Volume 4

Capítulo 3: A Investigação da Amiga de Infância

NO DIA SEGUINTE à festa do pijama. Seis da manhã. Ainda era cedo o bastante para chamar de amanhecer, mas, sendo verão, o céu já estava claro. Yuri caminhava por Karuizawa, sentindo-se revigorada como sempre. Para Yuri, Karuizawa não era um lugar que pudesse visitar com frequência. Ela queria aproveitar aquele ambiente especial o máximo possível, com todo cuidado e atenção.

Quando começou a voltar para o hotel, percebeu uma garota familiar caminhando um pouco à frente. Yuri acelerou o passo para alcançá-la e chamou:

— Miyakojima-san?

— !? H-Hirano-san?

Narika se virou para encará-la. O sol da manhã brilhava sobre sua pele úmida de suor. Seus cabelos negros e lustrosos balançaram, e quando seu rosto pálido se voltou para Yuri, havia ali uma elegância silenciosa, mas inegável — como a beleza de uma safira.

Mas naquele momento, o rosto de Narika estava — incrivelmente — tenso. Elas tinham se conhecido fazia pouco tempo. Provavelmente ela ainda estava nervosa. Nessas horas, o melhor é não fazer alarde. Yuri falou de forma casual, mantendo um tom leve.

— Saiu para caminhar, Miyakojima-san?

— N-Não, estou correndo. Aqui é fresco, então pensei que seria bom fazer uma corrida…

Então era por isso que ela estava com roupa esportiva. Não é à toa que o traje parecia intenso demais para uma simples caminhada. Ela estava levemente suada, então devia estar correndo até poucos instantes atrás.

…Momento perfeito.

Yuri decidiu aproveitar a oportunidade para cumprir a missão que havia decidido na noite anterior — descobrir o que a ojou-sama pensava de Itsuki.

— A propósito, na festa do pijama nós falamos principalmente sobre mim e o Itsuki. Não tive a chance de ouvir muito sobre você, Miyakojima-san.

— S-Sobre mim? Eu não tenho nada de muito interessante para contar…

— O Itsuki não visitou sua casa quando vocês eram pequenos? Conta sobre isso!

— Ah! Aquilo? Claro, posso falar disso o dia inteiro!

A expressão de Narika se iluminou instantaneamente. Enquanto caminhavam devagar, Narika começou a contar sobre o passado. Sobre como Itsuki havia ido à casa dela, como ela era muito mais tímida naquela época do que é agora, e como ele a ajudou a sair da própria concha—

— Uau! O Itsuki fez tudo isso?

— Sim. Graças a ele, eu pude ver o mundo lá fora.

Ao ouvir a história de quando ele a levou a uma loja de doces, Yuri se sentiu um pouco emocionada. 

Nada mal, Itsuki. Nada mal mesmo.

Os olhos de Narika brilhavam enquanto ela compartilhava suas memórias dele. Ao escutá-la, Yuri sentiu um certo orgulho como amiga de infância dele.

— Então? Está menos nervosa agora?

— Hã? …Ah, agora que você falou…

Em algum momento, a expressão rígida de Narika havia se suavizado para algo mais adequado a uma garota da idade dela.

— Eu geralmente acabo assustando as pessoas, mas… é fácil conversar com você, Hirano-san. É um alívio.

— Obrigada. Bem, é mais fácil relaxar quando você está falando sobre algo que ama, não é?

— É verdade.

Narika assentiu, agora completamente à vontade. Elas tinham passado todo o tempo falando sobre Itsuki, mas será que estava tudo bem ela admitir tão facilmente que aquele era seu assunto favorito? Provavelmente disse sem pensar, refletiu Yuri.

— Então, Hirano-san, você já era próxima do Itsuki naquela época, né?

— Sim. Somos amigos desde o primeiro ano do fundamental, então naquela época já nos conhecíamos havia uns cinco anos.

— Entendo… Isso é uma história mais longa que a minha.

A forma grandiosa como Narika disse "história" deixava dolorosamente claro que ela via sua relação com Itsuki como algo especial. Yuri se lembrava bem daqueles dias.

Um dia, do nada, Itsuki fugiu de casa com a mãe. Até então, a família Tomonari parecia apenas ter dificuldades financeiras, mas não parecia particularmente disfuncional, então foi algo surpreendente.

Itsuki não faltou à escola, então a família Miyakojima provavelmente organizou o transporte dele. Depois das aulas, ele saía da sala imediatamente para ir para casa. Yuri se perguntava na época por que ele estava sempre com tanta pressa, se tinha algum recado ou tarefa para fazer, mas parecia que ele estava cuidando de Narika.

Quando Yuri perguntou a Itsuki sobre aquilo depois que o episódio da fuga terminou, ele disse coisas como: "Fiquei numa casa enorme", "Morei com uma garota", e "Mas no final levei uma bronca enorme". O que quer que tenha acontecido naquele último momento deve tê-lo abalado bastante, porque ele não quis entrar em detalhes.

Fazia tempo que Yuri não ouvia sobre um lado de Itsuki que ela não conhecia.

Era divertido… mas também, só um pouquinho, complicado.

— Eu sempre fui um peso para o Itsuki, naquela época e agora. Mas você, Hirano-san, sempre esteve apoiando ele, não é?

— Bem, sim. Eu cozinhava para ele, dava minhas roupas usadas quando tínhamos mais ou menos a mesma altura, ensinava coisas da escola…

— Você até ajudava ele nos estudos?

— Sim. Ele muitas vezes ficava cansado demais por causa dos trabalhos de meio período para prestar atenção na aula, então eu dava reforço para ele depois da escola. Para ser sincera, cuidei dele de todas as formas possíveis.

Sem perceber, Yuri já estava com um sorriso convencido no rosto. Narika, ouvindo aquilo, ficou genuinamente surpresa.

