Volume 5

Capítulo 1: A Vida de Plebeu com a Ojou-sama

NO DIA SEGUINTE. Encontrávamo-nos em um bairro residencial comum, daqueles que se vê em qualquer lugar. Essa chamada "cidade-dormitório" era relativamente tranquila durante o dia, com poucas pessoas circulando.

Prédios altos, como apartamentos, eram raros, e a paisagem, repleta de casinhas e pequenos restaurantes, transmitia um ar aconchegante, quase de cidade antiga. Havia até uma modesta rua comercial perto da estação.

— Faz um tempo desde a última vez que voltei...

Parado diante de uma casa de madeira compacta, não pude deixar de murmurar. As casas ali eram especialmente apertadas, com caminhos estreitos serpenteando entre elas. Ainda assim, depois de tantos anos vivendo ali, não havia como eu me perder.

Pela primeira vez em muito tempo, eu havia voltado à casa que um dia chamei de lar.

— Itsuki-san, aqui está a chave.

— Obrigado.

Shizune-san me entregou a chave. Ela me deixou assumir o papel de abrir a porta e entrar primeiro, provavelmente por consideração. Agradeci em silêncio. Ao lançar um olhar para Hinako, notei que seus olhos percorriam o ambiente de um lado para o outro, como se tudo fosse novidade para ela.

Imaginando que ela continuaria assim por um tempo, aproximei-me da porta.

— Hã? A porta da frente sempre foi tão boa assim?

— Estávamos procurando inquilinos, então fizemos uma limpeza básica e algumas reformas. Também providenciamos o mobiliário mínimo necessário.

Embora tivéssemos decidido apenas no dia anterior que ficaríamos um tempo na minha casa, eles já haviam preparado os móveis. Não pude deixar de admirar a habitual eficiência impressionante deles.

Abri novamente a porta da casa. O pequeno hall de entrada e a sala que se estendia além dele despertaram em mim uma forte sensação de nostalgia.

— Mudou, mas não mudou….

Estava um pouco mais limpo, mas não havia dúvida — aquela ainda era a antiga casa da família Tomonari.

A casa tinha cerca de oito tatames, com um único cômodo. Havia uma cozinha e um banheiro compacto integrado, mas não havia máquina de lavar, então teríamos que usar a lavanderia próxima. Para uma pessoa, o espaço era mais do que suficiente, mas dividi-lo entre três seria um desafio considerável. Privacidade praticamente não existia e, por ser uma construção antiga escolhida para economizar espaço, o chão rangia bastante. Durante a noite ou ao amanhecer, se alguém se levantasse, o rangido ecoaria e acordaria todos sem falha.

— Isto é, bem...

Ao observar minha casa novamente, não pude deixar de pensar. Não importava como eu analisasse, aquele lugar não seria confortável para Hinako. Havia muitas frestas, o que tornava o ar-condicionado ineficiente, e insetos entrando era simplesmente parte da realidade.

Alguns móveis destoavam do resto da casa — uma geladeira, um microondas, uma mesa, uma TV e uma cômoda. Provavelmente haviam sido providenciados por Shizune-san. Ainda assim, não era como se o lugar tivesse se tornado aconchegante de repente.

Talvez fosse melhor mudarmos de lugar agora. Com esse pensamento, olhei para Hinako.

— Esta é... a casa onde o Itsuki morava...! — Os olhos de Hinako brilhavam de empolgação. — Itsuki, o que é isso...?

— O armário? É onde se guardam futons e essas coisas.

Abri a porta deslizante do armário para explicar.

— Oooh...!

— Você não sabe o que é um armário?

— Eu conheço quartos no estilo japonês em teoria. Mas... é a primeira vez que uso um.

Hinako abriu e fechou a porta do armário repetidamente. Pensando bem, a mansão da família Konohana era bem ocidental, então, mesmo conhecendo a cultura japonesa, ela talvez não tivesse tido muitas oportunidades de vivenciá-la.

— E isto é...?

— É o banheiro integrado. O banho e o vaso sanitário ficam juntos.

— Banho...? Isso... essa parte funda?

— É onde fica a banheira.

Girei a torneira voltada para a pia em direção à área da banheira e deixei a água correr um pouco, só para testar.

— Para crianças…?

— Infelizmente…., é para todas as idades.

Ela parecia mais confusa do que surpresa. Comecei a me sentir um pouco culpado.

— Ojou-sama, se puder esperar mais um dia, poderíamos trocar o piso e as janelas por novos…

— Não é necessário. Quero experimentar como o Itsuki vivia.

— Entendido.

Como sempre, Hinako parecia fixada no meu passado.

— Então, tenho uma reunião com a equipe de segurança. Vou sair por um momento.

Com isso, Shizune-san saiu pela porta da frente. Voltei meu olhar para a sala. Como Shizune-san havia dito, a casa estava limpa, mas não parecia que haviam feito grandes reformas. Provavelmente foi uma questão de custo-benefício. O lugar já tinha quarenta anos e estava se deteriorando. Mesmo uma reforma completa dificilmente atrairia muitos inquilinos.

As mudanças deviam se limitar à porta e a algumas partes do teto. O chão continuava rangendo como sempre.

— Itsuki… como você passava o tempo nesta casa?

— Como, é…?

Era uma pergunta difícil de responder de imediato. Mas então me dei conta. O tatame gasto, a mesa baixa, as janelas por onde entrava vento, as portas de correr desbotadas — havia muitas coisas ali que não existiam na mansão dos Konohana.

O eu da mansão e o eu daquela casa provavelmente eram completamente diferentes. Esse pensamento fez as palavras surgirem naturalmente.

— Meus pais quase sempre estavam fora, então eu geralmente ficava sozinho em casa. Quando entrei no ensino médio, comecei a trabalhar meio período e também passei a sair bastante, mas antes disso eu estudava aqui ou lia livros.

"Livros", na verdade, eram principalmente mangás emprestados dos colegas. Enquanto caminhava, olhei para o chão sob meus pés.

— Está vendo essa marca no chão? Fui eu que fiz quando era criança. Estava tentando mover a mesa para arrumar o futon, mas acabei derrubando.

Nossa… isso traz lembranças—

Perdido em memórias, percebi que Hinako estava distraída ao meu lado.

— Desculpa, acabei falando demais. Isso deve ser meio chato de ouvir.

Sorri de forma sem graça, prestes a mudar de assunto, mas Hinako balançou a cabeça.

— Quero ouvir mais…. — ela me encarou fixamente ao dizer isso. — Eu… quero saber mais sobre você, Itsuki.

Seu olhar puro parecia atravessar diretamente o meu. Dava para perceber que ela falava do fundo do coração.

— Entendo…

Bom, isso é um alívio… eu acho. Mas ouvir que ela quer me conhecer de forma tão sincera me deixava estranhamente inquieto.

— Desculpem pela demora.

