Volume 4
Capítulo 2: As Aulas de Verão
NUNCA ESQUECI a imagem da garota parada diante de mim. Seu cabelo castanho-escuro e sedoso descia até as escápulas. Sua altura… bem, ela era baixa. Entre os colegas, sempre esteve do lado mais baixo da escala — daquelas que ficavam na frente quando a turma se alinhava por altura no ensino fundamental ou no ginásio.
Eu me lembrava de tudo sobre ela. Passamos quase uma década juntos — no fundamental, no ginásio e no ensino médio. Minha amiga de infância, ligada a mim por anos de memórias.
Então por que, eu me perguntava, ela estava aqui neste hotel?
— Bem… eu estou trabalhando meio período aqui… Eu também fiz trabalho em resort no nosso primeiro ano do ensino médio, lembra?
Com as mãos na cintura, a garota falou com confiança. Entendi. Então era por isso o uniforme de atendente.
Ela vestia uma camisa branca de mangas compridas, com as mangas dobradas por causa do calor do verão, combinada com uma saia preta e um discreto avental de garçonete carmesim por cima. Era um uniforme clássico, com um leve toque de elegância. Ainda assim, a garota que eu conhecia sempre preferiu roupas práticas e fáceis de se movimentar. Fazia sentido para um uniforme de trabalho.
— Mesmo assim, fico surpreso que você tenha conseguido um emprego num lugar desses.
— Ano passado, alguém do hotel onde eu trabalhava reconheceu meu esforço e me recomendou para um trabalho ainda melhor. Foi assim que acabei vindo parar neste lugar chique.
— Ah, então foi assim que aconteceu…
— Este lugar é incrível, não é? Tão espaçoso, tão refinado… Ei, Itsuki, você sabia? Aquela suíte três estrelas no último andar é exclusiva, só para membros — para celebridades super ricas. Tipo, um mundo completamente diferente do nosso. Dá até inveja, né?
— Sim… claro…
Um suor frio não parava de escorrer pelas minhas costas. Apesar de ser verão, meu corpo inteiro parecia gelado. Seria essa a famosa brisa refrescante de Karuizawa, o refúgio de verão?
— Então, Itsuki? — Um olhar afiado subiu em minha direção de baixo para cima — inclinado e penetrante. — E você? O que está fazendo aqui, hein? — Inclinando a cabeça, a garota se aproximou de mim.
— Ah… bem… na verdade…
— Você não está trabalhando como eu. E, conhecendo a situação da sua família, este definitivamente não é um lugar para férias, é?
— É… bem…
— Hmmmm?
A pressão dela era tão forte que parecia que um soco poderia vir a qualquer momento.
— Itsuki-sama.
Foi então que uma voz chamou atrás de mim. Ao me virar, vi Shizune-san em seu uniforme de empregada e Hinako em seu modo completo de ojou-sama.
— Você estava demorando, então viemos ver o que aconteceu. E essa pessoa é…? — A garota, agora sob o olhar minucioso de Shizune-san, abriu um sorriso radiante e amigável.
— Prazer em conhecê-las! Eu sou Hirano Yuri.
Com uma pequena reverência, a garota — Yuri — se apresentou. Quando levantou a cabeça, seu rosto estava estampado com um sorriso largo e brilhante.
— Eu sou a amiga de infância do Itsuki!
— Amiga de infância, você diz?
— Isso mesmo!
Yuri respondeu com energia ilimitada. Shizune-san deve ter percebido algo estranho. Seu olhar se voltou para mim. Doía admitir, mas fiz um aceno profundo com a cabeça.
— Yuri… sabe tudo sobre o meu passado.
Em outras palavras, era alguém de quem eu não podia esconder facilmente minha verdadeira situação. Shizune-san compreendeu a situação. Ela soltou um leve suspiro e assentiu.
— Parece que precisaremos ajustar a programação de hoje.
*
Cancelamos o passeio planejado e decidimos explicar a situação para Yuri. O cenário: o quarto duas estrelas onde eu estava hospedado. Hinako, que entrou inesperadamente no meu quarto, lançou um olhar intenso para a cama por um instante antes de desviar rapidamente. No fundo, provavelmente queria se jogar nela, mas estava em modo ojou-sama agora. Precisaria se conter. Além disso, ela não tinha dormido o caminho inteiro no carro?
— Certo, vou explicar tudo.
Sentado de frente para Yuri, comecei a expor minha situação. Antes, quando entramos no quarto, Shizune-san havia sussurrado para mim:
— Siga o padrão que usou com Tennouji-san.
Em outras palavras, eu deveria dar a Yuri a mesma explicação que dei a Tennouji-san — tudo, exceto a verdadeira natureza de Hinako.
— E é basicamente isso.
— Hmmm? Entendi… éééé? Sério mesmo?
O rosto de Yuri estava completamente vazio de expressão. Suas respostas eram apenas murmúrios vagos. Mas seus olhos eram assustadores.
— Então deixa eu ver se entendi. Seus pais te abandonaram no meio da noite e, quando você estava sem saída, foi acolhido pela ojou-sama do Grupo Konohana. Agora você trabalha para Konohana Hinako, servindo como… o quê? Um tipo de cuidador? E ainda frequenta a ultra prestigiada Academia Kiou ao mesmo tempo?
Correto. Eu assenti.
— O quê? Quanto disso é brincadeira?
— Tudo é verdade.
— Nem ferrando! Parece a história de um mangá. Você não pode esperar que eu acredite nisso.
Sim. Eu já imaginava que ela diria isso. Mas era a pura verdade. Eu precisava convencê-la. Mais do que isso, eu estava distraído com Shizune-san, que ficou o tempo todo mexendo no celular enquanto eu explicava tudo para Yuri.
Com quem ela estava falando por tanto tempo… e sobre o quê? Uma leve tensão me percorreu quando Shizune-san finalmente abaixou o telefone.
— Confirmado.
— Hã?
Yuri inclinou a cabeça, confusa, enquanto Shizune-san guardava o celular e continuava.
— Hirano Yuri, dezesseis anos. Aluna do segundo ano da Escola Ryuuguu, onde Itsuki-san estudava anteriormente. O nome de seu pai é Heizou, o de sua mãe é Minae. Sua família administra um restaurante herdado do seu avô, chamado Hiramaru. Um lugar popular, sempre cheio de moradores locais, dia e noite.
— E-Espera… como você sabe tudo isso…?
— O negócio da sua família utiliza empresas do nosso grupo para construção, seguros, serviços bancários e outros. Suas informações estavam em nosso banco de dados de clientes.
A boca de Yuri ficou aberta de choque. Era exatamente a mesma estratégia usada para descobrir minhas informações pessoais. Neste país, é raro alguém não ter nenhuma ligação com o Grupo Konohana. Ao ver a expressão atônita de Yuri, lembrei mais uma vez da dimensão absurda da influência do Grupo Konohana.
— Tudo o que Itsuki-san explicou é verdade. Agora você acredita em nós?
— Sim… acredito. Quer dizer… seria assustador não acreditar.
Yuri estava claramente abalada. Eu entendia. Entendia perfeitamente. Já me acostumei a lidar com Shizune-san, mas no começo senti exatamente a mesma coisa.
— Desculpa, Yuri. Não queria te preocupar.
— Eu não estou preocupada com você nem nada! — Yuri desviou o olhar. — Mas, sabe, tem uns boatos estranhos sobre você na escola.
— O quê?
— Os professores disseram que você só se transferiu, mas todo mundo meio que sabe da situação da sua família. Então começaram a inventar um monte de coisa — tipo que você foi trabalhar no distrito da luz vermelha, ou num barco de pesca de atum, ou até que foi vendido em um leilão de escravos.
Essa última foi exagerada demais.
— Enfim, agora entendi a situação. Vou te encobrir e despistar o pessoal na escola.
— Valeu… te devo uma.
— Hmph, nem precisa agradecer.
Quando agradeci de forma casual, Yuri estufou o peito com um sorriso convencido. Eu tive um mau pressentimento. Lá vem.
— Afinal, eu sou a Onee-san do Itsuki!

— Nós temos a mesma idade.
Já tivemos essa conversa inúmeras vezes antes. Não pude evitar suspirar.
— Onee… san?
Hinako inclinou a cabeça, curiosa. Ela e Shizune-san sabiam que eu não tinha irmãos.
— Ah… bem… ela nasceu seis meses antes de mim. Por causa disso, vive agindo como minha irmã mais velha. Mas temos a mesma idade, então não precisa levar isso tão a sério.
— Hmph! Vai falar assim na cara? Mesmo depois de eu ter cuidado de você quando você estava ocupado com seus trabalhos de meio período?
— Bem… isso é verdade, mas…
Ela tinha razão nisso. Ainda assim, aquela expressão presunçosa dela me fazia relutar em admitir.
— Itsuki, você devia me tratar com mais respeito!
— Para alguém tão baixinha.
— O quê?! O que importa é a idade, não a altura!
— Eu já disse: temos a mesma idade!
Se for pensar bem, normalmente as pessoas acham que eu sou o mais velho. Algumas coisas nunca mudam, não importa quantos anos passem. De repente percebi que Shizune-san estava nos observando, com os olhos arregalados.
— Uh… aconteceu alguma coisa?
— Não… é só que é raro ver você falar de forma tão casual, Itsuki-san.
Casual? Ah, ela devia estar se referindo a eu chamar a Yuri de baixinha. É… provavelmente eu não diria algo assim para mais ninguém.
— Enfim, o que houve com você? Seu cabelo, suas roupas… tudo tão arrumado e elegante.
— Meu ambiente agora é um pouco… diferente. Tive que me adaptar.
— Hmph. Ficando todo metido para alguém como você, Itsuki. Toma essa!
— Ei, não encosta em mim!
Yuri se esticou para bagunçar meu cabelo. Eu estava prestes a reclamar, mas quando olhei para o rosto dela, vi que sorria suavemente.
— Você vive com os ombros sempre tensos. Devia relaxar um pouco. Também é férias de verão para você, não é?
— Mais fácil falar do que fazer.
Achei que ela estivesse só tirando sarro de mim, mas na verdade estava preocupada comigo. É por isso que eu nunca consigo ficar bravo com a Yuri — e também por que sempre sou grato a ela, não importa o quanto a gente discuta.
— Vocês dois parecem… bem próximos.
Naquele instante, foi como se uma nevasca tivesse atravessado o quarto. Uma pressão assustadora congelou o ar ao nosso redor. Algumas coisas nunca mudam, não importa quantos anos passem. Hinako, que até então observava em silêncio, agora nos encarava fixamente.
— Bem… sim. Nós nos conhecemos há… tipo, dez anos.
— Dez anos…?
Os olhos de Hinako se estreitaram de forma cortante. Yuri, percebendo a mudança no clima, se inclinou e sussurrou para mim.
