Rich Girl Caretaker Japonesa

Tradução: slag

Revisão: slag


Volume 5

Capítulo 2: O Homem que Pode Ler Corações

A LUZ DA MANHÃ atravessava a fresta da cortina. No instante em que acordei, algo pareceu estranho. A sensação nas minhas costas não era como a da minha cama de sempre.

— Certo.

Aquela não era a mansão da família Konohana. Percebi que o que eu agora considerava normal havia mudado — dos dias que passava naquela casa para o tempo que passava naquela mansão. Preso entre uma sensação de estranheza e familiaridade, minha mente começou a despertar lentamente.

O lugar parecia ter passado por alguma limpeza ou pequenas reformas, mas a vista de onde eu estava era quase idêntica à de antes. O teto que eu havia encarado milhares de vezes desde a infância se estendia acima de mim.

— Você já está acordado?

Quando fui em direção ao banheiro para lavar o rosto, alguém falou comigo. Ao me virar, vi Shizune-san em roupas casuais, olhando para mim.

— Bom dia. Você acordou cedo.

— É um hábito. Eu diria que você é quem acorda cedo, Itsuki-san.

Eram sete da manhã. Se eu não tivesse planos, poderia ter dormido um pouco mais, mas o hábito me despertara. Desde que comecei a trabalhar meio período no ensino médio, eu frequentemente acordava nesse horário. Principalmente por causa das entregas de jornal.

— Shizune-san, você vai trabalhar hoje?

— Sim, mas só à tarde.

Ao que parecia, ela podia relaxar durante a manhã. Que bom. Parecia que Shizune-san teria um pouco de descanso naquele dia.

— Vamos acordar a Hinako?

— Vamos… deixá-la dormir hoje. Ela se esforçou bastante ontem.

Concordei. Tomando cuidado para não fazer o chão ranger, caminhei devagar até o banheiro. Depois de lavar o rosto, ao ver Shizune-san novamente, fiquei imóvel por um instante.

— O que houve?

— Ah, é que… tudo parece meio… novo.

Shizune-san quase sempre usava seu uniforme de empregada, então vê-la com outras roupas era raro. Diferente da Hinako, que preferia roupas confortáveis e fofas, o moletom simples de Shizune-san transmitia uma sensação prática.

(N/SLAG: Eu sou louco por dizer que a Shizune é a mais linda dessa obra inteira?????)

— Por favor, não fique me encarando.

A reação dela era refrescante à sua maneira e despertava minha curiosidade, mas desviei o olhar antes que ela se irritasse. Shizune-san ajustou ligeiramente a posição da divisória, ampliando o espaço compartilhado. Seguindo seu exemplo, puxei a mesa que estava encostada na parede para o centro.

— Bem, vamos preparar o café da manhã?

— Ah, eu já fiz algo simples.

— Sério?

— Preparei enquanto fazia o curry ontem. Não é nada sofisticado.

Com isso, abri a geladeira. Peguei os pratos que havia guardado lá dentro.

— Sanduíches. De atum e ovo.

Eu os havia preparado enquanto o curry cozinhava, pesquisando receitas no celular.

— Obrigada.

Eu havia feito o suficiente para todos, então me sentei de frente para Shizune-san e comecei a comer. Também havia uma porção para Hinako, mas, se ela dormisse até depois do meio-dia, provavelmente eu acabaria comendo a parte dela.

Os sanduíches não estavam ruins, se me permitia dizer, embora dependessem bastante dos ingredientes. O atum de alta qualidade e o pão sofisticado faziam a maior parte do trabalho.

— Você vai dar uma passada na escola hoje, certo?

— Esse é o plano.

— Já pensou em como vai explicar sua situação atual se encontrar antigos colegas?

Eu não tinha pensado nisso nem um pouco. Eu havia deixado a escola em um momento complicado, então, se encontrasse alguém, certamente perguntariam o que eu andava fazendo. Precisaria pensar em uma explicação… mas, para evitar causar problemas à família Konohana, talvez fosse melhor não encontrar ninguém. Não importava como explicasse, sempre havia o risco de cometer algum deslize.

— Talvez seja melhor eu não ir?

— Se quiser ser absolutamente cauteloso, sim. Mas, se seguir esse pensamento, teria que cortar relações com todos que já conheceu, Itsuki-san. Isso é um pouco extremo, então Kagen-sama deu sua permissão.

Ela tinha razão. Mesmo pensando na família Konohana, cortar completamente os laços com todos os meus antigos conhecidos parecia demais.

— Você pode dizer que está estudando na Academia Kiou. Quanto à sua relação com a Ojou-sama, diga apenas que são colegas de classe.

— E sobre como acabei na academia?

— Pode dizer que foi adotado.

A história sobre ter sido adotado pelo presidente de uma empresa de TI de médio porte também seria útil ali.

— Estamos ficando bons nisso, não estamos?

Dei um sorriso irônico diante do comentário de Shizune-san. Eu me sentia como algum tipo de golpista. Ao olhar para Shizune-san, percebi que ela havia parado de comer. Será que não estava bom? Eu achava que estava aceitável, mas, comparado às refeições da mansão, era obviamente inferior.

— Desculpa, não estava do seu gosto?

— Não… eu só estava pensando que um café da manhã assim não é ruim de vez em quando.

Um leve sorriso surgiu em seus lábios enquanto falava. Shizune-san mastigou e engoliu o sanduíche com cuidado. Não parecia estar mentindo.

— Como era sua vida antes de se tornar empregada, Shizune-san?

— Bem normal. Minha família tinha uma condição um pouco melhor, e eu estudei em uma escola um pouco mais conceituada, mas nosso estilo de vida não era muito diferente do de uma família comum. …Então, refeições assim me são familiares.

Aquilo era novidade. Pensando bem, raramente eu tinha a chance de conversar com Shizune-san a sós daquele jeito. Percebi o quanto sabia pouco sobre ela.

— Obrigada pela refeição. Estava deliciosa.

Com uma elegância refinada que rivalizava até com a atuação de Hinako, Shizune-san terminou o café da manhã. Levantou-se em silêncio e empilhou meu prato vazio sobre o dela.

— Eu lavo a louça.

— Eu ajudo.

— São só dois pratos. Eu dou conta.

Shizune-san foi até a cozinha com naturalidade. Lavou os pratos, secou-os com um pano limpo e os colocou na prateleira. Peguei um dos pratos.

— Está brilhando de tão limpo.

Incrível. Quem diria que lavar louça podia variar tanto dependendo da pessoa?

— Ainda não vou perder para você, Itsuki-san.

— Eu nunca vou conseguir te vencer.

— Exatamente. Não pretendo perder.

Eu havia dito aquilo meio em tom de brincadeira, mas Shizune-san assentiu como se fosse algo óbvio. Ainda assim, sua expressão pareceu suavizar, quase como se estivesse se divertindo.

*

 

Até o começo da tarde, eu me concentrei intensamente nos estudos. De vez em quando, fui verificar como Hinako estava, mas ela não havia se mexido — provavelmente dormia profundamente. Eu havia me preocupado que a cama dali fosse menos confortável do que as macias da mansão, mas então lembrei que Hinako conseguia dormir em qualquer lugar, a qualquer hora, então isso provavelmente não era um problema.

Shizune-san havia mencionado que trabalharia à tarde, mas já estava fora desde a manhã para uma reunião com a equipe de segurança, e já haviam se passado cerca de três horas. …Talvez ela estivesse me dando espaço para estudar?

Graças às duas, consegui estudar em paz e avançar cerca de metade da minha revisão e preparação diária. Terminaria o restante à noite, então—

Às quatro da tarde, Hinako e eu fomos até o colégio onde eu costumava estudar.

— Chegamos.

Só de percorrer o caminho antigo até lá já despertava nostalgia, mas ficar diante da escola trouxe uma onda indescritível de sentimentos.

— Esta é… a escola onde você estudava, Itsuki?

— É.

O portão pintado de verde, o campo esportivo e o prédio escolar logo atrás. O colégio onde passei um ano estava diante de mim. Comparado aos três anos que passei no ensino fundamental e no ginásio, meu tempo ali foi de apenas um ano. Ainda assim, ao vê-lo agora, todo tipo de lembrança veio à tona. Noites viradas lutando contra o sono para estudar para provas, levando meu corpo ao limite no festival esportivo — pensando bem, vivi tudo isso ali, no meu primeiro ano.

— Como é… ver uma escola comum? — Perguntei a Hinako, ao meu lado.

Ela olhou para a escola com um ar distante e respondeu:

— É pequena.

— Isso é o normal.

A Academia Kiou é que era grande demais. Comparada à Kiou, aquela escola era naturalmente menor e, para ser sincero, um pouco desgastada. Por que as placas e faixas de pedestres perto de escolas estavam sempre tão apagadas? A pintura do portão também estava descascando em alguns pontos.

