Volume 3
Capítulo 3: Como Estudante da Academia Kiou
NAQUELE DIA também, o cenário na Academia Kiou era o de sempre. Uma escola de prestígio, considerada uma das melhores do Japão, frequentada pelos filhos e filhas da elite — CEOs de grandes corporações, políticos influentes e outras famílias da alta sociedade. Com recursos praticamente ilimitados, a academia possuía um campus enorme e instalações de última geração, tudo à livre disposição dos alunos.
A essa altura, eu já começava a me acostumar com esse ambiente… mas, depois de um bom tempo, voltei a sentir aquele mesmo nervosismo tenso que tive quando cheguei à academia pela primeira vez. Antes do início da aula matinal, aproximei-me de um aluno sentado em sua carteira.
— Kita-kun, certo?
O garoto, claramente sem esperar ser abordado, virou-se para mim com os olhos arregalados.
— Ahn… sim. O que foi?
— Eu sou o Tomonari — disse eu.
Talvez ele já soubesse quem eu era, mas achei melhor me apresentar direito, só por garantia. Tomando cuidado para não deixar transparecer o nervosismo crescente, fui direto ao assunto principal com cautela.
— Na verdade, eu queria conversar com você sobre uma coisa…
Enquanto repetia mentalmente as falas que havia ensaiado antes, minha mente voltou aos acontecimentos da noite anterior.
*
— Só para confirmar, Tomonari-san… você quer conseguir agir ao lado da Ojou-sama dentro da academia sem chamar atenção desnecessária, correto?
Depois que demonstrei minha determinação em me lançar na complexa rede social da academia, Shizune-san fez questão de confirmar mais uma vez.
— Sim. Não tenho nenhuma intenção de prejudicar a imagem da Hinako, mas, no mínimo, quero ser alguém que não pareça deslocado ao lado dela como colega de classe.
Naturalmente, a proximidade que Hinako e eu temos na mansão é algo que não podemos deixar que os outros saibam. Por isso, por exemplo, decidi que, a partir de agora, nossos almoços juntos serão mantidos em segredo. Ninguém pode me ver dando comida para a Hinako ou deixando-a descansar a cabeça no meu colo.
— E… eu também quero ajudar a resolver o problema da Narika.
— Da Miyakojima-sama?
Shizune-san inclinou a cabeça, confusa. Pensando bem, eu ainda não havia explicado a situação da Narika em detalhes. Contei a Shizune-san que eu e Hinako estávamos ajudando Narika a fazer amigos.
Se eu vou ajudar a Narika a fazer amigos, primeiro preciso aprender a fazer amigos eu mesmo…
Ajudar Narika, de forma inesperada, acabou me fazendo refletir sobre mim mesmo. Então pensei: por que não resolver tudo de uma vez? Vou fazer com que tanto a Narika quanto eu nos encaixemos melhor do que nunca na Academia Kiou.
— Então, Itsuki-san, vamos definir sua primeira meta como fazer um novo amigo — sugeriu Shizune-san.
Não a Hinako, nem a Tennouji-san, nem a Narika, nem a Asahi-san, nem o Taishou. Fazer um novo amigo e conhecer um novo grupo de pessoas. Assim, eu poderia compreender melhor a Academia Kiou… e, mais especificamente, a dinâmica da Turma 2-A. Concordei com um aceno de cabeça.
— Você ainda tem a lista da turma que eu lhe entreguei antes?
— Ah, sim. Deve estar por aqui em algum lugar…
Tirei um maço de papéis da gaveta da mesa. Era um dos documentos que Shizune-san havia me dado quando comecei a frequentar a Academia Kiou. Lembro que, na época, eu estava tão ocupado que acabei passando os olhos por ele às pressas, no banheiro.
— Vamos usar essa lista para escolher alguém com quem você acha que conseguiria conversar com mais facilidade.
Isso era… surpreendentemente cauteloso. Era claramente uma boa ideia, mas Shizune-san estava propondo uma estratégia muito mais cuidadosa e pragmática do que eu imaginava.
— É fácil esquecer depois que nos acostumamos, mas todos os alunos da Academia Kiou vêm de famílias da alta sociedade. Não somos os únicos cautelosos com relacionamentos — eles provavelmente também são. Você pode achar esse processo excessivamente formal, Itsuki-san, mas tenho certeza de que muitos outros fazem exatamente o mesmo.
Entendi… Eu nunca tinha esquecido que os alunos daqui eram de famílias influentes. Mas, ultimamente, isso não parecia tão real para mim. Como eu sempre andava com o mesmo grupo, acabei relaxando demais. Com as pessoas de sempre, eu me sentia à vontade porque já nos conhecíamos. Nem percebi quando baixei a guarda.
Mas criar novas conexões exige uma postura diferente. Preciso reconhecer conscientemente que estou lidando com alunos da Academia Kiou.