(Ei, Itsuki! O que está acontecendo? Tenho a impressão de que a Konohana-san está me encarando feio!)
(Sim… ela está mesmo…)
Por algum motivo, Yuri parecia ter entrado na lista negra de Hinako. Fazer da ojou-sama do Grupo Konohana uma inimiga… seria esse o fim da nossa amizade de quase dez anos? Eu pensava nisso meio em tom de piada, mas então percebi que o olhar de Hinako também parecia me incluir.
Esse clima estava ficando perigoso demais para continuar.
— Ei, Yuri, você não devia voltar para o trabalho? Ainda deve estar no seu turno, não é?
— Ah, droga! Tinha esquecido completamente! — Yuri saiu correndo apressada em direção ao prédio principal.No meio do caminho, virou-se uma vez. — Eu trabalho no refeitório daqui! Apareça lá para me dar um oi se me vir! — dito isso, Yuri saiu correndo novamente.
— Ela é bem cheia de energia, não é?
— A Yuri ajuda no restaurante da família desde sempre, lidando com todo tipo de gente — mais velhos, mais novos. Ela tem coragem.
Eu deveria saber disso, já que já fui arrastado pela ousadia dela mais vezes do que consigo contar. Nesse momento, Hinako puxou levemente a manga da minha roupa.
— Itsuki… vamos dar uma caminhada.
— Ah, certo. Sim, vamos.
Eu estava mentalmente exausto, então uma pequena volta pelo lugar já bastaria. Felizmente, só de passear pelos terrenos do hotel já dava para passar o tempo.
— Tem algum lugar específico onde você queira ir? — À minha pergunta, Hinako respondeu com voz baixa.
— Qualquer lugar, menos o refeitório.
*
Na manhã seguinte, depois de um passeio tranquilo com Hinako. Estávamos tomando café da manhã no refeitório do prédio principal quando Yuri se aproximou da nossa mesa e fez uma pequena reverência.
— Prazer em conhecê-los! Eu sou Hirano Yuri.
Tennouji-san e Narika, que estavam comendo conosco na mesma mesa, olharam para Yuri. Eu já havia comentado antes, quando decidimos tomar café juntos, que uma amiga poderia passar para dar um oi, então elas não ficaram surpresas. Hinako, que já conhecia Yuri, mantinha seu clássico sorriso refinado do modo ojou-sama.
— Estou trabalhando meio período neste restaurante. Ah, e meu trabalho principal é ser a amiga de infância do Itsuki!
— Não fala como se fosse um emprego.
Coloquei meu copo de suco de laranja na mesa e soltei a provocação. O café da manhã era estilo buffet, então nossos pratos estavam cheios de comidas variadas. Tennouji-san tinha uma salada e um omelete. Narika pegou sopa e pão. O prato de Hinako estava bem equilibrado, mas aquilo era só aparência — a verdadeira Hinako jamais tocaria em vegetais.
O meu próprio prato, cheio de verduras frescas e salada de sashimi, tinha um sabor refinado e rico — digno de um café da manhã da família Konohana.
— Amiga de infância do Tomonari-san, você disse?
— Amiga de infância… do Itsuki…
Tennouji-san e Narika pareciam intrigadas.
— Você não está no turno agora? Está tudo bem ficar aqui? — eu disse.
— Só vim dar um oi rapidinho. O chef disse que posso fazer o que quiser desde que não atrapalhe o trabalho… a menos que eu esteja incomodando vocês?
— Nah, eu não me importo nem um pouco… — só por garantia, dei uma olhada na expressão dos outros.
— Não é incômodo algum — Tennouji-san pousou sua xícara de chá e falou. — É uma conexão rara para nós, e não há motivo para rejeitá-la. Espero que possamos nos dar bem.
— Uau… então é assim que uma ojou-sama lida com as coisas… — as palavras elegantes que saíam dos lábios de Tennouji-san, combinadas com sua postura refinada, pareciam ter cativado Yuri. A reação dela me lembrou de mim no passado. No começo, eu também ficava totalmente impressionado com cada gesto de uma ojou-sama. No caso de Tennouji-san, seus ousados cachos loiros em espiral só tornavam tudo ainda mais impactante.
— E-Eu sinto o mesmo. Também adoraria que nos déssemos bem.
Narika então falou, olhando para Yuri. Mas talvez, por estar nervosa diante de um rosto novo, a expressão de Narika estava mais rígida do que o normal — assumindo aquele ar intimidador que a fazia ser temida na academia. Aquilo poderia acabar causando um mal-entendido. Inclinei-me e sussurrei para Yuri.
(Yuri, a Narika só é um pouco desajeitada socialmente, mas…)
(Relaxa, eu entendi. Temos clientes assim no restaurante.)
Yuri não parecia nem um pouco abalada. Com um sorriso confiante, ela se virou para Narika.
— Você é a Miyakojima-san, certo? Aquela que o Itsuki disse que conheceu quando era criança…
— S-Sim, acho que é isso mesmo. Eu cuidei um pouco do Itsuki quando éramos pequenos.
Eu já tinha contado para Yuri sobre quando fiquei hospedado na casa de Narika na infância. Ela sempre teve curiosidade sobre isso, então agora estava totalmente focada nela.
— Hmm… então o Itsuki foi cuidado por alguém, é? — Yuri me lançou um olhar cheio de significado.
— O que você quer dizer com isso?
— Ah, nada~. Só achei curioso imaginar você — de quem eu sempre acabo cuidando — sendo cuidado por outra pessoa — ao ouvir as palavras de Yuri, as duas ojou-samas reagiram.
— Cuidado…?
— Cuidando… do Itsuki…?
Hinako e Narika inclinaram a cabeça ao mesmo tempo. As duas estavam reagindo à mesma palavra peculiar.
— Aliás, já que vocês três são ojou-samas, vocês não estão hospedadas em quartos três estrelas? Ouvi dizer que nesses quartos as refeições são servidas lá mesmo, então não teria necessidade de usar o refeitório…
Quem respondeu à pergunta de Yuri foi Hinako.
— Já que estamos aqui, achei que seria agradável comer junto com todos.
— Entendi. Realmente dá mais cara de viagem assim, e é divertido, né?
Yuri assentiu, satisfeita com a resposta. Na verdade, o verdadeiro motivo de Hinako era: "quero comer com o Itsuki". Tennouji-san e Narika disseram que queriam "aproveitar as refeições juntos já que estamos aqui", mas conhecendo a gentileza das duas, também é possível que estivessem apenas me acompanhando. Se for esse o caso, apontar isso seria falta de educação. Vou simplesmente aceitar a gentileza delas com gratidão.
— Bom, parece que meu intervalo já está acabando, então vou indo.
Depois de olhar o relógio na parede, Yuri começou a se despedir.
— Ei, Yuri, espera um pouco.
Aproximei-me dela quando parou e falei em voz baixa.
— Como mencionei ontem, estou escondendo minha verdadeira situação na Academia Kiou. As três garotas que acabamos de conhecer sabem da história, então tudo bem com elas, mas por favor não conte para mais ninguém.
— Entendi. Vou tomar cuidado — Yuri encontrou meu olhar com firmeza e assentiu. — Mas falando sério… você vive andando com pessoas tão… intensas assim?
— Bem… praticamente.
— Esse cabelo loiro com cachos verticais é tipo um padrão entre ojou-samas?
— Não. Aquilo é só a Tennouji-san sendo… única.
Mesmo na Academia Kiou, só existe uma pessoa com cachos loiros verticais.
— Hmm… Aliás, Itsuki.
— Sim?
— Não me diga que todas as pessoas que você conhece são garotas?
A voz dela tinha uma leve ponta de irritação, como um pequeno espinho me cutucando. Yuri olhou de relance para Hinako e as outras, com uma expressão levemente emburrada.
— E todas são super bonitas. Todas as garotas da Academia Kiou são assim?
— Não, essas três são só… exceções…
— E por que todas essas exceções acabam sempre ao seu redor?
— É realmente só… coincidência, eu juro…
— Hmmmm?
Ela me encarou com os olhos semicerrados, claramente sem acreditar. Nunca tinha pensado muito sobre isso antes, mas agora que parei para refletir… por quê mesmo?
— A propósito, Itsuki.
— O quê?
— Você não achou que eu estava completamente tranquila com tudo aquilo de ontem, achou? — Fiquei em silêncio. — Eu fiquei realmente magoada quando você ignorou minhas mensagens, sabia?
— Ugh…
— Quando te vi no fliperama, queria perguntar um monte de coisas, mas me segurei para não estragar o clima.
— Guh…
Então ela realmente lembrava… Sobre as mensagens que recebi logo depois de me tornar o cuidador da Hinako — eu respondi depois, mas não posso negar que as ignorei por um tempo. Para ser mais preciso, Hinako tinha pegado meu celular, então eu nem podia responder. De qualquer forma, com a correria das minhas tarefas como cuidador, admito que fui um pouco descuidado com isso. Eu realmente me sinto mal.
— Passe no meu quarto hoje à noite. Estou livre a partir da tarde.
— Sim, senhora.
Eu não tinha a menor possibilidade de recusar essa ordem.
*
Depois de nos despedirmos de Yuri por enquanto, seguimos para o local do seminário de verão. O seminário começa hoje. Entramos no prédio em estilo chalé e abrimos a porta da sala de aula. Quase vinte estudantes já estavam reunidos ali dentro.
— Ei, aqueles não são… alunos da Academia Kiou?
— Uma ojou-sama de verdade…
— Todas são tão bonitas.
— Mas tem um cara ali que parece alguém com quem a gente poderia se dar bem…
Esse último comentário provavelmente foi sobre mim. Antes da competição começar, enquanto ajudava Narika com suas preocupações, também comecei a perceber como os outros me enxergavam. Decidi me portar de um jeito que não parecesse deslocado ao lado de Hinako e das outras.
Lembrando dessa decisão, endireitei a postura. Ao contrário de Hinako e das outras, não estou acostumado a ser o centro das atenções, então por dentro estou nervoso — mas, pelo menos por enquanto, ninguém está olhando para mim como se eu não pertencesse ali.
O antigo eu talvez fosse diferente. Provavelmente já teria sido alvo de algum comentário maldoso.
— Hmm, parece que os lugares são marcados.
Na primeira fileira de mesas compridas, havia papéis colados com o nome e o lugar de cada estudante. Parece que os assentos foram definidos pela ordem de chegada no check-in. Ao lado de Hinako está Narika, e eu estou—
— Ora, parece que ficaremos sentados um ao lado do outro.
Tennouji-san se aproximou e disse isso. Minha colega de mesa era Tennouji-san. Tirei meu material de escrita da bolsa e me sentei. Pouco depois, um homem que parecia ser o instrutor subiu ao púlpito.
— Bom dia a todos. Vamos começar a primeira aula.
