Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 10 – Arco 4

Capítulo 29: Raiva

Quando o chute alcançou seu alvo, o mundo de luz e sons completamente caóticos se apagou como a chama de uma vela. Repentinamente, o universo tornou-se o mais puro tom de preto, e nada além da consciência existia dentro dela.

Não, aquilo não estava certo.

Ainda que no mundo tingido de sombras com uma quantidade imensurável de vozes ao ponto de deixá-la ensurdecida a atordoasse, Ryota foi capaz de distinguir a única coisa que a tornava diferente daquele espaço que engolia cada pedaço de vida ao seu redor.

Era uma pequena faísca avermelhada, irradiando de dentro da silhueta irreconhecível de seu próprio corpo, como brasas que ainda não haviam cedido ao frio do mundo exterior. Ela era a única coisa que a mantinha sã, permitindo-a ser capaz de compreender o caminho a ser trilhado.

Mas essa mesma luz nada mais eram que restos do que um dia brilhou de forma incandescente como um fogaréu, tão poderoso e tão quente que era capaz de fazer os olhos arderem ao abrir uma quantidade infinita de caminhos ao seu redor.

Qual foi a última vez que seus olhos desprovidos de luz foram capazes de enxergar algo além dos próprios pés?

Em que momento as centenas de milhares de estradas, iluminadas por aquela chama dentro de si, começaram a desaparecer conforme a luz ficava mais e mais fraca?

Quando foi que nada além de uma silhueta, quase irreconhecível, foi a única coisa capaz de mantê-la com os pés efemeramente fixos no chão?

... Eu tenho medo.

Antigamente, aquela luz que guiava seu próprio caminho a fazia ser capaz de dar um passo de cada vez sem nem piscar. Era como um farol tão poderoso, tão cheio de esperança e segurança que iluminava os mundos das pessoas ao seu redor, dando-lhes a possibilidade de seguir em frente quando suas próprias luzes se apagaram, ou estavam fracas ao ponto deste fim ser inevitável.

Agora, entretanto, seu próprio calor diminuiu gradativamente ao ponto de não ser mais que uma inconstante brasa, jamais acendendo-se novamente com os próprios esforços.

Não que a força de vontade para trazer aquela vida de volta fosse tão pertinente ou determinada, pois toda e qualquer chance de que aquilo retornasse ao que um dia era... Agora estava a um passo de ruir.

Em meio ao mar de sombras frias como a neve, que arrastavam-se como ondas de um oceano da mais pura escuridão cada vez mais para cima, prontas para engoli-la até o último fio de cabelo, os braços machucados de Ryota não eram mais capaz de produzir qualquer faísca de luz.

Seus dedos, ensanguentados e feridos o bastante para sequer serem capazes de segurar uma caixa de fósforos, sentiam escorrer toda e qualquer possibilidade entre os vãos.

Os únicos pilares ao seu redor, que por vezes ajudavam-na a fortificar as chamas, agora foram afastados por aquelas mesmas mãos cheias de sangue e dor.

Não havia mais o vento que estimulasse o fogo a se fortificar.

Ela estava completamente sozinha agora.

E isso era profundamente assustador.

... A culpa disso tudo... Só pode ser de vocês.

A origem de toda a friagem que insistiam em fazer seus ombros recaírem, de todas as lágrimas escorridas por seu rosto que quase apagavam a chama, de todos os ferimentos que a impediam de manter aquela faísca acesa... Definitivamente era deles.

Eram das pessoas que, ao sentirem a luz de dentro dela, estenderam suas mãos no intuito de apagar ou roubá-la para si mesmos. Era uma ganancia e malícia tão grotescas que a faziam estremecer, e mesmo assim ela segurou a mão deles.

Acreditando que poderia ser capaz de iluminar a escuridão em seus caminhos. E não esperava nada em troca além de ver as centelhas retornando singelamente graças às mãos seguradas; porque assim, quando duas pessoas iluminadas traçavam seus próprios caminhos lado a lado, a força para arrebatar a escuridão era duplicada.

Portanto, ainda que visse as próprias chamas diminuindo ou fraquejando, Ryota estendeu as mãos. Ela abriu a palma, esticou os dedos e sorriu; porque fazia bem a ela fazer o bem.

Ela esticou tanto seus dedos para ajudar os outros que faltavam-lhe mãos o bastante para tal tarefa. Ainda assim, não desistiu e permaneceu firme até o final.

Mas quantas das mãos que segurou retribuíram o gesto? Quantas daquelas palmas não apertaram forte demais para feri-la? Quantas delas recusaram a gentileza? Quantas delas, em meio aos seus momentos de ascendência, simplesmente desapareceram ou soltaram-na quando mais precisou?

