Volume 3

Capítulo 4: O Festival Esportivo

RESTAVAM APENAS cinco dias até o festival esportivo. Os últimos dias têm sido tão cheios que minhas lembranças estão um pouco confusas. Continuo cumprindo minhas funções como cuidador normalmente, mas, além disso, estou praticando tênis e tentando melhorar meus relacionamentos. Por isso, quando chega a hora de dormir, costumo desabar como um saco de argila.

É uma rotina bem puxada, mas ver resultados me faz sentir muito bem. Por isso, hoje sigo para a academia com um estado de espírito positivo.

— A propósito, Hinako — chamei Hinako, que estava sentada ao meu lado, meio sonolenta. — A Suminoe-san comentou que queria te convidar para uma festa do chá.

— Ngh… estou exausta por causa dos treinos para o festival esportivo, então prefiro recusar…

— Entendi. Vou dar um jeito de recusar por você de forma discreta. Você já recusou um convite antes, então negar de novo poderia ficar meio estranho, né?

— Mmm… obrigada.

Depois de confirmar a vontade de Hinako, anotei no meu caderno. Ultimamente, com tanta coisa na cabeça, tenho andado sempre com um caderno comigo.

— Você parece um CEO com o seu secretário.

Achei ter ouvido a voz suave da Shizune-san vindo do banco da frente.

— Você disse alguma coisa?

— Não, só estava pensando no futuro do Grupo Konohana.

Como chefe das empregadas, parece que ela leva o futuro do grupo muito a sério. Mesmo trabalhando no mesmo ambiente, o fardo que Shizune-san carregava era várias vezes maior que o meu. Será que algum dia conseguirei retribuir toda essa gentileza? Foi então que notei um pequeno grão de poeira no cabelo de Hinako.

— Hinako, tem poeira no seu cabelo…

Enquanto dizia isso e tocava levemente em seus fios—

— Ngh…!?

Hinako se sobressaltou, erguendo os ombros de surpresa como nunca antes.

— Fuh…!

— Fuh?

— Um ataque surpresa… isso não é justo…!

Dizendo isso, Hinako abaixou um pouco a cabeça. Pelo visto, tocar agora não tem problema, desde que não seja de surpresa. Enquanto eu retirava a poeira de seu cabelo, as orelhas de Hinako ficaram vermelhas, e era quase possível ver vários pontos de interrogação flutuando acima de sua cabeça, como se ela mesma não entendesse suas emoções.

Ao vê-la assim, inclinei a cabeça, confuso. O que é esse clima? Essa sensação estranha… meio constrangedora…

— Quando duas pessoas desligadas ficam juntas, vira uma bagunça, não é?

Achei ter ouvido Shizune-san murmurar algo, suspirando.

— Você disse alguma coisa?

— Não, só estava pensando em possíveis escândalos do Grupo Konohana.

— Hã?

Será que o Grupo Konohana está em algum tipo de crise séria…?

— A propósito, Itsuki-san — Shizune-san falou, olhando para mim pelo retrovisor. — Sobre aquela sugestão que fiz antes, de você trabalhar numa empresa de TI no futuro… ela foi aprovada.

— Aprovada…?

— Aqui está o cartão.

Shizune-san se virou e me entregou um cartão de visitas. Nele constava o nome de alguém que parecia fazer parte do departamento de RH de uma empresa.

— Depois de se formar na academia, se você concordar, essa empresa está disposta a te contratar. Disseram que não há problema mesmo sem diploma universitário.

— O-O quê…?

Então aquela conversa de antes estava mesmo se tornando realidade?

— Aquilo não era só uma hipótese…?

— Tornar isso real não aumenta sua motivação?

Bom… é verdade, mas… Eu nunca imaginei que ela iria tão longe por mim.

— Eu… já vi essa empresa em comerciais.

— Eles desenvolvem principalmente softwares de segurança para uso corporativo. Estão no azul há anos e a taxa de rotatividade é bem baixa.

Parece uma daquelas chamadas "empresas brancas".

— Mas, pessoalmente, acho que você deveria segurar um pouco esse caminho.

— Hã?

— Se, por acaso, você lapidar ainda mais suas habilidades, talvez consigamos algo ainda melhor para você.

Essa possibilidade nunca tinha passado pela minha cabeça. Eu já estava sobrecarregado só com essa proposta. Algo além disso parecia inimaginável.

— Parece que estou procurando emprego.

— Exatamente. A partir de agora, talvez seja bom encarar seu trabalho com essa mentalidade. Por exemplo, se você conseguir lidar bem com tarefas que envolvem o público, pode compensar as fraquezas da Ojou-sama e se tornar um assistente ideal…

— As fraquezas da Hinako…?

— Peço desculpas, falei demais.

Shizune-san levou levemente a palma da mão aos lábios. O carro seguiu silenciosamente em direção à academia.

Se o eu do passado pudesse me ver agora, provavelmente desmaiaria de choque… Afinal, antes de me tornar cuidador, eu era um estudante problemático que mal conseguia frequentar a escola.

Queria entrar na universidade, se possível, mas sabendo que seria difícil, cheguei a considerar arrumar um emprego logo após o ensino médio. Por isso, eu entendia muito bem o valor daquele cartão de visitas. E agora, pelo visto, com esforço suficiente, eu poderia almejar oportunidades ainda melhores.

Será que é certo ter tanta sorte assim? Não consegui evitar me sentir um pouco oprimido. Como se tivesse lido meus pensamentos, Shizune-san falou:

— Isso significa que temos grandes expectativas em você.

— Obrigado.

Gravei aquelas palavras profundamente no coração.

*

 

Depois que a segunda aula terminou, durante o intervalo, eu caminhava pelo corredor para esticar as pernas quando ouvi alguns alunos conversando.

— A Miyakojima-san anda com uma vibe diferente ultimamente, né? — disse um estudante da turma B, em voz baixa.

— É, ela é mais gentil do que eu esperava…

— Pois é. Não parece tão assustadora quanto dizem…

Tendo ouvido isso sem querer, me afastei rapidamente. Se continuasse escutando, provavelmente acabaria sorrindo feito um idiota.

— Itsuki!

Uma voz animada chamou meu nome por trás. Ao me virar, vi uma garota de cabelos pretos.

— Narika… você está de bom humor.

— Aham! Um colega falou comigo de novo hoje!

Com um sorriso radiante, Narika se aproximou. Ela parecia quase um cachorrinho abanando o rabo — mas guardei isso para mim.

— Hehe… depois de sentir o calor das pessoas, fico imparável!

Narika declarou com orgulho. Talvez ela esteja se empolgando um pouco demais. É verdade que as coisas estão indo bem ultimamente, mas, na realidade, ela só foi aceita por um pequeno número de alunos da turma B.

— Então que tal você tentar puxar conversa com alguém desta vez?

— O-O quê? Não, ainda não estou pronta para começar uma conversa…

Narika entrou em pânico imediatamente. Eu não disse isso para provocá-la; achei sinceramente que ela devia tentar.

— Sua imagem está melhorando aos poucos, então agora pode ser uma boa chance.

— V-Você tem razão. Certo, eu vou tentar!!

Ela já estava condenada… Com sua expressão habitual de nervosismo — quase rígida —, Narika chamou alguém que passava.

— O-Oi, você aí.

— Aaaah!

O estudante do sexo masculino se assustou e saiu correndo.

— Por quê…?

Narika se deixou cair, apoiando a testa na parede, derrotada.

— Narika, aquele cara era da sua turma?

— Acho que não.

Ele também não era da minha classe, então provavelmente era de uma turma que não era nem A nem B. Parece que a imagem de Narika ainda não melhorou em todo o ano.

A reputação enraizada dela não vai desaparecer tão fácil. Os mais difíceis de convencer eram justamente aqueles que só conheciam Narika por rumores. Por exemplo, os alunos da turma B podiam julgá-la não apenas pelos boatos da academia, mas também pela Narika real que viam pessoalmente.

Mas aqueles que mal a conheciam só tinham os rumores como base. A imagem que tinham dela estava praticamente gravada em pedra. Como não podiam atualizar essa percepção vendo a Narika de verdade, seus preconceitos só se fortaleciam com o tempo.

Pensando bem, é óbvio. Desfazer um ano inteiro de impressões solidificadas em apenas alguns dias não é nada fácil.

— Talvez precisemos… de algum tipo de gatilho dramático.

Com apenas cinco dias restantes até o festival esportivo, tive a sensação de que pequenos esforços não seriam suficientes. Enquanto quebrava a cabeça pensando em ideias, meus olhos captaram cachos dourados longos balançando.

— Tennouji-san.

Ali estava a refinada Ojou-sama do Grupo Tennouji, uma família que rivaliza com o Grupo Konohana de Hinako.

— Oh, Tomonari-sa—

Tennouji-san nos percebeu imediatamente, mas…

— Hmph.

Como se tivesse se lembrado de algo, fez uma cara emburrada e virou o rosto.

— Hã, aconteceu alguma coisa?

— Você tem me deixado de lado ultimamente, Tomonari-san. Então… hmph!

Nunca imaginei ver alguém dizer "hmph" em voz alta de verdade. Ela é surpreendentemente infantil em alguns aspectos. Nessa situação… talvez pedir ajuda à Tennouji-san seja uma boa ideia. Narika já passou da fase em que as pessoas tinham medo de falar com ela, então sua imagem não mudaria com facilidade. Agora, precisamos de algo maior, algo que consiga mudar a percepção dela em uma escala mais ampla. Alguém como Tennouji-san, que é sempre elegante e chamativa, talvez consiga ter uma ideia brilhante.

— Tennouji-san, na verdade eu tenho algo que gostaria de consultar com você…

— Hmph.

Ela não quis ouvir. Droga, não esperava que ela ficasse emburrada nesse nível…

— Festa do chá.

Tennouji-san murmurou baixinho.

— Se você organizar uma festa do chá para mim da próxima vez, talvez eu te perdoe.

— Entendido. Estou livre a qualquer momento.

Ao ouvir isso, Tennouji-san abriu um sorriso radiante.

— Muito bem, então. Agora, diga-me: o que está te incomodando?

Ela disse "muito bem", mas parecia eufórica. Provavelmente adorava quando dependiam dela. Olhei para Narika, que assentiu. Como era um assunto delicado para ela, hesitei em falar em seu nome, mas parecia que estava tudo bem.

Expliquei a situação para a Tennouji-san.

— Entendo. Então é isso que está acontecendo.

Tennouji-san compreendeu a situação rapidamente.

— Ou seja, o principal problema é que, para mudar ainda mais a imagem dela, precisamos tomar algum tipo de atitude ousada…

Tennouji-san assentiu, pensativa.

— Em outras palavras, algo que chame a atenção das pessoas, certo?

Exatamente. Ao meu lado, Narika parecia ansiosa enquanto eu confirmava com a cabeça.

— Ugh… eu não sou boa em chamar atenção.

— Você já chama atenção.

Só que… de um jeito ruim.

— E quanto às aulas de educação física? Ouvi dizer que a Miyakojima-san sempre se destaca nelas.

— Eu até vou bem, mas…

Narika respondeu, hesitante. Ela nem precisou terminar a frase. Como a turma B e a minha turma A têm educação física juntas, eu sabia. Narika realmente se destacava nas aulas, mas isso não mudava em nada a imagem que tinham dela.

Talvez o foco intenso que demonstrava em tudo o que fazia acabasse por parecer intimidador. Para alguém como Narika, cuja má reputação já estava espalhada, essa intensidade provavelmente apenas reforçava a percepção negativa.

— Nesse caso, que tal isso?

Tennouji-san compartilhou uma ideia com Narika. Narika pareceu surpresa no início, mas logo assentiu, cheia de determinação.

*

 

A aula de educação física daquele dia foi de badminton. Todos receberam uma raquete e se dividiram em duplas para começar a trocar petecas.

— Tomonari, vamos nessa.

— Claro.

Atendendo ao convite do Taishou, começamos a rebater a peteca. Com um estalo seco, a peteca descreveu um arco em direção a Taishou.

— Boa!

— Tenho praticado tênis ultimamente, então acho que estou melhorando em esportes com raquete.

Comparada à bola de tênis, a peteca do badminton começava mais rápida, mas desacelerava rapidamente, o que tornava mais fácil manter a troca do que no tênis.

— A propósito, a gente quase não tem conversado ultimamente.

Taishou comentou enquanto rebatia a peteca. Por um instante, hesitei.

Era algo que já vinha me preocupando. Tentar fazer novos amigos inevitavelmente reduzia o tempo que eu podia passar com os antigos. Aproximar-me de pessoas em posições mais altas na hierarquia social da escola também trazia o risco de criar distância dos outros.