Talvez escolas particulares fossem diferentes, mas as públicas geralmente eram assim.

— O ginásio… também era assim?

— É. O ginásio, o fundamental — todos tinham um clima parecido.

Comparados à Academia Kiou, eram praticamente iguais. Essa visão realmente deixava claro o quão especial aquela escola era.

— Parece… apertada, não é? Mas é suficiente. Não tem café aqui, nem jardins ornamentais.

A Academia Kiou tinha instalações que nenhuma escola comum teria. Não só isso, mas sua biblioteca e ginásio eram enormes. A variedade de matérias e esportes exigidos dos alunos era muito maior do que em uma escola comum. Por isso, o campus era tão amplo.

Mas, para um estudante comum, um lugar como esse era mais do que suficiente. Enquanto estive ali, nunca me senti em desvantagem como aluno. O ambiente para estudar era bom, e a região era segura. Para alguém com dificuldades como eu, foi uma época relativamente tranquila.

— Itsuki… você passou seus dias aqui.

Ao meu lado, imersa na nostalgia, Hinako murmurou com um ar melancólico. Sua mão delicada tocou suavemente as barras de ferro do portão.

— As aulas… já começaram?

— Não, ainda são férias de verão. Os alunos que estão aqui agora devem estar nos clubes.

No campo, parecia que os times de atletismo, handebol e beisebol estavam treinando. Se prestasse atenção, dava para ouvir instrumentos de sopro, então provavelmente a banda estava ensaiando dentro do prédio.

— Você participava de algum clube, Itsuki?

— Não, eu fazia parte do clube de ir embora.

— Clube de ir embora?

— Quer dizer que eu não participava de nenhum clube.

— Clube de ir embora, mas não participava?

Hinako inclinou a cabeça, confusa. Parecia que o termo "clube de ir embora" não existia no vocabulário de Ojou-sama.

— Itsuki…?

Nesse momento, alguém me chamou. A voz parecia vagamente familiar e, quando me virei—

— Ei, é o Itsuki!

— Sério?! Quanto tempo!

Antes que eu percebesse, quatro pessoas — dois rapazes e duas garotas — estavam ali por perto. Reconheci seus rostos imediatamente. Meus antigos colegas de classe — velhos amigos.

— Quanto tempo... Como vocês estão?

— A gente tava de boa num parque ali perto, jogando. Compramos comida e íamos embora, mas decidimos dar uma passada na escola.

— A gente tava estudando na biblioteca. Encontramos esses dois no caminho de saída.

Aparentemente, os quatro haviam se encontrado ali mesmo, há poucos minutos. Isso explicava por que os rapazes estavam com roupas casuais enquanto as garotas ainda vestiam o uniforme.

— Mas falando sério, cara! Por onde você andou?!

— É! Você simplesmente sumiu quando a gente foi pro segundo ano! A gente ficou preocupado!

Os quatro se aproximaram, bombardeando-me com perguntas.

— Haha… é, desculpa por isso…

Já imaginava que isso aconteceria. Eu adoraria evitar o assunto, mas não parecia que sairia dessa tão fácil. Bem, justo. Se eu estivesse no lugar deles, também perguntaria.

— Aliás, quem é ela…?

Foi a presença de Hinako que finalmente acalmou o ataque de perguntas. Assim que uma das garotas fez a pergunta, os outros três voltaram os olhos para Hinako. Assumindo seu modo de Ojou-sama, Hinako exibiu um sorriso radiante.

— Prazer em conhecê-los. Eu sou Konohana Hinako.

Um som estranho "hwa!" escapou da boca de um dos rapazes. E não foram só eles. A elegância refinada e delicada de Hinako deixou até as garotas olhando, encantadas. Até mesmo os alunos da Academia Kiou a viam como alguém inalcançável. Para pessoas comuns como nós, sua postura era tão impressionante que nos deixava atordoados.

— Ei, Itsuki, vem aqui um segundo! — Os rapazes voltaram a si e puxaram meu braço. — Cara! Quem é essa garota absurdamente linda?!

— Onde você conheceu ela?! Conta aí! Me apresenta também!

Esses caras… realmente não mudaram nada.

— Homens são os piores.

— Quer dizer, eu até entendo.

As garotas lançaram olhares de desprezo aos rapazes encantados. Ainda assim, pareciam reconhecer a elegância de Hinako. Achando que era o momento certo para explicar, me virei para os quatro.

— Na verdade, eu estou estudando na Academia Kiou agora.

— Academia Kiou? Aquela escola super de elite?!

— Aquela onde só entram filhos de gente rica?!

Assenti. Assim como eu, todos eles conheciam a reputação da Kiou.

— Vocês sabem que minha família estava passando por dificuldades. Eu ia acabar abandonando os estudos, mas um presidente de empresa se ofereceu para me adotar. Foi assim que fui parar na Kiou.

— Adotado? Isso acontece mesmo?

No meu caso, era mentira, mas o exemplo do Tennouji-san provava que era algo plausível.

— E esta é a Konohana-san, minha colega de classe na academia.

Hinako fez uma leve reverência. Isso deveria responder às perguntas deles por enquanto.

— Só colegas de classe, é?

— Só colegas. A gente se encontrou mais cedo, então achei que poderia mostrar minha cidade para ela.

Nem pensar que eu mencionaria que estávamos morando juntos. Eu já estava acostumado a esse tipo de evasiva e respondi sem hesitar. Meus antigos colegas olharam de mim para Hinako, com expressões meio descrentes, meio desconfiadas.

— Academia Kiou, hein… Bom, comparado com as piores coisas que a gente imaginou, isso é bem melhor.

— Piores coisas?

Inclinei a cabeça, e um dos caras assentiu.

— Cara, você sumiu de um jeito tão estranho que surgiram todo tipo de boato. Tipo que você estava num barco de pesca de atum ou vivendo na selva amazônica.

— O quê…?

Agora que parei para pensar, quando encontrei a Yuri nas aulas de verão, ela mencionou algo assim. Também tinha um boato estranho sobre eu ter sido vendido em um leilão de escravos ou algo do tipo.

— Ficar aqui parado não leva a nada. Eu ia passar lá na casa desse cara depois disso. Quer vir, Itsuki?

— É, vem! Faz tempo demais. Eu até pago o jantar.

Os rapazes me convidaram. Enquanto isso, Hinako estava sendo cercada pelas garotas.

— Konohana-san, né? Ei, quer comer com a gente?!

— É! A gente tem um monte de perguntas!

— Ah, hum, eu…

Eu provavelmente conseguiria lidar com isso, mas para Hinako em modo Ojou-sama, recusá-las parecia complicado. Diferente dos alunos refinados da Academia Kiou, esses garotos e garotas eram descaradamente diretos. Para mim, isso era normal, mas para Hinako, provavelmente parecia invasivo.

— Ei, vocês aí!

Uma voz aguda ecoou à distância. Ao me virar, vi uma pequena figura ao longe, quase como um pontinho. Conforme se aproximava, reconheci o rosto familiar de uma garota.

— Ei, é a Hirano!

— Yuri! Quanto tempo!

— Pois é, faz tempo mesmo!

Antes que eu pudesse dizer algo, nossos antigos colegas chamaram por Yuri. Pensando bem, eram férias de verão agora. Aquilo também devia ser um reencontro aguardado para eles. Yuri rapidamente se colocou entre nós e os nossos antigos colegas.

— Ei, se vocês ficarem cercando assim, vão acabar deixando eles desconfortáveis. O Itsuki até vai, mas a Konohana-san não está acostumada com esse tipo de situação.

Essa parte de "o Itsuki até vai" não era meio desnecessária?

— Espera, Yuri-chan, você conhece a Konohana-san?

— A gente se encontrou por acaso no meu trabalho de meio período.

— Ahh, em Karuizawa, né? É, dá pra imaginar uma Ojou-sama num lugar desses.

Parece que todo mundo sabia que Yuri estava trabalhando em um resort.

— Enfim, esses dois vão lá para minha casa depois, então vocês podem colocar o papo em dia outra hora.

— O quêê?! Não monopoliza eles só pra você!

— Esse era o plano desde o começo! Anda, anda, podem ir!

Yuri acenou com as mãos de forma displicente, pressionando nossos antigos colegas a recuarem. Resmungando coisas como "Tá bom, tanto faz", eles perceberam o clima e começaram a ir embora. No caminho, dois dos caras vieram até mim discretamente e me puxaram de lado por um momento.

— Itsuki. Sabe, a Yuri anda meio solitária, mesmo que não demonstre.

— É, parece mesmo.

Eu já tinha percebido isso vagamente quando nos reencontramos nas aulas de verão. Yuri parecia valorizar o tempo que passamos juntos mais do que eu imaginava.

