horas antes, quando havia quase enlouquecido completamente. Fanes provavelmente reparara em seu estado, mas só veio a comentar sobre agora. Talvez porque tenha percebido que ela conseguiu superar isso.

— Sim, Majestade. Peço perdão por isso, inclusive. Eu… 

Percebendo que ela tinha hesitado em continuar, Fanes falou:

— Imagino que deva ter sido difícil para você. Sei que Miura pode ser um pouco… Extremo, às vezes. Mas estou certo de que ele só desejava o seu bem e o de todos ali.

Ryota não respondeu.

— Ouvi falar a respeito de seus atos, também. A senhorita Fuyuki foi muito elogiada, mas estão especialmente curiosos sobre você. Conversar com alguém que teve contato diretamente com uma Entidade e sobreviveu é algo raro nos dias de hoje. Ah, sinto muito, não quero trazer memórias ruins à tona, então…

— Não, não. Está tudo bem. Quero dizer, não que eu tenha superado, mas sinto que estou sendo capaz de lidar com isso pouco a pouco. É difícil, mas sei que um dia conseguirei. 

Ela esperava que suas palavras esperançosas não deixassem claro sua falta de expectativa sobre tudo o que acabou de dizer. Evitando que isso acontecesse, mudou rapidamente de assunto:

— Estive conversando com o príncipe Edward e percebi que temos muito em comum. Bem, vivemos vidas completamente diferentes, é claro, mas sinto que ambos passamos por algo igualmente difícil. 

Fanes apertou os olhos para ela, esperando que continuasse. Ryota deu um sorriso dolorido.

— Eu também perdi minha mãe há alguns anos — ela não reparou que o rei tinha deixado o queixo cair levemente ao ouvir essas palavras — Acho que há menos tempo do que ele, na verdade. Mas, mesmo se lembrando bem pouco, o Edward parece realmente sentir falta dela. Da presença dela. — Tocando neste assunto, ela engoliu em seco, ainda sem olhar para Fanes — Nessas horas, acho que ter Vossa Majestade como pai deve ter ajudado. Ter alguém para apoiar suas dores e superar uma situação difícil dessas… Não tem preço. Eu fico realmente feliz… Dele ter tido alguém assim.

Quando ergueu os olhos meio umedecidos, Ryota encontrou uma feição estranha a olhando de volta. Fanes havia paralisado completamente, mantendo fixo nela os olhos claros que derramavam lágrimas. Mas, na verdade, não apenas lágrimas escorriam.

— Ah?! Majestade! Seu café, seu café!

— Ahh? Aaaaaah?! Quente, quente, quente!

Depois de terem conseguido limpar o café quente que manchava suas roupas, Fanes voltou a se sentar, dando um suspiro.

— Sinto muito, eu só… Fiquei um pouco surpreso. Acho que é a primeira vez que escuto que alguém conseguiu fazer meu filho… Desabafar. 

— É tão raro assim?

— … Sim. Nem eu consegui ser capaz disso. Então fico um pouco feliz de que tenha conseguido se aproximar dele a esse ponto.

Ryota pensou que não havia sido nada demais, na verdade. Eles apenas haviam conversado um pouco, mas nada que os levasse a serem tão próximos quanto Fanes dizia. Mas pela sua expressão contemplativa e fala, não era algo tão simples quanto parecia.

— O Edward nunca foi o tipo de pessoa que faz amizades facilmente. Ele é bastante sério, dificilmente sorri perante outras pessoas. Nem mesmo eu sou capaz de fazer isso… — Fanes sorriu tão melancolicamente que Ryota quase deu um abraço de conforto nele — Apesar de sermos pai e filho, acho que nunca conseguimos nos aproximar de verdade. Talvez ele nem me olhe como um pai. Provavelmente só me vê como um velho rei que logo irá se aposentar e desaparecer de sua vista de uma vez por todas.

Fanes deu de ombros.

— Então, mesmo que isso seja verdade, estou feliz dele ter escolhido você. Não por suas capacidades, porque nisso, desculpe, são péssimas — Ryota engoliu aquilo de forma áspera —, mas por ter sido capaz de abrir seu coração. Muito obrigado por ter sido a primeira amiga dele.

Mais uma vez, Fanes se curvou. Mas não pedindo desculpas, mas em agradecimento. Ryota não foi capaz de rejeitar aquele gesto, pois seria o mesmo que rejeitar seus sentimentos. 

— Se houver qualquer coisa que eu possa fazer para agradecê-la… Menos torná-la uma guardiã oficial, pode me dizer.

Que rapidez em me negar, hein?!

— Na verdade, existe uma coisa que gostaria de perguntar.

O rei apenas assentiu, pedindo para que ela continuasse a falar. Ryota coçou os olhos, sentindo o cansaço lhe bater. Contendo um bocejo e lutando para manter os olhos abertos, continuou:

— Na verdade, ontem, aconteceu que… Uma pessoa foi levada para a prisão. Uma pessoa que não merecia ir. E… Ela… Uh, ela passou por algumas coisas. E foi Miura o responsável. 

— Que coisas?

Ryota bocejou cobrindo a boca.

— Uma tortura. Ele… Perfurou seus olhos, e… Desculpe, acho que estou realmente cansada hoje.

— Bem, foi um longo dia, não é? Talvez fosse melhor… Tirar um cochilo?

— Mas eu… Preciso perguntar ao senhor… A razão de se negarem a libertá-la. Ela é só uma menininha que errou em roubar, mas… 

Ryota se inclinou para a frente, tentando conter o sono, mas isso apenas piorou a situação. Ela estava tão confortável na poltrona, o calor do fogo a preenchia tão rapidamente… Era só fechar os olhos agora.

— Pode descansar agora. Conversaremos melhor logo, logo.

Ryota sentiu seu corpo sendo empurrado com leveza para trás, onde encostou os ombros. Sua visão estava embaçada, a voz não mais saía. Ela só podia enxergar Fanes, que havia se levantado para arrumar sua postura com o mesmo doce sorriso, antes de apagar por completo.



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