Se eu tentasse equilibrar tudo de forma descuidada, poderia acabar afastando todo mundo. Talvez Taishou estivesse me vendo agora como um arrivista social.

Mas—

— Aconteceu alguma coisa?

Em vez de acusação, as palavras de Taishou estavam cheias de preocupação genuína. Essa sinceridade, que se destacava acima de qualquer suspeita, refletia bem a personalidade animada de Taishou. Para mim, foi como uma brisa refrescante, varrendo as inquietações que eu vinha acumulando. Rebati a peteca.

Como Taishou sempre foi gentil comigo, decidi ser honesto.

— Na verdade, tenho tentado conhecer mais pessoas. Desde que me transferi para a Academia Kiou, quero me conectar com todo tipo de gente.

— Entendi. Então é por isso que você anda conversando com o Kita, né? — Taishou assentiu, compreensivo. A peteca voltou. — Tomonari, você é mais estoico do que parece, sabia?

— Sou?

Rebati a peteca novamente. Pelo canto do olho, achei que vi Taishou esboçar um sorriso irônico.

— Bom, de qualquer forma, se é assim, eu te apoio. Tem alguns outros caras com quem você provavelmente se daria bem, então, se precisar de ajuda, é só me falar.

— Valeu mesmo.

Que cara incrível. Mas, na verdade, eu já contei com a ajuda do Taishou no processo de me aproximar do Kita. Vou ter que agradecê-lo direito algum dia. 

Nesse momento, percebi Narika conversando com alguém à distância.

Será que é… o Kita?

A pessoa com quem Narika falava era, de fato, o Kita.

— Não acerte a peteca diretamente acima da cabeça — bata um pouco mais atrás. Assim, a face da raquete inclina para cima, e a peteca faz uma trajetória parabólica.

— S-Sim…! Obrigado!

Ao que parecia, Narika estava explicando para o Kita como rebater a peteca. Observando a interação, outros alunos ao redor começaram a se aproximar de Narika.

— U-Um, se não for incômodo, você poderia me ensinar também…?

— Hã!? Ah, claro! Com certeza!

Narika se assustou por ser abordada, mas logo concordou, animada.

Parece que está funcionando… Essa foi a estratégia idealizada pela Tennouji-san. Em vez de brilhar sozinha, ela faz com que aqueles ao seu redor ganhem destaque. Tennouji-san pensou que alguém com habilidade nos esportes também poderia ensinar os outros. Afinal, Hinako e eu estamos aprendendo tênis com a Narika, então não há falhas nessa lógica.

Como eu já imaginava, Narika era realmente boa em ensinar. A estratégia da Tennouji-san deu certo, e um pequeno grupo de alunos se reuniu ao redor de Narika. Segundo a própria Tennouji-san, isso se chamava "Estratégia Noblesse Oblige!". Provavelmente no sentido de que quem tem talento deve retribuir.

Um apito ecoou pelo ginásio. Foi concedido um intervalo de cinco minutos.

— Narika.

— Itsuki!

Quando chamei Narika, que enxugava o suor com uma toalha, ela se virou com um sorriso radiante.

— Pelo que vi, você está indo muito bem.

— É… sinto que estou ficando mais solta aos poucos também.

Essa era a melhor notícia possível. As mudanças ao redor dela estavam ajudando a própria Narika a mudar para melhor.

— Você nunca tinha feito algo assim antes?

— Não. Eu até pensava nisso, mas… até agora, as pessoas sempre fugiam de mim.

Narika abaixou o olhar, respondendo com um tom abatido. Ela se libertou da imagem antiga, então as opções dela aumentaram… A Narika de antes provavelmente não conseguiria ensinar ninguém. Mas, ultimamente, ela vem sendo cada vez mais aceita por quem está ao seu redor. O novo clima que surgiu recentemente foi o que levou ao sucesso de hoje.

Se esse boato de que a Narika não é assustadora se espalhar pela academia… Pelo menos nesta aula, acho que essa imagem já começou a se firmar nas turmas A e B. Mas provavelmente levará mais tempo para alcançar as outras turmas.

— O festival esportivo está chegando. Não sei o quanto conseguiremos mudar sua imagem até lá, mas vamos continuar tentando até o fim.

— Sim! — Narika assentiu, o rosto transbordando determinação.

*

 

Depois das aulas. Antes de me encontrar com Narika, fui falar com a Tennouji-san primeiro.

— Tennouji-san.

— Oh, Tomonari-san.

Tennouji-san, que estava na sala de aula, virou-se quando a chamei. Até esse simples movimento parecia incrivelmente elegante. A Academia Kiou já é um ambiente luxuoso e refinado em comparação com escolas comuns, mas a presença de Tennouji-san tornava o ar ao redor ainda mais nobre.

— Obrigado. As coisas deram certo com a Narika.

— Fico muito feliz em ouvir isso.

Achei que ela poderia ficar emburrada se eu não desse um retorno e agradecesse logo após as aulas, então fiz disso uma prioridade. Tennouji-san abriu um sorriso refinado.

— Itsuki-san vai embora mais cedo hoje?

— Não. Pretendo me encontrar com a Narika depois para conversar sobre os próximos passos.

— Gostaria de poder ajudar mais, mas hoje tenho assuntos de família para resolver, então será um pouco difícil.

— Só de pensar nisso já é mais do que suficiente.

Eu sei o quanto a Tennouji-san é ocupada. Quando Tennouji-san saiu da sala, começou a caminhar pelo corredor — curiosamente, na direção oposta aos armários de calçados. Intrigado, resolvi segui-la, pensando que apenas um relatório talvez fosse pouco. Ao chegarmos ao patamar da escada, Tennouji-san olhou em volta, nervosa.

— Ahem. …A propósito, Itsuki-san.

— Sim?

Ela pigarreou de propósito, e suas bochechas estavam levemente coradas.

— Estamos sozinhos agora, sabia?

— Ah… é verdade.

Pensando bem, estávamos mesmo. Lembrei da nossa promessa de falar de forma mais casual quando estivermos a sós. Mas… será que ela realmente caminhou na direção oposta só para ficar sozinha comigo? Sentindo um leve desconforto, verifiquei com cuidado se não havia ninguém ouvindo.

— Você está agindo de um jeito bem suspeito.

— N-Não, é só que… dentro da academia, eu fico um pouco paranoico.

— Mas você fala de forma casual com a Miyakojima-san, não fala?

— A Narika é uma amiga de longa data, então não sinto esse tipo de resistência com ela…

Quando mencionei o nome da Narika, Tennouji-san ficou pensativa.

— Talvez você devesse me chamar de Mirei também. Assim, pode acabar se sentindo menos hesitante.

Tennouji-san sugeriu. Mas eu não consegui concordar tão facilmente.

— Hmm…

— O que foi essa reação? S-Se… se você não quiser, tudo bem…

Vendo a Tennouji-san inesperadamente abatida, balancei a cabeça às pressas.

— Não, não é que eu não queira… Para mim, Tennouji-san é o retrato perfeito de uma ojou-sama. Sempre elegante, digna, encarando sua posição de frente… eu admiro muito isso em você. Por isso, quero continuar te chamando de Tennouji-san, por respeito.

Chamar alguém de ojou-sama pode soar como um estereótipo para algumas pessoas. Se eu dissesse isso à Hinako, ela provavelmente reclamaria, dizendo que não queria ser chamada assim.

Mas, para Tennouji-san, era o maior elogio possível. Ela se esforçara para viver à altura do nome de sua família como uma verdadeira ojou-sama. Houve uma época em que isso significava negligenciar a própria felicidade — mas não mais. Agora, ela buscava sua felicidade sem abrir mão de sua postura nobre.

Eu realmente apoiava esse lado de Tennouji-san. Por isso, chamá-la assim era a minha forma de demonstrar respeito. Eu queria reafirmar que ela era, de fato, uma ojou-sama.

— Se você sente tudo isso… então acho que não tenho escolha! — disse Tennouji-san, desviando o olhar. Tentava manter a compostura, mas suas bochechas estavam claramente relaxadas. — Se você me admira tanto assim, não vou me opor. …Pode continuar me chamando por esse nome.

Depois de dizer isso, Tennouji-san respirou fundo.

— Além disso, eu gosto bastante do nome Tennouji.

Aquelas palavras carregavam um peso profundo. O quão precioso era para Tennouji-san poder dizer isso com tanta convicção… ao menos nós dois entendíamos. Não era por dever ou obrigação, mas por sentimentos genuínos.

*

 

Depois de me despedir de Tennouji-san, fui encontrar Narika novamente.

— Narika, desculpa a demora.

Hinako já estava ao lado dela. Esse tipo de reunião já era rotineira, mas não é apenas um encontro amistoso para tomar chá. Precisamos mostrar resultados.

— A estratégia da Tennouji-san funcionou bem, então vamos aproveitar esse embalo.

— Sim! Agora sinto que posso fazer qualquer coisa!

Narika estava transbordando de entusiasmo. O festival esportivo estava logo ali. Faríamos tudo o que estivesse ao nosso alcance. A estratégia da Tennouji-san, por exemplo, poderia funcionar fora das aulas de educação física também. Decididos a não desistir, resolvemos continuar lutando até o fim.

Mas… no dia seguinte, algo inesperado aconteceu. Narika faltou à academia.

*

 

— Faltou?

No dia seguinte, durante o intervalo, eu não tinha visto Narika em nenhum momento, o que me pareceu estranho. Resolvi então dar uma olhada na sala da turma B.

Ela não estava lá. Perguntei a um aluno próximo e descobri o motivo — Narika estava ausente da academia naquele dia.

Eu forcei demais…? Nos últimos dias, eu vinha incentivando Narika a fazer coisas às quais ela não estava acostumada. Talvez estivesse se sentindo sobrecarregada, mas optou por guardar isso para si. Minha ansiedade só aumentava. Será que o que eu fiz foi realmente a coisa certa…?

A próxima aula começou, então voltei para minha sala. Ainda assim, não consegui me concentrar em nada. Quando a aula terminou e o intervalo do almoço começou, Hinako e eu fomos até o antigo prédio do conselho estudantil, onde entrei em contato com Shizune-san imediatamente.

— Itsuki-san, aconteceu alguma coisa?

— Na verdade—

Coloquei a chamada no viva-voz para que Hinako também pudesse ouvir. Primeiro, contei à Shizune-san que Narika estava ausente. Em seguida, fiz um pedido.

— Eu gostaria de ir até a casa da Narika para ver como ela está…

— Entendido.

Shizune-san autorizou sem hesitar.

— Eu… também quero ir.

— Se a ojou-sama for, a família Miyakojima pode ficar na defensiva.

— Mm…

O comentário calmo de Shizune-san fez Hinako se calar. Até mesmo Hinako, admirada por todos na academia, enfrentava inconvenientes em situações como aquela. Seu status elevado, às vezes, tornava-se um obstáculo.

Hinako compreendia a situação de Narika, pois já passara por algo parecido no passado. Se a ausência de Narika fosse causada por exaustão mental… Hinako conhecia essa dor melhor do que ninguém. Era por isso que se preocupava tanto com ela.

— Então, Itsuki-san, por favor, marque uma visita com a Miyakojima-sama.

— Sim… ah!

Quando eu estava prestes a encerrar a ligação, percebi uma falha crítica.

— Pensando bem, eu não tenho o contato da Narika.

Eu tinha esquecido completamente.

— Então, à residência dos Miyakojima…

— Sobre isso… existe um certo ressentimento entre meus pais e a família da Narika…

Eu tinha esquecido disso também. A única forma que eu tinha de entrar em contato com a Narika era pedindo diretamente a ela. Isso porque existe um afastamento entre mim e a família Miyakojima.

Minha mãe era viciada em jogos de azar e queimou todas as nossas economias, o que nos forçou a ficar por um tempo na mansão da família Miyakojima — que são nossos parentes. Eu fui junto, e foi assim que conheci a Narika.

Lembro bem da atitude arrogante da minha mãe durante aquela estadia, o que acabou gerando ressentimento por parte da família Miyakojima. Se esse afastamento ainda existir, provavelmente não serei bem recebido.

— Desculpa, eu sei que fui eu quem sugeriu isso, mas talvez eu seja barrado logo no portão.

— Vou ligar para eles em seu nome. Aguarde um momento.

Com isso, Shizune-san encerrou a chamada. Ela provavelmente estava entrando em contato com a família Miyakojima naquele momento. Comi meu obentô nervosamente. Quando Hinako abriu a boca com um "Nn", levei um pouco de arroz até ela. Vê-la mastigar feliz ajudou a aliviar um pouco minha tensão.

Depois de um tempo, meu celular tocou com uma ligação da Shizune-san. Foi mais rápido do que eu esperava. Atendi imediatamente.

— Shizune-san, como foi?

— Não houve problemas. Vou mandar um carro buscá-lo depois das aulas.