— Se você continuar sendo frio assim com ela, talvez eu mesmo vá atrás dela, sabia?

— Eu já estou refletindo sobre isso, então corta essa brincadeira.

Pensando no quanto esse cara era idiota por falar besteira até o fim, soltei um suspiro. Por algum motivo, os dois arregalaram os olhos. Era como se estivessem dizendo que minha reação é que era estranha.

— Só pra você saber, a Yuri é bem popular, cara.

— Hã?

O que ele acabou de dizer…?

— Não manda esse "hã". Ela é super amigável com todo mundo, sempre escuta os problemas dos outros e sabe ser atenciosa, como você viu agora. Claro que ela é popular.

— É, é. Além disso, ela é bem bonita, pra falar a verdade.

O outro ao lado dele assentiu em concordância.

— É… mesmo?

Agora que eles falaram, a Yuri realmente tinha várias qualidades que agradariam os caras. Além do que disseram, ela cozinhava bem, era confiável e, à sua maneira, surpreendentemente feminina. Eu sabia que Yuri era querida por todos, mas nunca tinha pensado nisso de forma romântica.

— Itsuki, o que você está fazendo?

— N-Nada, não é nada!

Chamado por Yuri, fui até ela, tentando disfarçar. Enquanto me afastava, meus amigos idiotas riam baixinho, mas fiz questão de ignorá-los.

— Ufa. Agora finalmente dá pra relaxar.

Depois que nos afastamos dos antigos colegas e ficamos só nós três, Yuri disse isso.

— Yuri, obrigado por salvar a gente. Mas por que você está aqui—

— Nada de "por quê" nem "como"! Hoje era pra ser meu primeiro dia trabalhando na casa da Konohana-san, e eu estava toda animada! Mas quando cheguei lá, cadê vocês?!

Ah, é mesmo… agora lembrei. Hoje era o grande primeiro dia da Yuri trabalhando na casa da família Konohana. A gente tinha combinado originalmente de ir juntos até a casa dela depois, já que era uma ocasião especial.

— Espera, eu não te avisei que a gente mudou para se encontrar aqui?

— O quê, sério?

Yuri rapidamente pegou o celular.

— Eu estava tão animada que nem vi.

— Ah, qual é…

Só para garantir, peguei meu celular e conferi. Como esperado, a mensagem nem estava marcada como lida. Eu provavelmente deveria ter insistido quando ela não respondeu.

— Bom, enfim, depois do meu turno, a Shizune-san me disse onde vocês estavam, então eu vim pra cá. …Vocês voltaram para antiga casa, né?

— É, vou ficar por aqui por um tempo.

— Hm. Você vai ter que me contar tudo isso depois.

Tanto eu quanto Yuri morávamos a uma distância que dava para ir andando até o colégio, então estávamos ligados a essa cidade desde o ensino fundamental. No meu caso, escolhi um colégio próximo para economizar no transporte, mas foi pura sorte ele ter um bom nível acadêmico. Provavelmente foi por isso que a Yuri também escolheu.

Caminhamos enquanto observávamos as paisagens familiares da cidade.

— Aquele café não existia antes, existia?

— Ele mudou de lugar. Antes ficava dentro da estação, lembra?

— Ah, aquele. Então o que tem lá agora?

— Uma padaria. Forma uma fila enorme no fim da tarde.

Ficava dentro da estação, então provavelmente as pessoas compravam algo no caminho de volta do trabalho ou da escola.

Mesmo em poucos meses, a cidade continuava mudando. Provavelmente já era assim antes mesmo de eu começar a estudar na Academia Kiou. Quando se está no meio da rotina, não se percebe, mas ao se afastar e observar de vez em quando, dá para notar coisas que passaram despercebidas.

— Certo, já estamos quase chegando.

Passamos pela rua comercial por onde eu havia caminhado no dia anterior, a poucos minutos da estação. Ali estava — a fachada familiar.

— Bem-vindos ao Restaurante Hiramaru!!

Yuri nos recebeu com energia de sobra.

*

 

Chegamos ao restaurante por volta das cinco da tarde. Como ainda havia mesas vazias, relaxamos um pouco e decidimos comer quando o sol se pusesse.

Era o momento perfeito, já que eu estava começando a ficar com fome. O aroma vindo da cozinha provocava meu estômago vazio. Aquela atmosfera, aquele cheiro — fazia tempo.

— Aqui estão, dois teishoku de carne de porco com gengibre.

Depois de alguns minutos à mesa, Yuri, usando um avental com o nome do restaurante sobre suas roupas casuais, trouxe nossos pratos.

— Obrigado.

— Itsuki, você não quis pedir o hambúrguer?

— Eu comi aquilo nas aulas de verão. Resolvi experimentar outra coisa hoje.

Yuri havia levado carne de porco com gengibre para o churrasco, mas as garotas Ojou-sama, incluindo a Hinako, ficaram tão empolgadas que eu nem consegui provar.

— Obrigado pela comida.

Juntei as mãos e comecei a refeição. Coloquei um pouco da carne coberta de molho sobre o arroz e dei uma grande mordida.

— Cara, isso está muito bom. Foi você que fez, Yuri?

— Só a sopa. O resto foi o meu pai.

Nesse caso, resolvi provar a sopa também. A sopa que acompanhava os pratos do Restaurante Hiramaru variava — às vezes era missô, às vezes estilo chinês — mas a que vinha com a carne de porco com gengibre era um caldo simples com cebolinha e wakame. Como a carne tinha um sabor forte, combinava com algo leve.

Era fácil de beber e complementava perfeitamente a refeição.

— Está ótimo.

— Você não precisa se esforçar para elogiar… mas fico feliz em ouvir isso.

Ela não parecia totalmente indiferente. Estava realmente delicioso, então não consegui evitar os elogios. Não era bajulação.

— E você, Konohana-san? Espero que esteja do seu agrado.

— Está absolutamente delicioso. Realmente delicioso… muito booom.

Ah, não. Estava tão bom que a verdadeira Hinako estava começando a aparecer. Felizmente, Yuri não percebeu a mudança e apenas respondeu, aliviada:

— Que bom.

— Acho que vou comer também. …Pai, um teishoku de katsu de ostra pra mim!

— Já vai!

O pai da Yuri respondeu em voz alta da cozinha.

— Yuri, como foi o trabalho hoje?

— Foi puxado, de várias formas… A Shizune-san fica bem rigorosa quando se trata de trabalho, né?

— É… fica mesmo.

Finalmente alguém que entendia o quanto ela podia ser exigente… Sentindo um certo alívio, assenti com força.

— Mas foi muito educativo!

Os olhos de Yuri brilhavam enquanto ela falava.

— Eu nunca tinha cozinhado numa cozinha tão sofisticada. No trabalho no resort, eu já fazia pratos refinados, mas na casa da Konohana-san é outro nível. Eles medem os temperos com precisão quase científica e conhecem cada detalhe dos ingredientes, como verdadeiros estudiosos. …E ajustar a temperatura dos talheres de acordo com o prato? Eu sabia que essa técnica existia, mas ver alguém fazendo de verdade foi a primeira vez.

Parecia que ela tinha tido uma experiência incrível. Quando o assunto era cozinha, Yuri era intensa. Ela buscava o que precisava com determinação e cortava tudo o que considerava desnecessário. Era raro vê-la tão empolgada.

— Teishoku de katsu de ostra, aqui está!

— Obrigada.

Yuri agradeceu rapidamente ao pai quando ele trouxe o prato. Então, o pai dela olhou para o meu prato.

— Itsuki, isso aí não é suficiente pra você, né? Toma, mais carne! Come bastante!

— O-Obrigado…

Olhei para o monte crescente de carne no meu prato, um pouco preocupado. Será que eu conseguiria terminar tudo aquilo…?

— Pai, você está exagerando com o Itsuki.

— Quieta. Um cara precisa ficar um pouco cheio demais pra ficar satisfeito — dizendo isso, o pai de Yuri me encarou de perto. — Mas olha só, Itsuki, você está bem mais forte desde a última vez que te vi.

— Estou?

— Está, sim. Ganhou um pouco de músculo e tem um brilho diferente nos olhos.

— Nos olhos…?

Quando perguntei, ele assentiu com firmeza.

— Quando você sumiu de repente, eu fiquei preocupado, mas parece que você está levando uma vida plena agora.

O rosto do pai da Yuri suavizou, aliviado. Coloquei os hashis na mesa e abaixei a cabeça.

— Sim… me desculpe por ter preocupado o senhor.

O pai da Yuri era do tipo tradicional, mas extremamente atencioso, e eu sempre o respeitei. Então, mesmo com aquela montanha extra de carne, eu estava determinado a comer tudo, já que ele havia servido. …Era muita coisa, porém.