Os livros didáticos preparados especialmente para o seminário de verão começaram a ser distribuídos a partir das primeiras fileiras. Como o curso duraria apenas uma semana, o volume de páginas era pequeno — mas o conteúdo era extremamente denso, o que me deixou um pouco apreensivo.
Ainda assim, eu vinha acompanhando diariamente as aulas da Academia Kiou. Forçando a mente ao máximo, consegui acompanhar a explicação.
*
Finalmente a manhã acabou…
O seminário de verão ia das dez da manhã até às seis da tarde. A programação era pesada, mas, felizmente, o almoço estava incluído. Como era de se esperar de um evento organizado pela Academia Kiou, os bentôs eram luxuosos, e os alunos vindos de escolas comuns olhavam para eles com os olhos brilhando.
Depois do intervalo para o almoço, as aulas da tarde começaram. Um professor mais velho entrou na sala.
— Agora começaremos a aula de microeconomia.
— Micro… economia?
Inclinei a cabeça diante do termo desconhecido. Enquanto eu ainda tentava processar aquilo, Tennouji-san se inclinou um pouco na minha direção e sussurrou uma explicação.
— Você não leu o panfleto? Este seminário de verão convida professores de universidades renomadas do país inteiro para dar palestras especiais sobre negócios e serviços modernos. Dá para estudar áreas como comércio, administração, direito e engenharia.
— Ent… entendi…
Balancei a cabeça, embora a ideia ainda não tivesse se encaixado completamente. Talvez percebendo minha confusão, Tennouji-san sorriu com suavidade.
— Em termos simples, é o estudo da liderança.
Estudos de liderança… isso realmente existia?
Eu sabia que o seminário de verão tinha sido pensado para ensinar coisas que não apareciam nas aulas normais, mas jamais imaginei que incluísse algo como liderança. Estava muito além do que eu esperava. Folheando o livro, percebi que depois de microeconomia estudaríamos macroeconomia. Para mim, ambos eram assuntos completamente novos.
Quando a aula de economia finalmente chegou ao fim, senti como se meu cérebro tivesse sido espremido até a última gota. Eu estava completamente esgotado.
— Tomonari-san, você está bem? — perguntou Tennouji-san.
— Eu… definitivamente não estou bem…
— Também não tivemos como estudar antes, já que os livros acabaram de ser entregues. É normal sentir dificuldade.
A forma como Tennouji-san me consolou foi gentil e reconfortante. Olhei ao redor da sala e percebi que não era o único em sofrimento — alguns alunos também seguravam a cabeça, claramente sobrecarregados. Aquela aula realmente tinha sido pesada.
Como Tennouji-san disse, estudar antes provavelmente teria ajudado. Mesmo assim, ela parecia completamente tranquila.
Será que já estudava esse tipo de assunto normalmente?
Ultimamente eu vinha me acostumando com a vida na Academia Kiou. Mas, justamente por isso, ficava cada vez mais consciente do quão extraordinárias eram as garotas ao meu redor. Hinako, herdeira do Grupo Konohana. Tennouji-san, herdeira do Grupo Tennouji. Narika, herdeira da maior fabricante de artigos esportivos do Japão.
O mundo em que elas viviam era refinado e exigente. Estar lado a lado com pessoas assim definitivamente não era algo simples. Soltei um longo suspiro, como se expulsasse o cansaço mental junto com o ar. Foi então que ouvi vozes vindas da carteira ao lado.
— Konohana-san? Você parece um pouco preocupada. Aconteceu alguma coisa?
— Não, estou bem como sempre.
A voz de Hinako soou um pouco mais pesada do que de costume, então olhei para ela. Nossos olhares se encontraram — ela também estava me observando. Será que estava preocupada comigo?
Estou bem. Vou dar conta. Tentei transmitir isso com um pequeno gesto de mão. Hinako respondeu com um sorriso aliviado antes de voltar a olhar para a frente.
O intervalo terminou, e uma mulher de terno entrou na sala.
— Agora começaremos a aula de fundamentos de multimídia. Nesta disciplina, vocês aprenderão sobre as tecnologias básicas por trás das mídias que usamos diariamente, como áudio e vídeo.
Pelo que parecia, a professora era do departamento de engenharia. Enquanto eu ouvia a explicação, uma sensação de familiaridade começou a surgir.
…Ah. Eu conheço isso.
Antes das férias de verão na Academia Kiou, eu havia estudado bastante com meu colega Kita para obter uma certificação nacional na área de TI. Os tópicos abordados naquela época pareciam coincidir bastante com o conteúdo dessa aula.
— Agora, vamos tentar resolver este problema…
A professora passou os olhos pela sala à procura de alguém para responder. Com exceção de Hinako e Tennouji-san, a maioria dos alunos desviou o olhar. Eu… não desviei.
— Tomonari-san, por favor.
Ela conferiu o mapa de assentos e me chamou.
— Hum… quantização.
— Correto. Muito bem.
A professora sorriu, claramente satisfeita.
— No PCM, que converte dados analógicos em digitais, a quantização vem depois da amostragem. Depois disso, o processo de codificação transforma os valores em números binários.
Da sala, ouviu-se um "oh" coletivo de admiração. Por sorte, era um assunto que eu já tinha estudado. Dei sorte, sem dúvida — mas ouvir os elogios das pessoas ao redor me fez sentir, pela primeira vez, que talvez eu realmente tivesse um lugar na Academia Kiou. Aquilo me animou de verdade.
— Konohana-san, você parece estar de ótimo humor.
— Estou? Eu estou como sempre, hehe.
Ao ouvir a conversa, olhei para Hinako. Por algum motivo, ela estava estufando o peito com orgulho.
— Tomonari-san, você entendeu muito bem aquela questão — sussurrou Tennouji-san, elogiando.
— Foi só porque eu já tinha estudado esse assunto antes. Acabei dando sorte.
— Você pretende seguir na área de TI no futuro?
— Ainda não é algo totalmente decidido, mas, por enquanto, esse é o plano.
No começo, tudo isso tinha sido apenas para sustentar minha história de fachada. Na Academia Kiou, eu deveria ser o herdeiro de uma empresa de TI de médio porte. Comecei a estudar tecnologia para tornar essa história mais convincente.
Mas, graças aos arranjos da Shizune-san, acabei sendo apresentado a empresas de TI como possível candidato a emprego. Além disso, conviver com alguém como Kita — um verdadeiro herdeiro de uma empresa de TI de médio porte — acabou aumentando minha motivação.
— Nesse caso, que tal eu apresentá-lo a algumas empresas do Grupo Tennouji?
— Hã? Não, quer dizer… isso seria mesmo permitido?
— Claro que suas habilidades seriam avaliadas com rigor, mas fazer uma apresentação não é problema.
Como esperado de Tennouji-san, que sempre se esforçava para manter a reputação do Grupo Tennouji, ela não tinha a menor intenção de oferecer qualquer tipo de contratação privilegiada. Bem… o mesmo também valia para o Grupo Konohana.
— Mas, pessoalmente, eu ficaria muito feliz se você entrasse em uma das empresas principais do nosso grupo. Por exemplo, nossa fabricante de metais não ferrosos ou a empresa química do grupo.
— Por quê?
— Bem… é que… — de repente, Tennouji-san desviou o olhar, e suas bochechas ficaram levemente coradas. — Dependendo das promoções que você recebesse… poderia acabar ocupando um cargo importante dentro do grupo… E… bem… talvez pudéssemos trabalhar juntos… algo assim…
Ah… entendi.
— Isso parece ótimo. Acho que já disse algo parecido antes, mas trabalhar com você parece que seria divertido.
— H-Hya…! S-Sim! Exatamente! Eu também acho!
Tennouji-san abriu um grande sorriso, visivelmente feliz.
— Vocês dois aí, prestem atenção na aula.
A instrutora lançou um olhar severo na nossa direção. Pelo visto, os elogios de antes já não valiam mais nada. Acho que acabei relaxando demais. Tennouji-san e eu imediatamente abaixamos a cabeça e ficamos em silêncio.
— K-Konohana-san, você parece um pouco irritada…!?
— Estou? Eu estou como sempre, hehe.

Ouvi novamente a voz de Hinako. Quando olhei para ela, percebi que estava me encarando… com um olhar frio, como se estivesse olhando para algo desprezível.
*
— Com isso encerramos as aulas de hoje. Bom trabalho a todos. Daqui a uma semana haverá uma prova, então não deixem de estudar e revisar o conteúdo.
A última aula terminou, e a instrutora saiu da sala.
— Foi um pouco cansativo, não foi?
Saímos da sala e começamos a voltar para o hotel.
— O que você vai fazer agora, Tomonari-san? — perguntou Tennouji-san.
— Bem, eu…
Eu ia dizer que não tinha planos, já que meu encontro com a Yuri seria só à noite. Porém, naquele momento senti alguém puxar levemente minha roupa por trás. Quando olhei, vi Hinako me observando de um ponto onde os outros não conseguiam vê-la. Pela expressão dela, parecia que queria me dizer alguma coisa.
Entendendo o recado, engoli as palavras que estava prestes a dizer e mudei de rumo.
— Estou bem cansado hoje. Acho que vou descansar um pouco e me preparar para as aulas de amanhã.
— Eu também vou fazer isso — disse Hinako imediatamente.
— Karuizawa é perto o bastante para visitar quando quisermos. Acho que também vou descansar hoje — comentou Tennouji-san.
Eu não conseguia me identificar muito com essa lógica, mas parecia que ela também ficaria no hotel.
— E você, Narika?
— Meu cérebro já chegou no limite.
Narika parecia ainda mais esgotada do que eu.
— Então nos vemos amanhã — disse eu.
Enquanto as ojou-samas seguiam naturalmente para seus quartos três estrelas, eu fui para o meu quarto duas estrelas. Depois de voltar, fiquei um tempo esperando.
Certo… já deve dar para ir encontrar a Hinako.
Aquele puxão na roupa provavelmente significava algo assim. Eu tinha ouvido que a saúde dela vinha melhorando ultimamente, mas, como ela estava cansada, talvez quisesse passar um tempo juntos como fazemos na mansão. Eu não queria que Tennouji-san ou Narika me vissem entrando no quarto da Hinako. Depois de esperar o suficiente, achei que já estava seguro e fui até a porta.
Nesse momento, meu celular vibrou com uma chamada. Era Shizune-san.
— Itsuki-san, você provavelmente está prestes a vir para cá, certo?
— Sim, estava saindo do quarto agora mesmo.
— Sobre isso… a Ojou-sama acabou pegando no sono.
— Hã?
— Eu ficarei aqui cuidando dela, então você pode usar seu tempo como quiser.
— Entendi.
Acabei ganhando um tempo livre inesperado. Olhei para o relógio sobre a mesa ao lado da cama.
Ainda é um pouco cedo, mas acho que vou até a Yuri. Ela disse que estaria livre a partir da noite, então não deve haver problema.
