Ryota Brasileira

Autor(a): Jennifer Maurer


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 2: Dia Especial

 

Quando Ryota viu o jeito que o rosto dele se torceu, unindo as sobrancelhas e apertando os olhos, algo dentro dela se remoeu. O olhar que Zero voltava pra ela naquele momento era um que já tinha cansado de ver no espelho e, anos atrás, as pessoas lhe direcionavam esse mesmo olhar para a pobre garotinha abandonada. Seria pena? Tristeza? Qualquer que fosse a resposta, não a agradava nem um pouco.

Foi por ter presenciado tantas vezes aqueles rostos que decidiu esconder. Fingir que estava tudo bem. Sorrir quando queria chorar. Rir quando queria gritar. Se isolar quando sabia que não poderia mais suportar algo que explodiria - e jamais suportaria ver a reação deles caso a vissem naquele estado. Pra suportar a maldição, pra suportar aqueles sentimentos que a sufocavam, Ryota tentou fingir que não havia nada de errado. Que era apenas uma distração, ou um incômodo passageiro.

Acreditou que daria certo. Que nunca mais se preocuparia com aqueles olhos de novo. Que só precisaria encarar um par de olhos, e estes, ela precisava olhar todos os dias para nunca se esquecer. 

***

As folhas farfalhavam como música. A suave brisa balançava suas roupas e cabelos. O sono dela foi despertado de repente, e Ryota piscou algumas vezes, limpando os olhos. Ela demorou para reconhecer onde estava. Era uma extensa colina gramada recheada de flores amarelas, que pareciam dançar ao vento. 

— Ah, você acordou? — ciciou alguém ao lado, num tom agradável.

— É... Eu acho... Que sim. 

Ryota bocejou meio alto, sentindo a cabeça pender novamente para o ombro de Zero, que, assim como ela, estava recostado contra a enorme árvore, nas sombras. Ela escutou um suspiro vindo do rapaz ao lado, que, de repente, estava segurando uma garrafa d'água tirada de algum lugar. Ryota apenas assentiu preguiçosamente.

O dedo indicador e do meio da mão direita dele fizeram um gesto para cima, ao que a garrafa começou a levitar no ar, desenroscando a tampa. 

— Francamente... Você só dá trabalho. — Ryota ignorou o comentário dele, e usou a corrente d'água que caia no gramado para lavar o rosto e arrumar o cabelo. — Ficou babando na minha blusa esse tempo todo.

Para a surpresa do rapaz, ela hesitou um pouco antes de se desculpar, parecendo nitidamente envergonhada. Zero pigarreou, ficando um tanto constrangido por não ser a reação brincalhona de sempre que esperava. 

— Obrigada... E desculpa. — repetiu, enquanto brincava com os dedos e olhava para baixo, torcendo o rosto numa careta desgostosa — Eu tô sempre te dando trabalho, né? Desculpa.

— Ah, é, o tempo todo. Chega a me dar dor de cabeça. — Vendo-o apertar o próprio nariz, Ryota encolheu os ombros. — Me irrita muito. Principalmente quando você tenta esconder as coisas de mim. Aqui. Você nem tomou café hoje, não foi?

Sem aviso, Zero lançou um sanduíche embrulhado, que a garota tentou pegar desajeitadamente no ar. Era do tipo bem recheado com frios e saladas, tendo um selo circular colado nele. Havia um desenho de espeto de carne, com uma sigla de "TdC" em laranja. Ryota, ainda meio zonza, se assustou ao ouvir o estalo do lacre do refrigerante abrindo, e piscou algumas vezes quando o rapaz estendeu a bebida.

— E nem tenta pedir desculpas de novo, tá bom? Que saco. Se você estava com fome ou cansada era só ter falado antes. — Zero se intrometeu quando Ryota abriu e fechou a boca algumas vezes, sem parecer conseguir falar.

Após o sermão aos resmungos, a garota deu um sorriso melancólico, e ambos começaram a almoçar. Depois de alguns minutos em silêncio, e um arroto insegurável, ela tentou puxar assunto:

— Por quanto tempo eu dormi?

— Uma hora ou duas. Fiquei surpreso em te ver dormindo aqui quando voltei do restaurante. — Após a cena na estrada, a caminho do vilarejo, Ryota decidiu ir na frente e esperá-lo no ponto de encontro de sempre. Zero acabou demorando um pouco para ir buscar o almoço, e quase se assustou ao vê-la resmungando enquanto dormia. Mais do que isso, ela estava tremendo e suava um pouco. Ele jamais admitiria em voz alta, mas seu coração deu um salto quando a garota se acalmou ao deitar em seu ombro. — O suficiente pra molhar minha manga toda.

— Aaaah, eu já pedi desculpas, não foi? Eu só tava um tiquinho cansada... — "Tiquinho" era uma forma generosa de esconder as várias noites em branco que havia passado. Ryota grunhiu baixinho, ainda um pouco constrangida, antes de baixar a voz: — Porque era o décimo aniversário dela, afinal. 

Faziam-se dez anos desde que ela se fora. Dez anos desde a morte de sua mãe. Foi um dia como qualquer outro, exceto que o ocorrido ficou marcado pra sempre na sua memória, de forma quase que assustadora. Ela esfregou os braços só de pensar. Afinal, a maldição chegava ao seu auge naquele mês, e, especificamente, naquele dia, tirando seu sono e a possibilidade de ficar um minuto em silêncio sem ser esmagada pelas lembranças e sensações. As noites se tornavam impossíveis, e ela precisava sair de casa para se distrair, ou acabaria enlouquecendo.