Na verdade, ele fazia isso com a maioria dos estudantes do ensino médio que iam lá, sempre servindo porções extras. Como cozinheiro, ele não fazia distinção, nem mesmo com conhecidos, porque seria injusto com os outros clientes.

Era por causa de pessoas como ele que Yuri havia crescido tão alegre e atenciosa. Mesmo alguém como eu, com uma família complicada, havia sido acolhido por eles. Eu só podia ser grato.

— Eu não fiquei tão preocupado, pra falar a verdade. Mas a Yuri ficou.

— É… eu já me desculpei com ela direito.

— Ficar sem te ver por um tempo deixou a Yuri bem pra baixo, sabia? Uma vez eu dei uma olhada no quarto dela, e ela estava encolhida num canto, murmurando "Será que eu disse algo estranho?" ou "Será que ele está me evitando?" sem parar…

— WAAAAH! Pai!! Cala a boca!!

— Opa, parece que o arroz ficou pronto.

Enquanto a filha o encarava, vermelha e furiosa, o pai recuou tranquilamente. Yuri me lançou um olhar silencioso. Abaixei a cabeça profundamente.

— Eu… sinto muito mesmo por ter te preocupado.

— Tudo bem… A gente já resolveu isso nas aulas de verão. Aff, meu pai não perde uma chance de falar demais.

Yuri disse isso com um suspiro. Ao vê-la assim, não consegui evitar um sorriso.

— Esse tipo de troca… fazia tempo.

— É. É bom fazer isso de novo.

O humor de Yuri pareceu melhorar, e ela esboçou um leve sorriso. Quando olhei para Hinako ao meu lado… ela parecia estranhamente solitária.

— Konohana-san?

— Sim…? Aconteceu alguma coisa?

Hinako se virou para mim com seu sorriso refinado de sempre. Eu achei ter sentido um ar melancólico vindo dela, mas talvez fosse coisa da minha cabeça. Balancei a cabeça e disse:

— Não, nada.

À minha frente, Yuri observava atentamente o rosto de Hinako.

*

 

Depois de terminar a refeição, Yuri voltou para a cozinha para ajudar. Em uma mesa ao fundo, Itsuki e Hinako conversavam tranquilamente. De vez em quando, Itsuki levava a mão ao estômago — claramente por ter comido demais. Talvez precisasse descansar ali por mais um tempo.

De repente, o pai de Yuri, que estava de folga, foi até a mesa deles. Itsuki e ele começaram a relembrar histórias antigas, rindo juntos. Ao lado, Hinako sorria suavemente, tomando cuidado para não interromper.

…Ela é perfeita demais para o Itsuki.

Ela era bonita, elegante e refinada. A flor inalcançável definitiva. Não importava quantas vezes eu a visse, era sempre isso que pensava.

Mas, pelo que eu podia perceber, a distância entre eles não havia mudado muito desde as aulas de verão. Ela parecia capaz de tudo, mas sua iniciativa provavelmente era apenas mediana.

— Konohana-san, vem aqui!

Yuri chamou Hinako. Hinako inclinou a cabeça, mas foi até ela.

— O que foi?

— Quando aqueles dois começam, eles vão longe. Quer conversar? Só nós duas.

— Conversar?

— Uhum. Só nós duas — Yuri avisou em direção à cozinha: — Vou fazer uma pausa!

Um "Claro!" animado veio de lá — provavelmente da nova funcionária de meio período que o pai dela havia contratado recentemente. Ela era extremamente eficiente e confiável.

— Vem comigo.

Yuri conduziu Hinako até os fundos do restaurante. Subindo as escadas, havia duas portas no fim do corredor. Yuri abriu a da esquerda e convidou Hinako a entrar em seu quarto.

— Desculpa a bagunça. Fiquei surtando de manhã tentando decidir o que vestir pra ir trabalhar na sua casa, então revirei o guarda-roupa inteiro.

— Não, está perfeitamente bem.

Mesmo assim, Hinako olhou ao redor com curiosidade. Naquela manhã, ela provavelmente havia sido deslumbrada pela decoração luxuosa da mansão Konohana, mas aquele quarto era o completo oposto. Para uma pessoa comum, era um quarto normal, mas para uma Ojou-sama, talvez parecesse outro mundo.

— Esta foto…

Os olhos de Hinako pousaram em uma foto emoldurada sobre a mesa. Nela, Yuri e Itsuki estavam com roupas de educação física, usando faixas na cabeça.

— É do dia esportivo da escola primária. …Naquela época, eu era mais rápida que ele.

— Sério?

— O Itsuki só ficou mais atlético lá pro fim do fundamental. Antes disso, ele era meio desajeitado.

Hinako assentiu, claramente interessada. Yuri fez uma proposta.

— Quer ver mais? Tenho várias fotos do Itsuki.

— Já que você ofereceu, adoraria.

"Já que você ofereceu"… como se isso escondesse o quanto ela queria ver…

Yuri sorriu de lado, mas por dentro estava radiante. Finalmente, uma chance de mostrar sua Coleção Itsuki (ou seja, o álbum de fotos)! Ela abriu animada a gaveta da mesa.

Da gaveta de cima, tirou um álbum. Assim que foi aberto, os olhos de Hinako ficaram grudados nele.

— Isso é…

— Dia de visita dos pais no ginásio.

— Visita dos pais?

— Não tem isso na Academia Kiou? É quando os pais vão assistir às aulas dos filhos.

— Não, não temos. Nossos pais geralmente estão ocupados demais.

Fazia sentido, pensou Yuri. Os pais de Itsuki também não apareceram naquele dia, mas no caso deles, provavelmente não era por estarem ocupados.

— Ultimamente, o Tomonari-kun estava, como posso dizer… — observando uma foto de Itsuki no ginásio, Hinako hesitou.

— Os olhos dele parecem um pouco intensos, não?

— Sim.

— Pensando bem, naquela época o Itsuki era meio… áspero. No ginásio, é impossível não perceber as diferenças nas condições familiares, mesmo que você não queira.

Seja em visitas de pais ou festivais esportivos, havia muitas oportunidades de ver os pais dos colegas. Coisas que uma criança do fundamental não perceberia se tornavam impossíveis de ignorar na sensibilidade de um aluno do ginásio.

— Mas olha, de vez em quando ele fazia uma cara fofa assim.

— Isso… é bem fofo.

— Quando fiz um bolo de aniversário pra ele, ele ficou mais feliz do que eu esperava.

A foto mostrava Itsuki comendo bolo, com um sorriso aberto e radiante. No início, Yuri e os outros ficaram felizes ao vê-lo tão contente, mas quando ele comentou depois: "É a primeira vez que eu como bolo no meu aniversário", isso acabou fazendo todos se emocionarem por vários motivos. Ainda assim, era uma boa lembrança.

— Essa é… a escola de hoje mais cedo?

— É. Essa foi tirada na cerimônia de entrada.

Na frente do portão do colégio, Yuri e Itsuki estavam lado a lado. Naquela época, Itsuki provavelmente nunca imaginou que acabaria na Academia Kiou…

— O Tomonari-kun parece meio sonolento aqui.

— Acredita que ele marcou entrega de jornal na manhã da cerimônia? Ficou sem dormir e passou o tempo todo quase cochilando.

Quando não consegui evitar dizer "Você é idiota?", ele simplesmente respondeu: "Sim, fui mesmo."

É exatamente esse tipo de coisa que me faz querer cuidar dele.

— Se não se importar com fotos no celular, tenho muitas outras.

Yuri abriu a galeria do celular e mostrou a tela para Hinako.

— Ah, essa parece mais recente.

— É, foi de uns seis meses atrás, na sala de aula.

— E essa… ele está olhando para baixo?

— Boa observação. Ele estava chateado porque não foi bem numa prova.

As duas continuaram conversando animadamente, rindo de vez em quando. Hinako olhava para a tela do celular de Yuri com fascínio genuíno.

— Hirano-san, você tira muitas fotos com o Tomonari-kun?

— É, acho que sim. Os pais do Itsuki não eram muito do tipo que se importava com isso — ou talvez não tivessem dinheiro para uma câmera — então meus pais tiravam muitas fotos no lugar.

Por isso, revelávamos e dávamos cópias para o Itsuki também.

— Não que seja nada demais — minha família fazia isso por conta própria. Não sei muito bem o que o Itsuki pensa sobre isso.

Yuri disse isso com uma leve risada. Itsuki podia ser bem desligado quando se tratava de si mesmo. Ele parecia genuinamente grato quando recebia as fotos, mas quem sabia o que realmente sentia.

— Acho que ele guarda isso com carinho.

