Volume 4
Capítulo 5: Um mal-entendido de uma década
NA MANHÃ SEGUINTE, depois de termos ido à praia, reunimo-nos no refeitório como de costume. À minha frente, Tennouji-san comia um omelete — vinha repetindo a escolha nos últimos dias, sinal de que realmente gostava do prato.
Apesar disso, seus movimentos denunciavam algo estranho: Tennouji-san tremia levemente.
— Tennouji-san, você está com frio?
— De jeito nenhum. Este é o tremor de uma guerreira… Para esta prova, estou transbordando de confiança. Desta vez, com certeza vou derrotar Konohana Hinako!
Achei que o ar-condicionado tivesse deixado ela com frio, mas aparentemente não era isso.
— As aulas de verão acabam hoje, né? Dá uma sensação meio triste quando você pensa nisso… — Narika murmurou baixinho.
Hinako e eu… com certeza todos estavam sentindo o mesmo.
— Hinako e eu vamos embora amanhã, mas e vocês?
— Eu também — respondeu Tennouji-san.
— Eu vou embora depois de amanhã. Meu pai vai inspecionar algumas lojas, então vou junto — disse Narika.
A família de Narika administrava a maior fabricante de artigos esportivos do Japão. Assim como as famílias de Taishou e Asahi-san, o modelo de negócio delas é B2C, lidando diretamente com consumidores, então possuem lojas espalhadas por todo o país. Já que estão em Karuizawa, provavelmente vão aproveitar para visitar unidades próximas.
Depois de ouvir as respostas, olhei para Yuri. Eu pretendia incluí-la na pergunta, mas a própria estava completamente distraída, olhando fixamente para o vazio.
— Yuri?
— Oi? Ah, desculpa. Eu não estava prestando atenção.
Ela reagiu com um pequeno atraso.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei.
— Não, nada disso.
Sua resposta não tinha a energia de sempre. Pensando bem, convidar a Yuri, que vinha trabalhando meio período quase todos os dias, para ir à praia talvez tenha sido um pouco insensível. Ela também foi bem ativa lá, então talvez só esteja cansada.
— Hoje é o dia em que todo mundo recebe o resultado da prova, né? …Não é à toa que tem tanta gente com cara de nervosa hoje — disse Yuri, observando o refeitório.
Se for pensar, Hinako e Tennouji-san provavelmente tiraram notas altas como sempre. Os únicos inseguros somos Narika e eu.
— Falando nisso, Hirano-san, você ajudava o Itsuki a estudar, não ajudava? — disse Narika.
— Sim, mais ou menos. Esse cara ficava tão ocupado com o trabalho antigamente, que às vezes nem conseguia se concentrar nas aulas. Então estou um pouco confiante com o estudo dele.
As garotas ojou-sama soltaram sons de admiração.
Eu não sabia como Narika sabia disso, mas então lembrei — antes de irmos à praia, Yuri estava andando às escondidas fazendo alguma coisa. Provavelmente conversaram quando eu não estava por perto.
Pensando bem, Yuri também é bem talentosa. Ela sempre se esforçou nos estudos, até antigamente. Lembro vagamente dela dizendo algo como: "Ser vista como uma idiota que só sabe cozinhar seria irritante, né?".
Isso é tão a cara dela — movida pela competitividade.
— Ei, como eram as questões da prova?
— Algo tipo… isso.
Peguei a prova da minha bolsa embaixo da cadeira e mostrei para Yuri. Yuri olhou por um tempo… e então congelou.
— Ei, Itsuki… você… entende isso? (Yuri)
— Consigo pegar a ideia geral. (Itsuki)
Pelo menos consigo entender o enunciado.
— Ah, é… acho que eu também entendo um pouco. (Yuri)
— Não acredito… (Itsuki)
Ela tem noção de quanto tempo eu levei só para entender?
— Então… você realmente resolveu? — Havia algo estranho nos olhos da Yuri ao perguntar, como se estivesse segurando algum sentimento incomum.
Não sei por quê, mas sua expressão parecia tingida de medo. Sem entender o motivo, respondi honestamente por enquanto.
— Se eu tivesse resolvido, não estaria com essa cara.
— É mesmo! — Ao ver meus olhos mortos de peixe, a inquietação desapareceu do rosto dela. — Quer dizer, pessoas normais não conseguem resolver isso! Não importa como você olhe, o Itsuki é um de nós!
— Ah… dessa vez nem posso rebater.
Com as mãos na cintura, Yuri declarou vitória, e eu não consegui responder. Como esperado, ainda não consigo acompanhar o pessoal da Academia Kiou. Estou dolorosamente ciente de quanto ainda preciso me esforçar.
— É mesmo? — murmurou Tennouji-san suavemente.
— Enfim, como eu disse antes da prova, se você tirar uma nota ruim, faço um combo de hambúrguer para te animar. Então fica firme, tá?
Considerando o treinamento espartano que me aguardava com a Shizune-san, eu precisaria de pelo menos dez combos para equilibrar.
— Quando receber o resultado, me manda mensagem, certo? Eu trabalho até meio-dia hoje.
— Certo.
Já estava na hora de ir para a sala de aula. Saí do refeitório com Hinako e os outros.
— É meio triste pensar que hoje é o último dia das aulas de verão. (Tennouji)
— É… estudar foi difícil, mas foi uma boa lembrança. (Narika)
Ao entrar na sala, Tennouji-san e Narika conversavam com nostalgia. Os outros alunos também estavam assim. Sentindo aquele clima, relembrei a última semana e também senti um aperto no peito.