Tropeçou e caiu.

Repetidas vezes, ela viu seus joelhos batendo contra o chão.

Incontáveis vezes, ficou momentaneamente cega pela traição e pela dor.

E a cada momento de hesitação, a luz em seu coração diminuiu, e as sombras ao seu redor cresceram.

Mas na mesma quantidade de repetições, seus pés voltaram a se fixar no chão para caminhar.

... Tudo bem, então. Se não conseguem apenas segurar a minha mão, então... Eu vou fazer isso sozinha.

Recolheu os braços estendidos e afastou a todos. Assim, jamais correria o risco de tropeçar e cair outra vez, certo? As chances de ferirem-na caíram, e Ryota percebeu que estar sozinha era mais seguro.

Mas também infinitamente mais difícil.

... Mas tudo bem. Assim, eu não vou mais sofrer. E ninguém ao meu redor vai precisar sofrer também.

Era o que sempre pensava, na tentativa de convencer o coração em cacos a continuar funcionando e não parar de bater.

Porque se ele desistisse de trabalhar por ela, a chama seria apagada em um instante, e o mar de sombras a engoliria completamente.

... Tenho medo.

Ela odiava a solidão.

... Mas é o melhor caminho a se tomar, certo?

Ela não queria perder mais ninguém, mas certamente não desejava estender a mão outra vez apenas para ser traída repetidas vezes.

Ou, então, para que as poucas luzes calorosas ao seu redor simplesmente fossem tomadas dela pelo mundo de sombras.

... Qual o problema de querer viver assim?

Era difícil o suficiente sustentar a própria faísca e caminhar quando mal podia enxergar a trilha adiante. E ainda haviam outros que desviavam-se de seus caminhos para estender-lhe a mão com um sorriso.

Mas não importava quanto tempo passasse, quantas vezes fosse traída ou quantas vezes chutassem suas canelas para que tropeçasse... Ryota nunca conseguia saber quando alguém estava sendo franco em suas ações ou palavras.

Talvez, mesmo depois de um ano, ela ainda continuasse sendo aquela garota estúpida e inocente do interior. Talvez ela ainda quisesse acreditar nos outros, e por isso seu coração se feria tantas vezes. Talvez suas tentativas de afastar os outros fosse uma medida desesperada de evitar que mais lágrimas e sangue escorressem por seus olhos e mãos.

... Parem de me criticar.

Ela queria apenas gritar para as vozes e os olhares ao seu redor. Era insuportável saber que julgavam-na sem nem conhece-la; mas era igualmente hipócrita da parte dela esperar que se aproximassem sem sequer permitir que vissem o que espreitava em seu coração.

... Mas... O que eles diriam se soubessem da verdade?

Como reagiriam se contasse como desejou a morte de cada um deles todos os dias? O que fariam se revelasse seus pensamentos mais sombrios e dolorosos? E se contasse cada um de seus pecados, detalhadamente?

... É óbvio que vocês vão me deixar também, então nem tentem se aproximar de mim.

Esperar a gentileza era fútil, e acreditar que alguém perdoaria um coração tão maculado e cheio de maldições era estúpido.

Nem Ryota se perdoaria.

Sasaki estava certo no fim das contas.

Quem no mundo se importaria tanto com um desconhecido ao ponto de aceitar tanta desgraça?

... Não há nada de errado em ajudar apenas aqueles quem são importantes. Eu sou igualmente hipócrita, então não devo reclamar se forem comigo também.

Sempre tropeçava nas mesmas pedras ao longo do caminho.

Mas não porque não sabia diferenciá-las conforme o mundo de sombras ao seu redor cresceu, mas porque ela mesma tapava os próprios olhos na tentativa de tentar acreditar que poderia ser diferente.

Essa mesma esperança vazia a fazia cair, trotar e ralar as mãos no chão repetidas vezes.

... Apenas me deixem em paz.

Odiava a solidão, mas ansiava que ela a engolisse até os ossos.

Talvez assim as vozes da sua cabeça também encontrassem descanso.

Suas pernas estavam fracas demais para continuarem se movendo, e Ryota teria parado de caminhar cegamente na escuridão caso não houvessem mãos a segurando.

Porque aqueles apertos firmes não eram para ampará-la, mas para lembrá-la de seus deveres. Sem eles, não havia razão para continuar.

Ryota perdeu tudo.

Ou quase tudo.

Mas às vezes estava tão exausta, tão machucada... Que apenas desejava que realmente tivesse perdido tudo. Assim, não haveria nada que a impedisse de apenas desaparecer.