Hinako disse suavemente, com uma voz delicada. Ela se lembrava de algo. No outro dia, quando pegou emprestado um dicionário eletrônico de Itsuki, ele havia aberto a gaveta da mesa. Hinako havia visto seu interior por um breve instante.

— Havia fotos na gaveta de cima da mesa que o Tomonari-kun usa… tenho certeza de que ele as considera preciosas.

— Entendo.

Itsuki guardava suas fotos no mesmo lugar que Yuri. Ele também devia valorizar aquelas lembranças antigas.

— O Tomonari-kun parece tão feliz nessas fotos.

Observando as imagens, Hinako disse isso com um tom passageiro, quase frágil. Yuri, ao notar sua expressão de perfil, sentiu um leve aperto de curiosidade.

Por que ela estava fazendo aquela cara?

Ultimamente, Hinako parecia ter um ar mais melancólico do que durante o curso de verão. Quase como se… ela e Itsuki tivessem se afastado ainda mais.

— Se a gente continuar assim, vou acabar esquecendo por que te chamei aqui.

Ao ver a expressão de Hinako, Yuri se lembrou do motivo de tê-la chamado.

— Então… eu queria te perguntar… como têm sido as coisas ultimamente?

— As coisas…?

Hinako inclinou a cabeça, e o rosto de Yuri se contorceu em dúvida. Como ela deveria dizer isso? Ficar rodeando com palavras vagas provavelmente não funcionaria com uma Ojou-sama tão pura…

— Bom, você sabe… lembra do que eu disse no final do curso de verão? Pensando agora, percebo que fui meio intrometida…

Yuri deu uma risada sem graça. Para ser sincera, ela realmente achava que tinha sido intrometida — mas não se arrependia. Naquele momento, ela sentira que precisava dizer aquilo de qualquer forma. Hinako parecia prestes a continuar tropeçando sem perceber seus próprios sentimentos, e Yuri não conseguia simplesmente assistir uma garota tão desajeitada se machucar.

Ainda assim, se suas palavras só tivessem deixado Hinako ainda mais preocupada, isso iria contra o propósito. Yuri esperava ver Hinako mais leve e tranquila depois do reencontro no curso de verão, mas, em vez disso, ela parecia ainda mais perturbada.

— Na verdade, eu também queria falar sobre isso com você, Hirano-san.

— Sim, sim, pode perguntar qualquer coisa.

Yuri aguardou as palavras de Hinako. Hinako abriu a boca lentamente.

— O que significa… gostar de alguém?

Diante daquela pergunta, os pensamentos de Yuri pararam abruptamente.

— O que significa…?

Em uma era em que dramas e mangás românticos surgiam aos montes, pensar que ainda existia alguém que faria uma pergunta dessas… Os olhos puros e sinceros de Hinako fizeram Yuri corar de vergonha alheia. Ela era como uma protagonista saída diretamente de um mangá ou drama — uma verdadeira princesa ingênua.

Aquele ponto, ela parecia quase uma Ojou-sama perfeitamente construída.

— Espera… deixa eu pensar em uma forma de explicar isso.

Se fosse apenas a definição da palavra, Yuri poderia responder na hora. Mas provavelmente não era isso que aquela garota inocente queria saber. Como ensinar a ela o que significava gostar de alguém, o que era o amor? Yuri refletiu por alguns minutos, mas, no fim, nenhuma resposta veio.

*

 

Com o estômago cheio, saímos do restaurante da família da Yuri. Depois de nos despedirmos do pai dela, conversamos um pouco com Yuri em frente ao estabelecimento.

— Konohana-san, sobre aquilo que falamos mais cedo, vamos deixar em aberto por enquanto. Eu te aviso se descobrir algo que valha a pena compartilhar.

— Sim, estarei esperando.

Do que elas estavam falando…? Eu sabia que as duas haviam se afastado enquanto eu conversava com o pai da Yuri, então talvez tivessem discutido algo em particular.

— Sobre o que você e a Yuri estavam conversando?

— Hmm… é segredo.

Se ela dizia isso, provavelmente eu não deveria insistir… ou pelo menos foi o que tentei dizer a mim mesmo, mas, sinceramente, fiquei curioso. Ela geralmente era tão aberta comigo — às vezes até demais — que vê-la guardar um segredo parecia estranhamente frustrante.

— Itsuki… você é bem próximo do pai da Yuri também, não é?

— É. Eles me ajudaram bastante. Eu até trabalhei meio período lá por um tempo… sendo sincero, talvez eles tenham feito mais coisas de família por mim do que meus próprios pais.

Até no dia da cerimônia de entrada no ensino médio, tirei fotos com a família da Yuri, não com meus pais. Meus pais quase nunca apareciam nos eventos da escola. Já a família da Yuri me tratava com uma gentileza que parecia até excessiva para alguém de fora.

Era por isso que a casa deles sempre me parecia tão acolhedora. Tinha um clima caloroso, familiar, que eu raramente sentia nem mesmo na minha própria casa.

…Estou com inveja.

Uma emoção que eu não sentia havia muito tempo voltou à tona. Ver uma família tão unida às vezes me deixava invejoso. Comer juntos, conversar animadamente… eu me pegava desejando esse tipo de conexão calorosa.

Como abrir a porta de casa e ouvir alguém dizer suavemente: "Bem-vindo de volta." Eu costumava sonhar com dias assim. Havia aceitado minha realidade, mas, de vez em quando, esses sentimentos vinham à tona. Era como uma condição crônica… ou talvez uma recaída repentina.

— Estou em casa.

Abri a porta e disse aquilo por hábito. Ninguém deveria responder. …Ou era o que eu pensava.

— Bem-vindo de volta.

Shizune-san, que lavava a louça na cozinha, virou-se para me olhar. "Bem-vindo de volta." Eu não esperava ouvir aquelas palavras, e por um momento, congelei.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, é só que…

Desviei o olhar de Shizune-san, que inclinava a cabeça com curiosidade. Aquelas eram as palavras que meu coração mais desejava ouvir. Eu achava que nunca as teria, então ouvi-las assim, de repente, deixou minha mente em branco. Enxugando as lágrimas que se formavam no canto dos meus olhos, voltei a olhar para Shizune-san.

— Eu só… achei que é bom ter alguém em casa.

— Eu entendo.

Shizune-san sorriu suavemente.

Finalmente percebi por que havia deixado de sentir aquela "inveja" de famílias unidas até recentemente. Era porque passar tempo com Hinako e os outros havia preenchido esse vazio dentro de mim.

— Vou ajudar com a louça.

— Você acabou de chegar, pode descansar, sabe.

— Não, deixa eu ajudar.

Shizune-san me lançou um olhar intrigado, mas assentiu.

— Certo, então.

Aquela atmosfera acolhedora também estava ali. Perceber isso me deixou mais feliz do que qualquer outra coisa.

*

 

Shizune-san terminou de lavar o último prato e o guardou habilmente na prateleira. Ela estava prestes a começar algum trabalho relacionado à família Konohana. Como esperado, eu não podia ajudar com aquilo. Já havia terminado meus estudos do dia, então, com um pouco de tempo livre, decidi relaxar.

— Ojou-sama, devo começar a preparar o banho? — Shizune-san olhou para o relógio enquanto trabalhava e perguntou.

— Hm… hoje está quente, então talvez amanhã…

— Isso não pode.

Hinako soltou um resmungo:

— Ehhh…

Mas eu entendia o ponto dela.

— O ar-condicionado dessa casa não é lá grande coisa, né.

Já era final de agosto. Era de se esperar que começasse a esfriar, mas as noites ainda estavam abafadas.

— Eu quero sorvete…

— Acho que vou comprar.

Eu tinha tempo sobrando. Pensei em perguntar se Hinako queria ir junto, mas ela tinha saído mais do que o normal nos últimos dias e parecia completamente exausta. Além disso, já estava escuro, então fui sozinho.

— Shizune-san, vou até a loja de conveniência aqui perto.

— Entendido. Já está tarde, então tome cuidado para não se desviar do caminho.

Nas entrelinhas, ela dizia que um pequeno desvio era aceitável, mas que eu deveria assumir as consequências. Um aviso bem típico da Shizune-san. …Ela talvez até tivesse percebido que eu queria aproveitar um pouco o clima noturno daquela cidade onde não voltava há tanto tempo.

Saí de casa e comecei a caminhar em direção à loja de conveniência.

— Essa vista não mudou nada.

O bairro residencial à noite era tão silencioso que chegava a ser inquietante. Como se para afastar esse desconforto, uma estranha excitação surgiu dentro de mim. Era sempre assim quando eu voltava para casa depois de turnos noturnos.

Desde que me tornei cuidador, tive poucas oportunidades de andar pela cidade à noite. A luz fraca dos postes e o som suave dos meus próprios passos eram nostálgicos. Virando em um beco estreito, avistei a loja de conveniência que procurava. Lembrei que, quando comecei o ensino médio, queria trabalhar ali por ser perto de casa, mas na época não estavam contratando.