A resposta da Shizune-san foi surpreendentemente simples.

*

 

E assim, depois da escola—

Cheguei à residência da família Miyakojima para visitar a Narika.

— Faz tempo.

Fazendo uma leve reverência para a Shizune-san no banco do passageiro, desci do carro e me aproximei da imponente mansão à minha frente.

Ela tinha um charme diferente da mansão da família Konohana, onde costumo ficar, ou da residência da Tennouji-san. Talvez inspirada em uma antiga residência samurai, ela se estendia de forma ampla e baixa na fachada. Primeiro, eu pretendia apertar o interfone no portão. Mas, antes disso, o portão se abriu sozinho.

— Tomonari-san, presumo? Estávamos aguardando sua chegada.

— A-Ah, sim.

Surpreso com a aparição repentina de uma empregada, inclinei a cabeça em resposta. Ela vestia um quimono formal, sem estampas. Segui-a em silêncio, com os nervos à flor da pele.

Mas, em vez de me conduzir para dentro da mansão—

— A Ojou-sama provavelmente está no jardim, logo ali.

Ela se virou para mim, fez uma leve reverência e informou.

— Obrigado.

Pelo menos, a Narika não estava acamada. Não parecia ser um caso de exaustão como as crises ocasionais da Hinako. Na direção indicada pela empregada, havia um grande jardim em estilo japonês.

Caminhei por trilhas de pedra dispostas sobre cascalho fino. Em comparação com a mansão ocidental da família Konohana e a Academia Kiou, aquele cenário era estranhamente revigorante.

Ah… isso me traz lembranças.

Eu já tinha estado nesse jardim antes. Quando éramos pequenos, Narika e eu costumávamos brincar aqui com frequência. Algumas partes do cenário haviam mudado, mas não havia dúvida.

Se não me engano, havia uma passagem secreta por aqui…

Os muros que cercavam a residência Miyakojima eram altos e robustos, mas, se você empurrasse a cerca viva à minha frente, havia uma pequena reentrância no muro logo atrás. Encaixando o pé ali, era possível escalar.

Era a passagem secreta que eu e Narika usávamos para sair escondidos. A reentrância era pequena demais para pés adultos, então ninguém havia notado naquela época. Mas, olhando para o muro agora… não havia sinal algum dela. Como esperado, já tinha sido consertado.

— Hm?

Quando eu estava prestes a voltar do meu pequeno desvio, ouvi a voz de uma garota. Ao me virar, vi Narika parada ali, vestindo um hakama.

— I-Itsuki!? O que você está fazendo aqui!?

— Eu vim ver como você está.

Quando eu disse isso, os olhos da Narika se arregalaram em choque.

A Narika não recebeu o recado…? A Shizune-san deveria ter feito os arranjos antes, mas Narika parecia completamente surpresa.

— V-Ver como eu estou…? É só um dedo torcido, sabia?

— Um dedo torcido…

Narika levantou o braço direito. Seu dedo indicador estava enfaixado. Não havia outros ferimentos aparentes. …Realmente parecia ser apenas uma torção. Por enquanto, senti alívio por não ser exaustão mental. Mas, pensando com calma, isso não era exatamente algo para se comemorar.

— Você vai ficar bem para o festival esportivo?

— Vou sim. Algo assim não deve ser problema.

Narika disse, olhando para o dedo enfaixado.

— Pra falar a verdade, eu nem pretendia faltar à academia hoje, mas meu pai é super preocupado. Ele praticamente me arrastou para o hospital.

— Entendi.

Para mim, o pai da Narika sempre pareceu rígido, então essa explicação foi um pouco inesperada. De qualquer forma, fiquei aliviado em saber que ela estava bem.

— Mesmo assim… uau. Você ficou tão preocupado comigo que veio até a minha casa, né? — Narika murmurou, exibindo um sorriso estranho, meio convencido.

— Claro que eu fiquei preocupado. Você faz ideia do quanto eu tenho pensado em você ultimamente?

— Ngh… v-você normalmente fala comigo de um jeito tão casual… não é justo soltar uma dessas do nada…

Narika desviou o olhar. O perfil do rosto dela e as orelhas estavam vermelhos, corados.

— Ah, e a Hina… a Konohana-san pediu para eu te passar um recado. Ela disse que o melhor remédio quando a gente não está bem é descansar em silêncio.

— Isso soa estranhamente sincero.

Perspicaz. Na verdade, Hinako tinha me confiado essa mensagem com base na própria experiência.

— Infelizmente, meu ferimento é mesmo leve. Eu dormi bastante… e como hoje eu não mexi o corpo nem um pouco, diferente do normal, para ser sincera eu estou até inquieta, querendo fazer alguma coisa.

Narika disse, mexendo o braço que não estava machucado. Bom, aquela mensagem era para o caso de a Narika estar esgotada mentalmente. Se é só um dedo torcido, ela não precisa descansar demais.

— Você costuma se exercitar, Narika?

— Sim. Eu acordo cedo todo dia e treino no dojô, balançando uma espada de bambu. Mas como hoje eu fui ao hospital, não consegui fazer isso… então fiquei com essa energia toda presa.

Entendi. Provavelmente era por isso que ela estava andando pelo jardim mesmo agora. Ainda assim, treinar no dojô todas as manhãs… não é à toa que ela é tão boa em esportes. A mentalidade dela é de outro nível em comparação com a maioria dos alunos.

— Já que eu vim até aqui para te ver, me diga se tem algo em que eu possa te ajudar.

— B-Bem, mesmo você dizendo isso… ah!! — de repente, Narika soltou uma exclamação alta. — É i-isso! Itsuki! Você lembra de quando eu venci a Konohana-san no tênis outro dia!?

— S-Sim, lembro…

— E-Eu vou usar isso ag… ag-agora…!

Dito isso, Narika me encarou, o rosto vermelho vivo.

— V-Você… sairia comigo!?

Gaguejando, Narika abaixou a cabeça num gesto quase de reverência.

*

 

Aceitando o pedido da Narika para sairmos juntos, deixamos a residência Miyakojima.

— Você pediu permissão aos seus pais?

— Pedi. Quer dizer… no geral, eles não restringem muito o que eu faço.

Enquanto descíamos uma ladeira longa e estreita, eu conversava com Narika. Parece que Narika tem bem mais liberdade do que Hinako ou Tennouji-san.

— Acho que eu já comentei antes, mas… minha família é cheia de artistas marciais.

Narika disse enquanto caminhávamos.

— O chefe da família Miyakojima é obrigado a dominar todas as artes marciais. E os descendentes, desde que provem sua força ao chefe, ganham um certo grau de liberdade. …Eu venci meu pai no judô e no kendô, então posso fazer a maioria das coisas.

— Essa regra de família é bem incomum.

Não consegui evitar um sorriso irônico. Os pais dela confiam nela… ou melhor, ela os convenceu de verdade. Provavelmente, a palavra "artista marcial" se espalhou pela academia com um tom negativo. E, por causa disso, Narika ficou presa à imagem de alguém assustadora. Não existem delinquentes na Academia Kiou. Então os alunos daqui não têm "imunidade" a uma aura de "violência".

É por isso que Narika acaba se destacando de um jeito ruim.

— A propósito, Narika, para onde estamos indo?

— Para o lugar óbvio… aqui!

Narika apontou para frente e declarou. Na ponta do dedo dela havia uma lojinha pequena.

— Uma loja de doces?

— Sim! Esse lugar está cheio das nossas memórias!

Eu já tinha uma suspeita do destino… Era a lojinha de doces que a gente costumava frequentar quando era criança. Ao entrar ali depois de tanto tempo, a mudança foi maior do que eu esperava. Antes parecia mais antigo, mas agora as paredes estavam limpas e havia pôsteres de filmes recentes decorando o lugar. O peso do tempo me atingiu, e eu fiquei parado por um instante.

— Você vem aqui com frequência, Narika?

— Sim, quase todo dia.

Eu não sabia disso. Parece que Narika realmente gostava de doces.

— Já que estamos aqui, deixa eu te recomendar umas coisas. Primeiro, o clássico Umaibou sabor corn potage. Para quando você quiser algo mais "forte", Kabayaki-san ou Jimejime Shitenja-nee-yo são o caminho. Se você estiver mais relaxado, Ramune é ótimo, mas esse Ramune em lata deixa você experimentar vários sabores.

— E-Entendi…

Ouvindo a explicação apaixonada da Narika, só consegui concordar de forma vaga. Ela sabe mais do que eu… Não consegui esconder meu choque com o crescimento inesperado dela.

— Certo, vamos pegar umas coisas e comer no parque.

— Tá!

Os olhos da Narika brilharam enquanto ela escolhia os doces. Ela trouxe uma carteira pequena só para moedas, para comprar doces. No caixa, Narika entregou o dinheiro a uma senhora idosa.

Comparada à Hinako ou à Tennouji-san, Narika parece se relacionar mais com a vida cotidiana das pessoas comuns. Talvez por isso ela tenha conseguido ensinar o Kita sobre a diversão dos esportes. Ela entende coisas como TV e jogos — coisas que a maioria das pessoas curte no dia a dia.

Comprei alguns doces também, e fomos juntos para o parque.

— Faz tempo que a gente não come doce juntos nesse parque, né, Itsuki?

— Agora que você falou, a gente comia aqui direto.

Sentados num banco, aproveitamos nossos doces.

— Itsuki… o que é isso?

De repente, Narika encarou o que eu estava comendo e perguntou.

— O quê? É só um Umaibou.

— N-Não, mas eu nunca vi esse sabor! Deve ser lançamento…!

Para a Narika, entusiasta de doces, aquilo aparentemente era um grande acontecimento.

Umaibou sabor matsumaezuke… é, eu também nunca tinha visto. Se a Narika, que vem aqui quase todo dia, não sabia, deve ter chegado hoje ou nos últimos dias. A falta de divulgação de novidades mostra bem esse jeito relaxado — para o bem e para o mal — que uma lojinha dessas tem.

Narika ficou encarando meu doce com uma expressão empolgada.

— Quer provar?

— S-Sério!?

— Quero dizer, eu não sou tão exigente com sabor.

Eu ia entregar o Umaibou recém-aberto para ela, mas…

— E-Espera. Já que é uma ocasião especial, uhm…

O rosto da Narika ficou vermelho enquanto ela falava.

— A-Ah…

Desviando o olhar, Narika abriu a boca na minha frente. Eu entendi o que ela queria, mas…

— Você não fica com vergonha?

— N-Não tô com vegonha!

Ela está com muita vergonha.

— A-A-Anda… você me dava na boca naquela época, lembra? É tipo reviver aquilo…!

— Tá, tá.

Consegui conter o meu próprio nervosismo — provavelmente porque já estava acostumado a fazer esse tipo de coisa com a Hinako. A grande diferença era que Narika estava claramente morrendo de vergonha. As orelhas dela ficaram vermelhas enquanto eu aproximava o Umaibou.

Mas, antes de alimentá-la… desviei o Umaibou para a direita.

— Mnh?

Narika virou para a direita. Então eu desviei para a esquerda.

— M-Mnh?

Narika virou para a esquerda. Uma vontade maldosa e travessa subiu do nada, e eu comecei a balançar o Umaibou de um lado para o outro. E, a cada vez, a cabeça da Narika seguia, indo e voltando. Depois de provocá-la um pouco…

— V-Você não vai me dar…?

Narika ergueu o olhar para mim, com olhos suplicantes. Ao ver aquela expressão ansiosa, enfim levei o Umaibou até a boca dela.

— Tá bom.

Com esse sinal, Narika mordeu o Umaibou com um croc satisfatório.

Ela é mesmo um cachorrinho… Esse instinto sem freio, e ainda assim obediente às minhas intenções… eu não conseguia evitar querer provocá-la.

— Mmm! Isso aqui é gostoso também!

Narika mastigava o Umaibou feliz.

…Talvez a Hinako estivesse certa. Antes, Hinako tinha dito que a forma como eu e Narika interagimos parecia "natural".

Talvez aquelas palavras fossem verdade. Quando estou a sós com Hinako ou com Tennouji-san, às vezes fico nervoso e não consigo conversar direito. Mas, com a Narika, eu fico tranquilo. Eu poderia ficar nesse momento de paz com ela para sempre.

— Hehe… isso é definitivamente um privilégio meu, né?

De repente, Narika murmurou, olhando para longe.

— Como assim?

— Você vive cercado das Ojou-samas da academia, mas quase nunca sai sozinho com elas assim, né? A Konohana-san disse que sim, mas isso deve ser blefe. E a família da Tennouji-san parece rígida, então com ela também deve ser difícil.

Acho que a família da Narika é tão rígida quanto — mas deixando isso de lado…

— Não, não é bem assim. Eu já saí com as duas pelo menos uma vez.