Shizune-san voltou para a casa.

— Vamos decidir primeiro a divisão dos cômodos?

*

 

— Certo, então…

Trinta minutos depois. Para resumir, virei-me para as duas e comecei a explicar.

— Vamos usar a divisória que a Shizune-san trouxe para separar a casa em dois espaços. O lado com a cozinha será a sala, e o outro será o quarto. Durante o dia, a Shizune-san usará a sala, enquanto eu e a Hinako ficaremos no quarto. À noite, eu durmo na sala, e a Hinako e a Shizune-san ficam no quarto.

Hinako e Shizune-san assentiram. No centro do cômodo havia uma grande divisória, aparentemente trazida por Shizune-san após sua reunião. Com isso, dividiríamos a casa de oito tatames em dois espaços de quatro tatames.

O motivo de Shizune-san usar a sala durante o dia era principalmente para preparar as refeições. Eu e Hinako montaríamos uma mesa no quarto para estudar ou relaxar.

— Durante o dia, estarei fora na maior parte do tempo, então fiquem à vontade para remover a divisória quando eu não estiver aqui.

— A senhora está ocupada, Shizune-san?

— Sim, minha carga de trabalho aumentou um pouco mais do que o previsto.

Shizune-san respondeu calmamente. Nunca demonstrar o menor sinal de desagrado em momentos assim era algo muito típico dela. Era possível sentir o profissionalismo de uma verdadeira empregada a serviço da família Konohana.

— Com certeza estarei de volta à noite, então… Itsuki-san, por favor, não faça nada estranho.

— S-Sim, senhora.

Não precisava nem dizer. Mesmo quando morávamos sob o mesmo teto na mansão dos Konohana, aquela casa era tão pequena que dava a sensação de estarmos realmente vivendo juntos. Provavelmente, Shizune-san trouxe a divisória justamente para amenizar essa proximidade.

Eu precisaria tomar cuidado para não deixar essa situação incomum afetar meu senso de limites.

— Só por precaução, vou deixar isto aqui.

Com isso, Shizune-san tirou um frasco de comprimidos do bolso e o colocou sobre a mesa.

Lá estava…! O remédio que causava disfunção erétil induzida por fármacos…! Fazia um tempo desde a última vez que eu o via. Que tipo de mentalidade Shizune-san tinha para andar com aquilo por aí…?

— Itsuki… — Hinako puxou levemente minha roupa, olhando para mim com aqueles olhos grandes. — Me mostra a cidade.

— A cidade?

— Quero saber tudo sobre como você vivia…

Hinako parecia completamente fascinada pelo estilo de vida de um plebeu.

— Certo, deixa comigo. Normalmente sou eu que aprendo com você, mas por um tempo, serei seu guia no mundo dos plebeus.

— Oooh…!

Pela primeira vez, eu estava cheio de confiança, e Hinako bateu palmas suavemente, animada. Felizmente, eu conhecia bem aquela cidade para poder mostrá-la. Por onde começar? Enquanto eu pensava, Shizune-san colocou uma pilha de papéis sobre a mesa.

— Odeio interromper seu entusiasmo, mas… Ojou-sama, Kagen-sama instruiu que você conclua suas tarefas diárias habituais.

— Eeh…?

Os lábios de Hinako se curvaram em um bico, e sua empolgação murchou. A enorme pilha de papéis sobre a mesa era, aparentemente, o dever de casa de Hinako.

— São férias de verão….

— Justamente por serem férias de verão, não deve baixar a guarda até o fim.

Como um estudante comum, eu entendia perfeitamente a vontade de aproveitar cada segundo das férias, mas Hinako era a distinta jovem dama do Grupo Konohana. O peso de suas responsabilidades não permitia longas pausas. Tennouji-san e Narika provavelmente estavam na mesma situação.

— Vou sair para o trabalho agora. Itsuki-san, por favor, não mime demais a Ojou-sama.

Como se enxergasse através da minha simpatia, Shizune-san reforçou o aviso. Depois que a porta se fechou com um leve som, Hinako se virou para mim com uma expressão triste.

— Itsuki… me ajuda…

— Bem…., se houver algo que eu possa fazer.

Não era como se eu quisesse mimá-la, mas ver aquele rosto tão abatido me fazia sentir que precisava ajudar, ao menos um pouco.

E afinal, o que são essas tarefas diárias da Hinako…?

Depois das aulas, eu costumava ter lições com Shizune-san sobre etiqueta à mesa ou autodefesa, embora ultimamente estivesse apenas revisando e estudando no meu quarto. Eu havia recebido alguns elogios de Tennouji-san por aprender boas maneiras rapidamente, mas quando foi decidido que eu apareceria na alta sociedade, teria que retomar as lições pouco antes.

Enquanto eu fazia tudo isso, o que Hinako fazia? Curioso, peguei o material que Shizune-san havia deixado e dei uma olhada.

— Isso é… informações sobre empresas do Grupo Konohana?

— Sim. Disseram que eu deveria memorizar agora, para o futuro.

Então era isso que chamavam de educação de elite. Provavelmente queriam que ela estudasse desde já para contribuir com a família Konohana no futuro.

— E isto aqui são dados sobre empresas fora do grupo.

— Tem um jantar de negócios chegando… Disseram para eu decorar.

Provavelmente para que ela não parecesse rude diante dos convidados. A programação dos jantares de negócios dos próximos três meses e resumos de cada empresa estavam organizados de forma clara. O material era fácil de ler, mas memorizar tudo aquilo seria trabalhoso.

— Isto é… uau!?

Percebi imediatamente que estava vendo algo que não deveria e desviei o olhar. Era um relatório detalhado das atividades recentes do Grupo Konohana, com projetos em andamento listados minuciosamente. Não importava como eu olhasse, aquilo era confidencial. Hinako, que às vezes ajudava nos negócios, podia até ter acesso, mas eu, como um simples acompanhante, não deveria ver aquilo.

…Não há nada que eu possa fazer para ajudar. Então Hinako estudava coisas tão complexas todos os dias? Aquilo era completamente diferente das aulas da academia. Era uma tarefa feita sob medida para ela. Pelo menos por enquanto, eu não podia ajudá-la. Não era apenas uma questão de capacidade — nossas posições tornavam isso impossível.

— Com tudo isso para fazer, talvez seja difícil te mostrar a cidade — acabei murmurando isso em voz alta. Pelo canto do olho, achei que Hinako havia se mexido. — Eu queria passar na rua comercial e tal, mas… fazer o quê.

Eu tinha quase certeza de que ela se mexeu de novo, como se estivesse reagindo a algo.

— Me dê duas horas… — Hinako se voltou lentamente para os estudos e falou. — Vou terminar rapidinho…

Suas costas praticamente irradiavam determinação.

*

 

— Alô, Shizune-san? …Não, é só uma pergunta rápida. A Hinako quer sair pela cidade, então posso levá-la para dar uma volta?