Ao entrar, o ar fresco do ar-condicionado tocou minha pele. Fui direto para a seção de sorvetes. No caminho, passei por um homem alto vestindo um terno elegante. …Um segurança da família Konohana, talvez?

Era difícil explicar, mas ele tinha uma aura refinada que o diferenciava das outras pessoas. Lembrava a presença distinta que senti nos alunos de elite da Academia Kiou quando entrei lá pela primeira vez. Será que ele tinha alguma ligação com a família Konohana? Enquanto pensava nisso—

— Boa noite.

O homem se virou e falou comigo.

— Boa noite.

Sem entender por que ele estava falando comigo, respondi de forma vaga. Ele era incrivelmente bonito. Corpo esguio, pele pálida. Não parecia nem um pouco com um segurança, pensei, imaginando se ele não seria algum tipo de ídolo.

— Pode me dizer o que é bom aqui?

— Bom…?

Em uma loja de conveniência…? Eu já tinha ouvido essa pergunta várias vezes trabalhando em um bar, mas nunca em uma loja de conveniência. Ele parecia alguém de classe alta, então tentei pensar em algo que alguém assim gostaria.

— Que tal aqueles vinhos ali?

— Hmm, não exatamente. Estou procurando algo mais… com cara de loja de conveniência.

Achei que vinho seria uma escolha segura, mas errei.

— Então talvez os salgados quentes perto do caixa?

— Salgados quentes? …Ah, aqueles! Fiquei curioso desde que entrei!

Ele nunca tinha comido aquilo antes? Parecia mais que ele nem sabia que aquilo existia…

— Aliás, você poderia me emprestar um pouco de dinheiro?

— Dinheiro?

De repente, o nível de suspeita desse cara subiu muito. Mas, graças ao meu salário como assistente, eu tinha um pouco de dinheiro sobrando. Um salgado não passava de 200 ienes, então resolvi ajudar e entreguei duas moedas de 100.

— Obrigado. Você é gentil.

Ele me olhou diretamente nos olhos ao dizer isso.

— Eu não carrego carteira por princípio. Facilita criar conexões, sabe?

— Entendo.

Como uma versão avançada de pedir carona, talvez? Ele era claramente suspeito, mas, por algum motivo, não me senti desconfortável. Talvez fosse por causa de sua postura refinada. Seus comentários estranhos deveriam fazê-lo parecer apenas excêntrico, mas de alguma forma soavam como lampejos de genialidade.

Ele foi até o caixa e comprou um salgado. Hinako estava esperando, então eu precisava pegar o sorvete… Enquanto o homem saía da loja, fui até o caixa com três sorvetes.

— Itsuki-kun?

Logo após pagar, a caixa — uma mulher — me olhou surpresa. A voz dela parecia familiar.

— Adachi-san?

Era uma antiga colega de classe. De longe eu não tinha percebido, mas olhando de perto, não havia dúvida.

— Quanto tempo, né.

— É… faz tempo.

Trocamos cumprimentos meio sem jeito. A conversa quase morreu ali. Não havia mais ninguém na loja. Antes que o silêncio ficasse constrangedor, tentei puxar assunto.

— Você trabalha aqui?

— Trabalho. Só a mesada não dá nem pro começo.

Ela respondeu, olhando para mim.

— Você mudou um pouco, Itsuki-kun.

— Mudei?

— Parece mais… confiante, talvez? Sua postura está melhor. Você parece mais firme do que antes.

Não parecia ser um comentário negativo. Manter uma postura ereta era algo que eu vinha praticando como aluno da Academia Kiou. Era bom perceberem isso.

— Adachi-san, você também mudou.

— Ah é? Como assim?

— Bem… você parece mais… chamativa agora.

Talvez tenha sido direto demais, mas era minha impressão sincera. Ela tinha piercings nas orelhas. As unhas estavam pintadas. Até o cabelo estava um pouco tingido. Agora que estava no segundo ano do ensino médio, talvez tivesse decidido se divertir um pouco com o visual dentro do que era permitido. Mas no ano anterior, ela não era assim. Adachi-san nunca foi do tipo que se retraía ou seguia a multidão, mas sua aparência costumava ser mais discreta. Pelo menos, ela não tentava se destacar.

— É uma mudança de visual.

Adachi-san respondeu de forma breve.

Uma mudança de visual… Ao imaginar o motivo por trás disso, desviei rapidamente o olhar.

— Por que você está fazendo essa cara, Itsuki-kun?

— Bem… é meio constrangedor.

— Porque eu me declarei pra você?

— É….

Não consegui inventar uma boa desculpa, então assenti com sinceridade. No nosso primeiro ano do ensino médio, Adachi-san havia se declarado para mim. Na época, eu não tinha percebido totalmente, mas, pensando agora, houve um período em que ela falava bastante comigo.

Mas eu a rejeitei. Minha situação familiar era complicada, e eu simplesmente não conseguia lidar com esse tipo de coisa.

— Essa mudança de visual não tem nada a ver com você, Itsuki-kun.

Senti um alívio silencioso dentro de mim. Mas demonstrar isso parecia errado, então acabei assentindo com uma expressão estranha. Ao me ver assim, Adachi-san riu.

— O ano passado foi meio caótico, né?

Ela falou, relembrando o passado.

— Depois que você me rejeitou, eu faltei à escola por um tempo, lembra? Eu disse pra todo mundo que estava doente, mas, na verdade, só estava muito mal.

— Eu imaginei que fosse algo assim.

— O quê? Então você podia pelo menos ter ido me ver!

— Se eu aparecesse, só teria piorado, não?

Soltei uma leve risada, e Adachi-san riu também. Nenhum de nós estava exatamente errado, mas aquela conversa parecia uma espécie de purificação. Uma forma de, aos poucos, consertar aquela relação estranha.

— E aí, talvez para me defender ou algo assim, meus amigos começaram a falar mal de você por um tempo…

— Ah… então era isso.

— Desculpa por isso. Acho que parte da culpa foi minha, porque desabafei com eles de um jeito meio estranho. Quando eu disse que você me rejeitou por causa da sua família, todo mundo achou que era mentira e ficou irritado…

— Não, eu também não lidei bem com isso. Eu quase nunca explico minha situação familiar para ninguém, então usar isso como desculpa do nada provavelmente não fez sentido pra você.

Enquanto conversávamos, comecei a me lembrar claramente daqueles dias. É mesmo. No nosso primeiro ano, minha vida não era só juventude e diversão. Houve momentos em que as coisas não deram certo, momentos em que me senti esmagado pela ansiedade.

— A gente era bem imaturo naquela época, né?

— Era…

Mesmo que não pudéssemos nos tornar um casal, continuar como amigos e seguir em frente… esse tipo de desfecho limpo só acontece com quem entende muito de romance. Eu e Adachi-san não conseguimos. Cocei a nuca, sentindo-me um pouco patético ao lembrar dessas memórias frustrantes.

— Naquela época, eu estava tão preso nos meus próprios problemas… Às vezes queria poder recomeçar tudo.

— Hmm. Então isso quer dizer que posso tentar de novo com você?

— Hã?

Não foi isso que eu quis dizer, mas…

— Na verdade, eu ainda gosto um pouco de você, Itsuki-kun.

— E-Espera, isso é…

Adachi-san se inclinou para frente, olhando para mim com aqueles olhos, e segurou minha mão.

— Ei… quer conversar mais? Meu turno está quase acabando.

— Conversar, você diz…

Fiquei confuso com a forma repentina com que ela encurtou a distância. Adachi-san sempre foi assim? Ela era do tipo que tomava tanta iniciativa? Tanto na aparência quanto na personalidade, ela estava bem diferente do que eu lembrava.

— Ei.

Nesse momento, o homem de terno — que eu achei que já tivesse ido embora — se aproximou de nós e falou. Adachi-san imediatamente se endireitou.

— Desculpe, já vou passar o pagamento…

— Não, não. Não é isso. Eu só não consegui ficar ouvindo essa conversa.

A correção dele cortou o ar do ambiente. Eu ouvi direito? Esse cara acabou de dizer algo absurdamente rude? Ele exibiu um sorriso falso e animado, olhando para Adachi-san.

— Garota do ensino médio, um casamento por interesse sem amor não vai trazer felicidade para nenhum dos dois.

Ao ouvir isso, Adachi-san recuou levemente. Mas logo forçou um sorriso para disfarçar.

— Do que você está falando?

— Correr atrás de alguém pelo dinheiro é algo que você deveria deixar para quando for mais velha. Isso vem com seus próprios problemas.

— Eu não falei nada sobre dinheiro!

— Mas você já tem namorado, não tem?