— O quê!?

Falando estritamente, com a Hinako geralmente tem alguém como a Shizune-san por perto, então não é exatamente "sozinho", mas a sensação é parecida.

— Q-Q-Quando… onde…!?

— Eu não lembro a data exata, mas com a Tennouji-san foi há mais ou menos um mês, e com a Konohana-san, pouco depois disso.

Foi quando eu pedi, indiretamente, para cancelar o noivado.

— O lugar foi um fliperama.

— U-Um fliperama!? N-Num lugar chamativo desses!?

Até a Narika, que é fã de doces e conhece um pouco da vida de gente comum, parece desconfiar de fliperamas.

— Isso não vale.

— Hã?

Narika se levantou e declarou.

— Isso não vale! Eu também vou!

*

 

Depois de entrar em contato com a Shizune-san só por precaução, cheguei ao fliperama com a Narika. Descemos do carro que a família Miyakojima providenciou e entramos no fliperama.

É a minha terceira vez aqui. A primeira foi com a Tennouji-san. A segunda, com a Hinako. E agora, a terceira é com a Narika.

Eu nunca imaginei que levaria três das principais Ojou-samas da Academia Kiou para o mesmo fliperama. Já que estamos aqui, preciso ficar alerta. Examinei os rostos das pessoas ao redor.

— O que foi, Itsuki? Você está olhando para todo lado.

— Só conferindo se tem alguém que eu conheça…

Quando vim aqui com a Tennouji-san, encontrei uma amiga de infância. No fim, a gente nem conversou, mas ficou meio estranho, então eu preferia não dar de cara com ninguém hoje.

Se fosse algo combinado, tudo bem, mas… ela não respondeu meu e-mail depois. Para ser sincero, estou até com um pouco de medo de encará-la agora.

— Mas, Itsuki… a Konohana-san e a Tennouji-san vieram mesmo aqui?

— Vieram.

— Isso é… inacreditável. É minha primeira vez num lugar desses, e eu nem consigo imaginar aquelas duas aqui.

Eu sinto a mesma coisa.

— Por enquanto, vamos tentar jogar um pouco.

Assim como fiz com a Tennouji-san e com a Hinako, decidi deixar a Narika experimentar vários jogos.

— Hm? …Entendi, então é assim que funciona!

Em comparação com as outras duas Ojou-samas, Narika se adaptou aos jogos de forma impressionante. Na segunda volta em um jogo de corrida, ela já conseguia dirigir de forma básica. Nos jogos de ritmo, se envolvessem movimento físico, ela alcançava pontuações acima da média logo na primeira tentativa.

Talvez este fosse o momento de Narika brilhar. Uma Ojou-sama brilhando em um fliperama é algo bem fora do comum, mas…

— Itsuki, o que é isso!?

— É hóquei de mesa.

Até agora, todas as Ojou-samas que eu trouxe para cá acabaram se interessando por hóquei de mesa. A Tennouji-san achou que fosse um disco voador, e a Hinako pensou que era um porta-copos…

— Entendi. É um jogo em que você fica rebatendo esse disco branco de um lado para o outro.

Narika entendeu o conceito instantaneamente. Quando se trata de jogos físicos, o instinto dela é afiadíssimo.

— Itsuki! Quero tentar!

— Pode vir.

Inseri uma moeda de cem ienes na máquina e fiquei de frente para a Narika. Ficamos imersos no hóquei de mesa por um bom tempo, mas…

— Não é possível.

Quando me dei conta, já tinham se passado trinta minutos. E o resultado das partidas me deixou sem palavras.

— Essa é minha terceira vitória seguida!

Tínhamos acabado de terminar o terceiro set. No primeiro, eu consegui me manter firme até a metade. Depois disso, Narika pegou o jeito, e virou um massacre unilateral.

Desde quando hóquei de mesa pode ser tão desequilibrado assim…?

No terceiro set, eu não marquei sequer um ponto. Aquilo já não era um jogo. Era uma aniquilação.

— A-A gente pode jogar mais uma vez?

— Claro. Eu encaro.

Sem querer terminar daquele jeito frustrante, decidi jogar mais uma partida.

Como a Hinako fez… Tentei usar a finta que tinha visto a Hinako aplicar antes.

Fingi que ia rebater o disco, esperei o momento em que Narika perdeu o equilíbrio e mirei no gol para bater de verdade, mas—

— Ngh!

Narika defendeu com facilidade e ainda contra-atacou.

— Achei que fosse parecido com squash, já que é um jogo baseado em reflexos, mas é algo completamente diferente. Mesmo com força de criança, se você for com tudo, ultrapassa facilmente os limites dos reflexos e da visão dinâmica. Não há muito espaço para julgamento estratégico, então não é tão competitivo, mas é intuitivo e muito bem projetado.

Como filha de um fabricante de equipamentos esportivos, Narika estava analisando a mesa de hóquei. Quem sabe, talvez a família dela comece a vender máquinas de hóquei de mesa no futuro.

— Ufa… estou satisfeita!

Depois de algumas partidas, Narika disse, com uma expressão revigorada.

— É minha primeira vez em um fliperama, mas é bem divertido!

— É, é mesmo.

Tendo perdido de forma humilhante, meu humor estava um tanto complicado. Será que a Tennouji-san se sentiu assim quando perdeu para mim tantas vezes?

— Além disso, isso compensa eu ter ficado para trás das outras.

Narika murmurou.

"Ficar para trás"… por um instante, não entendi o que ela quis dizer, mas logo percebi. Ela devia estar falando do fato de eu ter vindo ao fliperama com aquelas duas antes.

— Não é exatamente algo para se competir, né?

— Ah, mas eu sou competitiva — Narika respondeu em voz baixa. — Porque… eu fui a primeira a te conhecer, Itsuki.

Baixando o olhar, Narika falou de forma hesitante.

— Eu te conheci antes de todo mundo nesta academia. Mas, quando percebi, você já estava se aproximando de todo tipo de gente…

Ela falava como uma criança emburrada. Os lábios estavam franzidos, o rosto claramente descontente. Talvez não fosse competitividade afinal — talvez fosse…

— Você está com ciúmes, por acaso?

— O quê—!?

Ao ouvir isso, o rosto de Narika ficou vermelho na hora.

— C-Ciúmes!? N-Não, não é isso que eu quis dizer…!

— Foi mal. Eu não devia ter falado algo estranho assim.

Como nos damos tão bem, eu acabei relaxando demais. E deixei escapar exatamente o que estava sentindo. Mas, quando fiz uma pequena reverência de desculpa, Narika fez uma expressão complicada por algum motivo.

— Não.

Com a voz trêmula, Narika negou.

— Eu estou com ciúmes…

— Hã?

Era como se ela estivesse implorando para que eu não ignorasse seus sentimentos. Narika declarou, quase como um protesto.

— E-Eu estou com ciúmes…!

Com as orelhas tão vermelhas quanto o rosto, Narika me encarou diretamente.

— I-Isso…

Eu não soube como responder. Diferente da Hinako ou da Tennouji-san, eu achei que com a Narika tudo seria leve e descontraído — mas percebi que não era nada disso.

Os olhos brilhantes dela. As bochechas coradas. Com a Narika me olhando assim, eu não conseguia manter a calma nem agir naturalmente. Naquele momento, eu só conseguia pensar, de forma pura e honesta, em como Narika era fofa—

— Narika-ojou-sama.

Nesse instante, alguém chamou ao nosso lado. Antes que eu percebesse, uma empregada da família Miyakojima, vestida com um quimono, estava parada ao nosso lado.

— Já está ficando escuro, então vim escoltá-la de volta para casa.

— A-Ah, entendi.

Com uma mulher linda de quimono dentro do fliperama, estávamos chamando bastante atenção. Saímos apressados para fugir dos olhares.

— E, Tomonari-sama.

Depois de entrarmos no carro da família Miyakojima, a empregada se dirigiu a mim.

— O mestre… Musashi-sama solicita a sua presença.

— Hã?

*

 

Depois de voltar à residência Miyakojima de carro, me despedi da Narika e fui encontrar o Musashi-san. Entrei pela porta principal e caminhei por um longo corredor. Ao abrir uma porta de correr, entrei em uma sala em estilo japonês com tatames, onde um homem de feições duras e olhar afiado estava sentado ao fundo.

— F-Faz tempo…

— De fato.

Aquele homem era Miyakojima Musashi — o pai da Narika. Ele é o presidente do maior fabricante de equipamentos esportivos do país, e dizem que sua habilidade empresarial é excepcional, com a empresa crescendo de forma constante. Sempre me senti intimidado por ele. Quando eu era criança, levei uma bronca severa por ter levado a Narika para fora.

Foi culpa minha, então não guardo ressentimento. Mas o medo daquela ocasião ficou tão gravado em mim que só de estar diante dele agora eu já me encolhia. A empregada fez uma reverência respeitosa e saiu da sala.

Sozinhos naquele espaço, Musashi-san e eu permanecemos em silêncio, com os lábios cerrados.

…Por que ele não diz nada?

Fui eu que fui chamado aqui, certo?

Por um momento, cheguei a duvidar disso, mas Musashi-san não parecia confuso. Enquanto o desconforto só aumentava, ele finalmente falou, em tom lento.

— Ultimamente, parece que você tem se intrometido nos assuntos sociais da minha filha.

A voz dele era como um taiko japonês tocado bem à minha frente, ressoando fundo no meu estômago. Não era alta, mas carregava uma intensidade esmagadora. Aquela presença vinha, sem dúvida, do homem sentado diante de mim.

— S-Sim, eu tenho ajudado.

— Ajudando, é…

Musashi-san murmurou de forma significativa. Até aquele ponto, ele não parecia estar me repreendendo. Aliviado, algo começou a me incomodar.

— Hum… o senhor sabe sobre a reputação da Narika na academia?

— Em parte.

Musashi-san respondeu sem alterar a expressão.

— Narika não precisa ser protegida tanto quanto você imagina.

A voz firme e clara dele ecoou. Uma pressão invisível e imensa caiu sobre todo o meu corpo. Eu tive vontade de abaixar a cabeça e pedir desculpas, de escapar daquele clima aterrador o mais rápido possível.

Mas algo não saía da minha mente. A resposta dele — esse "em parte"… Será que ele não sabe completamente pelo que a Narika está passando?

— Eu não estou pensando nisso de forma condescendente, como se estivesse protegendo ela. Ainda assim, acho que é um fato que a Narika está enfrentando alguns problemas.

Eu não tinha grandes pretensões de apoiá-la ou salvá-la. Talvez no começo eu tivesse, mas não agora. Depois de conhecer as forças da Narika, eu queria que outras pessoas também as reconhecessem.

Isso não era sobre bondade. Era um desejo pessoal meu, nascido do respeito que sinto por ela.

— Problemas, você diz…

Ao ouvir minha resposta, Musashi-san murmurou.

— E isso é por sua causa.

— O quê?

Eu não consegui entender. Os problemas da Narika… por minha causa?

— Chega.

Com isso, Musashi-san se levantou e abriu a porta de correr atrás de si. Quando ele se virou para sair, não consegui me conter e o chamei.

— E-Espera um pouco! O que o senhor quis dizer com—

— Saia. Estou ocupado.

Sem sequer olhar para trás, Musashi-san deixou a sala. A porta de correr se fechou, e ele se foi. Ao mesmo tempo, a porta atrás de mim se abriu, e a empregada apareceu.

— Vou acompanhá-lo até a saída.

Quase sem conseguir responder, segui a empregada em direção à saída da residência. No caminho, ouvi o som de passos firmes.

…O dojô?

Era o dojô particular dentro do terreno da residência. Uma onda de nostalgia me atingiu. Foi ali que Narika e eu nos conhecemos pela primeira vez.

— Com licença, eu poderia ver a Narika mais uma vez?

— Não há problema.

Fiquei surpreso, pois esperava uma recusa. Fazendo um leve aceno para a empregada, segui em direção à Narika.

Ao entrar no dojô, vi Narika empunhando uma espada de bambu em posição. O suor brilhava em suas bochechas, refletindo a luz do entardecer. Com as costas eretas e uma expressão digna, Narika brandia a espada de bambu em silêncio — quase com reverência.

— Itsuki?

Ao me notar, Narika se virou lentamente. Eu devia estar encarando-a havia um bom tempo, completamente absorto.

— Treinando?

— Sim. Tem um torneio chegando em breve.

Com isso, Narika relaxou a postura.

— Meu pai disse alguma coisa para você?

A pergunta me fez hesitar por um instante. O fato de ele ter dito que a culpa era minha ainda me incomodava, mas não havia necessidade de contar isso à Narika.

— Não, nada em especial.

— Entendi. Bom, meu pai sempre gostou de você, então provavelmente não diria nada estranho.