— Eu sempre achei que o Itsuki fosse do tipo que resolve tudo sozinho, então isso é meio inesperado.

As palavras dela fizeram Yuri lembrar do passado.

— Naquela época, aquele cara realmente não tinha espaço para respirar.

Comparado àqueles dias, agora as coisas estavam muito melhores.

— Falando sério. O que você acha do Itsuki, Miyakojima-san?

— Ngh!

Pegando Narika de surpresa com a pergunta direta, ela parou no lugar, visivelmente atrapalhada.

— B-Bem, não é como se tivesse algo específico ou…

— Se você for honesta comigo, talvez eu consiga te dar alguns conselhos~.

Yuri abriu um sorriso travesso, inclinando-se para observar o rosto de Narika. Depois de um momento olhando para baixo, Narika finalmente criou coragem e falou.

— B-Bem, é que… eu acho que tenho alguns sentimentos pelo Itsuki…

Eu sabia—

Yuri já suspeitava disso desde a festa do pijama.

— Até onde vocês já chegaram?

— A-Até onde? Quer dizer, nada aconteceu de verdade ainda… Bem, eu meio que disse alguma coisa.

— Detalhes!

Parecia que havia mais progresso do que Yuri esperava, e ela não conseguiu evitar se inclinar curiosa. À primeira vista, Narika podia parecer intimidadora, mas na verdade era bastante delicada por dentro — era assim que Yuri a tinha avaliado. Mas talvez ela fosse mais proativa do que imaginava.

— Eu disse que contei para ele, mas ainda não fui clara sobre nada. É mais tipo… eu, hum… declarei que me importo com ele!

— Declarou que se importa…?

— Tipo, eu deixei claro que penso nele como alguém especial, ou algo assim…

— Espera, isso não é basicamente uma confissão?

— N-Não! Ainda não é exatamente isso!

As bochechas de Narika ficaram vermelhas enquanto ela balançava a cabeça com força. 

Que jeito de deixar as coisas pela metade.

Considerando a personalidade de Narika, esse ritmo provavelmente já era velocidade máxima para ela.

— Mas se você já disse tudo isso, então só falta diminuir a distância entre vocês, certo?

— Estou um pouco preocupada com isso — Narika baixou o olhar ao falar. — O que você disse ontem ficou na minha cabeça. O Itsuki provavelmente está muito ocupado agora, e eu não quero atrapalhar fazendo algo desnecessário.

Ao ouvir a preocupação de Narika, Yuri praguejou mentalmente.

Opa.

Aquilo era pensar demais.

— Desculpa, talvez eu tenha dito algo meio confuso ontem. Mas, honestamente, acho que você não precisa se preocupar tanto.

— Sério?

— A tendência do Itsuki de querer ajudar todo mundo não é algo que dê para consertar. E mesmo que tentemos ser cuidadosas, ele vai acabar assumindo os problemas de todo mundo de qualquer jeito.

Narika não disse "você tem razão" em voz alta, mas sua expressão mostrava que concordava. Dava para perceber o quanto Itsuki era do tipo prestativo só de vê-lo na Academia Kiou.

— Além disso, isso não é justamente parte do que você gosta nele, Miyakojima-san?

— B-Bem… é, eu acho.

— Então não faz sentido ver a bondade dele como um problema. Acho que você deveria ser um pouco mais direta.

Narika assentiu brevemente diante do conselho de Yuri, murmurando:

— Entendo.

Ela estava colocando as necessidades de Itsuki acima dos próprios sentimentos que estavam nascendo.

Essa garota talvez seja tão boa quanto ele nesse sentido.

— E se o Itsuki parecer estar com dificuldades, eu dou uma força para ele!

— Dar uma força…?

— Eu te disse, não foi? Eu sempre cuidei dele. Apoiar essa mania dele de querer ajudar todo mundo sempre foi meu trabalho. Se ele estiver prestes a atingir o limite, eu resolvo.

Afinal, eu sou a onee-san do Itsuki—

Ela recitou mentalmente sua frase de sempre. Já fazia cerca de quatro meses desde que Itsuki havia deixado a escola de repente. As coisas ficaram meio estranhas por um tempo, mas agora provavelmente poderiam voltar a conversar com frequência como antes.

Com certeza ela também poderia ajudar a garota que estava diante dela.

— M-Mas… tipo, como eu realmente diminuo a distância entre nós…?

— Ah… bem… isso, hum…

A pergunta fez Yuri perceber algo tarde demais.

Como é que se faz isso mesmo?

Yuri conhecia Itsuki como a palma da mão, mas romance? Nem tanto.

Ela nunca contou isso a Itsuki, mas já recebeu investidas de vários garotos — colegas de classe ou rapazes que apareciam no trabalho de meio período da família. Mas sempre havia algo que parecia estranho em levar aquilo adiante, então ela acabava recusando todos.

Ou seja, ela não era exatamente uma especialista em tomar iniciativas.

Mesmo assim, sentia que sabia mais do que Narika. Yuri quebrou a cabeça, tentando lembrar dos shoujo mangás que às vezes lia ou dos conselhos amorosos que ouvia das amigas, procurando qualquer dica útil.

— Talvez um kabedon?

— Kabedon…?

— Tipo… você encurrala a pessoa contra a parede, coloca uma mão na parede e se inclina bem perto…

— Existe uma técnica dessas?

O fato de Narika chamar aquilo de "técnica" fez Yuri duvidar se tinha explicado direito, mas como ela mesma não era exatamente uma especialista em kabedon, deixou por isso mesmo.

— Ah, e isso pode parecer óbvio, mas… converse mais com ele.

Isso com certeza deve ser um bom conselho.

Yuri podia parecer uma aluna do ensino fundamental — ou pior, do primário — mas já era uma estudante do ensino médio. Ao longo dos anos tinha ouvido bastante fofoca romântica e podia compensar sua falta de experiência com um pouco de imaginação.