Mas enquanto houvessem remanescentes que contavam com ela... Como poderia soltar aquelas mãos, quando sabia mais do que ninguém como doía o abandono?

... Por favor, apenas parem de tentar. Me deixem sozinha. Me deixem... Apenas...

Fechou os olhos com tanta força que suas pálpebras doíam.

Tapou os ouvidos tão rapidamente que um zumbido soou em seu crânio.

Se encolheu tanto ao ponto de tornar-se insignificante.

... Ainda assim... Por quê?

Afastou e rejeitou as mãos, e continuava o mesmo procedimento.

E por que, ainda assim, elas ainda eram estendidas em sua direção?

... Por quê? Eu não entendo.

Não havia valor em ajudar alguém como ela. Era cheia de defeitos e incapacidades, e nenhuma vez que estendeu a mão foi capaz de ajudar alguém sem dar-lhe um final infeliz.

Ela era um poço de hipocrisia e frustrações acumuladas que não deveriam ser direcionadas a ninguém além dela mesma.

Mas a insistência sempre continuava, e às vezes ficava incessante ao ponto de irritá-la. E, nestes momentos, qualquer gota de sanidade que havia dentro dela secava — e, então, Ryota gritava.

Às vezes ele era externado, mas todas as vezes vinha de dentro da sua alma.

Isso dói. Dói tanto, tanto, tanto... Por favor, apenas parem.

Implorava com tanta força que sua garganta doía e o corpo estremecia, mas jamais externalizava nenhum daqueles pensamentos ou vontades.

Quem a entenderia? Quem seria capaz de aceitá-la? Quem sequer poderia perdoá-la?

... Eu estou apenas tão cansada de acreditar.... De esperar... De continuar.

Então, qual o problema em viver daquele jeito? Ela não estava se envolvendo com ninguém, e sofreria sozinha do começo ao fim, como sempre deveria ter sido.

... Apenas... Dói, dói, dói.

Ryota sentia que estava se sufocando nas próprias lágrimas, nos lamentos da alma e nos cacos do coração despedaçado.

... Parem com isso. Parem de falar comigo. Parem de tentar. Parem, parem, parem! Isso doí!

Um grito surdo e mudo veio da sua alma, e as lágrimas que acreditou terem secado voltaram a escorrer. As brasas dentro dela explodiram como uma chama que iluminou, mas também queimou e matou tudo ao seu redor. Qualquer sinal de vida, qualquer sinal de desamparo, tudo... Tudo explodiu de dentro dela e a envolveu.

... Por favor. Por favor. Por favor.

Do começo ao fim da explosão, de olhos firmemente fechados e os ouvidos tapados para o mundo exterior, continuou implorando.

... Por favor, me deixem... Apenas me deixem acreditar de novo. Não importa quem for... Apenas...

As lágrimas e saliva que escorriam dela começaram a evaporar devido ao calor.

... Apenas me deixem amar outra vez.

Quando o pedido de sua alma alcançou o auge, o mundo de sombras se extinguiu por uma fração de segundos antes de consumi-la outra vez. O espaço negro ficou branco, e a mente de Ryota aprofundou-se no silêncio.

E foi assim que ela, ainda tremendo da cabeça aos pés, suando e chorando silenciosamente, abriu os olhos trêmulos para o mundo.

Com a respiração bagunçada, o rosto vermelho e as chamas percorrendo cada pedaço do seu corpo, a garota ergueu as pálpebras.

Havia apenas o silêncio e a visão do mais puro branco — mas nada além disso.

Foram instantes de pura paz e realização.

Os olhos dela, que estavam focados naquele ponto branco de luz, abaixaram-se gradativamente para os seus arredores.

A vista assimilou o auditório vazio; viu parcialmente os rostos surpresos das pessoas ao redor; atravessou momentaneamente o sorriso da mulher de cabelos rosa; entendeu parcialmente como o corpo queimando de calor completou a série de passos exibidos ao longo da música, e um longo silêncio se prosseguiu no anfiteatro.

Mas antes que a mente pudesse concluir os próprios pensamentos ou a voz dela chegasse ao mundo exterior, a consciência se apagou.

E assim, com um baque, Ryota desabou no palco.

***

— Estou impressionada.

A primeira coisa que ouviu quando despertou foi a voz jovial e conhecida de uma moça no espaço preenchido por estrelas e pontos brilhantes.

— Sua performance foi brilhante, filha da luz.

Sofia Megalos bateu palmas brandamente, e então abriu seu sorriso cheio de sabedoria quando Ryota chegou ao Empíreo mais uma vez.



Comentários