— Por exemplo, que tal essa pessoa aqui? — Shizune-san apontou para um nome na lista.
O nome era…
— Kita Yuusuke.
— O herdeiro de uma empresa de TI de médio porte. Como sua história de fachada também é a de herdeiro de uma empresa de TI, vocês têm origens parecidas, então deve ser mais fácil se aproximar.
— Mas eu não entendo quase nada de TI… a conversa não vai morrer rápido?
— Então você terá que estudar para compensar.
Ela estava certa. Assenti com a cabeça.
— Se não me engano, quando decidimos essa história de fachada, você estudou um pouco sobre TI, não foi?
— Sim, mas foi só o básico do básico. Não acho que seja suficiente.
— Concordo.
Até agora, eu só tinha estudado o mínimo necessário para não me denunciar. Mas agora minha meta era mais alta: me tornar um aluno à altura da Academia Kiou. Isso exigiria um esforço de longo prazo. Uma pontinha de dúvida surgiu — será que isso realmente vai dar certo?
— Será que você não deveria simplesmente trabalhar em uma empresa de TI no futuro?
— Hã?
— Você tem feito um excelente trabalho como cuidador da Ojou-sama. Então, se algum dia ficar inseguro quanto ao seu futuro, tenho certeza de que o Grupo Konohana estaria disposto a ajudar. Conseguir uma carta de recomendação para uma empresa de TI não seria difícil.
— S-Sério…?
— Sim. Claro, isso supondo que você não cometa um erro catastrófico até lá.
Considerando que essa possibilidade não era exatamente zero, senti um leve desconforto. Já atravessei algumas pontes perigosas — como entrar na mansão sem permissão para continuar minhas funções ou decidir parar de mentir para a Tennouji-san e revelar minha verdadeira identidade.
— Deixando seus planos futuros de lado… se você encarar isso com essa mentalidade, será mais fácil manter a conversa fluindo e você terá mais motivação para estudar.
— É verdade.
Imaginar-me trabalhando em uma empresa de TI no futuro realmente aumentava minha motivação. Tudo o que eu aprendesse certamente seria útil para minha carreira. Mas, acima de tudo, poder conversar com esse tal de Kita de igual para igual era importante. Diferente de mim, que só estava interpretando um papel, ele realmente estava destinado a assumir uma empresa de TI.
— Tente abandonar a ideia de que você está apenas "atuando" — disse Shizune-san, com um olhar sério. — Para resolver os problemas que enfrenta agora, você precisa se tornar, de verdade, um estudante da Academia Kiou em todos os sentidos.
— Sim.
Tornar-me verdadeiramente um estudante da Academia Kiou. Shizune-san fez questão de reforçar essas palavras.
— Relações humanas não funcionam bem quando são construídas sobre mentiras ou blefes. Mas, por outro lado, isso significa que você não precisa continuar fingindo.
Ou seja, de agora em diante, eu precisava encarar tudo como meu verdadeiro eu.
— Aja de acordo com a sua própria vontade. Não posso garantir que sempre terei a resposta perfeita, mas vou te apoiar no que puder. Vamos superar isso juntos.
Suas palavras estavam carregadas de gentileza. Enquanto me sentia grato, acabei encarando o rosto de Shizune-san.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não… é só que você pareceu bem empolgada com isso.
Shizune-san piscou, surpresa. Ela mesma não tinha percebido.
— É porque você está se tornando alguém verdadeiramente insubstituível — como se escolhesse cuidadosamente cada palavra, Shizune-san continuou. — Se, no futuro, contratássemos outro cuidador… será que alguém conseguiria se dedicar à Ojou-sama com a mesma intensidade que você?
A conclusão implícita era óbvia: não conseguiria. Mas, ao mesmo tempo, aquelas palavras me deixaram um pouco inquieto. Eu não estou passando por tudo isso apenas por causa do trabalho.
— Para ser sincero, eu nem encaro mais isso como um emprego. Eu faço isso porque quero.
Talvez eu não precisasse ter dito isso. Mas eu não queria que ela tratasse tudo como apenas parte das minhas obrigações. Shizune-san assentiu lentamente.
— Eu sei. É por isso que quero te apoiar não apenas como sua superior, mas como uma amiga — com isso, ela me ofereceu um sorriso suave. — Há algo de que você precise? Vou providenciar o que estiver ao meu alcance.
— Bem… por enquanto, eu gostaria de focar nos estudos de TI…
— Eu já reuni um conjunto completo de materiais de estudo.
Shizune-san saiu da sala por um instante e voltou empurrando um carrinho cheio de livros. Ela aparentemente já havia preparado tudo com antecedência.
— Além disso, se possível, você poderia providenciar um computador? Acho que só ler livros não vai ser suficiente…
— Eu cuido disso — Shizune-san concordou de imediato. — Se surgir qualquer outro problema, venha falar comigo. A partir de agora, vou te apoiar ainda mais do que antes.