Algumas horas depois. Eu estava ao telefone com Shizune-san.

— Não, não vamos longe. Só almoçar por perto, talvez passar na rua comercial… As tarefas dela? Não, ela já terminou. Não só as de hoje — ela terminou todas. Disse que não é nada demais quando leva a sério…

De forma impressionante, Hinako havia terminado uma semana inteira de tarefas em apenas duas horas. Achando aquilo rápido demais, eu a questionei para ver se realmente havia memorizado tudo. Ela acertou todas as perguntas. A mente dela era absurda.

Às vezes eu esquecia, mas Hinako não era preguiçosa — ela era uma gênia quando se tratava de habilidades práticas. Claro, ela queria fugir das responsabilidades de ser uma Konohana, mas com um nível de habilidade desses, era compreensível que Kagen-san não quisesse deixá-la ir. Eu não pude deixar de entender o lado dele.

Depois de encerrar a ligação com Shizune-san, guardei o celular no bolso.

— Recebemos sinal verde….

— Sim!

Hinako fechou os punhos em comemoração.

— Mesmo assim, decorar tudo aquilo em duas horas? Isso é insano.

— Me elogia, me elogia!

— Sim, incrível, muito incrível mesmo.

— Hehe…!

Hinako sorriu, orgulhosa. Não mencionei a frase exasperada que Shizune-san havia dito antes de desligar — "Então faça isso com seriedade desde o começo" — mas era um comentário perfeitamente justo.

— Então, vamos sair?

— Sim!

Hinako respondeu com energia transbordante. Ela parecia tão inocente naquele momento, bem diferente de como era na academia.

— Ah, espera. A Shizune-san preparou roupas casuais para sair, então vá trocar.

— Não posso ir assim?

— Não é que não possa, mas… você vai chamar atenção.

Hinako estava usando um vestido elegante, e seu estilo simples, porém refinado, só realçava ainda mais seu charme natural. Seria adequado para um museu ou um restaurante francês sofisticado, mas ela certamente atrairia olhares andando pela rua comercial daquele jeito.

— Certo, vou trocar.

— Beleza. Tem um espelho no banheiro, você pode se trocar lá.

Hinako assentiu, pegou a roupa que Shizune-san havia trazido e entrou no banheiro.

...Isso é meio estranho. No começo, voltar ali só me dava uma sensação de nostalgia, mas, depois de algum tempo, a ideia de que aquele lugar ainda era minha casa voltou a se firmar. Pensar que eu tinha trazido uma garota da minha idade para dentro de casa assim… Nem a Yuri tinha entrado na minha casa.

*

 

— Itsuki.

Depois de um tempo, a porta do banheiro se abriu, e Hinako saiu.

— Terminou de se trocar?

— Uhum, perfeito! — Dizendo isso, Hinako girou o corpo uma vez.

…Não estava exatamente perfeito. Pensei isso ao observar a camisa branca larga e o cinto de jeans pendurado.

— Hinako, levanta os braços.

— Leeevantar…!

— Esse cinto na sua cintura, você prende assim… e essa camisa, acho que é para colocar por dentro, né?

Pedi que Hinako levantasse os dois braços e, enquanto isso, ajustei levemente o cinto de jeans. Por fim, fiz com que ela colocasse a camisa para dentro da calça.

— Como ficou?

Mais uma vez, Hinako mostrou o visual. A parte de cima era uma camisa branca, levemente oversized, com um pequeno bordado próximo ao peito. A parte de baixo era um jeans de modelagem ampla, com a barra acima dos tornozelos. Com a camisa por dentro, o visual transmitia um ar moderno e de verão.

— É diferente do seu estilo de sempre, mas ficou bom.

— Ehehe…!

Hinako riu, satisfeita. Ver Hinako usando jeans era algo bem diferente, mas combinava com ela. Ela estava vestida de forma mais casual agora, mas a sua presença marcante era impossível de esconder. Seus cabelos âmbar brilhantes, a pele lisa como porcelana e a cintura delicada, quase frágil, que dava vontade de proteger. A aura refinada de alguém criada com tanto cuidado era algo que ela não conseguia disfarçar por completo.

— Então, vamos?

— Uhum!

Hinako respondeu com o mesmo entusiasmo de antes. Juntos, calçamos os sapatos na entrada. E assim, começava nossa "experiência na sociedade dos plebeus".

*

 

— Uau…! — Os olhos de Hinako brilhavam enquanto ela olhava ao redor, animada. — Itsuki, que lugar é esse…?

— É uma rua comercial. Tipo… uma rua cheia de lojinhas, eu acho?

Tentar explicar algo tão familiar com palavras acabou sendo mais difícil do que eu imaginava. Primeiro, decidi levá-la até a rua comercial perto da estação. Já fazia quatro meses desde que comecei a trabalhar como seu cuidador, e eu sabia que garotas da alta classe como Hinako não estavam acostumadas a lugares movimentados assim. Como esperado, ela parecia completamente fascinada com a cena.

— Essa rua fazia parte do meu caminho para a escola. Depois das aulas, sempre tinha alguém comprando alguma coisa para comer aqui.

Claro, eu não tinha dinheiro para isso, então só ficava olhando…

— T-Tem muita gente…

— É, mais do que eu esperava.

Eram onze da manhã. A rua comercial estava cheia de donas de casa. Não era exatamente uma multidão, mas havia fila no caixa da quitanda, e várias bicicletas estavam estacionadas em frente à loja de conveniência.

...Mesmo assim, está movimentado demais…

Apesar de já fazer um tempo desde que saí dali, eu tinha sido morador daquele bairro. Por isso, dava para perceber que estava mais cheio que o normal. Naquele horário, a maioria das casas estaria começando a preparar o almoço. Normalmente, exceto pelos restaurantes, não deveria estar tão movimentado…

— Hm?

Meu olhar foi atraído para a livraria logo à frente. Lá dentro, um homem pegava um livro da estante e folheava. Esse cara… sinto que já vi antes.

Enquanto eu o encarava em silêncio, uma gota de suor escorreu pelo rosto do homem. Então percebi.

…Era um dos seguranças da família Konohana. Rapidamente observei ao redor. Como esperado, pelo menos cinco pessoas desviaram o olhar de forma suspeita. Aparentemente, estávamos cercados por vários seguranças disfarçados.

— Itsuki? O que foi…?

— Não é nada…

Hinako não gostava de ambientes tensos, então contar a verdade seria falta de consideração. Fingi que não era nada, e os seguranças pareceram respirar aliviados.

— Isso é… um açougue?

A atenção de Hinako se voltou para uma loja próxima. Ela encarava atentamente as carnes expostas na vitrine.

— Parece barato…

Sem muita confiança em seu senso de valor, Hinako falou sem convicção.

— Bem, comparado com o que você costuma comer, sim. Mas é gostoso.