— Agora vou devolver as provas.
O professor chamou os nomes e entregou as folhas.
— Tomonari Itsuki-san.
— Sim.
Eu estava com medo de ver o resultado. Com as mãos trêmulas, peguei a prova, e o professor me deu um sorriso gentil.
— Você se esforçou.
— Huh…?
*
— Hirano-san, você já pode fazer sua pausa.
— Certo!
Trabalhando na cozinha, Yuri percebeu que era hora do intervalo, organizou rapidamente suas coisas e saiu. Tirou o avental, guardou no armário, pegou o celular e abriu a porta da sala de descanso.
— Oh, Hirano-san. Bom trabalho.
— Obrigada, para você também.
Uma colega mais velha já estava lá — uma mulher simpática que havia ensinado muita coisa para Yuri desde o primeiro dia. Seria estranho sentar longe, então Yuri puxou a cadeira ao lado dela.
— Hirano-san, você fica até semana que vem, né?
— Sim. Na verdade, eu queria ficar e estudar mais um pouco, mas…
— Vai ajudar no negócio da família, né? Impressionante para alguém tão jovem!
— É algo que eu gosto, então está tudo bem! Nosso lugar não é uma loja grande, e temos muitos itens no cardápio, então é difícil contratar meio período.
— Uma equipe pequena e de elite, hein? Bem profissional.
Ouvir isso não era nada desagradável. Yuri não conseguiu evitar sorrir com orgulho.
Mas, ao pensar em seu objetivo de transformar a loja em uma rede nacional, depender de habilidades especializadas talvez não fosse a melhor ideia. Ela precisaria desenvolver métodos de preparo que até jovens inexperientes pudessem aprender com treinamento adequado.
Enquanto refletia sobre seu futuro, outro pensamento incômodo surgiu.
— Hum, senpai?
— O que foi?
— Você sabe alguma coisa sobre macroeconomia?
— Hã? Macro… o quê?
Yuri rapidamente disse:
— Esquece.
E afundou na cadeira. Como esperado, pessoas normais não saberiam.
Se é assim, o Itsuki também não deveria saber. Talvez fosse melhor começar a preparar aquele combo de hambúrguer mais cedo. Yuri pensou nos ingredientes no quarto do hotel e verificou mentalmente se precisava de mais temperos.
— Ah, uma mensagem do Itsuki.
Ao olhar o celular, viu a notificação.
Certo, vamos ver como foram os resultados dele~.
Como eram aulas de verão, ela não sabia se existia reprovação, mas conseguia imaginar ele desanimado. Pensando em algumas palavras de conforto, abriu a mensagem. A mensagem do Itsuki começava com: Sobre o resultado da prova—
— Hã?
Ao ler o conteúdo, a mente de Yuri ficou em branco. De forma extremamente educada, Itsuki havia listado suas notas em todas as matérias. Mas aquelas notas eram completamente diferentes do que Yuri esperava.
Como aquele dia era apenas para a devolução das provas, Itsuki e os outros provavelmente já estavam aproveitando o tempo livre. Yuri se afastou de sua senpai e, com a mão levemente trêmula, ligou para Itsuki.
A chamada foi atendida imediatamente.
— I-Itsuki?
— O que foi?
— E-Eu… vi o resultado das suas provas.
Sua voz tremia sem que ela percebesse.
— Você foi escolhido como um dos melhores alunos…
Foi isso que Itsuki havia escrito na mensagem. Mesmo agindo sem confiança, dizendo que não conseguia resolver… Itsuki havia ficado entre os melhores das aulas de verão.
— Suas notas… foram boas, né? Você não disse que não estava confiante?
— Eu não estava confiante, mas parece que não fui o único. Tinha alunos de outras escolas além da Academia Kiou nas aulas de verão, então minhas notas acabaram ficando relativamente altas. …Pelo menos assim escapei do treinamento espartano da Shizune-san.
Um suspiro de alívio veio do outro lado da linha. Mas a ansiedade de Yuri não diminuía. Um suor desagradável surgiu em sua testa. Tentando afastar os sentimentos confusos dentro de si, ela abriu a boca para dizer qualquer coisa, quando—
— Bom, para mim, isso já era esperado.
A voz de Mirei surgiu. Provavelmente o grupo habitual de ojou-samas estava por perto. Parecia que ele havia colocado no viva-voz.
— Eu compreendi perfeitamente o conteúdo das aulas, então esse resultado é apenas natural.
— Concordo — acrescentou Narika. — O Itsuki se esforçou todos os dias, então imaginei que ele alcançaria esse nível até o final das aulas de verão. …Diferente de mim.
A voz calma de Hinako veio em seguida:
— Considerando todo o esforço do Tomonari-kun, esse resultado faz sentido.
— H-Hmm…
Yuri soltou um som sem graça. O suor estranho não parava. Sua respiração também começava a ficar irregular.
— Ah… desculpa, preciso voltar ao trabalho. Vou desligar.
— Tudo bem. Vamos ficar no hotel até amanhã, então depois a gente conversa.
Do outro lado da linha, Itsuki não percebeu nada de estranho em Yuri. A chamada terminou. Apertando o celular com força, Yuri ficou parada por um momento.
…Todo mundo acreditava que o Itsuki conseguiria.
Hinako, Mirei, Narika — todos agiam como se fosse óbvio. E, ainda assim—
Eu fui a única que achou que ele não conseguiria.