Suas palavras foram extremamente reconfortantes. Saber que Shizune-san estava disposta a me dar cobertura fazia parecer que eu podia conquistar qualquer coisa.
— Shizune-san…
— Sim?
— Shizue-mon…
— Se me chamar assim de novo, eu corto fora.
Fazia tempo que eu não ouvia essa ameaça. Claramente, eu tinha me empolgado demais. Apenas assenti em silêncio.
Até agora, eu vinha tratando a Academia Kiou como se fosse o mundo de outra pessoa. Uma escola que eu frequentava apenas para cumprir meu trabalho como cuidador. Um lugar onde alguém como eu não pertencia de verdade. Não posso negar que me faltava um senso de pertencimento.
Mas isso muda agora. De agora em diante… vou me esforçar para compreender de verdade a Academia Kiou e as pessoas que dividem esse espaço comigo. Vou aceitar o fato de que eu também sou um estudante.
— Então, vamos começar amanhã.
— Sim.
Comecei a estudar imediatamente com os materiais que ela havia me entregado.
*
— Então… sobre o que? — Kita me olhou e perguntou. Abri a página do material de estudos que Shizune-san havia me dado na noite anterior.
— Ouvi dizer que você entende bastante dessas coisas de TI, Kita-kun… Será que pode me ajudar com este problema?
Só para deixar claro, eu não estava perguntando isso apenas para puxar conversa. Eu realmente tinha estudado a sério na noite anterior e, mesmo assim, não consegui entender. Até a própria Shizune-san — que normalmente é boa em praticamente tudo — admitiu que não era especialista em TI e não soube resolver. Embora ela ainda tivesse uma base melhor do que a minha…
— Ah, isso aqui? É o seguinte—
Kita explicou a solução de forma clara e lógica. A explicação foi fácil de acompanhar, e o tom dele transbordava confiança. Aquela questão devia ser algo que ele já dominava há muito tempo.
— Entendi… muito obrigado.
Foi um daqueles momentos que fazem a gente compreender, de verdade, a expressão "deixe isso com quem entende".
— Isso é da prova de Engenheiro de Tecnologia da Informação Fundamental, não é? Você vai prestar, Tomonari-kun?
— Vou, sim. Minha família trabalha nessa área, então…
Esse foi o plano que Shizune-san e eu definimos. Como meta de curto prazo, eu estava visando obter uma certificação nacional relacionada à área de TI.
— Você já prestou essa prova, Kita-kun?
— Já. Agora estou planejando fazer a de Engenheiro de Tecnologia da Informação Aplicada.
Esse é o nível acima da prova Fundamental, que eu estava estudando. Normalmente, é uma certificação que as pessoas buscam depois de entrar no mercado de trabalho. Mas, depois da explicação clara que ele deu antes, eu não duvidava que ele conseguiria passar.
— Tem mais pessoas como nós, em situações parecidas?
— Na Turma A, acho que não. Mas na turma ao lado, sim.
— Entendi… — respondi, assentindo.
Pelo visto, Kita já tinha algumas conexões com gente em circunstâncias semelhantes. Era exatamente isso que estava me faltando. Não bastava ficar apenas com a Hinako, a Tennouji-san ou a Narika. Eu precisava me relacionar com a maioria dos alunos da Academia Kiou.
— Confesso que fiquei meio surpreso. Não achei que você fosse falar comigo, Tomonari-kun.
Kita disse isso com um sorriso torto. Será que eu devia perguntar mais? Não… eu precisava perguntar. Afinal, eu havia decidido mudar a forma como os outros me viam.
— Sobre isso… preciso perguntar. Eu estava chamando atenção de um jeito ruim? — Criei coragem e perguntei. O rosto de Kita ficou meio sem graça.
— Bom… é… não dá exatamente pra negar…
— Imaginei.
Abaixei a cabeça.
— Não era minha intenção parecer assim… Como eu parecia para você?
— Hm… quando você se transferiu, estava sempre com a Konohana-san, mostrando a escola. Depois disso, começou a fazer aqueles chás com a Tennouji-san e o pessoal… então eu pensei que talvez você não estivesse interessado em gente "normal" como a gente.
— Não é nada disso…
Na verdade, para mim, vocês é que não são exatamente "normais"… Os alunos da Academia Kiou são todos indivíduos excepcionais. Por isso, mesmo quando surgem tensões nos relacionamentos, dificilmente isso evolui para bullying. Mas isso também torna mais difícil perceber como os outros nos enxergam.
Aquele aluno da Turma B que foi grosseiro com a Narika era um caso raro na Academia Kiou — alguém que deixava as emoções muito à flor da pele. Se não fossem as palavras dele, talvez eu nem tivesse percebido isso.
Essa foi por pouco… se eu tivesse continuado sem me importar, poderia ter virado alvo de inveja.