— Na verdade, vou encontrar a Yuri mais tarde. Acho que vou até lá agora.
— Entendido.
— Se acontecer alguma coisa, me avise — quando disse isso, tive a impressão de que Shizune-san estava sorrindo do outro lado da linha.
— Itsuki-san, você tem trabalhado praticamente sem parar. Já que está em Karuizawa, aproveite um pouco para descansar e relaxar.
— Obrigado.
Senti uma pequena onda de felicidade ao perceber que meus esforços do dia a dia estavam sendo reconhecidos.
— Bem, com tantas aulas e estudos, talvez você nem tenha tempo para isso.
— Não deixa de ser verdade…
Com aulas tão especializadas, estudar antes e revisar depois era praticamente obrigatório. Ainda assim, já que ela tinha dito aquilo de propósito, talvez eu devesse aproveitar um pouco enquanto estivesse em Karuizawa. Claro, sem negligenciar os estudos.
Depois de desligar, mandei uma mensagem para Yuri.
Itsuki: Estou indo agora.
Yuri: Venha para o quarto 204 no prédio principal. E venha de estômago vazio.
A resposta veio quase instantaneamente. Pelo visto, Yuri estava hospedada em um quarto de uma estrela. Mas eu tinha quase certeza de que ela já tinha comentado que os funcionários do resort normalmente ficavam alojados em dormitórios de funcionários…
— Venha de estômago vazio…?
Talvez fosse um convite para jantar. Por precaução, mandei uma mensagem rápida para Shizune: Talvez eu jante antes.
*
— É aqui, né?
Parado diante da porta, apertei o interfone. Por um instante, o olho mágico escureceu — e, no momento seguinte, a porta se abriu.
— Você chegou.
Entrei no quarto de Yuri. O tamanho não era muito diferente do meu quarto duas estrelas. A diferença de preço provavelmente estava na vista. Comparados aos quartos duas estrelas mais acima na encosta ou aos três estrelas no topo da colina, os quartos de uma estrela ficavam em prédios mais baixos, então não davam vista para a natureza ampla de Karuizawa.
Em vez disso, a vista era para as instalações do próprio hotel. Mas, como o hotel era enorme e bastante luxuoso, ainda assim era uma paisagem interessante.
— Yuri, você está mesmo ficando nesse quarto?
— Sim. Combinei de ficar aqui em troca de metade do meu salário. De qualquer forma, estou aqui para aprimorar minhas habilidades na cozinha, então não preciso de muito dinheiro. Além disso, por que não aproveitar a experiência de ser hóspede também?
— Você continua totalmente focada na culinária, hein?
— Claro. Sou eu quem vai assumir o restaurante da família.
Enquanto falava, Yuri apontou para uma cadeira. Eu me sentei nela. Assumir o restaurante da família. As palavras dela me fizeram pensar por um instante em Hinako e nas outras ojou-samas. Elas vivem em mundos diferentes… mas talvez o modo de vida da Yuri não seja tão distante do delas.
Afinal, ela também é alguém que decidiu carregar nos ombros o peso do legado da família — o nome e a reputação de um restaurante.
— Bem, deixando isso de lado… estou um pouquinho irritada com você agora, Itsuki — Yuri falou calmamente, mantendo os olhos fixos nos meus.
— Só um pouquinho mesmo?
— Se repetir isso, vou ficar mais irritada.
— Esquece, esquece o que eu disse.
Arrependi-me imediatamente de ter aberto a boca. Mesmo tendo me convidado para sentar, Yuri continuou de pé. Talvez ela mesma não percebesse, mas era um velho hábito dela. Yuri sempre teve certa insegurança em relação à própria altura. Quando a conversa ficava séria, ela evitava se sentar — não queria parecer menor.
— Então… por que você acha que eu estou um pouquinho irritada? — Yuri perguntou. A primeira coisa que me veio à cabeça foi o fato de eu ter ignorado a primeira mensagem dela.
— Porque demorei muito para responder?
— Para falar a verdade, isso nem me irritou tanto assim. Parecia que você estava bem ocupado.
Yuri balançou a cabeça. A segunda coisa que me ocorreu foi quando fui ao fliperama com Tennouji-san, disfarçados. Na hora não achei que fosse nada demais, mas, do ponto de vista da Yuri, aquela cena poderia parecer…
— Ou porque eu simplesmente desapareci e estava me divertindo no fliperama?
— Estou irritada com isso, sim. Mas é um tipo diferente de irritação.
Então ela realmente estava irritada com aquilo… Mesmo assim, não consegui pensar em mais nada. Enquanto eu quebrava a cabeça tentando adivinhar, Yuri soltou um pequeno suspiro.
— Itsuki. Seus pais desapareceram no meio da noite, e você ficou sem ter para onde ir, certo?
— Sim.
— Então… — Yuri mordeu o lábio, como se estivesse segurando um turbilhão de emoções antes de continuar. — Então… você deveria ter vindo falar comigo primeiro.
Meus olhos se arregalaram um pouco. Yuri estava pensando algo assim? Um sentimento estranho misturou calor e culpa dentro do meu peito. Para mim, Yuri — minha amiga de infância — sempre foi alguém com quem posso falar sobre qualquer coisa. Uma amiga mais próxima do que a maioria das pessoas. Sempre pensei nela assim.
Mas às vezes me lembro de que uma amizade de infância não é algo tão simples. Além dos meus pais, Yuri é a única pessoa que conheço há quase dez anos. Para mim, Yuri é uma pessoa preciosa. E tenho certeza de que, para ela, eu também sou.
— Desculpa… Mas tudo aconteceu muito rápido. Logo depois que descobri que meus pais tinham desaparecido, acabei sendo arrastado para o sequestro da Konohana-san.
Enquanto eu explicava, Yuri assentiu levemente.
— Se eu não tivesse conhecido a Konohana-san… tenho certeza de que teria ido direto pedir conselho a você.
— Entendi.
Yuri assentiu mais uma vez, em silêncio. Por um momento, nenhum de nós disse nada. Mas não era um silêncio desconfortável — era quase necessário. Como se fosse um pequeno ritual para preencher as fissuras que tinham surgido entre nós sem que percebêssemos. Aos poucos, a confiança que sempre existiu voltou a ocupar aquele espaço. Depois de um tempo, Yuri soltou um suspiro leve.
— Itsuki. Você ainda não jantou, né?
— Não. Você mandou eu vir de estômago vazio.
— Vou preparar alguma coisa. Esse quarto tem cozinha.
Yuri pegou um avental no balcão da cozinha e o vestiu com naturalidade. Não era o avental de garçonete que ela usava no trabalho mais cedo, mas o familiar avental do restaurante da família. Quando ela amarrou as tiras na cintura, seu rosto jovem pareceu ganhar um ar mais sério.
— O que vai pedir?
— Hmm… vou querer o combo de hambúrguer.
— Entendido. O de sempre, então.
Yuri abriu um pequeno refrigerador. Devia estar abastecido com ingredientes do restaurante onde ela trabalha — carne, legumes e coisas do tipo. Logo começou a cozinhar com movimentos seguros.
O som da faca cortando os ingredientes, suas costas pequenas voltadas para mim… era uma cena tão familiar que, por um momento, esqueci completamente que estávamos em Karuizawa.
— Faz tempo que não como algo feito por você, Yuri.
Falei olhando para as costas dela.
— Você vivia aparecendo lá depois do meu expediente.
— É… e eu sempre acabava participando dos seus testes de sabor.
Como eu disse antes, Yuri leva a culinária extremamente a sério. Esse trabalho no resort provavelmente é mais um passo nesse caminho. Diferente de mim antigamente, Yuri não passa aperto financeiro. Desde o ensino médio, durante as férias longas, ela se inscreve em trabalhos de resort, atuando na cozinha de hotéis relativamente famosos. Tudo para aperfeiçoar suas habilidades culinárias.
— Ainda está perseguindo esse sonho, né?
— É claro.
O futuro de Yuri já está decidido: ela vai assumir o restaurante da família. Mas, além disso, ela tem uma ambição ainda maior.
— Vou transformar o Hiramaru em uma rede nacional!
Yuri fechou o punho com determinação e declarou aquilo com entusiasmo. Esse é o sonho dela — uma ambição enorme que ela vem proclamando desde que éramos crianças.
— Estou torcendo por você.
— Se está mesmo, então não desapareça de novo. Você é meu provador oficial, sabia?
— Foi mal…
Ultimamente, meu trabalho como assistente tem sido um pouco mais flexível. Talvez eu peça uma folga em breve para passar no restaurante da Yuri.
— Enquanto você estava ocupado com as aulas, eu também fui investigar algumas coisas — disse Yuri, enquanto cortava legumes frescos. — Aquelas três ojou-samas que conhecemos hoje de manhã… elas não são tipo… a elite da elite da Academia Kiou?
— Bem… em termos de família, provavelmente estão entre as melhores.
— Foi o que pensei. Como eu disse hoje cedo… como você acabou ficando tão próximo de gente tão incrível assim?
De manhã, quando ela perguntou isso, eu também fiquei meio sem resposta. Mas pensando bem… a explicação é bem simples.
— Acho que foi porque conheci a Konohana-san primeiro.
No fim, tudo começa com Hinako. Eu a conheci, comecei a conviver com ela… e foi assim que acabei conhecendo Tennouji-san e Narika.
— Conhecer a Konohana-san foi praticamente um milagre para mim.
Sinceramente, talvez eu tenha gasto toda a sorte da minha vida ali. Enquanto lembrava de tudo o que aconteceu alguns meses atrás… percebi Yuri me encarando.
— Hum.
— Que foi esse olhar?
— Nada… Só fiquei meio irritada por um segundo.
Inclinei a cabeça, confuso, no momento em que o prato que eu tinha pedido foi colocado na minha frente.
— Aqui está.
Yuri se sentou do outro lado da mesa, com seu próprio combo de hambúrguer. Salada fresca de legumes, arroz branco e um hambúrguer suculento. Era exatamente o mesmo prato que eu comia o tempo todo no restaurante da família dela.
Ela provavelmente já tinha deixado a mistura da carne preparada antes, mas mesmo assim, preparar duas porções tão rápido mostrava o quanto ela estava à vontade na cozinha.
— Vamos comer.
— Vamos.
Juntamos as mãos e começamos a comer. Peguei o hambúrguer e dei a primeira mordida.
— E então?
— Está delicioso!
O rosto de Yuri se iluminou, satisfeito.
— Você sempre gostou disso, né?
— Sim. …Qual era mesmo o ingrediente secreto? Tem um gostinho diferente aqui.
— Folhas de shiso. Eu pico bem fininho e misturo na carne.
— Ah, é mesmo.
Assenti enquanto levava mais um pedaço de hambúrguer à boca.
— Cara… isso traz lembranças. Faz tempo que não como algo assim, então está ainda melhor.
— Foi por isso que eu fiz. Você estava com saudade de comida simples, não estava?