Pensando bem, Itsuki estudava na prestigiada Academia Kiou. Não fazia sentido ele ser ruim nos estudos. Mesmo que tivesse ido mal naquela prova… Itsuki ainda seria mais inteligente que ela. Para alguém como ele, não havia nada que Yuri pudesse fazer.
— Hirano-san, você está bem? Está meio pálida…
Sua senpai soou preocupada.
— Estou bem. …Vou voltar ao trabalho!
Desesperada para desviar o olhar da verdade que havia percebido, Yuri mergulhou novamente no trabalho.
*
— Certo, vamos nos encontrar no prédio principal daqui a uma hora.
De volta à área do hotel, falei com Hinako e os outros.
— Konohana Hinako… da próxima vez, vamos decidir isso!
— Por favor, pegue leve comigo.
Hinako sorriu suavemente. Tennouji-san soltou um "grr!" frustrada e saiu em direção ao quarto.
Conseguimos a mesma nota… ela podia simplesmente comemorar comigo…
Com um sorriso irônico, segui sozinho para o meu quarto. Eram três da tarde. Mesmo em Karuizawa, cercado por natureza, o calor naquela hora era inevitável. Limpei o suor que escorria pela têmpora com o ombro da camisa.
Depois que as aulas de verão terminaram, ficamos relaxando em um café próximo, conversando sem pressa.
Depois de conversar bastante e almoçar, as ojou-samas disseram que precisavam relatar os resultados das provas para os pais, então nos separamos por um tempo. Hinako também precisava ligar para Kagen-san, então acabei ficando com um tempo livre.
Ser elogiado pela Shizune-san foi bem agradável…
Logo antes de nos separarmos, Shizune-san elogiou meu resultado. Receber elogio de alguém que normalmente pega pesado comigo tem outro peso.
— Ufa.
Joguei a bolsa no quarto e respirei fundo, só então percebendo que não tinha nada para fazer. Eu tinha saído bastante antes, então poderia simplesmente descansar, mas saber que vou embora amanhã me fazia querer aproveitar cada momento.
Acho que vou até o prédio principal.
Ainda era cedo, então resolvi dar uma volta até a hora do encontro. Saí do quarto e caminhei tranquilamente até o prédio principal. Assim que entrei no lobby, vi uma pequena figura.
— Yuri.
— Itsuki…?
Yuri se virou para mim.
— Já terminou o trabalho por hoje?
— Sim, acabei agora. Mas amanhã trabalho o dia inteiro.
Ou seja, hoje era o último dia em que Yuri e eu poderíamos conversar assim. Pensei em quando nos veríamos de novo… e então percebi algo estranho na expressão dela. Parecia abatida.
— Itsuki… você está se esforçando bastante nos estudos, né?
— Preciso acompanhar o nível do ambiente onde estou.
Quando respondi, os olhos de Yuri vacilaram com inquietação.
— E-Então… você é bom nos estudos, mas e nos esportes? — Yuri perguntou com um sorriso forçado. — Quero dizer, a Academia Kiou também é forte em esportes, né? Ouvi dizer que ganhava vários torneios. As aulas de educação física não são puxadas?
— São puxadas, mas eu sou razoavelmente bom em esportes. Coisas como polo ou patinação, que nunca pratiquei, ainda são incógnitas, mas até agora não tive dificuldades nas aulas.
— E-Entendi… — o olhar de Yuri caiu. — Bom, e quanto à comida? Você deve sentir falta de sabores mais simples, né? Fala a verdade, deve ser meio complicado.
— É, acho que isso é verdade.
— Então!
Com uma expressão desesperada, Yuri encontrou meu olhar.
— Vou começar a cozinhar para você a partir de agora! A Shizune-san já me ofereceu um trabalho e, mesmo que não dê certo, posso te entregar comida ou—
— Não, eu não posso pedir que você vá tão longe assim. Não seria certo.
— Mas você está com vontade de comer comida normal, não está? — Yuri colocou as mãos na cintura. — Você pode contar comigo, sabia? Afinal, eu sou sua onee-san!
Lá estava — a frase clássica dela. Mas, se eu entrasse na brincadeira como sempre, ela realmente poderia aparecer na casa dos Konohana com comida.
— Eu agradeço, mas estou bem.
Respondi com gentileza, tentando tranquilizá-la.
— Mesmo sendo ojou-samas, não é como se a gente comesse refeições completas todos os dias. No começo, eles serviam pratos mais sofisticados para me ensinar etiqueta, mas ultimamente tem sido bem normal. Omeletes, hambúrgueres, coisas assim… Não tem muito "gourmet raiz", mas é comida saudável e satisfatória.
Quer dizer, eu adoraria comer a comida da Yuri. Mas não estou passando dificuldade a ponto de pedir entrega, e não quero sobrecarregá-la. Yuri também é alguém que se esforça todos os dias com um objetivo. Eu não queria me tornar um peso que a prendesse.
Mas, ao ouvir minha resposta, Yuri entrou em pânico.
— A-Ah… bem… então…
Ela mexia os lábios hesitante, com uma expressão que parecia prestes a chorar.
— Yuri, o que foi?
— N-Não é nada! Mais importante, Itsuki, você tem algum problema? Eu posso ajudar com qualquer coisa…!
— Para ser sincero, eu tenho vários problemas…
— Então—!
Por algum motivo, os olhos de Yuri brilharam intensamente. Continuei falando:
— Mas eu quero me esforçar por conta própria o máximo possível. Ultimamente, tenho achado divertido me dedicar e evoluir.