— C-Conversar? Para ser sincera, isso não é meu forte…

— Não precisa ser pessoalmente. Mandar mensagens também funciona, né? Eu não entendo muito de etiqueta de ojou-sama, mas você tem aplicativos de mensagem no celular, não tem?

— E-Eu sei que existem, mas…

O rosto de Narika se torceu com amargura.

— Eu nem troquei número de telefone ou e-mail com o Itsuki ainda.

— Sério?

Eles pareciam tão próximos, e ainda não tinham feito isso? Para ser justa, Itsuki provavelmente também era parte do problema.

Ele tinha comprado um smartphone no ano passado, mas apenas para comunicação relacionada ao trabalho, então era um modelo barato e bem simples. Ele não tinha o hábito de usar o celular para conversar com amigos, então a ideia de trocar contatos provavelmente nem passava pela cabeça dele.

— Então esse é o seu primeiro passo.

— Certo… Obrigada, Hirano-san. Vou tentar dar esse passo.

— Ótimo. Vou esperar um relatório cheio de boas notícias.

Se conseguisse ajudar uma ojou-sama da Academia Kiou, aquilo seria uma grande honra.

— H-Hirano-san!

Quando Yuri começou a se afastar, Narika a chamou.

— Então… o que você acha do Itsuki?

— Eu?

Narika parecia ansiosa. Yuri não conseguiu evitar sorrir diante daquela expressão.

— Eu sou a onee-san do Itsuki, então não tenho esse tipo de sentimento.

— A-Ah, entendi…!

Quando Yuri disse isso rindo, o rosto de Narika se abriu em um sorriso radiante e aliviado. Dizendo que voltaria a correr, Narika saiu correndo.

Yuri ficou ali parada até a figura dela desaparecer e, finalmente incapaz de conter as emoções que estava reprimindo, agachou-se.

O quêêê!? Espera aí! Aqueles dois já estão nesse nível!?

Eles estavam um — não, dois passos à frente do que ela tinha imaginado. Yuri só tinha pensado: Se ela parecer interessada no Itsuki, talvez eu dê um empurrãozinho. Mas, quando abriu a tampa, descobriu que não era apenas interesse — ela estava completamente apaixonada e já tinha tomado iniciativa.

O que é isso, Itsuki? Você é mais esperto do que eu pensava!

Pensar que uma ojou-sama da Academia Kiou estava tão caidinha por ele. Como amiga de infância, Yuri sentiu orgulho. Mas também não era surpreendente. Itsuki tinha dito que conhecer Hinako foi "algo como um milagre", mas Yuri não via dessa forma.

Quantas pessoas neste mundo, logo depois de perceber que os próprios pais tinham fugido no meio da noite, ainda tentariam ajudar uma desconhecida que deixou cair sua carteira estudantil?

Como amiga de infância, Yuri sabia. Itsuki estar na Academia Kiou, ser querido por essas ojou-sama — tudo isso era por mérito próprio. Não era um milagre.

"Hirano-san, o que você acha do Itsuki?"

Ela congelou no lugar. As palavras de Narika ecoaram em sua mente. Seu bom humor desapareceu em um instante.

Eu… não acho nada dele.

Ela murmurou aquilo mentalmente para si mesma — não como uma declaração para alguém, mas como se estivesse tentando convencer a si própria.

Acima dela havia um dossel de galhos de árvores. A luz que passava pelas frestas parecia estranhamente ofuscante. Era como se as emoções que ela tinha empurrado para um canto do coração estivessem sendo iluminadas à força, o que a deixava irritada.

Certo! Agora o próximo é falar com a Tennouji-san!

Balançando a cabeça para afastar os pensamentos, Yuri começou a caminhar com um sorriso forçado, mesmo sem ninguém por perto para vê-la.

*

 

Voltando para casa depois do trabalho de meio período, Yuri caminhava sentindo a suave brisa noturna. Seu próximo alvo era Mirei. Mas, aparentemente, Mirei era do tipo estudiosa, passando a maior parte do tempo — até mesmo o tempo livre — estudando no quarto durante o curso de verão.

Acho que não vou conseguir falar com ela hoje…

Mas então—

Ela viu Mirei sentada em um banco, olhando para o céu.

— Tennouji-san.

Quando Yuri a chamou, a ojou-sama loira de cachos verticais se virou. Seu penteado extravagante chamava atenção, mas ainda mais impressionante era o quanto combinava com ela. A frágil luz da lua parecia se dissolver em seus belos cabelos dourados.

— Ah, Hirano-san. Já terminou o seu trabalho?

— Sim. O que você estava fazendo, Tennouji-san?

— Eu estava olhando o céu. As estrelas são lindas aqui.

Tennouji-san disse isso enquanto contemplava o céu estrelado acima delas.

Que pessoa elegante.

Se uma estudante comum dissesse que estava olhando para o céu, provavelmente ouviria uma provocação como: "Que foi? Virou poeta agora?" Mas quando essa ojou-sama dizia aquilo, parecia perfeitamente natural.

— A propósito, tem algo que eu queria perguntar.

— Algo que deseja perguntar?

— Sim. Algo que não tivemos chance de falar na festa do pijama…

Agora, como abordar isso?

A mente de Yuri começou a correr. Mas Mirei apenas lhe ofereceu um sorriso gentil.

— Você está curiosa sobre mim? Ou talvez sobre Tomonari-san?

Os olhos de Yuri se arregalaram diante da pergunta. Mas ela logo deu de ombros, rendendo-se.

— Acho que os dois… Como você percebeu que eu queria perguntar sobre o Itsuki?

— Eu não tenho irmãos, mas se eu fosse uma irmã mais velha, sempre ficaria preocupada com meu irmão mais novo. Eu gostaria de ouvir sobre ele não apenas dele, mas também de outras pessoas.

— Você me leu completamente.

— Afinal, você é como a onee-san do Tomonari-san.