— Hã?

Eu não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir.

— O Musashi-san… gosta de mim?

— Sim. Foi isso que ele disse.

Narika falou com um leve tom de satisfação. Mas eu só conseguia ficar confuso. Será que ele… estava mentindo para a própria filha? Talvez ele não queira que seus sentimentos pessoais interfiram nos relacionamentos da filha. Será essa a forma dele de ser atencioso?

Eu não conseguia compreender as verdadeiras intenções do Musashi-san, nem tinha coragem de confrontá-lo sobre isso. Já estava ficando tarde, e eu provavelmente deveria ir embora logo, mas—

— Narika, você tem outra espada de bambu?

Não consegui me conter e a chamei, quando ela se preparava para retomar o treino.

— Hm? Tenho sim, mas…

— Já que eu vim até aqui, deixa eu treinar com você. Não sei se vou ajudar muito, mas…

É a minha forma de agradecer por ela ter me ensinado tênis.

— Isso seria ótimo! Espera um pouco, vou pegar uma espada pra você!

Narika correu até o depósito do dojô e voltou com uma espada de bambu para mim. Não usamos equipamentos de proteção. O sol já estava se pondo, e não pretendíamos treinar seriamente.

— Ah, a propósito, Itsuki. Antes de começarmos, uma coisa.

— O quê?

Enquanto assumíamos posição, empunhando as espadas de bambu, Narika disse:

— Eu não gosto muito de me conter.

As pontas das nossas espadas de bambu se tocaram. No instante seguinte, Narika avançou com uma velocidade estonteante. Seus passos eram tão suaves, quase sem variar o movimento do corpo para cima ou para baixo, que era difícil até medir a distância. Pego de surpresa, recuei, mas a espada de Narika já estava prestes a descer sobre minha cabeça.

Perdendo o equilíbrio, acabei caindo sentado no chão.

— A-Ah…?

— Não se preocupe, eu paro antes. Pode atacar com tudo, Itsuki.

Dizendo isso, Narika estendeu a mão para mim. Segurando-a para me levantar, voltei à posição.

E eu achando que treinava kendô…

Não comentei com Narika, mas como parte de um treinamento de autodefesa, eu tinha aprendido um pouco de kendô com a Shizune-san por um tempo. Ainda assim, o kendô depende da espada — uma arma específica. Não combina muito com autodefesa, que pressupõe situações de emergência sem acesso a armas. Por isso, nunca me aprofundei.

Minhas habilidades em kendô são, no máximo, um pouco melhores que as de um iniciante. Mesmo assim — Narika era esmagadora.

— Vamos, mais uma!

Depois que eu caí sentado de novo, Narika estendeu a mão e disse. Assumi novamente a postura com a espada de bambu. Então, senti uma pressão incrível vinda da figura à minha frente.

É isso… a Narika… Só de encará-la, uma sensação intensa de intimidação me tomou. Era exatamente a mesma pressão que eu havia sentido antes, vinda do Musashi-san.

É assim que todo mundo vê a Narika…!

Era assustador. Ela provavelmente não fazia isso de propósito, mas parecia que uma lâmina estava apontada para a minha garganta. No fim, não consegui fazer quase nada e acabei derrotado por Narika. Sem conseguir bloquear o golpe descendente dela, tropecei.

— I-Itsuki, você está bem!?

— Tô… mais ou menos.

Narika se aproximou às pressas.

— D-D-Desculpa… quando eu entro no ritmo, acabo me empolgando… por favor, não me odeie…!

Sentindo que tinha exagerado, Narika se desculpou com os olhos marejados. Eu quase ri ao ver aquela cena. Que contraste… instantes atrás, ela parecia um demônio feroz, e agora era uma garota tímida. Essa diferença enorme me lembrou a Hinako.

— Foi incrível.

Depois de me acalmar, tudo o que senti foi admiração.

— Você é realmente forte, Narika.

— Eu sou péssima em muitas coisas. Então, pelo menos naquilo em que sou boa, quero poder erguer a cabeça. …Eu treinei desesperadamente.

— Essa também é uma forma de força — saber reconhecer as próprias fraquezas.

Por não ser boa em outras áreas, ela deve ter lapidado essa habilidade até o limite. É uma convicção que só existe quando se conhece bem as próprias fraquezas. Enquanto eu me impressionava com as palavras da Narika… por algum motivo, ela fez um bico.

— Como eu imaginei, você esqueceu, né?

— Hã?

— Essa coisa de força e fraqueza… foi você que me ensinou isso, Itsuki.

Narika soltou um suspiro.

— Há muito tempo, quando eu disse que você era forte, você me respondeu com essas palavras.

— Ah.

Lembranças do passado começaram a emergir na minha mente.

"—Itsuki… você é mais forte do que eu, não é?"

Uma memória distante, de quando Narika disse isso para mim. Foi quando eu espantei um inseto do quarto por ela? Ou quando a consolei depois de ela ter levado uma bronca do Musashi-san? Os detalhes estão confusos, mas…

Como eu respondi àquelas palavras? Acho que, naquela época, eu disse—

Eu não sou forte.

Eu disse que não era forte, e então…

— Eu só conheço minhas fraquezas… por isso consigo dar tudo de mim.

Foi isso que eu devo ter dito à Narika. Enquanto eu relembrava essas palavras, Narika abriu um sorriso suave.

— Exatamente. …Essas palavras ainda estão gravadas no meu coração.

Narika colocou a mão no peito, como se estivesse guardando uma lembrança preciosa. O eu de antes se conectava ao eu de agora. Cresci pobre e enfrentei dificuldades desde cedo. Mesmo no ensino médio, eu conciliava trabalhos de meio período todos os dias, e estudar além disso era exaustivo.

Agora, estou preso no turbilhão de me adaptar ao ambiente da Academia Kiou e às minhas funções como cuidador. Eu amo o que faço, mas não é nada fácil. Antes e agora, eu sempre estive lutando. …Desesperado, até. Não tenho luxo de manter aparências, então, quando a coisa aperta, eu conto com os outros.

Para quem vê de fora, eu posso parecer patético. Mas eu acredito que é justamente por causa desse lado patético que consegui superar os desafios até aqui.

— Por isso, eu não quero me conter no festival esportivo. Isso… isso é o que eu encontrei graças a você, Itsuki — aquilo no que posso colocar tudo o que tenho.

Com uma mistura de vergonha e orgulho, Narika declarou. Narika também tem lutado desesperadamente. Se é assim, então — como esperado — esses sentimentos merecem ser recompensados. O festival esportivo estava chegando.

Mas a imagem da Narika ainda não foi completamente limpa. Será que existe algo que eu possa fazer…?

Escondendo esses pensamentos, deixei a residência Miyakojima.

*

 

Dia do festival esportivo. Uma multidão enorme se reunia no terreno da Academia Kiou.

— Tem gente demais aqui.

O espaço, muito maior que o de um colégio comum, estava lotado de alunos e convidados. Ainda assim, não parecia caótico — havia um ar de elegância e organização, provavelmente graças ao ambiente refinado da Academia Kiou e às roupas impecáveis dos convidados.

— Metade deles deve ser de empregados.

Hinako, ao meu lado, comentou enquanto eu observava, boquiaberto.

— Não são as famílias dos alunos?

— Mm. …A maioria dos pais daqui é ocupada demais no dia a dia.

Isso fazia sentido.

— Então o Kagen-san não veio?

— Vim no lugar dele.

Uma voz surgiu de repente atrás de mim, me assustando a ponto de quase me fazer pular.

— S-Shizune-san, quando você chegou…?

— Agora mesmo. Hoje, o Kagen-sama me encarregou de filmar a Ojou-sama.

— Ugh… isso é constrangedor, então dispenso.

Enquanto Shizune explicava, segurando uma câmera de vídeo, Hinako fazia uma careta de leve incômodo. Era o tipo de troca que se ouve em qualquer família comum.

Elas faziam mesmo coisas normais de família assim…?

Conhecendo o Kagen-san, talvez ele só estivesse checando para garantir que a Hinako não cometesse nenhum erro… mas eu esperava que, como pai, ele estivesse apenas zelando por ela.

— Tomonari! A apresentação da divisão de dança vai começar, então vamos mais para frente!

A voz do Taishou ecoou à distância. Shizune fez uma reverência elegante e seguiu em direção às arquibancadas destinadas aos convidados. Hinako e eu caminhamos até o local que o Taishou tinha garantido para nós.

— É a Konohana-san…

— A-Abram caminho…!!

A multidão se abriu ao redor de Hinako. Antes, eu provavelmente teria me destacado de forma estranha em momentos assim, mas—

— Tomonari-kun.

Kita me chamou suavemente, e eu acenei de volta. Mais atrás, vi a Suminoe-san, uma das elites de ponta da turma A. Respondi ao aceno discreto dela com uma leve inclinação de cabeça.

Agora estava tudo bem. Comparado a antes, eu conseguia ficar ao lado da Hinako com um pouco mais de confiança.

— Por aqui, vocês dois!

Ao ouvir a voz da Tennouji, finalmente alcançamos o resto do grupo. Ao mesmo tempo, a apresentação da divisão de dança começou.

— A Asahi está bem na frente.

Como o Taishou disse, Asahi estava na linha de frente, roubando completamente os holofotes. Asahi e seu grupo dançavam vestidas com uniformes de líder de torcida.

Aparentemente, hoje em dia existem alguns times profissionais de cheer dance, e desta vez alguém de uma dessas equipes ficou responsável pela coreografia. Talvez por isso, o grupo da Asahi apresentava uma performance extremamente refinada, incendiando o público reunido no campo.

— Vendo ela assim, a Asahi fica até meio fofa, né?

— É, o uniforme de líder de torcida combina bem com ela também…

Acabei soltando meus pensamentos sinceros sem querer, mas, no instante seguinte, senti olhares afiados vindos de todos os lados. Hinako soltou um "Hmph", Tennouji murmurou um "Ora, ora", e Narika deixou escapar um "Tch".

Eu tinha quase certeza de que falei algo imprudente.

— Com isso, encerramos a apresentação da divisão de dança. Alunos, dirijam-se agora aos seus respectivos locais de competição.

A apresentação terminou, e todos aplaudiram com força. A expressão de satisfação da Asahi, parada à frente, ficou gravada na minha mente.

— Certo, estou indo para o esqui.

— Eu também vou para a arena de polo.

Tennouji e Taishou, cujas provas aconteciam em locais diferentes, se despediram às pressas por causa da agenda apertada.

— Narika, tudo bem com você?

Perguntei à Narika, que estava ali por perto.

O evento principal do festival esportivo finalmente tinha chegado. Como será que Narika estava se sentindo, carregando o trauma do ano passado?

— Estou bem.

Narika colocou a mão sobre o peito e respondeu devagar.

— Hoje de manhã, um colega falou comigo de novo. Disse que está torcendo por mim na luta. Provavelmente não sabia o que eu fiz no ano passado… mas, graças a isso, me senti cheia de energia.

Narika disse, feliz, olhando para mim.

— É graças a você, Itsuki. Eu não estou mais com medo.

— Fico feliz em ouvir isso.

Parecia que ela tinha conseguido encarar o festival esportivo com uma mentalidade positiva. Até agora, Narika tinha conseguido limpar sua imagem entre os alunos das turmas A e B. Mas quanto às turmas C, D e E… isso ainda era incerto.

Sinceramente, eu queria que mais pessoas reconhecessem quem a Narika realmente era. Mas talvez isso fosse apenas egoísmo meu, então acabei guardando esse pensamento.

— Vamos dar o nosso melhor.

— Sim! Que a sorte esteja do nosso lado!

Depois de me despedir da Narika, Hinako e eu seguimos para o local da divisão de tênis.

— Os vestiários ficam ali.

A divisão de tênis era separada por gênero, com quadras distintas. Como as partidas iam começar em breve, só nos encontraríamos novamente depois da primeira rodada.

— Certo, Hinako. Até mais tarde.

— Mm… vou ganhar sem esforço.

Hinako disse isso como se fosse óbvio e seguiu para o vestiário. Essa aura de confiança… não era à toa que ela tinha sido campeã no ano passado.

Fui para o vestiário, terminei de me arrumar e segui para a quadra.

Os tênis e as raquetes eram fornecidos, mas, como treinei com a Narika, a Shizune tinha preparado um conjunto completo de equipamentos para mim, então trouxe os meus próprios.

Como a Narika me orientou, pratiquei incontáveis vezes, batendo a bola contra a parede na residência Konohana. Graças a isso, eu estava razoavelmente confiante no meu controle de bola.

Era a primeira rodada. Ao entrar na quadra, fiquei de frente para um rapaz que não conhecia. Girei a raquete, prevendo se ela iria cair com a face para cima ou para baixo. Como imaginei, caiu para cima, então pude escolher entre sacar ou receber.