Para acompanhar todos da Academia Kiou, ainda me faltam conhecimento e experiência. Mas passei a entender a alegria de preencher essas lacunas com esforço próprio. A satisfação de alcançar um resultado é proporcional ao esforço investido. Por isso, não quero desistir facilmente de me esforçar.
— Entendi.
Yuri abaixou o rosto e assentiu brevemente. Achei o comportamento dela estranho.
— Yuri, sério, o que está acontecendo?
— Não é nada.
— Nós somos amigos de infância. Dá para perceber uma mentira dessas.
Na verdade, do jeito que Yuri estava, até alguém que não fosse próximo perceberia que algo estava errado. Ela estava visivelmente abalada.
— Mesmo que você me entenda, Itsuki… eu não te entendo mais — Yuri confessou, hesitante. — Parece que você está muito satisfeito com a sua vida agora, não está?
— Bom… é, acho que sim.
— Então… talvez você não precise mais de mim? — Por um instante, não consegui compreender o sentido da pergunta. — Mesmo sem mim, você parece estar se divertindo todos os dias, não é? Está se virando sozinho, não está?
— Não… mesmo que isso seja verdade, isso não significa que eu não precise de você.
— Significa, sim.
— Não significa—
— Significa, sim!!
Yuri gritou.
— Porque! Eu não preciso mais ficar ao seu lado, não é?! Sua vida escolar parece estar indo muito bem, não está?! Todo mundo parece gostar de você, não é?! Você ficou bom nos estudos e até está cuidando da sua aparência e postura agora, não está?! Você está vivendo em um mundo que eu não conheço… um lugar onde eu não posso fazer nada por você!!
Como uma represa rompendo, suas emoções transbordaram sem controle. Nem palavras eram suficientes para expressar tudo, enquanto grandes lágrimas escorriam dos olhos de Yuri.
— Hoje de manhã, eu olhei as questões da sua prova, mas não entendi nada! O que eu posso fazer por alguém que resolve coisas assim?! Você até disse que não precisa que eu cozinhe… Não sobrou nada que eu possa fazer por você, Itsuki!! Então qual é o sentido de eu estar aqui?!
Ao ouvir o desabafo de Yuri, havia algo que eu simplesmente não conseguia compreender. Então, apressado, falei:
— Espera um pouco. O que você quer dizer com não poder fazer nada? Eu não fiquei ao seu lado todo esse tempo porque você era útil ou algo ass—
— Mentira!
Num acesso de raiva, o rosto de Yuri ficou vermelho enquanto ela gritava.
— Porque! Você nem sequer me encontraria se eu não fosse útil para você!
Dito isso, Yuri saiu correndo, desaparecendo do meu campo de visão. Tudo o que pude fazer foi ficar parado, olhando fixamente para sua pequena figura se afastando.
*
Depois que Yuri foi embora, afundei no sofá do lobby, imóvel como uma estátua. Cerca de trinta minutos depois, Hinako e Shizune apareceram. Devem ter se encontrado no caminho, pois Tennouji e Narika também estavam com elas. As quatro me viram e se aproximaram.
— Tomonari-san, aconteceu alguma coisa?
Percebendo claramente minha expressão pálida, Tennouji perguntou preocupada.
— A Yuri e eu… brigamos.
— Oh.
— Brigamos… e foi feio.
Eu não tinha energia para amenizar as palavras. Hinako e as outras ficaram em silêncio enquanto eu segurava a cabeça.
— Por que isso aconteceu…?
— Nem eu sei direito.
Não consegui responder à pergunta de Tennouji. Eu realmente não entendia. Por que Yuri ficou tão irritada? Mas aquelas lágrimas… eram minha responsabilidade. O que Yuri estava carregando dentro de si? …Eu precisava descobrir.
— Falando nisso, eu sei que a Yuri estava andando às escondidas fazendo alguma coisa até o dia anterior à prova… Ela estava se encontrando com vocês, certo, Konohana-san?
Antigamente, Yuri frequentemente me ajudava nos estudos. Narika sabe disso. Então era certo que ela tinha conversado com Narika sem que eu soubesse. Imaginei que o mesmo valesse para Hinako e as outras, então perguntei — e parecia que eu estava certo. Não só Narika, mas Hinako e Tennouji também assentiram.
— Ela disse alguma coisa? Sobre mim… ou sobre ela mesma?
Agora, eu estava desesperado por qualquer pista. Talvez por perceberem isso, as três responderam imediatamente.
— Ouvi da Hirano-san que vocês são próximos desde a infância. Vocês se conhecem desde o primeiro ano, e ela costumava cozinhar para você ou te dar roupas usadas.
Isso é verdade. Eu sempre dei trabalho para a Yuri de várias formas.
— Eu conversei com ela sobre você, Tomonari-san. …A Hirano-san estava preocupada se você estava conseguindo se virar bem na Academia Kiou. Quando eu disse que não havia problemas, ela pareceu um pouco surpresa.
É… faz sentido. Se alguém dissesse para o meu "eu" antigo que eu conseguiria me virar na Academia Kiou, eu jamais acreditaria.
— No meu caso, foi parecido. Quando eu disse que você estava indo bem, Tomonari-kun… a Hirano-san pareceu um pouco solitária.
Hinako, com seu tom refinado de ojou-sama, disse isso. Solitária… sinto que há uma pista nisso. Talvez Yuri se sinta sozinha com as mudanças em mim. Quando alguém que você reencontra depois de muito tempo muda além do que você esperava, é compreensível sentir isso.