Eu não levava uma vida em que comia carne com frequência, mas às vezes comprava ali. Mesmo com um tempero simples e grelhando rapidamente, ficava delicioso — era o que eu lembrava.

A curiosidade de Hinako se voltou para a loja ao lado.

— E isso… é uma loja de vegetais?

— É. A gente chama de quitanda.

— Qui…tanda?

Hinako inclinou a cabeça. Pensando bem, por que chamamos de "quitanda"? O nome em si soa meio curioso… depois eu procuro isso.

Hinako observava lentamente os vegetais expostos.

— Tem algum que você goste?

— Eu não gosto de vegetais.

Ah, é mesmo.

— Falando nisso, qual é a sua comida favorita, Hinako?

— Batata chips…!

— Não, salgadinhos não contam…

— Sorvete…! E refrigerante de cola…!

— Esses também não contam… Hinako, vamos tentar comer vegetais na próxima, certo?

"Por quê?!" — era o que seu olhar arregalado parecia gritar enquanto me encarava. Eu estava começando a me preocupar com a alimentação dela tanto quanto a Shizune-san.

— Fora isso… acho que não tem muito.

— Entendi….

Quando comíamos juntos, ela às vezes murmurava "isso está gostoso", então provavelmente tinha preferências. Mas parecia que ainda não tinha um prato favorito definido.

— Ei, não é o Itsuki?!

Nesse momento, uma voz veio do fundo da loja. O dono da quitanda, segurando um pepino, olhava em nossa direção.

— Quanto tempo! Eu estava me perguntando por que não te via mais. Você parece bem!

— Faz um tempo mesmo. Eu estive… meio ocupado com algumas coisas.

Explicar tudo levaria muito tempo, então deixei assim. Hinako puxou levemente minha roupa.

— Itsuki, quem é ele…?

— O dono da loja. Também me ajudou quando trabalhei aqui meio período. …Acho que foi no primeiro ano do ensino médio inferior que trabalhei aqui por um tempo.

Enquanto explicava, percebi o dono nos observando com um sorriso malicioso.

— Haha, já entendi. "Ocupado com algumas coisas", é? Então era isso.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Nem precisa esconder. Você virou um cara e tanto, hein, Itsuki.

Ele deu alguns tapinhas fortes nas minhas costas. Sem graça, me afastei rapidamente da quitanda. Mais encontros parecidos continuaram acontecendo.

— Ah, Itsuki-kun? Quanto tempo! — Uma funcionária da farmácia saiu da loja só para me cumprimentar.

— Ah, oi… faz tempo mesmo.

— Ei, Itsuki! Sumido, hein! Vai comprar alguma coisa? — O peixeiro me chamou enquanto carregava uma caixa de peixes.

— Desculpa, talvez na próxima…

A atendente da livraria e até o responsável pelos funcionários da loja de 1 real também vieram falar comigo assim que me viram. Todos eram pessoas com quem eu já tinha tido algum contato. Depois de trocar cumprimentos, me afastei um pouco para respirar.

— Estão me chamando mais do que eu esperava….

Era para eu estar mostrando o lugar para Hinako, mas acabei só cumprimentando gente. Fiquei meio culpado.

— Itsuki… você é meio que uma celebridade?

— Nada disso… mas eu trabalhei bastante por aqui.

A rua comercial tinha um forte senso de comunidade. Quando comentei em uma loja que queria ganhar mais dinheiro com trabalhos de meio período, a informação se espalhou rapidamente, e logo começaram a me indicar para vários bicos. Antes que eu percebesse, estava trabalhando na quitanda, na livraria, na farmácia, em restaurantes… em todo tipo de lugar.

— Aqui todo mundo se ajuda bastante.

— Se ajudam…?

— Sim. Eu entendi melhor porque trabalhei aqui, mas as pessoas que vivem aqui compartilham muita coisa. Por exemplo, se menos clientes vêm à rua comercial, todos os lojistas saem perdendo, certo? Então eles se unem para manter o movimento. O açougue pode divulgar o peixeiro, ou alguém com tempo livre pode fazer panfletos com informações da rua e distribuir.

Aliás, eu já ajudei a fazer esses panfletos uma vez.

— É tipo "um por todos e todos por um". As conexões aqui são amplas e profundas, então, quando você faz parte, as pessoas falam com você naturalmente.

— Parece algo acolhedor.

— É. Sentir essas conexões humanas é algo pelo qual devemos ser gratos.

Cada vez que alguém me chamava, eu lembrava: eu realmente vivi ali. Perceber que ainda tinha um lugar ali me dava uma sensação de conforto difícil de explicar.

— Eu… sinto um pouco de inveja — Hinako disse isso, observando as pessoas trabalhando na rua comercial. — Os adultos que eu conheço… são muito mais calculistas.

— Você quer dizer as pessoas que encontra em eventos sociais?

Hinako assentiu levemente. Os adultos ao redor de Hinako estavam todos no topo de grandes empresas ou organizações. Para uma organização alcançar tanto poder econômico, era necessário superar constantemente os concorrentes. E, acima de tudo, seus líderes precisavam ter um forte desejo de vencer.

As pessoas da rua comercial também competiam, claro, mas os adultos do mundo de Hinako atuavam em outra escala, apostando enormes quantias de dinheiro e recursos humanos em disputas implacáveis. Quanto maiores as apostas, mais cautelosos — e calculistas — eles se tornavam.

Eu não perguntei, mas entre esses adultos calculistas, Kagen-san provavelmente era um deles. Qual dessas formas de viver era a certa? Minha mente imatura não conseguia chegar a uma resposta.

— Itsuki, você parece combinar mais com esse tipo de ambiente—

— Itsuki! Você voltou?!

Antes que Hinako terminasse, uma voz alta ecoou atrás de nós. Assustada, Hinako deu um pequeno pulo. Ao me virar, vi o rosto familiar do dono da barbearia.

— Oh? Desculpa, mocinha, não quis te assustar. Minha voz é alta mesmo.

— N-Não tem problema…

Hinako aceitou o pedido de desculpas, levando a mão ao peito. Depois de uma breve conversa, nos despedimos. Hinako abriu levemente a boca.

— Talvez…. eu não esteja tão invejosa assim.

— Haha… é, essa proximidade pode ser um pouco demais, dependendo do ponto de vista.

Na verdade, muita gente não gostava desse senso de comunidade tão intenso. Era um laço forte, mas podia parecer intrometido. Cada pessoa tinha seu próprio limite, e para alguém como Hinako, que não estava acostumada, podia parecer sufocante.

Nesse momento, um estômago roncou por perto.

— Estou com fome.

Hinako disse, esfregando a barriga.

A rua comercial tinha todo tipo de restaurante. Sentindo o cheiro de curry e soba vindo das lojas, eu também comecei a ficar com fome. Já era quase meio-dia — o horário perfeito para o almoço. Pensando bem, logo depois da rua comercial… tinha aquele lugar.