Escolhi sacar.

— Partida de um set, comecem!

O árbitro sinalizou o início da partida.

Meu saque era aceitável, mas meu oponente teve dificuldade para devolver. A Shizune tinha comentado que os alunos da Academia Kiou se destacavam tanto nos estudos quanto nos esportes. Ainda assim, alguns, como o Kita, simplesmente não eram bons em atividades físicas.

Meu adversário provavelmente era desse tipo. Mesmo assim, com o meu nível atual, não podia baixar a guarda. Precisava espalhar a bola de um lado para o outro e cansá-lo…

Lembrando do básico que a Narika me ensinou, devolvi a bola. Meu foco era fazê-lo correr. Evitava bater no centro e mirava alternadamente à esquerda e à direita. Com o avanço da partida, meu oponente foi se cansando visivelmente, até mal conseguir se mover.

— Game, set!

O árbitro anunciou o fim da partida. Resultado: vitória minha.

— Isso!!

Não consegui evitar cerrar o punho em comemoração. Sem o treinamento da Narika, eu certamente teria sido eliminado na primeira rodada. Era um daqueles momentos em que o esforço realmente compensava. Saí da quadra e segui direto para o ponto de encontro com a Hinako.

Em um banco sombreado atrás do prédio da escola, uma bela garota estava sentada.

— Hinako, você já terminou?

— Mm… …V.

Hinako fez um sinal de V com os dedos indicador e médio. Um V de vitória… ou seja, ela venceu.

— E agora? Ainda temos tempo antes da segunda rodada. Quer dar uma volta?

Hinako assentiu levemente. Ficar parado poderia deixar o corpo rígido, o que atrapalharia as próximas partidas. Era melhor nos movimentarmos enquanto assistíamos a outros eventos.

— A propósito… Itsuki.

— Hm?

Ao se levantar, Hinako me encarou com uma expressão estranhamente formal.

— O que você acha?

Ela deu uma voltinha na minha frente. Não entendi de imediato o que ela queria que eu comentasse… mas, após pensar um pouco, percebi.

— Ah, claro, você conseguiu emagrecer direitinho.

— Ngh…!?

Droga, falei besteira — quando percebi, já era tarde demais. Hinako se aproximou e deu um leve chute na minha canela com a ponta do pé.

— D-Delica…deza…!!

— D-Desculpa. Você parecia querer que eu dissesse algo, então achei que fosse isso…

Depois de me chutar, Hinako cruzou os braços sobre o corpo, cobrindo a silhueta. Reavaliei o que Hinako queria que eu dissesse. Ela girou de propósito, então definitivamente era sobre a aparência.

Nesse caso, talvez—

— Uh… essa roupa ficou muito boa em você.

— Tarde demais.

Ao que parecia, ela queria que eu comentasse sobre o uniforme de tênis. Era diferente daquele que ela usou nos treinos. Desta vez, tanto a parte de cima quanto a de baixo eram brancas, passando uma sensação limpa e refinada, diferente do traje de prática.

— Eu achei que já tinha te elogiado antes, então pensei que estava tudo bem.

Ao ouvir isso, as bochechas de Hinako ficaram levemente coradas, e ela murmurou em voz baixinha:

— Pode me elogiar quantas vezes quiser.

Havia algo tímido, quase infantil, na forma como ela tentava se conter, mas não conseguia esconder o que sentia, e eu concordei com a cabeça. Ainda havia muita coisa sobre a Hinako que eu não conhecia.

*

 

— Tem muita coisa acontecendo, né?

Misturados à multidão animada, Hinako e eu observamos vários eventos. Beisebol, basquete, futebol — esportes familiares para alguém comum como eu — também estão acontecendo.

— Eu até queria ver as provas da Tennouji e do Taishou…

— Então, ali.

Hinako apontou para o prédio da escola. A central de operações do festival esportivo. Em frente a ela, vários monitores grandes estavam alinhados.

— Uma transmissão ao vivo, hein.

Ao que parece, é possível assistir às competições de outros locais por meio desses monitores. O monitor no canto superior direito mostrava uma enorme encosta. Observando melhor, dá para ver tapetes verdes cobrindo a superfície, e alunos descendo esquiando.

"—Não subestimem os Taishou Movers!!"

A voz estrondosa do Taishou ecoava pelos alto-falantes.

"—Vamos lá, Shiba Inu Yamato!!"

"—Sayama Express, força!!"

Três rapazes desceram a montanha em altíssima velocidade. O Taishou disse que as pistas de verão não seriam tão rápidas… mas, para mim, aquilo parecia velocidade máxima.

— Oh… parece que o seu herdeiro está na frente este ano.

— Ah, não… o seu herdeiro é que parece muito bem treinado…

— Por falar nisso, ainda estamos em desacordo sobre a próxima localização da filial. Que tal assim? Quem vencer essa partida fica com o ponto que preferir.

Homens de terno observavam o monitor, conversando num clima tenso. Eu tinha acabado de entrar num espaço assustador. Afastei-me para olhar outro monitor. Então, uma voz bem característica chamou minha atenção.

"—Ohohohoho! Ohohohohohoho!!"

Uma Ojou-sama loira, com aqueles cachos verticais, galopava livremente num campo gramado, montada a cavalo. Tennouji estava dominando a partida de polo.

— Parece divertido.

— Ela está brilhando.

Vendo a Tennouji-san comandar o campo, com o suor cintilando sob o sol, Hinako assentiu de leve. Cada um parecia estar aproveitando o festival esportivo à sua própria maneira.

— A gente vai ver como a Narika está?

Pensando na única garota que talvez não estivesse curtindo o evento, seguimos para o ginásio, onde estavam acontecendo as lutas de kendô.

— Kote, ponto!

A voz do árbitro ecoou pelo ginásio.

Narika… não parecia estar aqui. Vasculhando o local com os olhos, não consegui encontrar Narika em lugar nenhum. Ao conferir a chave do torneio fixada na parede, parecia que Narika avançava sem dificuldades. O que não me surpreendia nem um pouco.

O que me preocupava era como os outros a viam. Mas, como Narika não estava ali e as lutas ainda estavam nas fases iniciais, ninguém parecia comentar nada sobre ela por enquanto.

— Ainda temos um tempo antes das nossas partidas.

Comentei, olhando para o relógio do local. Tínhamos deixado o banco atrás do prédio da escola. Voltar até lá só para descansar agora parecia trabalhoso.

— Acho que dá para descansar na sala de aula.

— Sério? Então vamos.

Com Hinako assentindo, entramos no prédio da escola. Como Hinako disse, havia alguns alunos descansando nas salas. Mesmo assim, a maioria devia estar como nós antes, aproveitando o festival. A sala de aula parecia isolada do burburinho lá fora, um refúgio para quem já tinha assistido demais e queria apenas respirar.

— Hum, Konohana-san!

Enquanto caminhávamos pelo corredor, uma aluna saiu de uma sala e chamou Hinako. Eu não a reconheci. A reação da Hinako também pareceu semelhante à minha. Mas a garota olhava para Hinako com uma expressão determinada, como se tivesse reunido toda a coragem do mundo. Provavelmente era uma das alunas que admiram Hinako.

— Quer que eu te dê espaço?

— Não, eu vou.

Quando perguntei baixinho, Hinako balançou a cabeça.

— A Miyakojima-san… também está se esforçando.

Com isso, Hinako foi na direção da garota. Eu conseguia ouvir pedaços da conversa — "Sua partida foi incrível!", "Eu fiquei emocionada!", "Você vai buscar o título de novo este ano?!" — um monte de falas empolgadas.

Para não atrapalhar, subi as escadas até um ponto em que não pudesse ver Hinako e as outras.

— Itsuki?

Quando eu estava prestes a observar a vista do corredor do andar de cima, alguém chamou meu nome.

— Narika?

Ali estava Narika, vestindo o hakama de kendô.

— Você também veio dar uma pausa, Narika?

— Sim. É o intervalo entre as lutas, então eu só estava dando uma volta.

Parece que estávamos na mesma situação.

— Pelo jeito você está avançando sem problema. …E o dedo torcido, como está?

— Não está incomodando nada. Acho que vou levar o título este ano.

— Não se empolga. Excesso de confiança derruba.

— Não é excesso de confiança. Objetivamente falando, hoje eu estou no meu melhor.

Bom, que ótimo. Enquanto conversávamos, um pensamento me ocorreu.

— É tão fácil conversar assim quando estamos só nós dois, né?

— Ugh…

Narika desviou o olhar, sem jeito.

— M-Mas eu estou melhorando, tá!? Ano passado, eu ficava tão consciente de que todo mundo estava me olhando que eu nem conseguia dar uma volta assim…

— O que você fazia no ano passado?

— Eu me escondia no banheiro.

Eu não devia ter perguntado… Que história triste.

— Se você ainda tem tempo antes da próxima luta, quer dar uma volta com a gente? A Hinako também está aqui.

— Eu queria, mas… as lutas de kendô andam rápido. Acho que não dá.

Justo. A gente já tinha assistido bastante coisa mesmo, e estávamos só matando tempo para preencher aquele vazio esquisito. De qualquer forma, provavelmente não daria para ficarmos juntos por muito tempo.

— Eu devo muita coisa a você, Itsuki. …Se eu não tivesse conversado com você, eu provavelmente ainda estaria morrendo de medo do festival esportivo.

Narika disse, num tom sério de repente. Mas eu balancei a cabeça diante daquela formalidade.

— Não é por minha causa. É você que está se esforçando, Narika.

Os olhos da Narika se arregalaram.

— A Hinako também vê isso — o quanto você está tentando. Não sou só eu; todo mundo está percebendo o esforço que você tem feito ultimamente. Então ergue um pouco mais a cabeça—

Eu parei no meio da frase, com uma sensação estranha me puxando. A Narika só tem se esforçado ultimamente?

— Não, não é isso.

Eu me corrigi.

— Você sempre se esforçou, não foi?

—!

Os olhos da Narika se arregalaram ainda mais. Por que eu nunca disse isso antes? Não é só sobre elogiá-la agora. Narika deve ter se esforçado também em momentos que eu nem vi. É justamente porque ela sempre tentou tanto que está enfrentando essas dificuldades agora.

— É por isso que não é por minha causa. …Você já se esforçava muito antes mesmo de eu estar por perto, Narika. E agora todo esse esforço está finalmente dando resultado.

Ela podia ter desistido, parado de esperar qualquer coisa dos outros e escolhido um caminho solitário. Mas Narika não fez isso.

Isso é fraqueza? Não. É o contrário.

Mesmo sendo mal interpretada e tratada de forma injusta, Narika continuou acreditando que seus esforços a levariam a algum lugar. Isso a tornava inegavelmente forte.

— Você foi incrível. …Mesmo com todos os mal-entendidos, você nunca desistiu.

As emoções que cresciam no meu peito me impulsionaram. Eu acariciei de leve a pequena cabeça à minha frente.

— U-U

gh…

Um soluço escapou dos lábios de Narika.

— Narika?

— N-Não é nada… S-Só… não olha pra mim por um tempo, tá?

Com isso, Narika virou de costas para mim.

— Isso não é justo… V-Você, Itsuki, sempre me pega desprevenida…

— Desculpa.

Eu sabia que aquelas palavras não eram uma acusação. Os ombros de Narika tremiam levemente. Depois de um tempo, ela se virou novamente para mim.

— Já está melhor?

— Sim.

Os olhos dela estavam um pouco vermelhos, mas o olhar parecia calmo de verdade, me encarando de frente.

— Espero que, aos poucos, você encontre mais pessoas que sejam especiais para você, Narika.

— Especiais?

— Você disse antes que eu sou o único que é especial pra você, lembra? Então eu pensei que seria ótimo se você encontrasse mais pessoas assim.

Fiquei surpreso quando Narika me chamou de especial, mas provavelmente não era algo tão profundo. Por enquanto, eu era apenas a única pessoa em quem ela confiava completamente. Se for isso, espero que um dia esse tipo de confiança se torne algo natural para ela, e não algo raro ou exclusivo.

Ela está a apenas um passo disso agora — e eu sei que Narika consegue.

— Itsuki, isso é…

Narika começou a dizer algo. Mas então me lembrei da Hinako esperando lá embaixo.

— Desculpa, a Hinako está me esperando ali perto. Eu já vou voltar.

Tínhamos conversado por mais tempo do que eu percebera. A conversa da Hinako provavelmente já tinha terminado. Era hora de nos reunirmos de novo. Virei-me para descer as escadas.

Mas, no meio do caminho… puxão — minhas roupas foram seguradas.

— Espera.

Narika agarrou minha camisa com as duas mãos.

— Narika…?