— É difícil imaginar pelo Tomonari-san de agora, mas naquela época você dependia da Hirano-san para conseguir seguir em frente, não é?
— Sim, é verdade. Eu sempre fui apoiado pela Yuri…
Ao começar a concordar com Tennouji, algo fez sentido na minha cabeça. Ah… entendi. É isso.
— Tomonari-san?
— Você descobriu alguma coisa?
Tennouji e Narika perguntaram enquanto eu segurava a cabeça.
— A Yuri… ela conhece o meu eu do passado.
Já que me abri com elas, decidi contar também a conclusão a que cheguei — a história da minha relação com a Yuri.
— O meu eu de antes… não tinha espaço para respirar.
*
Desde pequeno, minha família era extremamente pobre. Meus pais até trabalhavam, mas tinham o hábito de gastar mais do que ganhavam com bebida e jogos, então não tive escolha a não ser trabalhar também.
Comecei a fazer bicos no dia em que entrei no ensino médio. Mas, se for pensar quando realmente comecei a trabalhar… provavelmente foi desde o momento em que comecei a entender o mundo.
Já no ensino fundamental, eu ajudava nos trabalhos extras da minha mãe. Todos os meus colegas eram completamente alheios às finanças da família. Como se brincar fosse sua obrigação, corriam pelo parque todos os dias, cheios de energia.
E eu observava tudo de longe, enfiando lenços em sacolas dentro da nossa casa apertada. Não tinha como meu coração não se tornar amargo. Ainda mais sendo uma criança emocionalmente imatura.
— Itsuki! Vamos brincar!
Conheci a Yuri no ensino fundamental. Pelo que parece, ela morava perto, mas só descobri isso quando ela mesma me contou. Yuri já parecia saber de mim há algum tempo. …Claro. Com uma família pobre como a minha, com pais viciados em bebida e jogo, era inevitável que fôssemos assunto no bairro. Nossa casa era conhecida como "um lugar a se evitar", mas a Yuri, ainda criança, se aproximou de mim com a leve curiosidade de quem só tinha ouvido falar.
Mas eu rejeitava a gentileza dela todas as vezes. Eu não tinha espaço para aquilo.
— Desculpa, estou ocupado agora.
Eu precisava voltar para casa e ajudar nos trabalhos. Precisava voltar para ajudar nas tarefas domésticas. Ficava irritado pela fome, muitas vezes pulando refeições. E não conseguia conter o ciúme dos colegas que brincavam despreocupados.
— Itsuki! Que tal hoje—
— Desculpa, estou ocupado.
Naquela época, meu coração era imaturo, e eu descontava o estresse nos outros. Nunca cheguei a agredir ou insultar, mas não há dúvida de que fui frio demais com a Yuri, que continuava tentando se aproximar.
Rejeitei seus convites repetidas vezes. Então, cerca de seis meses depois—
Yuri começou a me convidar de um jeito um pouco diferente.
— Itsuki! Quer me ajudar a treinar culinária!?
Desde pequena querendo ser chef, Yuri passou a me fazer provar seus pratos, sob o pretexto de "degustação".
Graças a isso, economizei com comida.
— Itsuki! Tem roupas sobrando lá em casa, quer pegar!?
Sempre que as estações mudavam, Yuri me dava roupas que ela ou seus pais não usavam mais. Graças a isso, nunca me faltaram roupas para enfrentar o inverno.
— Itsuki! Quer estudar comigo? Suas notas estão caindo, né?
Quando minhas notas começaram a despencar, Yuri sugeriu estudarmos juntos. Ela até organizava resumos com os pontos principais, permitindo que eu estudasse de forma eficiente em pouco tempo.
Graças a isso, consegui melhorar minhas notas horríveis. Meu coração ainda não tinha espaço para nada. Yuri deve ter percebido como eu estava e concluído que, se me oferecesse algo útil, eu passaria tempo com ela.
Naquela época, eu não percebi nada. Mas agora… finalmente entendo. Yuri estava me convidando daquele jeito de propósito — só para poder ficar ao meu lado.
*
— A Yuri… sempre fez coisas pensando no que seria bom para mim.
Quando termino de recordar, Hinako e as outras ficam em silêncio, com expressões sérias.
— Pensar que você teve um passado assim, Tomonari-san… (Tennouji)
— Eu… também não sabia que era tão sério assim. (Narika)
Tennouji e Narika murmuram. Desde sempre, Yuri age de forma a me ajudar. E isso não mudou nem agora.
Quando nos reencontramos neste hotel, Yuri me convidou para o quarto. Mas não foi um convite qualquer — ela queria cozinhar para mim, imaginando que eu estivesse com saudade de comida caseira.
À primeira vista, Yuri pode parecer mandona. Mas, na verdade, ela só faz sugestões que acredita que vão me deixar feliz. E nem perde tempo com ideias que talvez não sejam úteis para mim. A festa do pijama, a ida à praia — nada disso partiu dela.
Yuri esteve pensando em mim o tempo todo. Por quase dez anos. Agora que penso bem… foi nessa época que ela começou a agir como minha onee-san. Todo esse tempo, talvez eu tenha colocado um peso sobre ela sem perceber.
— Eu preciso encontrá-la.
Finalmente entendi a origem do conflito entre mim e a Yuri. Até pouco tempo atrás, eu não sabia disso e não consegui dizer nada quando ela saiu correndo. Mas agora… tenho palavras que posso dizer àquela figura que se afastava.