Pensando bem, fazia todo sentido. Se eu só aparecesse andando com os VIPs da academia, não era estranho que os outros se sentissem incomodados. Por isso, eu precisava começar a me conectar com todo tipo de pessoa. E, se possível, queria que Kita fosse meu primeiro passo.
Com um leve nervosismo no peito, falei:
— Se não for incômodo… será que você poderia me ensinar mais coisas depois da aula hoje?
— Hã?
Kita entrou em pânico visivelmente. Droga… será que eu fui direto demais? Depois de tudo o que aconselhei a Narika, acabei cometendo o mesmo erro. Talvez eu não estivesse em posição de dar lição em ninguém. Mesmo assim, apesar da ansiedade que girava no meu peito, Kita—
— Não, tudo bem. Se você não se importar comigo, eu topo.
Por algum motivo, o pânico dele sumiu, e ele respondeu de forma amigável.
— T-Tem certeza?
— Sim. Quer dizer, fiquei meio surpreso, mas… — escolhendo bem as palavras, Kita continuou. — Eu vejo você andando bastante com o Taishou-kun.
— Taishou-kun?
— É. Eu estudei na mesma turma que ele no ano passado, então ainda conversamos de vez em quando… Ele comentou que você sabe um monte de coisas interessantes.
Agora tudo fazia sentido. Kita devia confiar em mim por causa da minha proximidade com o Taishou. No fim das contas, eu estava sendo salvo pelo carisma dele.
Valeu, Taishou…
Mas essas "coisas interessantes" de que ele falou provavelmente não eram a regra dos três segundos, pegar coisas emprestadas sem devolver ou dividir a conta — coisas que eu expliquei naquela primeira reunião do chá. …É complicado.
Enquanto pensava nisso, uma ideia repentina me atingiu. Será que… o Taishou e a Asahi-san já sabiam como as pessoas da escola me viam? Aqueles dois têm um círculo social enorme. Provavelmente já ouviram algum boato sobre mim.
Ainda bem que as primeiras pessoas de quem me aproximei foram eles dois…
Sou realmente grato por terem ficado ao meu lado, apesar de qualquer rumor que estivesse circulando. A família do Taishou administra uma grande empresa de mudanças, a Taishou Movers.
A família da Asahi-san é dona de uma enorme rede de eletrônicos, a J’s Electronics. Ambas são empresas voltadas ao consumidor final. Não sei se é por causa da origem deles, mas a forma como os dois se preocupam com os outros é algo que admiro sinceramente, do fundo do coração.
— Então… até depois da aula.
Kita assentiu com um simples.
— É.
*
Depois das aulas. Enquanto os outros alunos iam embora, esperei ter certeza de que não havia ninguém por perto antes de me aproximar da Hinako.
— Hinako.
Ninguém estava ouvindo. No corredor, falei com ela no meu tom casual de sempre, sendo direto.
— Desculpa… hoje você vai ter que ir para casa sem mim.
— Se for por causa da Miyakojima-san, eu posso ajudar também, sabia…?
— Não é sobre a Narika hoje. É mais… algo pessoal.
Explicar tudo levaria tempo demais. Enquanto eu pensava em como convencê-la, Hinako assentiu de leve.
— Entendi — mesmo sem explicações, ela aceitou. — Eu confio em você… em grande parte, Itsuki…
— Em grande parte…?
— Tirando a sua… falta de autocontrole…
Espera. O que exatamente isso quer dizer? Enquanto eu ficava ali, confuso, Hinako me encarou diretamente.
— Tem algo em que eu possa ajudar? — Ela inclinou levemente a cabeça ao perguntar. Eu não esperava ouvir algo assim e congelei por um instante. — Eu quero… ajudar você, Itsuki.
Ela dizia coisas tão gentis. Mal consegui segurar um sorriso estranho que ameaçava surgir no meu rosto.
— Obrigado. Se eu precisar de ajuda, talvez te chame.
— Uhum… pode deixar comigo.
Com isso, Hinako se virou para ir embora. Mas, pouco antes de sair, ela olhou para trás uma última vez.
— Volte… logo, tá?
Com uma expressão solitária, Hinako falou em voz baixa. Acompanhei Hinako até o portão da escola. Depois de confirmar que ela entrou no carro da família Konohana, encontrei o olhar da Shizune-san no banco do passageiro.
Eu já havia avisado Shizune-san que ficaria um pouco mais na academia naquele dia. Fiz uma leve reverência e voltei para a sala de aula.
— Desculpa a demora.
Falei com Kita, que se preparava na sala. Rapidamente espalhei o livro e o caderno sobre a mesa.
— Muito bem, Tomonari-kun. Vamos continuar de onde paramos hoje de manhã?
— Por favor.
Como era eu quem estava pedindo ajuda, inclinei a cabeça. Kita soltou uma risadinha ao ver meu gesto exageradamente formal. …Parecia que tínhamos encurtado a distância entre nós, nem que fosse um pouco.