Yuri tinha duas coisas que queria perguntar às ojou-samas. Primeiro, o que elas pensavam de Itsuki. E segundo, se Itsuki estava conseguindo se virar bem na academia. Ela só tinha conseguido fazer a primeira pergunta para Narika. Pretendia fazer a segunda também, mas Narika tinha ficado tão abalada com a primeira que Yuri hesitou em pressionar mais.

— Eu confio em você como amiga do Tomonari-san. O que quer que queira saber, eu lhe direi.

Quando Mirei disse aquilo, uma alegria indescritível brotou no peito de Yuri. Ser tão diretamente digna da confiança de alguém tão refinada era quase eletrizante. Um arrepio percorreu seu corpo, fazendo sua pele se arrepiar.

— O Itsuki realmente conquistou a sua confiança, hein?

— Tomonari-san não é do tipo que faz amizade com pessoas ruins.

— Nisso você está certa.

Era uma avaliação certeira. Yuri não conseguiu evitar rir. Se Itsuki visse alguém fazendo algo errado, diria gentilmente: "Isso não é meio má ideia?" Pessoas com más intenções provavelmente se sentiam desconfortáveis perto dele.

Se aquela garota entendia Itsuki tão bem, Yuri podia confiar completamente nela. Deixando de lado todas as suas preocupações, Yuri foi direto ao assunto principal.

— Então, como o Itsuki está? Ele está se virando bem?

— Oh, perfeitamente bem, eu garanto. Afinal, por um momento até eu realmente senti que ele era apenas mais um aluno da Academia Kiou.

Yuri captou o significado por trás das palavras de Mirei quase imediatamente. Itsuki, escondendo seu verdadeiro status e origem, vinha se esforçando incansavelmente para se integrar como um verdadeiro aluno da Academia Kiou. Seus esforços deviam ser impressionantes o suficiente para enganar até os olhos atentos de Mirei, ainda que por um tempo.

— Entendi. Que bom ouvir isso. Quer dizer, a Academia Kiou parece um lugar super seguro, né? Nada de mandar alguém fazer tarefas ou bullying ou coisas do tipo.

— Mandar alguém fazer tarefas… não tenho certeza do que significa, mas bullying? Provavelmente inexistente. Ainda assim, pressões relacionadas ao status familiar podem surgir. Mesmo assim, Tomonari-san também lida bem com isso.

O fato de que o termo "mandar alguém fazer tarefas" nem fazia sentido para ela provavelmente indicava o quão puro era o ambiente da academia.

— Hã. Ele é surpreendentemente bom em se virar nesse jogo, não é?

— De fato. Especialmente ultimamente, ele tem se esforçado bastante.

Isso foi antes do festival esportivo. Enquanto ajudava Narika a fazer amigos, Itsuki tomou consciência de sua própria reputação dentro da academia e começou a trabalhar para melhorá-la.

Mirei havia percebido essa mudança. Era algo visível. No começo, Itsuki parecia um pintinho recém-nascido, correndo para lá e para cá sem saber o que fazer. Mas logo começou a agir consciente dos olhares ao seu redor. Seu hábito de observar o ambiente não havia mudado, mas o propósito sim. Antes intimidado pelo ambiente da Academia Kiou, Itsuki agora se esforçava para se tornar alguém digno daquele nome prestigioso.

Os alunos da Academia Kiou estavam destinados a se tornar futuros CEOs ou políticos — pessoas que ficariam acima dos outros. Estar acima significava ser observado. Por isso, filhos da elite como Mirei eram treinados desde pequenos por pais e professores para desenvolver essa consciência.

Itsuki ter compreendido essa mentalidade era algo significativo. Ele realmente estava se tornando um aluno da Academia Kiou, alguém capaz de se sustentar em qualquer lugar sem vergonha. Claro, seu conhecimento ainda era superficial em alguns pontos, mas ele já havia crescido o suficiente para não cometer deslizes naquela pequena alta sociedade que era a academia.

— Tomonari-san… ele realmente é muito esforçado.

Mirei sorriu com orgulho pelo crescimento de Itsuki, como se fosse algo próprio. Observando-a, Yuri falou:

— Tennouji-san, você gosta do Itsuki?

— Fwah—!?

Um som estranho escapou dos lábios de Mirei.

— O-O-O que você está dizendo de repente!?

— Ah, hum, desculpa! É que, com você, Tennouji-san, eu sinto que posso falar direto… tipo, não preciso ficar rodeando o assunto…

— Até eu fico sem jeito, sabia!

Ela parecia tão composta que era difícil imaginar que ficaria tão abalada com algo assim.

— Ahem. …Bem, admito que sinto certo carinho por ele.

Tennouji-san disse, tossindo de forma exagerada. Suas bochechas estavam levemente coradas.

Será que ela realmente achava que isso disfarçaria?

— Se você me contar mais, talvez eu tenha alguns bons conselhos. Eu sou praticamente a onee-san do Itsuki, então conheço ele bem.

— Ugh…

Um traço de hesitação passou pelo rosto de Mirei. Só aquela expressão já deixava claro que ela estava lidando com algo interno. Diferente de Narika, porém, sua personalidade forte não a deixava revelar seus sentimentos com facilidade, mesmo estando perturbada.

Então Yuri decidiu insistir um pouco mais.

— Não seria mais fácil desabafar com alguém como eu, que está um pouco distante da Academia Kiou?

— Ughh…

— Guardar suas preocupações só para você não vai ajudar em nada. Você também quer se concentrar no curso de verão, não é?

— Augh…

O ar refinado que ela exibia antes havia desaparecido completamente. Ver Mirei reagindo como qualquer outra garota — não, até mais inocente e delicada do que a maioria — fez um sorriso afetuoso surgir no rosto de Yuri.