O jantar já não importava mais. Levantei-me e segui para fora.
— Tomonari-kun.
Hinako me chamou quando eu estava saindo. Parei e me aproximei. Ela abandonou o jeito de ojou-sama, sem que ninguém percebesse, e perguntou:
— A Hirano-san… é alguém importante para você? — Seu rosto estava sério.
— Sim, ela é importante.
Respondi imediatamente — era o quanto ela significava para mim. Minha amiga mais antiga, além da família. Uma garota gentil que sempre pensou em mim desde pequenos. Se essa garota estava por aí, sofrendo em algum lugar… eu precisava ajudá-la.
— Estou indo.
Disse isso para Hinako e parti para procurar Yuri.
*
Na época do ensino fundamental, Yuri certa vez foi para a escola escondendo que não estava se sentindo bem. Provavelmente era uma febre leve. O nariz escorria, a cabeça doía e o corpo parecia pesado.
No começo, ela pensou em faltar, mas sua professora havia comentado sobre prêmios de frequência perfeita, então decidiu ir de qualquer jeito.
Por sorte — ou azar — Yuri era boa em fingir que estava bem. Nem sua família percebeu, e ela passou pelo portão da escola. Sempre um pouco agitada, Yuri achou que ficar quieta chamaria atenção, então se esforçou ao máximo para parecer animada.
Ela cumprimentou todos alegremente ao entrar na sala de aula. Durante o almoço, conversou animadamente com as amigas enquanto comia. E, depois da aula, foi falar com Itsuki na sala ao lado.
Naquela época, Itsuki era apenas um colega de classe para Yuri. Mas também era a pessoa que morava mais perto dela. Para a Yuri de então, isso por si só já era especial, e ela queria se tornar amiga dele a qualquer custo.
Mas não havia sentimentos mais profundos. Yuri não estava apaixonada por Itsuki, nem sentia pena dele. Itsuki era uma pessoa difícil de lidar. Mesmo sabendo que provavelmente seria rejeitada de novo, Yuri foi até ele.
Yuri, você está passando mal?
Ele percebeu imediatamente. Nem a família dela, nem as amigas, nem os professores tinham notado. Mas, só de olhar para ela, Itsuki percebeu seu estado.
Ela mesma quase tinha esquecido que não estava bem… Itsuki realmente estava olhando para ela. Essa percepção tocou profundamente seu coração. Olhando para trás… foi ali que tudo começou.
A partir daquele momento — Yuri sempre amou Itsuki. O som suave das ondas toca seus ouvidos. Sentada na praia, Yuri observava o céu tingido de vermelho, relembrando o passado.
…O que eu estou fazendo?
Ela só queria um lugar — qualquer lugar — para escapar. Esse impulso deve tê-la levado inconscientemente até a praia que visitaram no dia anterior.
Brigar e fugir para a praia… ela tinha que admitir, tinha uma tendência meio impulsiva. Por sorte, tinha dinheiro para voltar de trem, mas provavelmente já estaria escuro quando chegasse ao hotel. E amanhã seu turno seria longo. Era melhor voltar cedo e descansar.
Nesse horário, com o sol se pondo, a praia estava praticamente vazia. Assim, podia pensar sem ser interrompida.
Eu não queria ter dito tudo aquilo…
Disse coisas que não deveria. Que ele só se encontraria com ela se ela fosse útil… Claro, o Itsuki de antes era assim, mas olhando para ele agora, isso provavelmente não é mais verdade. O Itsuki atual tem espaço para aceitar até convites sem propósito.
Não… pensando melhor, Itsuki conquistou esse espaço já faz tempo.
Talvez no final do ensino fundamental, ou quando começaram o ensino médio — por volta dessa época, o coração de Itsuki deve ter amadurecido. Ele deixou de demonstrar irritação, impaciência, fraquezas. E se tornou gentil.
Agir pelos outros não é algo que se faz sem margem emocional. Quando passaram a chamá-lo de gentil, ele já tinha essa maturidade. Só ela não percebeu. Só ela continuou presa ao Itsuki de antigamente.
Eu sou a onee-san do Itsuki, afinal!
Seu bordão. Parecia que ela dizia isso para Itsuki ou para os outros, mas, na verdade, estava apenas tentando convencer a si mesma.
Eu sou a onee-san do Itsuki, então preciso ser útil.
Nada mais do que correntes que ela mesma criou. Não podia culpar o Itsuki.
É claro que aquelas ojou-samas perceberiam… os meus sentimentos.
Hinako, Mirei e Narika perguntaram o que ela achava de Itsuki. Ela o ama, claro. Se não amasse, não estaria pensando tanto nele assim. Mas guardou esses sentimentos por tanto tempo, sem jamais querer deixá-los escapar. Quando era pequena, chamou Itsuki inúmeras vezes, mesmo quando ele não tinha espaço para responder.
Seu coração disparava, seu rosto corava sem controle. Movida pelo impulso do primeiro amor, tentou várias vezes chamar a atenção dele, sem conseguir pensar direito — e todas as tentativas terminaram em fracasso.
Foi então que percebeu. Para Itsuki, seu amor… era apenas um peso. Por isso, ela o selou e passou a pensar em formas de fazê-lo olhar para ela. Nesse sentido, passou a dizer:
"Eu sou a onee-san do Itsuki, afinal!"
"Sou a onee-san dele — então só estou cuidando do meu irmãozinho, não é porque gosto dele nem nada, viu!"
— Que tsundere clichê.
A brisa do mar tocava suas bochechas, ainda quentes de vergonha, ajudando a esfriar.