— Quer ir a uma loja de gyudon?

— Gyu… don? — Hinako inclinou a cabeça. Já imaginava essa reação, então a conduzi até lá.

*

 

Entramos em uma rede de gyudon conhecida por qualquer japonês. O ar-condicionado refrescou nossos corpos levemente aquecidos.

— Primeiro, você compra um ticket aqui.

Demonstrei comprando um ticket de gyudon tradicional.

— Oooh… que tecnológico.

Não era exatamente o tipo de comentário que se esperaria da herdeira do avançado Grupo Konohana.

— Qual você vai querer, Hinako?

— Vou pedir o mesmo que você.

Dizendo isso, Hinako pegou a carteira da bolsa. Mas, em vez de moedas, ela tirou um cartão de crédito preto e tentou inseri-lo na entrada de dinheiro.

— Não, não é cartão! …Você coloca moedas aqui.

— Entendi.

Hinako colocou as moedas e conseguiu pegar o ticket. Por um momento, fiquei preocupado achando que ela nem sabia usar dinheiro, mas felizmente ela entendia o básico. A Narika comprava lanches às escondidas, então fazia sentido que pelo menos soubessem usar dinheiro.

Pensando bem, a Academia Kiou não tinha máquinas de tickets. Você apenas se sentava, e um atendente vinha anotar o pedido. O mesmo valia para bebidas — não havia máquinas automáticas. Talvez jovens da elite não estivessem acostumados com sistemas automatizados.

— Aqui está o seu pedido!

Enquanto esperávamos no balcão, um funcionário trouxe duas tigelas de gyudon. Peguei dois pares de hashis descartáveis e entreguei um para Hinako. Mas ela apenas ficou olhando para a tigela à sua frente, sem comer.

— O que foi?

— Eu… não sei como comer isso.

Para a herdeira da família Konohana, o gyudon parecia algo completamente estranho.

— É só comer do jeito que quiser.

Separei os hashis e juntei as mãos.

— Itadakimasu.

Para dar o exemplo, comecei a comer. Pegando um pouco de carne com arroz, o arroz quase se desmanchou. Levei rapidamente à boca, e o sabor marcante da carne se espalhou pela língua.

Ultimamente eu vinha comendo refeições refinadas, então não tinha certeza se ainda gostaria de algo assim, mas, sinceramente, estava delicioso. Talvez por fazer tempo que eu não comia, parecia ainda melhor. Pelo visto, meu paladar conseguia apreciar os dois mundos sem problema.

Observando-me, Hinako finalmente pegou sua tigela com os hashis.

— Hmm, hmm…!

Como se estivesse lidando com algo delicado, ela levou cuidadosamente um pouco de arroz com carne à boca. E, quando finalmente experimentou—

— Hmmm~~~ …!

Hinako soltou um som de pura satisfação.

— Parece gostoso.

— Está muito bom… o melhor…!!

Como esperado, ela gostava desse tipo de comida. A empolgação de Hinako foi às alturas.

— Itsuki, o que é isso…!?

— Isso é gengibre em conserva. Tenta comer junto com uma garfada, é ótimo.

— E isso…!?

— Isso é só água.

Tudo parecia um tesouro para ela. Fiquei feliz por ela estar aproveitando a experiência.

— Ohh… essa gordura é ainda mais pecaminosa que batata chips…!

Hinako murmurou com uma expressão de êxtase. …Isso está certo? Eu queria proporcionar uma boa experiência para ela, mas isso parecia um pouco perigoso. Deixá-la fazer essa cara… espero que Shizune-san não me mate.

Enquanto observava o rosto satisfeito de Hinako, com um leve desconforto, notei que seus lábios estavam sujos com molho do gyudon.

— Hinako, vira um pouco para cá — falei, pegando um guardanapo de papel. — Sua boca está toda suja.

— Mmph… hehe!

Limpei o molho dos lábios de Hinako. Sua expressão se suavizou, como a de uma criança. E então — aquele pequeno momento foi recebido pelos olhares silenciosos dos outros clientes. Sentindo o peso daqueles olhares penetrantes, voltei à realidade.

Droga… chamamos atenção.

— B-Bem, vamos indo?

— Uhum.

Eu sempre esquecia, mas a beleza de Hinako era do tipo que faria qualquer pessoa virar a cabeça. Ela já chamava atenção naturalmente, então não era surpresa que uma cena daquelas atraísse olhares. Como se estivéssemos fugindo, saímos do restaurante e voltamos a andar sem rumo.

— Então, o que achou do seu primeiro gyudon?

— É… meu novo prato favorito!

Hinako declarou, com os olhos brilhando. Que gosto plebeu ela adquiriu. Eu teria que garantir que ela nunca mencionasse isso em eventos da alta sociedade.

— O gyudon… era delicioso e tão fácil!

— Fácil?

— Uhum. Não precisa se preocupar com etiqueta nem nada.

Para Hinako, uma refeição sem precisar se preocupar com etiqueta devia ser algo raro e valioso. Por um tempo, ela provavelmente teria mais oportunidades de comer sem se preocupar com isso. Isso devia deixá-la feliz… embora eu tivesse uma leve preocupação.

— Eu mesmo só comecei a prestar atenção nisso recentemente, então não sou de falar muito, mas você não pode esquecer completamente da etiqueta, certo?

— Uhum. Eu sei — Hinako continuou, com uma expressão séria. — Porque eu esqueci da etiqueta, quase me separei de você, Itsuki… não quero sentir aquilo de novo.

Entendi imediatamente do que ela estava falando. Foi há cerca de três meses. Durante um jantar com executivos de uma empresa de construção naval, Hinako colocou em prática, sem pensar, a regra dos três segundos que eu havia mencionado em tom de brincadeira.

Pelo visto, ela havia refletido sobre aquele episódio. Claro, eu também havia refletido.

— Nós dois precisamos tomar mais cuidado, né?

— Uhum.

As responsabilidades da alta sociedade eram pesadas. Devia ser difícil carregá-las com um corpo tão delicado. Por isso, eu também precisava ter cuidado — para aliviar o fardo de Hinako, nem que fosse um pouco.

— Ainda temos um tempinho…

Olhei o horário no celular.

— Quero brincar mais…!

— Certo, que tal dar uma volta no parque para ajudar na digestão?

*

 

Com a cidade tingida pelo pôr do sol ao nosso redor, entramos em casa.

— Ufa…

Tirando os sapatos, Hinako se jogou sobre uma almofada na sala.

— Cansada?

— Uhum.

Tínhamos ido de carro até ali pela manhã, e desde o meio-dia até agora ficamos andando quase sem parar. Para alguém que passava mais tempo dentro de casa como Hinako, o nível de atividade daquele dia devia ter sido alto.

Eu… nem estou tão cansado assim.