A partir dali, Kita começou a me ensinar várias coisas.
Estudar TI… na verdade, é até bem divertido.
Ele explicou conceitos básicos, como números binários e operações lógicas, de forma clara e paciente. Vindo de uma família pobre, eu sempre estive distante da tecnologia moderna. Talvez por isso mesmo eu a achasse tão fascinante.
— Então, no geral, é isso. Sinceramente, as questões da manhã dá pra resolver só decorando provas anteriores, mas as da tarde exigem que você entenda melhor os fundamentos.
— Entendi.
Ele escolhia as palavras com cuidado, mas era óbvio que eu ainda tinha um longo caminho pela frente. Em vez de buscar resultados rápidos, eu precisaria estudar com paciência. Ainda assim, o conhecimento do Kita era impressionante. Será que todos os alunos da Academia Kiou são assim tão inteligentes? Pensar nisso agora chega a dar um pouco de medo.
— Kita-kun, você já pensou em que tipo de presidente de empresa quer ser no futuro?
— Não… ainda não pensei tão longe. Mas não quero ser só um gestor. Quero ser alguém com habilidades técnicas de verdade. Não quero que pensem que eu só cheguei lá por causa dos meus pais.
Ele tinha até uma visão clara do próprio futuro. Nesse momento, Kita olhou para o relógio da sala.
— Foi mal, Tomonari-kun. Lá em casa tem horário limite, então já preciso ir.
— Obrigado por me ensinar tanta coisa.
Kita pegou a mochila e saiu da sala. Fiquei sozinho.
Estou começando a perder o foco… talvez eu devesse ir para casa também. As aulas da Academia Kiou já são puxadas por si só. Minha cabeça estava bem cansada. Mas, para alguém como eu — que antes era só um cara comum — acompanhar os alunos daqui exigiria mais do que esforço pela metade.
…Vamos insistir mais um pouco.
Ainda mais porque, por sorte, eu estava começando a achar o estudo interessante. Tentei resolver novamente, sozinho, as partes que Kita havia explicado.
— Tomonari-kun.
De repente, alguém me chamou por trás. Quando me virei, Kita estava ali, parado, olhando para mim.
— Ué? Você não tinha ido embora?
— Passei no banheiro antes… mas, pensando bem, acho que vou ficar mais um pouco também.
— Sério? Tem certeza?
— Tenho.
Kita se sentou novamente na carteira à minha frente.
— Ver você se esforçando assim me fez sentir que eu também preciso dar o meu melhor.
Dizendo isso, ele espalhou seus materiais de estudo sobre a mesa. Se o Kita continuar se puxando desse jeito, eu nunca vou alcançar… mas, sinceramente, fico feliz que ele tenha resolvido ficar. Voltamos a estudar, totalmente concentrados.
*
— Aliás, Tomonari-kun… o festival esportivo está chegando, né… — depois de cerca de uma hora, Kita se espreguiçou e comentou. — Sendo sincero, como você se sente em relação a isso? Está confiante? — ele perguntou com um leve ar de preocupação.
— Nem um pouco.
— Pois é… eu também não… — nós dois soltamos risadas secas. — Eu sou totalmente caseiro. Sou confiante com estudos ou qualquer coisa ligada a computador, mas esportes? Não é comigo.
— Eu não diria que sou ruim em esportes, mas o nível dos alunos daqui é tão alto que fico com medo de não acompanhar.
— Agora que você falou… você até parece se sair bem nas aulas de educação física. Se nem você está confiante, o que sobra pra mim…?
— Aqui, ser "mais ou menos" em esportes não significa muita coisa…
Segundo a Shizune-san, alguns alunos treinam até com equipes profissionais. Só me resta torcer para não cair contra esse tipo de gente no festival esportivo.
— Hm… Itsuki? Itsuki, é você mesmo?!
Uma voz familiar ecoou pelo corredor. Quando me virei, Narika estava ali, sorrindo de orelha a orelha.
— Narika?
— M-Miyakojima-san…?
Kita se assustou com a aparição repentina dela. Mas a parede da sala bloqueava a visão, então Narika não percebeu Kita e continuou andando até mim.
— Itsuki, você ainda está na sala? Não está com a Konohana-san hoje?
— Estou estudando um pouco. E você, Narika?
— Minha família pediu para eu verificar os equipamentos usados nas aulas de educação física…
Enquanto falava, Narika finalmente percebeu Kita sentado ao meu lado.
— Ah!
Por um instante, o rosto dela ficou vermelho. Logo em seguida, como se quisesse esconder o constrangimento, sua expressão ficou rígida.
— O-Olá, eu sou… a Miyakojima Narika.
— K-Kita Yuusuke…
Os dois estavam visivelmente nervosos. Mas essa era uma ótima chance para a Narika fazer um novo amigo. Lembrando da nossa conversa anterior, resolvi fazer uma pergunta a ela.