Era tudo autoengano. Ela achava que confessar só o incomodaria, mas ainda assim queria permanecer ao lado dele. Esse método distorcido fora a única solução que encontrara.
Foi ela quem escolhera esse caminho. Pensando bem… culpar o Itsuki era completamente injusto.
— Ei, você aí — uma voz a chamou de lado, de repente.
Ao se virar, viu dois homens grandes.
— Tá sozinha?
— Já está escurecendo, sabia? A gente te dá uma carona… que tal tomar um chá com a gente em troca?
Ambos tinham cabelo tingido e tatuagens. Havia algo ameaçador neles, e Yuri se levantou, recuando instintivamente.
— Não, obrigada.
— Ah, qual é, não seja assim. Tem que aceitar a gentileza de um cara, né?
Um deles segurou seu braço fino.
— Ei, me solta!
— Nossa, sua mão tá gelada!
— Bravinha e ainda por cima bonitinha, hein?
O sangue de Yuri ferveu. Ela estava tentando pensar em algo importante — e agora esses idiotas estavam interrompendo. Ao ver os sorrisos nojentos deles, sua irritação chegou ao limite.
— Eu disse pra soltar!!
Ela deu um tapa forte no homem que ainda segurava seu braço. O som seco ecoou, e o rosto dele ficou sério.
— Ei, não se acha demais não.
— Ah—!?
Ele fechou o punho. Apavorada, Yuri fechou os olhos com força.
Foi então que—
— Parece que cheguei a tempo.
Uma voz familiar chegou até ela, e Yuri abriu os olhos lentamente. Itsuki estava segurando o braço do homem.
*
Eu encontrei a Yuri na praia onde fomos ontem. Ela estava claramente abalada, mas sua estatura pequena era inconfundível. Fiquei perguntando por aí: "Vocês viram uma garota baixinha vestida assim?", e, de algum jeito, consegui encontrá-la.
Parecia que Yuri tinha chorado no caminho até ali. Provavelmente por isso tanta gente a notou.
— Quem é você?
Yuri estava sendo abordada por aqueles caras. O homem cujo braço eu segurei me lançou um olhar irritado.
— Amigo de infância dela.
Respondi de forma seca, puxei o braço dele e o derrubei rapidamente.
— Gah—!?
O chão era só areia. Por mais forte que eu o jogasse, ele não se machucaria. Ao ver o companheiro sendo derrubado com facilidade, o outro ficou chocado. Mas, no instante seguinte, avançou furioso, como se quisesse se vingar.
Era lento demais. Será que ele fazia ideia de quanto a Shizune vinha me treinando?
Agarrei o pulso estendido dele, torci para fora e apliquei pressão no cotovelo com o peso do meu corpo. Incapaz de suportar, ele perdeu a força nas pernas e desabou.
— Ai!?
Como não conseguiu se apoiar, caiu de cara na areia. Os dois se levantaram com areia grudada no rosto. Mas eram só arruaceiros de fachada — já não tinham mais coragem para lutar.
— Tch…!
— Você vai se arrepender disso!!
Soltando frases dignas de vilões de quadrinhos, eles saíram correndo dali.
— Ufa…
Ainda bem que consegui afastá-los. Mas dar em cima da Yuri, de todas as pessoas… será que aqueles caras tinham algum fetiche estranho?
— Você está bem?
Perguntei, olhando para Yuri atrás de mim.
— S-Sim… O-Obrigada—
A voz dela falhou de repente. Talvez lembrando que ainda estávamos brigados, ela abandonou o tom fraco e voltou ao seu jeito habitual.
— O-O que você está fazendo aqui? E-Eu não pedi sua ajuda, sabia!
— Você podia pelo menos agradecer.
— N-Não sei do que você está falando!?
O rosto dela estava vermelho — e não era só por causa do pôr do sol. Visivelmente nervosa e sem jeito, Yuri logo assumiu uma expressão triste.
— Você mudou mesmo, né? Antes você não era tão forte assim.
Ela me observou de cima a baixo enquanto falava. Um corpo treinado. Coragem para enfrentar gente daquele tipo. O eu de antes não tinha nada disso.
— Sim, eu mudei. Mas foi por ter mudado que consegui te proteger.
Por isso, não me arrependi de quem me tornei. E queria que a Yuri aceitasse isso também.
— Yuri, me desculpa. Eu só percebi isso agora.
Abaixei a cabeça em silêncio.
— Você tentou ser útil para mim todo esse tempo por causa do que aconteceu naquela época, não foi? Como eu sempre recusava seus convites, você passou a pensar em maneiras de me ajudar.
— É. Mas isso foi escolha minha. Não é culpa sua.
— Não, é minha culpa.
— Não, é minha.
— Minha—
— Minha—
Éramos dois teimosos. Mas não podia recuar agora. Yuri sempre foi confiante e cheia de energia. Mesmo quando eu me preocupava, ela ria e dizia "tô bem!". Sempre foi assim. Não podia continuar me apoiando nisso.
— Yuri! Eu vou deixar isso bem claro!
Ela piscou, surpresa com meu tom elevado. Continuei, com toda a força:
— Eu nunca te vi dessa forma!
— H-Hã!? Ah, já entendi!! Então é porque eu não sou feminina o bastante pra você!!
— Não! Não é isso! Quero dizer que nunca te julguei pela sua utilidade!
—!
Os olhos de Yuri se arregalaram.