Ainda tinha bastante energia física e mental. Na mansão, estudar e cumprir tarefas como servo levavam meu corpo e mente ao limite todos os dias. Comparado a isso, o ritmo de hoje foi tranquilo.

E talvez — só talvez — eu tivesse achado até pouco. Passar um dia inteiro vivendo como um plebeu, depois de tanto tempo, me fez enxergar minha rotina de uma nova perspectiva. Havia uma diferença clara entre o modo de vida comum e o da elite. Mas, ao refletir melhor, essas diferenças tinham seus próprios significados.

Era algo em que eu havia pensado mais cedo, na loja de gyudon. A Academia Kiou frequentemente exigia ações mais "analógicas" do que o mundo exterior. A ausência de máquinas de ticket era um bom exemplo. Se você quisesse comer lá, precisava chamar um atendente.

À primeira vista, parecia inconveniente, mas, pensando bem, não era um sistema ruim. Os alunos da Academia Kiou estavam destinados a liderar outras pessoas no futuro. Aprender a se relacionar — especialmente com subordinados — era essencial. Dar ordens ruins ou agir com arrogância diminuía sua influência. Por outro lado, se você soubesse lidar bem com as pessoas, poderia usufruir de conveniências que superavam a automação. Na academia, até a hora das refeições era uma oportunidade de aprender isso. Até a forma como você fazia um pedido revelava seu caráter.

A Academia Kiou era estruturada para oferecer aprendizado em todas as situações. Ela incorporava a disciplina rigorosa da elite.

Realmente ampliei minha visão, não é?

Eu estava lá há apenas alguns meses, mas, por estar me esforçando tanto para acompanhar os outros, conseguia perceber claramente o quanto havia aprendido — coisas que antes eu jamais entenderia. Quando você começa a enxergar o significado das coisas, passa a querer levá-las a sério. Talvez eu estivesse começando a sentir falta daqueles dias na academia.

Enquanto me deixava levar por esses pensamentos, meu celular vibrou no bolso. Era uma ligação de Shizune-san.

— Shizune-san? Aconteceu alguma coisa?

— Desculpe, Itsuki-kun. O trabalho aqui está demorando mais do que o esperado, então vou chegar tarde. Pode cuidar do jantar?

— Sem problemas. No pior dos casos, a gente pede comida.

— Obrigada. Se for cozinhar, pode usar qualquer ingrediente da geladeira.

— Certo.

Desliguei a chamada. A voz de Shizune-san parecia mais cansada do que o normal. Nesse caso, pelo menos o jantar eu deveria resolver.

Ao abrir a geladeira, encontrei vários ingredientes. Alguns eram claramente de alta qualidade, mas estavam além das minhas habilidades, então peguei o básico.

Cebolas, cenouras, batatas. E um pouco de carne.

...Acho que vou fazer curry.

Vi o curry em tablete no armário de temperos. Assim que vi, já decidi o cardápio. Como no almoço comemos gyudon, fiquei um pouco preocupado com o equilíbrio nutricional. Melhor caprichar nos vegetais.

Enquanto procurava uma faca e um descascador, Hinako se aproximou, com passos suaves.

— Itsuki… o que você está fazendo?

— A Shizune-san vai chegar tarde, então pensei em preparar o jantar.

Expliquei enquanto preparava a tábua de corte.

— Eu… ajudo.

— Você, Hinako?

Senti um pouco de preocupação — cozinhar poderia ser arriscado para ela — mas Hinako fez uma pose confiante, com as mãos na cintura.

— Eu tenho experiência com culinária nas aulas de verão!

Ela estufou o peito, orgulhosa. Será que churrasco conta como culinária…?

— Ah, certo… pode cuidar de descascar então?

— Deixa comigo…!

Descascar era a tarefa mais segura — sem faca nem fogo. Eu já havia ensinado a usar o descascador durante o churrasco, então ela devia dar conta.

— Hinako, você prefere doce ou picante?

— Hmm… doce.

— Entendi. Então, para um toque especial…

Joguei algo que encontrei na geladeira dentro da panela.

— Chocolate?

— Sim. A Yuri disse que dá mais doçura e profundidade.

— Oooh… mal posso esperar!

Segundo a Yuri, o sabor do curry podia ser ajustado de várias formas, então, em vez de buscar um ingrediente secreto perfeito, o melhor era adaptá-lo ao gosto de quem vai comer. Aliás, depois de vários testes dela, descobri que gosto de curry com missô.

— Hinako, pode pegar aquelas batatas ali?

— Uhum. …Também terminei de descascar as cenouras.

— Valeu. Pode deixar aí.

Cozinhamos lado a lado. Parecia um pouco… como se fôssemos um casal — mas afastei esse pensamento imediatamente. Fui cortando os vegetais que Hinako me entregava e colocando na panela. Pelo visto, ela já tinha terminado de descascar as cenouras, então estendi a mão para pegá-las.

Nossos ombros se tocaram por um instante.

— D-Desculpa.

— Uhum…., tudo bem.

O rosto de Hinako ficou vermelho, e ela soltou um pequeno som estranho.

A cozinha era tão estreita que não havia como evitar ficarmos próximos. Aquilo não era a ampla mansão dos Konohana nem uma praia aberta.

Depois que você percebia, não dava para ignorar. Antes estávamos normais, mas agora até o leve roçar das roupas fazia nós dois travarmos. Hinako continuou descascando em silêncio, com o olhar baixo. Eu cortava os vegetais, tentando ignorar aquele desconforto incômodo.

*

 

— Obrigada pela refeição!

Aproveitamos juntos o curry pronto.

— Estou… tão cheia…!

— Que bom que gostou.

Era um curry bem simples, mas Hinako parecia satisfeita. Com a barriga cheia, o sono começou a bater. Por um instante pensei em me deitar, mas como Shizune-san poderia voltar a qualquer momento, me contive.

— Quer ligar a TV?

Peguei o controle próximo e apontei para a televisão moderna e elegante — um dos aparelhos que Shizune-san havia preparado para nós. Ao ligar, estava passando o noticiário.

— A propósito, Hinako, você não costuma assistir TV?

— Uhum… não muito.

Virando-se de lado, Hinako apoiou a cabeça no meu colo. Como um gato buscando carinho. Esse tipo de coisa eu conseguia lidar sem pensar demais… Na cozinha ficou estranho quando nossos ombros se tocaram, mas, por algum motivo, colo parecia algo natural e tranquilo. Talvez porque já estivéssemos acostumados.

Fiquei acariciando o cabelo de Hinako enquanto assistia distraidamente ao noticiário, que não estava muito interessante.

— A seguir: a Konohana Electronics anunciou recentemente o desenvolvimento de um novo satélite óptico avançado—

No momento em que o nome "Konohana" saiu da boca do apresentador, Hinako fechou os olhos.

— É por isso.