Depois de todos esses anos, ela ainda me entendia perfeitamente. Não havia nenhuma ojou-sama por perto agora. Nenhum olhar atento. E a comida diante de mim não era um jantar sofisticado de restaurante fino — era um prato simples e reconfortante de lanchonete.
Eu não precisava me preocupar com etiqueta. Animado, cortei um pedaço maior do hambúrguer e enfiei na boca de uma vez. Acabei sujando um pouco os lábios com o molho.
— Isso.
Quando ergui o olhar, Yuri estava apoiando o queixo nas mãos, me observando.
— Você não mudou nada, Itsuki.
— Nem você.
Não importava quanto tempo passasse; continuávamos sendo aqueles amigos de infância que podiam voltar a conversar como se nunca tivessem se separado. Envolvido por aquela atmosfera tranquila, saboreei cada mordida da comida da Yuri.
*
Depois de me despedir da Yuri, caminhei pelas ruas já escuras de volta para o hotel. Achei melhor avisar Shizune que já tinha terminado por ali… então tirei o celular e liguei para ela.
— Oi, Shizune-san. Posso ir até aí agora, se estiver tudo bem. Qual é o plano?
— Deixe-me ver… Você poderia vir aqui? A Ojou-sama parece querer conversar com você.
— Entendido.
Pelo visto, Hinako já tinha acordado.
— Espere um momento, por favor. A Ojou-sama quer falar com você, então vou passar o telefone.
Ouvi alguns ruídos do outro lado da linha. Alguns segundos depois, uma respiração suave chegou até mim.
— Hinako?
— Mmm… quero batata frita.
Quase tropecei no próprio pé. Tenho quase certeza de que Shizune sentiu algo parecido do outro lado da linha.
— A Shizune-san disse que pode?
— Mmm… ela disse que tudo bem.
— Certo, vou comprar. Espere aí.
De certa forma, as manias habituais dela até eram reconfortantes. O hotel em que estávamos hospedados era de alto padrão, mas hóspedes comuns podiam utilizá-lo se pagassem. Atrás da recepção do prédio principal havia uma pequena loja, bem abastecida com itens do dia a dia.
Encontrei as batatas fritas que Hinako queria e comprei um pacote. Depois de sair da loja, verifiquei o celular e vi que Shizune tinha me enviado o número do quarto. Com o pacote de batatas na mão, segui até o quarto de Hinako.
O quarto da Hinako parecia mais uma casa.
Melhor tomar cuidado… Alguém poderia saber que aquele era o quarto dela. Se descobrissem que eu fui visitá-la à noite, poderia acabar surgindo algum mal-entendido desagradável. Era melhor manter isso discreto. Depois de confirmar que ninguém estava olhando, bati na porta.
Um instante depois, ela se abriu e Shizune me recebeu.
— Com licença.
— Ninguém viu você, certo?
— Está tudo limpo.
Eu já tinha conferido, mas mesmo assim entrei rapidamente.
— A Ojou-sama está lá em cima.
O quarto três estrelas era completamente diferente do quarto duas estrelas onde eu estava. Eu já tinha imaginado algo assim pelo lado de fora, mas aquilo não era um quarto — era praticamente uma casa. No primeiro andar havia uma sala enorme com um sofá gigantesco, e os móveis e a decoração pareciam um nível acima dos do meu quarto. Havia até um banheiro com uma vista impressionante.
— Então isso é um quarto três estrelas… é enorme.
— É do tipo vila. E ainda por cima uma suíte.
— Vila…?
— Significa que os quartos são independentes, como pequenas casas. Já suíte se refere a um quarto que tem áreas separadas para sala e dormitório.
Assenti, entendendo. Sempre achei que suíte fosse apenas um quarto muito luxuoso, mas aparentemente o termo tinha um significado específico.
— Agora que penso… esse quarto não é só para membros?
— É exclusivo para membros, mas o preço nem é tão alto assim. Em Tóquio, alguns hotéis de luxo chegam a cobrar mais de um milhão de ienes por noite.
— Um milhão—!?
Minha voz saiu falhando, quase como a de Tennouji-san durante a aula. Isso já era outro nível.
— Mas, para ser sincera, hotéis de cidade provavelmente parecem menos empolgantes.
— Por quê?
— Porque os lugares onde normalmente moramos são ainda mais luxuosos. Já os hotéis de Karuizawa aproveitam muito bem o ambiente natural, então ainda parecem especiais para nós.
Shizune pareceu perceber que eu não conseguia ficar totalmente impressionado com o hotel. Talvez ela mesma já tenha passado por algo parecido. No andar de cima havia um quarto extremamente espaçoso.
— Bem-vindoo…
Hinako estava esparramada na cama mais próxima. Ao me ver, levantou a mão e acenou preguiçosamente.
— Aqui, trouxe suas batatas.
— Yay…!
Os olhos dela brilharam quando viu o pacote. Achei que ela fosse se levantar para pegar, mas…
— Me dá na bocaaa…
— Tá bom, tá bom.
Ainda deitada na cama, Hinako abriu a boca como um passarinho esperando comida. Shizune assentiu levemente, como quem diz "Hoje pode", então peguei uma batata e levei até a boca dela.
— Hehe… batata frita é tão boa…
Hinako mastigava feliz, o som crocante ecoando pelo quarto. Aquilo era preguiça demais. Era difícil acreditar que aquela era a mesma garota que, apenas algumas horas antes, estava sendo elogiada pelos colegas como "linda" e "a ojou-sama perfeita" durante as aulas do seminário.
— Você também pode comer, Itsuki…
— Certo.
Peguei algumas batatas fritas e comecei a comer também. Desde que comecei a cuidar dela, quase não tive mais a chance de comer aquelas comidas simples de lanchonete. Mas, curiosamente, batata frita de pacote pode ser a única coisa que passei a comer com mais frequência.
Eu dava uma batata para Hinako e depois pegava uma para mim. Enquanto íamos revezando o pacote, de repente senti algo estranho.
Hã? Essas estão meio… úmidas?
Achei que não valia a pena fazer alarde por causa de um pouco de umidade e continuei comendo. Mas então percebi Hinako me encarando, com o rosto completamente vermelho.
….
— Ei… espera… essa não era uma que você já tinha mordido, Hinako?
— Nnh, mm.
— Droga, foi mal! Eu nem percebi!
E eu já tinha comido tudo. Hinako, com as orelhas vermelhas de vergonha, desviou o olhar timidamente. Um silêncio constrangedor se instalou entre nós.
— Ahem.
Uma tosse discreta de Shizune-san, que observava tudo de longe, nos trouxe de volta à realidade. Quando recobrei os sentidos, notei os materiais de estudo distribuídos naquele dia sobre a mesa. Um caderno aberto estava cheio de anotações cuidadosas.
— Hinako, você estava estudando?
— Sim, um pouco.
Hinako respondeu ainda esparramada na cama.
— Isso é impressionante… você resolveu quase tudo perfeitamente.
— Você pode me elogiar, sabia?
Hinako virou o rosto na minha direção ao dizer isso. Será que ela estava pedindo um carinho na cabeça?
— Muito bem.
— Mmm…
Como um gato recebendo carinho, Hinako estreitou os olhos, satisfeita.
— Hinako, você se importa se eu estudar também? Quero me preparar para amanhã.
— Claro. Vou ficar te observando daqui.
— Não é exatamente algo divertido de assistir.
Quando falei isso, Hinako balançou a cabeça.
— É a paisagem de sempre… me acalma.
Ela sorriu com aquele sorriso suave e despreocupado que é tão característico dela. Eu estudando na mesa. Hinako relaxando na cama. É… essa era exatamente a cena de sempre no meu quarto.
Sentindo o olhar de Hinako sobre mim, comecei a revisar o conteúdo para o dia seguinte. Do sofá ali perto, percebi alguém bocejando.
— Shizune-san, você parece com sono.
— Sim, acho que sim. O trabalho tem se acumulado ultimamente.
A resposta veio um pouco atrasada, quase sonolenta. Já eram dez da noite. Ainda era cedo para dormir, mas Shizune-san sempre parecia sobrecarregada mesmo na mansão. Talvez o cansaço acumulado finalmente estivesse cobrando seu preço.
— Eu cuido da Hinako, então pode descansar, Shizune-san.
— Não, eu não poderia…
— Não foi você mesma que disse, Shizune-san? Que normalmente trabalha sem parar e que deveria aproveitar Karuizawa para descansar um pouco… Acho que isso também vale para você.
Ela provavelmente não esperava ouvir as próprias palavras de volta. Seus olhos se arregalaram levemente, e eu continuei:
— De vez em quando, tire um descanso.
— Entendido. Vou aceitar sua sugestão e me retirar.
Assentindo em rendição, Shizune-san sorriu suavemente. Ela desceu até o banheiro do primeiro andar para trocar de roupa e vestir algo para dormir. Provavelmente usaria aquele quarto depois, então troquei um olhar com Hinako e nós dois descemos juntos para a sala do primeiro andar.
— Itsuki… obrigada.
Enquanto eu espalhava sobre a mesa o livro e o caderno que peguei emprestado da Hinako, ela agradeceu de repente.
— Pelo quê?
— Shizune ficou feliz.
Hinako disse isso enquanto se esparramava no sofá.
— Não é comum ver aquela expressão no rosto dela.
— Sério? Fico feliz de ter dito alguma coisa então.
Eu tinha ficado um pouco preocupado se não tinha me metido demais, mas parece que valeu a pena.
— Nnh… bocejo.
Hinako bocejou.
— Você também parece com sono, Hinako.
— Mmm… você também, Itsuki.
Fui pego. Achei que estava concentrado nos estudos, mas o sono já estava chegando. Ela devia ter me visto cochilar algumas vezes.
Quero estudar mais um pouco. Também não quero que as pessoas me vejam entrando e saindo deste quarto… mas se eu voltar enquanto ainda estiver escuro, deve ficar tudo bem, né?
Se eu saísse até meia-noite, no máximo, provavelmente não teria problema. Relaxar desse jeito foi meu err— uma sensação de frio me despertou, e abri os olhos. Uma luz suave do sol entrava por uma fresta nas cortinas fechadas.
— Hã… manhã…?
Eu nem lembrava quando tinha adormecido. Logo percebi que algo estava errado. Eu ainda estava com minhas roupas normais, não de pijama. Meu corpo estava afundado no sofá, não numa cama. E Hinako dormia profundamente ao meu lado.
O relógio marcava sete da manhã.
— Droga.
Eu tinha dormido ali.
*
— Devolva aquela sensação reconfortante de ontem.
— Eu sinto muito.
Eu praticamente me curvava no sofá diante de Shizune-san, que tinha acabado de acordar. Agora eram sete e meia da manhã. Trinta minutos tinham passado, mas eu ainda não tinha conseguido sair do quarto. Ainda estava cedo. Achei que poderia sair sem ser visto, mas toda vez que olhava para fora havia hóspedes conversando por ali.