— C-Como assim… isso é mentira! Talvez você tenha mudado agora, mas antes você só ficava comigo porque eu era útil, não é!?
— Não! Isso é um mal-entendido! — Respondi, encarando a Yuri quase chorando. — Naquela época, eu não tinha espaço para nada. Não tinha tempo pra sair, não conseguia esconder meu mau humor, e acabava sendo frio com todo mundo. Naturalmente, não tinha amigos.
Não era que as pessoas me odiassem — eu é que afastava todo mundo. Sem perceber, ninguém mais tentava falar comigo. Só então comecei a me sentir sozinho.
Tarde demais.
— Mas, mesmo assim, Yuri… você continuava falando comigo. Talvez pra você fosse só porque morávamos perto, mas pra mim aquilo significava muito.
No começo, talvez eu tivesse achado irritante. Mas a insistência da Yuri foi, pouco a pouco, trazendo à tona sentimentos que eu tinha enterrado. A solidão… o desejo de estar com alguém — foi ela quem me fez perceber isso.
— Então eu decidi. Na próxima vez que você me chamasse… eu tentaria ser seu amigo de verdade.
Nunca contei isso a ninguém. Foi uma promessa que fiz a mim mesmo.
— Foi naquele dia que a gente saiu juntos pela primeira vez… o dia em que eu te ajudei com a culinária.
— Ah…
Yuri solta um pequeno som. Provavelmente só agora percebeu. Sim — foi coincidência.
Por acaso, eu estava decidido a tentar ser amigo. Por acaso, Yuri estava pensando em ser útil para mim. Esses dois pensamentos se cruzaram da pior forma possível, e Yuri entendeu tudo errado. Ela passou a acreditar que precisava ser útil para ficar ao meu lado.
— Eu não fiquei com você porque você era útil. Eu quis estar com você porque você nunca desistiu de mim… porque sempre olhou para mim.
— Então foi isso…..
Percebendo o erro, os olhos de Yuri se enchem de lágrimas. Mas ainda tenho algo importante a dizer.
— E, falando nisso… quem eu sou hoje também é graças a você.
Yuri, que estava de cabeça baixa, levanta o olhar para mim.
— Depois que a gente se aproximou, eu percebi uma coisa. Afastar as pessoas por inferioridade dói mais do que se conectar com elas. Em algum momento, começaram a me chamar de bonzinho… e isso é por sua causa. Foi você que me mostrou o calor de estar com alguém.
Se eu não tivesse conhecido Yuri, provavelmente ainda estaria preso ao complexo de inferioridade por causa da minha família. Minhas relações seriam superficiais.
Eu não teria pegado o crachá que a Hinako deixou cair. Teria ignorado completamente a Academia Kiou, pensando que todos lá eram perfeitos e distantes.
Ou seja, aquele encontro com a Hinako… também foi graças à Yuri. Mesmo crescendo em um ambiente difícil, eu não desisti do caminho certo — porque conheci a Yuri.
Não é sobre pedir desculpa…
Eu estava prestes a pedir desculpas por não ter percebido esse mal-entendido por dez anos. Mas há algo mais importante do que isso.
— Yuri… obrigado por sempre me apoiar. Eu consegui chegar até aqui na Academia Kiou por sua causa.
Coloquei nessas palavras toda a gratidão daqueles dez anos. As lágrimas de Yuri caíam na areia, uma após a outra.
— Yuri, tenho uma proposta. Que tal refazermos esses últimos dez anos?
— Refazer… como?
— Vamos ser amigos por mais dez anos. Desta vez, como iguais.
Não disse em voz alta que queria que ela ficasse ao meu lado para sempre. Foi por causa da Yuri que conheci Hinako e entrei na Academia Kiou. E foi porque Hinako, Tennouji-san e Narika me trataram como igual que consegui permanecer lá.
Quero ter esse tipo de relação com a Yuri também. Foi Yuri quem me levou até essas pessoas. E foram elas que me ensinaram o valor de relações de igualdade. Agora, quero devolver isso para Yuri.
Para mim, Hirano Yuri era minha primeira benfeitora.
— Dez anos não vão ser suficientes.
Yuri limpou as lágrimas com o dorso da mão e sorriu.

— Eu vou ficar ao seu lado pra vida inteira… até você mandar eu ir embora.
*
Fui até a estação com Itsuki. No caminho, diminui um pouco o passo, observando suas costas. Lembrei de um ano antes… quando Itsuki rejeitou a confissão de uma garota. Ele provavelmente nem lembrava, mas nós tínhamos conversado sobre isso.
— Ei, por que você recusou ela?
— Você sabe como é minha família, né? Não queria envolver ela nisso.
Ele sempre pensava nos outros, não importava a situação. A vida dele já era apertada. Não tinha como gastar dinheiro com namoro. Ele não queria envergonhá-la.
— Então… e se a garota dissesse que cuidaria de você?
Fiz aquela pergunta sem pensar muito. Itsuki riu e respondeu:
— Se alguém dissesse isso… eu não teria motivo para recusar.
Para ele, provavelmente tinha sido só uma brincadeira. Mas eu levei a sério. Antes que eu percebesse, aquilo tinha se tornado uma das razões para eu me dedicar tanto à cozinha.
Suspirei… eu teria cuidado dele.
Ele tinha crescido mesmo…
Itsuki disse que queria se virar sozinho o máximo possível. Ele não era mais o tipo de pessoa que aceitava ser sustentado.
As costas dele pareciam maiores agora. Era uma visão solitária… mas também me enchia de orgulho.
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