*

 

Narika não conseguiu encarar Itsuki quando ele disse seu nome. Ela o havia parado por impulso e, quando percebeu, já era tarde demais. Sentia o olhar confuso de Itsuki sobre si, então abaixou a cabeça às pressas.

Normalmente, ela o teria deixado ir sem dizer nada. Mesmo agora, ainda dava tempo. Bastava dizer: "Não é nada, até depois", e tudo voltaria ao normal, como se nada tivesse acontecido. Mas… ela sentia que precisava detê-lo. Precisava desfazer aquele mal-entendido.

— Uh… ainda não se acalmou?

Itsuki perguntou, confuso.

— Não.

Narika balançou a cabeça, ainda olhando para baixo.

— Não é isso, Itsuki. …Você entendeu errado.

Ela não estava negando que estava abalada. O que Narika queria era corrigir o que Itsuki tinha dito antes.

— Por sua causa, Itsuki, eu consegui falar com tantas pessoas.

Devagar, tropeçando nas palavras, Narika continuou:

— A Konohana-san, a Tennouji-san, o Taishou-kun, a Asahi-san… e ultimamente até o Kita-kun. Eu consigo conversar com todos eles agora.

Itsuki assentiu.

— Mas, pra mim, Itsuki, você é—

Ela parou, tomada por uma percepção repentina. Era isso. Claro que era.

Dizer o nome de qualquer outra pessoa não despertava esse sentimento. Só dizer "Itsuki" aquecia seu coração. Uma sensação de conforto, confiança e — algo intensamente feliz, mas também dolorosamente agridoce. Essa parte agridoce provavelmente vinha das próprias inseguranças dela.

Ela sempre causava problemas para Itsuki. Sempre o fazia se preocupar. Ela não queria sobrecarregá-lo ainda mais. Por isso, havia decidido segurar esses sentimentos até crescer um pouco mais.

Mas… ela não conseguia segurá-los. Não — agora, ela não deveria segurá-los.

Narika teve a forte sensação de que, se não dissesse aquilo agora, se arrependeria para sempre. Porque Itsuki podia ser muito desligado às vezes. Ela precisava dizer com clareza — ou ele não entenderia.

— I-Itsuki! Eu… eu quero dizer…!

Ela ergueu o rosto e olhou para ele. Havia tantas coisas que queria dizer, mas as palavras não saíam.

Sua dificuldade em se expressar a frustrava profundamente. Mesmo assim, Itsuki esperava, paciente.

— Essa gentileza.

Essa gentileza era algo exclusivo de Itsuki, diferente da de qualquer outra pessoa. Ela sentia isso desde a infância até agora, e sabia que era insubstituível. Por isso Miyakojima Narika sentia algo tão forte por Itsuki—.

— E-Eu… é só você, Itsuki!

As emoções correram à frente das palavras. Mas ela confiava que Itsuki esperaria por ela.

Essa confiança lhe deu coragem para continuar. Seus sentimentos transbordaram em forma de palavras.

— Mesmo que eu faça muitos amigos no futuro… a única pessoa especial pra mim é você, Itsuki! — Agora e sempre, só você!

Seu rosto parecia estar em chamas. As emoções grandes demais para caber em palavras se transformaram em lágrimas, escorrendo por suas bochechas.

— Então, por favor… nunca se esqueça de que ninguém jamais poderia ocupar o seu lugar…!

A tempestade de sentimentos em seu peito começou, aos poucos, a se acalmar. Do passado até agora, esse sentimento nunca mudou. E com certeza continuaria o mesmo no futuro.

Itsuki provavelmente estava confuso. Ela se sentia mal por isso, mas não tinha arrependimentos. Para Narika, isso era algo que precisava ser dito.

*

 

Depois de me despedir da Narika, parei antes de descer as escadas e olhei para trás. Narika já não estava mais ali. …Mesmo que estivesse, eu não saberia o que dizer. A expressão sincera dela ficou gravada na minha mente. A cada degrau que eu descia, sentia-me estranhamente desligado, como se estivesse flutuando. Era como ter entrado naquele espaço nebuloso entre sonho e realidade.

— Itsuki?

Alguém chamou meu nome.

— Hinako, né.

Quando percebi, Hinako estava parada à minha frente. Eu devia ter caminhado até onde ela estava sem me dar conta.

— O que foi? Você estava com a cabeça longe.

— Não, não é nada…

Comecei a responder, mas parei. Não era nada. Eu não podia chamar aquilo de nada.

— Algo importante acabou de acontecer.

— Importante…?

— Sim. …Algo muito importante.

Tanto para mim quanto para a Narika. Aquela conversa breve tinha sido incrivelmente significativa.

Por favor… nunca se esqueça…

Esquecer? De jeito nenhum.

Agora e sempre… eu vou lembrar deste dia.

— Isso é uma grande responsabilidade.

Ser o único especial, hein. Parece que, sem perceber, eu tinha me sentado na primeira fila de algo extraordinário. Certamente, para Narika, esses eram sentimentos que ela ainda não tinha organizado por completo. E mesmo eu, depois de ouvir aquelas palavras, ainda não conseguia entendê-las totalmente.

Ainda assim, Narika sentiu que precisava dizer, precisava colocar aquilo para fora. Esse sentimento não era algo que eu pudesse simplesmente ignorar.

— Certo.

Endireitei meus pensamentos. Havia uma montanha de coisas que eu precisava encarar de frente. Agora, eu era o cuidador da Hinako. Desviar o olhar do que estava diante de mim não era uma opção.

— A segunda rodada já vai começar, né? Vamos voltar?

— Mm.

Seguimos de volta para a quadra de tênis. Como esperado, a segunda rodada estava prestes a começar. Se tivéssemos chegado dez minutos mais tarde, poderíamos ter sido desclassificados por ausência. Para mim, isso não seria um grande problema, mas para a Hinako causaria transtornos a muita gente.

— Certo, Hinako. Até daqui a pouco.

— Mm… boa sorte, Itsuki.

Despedi-me da Hinako e entrei na quadra. Antes do início da partida, era costume apertar a mão do adversário do outro lado da rede. Caminhei até lá, raquete em mãos.

— Ainda grudando nas pessoas, é?

Diante de mim estava um cara que eu conhecia bem demais.

— Você…

Eu nunca poderia esquecê-lo. Era o cara que tinha sido frio com a Narika antes… o responsável por desencadear minhas dificuldades em lidar com os relacionamentos na Academia Kiou.

Com um emaranhado de emoções no peito, apertei a mão dele, e decidimos quem sacaria primeiro.

— Partida de um set, comecem!

Eu comecei recebendo. Enquanto eu mal conseguia devolver o saque afiado dele, minha mente voltou a alguns dias atrás. Graças a esse cara, eu fui forçado a repensar meu lugar aqui. De certa forma, até sou grato por isso.

Mas a forma fria como ele tratou a Narika… isso eu ainda não conseguia perdoar. Mesmo que tivesse sido por consideração às circunstâncias da família dele, isso não justificava ferir outra pessoa.

— Eu não vou perder pra você… de jeito nenhum!

Ele confirmou o game de saque. Tudo bem, então — eu seguraria meu game de saque a qualquer custo. Talvez ele tivesse vantagem técnica, mas eu parecia ter mais resistência. Em vez de arriscar bolas difíceis, foquei em trocas longas, desgastando-o e induzindo erros.

— Você é teimoso pra caramba…!

Ele começou a entrar em pânico, e os erros se acumularam. Minha resistência também estava chegando ao limite. Mas, mesmo assim—

Pra mim, a única pessoa especial é você, Itsuki!

As palavras da Narika ecoavam na minha cabeça. Eu queria, ao menos, acertar um golpe naquele cara que tinha sido tão frio com a Narika — não por ela, mas por mim mesmo. Era isso que me movia.

E, de alguma forma, parecia que ela tinha me dito que tudo bem sentir assim. Eu não podia continuar tratando a Narika apenas de forma formal. A partida seguiu equilibrada até o tie-break e, então—

— Game, set!

A partida terminou. O resultado… eu tinha vencido, por pouco.

— Haa, haa… você é bem forte…

— Obrigado…

No final, nos curvamos um para o outro através da rede. Talvez por termos dado tudo de nós, ou talvez porque o cansaço tivesse apagado minha raiva, eu já não sentia ressentimento algum em relação a ele.

— Ei, posso te perguntar uma coisa?

Ele falou, respirando com dificuldade, os ombros subindo e descendo.

— O que você tem com a Konohana-san?

Por um momento, fiquei sem saber o que responder. Havia algo estranho, quase constrangido, na atitude dele… e isso me fez perceber algo.

— Ei, espera… não me diga que você gosta da Konohana-san?

— Só responde a pergunta.

Ele murmurou, tentando disfarçar o desconforto. Eu estava tão exausto que poderia cair ali mesmo e dormir, mas forcei meu cérebro a continuar funcionando.

— É só uma ligação entre nossas famílias.

— Isso eu sei. Mas tem muita gente ligada ao Grupo Konohana. Então por que você parece tão próximo dela?

O fato de ele saber da ligação entre minha família e a da Hinako significava que ele provavelmente tinha investigado tudo a fundo. Minha suspeita estava virando certeza.

Esse cara provavelmente estava apaixonado pela Hinako. Era por isso que ele sabia tanto sobre mim e vinha me tratando como um rival.

— Não conta pra ninguém, mas… na verdade eu trabalho para a família Konohana por ordem dos meus pais.

— Como um empregado?

— Algo mais como um aprendiz de etiqueta. Eu não sou muito familiarizado com os costumes da alta sociedade, então estou aprendendo na residência dos Konohana.

Na prática, eu é que cuidava das coisas, mas ainda assim. Era uma meia-verdade, mas melhor do que não dizer nada.

— Entendi.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e então disse, com o rosto sério:

— Tomonari. Vou falar direto. Acho que nunca vou gostar de você.

— É uma pena, mas eu entendo.

Sem problema. Fazia sentido. Para ele, eu provavelmente parecia um rival amoroso.

— Mas… depois eu vou pedir desculpas à Miyakojima-san.

Com isso, ele saiu da quadra. As últimas palavras dele me pegaram de surpresa, mas… provavelmente ele também sentia culpa. Saber disso já era suficiente para mim. A frieza dele com a Narika não tinha vindo de pura maldade. Ao sair da quadra, voltei a me encontrar com a Hinako no banco atrás do prédio da escola.

— Hinako, você ganhou também?

— Mm.

Hinako fez um V com os dedos. Diferente de mim, ela ainda parecia cheia de energia.

— Itsuki… você está bem?

— Mais ou menos… não, sendo sincero, eu preciso descansar…

Afundei no banco, soltando um suspiro longo. Tênis era muito mais cansativo do que parecia. Você precisava cobrir uma quadra enorme sozinho, correndo sem parar. E aquela última partida tinha durado quase uma hora, me deixando completamente esgotado física e mentalmente.

Eu queria muito descansar um pouco, mas—

— A terceira rodada vai começar logo.

— Hã?

Meu rosto congelou. Só depois percebi que, conforme o torneio avança, o número de jogadores diminui e as partidas acontecem cada vez mais rápido.

Como havia uma quadra livre, eu teria que ir direto para a terceira rodada. O resultado dessa partida—

— Que azar.

— Haa, haa, haa… droga…

O adversário da terceira rodada era absurdamente forte, e eu fui derrotado sem conseguir marcar um único ponto. Aliás, algumas horas depois, a Hinako venceu o torneio inteiro como se não fosse nada.

*

 

A divisão de tênis do festival esportivo chegou ao fim. Hinako, campeã da divisão feminina, entregou o certificado à Shizune-san e voltou até mim.

— Ufa… agora sim, cansei.

Com as partidas encerradas, Hinako finalmente relaxou os ombros. Passar o resto do dia tranquilo com ela não parecia nada mau… mas hoje, minha mente não parava de pensar em outra garota.

— Hinako, tudo bem a gente ir dar uma olhada na divisão de kendô?

— Mm… eu também estava pensando nisso.

Parece que Hinako também estava preocupada com a Narika. Normalmente, o kendô terminava mais rápido que o tênis, então talvez já tivesse acabado, mas decidimos conferir mesmo assim.

Quando chegamos ao ginásio, as lutas de kendô ainda estavam acontecendo.

Está demorando mais do que eu pensei. Ao olhar a chave do torneio, parecia que eles já estavam nas semifinais.

— Ei, aconteceu alguma coisa?

Curioso com o atraso, perguntei a um aluno que assistia ali perto. Ele se assustou por um instante, mas logo explicou:

— Teve um problema no sistema de ar-condicionado mais cedo, então eles tiveram que interromper as lutas. Por isso o kendô está atrasado.

Entendi… Agora fazia sentido aquela multidão. A maioria dos outros eventos já devia ter terminado, então alunos entediados estavam se reunindo no ginásio.