Aquela área tinha bancos e jardins, perfeita para relaxar e apreciar a paisagem. Em comparação com o prédio principal, o movimento era menor — mas quem aparecia ali costumava ficar bastante tempo.
— Itsuki-san, você já tomou banho?
— Não… ainda não.
— Faltam menos de três horas para o início do seminário de verão. Considerando o café da manhã e um banho, não podemos perder tempo.
Hinako provavelmente também ainda não tinha tomado banho.
— Nnh… Itsuki? Bom dia…
Hinako, que estava profundamente adormecida no sofá ao meu lado, desperta lentamente.
— Itsuki, você ainda não tomou banho…?
Esfregando os olhos com o dorso da mão, Hinako perguntou. Ela provavelmente ouviu a conversa.
— Ah… é.
— Então… vamos tomar banho juntos…
— Não, agora não é hora pra isso…
Dispensei a ideia com cuidado, e Hinako estufou as bochechas, claramente contrariada. Senti um pouco de pena, mas estava tenso demais naquele momento para lidar com isso. Enquanto quebrava a cabeça em busca de uma solução, notei a varanda além da grande janela. Ao me aproximar e observar melhor tanto a varanda quanto a paisagem lá fora, percebi que havia um pequeno desnível, mas o chão abaixo da grade era de areia.
— Talvez eu consiga sair por aqui.
— Possível até é… mas não é meio arriscado?
— Não. Essa confusão aconteceu porque eu fui descuidado… vou consertar meu próprio erro!
Peguei meus sapatos na entrada e os calcei ali mesmo na varanda.
Por sorte, não havia ninguém daquele lado. Mas isso poderia mudar a qualquer momento, então não podia hesitar. Subi na grade e saltei com cuidado.
— Consegui.
Todo aquele treinamento de defesa pessoal, as aulas de dança e o tênis desde que me tornei cuidador finalmente serviram para alguma coisa. Fiz um gesto para Shizune-san na varanda, indicando que estava bem. Primeiro obstáculo superado.
Soltei um suspiro de alívio e segui tranquilamente em direção ao meu quarto.
Foi então que—
— I-Itsuki…?
Alguém chamou meu nome atrás de mim.
Quando me virei, vi uma tapinha parada ali.
— Yuri? Bom dia… o-o que você está fazendo aqui?
— Meu turno só começa ao meio-dia, então eu estava dando uma caminhada. Mas… — O rosto de Yuri se contraiu enquanto ela falava. — E-Eu vi alguém pular da varanda do quarto da Konohana-san agora há pouco. Era… você, não era, Itsuki?
— D-D-Do que você está falando? Não faço ideia…
Ela me viu. Desviei o olhar, tentando disfarçar, mas o olhar de Yuri atravessou direto minhas desculpas.
— E-Espera, como você sequer sabe onde fica o quarto da Konohana-san…?
— Eu ajudo na recepção, então já vi o registro dos hóspedes. …Não mude de assunto.
Tch… não deu certo. Tentei mudar o tema discretamente, mas ela percebeu.
— E-Era um mordomo, um mordomo! A família Konohana tem um monte de mordomos, então você deve ter me confundido com um deles.
— A-Ah, é mesmo. Faz sentido…
Achei que tinha sido uma desculpa brilhante. Yuri pareceu convencida por um momento, mas—
— Impossível eu te confundir com outra pessoa — disse ela com total seriedade. Parece que fui pego justamente pela pior pessoa possível. Um suor frio escorreu pela minha testa. Não consegui pensar em mais nenhuma desculpa.
Não tinha jeito. Era hora do último recurso.
— Eu estou com pressa!
— Ei!? Itsuki, espera!
Sai correndo.
*
Voltei às pressas para o meu quarto, tomei um banho rápido, troquei de roupa, peguei café da manhã no refeitório e segui para a sala do curso de verão. O turno da Yuri começava ao meio-dia, então não cruzei com ela no café da manhã. Mas provavelmente ela me pressionaria de novo em breve. Eu precisava pensar em algum plano.
Hora do almoço.
Depois de guardar meu livro e meu caderno na bolsa, peguei um bentô elegante do carrinho e voltei para o meu lugar.
— Preciso pensar em uma desculpa…
— Itsuki, tem algo errado? — Narika, sentada à minha frente, acabou ouvindo meu murmúrio.
— Não é nada — respondi apenas. Como nossos lugares eram próximos, nós quatro acabamos almoçando juntos. Isso me lembrou o chá que tivemos alguns meses atrás, o que trouxe uma certa nostalgia, mas eu estava estressado demais para aproveitar o clima.
— Tomonari-san, você veio bem preparado desta vez, não veio?
— Bem… ontem foi um desastre na maioria das matérias, então…
Tennouji-san, que teve aula comigo, percebeu a diferença na minha concentração entre ontem e hoje. Estudar no quarto da Hinako ajudou bastante a acompanhar as aulas desta vez.
— Pensando bem, a Hirano-san não apareceu esta manhã.
Narika comentou enquanto comia um pouco de chikuzen-ni doce.
— Ela começa a trabalhar esta tarde.
— Ah, entendi.
Quando contei o que Yuri me disse, Narika apenas assentiu.
— Seria bom ter mais chances de conversar com ela enquanto estamos aqui…
— Acho que a Yuri ficaria feliz com isso. Mas parece que o único momento em que todos podemos nos encontrar é à noite — eu disse enquanto dava um sorriso torto diante do comentário desapontado de Tennouji-san. Todos nós estávamos ocupados, então manhãs e tardes eram difíceis de conciliar.
— E-Ei, tive uma ideia…! — Narika, reunindo coragem, anunciou isso para o grupo.
*
A ideia da Narika tinha sido uma festa do pijama, simples assim.
As ojou-samas, presas às regras familiares e à etiqueta, voltavam para seus quartos na hora de dormir, então não seria exatamente uma noite do pijama completa. Ainda assim, reunir-se à noite — um horário em que normalmente não passavam juntas — e usar pijamas, algo que raramente viam umas nas outras, prometia criar um clima divertido e fora do comum.
Todos concordaram com a sugestão de Narika, e eu rapidamente liguei para Yuri para confirmar.
— Parece bom.
A resposta de Yuri veio na hora. Ela sempre fora boa em lidar com pessoas. Eu imaginara que não ficaria intimidada diante das ojou-samas da Academia Kiou e, como esperado, ela topou—
— Também tenho algo para te perguntar, sabia.
O comentário final, dito de forma ominosa, me deixou inquieto.
A festa ficou marcada para o quarto da Yuri. Hinako, Tennouji-san e Narika estavam hospedadas em quartos luxuosos de três estrelas, mas tinham funcionários acompanhando. Decidimos que um lugar onde só nós cinco estivéssemos seria melhor.
Para falar a verdade, no quarto da Hinako só estava a Shizune-san, e eu não achava que isso seria um problema. Mas então lembrei que no dia anterior tinha levado batatas fritas para lá. Momentos assim poderiam acabar revelando a verdadeira personalidade da Hinako sem querer, então, para evitar qualquer deslize, concordei com o quarto da Yuri.
— Narika, você realmente cresceu.
Enquanto seguíamos em direção ao quarto da Yuri, olhei para Narika ao meu lado e murmurei.
— O-O que você quer dizer com isso…?
— Só não esperava que você planejasse um evento que envolvesse todo mundo.
— Hmph. Eu já consigo lidar com algo assim. Mesmo que me rejeitassem, eu só dormiria um dia inteiro e me recuperaria.
— Isso seria bastante dano emocional.
Ainda bem que não recusamos…
— Mas como você sequer ficou sabendo de festas do pijama?
— Ah, é que… outro dia eu fui à loja de doces, e algumas crianças do ensino fundamental que estavam por perto estavam super animadas falando sobre fazer uma festa do pijama. Fiquei meio com inveja quando ouvi.
Fez sentido. Eu tinha achado que não era uma ideia muito típica de ojou-sama, mas se viera de uma conversa casual entre crianças comuns, então estava explicado.
Chegamos ao quarto da Yuri, e eu toquei o interfone.
— Entrem!
A porta se abriu, e Yuri, vestindo seu pijama, nos recebeu.
— Hirano-san, obrigada por nos receber.
— É mesmo! Eu estava ansiosa por isso desde que o Itsuki ligou.
Yuri parecia realmente animada; não estava apenas sendo educada.
— Juntei o sofá e a cama, então sentem onde quiserem.
— Eu fico numa cadeira — eu disse.
— Nada disso. Festa do pijama é na cama ou no chão.
Era assim que funcionava…? Na verdade, eu não sabia muito sobre festas do pijama. Podia ser só um estereótipo, mas eu sempre achara que fosse algo mais típico entre garotas.
(N/SLAG: E é coisa de garota cara.)
Sentar na cama parecia um pouco constrangedor, então acabei me acomodando no sofá.
— É a primeira vez que faço algo assim — disse Tennouji-san.
— S-Sim… eu que sugeri, mas agora estou ficando nervosa — acrescentou Narika.
— Tenho certeza de que será um momento encantador — e por fim, disse Hinako.
Na cama, as três ojou-samas conversavam animadamente. Observando as três… comecei a sentir que estava um pouco deslocado.
— Tomonari-san, tem algo errado?
— Bem… é que…
Percebendo meu comportamento estranho, Tennouji-san inclinou a cabeça. Desviei o olhar, tentando disfarçar, mas… Yuri abriu um sorriso malicioso.
— Para um garoto, deve ser uma visão e tanto, hein~?
— É, acho que sim. Mas você já está acostumada com isso, Yuri.
— Não se acostume!
Yuri me acertou um leve golpe na cabeça. Os pijamas de todas estavam bem diferentes do habitual — novos, fofos, com um charme misterioso que mexia comigo de um jeito difícil de explicar.
Claro, como tivemos que atravessar o corredor do hotel para chegar ao quarto da Yuri, todos usavam pijamas apresentáveis o suficiente para serem vistos em público. O hotel até fornecia pijamas como parte das comodidades, mas decidimos usar os nossos próprios para a ocasião. Eu estava com o meu pijama simples de sempre.
O pijama da Hinako era um conjunto rosa-claro com gola. Tinha um ar levemente formal, algo bem digno de uma ojou-sama. Normalmente Hinako prefere roupas mais casuais, mas eu já a tinha visto usar esse conjunto algumas vezes na mansão — provavelmente é um dos seus favoritos.
O pijama da Tennouji-san era um vestido de peça única azul-claro, com um laço, transmitindo uma elegância natural. Talvez por Hinako, sua rival, estar presente, ela manteve o cabelo nos característicos rolos verticais, diferente de quando fiquei hospedado na casa dela. O penteado, combinado com seu comportamento refinado, fazia parecer que ela era uma dama nobre vestindo um vestido de baile.