— Entendi….

Provavelmente ela queria esquecer assuntos da família durante seu tempo livre.

— Mas… na academia, muita gente assiste TV.

— Sério?

— O noticiário ajuda nos estudos. Papai disse que eu deveria tentar assistir quando possível.

O noticiário era uma boa forma de aprender sobre o mundo. Mas naquela manhã, Hinako tinha terminado uma semana inteira de tarefas com uma determinação impressionante. Shizune-san havia dito para eu não mimá-la, mas, pelo menos naquele dia, ela merecia um descanso dos estudos.

— Certo, vamos mudar para um programa de variedades.

Troquei o canal. A casa dos Tomonari também tinha uma TV, embora não fosse moderna como aquela — era um modelo usado que meu pai comprou barato.

Pensando bem, eu lembrava daquele programa… Nos dias em que não trabalhava, eu assistia TV com minha mãe enquanto fazia trabalhos manuais em casa. Tenho quase certeza de que esse programa passava naquela época.

Mas o apresentador não era o comediante que eu lembrava. Devem ter trocado em algum momento. Aliás, desde que me mudei para a mansão, eu quase não assistia TV. Como tinha um notebook para estudar, isso já era suficiente para me manter informado.

Enquanto caminhava pela cidade naquele dia, percebi algumas mudanças na paisagem. Placas de lojas diferentes, cores das ruas alteradas — pequenas mudanças que aconteciam aos poucos.

Daqui para frente, talvez eu começasse a perder o contato com as coisas que conhecia.

— Itsuki, você vivia assim antes….?

Hinako, se remexendo no meu colo, perguntou em voz baixa.

— Sim, mais ou menos assim.

— Entendo…

Hinako murmurou em resposta. Talvez fosse só sono, mas sua expressão parecia um pouco preocupada.

— E então? O que achou da vida de plebeu?

— É divertida — Hinako respondeu, virando-se. — Ninguém fica me encarando o tempo todo. É bem relaxante e fácil de conviver.

Ela parecia ter gostado mais do que eu esperava. Mas dizer que ninguém olhava para ela não era exatamente verdade. Alguém tão bonita quanto Hinako naturalmente chamaria atenção. A diferença era o tipo de olhar — ela não percebia porque não eram olhares que exigiam que ela se comportasse como uma Ojou-sama.

— E… é acolhedor.

Hinako sorriu suavemente, com um tom nostálgico.

— Você disse isso na rua comercial também.

— Uhum… Todo mundo parecia gostar de você, Itsuki.

— De mim?

Inclinei a cabeça. Ela continuou.

— Várias pessoas falaram com você. Você disse que era algo normal da rua comercial, mas… acho que também é porque é você que elas quiseram cumprimentar.

Dito assim, era difícil simplesmente ignorar. Mas, se fosse esse o caso—

— Você também, Hinako — olhei diretamente em seus olhos. — Talvez antes fosse diferente. Mas agora, aposto que você também é… acolhedora, não é?

Tennouji-san, Narika, Asahi-san, Taishou. Hinako já tinha pessoas com quem podia se abrir, ainda que um pouco mais do que com estranhos. Interpretar um papel devia ser cansativo. Mas, estando ao lado dela, eu percebia a mudança. Quando estava com essas pessoas, ela relaxava mais do que o normal.

— Talvez — o sorriso de Hinako parecia aliviado. — É tudo graças a você, Itsuki.

— Não, não é bem assim.

— Não… é por sua causa — seu olhar se abaixou ao dizer isso. — Mas eu…

Hinako ficou em silêncio, fechando os lábios. Até então ela estava animada, mas de repente parecia abatida. Eu não fazia ideia do porquê.

— Itsuki, você… gosta de viver assim?

— Sim..., acho que sim. Do meu jeito.

Não era exatamente "gostar", mas sim algo familiar. Não era que eu gostasse da vida difícil que tive, mas viver naquele bairro movimentado como fizemos naquele dia… não era nada ruim.

— Você… quer voltar…

Em voz baixa, Hinako começou a dizer algo. Mas suas palavras, quase inaudíveis, se perderam, e ela fechou a boca novamente.

— Hinako?

— Não é nada.

Com um movimento, Hinako saiu do meu colo. Eu me levantei em seguida.

— Vou tomar banho.

— Certo, quer que eu prepare a água?

— Hnmm.

Fui até o banheiro e comecei a encher a banheira. A água quente parecia que encheria rapidamente. Hinako, de forma preguiçosa, tirou algumas roupas da bolsa e seguiu em direção ao banheiro.

— Itsuki? — De repente, Hinako se virou para mim, com uma expressão confusa. — Por que você não vai se trocar?

— Hã?

— O banho, juntos…

— N-Não, não, não, de jeito nenhum — Hinako falou aquilo com tanta naturalidade que levei a mão à testa antes de responder. — Vamos, ah… deixar isso pra lá por hoje. O banheiro daqui é bem apertado.

— Muu… — Hinako fez um bico de insatisfação, mas acabou assentindo, cedendo. — Então… só lava meu cabelo.

Dizendo isso, Hinako pegou seu traje de banho de sempre e entrou no banheiro. Do outro lado da porta, ouvi o leve som de tecido sendo movido. Logo depois, o som da água. Não pense nisso, não se distraia… aumentei o volume da TV e fingi prestar atenção em um programa de variedades completamente desinteressante.

— Itsuki…

— Tá, tá.

Sem perceber meu conflito interno, Hinako me chamou com seu tom despreocupado. Quando abri a porta, ela estava relaxada na banheira, completamente à vontade.

— Certo, o cabelo… vamos lavar.

— Tá. Mas primeiro precisamos esvaziar a banheira.

O banheiro compacto não era feito para lavar cabelo ou corpo com a banheira cheia. Tirei o tampão enquanto pegava o chuveiro.

— Fecha os olhos.

— Uhum.

Como o cabelo dela ainda não estava molhado, comecei a enxaguar com o chuveiro. Lavar assim acabaria molhando minhas mãos e roupas, mas… tudo bem. Depois eu lavaria tudo. Sentei na borda da banheira e comecei a lavar o cabelo de Hinako. A posição era meio desconfortável, porém.

— Vou enxaguar agora.

— Mmm…

Enxaguei o shampoo do cabelo dela. O banheiro era pequeno, mas Shizune havia deixado shampoo e tudo o que precisávamos. Agora, qual eu usava depois…? Enquanto pensava—

— Ah… está quente…

Hinako murmurou, com a voz fraca. Agora que ela falou, eu também senti. Não era a temperatura da água, mas o ar do banheiro. Estávamos acostumados a banheiros espaçosos, então não tínhamos percebido, mas aquele lugar pequeno acumulava calor facilmente.

Era bem diferente do banheiro da mansão. Nem a ventilação parecia ajudar muito.