Dessa vez, Adachi-san claramente se abalou. Seus olhos se arregalaram em choque, como se perguntasse "Como?", enquanto encarava o homem.

— Desculpa, garota. Eu tenho um talento pra perceber esse tipo de coisa.

O homem disse isso com a mesma leveza de sempre. A expressão de Adachi-san se fechou. Irritação e inquietação — era como se essas emoções tivessem ultrapassado o limite do que ela conseguia controlar.

— Tch.

Adachi-san estalou a língua. Hesitei, sem saber se deveria dizer algo, mas ela sequer olhou para mim. Como já havia pago pelos sorvetes, saí da loja, ainda preocupado com ela.

— Foi pesado, hein?

Assim que as portas automáticas se fecharam, o homem falou comigo.

— Pesado? Você saiu fazendo acusações do nada, claro que ela ia ficar irritada!

— Mas era verdade. Hmm… parece que acabou assim de novo.

O homem deu de ombros, sem parecer muito arrependido.

— Itsuki-kun, ser humilde é ótimo, mas você deveria entender melhor a sua situação. A partir de agora, provavelmente vai ser cercado por pessoas como ela.

As palavras dele me pareceram estranhas. Como ele sabia da minha situação? E…

— Por que você sabe o meu nome…?

— Por que será?

O homem sorriu de forma enigmática.

— Dica: você conseguiu voltar para casa por minha causa.

As palavras dele me fizeram repassar os últimos dias na cabeça. O que levou a essa visita? Hinako queria conhecer minha casa. E o motivo disso…? O motivo pelo qual Hinako saiu da mansão—

— Konohana Takuma-san?

— Acertou.

O homem assentiu com um sorriso suspeito.

— Prazer em conhecê-lo. Sou Konohana Takuma. Minha irmãzinha está sob seus cuidados.

*

 

No estacionamento da loja de conveniência, fiquei frente a frente com Takuma-san, segurando a sacola com os sorvetes.

— Eu disse que queria pegar dinheiro emprestado, certo? Não que queria ganhar. Em outras palavras, tenho como pagar de volta.

Bom… sim, eu imaginei isso. Ele era da família da Hinako, então era de se esperar que soubesse tudo sobre mim. O fato de estar ali significava que provavelmente sabia onde estávamos morando agora. Se Takuma-san quisesse, poderia me encontrar a qualquer momento.

— Hum, Takuma-san… por que o senhor está aqui…?

— Matando o tempo. Se tiver que dizer um motivo, queria conhecer a cidade que minha irmã escolheu como esconderijo.

Então me encontrar foi só coincidência? Chamar de esconderijo significava que ele sabia perfeitamente que Hinako estava evitando ele. Mas Takuma-san não parecia nem um pouco triste com isso.

— E então, como está sendo o trabalho de cuidador? — Takuma-san perguntou de repente. Hesitei, e ele emendou outra pergunta. — Está sendo gratificante?

— Acho que sim.

— Hahaha, até quando você vai ficar tão rígido? Relaxa um pouco!

Takuma-san riu de forma descontraída. Mas eu não conseguia aliviar a tensão. Tinha sido assim o tempo todo. Havia algo inquietante em Takuma-san, algo que eu não conseguia definir. O tom dele era leve, mas ele parecia impossível de ler.

— Cuidar daquela garota deve ser difícil, né? Não está muito estressado?

— Não, é gratificante. Então não sinto muito estresse.

— Que bom ouvir isso. O último cara teve uma úlcera, sabia? Não sei se foi o nome Konohana que traumatizou ele ou o quê, mas ele nunca mais conseguiu usar os serviços do nosso grupo.

Aquilo soava como uma história bem trágica. Viver neste país sem depender do Grupo Konohana não era impossível, mas exigia bastante esforço. Eles estavam envolvidos em bancos, imóveis, alimentação — em praticamente tudo.

— Pelo que vi mais cedo, parece que você ainda se dá bem com seus antigos colegas.

— Sim, eu acho. Não tem motivo para ficar de mal com eles.

Embora, graças ao Takuma-san, minha relação com uma delas talvez tivesse acabado de piorar.

— Você se adapta bem, não é? …Ou melhor, você quer se adaptar — Takuma-san disse isso como se estivesse impressionado. — É justamente por isso que vou te contar uma coisa.

Ele me encarou diretamente e disse:

— Você sabe por que o pai permitiu que Hinako saísse da mansão?

— Isso… não foi porque, ultimamente, a Hinako vem cumprindo seus deveres como filha da família Konohana, e o Kagen-san começou a confiar mais nela?

— Você está dando crédito demais a ele.

Takuma-san riu. Eu percebi que era um sorriso forçado.

— Diferente do hotel do curso de verão, a sua casa não é exatamente uma fortaleza. …Você realmente acha que aquele pai superprotetor deixaria a Hinako sair da mansão tão facilmente?

Quando ele colocou dessa forma, comecei a duvidar das minhas próprias suposições. Ele estava certo — Kagen-san era extremamente cauteloso. Ou melhor, prudente. Ele parecia compreender profundamente o peso do Grupo Konohana e sempre buscava tomar decisões à altura dessa responsabilidade.

Então, qual era o verdadeiro motivo para ele ter permitido que Hinako saísse…?

A explicação mais emocional que eu tinha dado talvez não combinasse com o estilo dele.

— A verdade é que a família Konohana está lidando com um pequeno problema no momento.

— Um problema?

— Uma das empresas do grupo, a Konohana Drinks Co., Ltd., se envolveu em um escândalo de assédio moral. Ainda não saiu nas notícias, então o público não sabe, mas isso já vazou entre pessoas do setor. Então, por precaução, decidimos manter a Hinako afastada da mansão.

A explicação direta dele fazia sentido. Na verdade, parecia uma resposta mais coerente. Se fosse esse o caso, explicava por que Kagen-san teria aprovado aquilo.

— Meu pai não consegue tomar decisões sem calcular tudo. Perdoe-o por isso.

Takuma-san disse isso com um leve tom de desculpa. Será que ele também não se dava bem com o pai? Fiquei curioso, mas havia algo mais importante para perguntar naquele momento.

— Esse problema… a Hinako sabe disso?

Se soubesse, então ela vinha escondendo sua preocupação esse tempo todo? Ao ouvir minha pergunta, os olhos de Takuma-san se arregalaram.

— Você é um cara gentil, hein. Essa foi a primeira coisa que pensou ao ouvir tudo isso?

Ele soltou um suspiro curto.

— Ela sabe. O pai deve ter contado. Mas provavelmente só sabe o mesmo que eu acabei de explicar. E, de qualquer forma, não há nada que ela possa fazer.

Takuma-san respondeu de maneira direta.

— E, embora seja triste admitir, o motivo pelo qual minha irmã saiu da mansão é porque não quer me ver. …Ela não está escondendo os verdadeiros sentimentos de você nem nada disso.

Ele disse aquilo como se quisesse aliviar minhas preocupações. Então, Hinako não tinha escondido o escândalo para não me preocupar, nem tinha saído da mansão usando isso como desculpa para evitar o irmão. Ela realmente estava animada por estar ali.

Pensando bem, isso fazia sentido. Quando Hinako veio para minha casa, e quando caminhamos pelo bairro comercial, seus olhos brilhavam de empolgação. Era difícil acreditar que aquilo fosse atuação. Nesse momento, ouvi passos se aproximando por trás.

— Itsuki-san. Você estava demorando, então vim buscá-lo—

Shizune-san se aproximou de nós no estacionamento da loja de conveniência. Já estava escuro, então provavelmente ela não tinha conseguido ver com quem eu estava falando até chegar mais perto. Seus olhos se arregalaram levemente ao reconhecer a pessoa diante de mim.

— Takuma-sama… O que faz aqui?

— Yo, Shizune. Ainda com essa cara séria, hein?

Takuma-san a cumprimentou de forma casual.

— Só estou matando o tempo. Você sabe que meu hobby é ficar andando por aí, não sabe?

— Eu já disse para abandonar esse hobby.

— Não dá para abandonar — por isso é um hobby.

Shizune-san, que normalmente era calma e composta, deixou escapar uma leve expressão de desagrado. Ela respirou fundo e voltou o olhar para mim.

— Itsuki-san, esse homem lhe disse algo desnecessário?

— Ah… bem…

Como eu deveria responder? Enquanto eu hesitava, Takuma-san suspirou.

— Ah, isso foi duro. Eu sou o filho mais velho da família Konohana, sabia? Não faria algo assim.

— Espero que não…

— Eu apenas expliquei o problema pelo qual o Grupo Konohana está passando no momento.

Shizune-san lançou-lhe um olhar, como se dissesse: "Mesmo assim você contou."