Já o pijama da Narika era completamente branco, com frufrus delicados e a parte de baixo mais curta do que o habitual, lembrando bastante suas roupas casuais. Quando penso na Narika, a imagem que me vem à mente é a dela séria e determinada no campo esportivo, então eu esperava algo mais prático. Mas esse pijama quebrava totalmente essa impressão, revelando um lado mais suave, típico de uma garota da idade dela — algo que parecia uma nova descoberta.

— Mas agora eu entendo por que o Itsuki ficou tão encantado. Ojou-samas de verdade conseguem parecer elegantes até de pijama, não é?
Yuri observava as três com um leve toque de inveja. Aliás, o pijama da Yuri consistia em uma camisole, um moletom com capuz e um short, tudo em tons de cinza combinando. Por causa do moletom, parecia mais roupa de ficar em casa do que pijama propriamente dito, mas esse não era o problema. Já fazia um tempo que eu estava entrando em pânico por dentro.
A camisole dela não estava ajustada direito, e o peito parecia… perigosamente instável. Cada vez que ela mudava de postura, eu precisava desviar o olhar.
— Sinceramente, você é a mais perigosa aqui.
— Hã? …E-Ei, não fica olhando para lugares estranhos!
Sem conseguir me segurar, acabei avisando. Yuri virou de costas para mim e fechou o moletom. Mesmo que ela esteja acostumada comigo, eu ainda sou um cara. Ela precisava tomar mais cuidado.
— Deixando o pervertido de lado, vamos começar essa festa do pijama! — Eu não podia negar que tinha acabado olhando um pouco, então deixei essa provocação passar. — Então? Sobre o que vamos conversar? Já que é uma festa do pijama, talvez… histórias de amor?
— I-I-Isso… não é cedo demais pra esse tipo de assunto…!? — disse Narika.
— Hã? Sério?
Narika, corada, balançava a cabeça em negação, o que fez Yuri ficar confusa. Ojou-samas geralmente têm pouca experiência com romance, então a resistência delas a esse tipo de assunto costuma ser bem menor.
— Já que estamos aqui, eu adoraria ouvir sobre vocês dois.
— Eu também gostaria de ouvir sobre o passado de vocês.
Hinako concordou com a sugestão de Tennouji-san. Yuri e eu trocamos um olhar.
— Meu passado com o Itsuki, é? Na maioria das vezes são histórias de eu limpando as confusões que ele fazia.
— Nada disso. É mais como eu sendo arrastado por você.
— Que grosseria! Eu nem te arrastei tanto assim!
— Yuri… não me diga que você… perdeu a memória!?
— Como se fosse! Estou dizendo isso com todas as minhas memórias intactas!
A afirmação absurda dela quase me fez suspeitar que realmente tivesse perdido a memória. Quem foi mesmo que me chamou ontem à noite, hein?
— Agora que você mencionou, Hirano-san disse ontem que estava cuidando do Tomonari-kun, não foi?
Hinako apontou. É verdade, ela tinha soltado algo assim do nada ontem de manhã.
— Exatamente! Não é exagero dizer que eu estava cuidando do Itsuki.
— Isso com certeza é exagero — corrigi imediatamente. Mas… — É exagero, sim… mas houve várias vezes em que eu teria me complicado sem a ajuda dela.
Hinako e as outras olharam para mim. Continuei, lembrando do passado.
— Assim que comecei o ensino médio, eu estava atolado de trabalhos de meio período todos os dias, então quase nunca podia participar dos encontros da turma. No fundo, eu me preocupava achando que as pessoas talvez não pensassem muito bem de mim por causa disso… mas, surpreendentemente, acabei me entrosando normalmente.
Ainda lembro da sensação estranha daquela época. Para pagar aluguel, comida e mensalidade da escola, eu trabalhava sem parar desde o começo do ensino médio. Nem sequer podia participar dos eventos de integração da turma, então já estava preparado para passar o ano isolado.
Mesmo assim, de alguma forma, meus colegas me acolheram calorosamente. Quase como se entendessem minha situação…
— Fiquei curioso e perguntei a um colega sobre isso. Aparentemente, a Yuri tinha explicado discretamente a minha situação para todo mundo. …Fui aceito graças a ela.
No nosso primeiro ano do ensino médio, Yuri e eu ficamos na mesma turma. Mais tarde, descobri que, durante o evento de integração que eu não pude ir, Yuri explicou algumas coisas sobre mim. Ela mencionou vagamente que eu precisava trabalhar muito por causa de problemas familiares e que isso limitava minha vida social. Mas quando perguntaram detalhes — como sobre meus pais — ela preferiu não dizer nada, respeitando minha privacidade enquanto ainda me defendia.
Quando soube disso, fiquei sinceramente comovido. Acho que até deixei escapar algumas lágrimas. Yuri tinha me apoiado de maneiras que eu nem imaginava.
— Bem, eu só fiz o que qualquer pessoa faria — Yuri disse isso com um sorriso orgulhoso e satisfeito. — Afinal, eu sou a onee-san do Itsuki!
— Nós temos a mesma idade — respondi com minha réplica habitual enquanto ela estufava o peito com orgulho.
— Ah, aliás, tinha algo que eu queria perguntar para a Tennouji-san.
— Oh? O que seria?
Yuri mudou de assunto descaradamente.
— Há uns dois meses… você estava no fliperama com o Itsuki, certo? Você parecia tão diferente naquela hora que eu nem te reconheci de primeira…
— Sim, está correto. Era mesmo eu.
— Nossa… Então vocês dois são, tipo… bem próximos ou algo assim…?
— O-O quê!? N-N-N-Não, Tomonari-san e eu não temos esse tipo de relação…!
O rosto de Tennouji-san ficou completamente vermelho. Um silêncio constrangedor caiu sobre o quarto, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio. Então Hinako falou.
— Aliás, eu também fui ao mesmo fliperama com o Tomonari-kun.
— Hã?
Tennouji-san ficou paralisada ao ouvir o comentário acompanhado do sorriso suave de Hinako.
— Ah… só para constar, eu também fui lá.
— Hã?
Narika acrescentou nervosamente, e agora foi Hinako quem ficou surpresa. Um silêncio tenso se instalou. Eu não sabia explicar exatamente por quê, mas parecia que faíscas estavam voando entre as três ojou-samas.
— Itsuki… não me diga que você virou um canalha pelas minhas costas.
— Um canalha!?
— Seu canalha pervertido!
Isso foi pesado. Tirando a Tennouji-san, eu só fui com a Hinako e a Narika porque elas me chamaram… Foi então que os olhos da Narika começaram a vagar pelo quarto.
— Hum… não está com um cheiro bom aqui já faz um tempo?
— Ah, eu estava praticando um pouco de culinária mais cedo.
— Culinária?
Narika inclinou a cabeça, confusa.
— A família da Yuri tem um restaurante, e ela quer se tornar chef — percebendo que apenas Hinako e eu sabíamos da situação da Yuri, acrescentei um pouco de contexto. Agora que ela mencionou, havia mesmo um aroma ácido e saboroso no ar.
— Já que íamos fazer uma festa do pijama, achei que pelo menos deveria preparar alguns petiscos.
— Você também faz petiscos…?
— Faço, sim. Embora a gente quase não sirva isso no restaurante. É mais um hobby.
Yuri falou como se não fosse nada demais, mas eu lembrava bem que ela era excelente fazendo petiscos. Ela já tinha preparado alguns para mim no passado.
— Ah, aquele mixer ali é um dos nossos produtos.
— Sério? — Tennouji-san apontou para a cozinha, e os olhos de Yuri se arregalaram de surpresa. — Esse mixer é compacto, fácil de desmontar e muito simples de limpar, então é extremamente prático.
— Vou transmitir isso para os desenvolvedores. Eles trabalharam duro no design, então vão ficar felizes em saber disso.
Tennouji-san assentiu satisfeita, como se fosse uma conquista pessoal. Provavelmente ela realmente sentia isso. Saber o esforço por trás de um único produto como um mixer mostrava o forte senso de responsabilidade que ela tinha.
As conquistas do Grupo Tennouji também eram conquistas dela.
— Mesmo assim, é engraçado como as coisas acabam se conectando assim.
— O Grupo Tennouji está envolvido em praticamente tudo, então esse tipo de coisa não é tão raro. Aquela geladeira ali também é nossa.
— S-Sério…?
Yuri, que achava que o mixer era um caso isolado, agora estava muito além de surpresa — estava completamente atordoada.
— Em um hotel como este, você encontra muitos itens familiares. …Embora imagino que Konohana Hinako diria o mesmo.
Tennouji-san lançou um olhar competitivo para Hinako. Hinako assentiu com um sorriso um pouco irônico.
— Por exemplo, as camas usadas neste hotel são do Grupo Konohana.
— C-Camas…? Agora que você falou… elas eram absurdamente confortáveis…
A cama do meu quarto também era ridiculamente confortável. Provavelmente uma linha premium que nem é vendida ao público.
— Aliás, Miyakojima-san, sua família também tem algo assim…?
— Minha família só administra uma loja de equipamentos esportivos, então não produzimos muita coisa relacionada a culinária ou hotéis. …Mas aqueles tênis brancos na entrada. São seus, Hirano-san?
— Ah, sim… são meus…
— Eles são nossos. Originalmente desenvolvemos calçados para atletas, mas recentemente também começamos a produzir tênis para uso cotidiano.
— N-Nossa, sério…?
Yuri, sem palavras, apenas piscava repetidamente.
— A diversificação da moda está sendo adotada por vários setores.
— Sim. Mochilas de trilha viraram tendência, ou marcas de equipamentos de pesca entraram no mundo da moda reformulando seus logotipos. Esse tipo de coisa tem acontecido bastante ultimamente.
— De acordo com um fabricante de roupas fabless do Grupo Tennouji, recentemente—
A conversa tinha ido para um nível bem avançado. Ao ver Yuri parada, de boca aberta, assenti profundamente.
— Eu entendo, Yuri. Eu reagi do mesmo jeito no começo.
— Deve ser difícil para você, hein?
É… tem sido bem difícil mesmo… Deu muito trabalho conseguir agir naturalmente na Academia Kiou.
— Ah, minhas desculpas. Acabamos nos desviando do assunto.
Tennouji-san pediu desculpas. Bom, pelo menos Yuri teve um gostinho do tipo de conversa que acontece na Academia Kiou, então provavelmente foi uma experiência nova para ela.
— Ah… aliás, eu também tinha algo que queria perguntar para a Konohana-san… — Yuri se virou para Hinako. — Hoje de manhã eu vi o Itsuki saindo do seu quarto… o que foi aquilo?
—!
A pergunta repentina me deixou sem palavras. Os olhos de Tennouji-san e Narika também se arregalaram. Essa Yuri… foi perguntar logo para a Hinako em vez de falar comigo!