— Às vezes, eu me sinto inquieta — Mirei confessou em voz baixa. — Como você pode ver, eu tenho uma aparência bastante chamativa, e mesmo deixando isso de lado, minha criação também me faz me destacar. Por causa disso, preciso ter cuidado com as pessoas próximas a mim. Estar perto de mim inevitavelmente chama atenção para elas também.

Yuri ouviu atentamente, com expressão séria, enquanto Mirei revelava suas preocupações com os olhos baixos.

— E… Tomonari-san provavelmente não é do tipo que gosta de se destacar.

Não tinha a ver com ser "comum" ou algo assim — era apenas sua natureza. Embora fosse raro na Academia Kiou, esse tipo de pessoa existia. Toda sociedade tinha pessoas que preferiam ficar nos bastidores. Itsuki havia se treinado para agir com confiança em público quando necessário, mas, no fundo, não parecia buscar esses momentos.

— Então você está preocupada que, estando perto de você, o Itsuki possa se sentir pressionado?

— Isso… é basicamente isso.

Era um tipo de romance puro, quase antiquado. Assim como Narika, Mirei hesitava em dar um passo à frente não por causa de suas próprias circunstâncias, mas por consideração a Itsuki.

Se era assim, o conselho era simples. Assim como com Narika, tudo que ela precisava era de um pequeno empurrão.

— O Itsuki pode não gostar muito de se destacar, mas isso não significa que ele recusaria completamente. Se for necessário, ele vai dar um passo à frente.

— Mas se a minha presença aumentar esses momentos "necessários" para ele, isso não acabaria sendo um fardo?

— Hum… entendo.

Yuri teve que admitir que havia alguma verdade nessa preocupação.

— Além disso, considerando o que você disse na festa do pijama, Hirano-san, sinto que acrescentar mais fardos ao Tomonari-san seria injusto.

Ela estava pensando da mesma forma que Narika. Organizando o turbilhão de preocupações em sua cabeça, Yuri começou a expor seus pensamentos de forma metódica.

Primeiro, sobre a conversa da festa do pijama. Ela deliberadamente pulou a parte em que contou que havia dito algo parecido para Narika.

— Desculpa se causei um mal-entendido. Ser atenciosa é bom, mas o Itsuki é do tipo que acaba ficando ocupado por conta própria de qualquer jeito. Se você continuar preocupada em não sobrecarregá-lo, sua relação nunca vai avançar. Claro, ele vai apreciar sua consideração, mas…

Mirei assentiu levemente. Provavelmente gratidão não era tudo o que ela queria.

— Quanto a se destacar quando está perto de você, você deveria simplesmente perguntar isso diretamente a ele. O Itsuki não é do tipo que evita perguntas assim.

— Você tem razão… Perguntar diretamente a ele é a melhor abordagem.

Mirei assentiu, como se já tivesse chegado a uma conclusão semelhante. Não era um conselho revolucionário, mas com isso a consulta de Mirei estava encerrada. Ela ainda parecia um pouco ansiosa, mas agora que tinha decidido um caminho claro, Yuri tinha certeza de que Mirei agiria mais cedo ou mais tarde.

— Para ser sincera, estou meio surpresa. Achei que você fosse mais confiante, Tennouji-san, mas você também se preocupa com coisas assim, hein?

— Afinal, eu também sou humana. Tenho meus momentos de dúvida.

Não sendo alguém que mostrava fraqueza com frequência, o rosto de Mirei se torceu com um leve traço de frustração.

— Especialmente porque… bem, esse tipo de coisa é novo para mim. Não estou acostumada.

— Sério? Eu achei que alguém como você já teria todo tipo de experiência romântica, mas pelo visto não.

Yuri disse, genuinamente surpresa. Os olhos de Mirei ganharam um ar significativo quando respondeu:

— Um nome de família proeminente vem acompanhado de suas próprias complicações.

Yuri teve uma vaga noção das dificuldades e conflitos escondidos por trás daquelas palavras.

— Ser uma ojou-sama parece difícil.

— De fato. Não chega a ser um casamento político, mas liberdade total no amor também não é exatamente realista. …Embora, no meu caso, eu mesma estivesse me prendendo.

Yuri inclinou a cabeça, confusa com a segunda metade da fala de Mirei. No caso de Mirei — seus pais a incentivavam a viver livremente, então o amor livre não era um problema. Porém, até recentemente, a forte consciência de ser a herdeira do Grupo Tennouji a levava a suprimir os próprios desejos. Ela realmente acreditava que deveria se casar com alguém digno do nome Tennouji, independentemente de seus sentimentos.

Para Mirei, aqueles dias de autocontenção, embora imperfeitos, tinham um certo valor precioso. Afinal, foi isso que a levou a conhecer Itsuki. De certa forma, prender-se a si mesma não foi algo totalmente ruim. Depois de tanto tempo confinada dentro de uma concha rígida, finalmente havia encontrado alguém de quem queria permanecer próxima, mesmo após se libertar.

— Obrigada por me ouvir.

Mirei fez uma reverência profunda.

— Sempre que quiser. Se algum dia tiver problemas, é só me avisar.

— Agradeço. Mas vamos deixar por aqui por enquanto.

— Hm?

Yuri inclinou a cabeça quando Mirei continuou.

— Eu sou Tennouji Mirei, destinada a um dia carregar o Grupo Tennouji — uma nobre herdeira. Portanto, esta é a extensão da minha fraqueza.

A dignidade que havia desaparecido por um momento retornou com força total.

— Por favor, mantenha a conversa de hoje estritamente confidencial.

— S-Sim…

Yuri assentiu nervosamente quando Mirei levou um dedo aos lábios, seus olhos ardendo com o fogo de sempre.

Talvez a Tennouji-san nem precisasse de um empurrão afinal…

Mirei era humilde o bastante para admitir que não era perfeita, o que mostrava que conseguia enxergar suas próprias fraquezas de forma objetiva — e enfrentá-las com força. Mais cedo ou mais tarde, ela provavelmente daria esse passo sozinha.