— Narika, o que você acha que é necessário para ir bem no festival esportivo?
— Hm… b-bem, acho que tem que treinar até não aguentar mais… Mas, pessoalmente, não acho que seja preciso se preocupar tanto com resultados.
Narika começou meio atrapalhada, mas foi se acalmando enquanto respondia. A resposta dela me pegou de surpresa.
— Não é preciso focar em resultados nos esportes. Só uma minoria vai realmente usar isso no futuro. Mas treinar o corpo para poder se divertir? Isso nunca é perda de tempo.
Narika continuou, com a voz firme. Quando percebi, tanto eu quanto Kita estávamos completamente atentos às palavras dela.
— Existem muitos esportes diferentes — tênis, futebol, beisebol, natação… Eles são como cartuchos de videogame. O corpo é o console. Quanto mais você treina o corpo — quanto melhores são as "especificações" do console — mais jogos você pode jogar e aproveitar.
Ela continuou, com o rosto iluminado de empolgação.
— Só de treinar o corpo, você já amplia tudo o que pode aproveitar na vida. Não existe investimento melhor. …E, se no futuro você acabar trabalhando sentado, os esportes são ótimos para espairecer.
Era um ponto de vista valioso — e convincente.
— Ah!? D-Desculpa, ainda tenho coisas pra fazer. Até mais!
De repente, Narika entrou em pânico e saiu correndo. Eu e Kita acompanhamos com o olhar enquanto ela se afastava trotando pelo corredor.
— Que legal.
Kita murmurou, quase para si mesmo.
— Kita-kun?
— N-Nada não!
Ele balançou a cabeça rapidamente.
— A propósito, Tomonari-kun… você chamou a Miyakojima-san pelo primeiro nome agora há pouco…
— Ah, sim. Na verdade, eu e a Narika somos primos.
— O quê?! Sério?!
É… eu entendo a surpresa. Quando descobri isso na infância, também fiquei chocado.
— Talvez a Miyakojima-san seja mais fácil de conversar do que eu pensava.
As palavras dele fizeram meus olhos se arregalarem. Kita deu um sorriso torto.
— Eu gosto de jogos. Até faço alguns por conta própria. Então aquela analogia que ela fez bateu direitinho comigo.
Até agora, as pessoas que a Narika abordava geralmente ficavam confusas. Kita foi a primeira pessoa que vi reagir de forma positiva. Isso… valia a pena aprofundar.
— A família da Narika administra uma grande empresa de artigos esportivos e um dojô. Lá, vivem aparecendo pessoas que não são boas em esportes, e ela convive com isso desde pequena. Acho que é por isso que ela consegue falar assim, com base na experiência real.
— Sério…? — Kita assentiu, claramente interessado. — Talvez eu me esforce mais no festival esportivo.
Por dentro, comemorei cerrando o punho. Não era como se a Narika tivesse feito um amigo ali, mas alguém havia reconhecido o valor dela. Por que, dessa vez, tinha dado certo? Antes, sempre dava errado…
…Será que foi por minha causa?
Assim como a influência do Taishou ajudou as pessoas a me aceitarem, talvez a minha presença tenha feito com que enxergassem a Narika de outra forma. É isso… se aceitarem a mim, vão começar a aceitar a Narika também. Ela tem muitas qualidades incríveis. O problema é que nunca conseguiam percebê-las.
Então, tudo o que eu precisava fazer era servir de ponte. Ao conquistar a confiança das pessoas, eu desfaria os mal-entendidos sobre a Narika. O plano dela para deixar de ser solitária… finalmente, eu conseguia enxergar um caminho.
*
Alguns dias se passaram desde que conheci o Kita.
— Oh, Tomonari-kun.
Durante o intervalo após a terceira aula, encontrei Kita no corredor. Havia um garoto desconhecido ao lado dele.
— Esse é o cara da Turma B de quem eu falei antes, alguém em uma situação parecida com a nossa.
— Prazer.
O garoto de óculos me cumprimentou de forma descontraída. Inclinei a cabeça e respondi:
— Prazer também.
— Hm? Tomonari… espera, você é aquele cara de quem andam dizendo que é próximo da Miyakojima-san?
— Provavelmente esse mesmo.
Dei um sorriso sem graça e assenti. Pelo jeito que ele falou "aquela Miyakojima-san", dava para perceber que ele não tinha uma boa impressão da Narika. Mas Kita entrou na conversa imediatamente.
— A Miyakojima-san não é tão assustadora quanto dizem por aí.
— O quê? …Sério mesmo?
— Sério. Eu ouvi isso do Tomonari-kun, ela gosta de doces e essas coisas, como qualquer pessoa normal.
— A Miyakojima-san come doces?
— Come. E além disso, ela tem um lado bem confiável… depois que você conhece, ela não tem nada de assustadora. É tipo… ela é legal. E meio incrível.