Eu tinha pensado que ela me pressionaria em particular depois da festa, então fui pego completamente desprevenido. Permaneci em silêncio, tentando conter o pânico. Mas Hinako sorriu, como se não tivesse absolutamente nada a esconder.
— Ah, eu tinha esquecido completamente disso.
Ela se levantou e começou a vasculhar sua bolsa. Agora que penso nisso, Hinako tinha trazido uma bolsa por algum motivo.
— Tomonari-kun, aqui, estou devolvendo isto.
O que ela tirou foi o caderno que eu havia pegado emprestado no quarto dela ontem à noite. Na verdade, parecia mais um conjunto de folhas soltas, com as bordas cortadas.
— Acordei um pouco cedo hoje e saí para caminhar. Por acaso encontrei o Tomonari-kun. Ele parecia preocupado com os estudos, então eu o ajudei um pouco.
— É, essa é definitivamente a letra do Itsuki.
Yuri espiou os pedaços de papel que eu tinha recebido de Hinako. Você… você até reconhece minha letra?
— B-Bem, o Tomonari-san trabalha na mansão da Konohana Hinako, então esse tipo de coisa provavelmente acontece.
— S-Sim, talvez eles tenham se encontrado por causa do trabalho…
Tennouji-san e Narika disseram isso, visivelmente nervosas. Pareciam até estar tentando convencer a si mesmas.
— Sério? Ainda parece estranho… Hmm…
Yuri foi a única que não pareceu convencida. Se ela continuasse investigando, eu acabaria me entregando. Decidindo que o melhor era escapar, levantei-me.
— Ah… estou meio com sede, sabe? Vou buscar algo para beber.
Sem esperar resposta, saí correndo do quarto da Yuri.
*
Ele fugiu na cara dura.
Yuri encarava a porta por onde Itsuki tinha escapado. Se ele fugiu, é porque tinha algo a esconder. Ela sentia que ainda havia mais coisa ali, se pressionasse um pouco mais.
— Como era o Tomonari-kun na escola antiga dele?
Hinako perguntou, sentada na cama. Ela não demonstrava muito, mas sempre que Yuri a via, sentia-se sobrecarregada pela diferença em… charme feminino? Carisma pessoal? Com seus traços refinados e maneiras elegantes, Hinako parecia a própria personificação do que Yuri imaginava ser a Academia Kiou.
Escondendo esses sentimentos complicados, Yuri disse:
— Deixa eu ver…
E começou a lembrar do passado.
— O Itsuki não era exatamente o centro das atenções da turma nem nada. …Mas era muito querido.
As ojou-samas se inclinaram para frente, interessadas.
— Dava para ver o quanto ele se esforçava. Nos dias de semana, nos fins de semana… ele estava sempre se matando de trabalhar, e ainda assim fazia um esforço razoável nos estudos. A vida social dele sofria um pouco por causa disso, mas ninguém desgostava dele. …Sinceramente, mesmo sem a minha interferência, acho que as pessoas acabariam se aproximando dele de qualquer forma.
Lembrando daqueles dias, Yuri falava com um tom nostálgico.
— Ele é tão sincero que as pessoas confiavam nele. E como ele é muito humilde, acabava frequentemente ajudando os outros com seus problemas.
— Ele é mesmo meio humilde, não é?
— Bem humilde, de fato.
— Sim, completamente humilde.
O consenso sobre o quanto ele era "humilde" foi absoluto.
Parece que ele também tem sido gentil com todo tipo de gente na Academia Kiou.
— Mas ser humilde nesse nível também traz seus próprios problemas.
Ao ouvir isso, as ojou-samas arregalaram os olhos. Claramente não faziam ideia do que ela queria dizer.
…Essas três parecem confiáveis. Talvez esteja tudo bem contar.
Era um assunto um pouco pesado, mas Yuri decidiu que não havia problema em compartilhar. Anos ajudando no restaurante da família tinham lhe dado confiança para julgar as pessoas. Ela conseguia perceber que as três realmente se importavam com Itsuki. Nenhuma delas faria algo para machucá-lo de propósito.
— Então… no nosso primeiro ano, uma garota da nossa turma se declarou para o Itsuki.
— O quê!? — Mirei e Narika exclamaram.
— Mas ele recusou.
Mirei e Narika soltaram suspiros de alívio. A reação das duas pareceu estranha para Yuri. Já a expressão de Hinako não mudou — ela continuava com o mesmo sorriso gentil de sempre. Deixando aquela sensação estranha de lado, Yuri continuou.
— O problema é que a forma como ele recusou acabou virando um pequeno assunto na época. …Cerca de um mês antes da confissão, o pai do Itsuki ficou doente e não pôde trabalhar por um tempo. Isso deixou o Itsuki muito mais ocupado do que o normal.
Hinako e as outras ouviram atentamente, com expressões sérias.
Yuri pensou: é, essas ojou-samas realmente se importam com o Itsuki. E era exatamente por isso que ela queria que ouvissem aquilo.
— Como o Itsuki é muito mole, ele se matou de trabalhar para garantir que não faltasse comida na mesa dos pais. Mas existe um limite para o tempo e a energia de qualquer pessoa. …E no caso do Itsuki, esse limite acaba pesando mais sobre ele mesmo.
— Pesando sobre ele mesmo…?
Hinako mostrou uma expressão confusa.
— Mais ou menos na mesma época em que o Itsuki ficou super ocupado, aquela garota da nossa turma de quem eu falei antes acabou se apaixonando por ele. …Ela era do tipo cujos sentimentos ficam dolorosamente óbvios nas atitudes, então era claríssimo para todo mundo que ela estava completamente apaixonada pelo Itsuki. Para ser sincera, nem parecia que ela estava tentando esconder — provavelmente porque queria que o Itsuki percebesse.
Ela sempre tentava trocar olhares com ele ou encontrar um jeito de ficarem sozinhos. Yuri não sabia dizer quanto daquilo era calculado e quanto era apenas o charme natural da garota. Mas uma coisa era certa: aquela garota não era uma pessoa ruim de forma alguma. Por isso, a turma inteira acabou fazendo um acordo silencioso de não interferir. Todos acreditavam que aquele sentimento era puro e que não traria nenhum sofrimento para o Itsuki.
— Mas aí está o problema. Quando ela finalmente se declarou para o Itsuki… parecia que ele nem tinha percebido os sentimentos dela.
Todo mundo já tinha notado. Até alunos de outras turmas tinham percebido. E mesmo assim, Itsuki — justamente a pessoa mais próxima da afeição dela — continuava completamente alheio.
— O Itsuki é o tipo de cara que se dedica de verdade quando ajuda alguém. Mas, ao mesmo tempo, ele tem o hábito de negligenciar a si mesmo. …Provavelmente tem a ver com a vida familiar dele, sabe? Desde pequeno, o Itsuki teve que suportar todo tipo de coisa, então é difícil para ele imaginar um futuro em que seja feliz. Por isso ele nunca pensa em se permitir descansar ou simplesmente aproveitar a vida. E quando o assunto é romance, ele é absurdamente cabeça-dura. Tipo… a ideia de viver um romance juvenil normal? Para ele, isso é quase impensável.
Provavelmente o próprio Itsuki nem percebe isso sobre si mesmo. E mesmo que percebesse, não seria algo fácil de mudar. Afinal, se dedicar a ajudar os outros não é exatamente algo errado. Conhecendo a personalidade dele, mesmo que se desse conta disso, provavelmente continuaria fazendo a mesma coisa.
— Então foi por isso que eu não tive escolha a não ser cuidar dele! Como uma Onee-san, sabe!
Yuri, sendo amiga de infância dele, sempre percebeu essa tendência no Itsuki. Por isso ela costumava agir discretamente nos bastidores com os colegas de classe. Como Itsuki sempre acabava negligenciando a si mesmo, alguém precisava ficar de olho nele. E Yuri tinha assumido esse papel.
Depois de dizer tudo isso, Yuri olhou para as jovens damas para ver como reagiriam. As ojou-samas… estavam em silêncio, com expressões pesadas.
— Ah… ops? Eu deixei o clima meio pesado?
Ela só tinha a intenção de apontar discretamente os defeitos do Itsuki — ou melhor, mostrar que ele não era um ser humano perfeito. Mas as três pareciam ter levado a história muito mais a sério do que ela imaginava.
Será que elas se importam tanto assim com o Itsuki?
Ou… seria algo além de simplesmente "se importar"? Talvez sentimentos tão especiais que "se importar" nem chegasse perto de descrever.
…Agora que penso bem, as reações da Tennouji-san e da Miyakojima-san antes foram meio estranhas, não foram?
Quando Yuri mencionou que alguém tinha se declarado para o Itsuki, as duas claramente ficaram tensas. E depois, quando ela explicou que ele tinha recusado, ambas pareceram visivelmente aliviadas.
Enquanto Yuri refletia sobre os sentimentos delas, o interfone do quarto tocou. Quando abriu a porta, encontrou Itsuki parado ali, segurando uma sacola de loja de conveniência.
— Voltei… Ué, que clima é esse? Vocês estavam falando de alguma coisa?
— Estávamos falando daquela vez em que alguém se declarou para você no primeiro ano do ensino médio.
— Ei!
Itsuki fez uma expressão de falsa reprovação, como se dissesse: precisava tocar nesse assunto? Mas Yuri sabia que ele não estava realmente irritado — nem um pouco. Para Itsuki, aquilo já era passado, e aquela falsa indignação era só vergonha por ter o passado exposto.
— Então, afinal, por que você acabou recusando ela?
— Eu disse que as coisas estavam difíceis em casa e que não queria arrastá-la para isso.
— Entendi. …Pergunta meio aleatória, mas ela fazia seu tipo?
— Hmm… não sei. Eu já tinha decidido que iria recusá-la, então parecia meio desonesto até pensar nessas coisas…
Era um jeito muito típico do Itsuki de pensar.
— Falando nisso, qual é o seu tipo, Itsuki—
Yuri parou no meio da frase e lançou um olhar rápido para as três jovens damas. Mirei e Narika estavam visivelmente tensas, claramente esperando ansiosas pelo resto da conversa. A expressão de Hinako, como sempre, não tinha mudado nem um pouco. Será que ela realmente não tinha interesse… ou estava apenas fingindo?
Hmm…
Yuri ponderou silenciosamente sobre os verdadeiros sentimentos das jovens damas.
— Como sua Onee-san, acho que preciso investigar um pouco isso aqui.
— Hã? O que você quer dizer com isso?
Itsuki inclinou a cabeça, completamente confuso.
(N/SLAG: PARA QUEM TAVA PREOCUPADO! KKKKKKKKKKKKKK. Tomara que a Yuri não tenha uma queda pelo Itsuki. Por favor!!!!!!!! Ela tá perfeita assim (provavelmente vai ser mais um par……… quem eu quero enganar.)
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