— Hirano-san — quando Yuri se virou para ir embora, Mirei a chamou. — Esqueci de perguntar… O que você acha do Tomonari-san?

Lá estava de novo — a mesma pergunta.

Por que todo mundo fica me perguntando isso?

— Eu não acho nada de especial dele.

— Mesmo? — Mirei encarou Yuri diretamente, sem desviar o olhar. — Porque você… pensa no Tomonari-san com muita seriedade.

Se ele não significasse nada para você, você não se preocuparia tanto. Era isso que Mirei estava insinuando. Naquele momento, Yuri sentiu algo que estava profundamente trancado dentro dela começar a transbordar. Ela sabia que sua expressão havia endurecido. Mas Mirei não disse nada, mantendo-se em silêncio. Naquele intervalo, Yuri estabilizou o coração.

— Eu já disse. Eu sou como a onee-san dele. Claro que eu me preocupo.

— Entendo.

Mirei assentiu, como se estivesse convencida. Ainda assim, sua expressão — nem sorrindo, nem confusa — parecia dizer: Vamos deixar assim.

Depois de se despedir de Mirei, Yuri voltou para o seu quarto. Ela abriu o frigobar, pegou uma garrafa de água mineral que havia comprado na loja da recepção e tomou um gole. A água fria acalmou sua garganta e pareceu penetrar profundamente em seu corpo.

Caramba… que presença imponente ela tem.

Ao encontrar Mirei cara a cara, Yuri havia sentido uma intensidade indescritível. A tensão diminuiu conforme conversavam, mas Mirei carregava uma aura solene que uma pessoa comum jamais teria. Sua presença era diferente de qualquer coisa que Yuri já havia encontrado em seu círculo social. Era o tipo de ojou-sama que você nunca esquece depois de conhecer uma vez.

E ela também era perspicaz. Yuri se orgulhava de sua habilidade de ler as pessoas, algo que desenvolveu ajudando no negócio da família desde criança, mas sabia que não chegava nem perto daquela ojou-sama.

Mesmo assim… alunos da Academia Kiou também se apaixonam como qualquer pessoa, hein?

Embora a intensidade disso estivesse longe de ser comum. Ser uma ojou-sama vinha com suas próprias restrições únicas. Yuri já havia admirado a Academia Kiou, mas agora aquilo parecia um pouco sufocante.

Porque você… pensa no Tomonari-san com muita seriedade.

As palavras de Mirei de repente voltaram à sua mente. Por um momento ela tinha ficado abalada, mas pensando bem, era óbvio. 

Afinal, eu sou a onee-san do Itsuki.

Não havia outro motivo.

— Falta mais uma.

As investigações sobre Narika e Mirei estavam concluídas. Como esperado, ambas pareciam ter sentimentos por Itsuki. Restava uma. Ao pensar na última ojou-sama, Yuri sentiu um leve nervosismo.

*

 

Para investigar Hinako, Yuri passou a ficar atenta a qualquer oportunidade de falar com ela.

Diferente de Narika ou Mirei, porém, Hinako era difícil de abordar. Elas se viam todas as manhãs no salão de refeições, mas o assunto que Yuri queria trazer à tona não era algo para discutir em público. Depois das aulas do curso de verão, Hinako voltava para o hotel com Itsuki e os outros, e Yuri não a tinha visto sair sozinha desde então.

Konohana-san… será que é do tipo caseira?

Afinal, aquilo era Karuizawa. Ela poderia estar correndo como Narika ou observando as estrelas como Mirei, aproveitando mais o lugar… mas Hinako não parecia fazer esse tipo de coisa. Por outro lado, ela era a herdeira do Grupo Konohana. Karuizawa provavelmente nem era algo especial para ela. Isso explicaria por que quase não saía do quarto.

Mas isso significava que Yuri talvez nunca tivesse uma chance de conversar.

Será que eu simplesmente deveria ir até o quarto dela? Mas eu só sei onde fica por acaso, por causa do trabalho… Ugh, não quero que ela ache que eu sou estranha.

Pensando nisso, Yuri se aproximou lentamente do quarto de Hinako. Lá fora já estava completamente escuro. O cansaço depois do turno exigia uma solução rápida. Quando estava tão cansada, pensar demais parecia um esforço enorme.

Ah, tanto faz. Vou só bater lá.

Justo quando Yuri começou a caminhar—

— Hirano-sama, correto?

— Eek!?

Uma voz surgiu atrás dela, de repente. Ao se virar, Yuri viu uma mulher vestida como uma empregada — Shizune — parada ali. Yuri não havia sentido presença alguma dela.

— A senhorita esteve observando o quarto da minha mestre por um tempo… Há algo de que precise?

Os olhos de Shizune se estreitaram de forma cortante. Ela estava claramente em alerta. Yuri percebeu que aquela empregada não era apenas uma serva. Ela provavelmente também tinha a função de proteger Hinako.

— Ah, hum… eu só… queria conversar um pouco com a Konohana-san…

— Conversar?

— S-Sim. Se for incômodo, eu posso ir embora…

Shizune levou um dedo ao queixo e encarou Yuri diretamente.

— Nós já investigamos você, então não há motivo para suspeitas.

Dizendo "um momento", Shizune tirou um smartphone do bolso. Depois de uma breve ligação, guardou-o novamente.

— Muito bem. Vou escoltá-la até o quarto da ojou-sama.

— Ah, certo. Obrigada…

A ligação provavelmente foi para pedir autorização de Hinako. Elas caminharam por uma leve subida em direção a uma fileira de prédios três estrelas. Shizune bateu na porta. Passos se aproximaram e a porta se abriu.

— Eu estava esperando por você.

Ali estava Konohana Hinako, seus cabelos cor de âmbar balançando, irradiando uma gentileza quase ofuscante. Por um instante, a luz do quarto atrás dela pareceu formar uma espécie de halo.

— Por favor, entre.