— Decisão!

Uma luta terminou. A próxima seria a outra semifinal. Uma garota familiar entrou na área de combate.

— Narika.

Lá estava ela, com o cabelo preto preso para trás e uma expressão afiada e digna. Então Narika lançou um olhar na nossa direção. Talvez por a Hinako se destacar tanto, ela me reconheceu facilmente ao lado dela.

— !

No instante em que nossos olhares se cruzaram, Narika desviou o rosto rapidamente. As bochechas dela ficaram vermelhas. …Provavelmente, o meu rosto não estava diferente.

— Itsuki. O que está acontecendo entre você e a Miyakojima-san?

— N-Nada, não se preocupe com isso.

— Suspeito…

Hinako me lançou um olhar penetrante, mas eu me calei, decidido a não dizer nada. Na área de combate, Narika amarrou o tenugui na cabeça com movimentos habituais.

Depois de respirar fundo, seus olhos afiados se estreitaram levemente.

…Esse foco também faz parte do charme da Narika.

Algo tinha mudado dentro dela. Ela exalava uma presença diferente da elegância refinada da Tennouji-san — era uma força dominante, quase como um espírito indomável. Naquele momento, Narika parecia estar muito além do nível dos outros estudantes.

— Começar!

O árbitro deu o sinal de início da luta. Narika e sua oponente começaram a circular uma à outra com cautela, avaliando-se.

O estado dela… parece ótimo.

Lembrei da nossa conversa no corredor algumas horas antes. Cheguei a me preocupar se aquilo a teria abalado, mas foi o contrário. Parecia tê-la libertado — seus movimentos estavam firmes, sem qualquer hesitação.

— Ei… você acha que a Miyakojima-san talvez queira fazer amigos agora?

Uma voz próxima chamou minha atenção.

— Hã? Por que você acha isso?

— Alguém da turma B estava dizendo que ela anda mais amigável ultimamente. Pensando bem, ela já dava sinais disso antes, então talvez…

— Hmm… não sei…

Mais amigável? A Narika sempre foi amigável desde o começo. Só que as verdadeiras intenções dela nunca tinham chegado à maioria das pessoas.

— Aquela é a famosa Miyakojima-san…?

— Ela parece tão intimidadora quanto dizem nos rumores…

Narika era, sem dúvida, uma celebridade por ali. Só de ficar parada, eu conseguia ouvir todo tipo de comentário sobre ela.

Merda… a multidão está aumentando, e o clima em torno da Narika está ficando…

Graças aos esforços dela nos últimos dias, a imagem da Narika tinha começado a mudar um pouco. Mas essa nova imagem ainda não havia se espalhado por toda a academia. Os alunos que começavam a simpatizar com ela ainda eram minoria.

No ginásio lotado, Narika brandiu o shinai verticalmente.

— Decisão!

Em meio à multidão transbordando, Narika conquistou a vitória. Por um breve instante, ela lançou um olhar para a plateia.

Talvez — só talvez — ela esperasse uma reação diferente da do ano passado. Mas a realidade foi dura. O público começava a demonstrar medo. Narika seguiu em direção à sala de espera. Suas costas pareciam solitárias demais para se ignorar.

Por que tem que ser assim? Ela estava em ótima forma, não estava? Aquilo tinha sido uma vitória brilhante, não tinha sido? Então por que o clima acabou daquele jeito…?

A final seria a próxima. Será que isso seria apenas uma repetição do ano passado?

…Tem uma coisa que eu consigo pensar. Uma única forma infalível me ocorreu para fazer as pessoas pararem de ter medo da Narika. Lembrei da estratégia de noblesse oblige da Tennouji-san. A essência daquele plano era Narika recuar e deixar os outros brilharem, em vez de dominar completamente.

Então… e se fizéssemos a mesma coisa agora? O motivo de Narika ter sido temida no torneio do ano passado foi justamente porque venceu de forma esmagadora. Nesse caso, e se ela simplesmente… perdesse?

— Se ela abrisse mão da vitória…

— Essa é nova.

Meu murmúrio inconsciente recebeu uma resposta. Assustado, virei-me e vi Narika parada bem à minha frente.

— Narika, quando você—?

— Já faz um tempinho. Você estava com uma cara tão séria, pensei em não interromper…

Narika deu um sorriso seco.

— Perder de propósito para parecer mais fraca, hein? …Nunca tinha pensado nisso.

Ela assentiu com um "Hmm" surpreendentemente calmo, como se estivesse aceitando a ideia com naturalidade. Mas, para mim, parecia apenas que ela estava fingindo força.

— Narika, isso foi só uma ideia, nada além disso…

— Tudo bem. Eu consigo fazer dar certo. Me conter não é exatamente impossível pra mim.

Com isso, ela seguiu para a sala de espera. A final estava prestes a começar, e eu não consegui sequer dizer uma palavra de incentivo. De fato, durante o treino no dojô, Narika tinha dito que não gostava de se conter. Não era que ela não conseguisse — ela apenas não gostava.

E, para mim, o problema era exatamente esse. Será que eu estava mesmo prestes a fazer a Narika fazer algo que ela não queria…?

— Começar!

A voz do árbitro me arrancou dos pensamentos, e eu ergui o olhar. Enquanto eu sofria em silêncio, a final já tinha começado. No clima tenso, percebi que os movimentos da Narika estavam mais lentos do que o normal.

— Espera… a Miyakojima-san…

— Ela não parece estar no auge hoje.

Os espectadores também notaram algo estranho na condição dela.

…!!

Narika estava sendo pressionada unilateralmente. Não havia dúvida. Narika… estava planejando perder.

O que eu faço…?

A adversária marcou o primeiro ponto. Logo depois, Narika conseguiu empatar. Ela fazia parecer uma disputa equilibrada, mas aquilo era atuação? O kendô é melhor de três. Se perdesse o próximo ponto, a derrota estaria selada. A parte racional de mim entrou em choque com meus instintos.

A impressão de que Narika era assustadora estava diretamente ligada à impressão de que ela era forte. Então, se essa força fosse exposta como algo falso, o medo que ela causava certamente desapareceria.

E — além disso — Narika estava com um dedo torcido agora.

Eu tinha me esquecido disso, já que ela venceu a semifinal com tanta facilidade, mas havia um curativo enrolado no dedo dela. Se ela perdesse por estar machucada, ninguém acharia estranho… todos pensariam isso.

Tudo estava preparado para que Narika perdesse. Essa estratégia provavelmente funcionaria perfeitamente. E, ainda assim, por mais que eu pensasse, não conseguia afastar essa sensação ruim.

O que era que eu realmente queria…? Eu queria que Narika fosse reconhecida por todos os tipos de pessoas. Esse sentimento era verdadeiro. Mas eu também não queria que Narika fizesse algo que não amava. Esse sentimento também era verdadeiro.

— Itsuki… o que você quer fazer?

Hinako perguntou em voz baixa, para que ninguém ao redor ouvisse. Era como se ela enxergasse direto dentro do meu coração… como se estivesse dando voz a ele.

— Eu…

Organizando as emoções que fervilhavam dentro de mim, abri a boca.

— Eu amo o quanto a Narika é sincera com as artes marciais. Ela conhece as próprias fraquezas, e é exatamente por isso que quer se orgulhar daquilo em que é boa… Eu amo esse jeito de viver.

Chamar isso de "jeito de viver" talvez fosse um pouco exagerado. Mas colocar em palavras aquela névoa na minha cabeça me fez sentir mais lúcido.

…Entendi.

Essa nobreza — era familiar. A Hinako, que sofria sob o peso das responsabilidades, mas ainda assim buscava sinceramente a própria felicidade. A Tennouji-san, que sempre se portava com elegância para sustentar a dignidade de sua família.

A nobreza da Narika era a mesma. Ela tinha consciência das próprias fraquezas — talvez até abaixo da média — e justamente por isso se esforçava para se orgulhar da força que possuía. Minhas palavras talvez tenham sido o gatilho, mas agora Narika estava provando isso com a própria força.

Mesmo carregando suas fragilidades, ela escolhia ser forte. Miyakojima Narika era, à sua maneira, uma verdadeira Ojou-sama.

— Vai ficar tudo bem.

Hinako disse, encarando-me diretamente.

— Mesmo que a Narika vença e o clima fique estranho… se você for o primeiro a elogiá-la, acho que isso resolve tudo.

— Como assim—

Sem responder à minha pergunta, Hinako continuou:

— Então, Itsuki… diga suas palavras com clareza para ela.

Hinako falou com um sorriso suave. Naquele instante, minha determinação se solidificou. Hinako estava certa. Eu ainda não tinha dito à Narika o que realmente sentia. Se o objetivo fosse que Narika fizesse amigos daqui para frente, perder ali talvez fosse a escolha certa.

Mas isso não era o que eu queria. A Narika de quem eu gostava não era assim.

Assim como Narika me chamou de especial… Eu também queria dizer a ela que ela é especial para mim. Mesmo que esse sentimento fosse egoísta… não, justamente por ser egoísta, era inegavelmente verdadeiro.

Eu não queria que Narika fosse apenas mais uma pessoa comum. A garota de quem eu gostava, Miyakojima Narika, era incrível, forte — e muito mais extraordinária do que isso.

— Narika!

Gritei para Narika, que parecia tão frágil, como se pudesse ser derrubada a qualquer momento, mesmo segurando o shinai. Isso podia desfazer todo o esforço que fizemos até agora. Se isso acontecesse, eu simplesmente recomeçaria e ajudaria a Narika de novo. Mas essa estratégia — só isso — eu não podia aceitar. Eu me recusava.

Então—

— Vai com tudo e acaba com isso—!!

Naquele instante, um espírito de luta transbordou de todo o corpo da Narika. A fragilidade de momentos atrás desapareceu, e ela avançou com agilidade e ousadia.

—!?

A estudante adversária ficou paralisada. E não era para menos — Narika havia revertido completamente a desvantagem em um único instante. A oponente tentou atingir o pulso dela às pressas, mas Narika percebeu a intenção de imediato e desviou o golpe.

Um som seco ecoou pelo ginásio. Firmando o pé no chão, Narika ergueu o corpo e desceu a espada de bambu em linha reta.

— Meeeeen—!!

Com um grito cheio de espírito que rasgou o ar, a espada de Narika acertou em cheio a máscara da adversária. Algo profundo dentro de mim tremeu. Não era apenas medo. Era aquela força que faz sentir medo — a sinceridade absoluta dela. Aquilo era Narika naquele momento.

Aquele era o encanto que eu via em Narika. Aquilo era o quão incrível ela era.

— Decisão!

O árbitro anunciou. A final da divisão de kendô do torneio… foi uma vitória esmagadora da Narika. As duas competidoras, ainda segurando as espadas de bambu, se encararam e fizeram uma reverência. Até mesmo um leigo conseguiria perceber. A força da Narika estava em outro patamar.

Essa habilidade esmagadora se transformou em temor, e o ginásio inteiro mergulhou em silêncio. Para quebrar aquele silêncio — eu bati palmas. Estar ao lado da Narika era mais importante para mim agora do que qualquer leitura de ambiente. Mesmo que todos ficassem calados… eu mostraria à Narika que, pelo menos eu, estava do lado dela.

Mas então—

Ao meu lado, ouvi o som de palmas. Hinako aplaudia com movimentos elegantes. Logo depois, um pouco mais distante, outras palmas se juntaram. A Asahi-san, o Kita, a Suminoe-san, o garoto com quem enfrentei no tênis… todos estavam aplaudindo. Em poucos instantes — o ginásio inteiro foi tomado pelo som de aplausos.

— Cara, aquilo foi… incrível, né?

— É, eu fiquei em choque…

— No começo deu um pouco de medo, mas…

No meio das palmas, eu conseguia ouvir as vozes dos estudantes. Esse era o momento que tanto esperávamos — o momento em que a imagem da Narika começaria a mudar.

— A Miyakojima-san é incrível.

Os aplausos não cessavam. E, entre eles, havia claramente vozes elogiando a Narika.

No centro do ginásio, Narika, já sem a máscara, permanecia imóvel, os olhos bem abertos. Sua boca, entreaberta de surpresa, não parecia conseguir se fechar. Mas logo lágrimas se acumularam no canto de seus olhos.

— Haha!

E ela sorriu — um sorriso verdadeiramente feliz, vindo do fundo do coração.

— Viu só… eu te disse.

Hinako falou com um hmph orgulhoso.

— Eu conheço o Itsuki melhor do que ninguém…

Não entendi exatamente o que ela quis dizer, mas senti que ela estava certa. Fiquei feliz por ter confiado na Hinako e gritado. Não havia mais rejeição nenhuma dirigida à Narika naquele ginásio.

Narika — tinha vencido.

 


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