— Você está bem? Vou diminuir a água…

— Não… preciso sair…

Hinako claramente estava no limite, então rapidamente estendi uma toalha no chão.

— Ei!?

Assim que saímos para a sala, Hinako apoiou todo o corpo em mim. Gotas de água caíam de seu corpo no meu rosto. Completamente superaquecida, Hinako fechou os olhos, parecendo exausta. Por enquanto, liguei o ar-condicionado e pensei em buscar água gelada. Mas então—

— Voltei.

A porta da frente se abriu, e a voz de Shizune ecoou. Shizune tirou os sapatos e — ao me ver segurando Hinako de biquíni — congelou, chocada.

— Selvagem.

— Não é o que parece!

*

 

Naquela noite. Depois de empurrarmos a mesa para o canto, estendermos três futons e apagarmos as luzes para dormir…

— Ei — no escuro, encostado na parede, falei. — O meu lugar não está perto demais da borda?

— Você tem um histórico.

A voz de Shizune veio do outro lado da divisória. Originalmente, a ideia era colocar a divisória no meio do cômodo para separar homens e mulheres, mas, devido a certos acontecimentos, ela havia sido empurrada bem mais para o lado. Era para ser uma divisão de 4 para 6, mas agora estava mais para 1 para 9.

— Foi mesmo um mal-entendido. Eu não quis que aquilo acontecesse.

— Então, está tudo bem desde que não tenha sido intencional?

A lógica perfeita dela me deixou sem palavras. Não consegui pensar em nenhuma resposta. Talvez fosse melhor parar de me justificar. Ainda assim, se não fosse impressão minha, Shizune parecia mais rígida do que o normal. Esse tipo de situação também acontecia na mansão, mas… talvez por acontecer com frequência, ela tenha decidido ser mais rigorosa. Ainda assim, antes ela não era tão severa.

— Shizune — nesse momento, a voz suave de Hinako se fez ouvir. — O Itsuki está sendo injustiçado. Faz tanto tempo desde que ele voltou para esta casa…

Que anjo… Quase me fez chorar. Ao ouvir Hinako, Shizune soltou um pequeno suspiro.

— Kagen-sama está preocupado — sua voz ficou séria. — Não sei se ele percebeu, mas hoje o trabalho de Kagen-sama não teve o mesmo nível de precisão de sempre, ainda que ligeiramente. Ele disse que confia em nós, e foi por isso que permitiu esse arranjo, mas, como pai, deve sentir certa inquietação no fundo.

Aquilo fez todo sentido. Pensando bem, era óbvio. Sua filha do ensino médio estava saindo da mansão por uma semana inteira para ficar em uma casa velha e apertada com um garoto da mesma idade.

Na mansão, se algo acontecesse, ajuda chegaria imediatamente. Sempre havia funcionários atentos. Mas aquela casa estava fora do alcance direto de Kagen. Durante o curso de verão, tudo bem. Mas desta vez, ele estava inquieto. A diferença… provavelmente era eu.

Durante o curso, Hinako e eu ficávamos em quartos separados, e Shizune estava sempre por perto. Por isso Kagen não se preocupava tanto. Mas agora, Shizune precisava sair para trabalhar em alguns momentos, e Hinako e eu estávamos sob o mesmo teto. Mesmo com segurança por perto, eles não podiam invadir nossa privacidade ou monitorar o interior da casa.

Naturalmente, isso significava mais tempo sozinhos naquele espaço pequeno. A confiança e a preocupação de Kagen não eram por causa de Hinako. …Eram por minha causa. Eu era quem deixava Kagen inquieto.

— Me desculpe. Fui descuidado.

Refletindo profundamente, pedi desculpas. Kagen era um homem rigoroso, mas não irracional. Você fazia o que precisava ser feito e, depois, tinha liberdade para viver como quisesse. Esse sempre foi o modo como ele tratou tanto Hinako quanto a mim. E, justamente por ser rigoroso com responsabilidades, ele também tentava respeitar ao máximo nossa liberdade depois.

Provavelmente foi por isso que permitiu que ficássemos ali. Ultimamente, vínhamos sendo diligentes com nossas obrigações, e tivemos um bom desempenho nos exames do curso de verão.

Mas, como pai, ele ainda estava preocupado. Kagen confiava em mim. E eu vinha vivendo sem realmente valorizar isso. Foi por isso que acabei deixando-o inquieto.

— Graças a você, Itsuki-san, a Ojou-sama mudou. …E, por causa da Ojou-sama, Kagen-sama também está mudando — Shizune continuou. — Acho que essas mudanças são algo positivo.

Por isso, ela não queria que fizéssemos algo que os fizesse se arrepender dessas mudanças. Era isso que ela queria dizer. Ouvi um movimento do outro lado da divisória. Shizune apareceu por trás dela.

— Desta vez, vou deixar passar, graças à bondade da Ojou-sama.

— Obrigado.

Inclinei a cabeça em agradecimento enquanto Shizune movia a divisória de volta ao lugar original.

— A propósito, você já decidiu os planos para amanhã? — Shizune perguntou.

— Vamos à casa da Yuri à noite.

— Então não vão precisar jantar aqui.

— Isso.

Mas isso significava que Shizune jantaria sozinha novamente. Hoje, ela havia comido curry enquanto eu estava no banho. Não parecia se importar, mas…

— Ah, que tal ir com a gente, Shizune?

— Vou recusar. …Sei ler o ambiente, sabe.

Shizune era universitária, então não era muito mais velha. Mas, enquanto Hinako estivesse presente, ela precisava manter seu papel de empregada. Sair com o pessoal da Academia Kiou não seria um problema, mas como Yuri não estava acostumada com essa dinâmica de servidão, Shizune provavelmente estava sendo cautelosa. Considerando como interagiram no curso de verão, não parecia ser um grande problema, mas também não queria insistir se ela estava recusando.

— O que você vai fazer até a noite? — perguntou Shizune.

— Pretendo estudar. Já está na hora de começar a me preparar para as aulas.

— Admirável.

Hinako havia terminado uma semana inteira de tarefas de uma vez só, mas eu ainda estava avançando nas minhas. Naquela manhã, fui lembrado de quão afiada era a mente de Hinako. Eu admirava isso, mas não podia imitá-la. Sendo alguém comum, eu não podia me dar ao luxo de negligenciar o esforço constante.

— Mesmo assim, parece desperdício ir direto para lá, então pensei em passar em algum lugar antes…

Ainda não tinha decidido onde. Não havia necessidade de forçar um plano. Eu poderia decidir amanhã. Então—

— A escola…. — a voz suave de Hinako interrompeu. — Quero ver a escola onde você estudava, Itsuki.

— Certo..., vamos fazer isso.

Entrar talvez fosse difícil, mas pelo menos poderíamos ver por fora. Eu também não me importaria em rever a escola depois de tanto tempo.

Com os planos de amanhã definidos, adormeci.

 


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