Hinako entrou primeiro, e Shizune manteve a porta aberta. Yuri entrou com cautela.

— Uau… incrível.

O teto era alto. Os móveis eram luxuosos. Cada peça da decoração exalava uma beleza delicada, como se Yuri tivesse entrado em outro mundo.

Ah, é verdade — um colega de trabalho havia comentado algo sobre isso.

O colega quase tinha deixado cair um prato de choque ao entregar comida em um quarto três estrelas. Ficar muito tempo ali talvez até distorcesse a noção de realidade.

— Hirano-san?

— D-Desculpa, é que… é muito mais chique do que eu imaginava. Preciso de um segundo para… processar…

Se ela quebrasse algo por acidente, nunca conseguiria pagar. Yuri colocou a mão no peito e respirou fundo algumas vezes. Hinako a observava com curiosidade, como se não tivesse esperado uma reação daquelas.

— Ojou-sama, Tomonari-san já é praticamente um dos nossos, então não deveria colocá-los no mesmo grupo…

— Você tem razão.

Shizune sussurrou algo para Hinako. Yuri captou vagamente as palavras.

Então Itsuki não tinha ficado tão chocado assim quando visitou?

Esse pensamento fez surgir nela uma pequena onda de confiança. Yuri sentou-se em frente a Hinako e soltou um pequeno suspiro.

— Chá de ervas.

Shizune colocou duas xícaras sobre a mesa, trazendo-as em uma bandeja. Hinako pegou sua xícara, então Yuri fez o mesmo e tomou um gole para umedecer a garganta.

O chá era suave, provavelmente misturado com chá preto. Ao tomar outro gole, um aroma herbal levemente picante subiu pelo nariz.

— Alecrim?

— Exatamente. Muito bem.

O alecrim era usado na culinária como tempero ou para disfarçar odores. Yuri também sabia que ajudava na recuperação do cansaço. Provavelmente escolheram aquele chá especificamente para ela, sabendo que estava exausta por causa do trabalho.

Meu Deus… esse nível de hospitalidade é absurdo…

Um tratamento desses normalmente vinha acompanhado de um preço alto. Não era algo que se esperaria em uma visita casual ao quarto de uma amiga. Aquele era o mundo das verdadeiras ojou-sama. Itsuki havia se lançado de cabeça em um mundo tão intenso… Yuri não conseguiu deixar de se impressionar.

— Desculpa por… tipo… tomar o seu tempo.

— Não precisa se preocupar com isso. Na verdade, eu estava esperando usar este curso de verão como uma oportunidade para me aproximar de você, Hirano-san.

Que garota gentil e tranquila.

Uma sensação pura e calorosa envolveu Yuri.

— Na verdade, eu queria perguntar sobre o Itsuki.

— Sobre o Tomonari-kun?

Hinako inclinou a cabeça de forma adorável.

— Você sabe como o Itsuki tem aquele jeitão de plebeu total? Isso meio que me deixa preocupada, ou algo assim…

— Entendo… Hirano-san, você é realmente muito gentil, não é?

— N-Não é isso! Eu só quero saber como a onee-san do Itsuki, só isso.

Enquanto Yuri desviava o olhar, Hinako lhe deu um sorriso suave.

— Não há nada com que se preocupar em relação ao Tomonari-kun. Ele teve um pouco de dificuldade com a vida na Academia no começo, mas ultimamente é visível que já se acostumou. Acho até que ele relaxou um pouco.

— Entendi. Mas aquele cara também tem um lado meio mole, né? Uma coisa é a Academia, mas ele também trabalha na sua casa, certo? Ele não está cometendo erros o tempo todo?

— Ele está bem. Shizune… minha cuidadora tem ensinado etiqueta a ele com bastante rigor, então, na verdade, ele está aprendendo mais rápido do que a maioria dos cuidadores comuns.

— Hmph, bom, então tudo bem.

Shizune, cujo nome foi mencionado, fez uma pequena reverência. Yuri já tinha pensado a mesma coisa quando ouviu isso de Mirei, mas parecia que Itsuki estava indo surpreendentemente bem.

…Hã, o que é esse sentimento?

Por que ela sentiu uma pontada de inquietação agora? Era uma sensação solitária, quase dolorosa. Um leve lampejo de negatividade surgiu dentro dela. Quase parecia que ela estava torcendo para que Itsuki não estivesse indo bem.

Isso não podia ser verdade.

— A propósito, Hirano-san — Hinako olhou para ela. — Então, qual é o tipo do Tomonari-kun?

— Hã? — A pergunta veio um pouco de repente.

— Você começou a falar sobre isso durante a festa do pijama.

— Ah, sim. Bem, na verdade eu só disse aquilo para ver como vocês três reagiriam, então meio que inventei…

— Mas você sabe alguma coisa, não sabe?

— B-Bem, eu tenho um palpite, eu acho.

— Já que estamos aqui, poderia compartilhar? Isso ficou na minha cabeça desde que você deixou o assunto pela metade.

Hinako riu suavemente.

— Ufufu.

Ela é bem mais curiosa do que eu esperava…

Mas se aquilo estava incomodando ela, então não tinha muito o que fazer. Pensando bem, Yuri talvez tenha deixado o assunto vago de um jeito que despertaria a curiosidade de qualquer um.

Então é por isso que ela quer saber… faz sentido.

…Espera, não, isso não é forçar um pouco a barra?

Um enxame de pontos de interrogação zumbia na cabeça dela.

— S-Sim, hum…

Yuri, confusa, olhou para Hinako. Por mais que olhasse, Hinako era a personificação perfeita de uma ojou-sama. Sentindo a diferença entre seus status como garotas — como pessoas — Yuri imediatamente descartou a ideia de que aquela ojou-sama pudesse ter uma queda por Itsuki.

Impossível, essa ojou-sama está em outro nível.