Kita falou com um brilho quase sonhador nos olhos. A imagem da Narika estava melhorando aos poucos. Talvez ele estivesse se empolgando demais, mas isso era infinitamente melhor do que manter impressões negativas. E minha própria rede de contatos também estava crescendo.
— Tomonari, você está tentando tirar a certificação de Engenheiro de Tecnologia da Informação Fundamental, né?
— Estou, sim. Mas ainda não decidi quando vou prestar a prova…
— Entendi. Eu pretendo abrir minha própria empresa no futuro, então, se tiver qualquer dúvida sobre negócios, pode me perguntar.
O garoto sorriu de forma amigável. Abrir uma empresa… era uma meta gigantesca. Mas, para um aluno da Academia Kiou, talvez fosse algo realmente alcançável. A família daquele garoto aparentemente também comandava uma empresa de TI, embora ele parecesse bem diferente do Kita.
Depois de me despedir dos dois, voltei para a sala de aula e lancei um olhar para a Hinako. Hinako estava cercada por alguns alunos, conversando com um sorriso refinado.
Todos à sua volta eram incrivelmente bonitos, exalando uma elegância que os distinguia claramente dos demais. Mesmo à distância, era impossível não perceber. Eles estavam em um nível completamente diferente dentro da academia.
Talvez já seja hora… de tentar falar com aquele grupo. Engoli em seco, sentindo o nervosismo tomar conta. Parecia que eu estava prestes a enfrentar um boss final.
Mas eu não podia recuar. Não se tratava apenas de levar uma vida tranquila nesta academia. Para estar ao lado da Hinako… eu precisava ser reconhecido pelas pessoas que agora estavam ao lado dela.
Eu tinha que me lembrar de uma coisa — a Academia Kiou não é uma escola comum. No meu antigo colégio, o topo da hierarquia social era ocupado por pessoas bonitas, atletas ou aqueles que sabiam animar a turma. A Academia Kiou era diferente. Aqui, a hierarquia social é moldada pelo histórico familiar e pelo carisma individual.
Não posso fazer nada quanto à minha origem, e carisma não é algo que se adquira da noite para o dia. Mas, por outro lado, isso significa que eu não preciso recorrer a atitudes chamativas. Não há necessidade de pensar demais. Tudo o que eu preciso fazer é deixar minha presença clara para eles.
— Konohana-san.
— Nnh!
Ao chamar Hinako, um som estranho escapou de sua boca.
Por um breve instante, o verdadeiro eu dela apareceu… Os colegas ao redor inclinaram a cabeça, confusos, como se estivessem tentando entender se tinham ouvido aquilo mesmo. Antes que Hinako se denunciasse ainda mais, fui direto ao ponto.
— O chá que você recomendou outro dia estava delicioso. Muito obrigado.
Ao ouvir isso, Hinako mudou instantaneamente para seu impecável modo de Ojou-sama e respondeu:
— Fico feliz em saber disso. Avisarei caso tenha outras recomendações.
Ela exibiu um sorriso elegante e deslumbrante, capaz de encantar qualquer um. A troca de palavras deixou os colegas ao redor de olhos arregalados.

— Você é o Tomonari-kun, certo? Você é próximo da Konohana-san? — Uma das colegas próximas à Hinako tomou a iniciativa.
Aí está. Esse era o momento. O instante em que eu finalmente fazia contato com o topo da hierarquia da academia. Eu não podia deixar essa oportunidade escapar.
— Bem…
Minha resposta saiu um pouco hesitante. A pressão para não errar era tão grande que o nervosismo acabou falando mais alto.
Calma… lembre-se da confiança que a Tennouji-san te ensinou. Recordei a postura digna que a Tennouji-san havia incutido em mim. Seu treinamento quase espartano deixou isso gravado no meu corpo. Mesmo em um momento crítico como aquele, meus movimentos lembraram a técnica.
A tensão começou a se dissipar. Tentando me manter o mais sereno possível, respondi:
— Minha família tem vínculos com a empresa da Konohana-san. Por causa disso, já tivemos contato antes.
— Ah, entendo!
A garota à minha frente arregalou levemente os olhos.
— Desculpe, ainda não me apresentei direito.
— Não, nós é que devemos pedir desculpas por não termos nos aproximado de um colega de classe antes.
Em uma escola comum, esse tipo de troca formal de desculpas pareceria exagerada, mas nesta academia isso era perfeitamente normal. Isso… não é nada ruim. Talvez por eu ter esclarecido minha ligação com a Hinako, os olhares desconfiados desapareceram. Agora, tudo dependia da forma como eu me comportaria.
— Estávamos falando sobre uma reunião do chá. Você se importaria de compartilhar algumas de suas misturas favoritas, Tomonari-kun?
— Claro… vejamos…
Ser convidado para um chá ainda parecia um pouco cedo demais. E, sendo sincero, se me convidassem agora, eu provavelmente só ficaria perdido. Citei algumas misturas de chá de que gostava, e eles agradeceram educadamente.