— O Itsuki-kun achava que o pai deixou a Hinako sair porque confia nela. Foi você que colocou essa ideia na cabeça dele, Shizune?

— Colocar na cabeça? Até certo ponto, isso não deixa de ser verdade.

— Claro, o pai está mudando um pouco. Mas exagerar essas pequenas mudanças é arriscado. …Às vezes, criar expectativas só serve para se decepcionar depois.

Takuma-san disse isso com uma expressão levemente solitária. Eu só conseguia entender vagamente sobre o que eles estavam discutindo.

— Takuma-sama, era realmente necessário contar ao Itsuki-san sobre os problemas do Grupo Konohana?

— E era necessário esconder dele? Eu sei que você é superprotetora, Shizune, mas, no caso dele, saber pode ajudá-lo a lidar melhor com as coisas do que ficar no escuro.

— Eu estou tentando pensar nisso seriamente do meu jeito.

Shizune-san lançou um olhar penetrante para Takuma-san.

Sinceramente… era a primeira vez que eu via Shizune-san perder uma discussão.

Não sei se Takuma-san fazia isso de propósito, mas ele a estava deixando completamente desconcertada. Enquanto observava aquilo, um pensamento me ocorreu.

…Será que a correria recente da Shizune-san tinha algo a ver com o Takuma-san?

O filho mais velho da família Konohana apareceu de repente na mansão onde estávamos hospedados. Aquilo certamente exigiria uma quantidade enorme de ajustes e trabalho.

Vendo Takuma-san provocando Shizune-san daquele jeito, comecei a achar que podia ser isso.

— Não é isso.

Takuma-san desviou o olhar para mim e disse:

— A correria da Shizune é puramente por causa do escândalo que mencionei. A minha visita não tem nada a ver com isso.

Ele declarou com confiança. Shizune-san, parada silenciosamente no canto do meu campo de visão, não disse nada. O silêncio dela já era resposta suficiente. Mas, mais do que isso—

— Hum, eu não disse nada ainda, disse…?

Será que eu tinha falado em voz alta o que estava pensando? Não. Não tinha. Eu jamais diria algo tão rude na frente da própria pessoa. Sabia que era falta de educação, então mantive aquilo apenas na minha mente.

E ainda assim, Takuma-san apontou como se tivesse lido meus pensamentos. Ao ver minha reação confusa, Takuma-san riu.

— Eu te disse, não disse? Eu simplesmente percebo essas coisas.

Um arrepio percorreu minha pele. Foi assim que a Adachi-san se sentiu mais cedo? 

— Bem, quanto a esse problema todo, você não precisa se preocupar, Itsuki-kun. Deixe esse tipo de coisa para adultos astutos como nós.

Takuma-san falou como se nada tivesse acontecido. Eu não gostava de colocar Shizune-san na mesma categoria de "adultos astutos" que ele, então não consegui responder.

— Bom, já vou indo… Ah, é mesmo, tem mais uma coisa que preciso te dizer, Itsuki-kun.

Dizendo isso, Takuma-san se aproximou e sussurrou, de forma que Shizune-san não pudesse ouvir:

— No momento, você não pode ser alguém com quem ela realmente possa contar.

O que ele quis dizer com isso—

Antes que eu pudesse perguntar, Takuma-san já tinha ido embora. O sorvete que eu tinha comprado para Hinako havia derretido completamente.

*

 

Depois de comprar novos sorvetes, eu estava a caminho de casa. Meu celular vibrou, indicando uma ligação da Yuri.

— Itsuki, tem um minuto? Então, aquela garota que encontrei na frente da escola hoje… ela acabou falando sobre você para a Adachi-san sem perguntar.

— É mesmo?

— É. Eu não achei que fosse importante mencionar, então fiquei quieta, mas… a Adachi-san anda saindo com um pessoal meio complicado desde que virou aluna do segundo ano. Não sei se é influência deles ou o quê, mas ela pegou o hábito de se aproximar de quem parece ter dinheiro. Você é aluno da Academia Kiou, então… só toma cuidado, tá?

— É… vou tomar.

Depois de encerrar a ligação com Yuri, guardei o celular no bolso. Soltei um pequeno suspiro.

— Hum, Shizune-san?

Olhei para Shizune-san, que caminhava ao meu lado.

— Que tipo de pessoa é o Takuma-san?

— Essa é uma pergunta difícil de responder.

Shizune-san começou a falar enquanto caminhávamos.

— Se eu tivesse que resumir em uma palavra, diria que ele é livre. Ele é atencioso à sua maneira, mas seus valores são tão fora do comum que é difícil se conectar com ele. Mesmo para alguém como Kagen-sama ou a Ojou-sama, que são da família dele, compreender o que se passa no coração de Takuma-sama não deve ser nada fácil.

Observando a cidade noturna, Shizune-san continuou:

— Mas, como era de se esperar de alguém que carrega o sangue dos Konohana, o talento natural dele é equivalente — ou até superior — ao da Ojou-sama. …A percepção dele, em especial, é tão aguçada que chega a ser inquietante.

— Percepção…

Eu tinha uma ideia do que ela queria dizer. Talvez percebendo meus pensamentos, Shizune-san continuou:

— Você já ouviu falar de EQ?

Balancei a cabeça.

Emotional Intelligence Quotient… significa quociente de inteligência emocional. É, basicamente, o equivalente psicológico do QI. Pessoas com EQ alto são boas em ler emoções ou controlar as próprias.

Ler emoções… provavelmente significava captar o que os outros estavam sentindo. Controlar emoções devia se referir a gerenciar os próprios sentimentos. Eu estava apenas deduzindo pelos termos, mas fazia sentido.

— O EQ do Takuma-sama é excepcionalmente alto, até em escala global. Ele costuma dizer que possui "habilidades de comunicação exageradamente desenvolvidas". …Takuma-sama consegue, muitas vezes, entender o que alguém está pensando apenas observando suas expressões. É por isso que, às vezes, ele diz coisas que parecem leitura de mente.

Então era assim que Takuma-san conseguia adivinhar o que eu estava pensando. E provavelmente também tinha sido assim com a Adachi-san…

— Mas, por causa desse dom, Takuma-sama tem dificuldade com a comunicação comum. …É compreensível. Para ele, é como se a outra pessoa já tivesse dito algo, mas, para essa pessoa, nada foi dito.

Quando saímos da loja de conveniência e ficamos só nós dois, Takuma-san murmurou: "Lá vamos nós de novo". Ele devia achar que estava respondendo aos sentimentos de alguém, mas os outros não entendiam. Provavelmente já tinha passado por isso inúmeras vezes. Aquele tom resignado na voz dele carregava esse peso.

— Você sabe bastante sobre ele, não sabe? Sobre o Takuma-san.

Shizune-san havia falado com surpreendente detalhe.

— Bem, originalmente eu servia ao Takuma-sama, não à Ojou-sama.

— O quê?

Aquilo foi novidade para mim.

— Embora, para ser sincera, ele nunca tenha realmente precisado de mim, então fui rapidamente designada para servir a Ojou-sama.

— Entendo.

— Sim. Para ser franca, foi um alívio.

Para alguém como Shizune-san, demonstrar esse tipo de emoção era raro. Enquanto nos aproximávamos de casa, lembrei das palavras que Takuma-san havia me dito.

"No momento, você não pode ser alguém com quem ela realmente possa contar."

O que ele quis dizer com aquilo? Ainda sem resposta, abri a porta de casa. Lá dentro, Hinako estava largada, usando uma almofada como travesseiro. Não estava dormindo, mas parecia completamente relaxada… ou melhor, no seu estado preguiçoso habitual. Decidi deixar as palavras de Takuma-san de lado por enquanto.

— Hinako, trouxe o sorvete.

— Me dá…!

Hinako, que estava deitada, levantou-se num pulo. Ela queria tanto assim? Enquanto eu abria a sacola plástica, os olhos de Hinako brilhavam ao escolher seu sorvete. Então falei:

— Hinako, você sabia do escândalo envolvendo uma das empresas do Grupo Konohana?

— Eu sei. Você ficou sabendo disso, Itsuki?

Se eu dissesse que ouvi do Takuma-san, ela provavelmente faria aquela cara de desgosto como no outro dia, então apenas assenti.

— É… fiquei sabendo.

— Espero que resolvam isso direito… — Hinako deu uma mordida no sorvete, com uma expressão séria. — O papai deve estar muito preocupado.

Kagen-san, que se importava com o Grupo Konohana mais do que qualquer um, provavelmente estava quebrando a cabeça com aquele escândalo.

— É… — concordei, assentindo.

(N/SLAG: Ok. Espero que o Takuma apareça mais a partir de agora. Eu sinto que ele fará o Itsuki crescer ainda mais como pessoa. E além disso, a presença dele tornou a novel muito mais interessante.)

 

 


 

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