Ela provavelmente estava apenas perguntando por pura curiosidade. Foi assim que Yuri decidiu interpretar.

— O Itsuki é meio molenga e acaba se ocupando sozinho com um monte de coisas, mas lá no fundo eu acho que ele é feliz assim.

— Como assim?

— Quero dizer… o Itsuki gosta de pessoas que o mantêm ocupado. Ou melhor… acho que ele gosta de pessoas que precisam dele.

— Entendo.

Hinako assentiu, absorvendo as palavras de Yuri.

— Hehe.

— ? Konohana-san, aconteceu alguma coisa?

— Não, não é nada… hehe.

Por algum motivo, Hinako estava sorrindo de bom humor.

Yuri não conseguia identificar o motivo, mas era inegavelmente fofo.

— Konohana-san, acho que você talvez não seja o tipo do Itsuki. Quer dizer, você parece capaz de lidar com qualquer coisa… tipo, você é praticamente perfeita.

— Pode ser verdade.

Hinako assentiu com um ar confiante. Ela não parecia nem um pouco abalada.

É… ela definitivamente não tem nada com o Itsuki.

— Desculpa por tomar o seu tempo. Era só isso que eu queria perguntar, então já vou indo.

Com um rápido "até mais", Yuri começou a sair do quarto.

Nesse momento—

— Hirano-san, o que você acha do Tomonari-kun?

Ah, lá vem de novo…

Ela fez essa pergunta. Yuri não conseguia entender por que todo mundo ficava perguntando aquilo, mas como diz o ditado: "duas vezes é coincidência, três vezes é padrão". Então, desta vez, Yuri já estava preparada mentalmente desde o começo. Ela estava pronta — calma o suficiente para responder sem hesitar, apesar de como aquela pergunta a havia abalado antes.

— Eu penso nele como um irmãozinho. Nada mais, nada menos.

Como se estivesse compensando toda a confusão anterior, Yuri respondeu de forma clara e firme. Por um breve instante — tão rápido que talvez tivesse sido imaginação — o rosto de Hinako pareceu relaxar, aliviado.

No piscar seguinte, ela já havia voltado ao seu habitual sorriso suave, como uma flor.

Deve ter sido minha imaginação, Yuri decidiu, despedindo-se de Hinako.

De volta ao seu quarto, sozinha, Yuri soltou um pequeno suspiro. Junto com o ar que saiu de seus pulmões, a tensão que ela vinha segurando também se dissipou.

Nossa… a Konohana-san realmente parece estar em outro nível. Não tem como o Itsuki acabar tendo algo especial com uma ojou-sama dessas, né?

Yuri sempre escondia isso diante de Itsuki para não parecer patética, mas muitas vezes ficava intimidada pela presença dessas ojou-sama. A aura de Hinako, em particular, era tão intensa que, mesmo agora, se Yuri baixasse a guarda, talvez acabasse idolatrando-a como uma fã correndo atrás de uma superestrela.

Ela não conseguia entender como Itsuki conseguia conversar tão naturalmente com elas. Quase sentia um respeito relutante por ele.

…As três são tipos tão diferentes de ojou-sama, não são?

Hinako era impecável de todos os ângulos, a perfeita personificação de uma ojou-sama ideal. Apenas observar cada um de seus gestos fazia Yuri perceber claramente a diferença de status entre elas, e ainda assim conversar com ela era de alguma forma reconfortante. Talvez uma verdadeira ojou-sama fosse capaz até de conquistar a admiração das pessoas naturalmente.

Mirei parecia a própria encarnação da elegância e da graça. Era forte de vontade, perspicaz, mas também gentil. Isso a tornava incrivelmente confiável e fácil de se abrir. Desta vez, Yuri foi quem serviu de apoio, mas Mirei provavelmente era alguém em quem muitas pessoas confiavam no dia a dia.

Narika era uma mistura de força extrema e vulnerabilidade, o que a tornava ao mesmo tempo admirável e próxima. Pelo que Yuri havia pesquisado, Narika venceu todos os torneios de artes marciais de que participou — kendo, judô, o que fosse. Seus talentos podiam ser especializados, mas sem dúvida estavam no mesmo nível das outras duas ojou-sama. E Narika, muito consciente de suas próprias falhas, parecia desejar crescer mais do que qualquer outra.

Não sei o que o Itsuki pensa delas, mas estou começando a enxergar bem a personalidade de cada uma.

Os encantos únicos das três garotas estavam ficando claros. Hinako era a que Yuri mais admirava. Ela não conseguia evitar sonhar acordada com a ideia de estar ao lado dela. Mirei era a que Yuri mais respeitava. Ser reconhecida por ela seria uma alegria incomparável. Narika era a que Yuri mais queria apoiar. Se algum dia superasse suas fraquezas, com certeza se tornaria alguém extraordinário.

…Não importa com qual delas o Itsuki acabe, ele provavelmente vai ser feliz.

Isso já era suficiente para Yuri saber. Foi por isso que ela se aproximou delas para conversar em primeiro lugar.

— Ugh, todo mundo por aí vivendo a juventude, né?

A cozinha estava cheia de utensílios que Yuri tinha deixado para lavar depois. Enquanto as ojou-sama se preocupavam com amor, Yuri começou a lavar a louça com água fria.

Ela tinha dado tanto a Mirei quanto a Narika um pequeno empurrão para avançarem. Quem daria o primeiro passo era interessante, mas, sinceramente, Yuri não se importava muito.

Itsuki seria feliz tanto com Mirei quanto com Narika.

…E eu?

— Idiota.

Yuri repreendeu a pergunta que surgiu em sua mente.

— Idiota, idiota, idiota… Eu sou a onee-san do Itsuki, só isso.

 

 

(N/SLAG: VOCÊ É DEZ, YURI!!!!!!!!!!!! VOCÊ É TÃO BOA QUANTO AS OUTRAS, NÃO SE ESQUEÇA!)

 

 


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