— Passei hoje de manhã no túmulo dela, então tá tudo bem. 

Ryota inspirou fundo, tentando acreditar nas próprias palavras. Repetia mentalmente, esperando que fosse verdade. E tinha de ser, embora seu peito doesse tanto que poderia gritar. Com algum esforço, ela continuou com o doce sorriso no rosto.

— Eu tinha te dito antes, lembra? Que era um dia especial... — Eles trocaram olhares, e um bolo se formou na garganta dela. — Mas não era desse especial que eu estava falando.

Antes que Ryota pudesse intervir na fala, seus olhos se arregalaram para a pequena caixinha de veludo preta estendida em sua direção. Ela prendeu a respiração bem a tempo de ouvir Zero ciciar:

— Feliz aniversário, Ryota.

***

— ...Por quê? 

O rapaz apertou os olhos para a expressão de dubiedade e melancolia dela, que ainda tentava manter o trêmulo sorriso no rosto.

— Como eu disse antes, é um dia especial...

— Mas...

— ... E eu sabia que você não iria querer comemorar seu aniversário de dezoito anos. Mas eu decidi que queria quebrar essa regra pelo menos uma vez. Afinal, a maioridade é um momento muito importante. — Ele sorriu quando a expressão de Ryota fraquejou. Então, colocou a caixinha em uma de suas mãos, dando um pequeno aperto — Abre. Tenho certeza de que vai gostar.

Ryota comprimiu os lábios, hesitando. Ela não queria abrir. Não queria receber nada. Seus dedos tremeram de leve quando o ouviu terminar de falar, e ainda não conseguia se mexer. Apertou os olhos, e inspirou fundo. Queria conseguir coragem para negar suas palavras. Pra dizer que não podia... Que não merecia.

— Que droga, por que você precisa ser tão teimosa? 

Sentindo um arrepio subir na nuca, Ryota abriu os olhos rapidamente quando Zero murmurou em seu ouvido, mal tendo se afastado quando uma sensação gelada a atingiu no pescoço. Foi rápido o suficiente para que notasse, então, o suave reflexo azulado que doeu em seus olhos, antes que pudesse tocar no pingente. O colar tinha uma pedra oval sustentada por um elástico preto. Era uma bijouteria simples, que mal se destacava, mas parecia exuberante aos seus olhos.

— Eu sei que você não usa muito essas coisas, mas... Quando eu vi esse azul, não consegui me segurar. — Zero tocou no pingente, o erguendo na frente dos olhos. — Está vendo? Ele muda de tom quando fica na sombra, e brilha debaixo do sol. Foi esse pequeno detalhe que me lembrou 

de você. Acho que nunca te disse isso antes, mas... Seus olhos também são lindos, Ryota. 

Ela quase podia se ver refletida nas íris prateadas dele, que tinham ganhado uma faisca diferente naquele momento. Ainda sem palavras, Ryota piscou algumas vezes, grunhindo alguma coisa incompreensível até pra si mesma, quando o rapaz se afastou de repente. Ele se recostou na árvore, ainda de lado, e desviou o olhar com um rubor nas bochechas.

— P-Por isso, bom... Er... É... É melhor ficar com ele. C-Combina com você. — A parte final da frase dita em meio a resmungos envergonhados saiu quase inaudível, mas Ryota sorriu. Um sorriso trêmulo, quase como se fosse chorar.

Ela piscou algumas vezes, tentando lidar com a bagagem de sentimentos e pensamentos que a invadiram, e limpou os olhos com a mão. 

— Ai, Zero... Agora foi você que me deu dor de cabeça.

Ao murmúrio, Ryota bagunçou os próprios cabelos, sentindo pontadas na têmpora. Seu estômago se remexeu, e ela precisou apertar os olhos uma vez para ignorar as vozes rodeando sua cabeça. Ainda sentia vontade de negar, de falar em voz alta - embora fosse muito improvável que sequer conseguisse colocar aquilo em palavras - que não podia. Que tinha jurado pra si mesma nunca mais se dar ao luxo de ganhar algo no dia que perdeu tudo. Não podia. Não merecia. 

Mas, o quão terrível isso seria? Depois de tudo aquilo que Zero disse, como poderia simplesmente negar aquelas palavras e o brilho em seu olhar? Seria muito egoísta. Mais do que já vinha sendo desde sempre. 

— Mas, obrigada. Sendo bem sincera, eu... Ainda não consigo aceitar. E, sim, eu tô um pouquinho brava com você. Mas só um pouquinho. — riu ela baixinho quando Zero arqueou as sobrancelhas em preocupação. — Mas eu vou aceitar... Só dessa vez. Só porque você usou essa desculpa esfarrapada de "dia especial" e "maioridade", sendo que nem precisava desse drama todo.

Zero deu de ombros.

— Era o único jeito de te convencer.

— Até seria se fosse outra pessoa.

Demorando um pouco pra entender suas palavras, Zero engoliu em seco antes de desviar o olhar de novo, mas com um sorriso emocionado no rosto. Ryota respirou fundo uma vez. O peso em seu peito cedeu de leve, mas seus dedos ainda formigavam quando pegou o pingente com cuidado e o girou nos dedos.

Será só uma vez, então tá tudo bem. Sim, sim, tudo bem. Tudo bem... Não é?

As nuvens começavam a se agrupar lentamente no céu quando a garota supriu um soluço.



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