— A propósito, Tomonari-kun, você parece muito calmo.
— É mesmo?
— Sim. Conversar com você passa uma impressão diferente.
Se eu quisesse brincar, poderia ter perguntado: "Ah é? E que impressão eu passava antes?" Mas esta é a Academia Kiou. Em vez disso, inclinei levemente a cabeça.
— Obrigado. Tenho participado de alguns eventos sociais recentemente, então estou trabalhando para aprimorar minhas maneiras.
Os estudantes ao redor assentiram, visivelmente impressionados. E eu não menti em nada. Afinal, minhas aulas de etiqueta são recentes e vêm direto da Tennouji-san.
— Ainda sou um pouco inexperiente, mas espero que possamos nos dar bem daqui para frente.
Com isso, afastei-me do grupo da Hinako. Logo depois, começou a aula do quarto período. Quando as aulas terminaram e o intervalo do almoço começou, fui até o antigo prédio do conselho estudantil.
Ao abrir a porta do terraço, avistei a Hinako.
— Itsuki.
— Hinako.
Nossos olhares se encontraram e—
— Viva…!
— Viva!
Batemos as mãos em um high-five.
— Eu… me saí bem?
— Sim. Você me salvou.
Na verdade, aquela troca durante o intervalo… Hinako e eu já tínhamos combinado tudo antes. As pessoas que achavam que eu estava tentando me infiltrar no círculo da Hinako eram justamente aquelas que não tinham contato com ela. Para elas, Hinako e a Tennouji-san eram figuras inalcançáveis, quase intocáveis — e isso levava a esse tipo de suposição.
Mas, na Academia Kiou, existem alguns alunos que conseguem se aproximar de Hinako e do grupo dela com naturalidade. Os que estão no topo da hierarquia e interagem diretamente com Hinako não me veem como alguém tentando subir socialmente apenas por falar com ela.
Por isso… não há problema em contar com a Hinako. Ela mesma disse que queria ajudar, então aceitei. Com os alunos da elite da turma, eu só tenho uma coisa em comum. Hinako. Então decidi usar isso para criar uma conexão com o topo da hierarquia. Em outras palavras, Hinako é meu único elo com eles. Sem ela, eu nem teria por onde começar uma conversa.
A interação foi bem-sucedida. Eu poderia ter continuado falando, mas não queria parecer insistente demais, então acho que sair naquele momento foi a decisão certa.
Embora isso possa fazer alguns pensarem que estou puxando saco de novo… Por isso, o acompanhamento é essencial. Mais tarde, vou conversar com o Kita sobre alguma coisa.
— Mas eu não tive muita certeza sobre o timing… então acabei deixando meu verdadeiro eu escapar um pouco.
Hinako disse, com um ar culpado. De fato, nós havíamos ensaiado o que dizer, mas quando eu a chamei, ela pareceu um pouco surpresa.
— Você prefere que eu evite falar com você na frente dos outros?
Será que abordá-la em público a deixaria desconfortável? Quando perguntei, Hinako balançou a cabeça.
— Mesmo que eu esteja atuando… fico feliz em falar com você, Itsuki.
— Entendi.
As palavras dela me trouxeram um alívio imediato.
— Se isso te deixou feliz, então todo o esforço valeu a pena.
Desta vez, eu me aproximei com um plano em mente, mas… no futuro, quero conseguir falar com ela de forma natural. Aproveitamos um bento luxuoso, ficamos ali por um tempo e depois deixamos o terraço.
— Itsuki!
No caminho de volta para a sala, Narika me chamou.
— Narika, o que foi?
— Escuta só! Agora há pouco, um colega de classe falou comigo!
Hinako e eu trocamos olhares.
— Provavelmente um dos caras que estavam com você depois da aula ontem… acho que um amigo dele.
Ela se referia ao garoto que falou sobre abrir uma empresa. Ele parecia desconfiado da Narika no início, mas tudo indica que o Kita esclareceu o mal-entendido.
— Que ótimo.
— Sim! Fiquei tão feliz… senti o calor das pessoas…!!
Narika estava tão emocionada que seus olhos se encheram de lágrimas.
— Vocês dois, deixem que eu pague algo no próximo fim de semana como agradecimento!
Que gentileza. Eu até estava pensando que já estava na hora de voltar a praticar tênis. Ver a Narika tão animada também levantou meu astral. Com o coração leve, voltei para a sala de aula.
*
Naquela noite. Mesmo de bom humor, ainda havia muita coisa para refletir. Depois de terminar minhas tarefas e estudos, revisei mentalmente os pontos fracos do dia.
Por enquanto, as coisas com a Narika estão avançando aos poucos…
A preocupação é saber se conseguiremos chegar a tempo do festival esportivo.
Se o objetivo fosse apenas fazer amigos, o ritmo atual provavelmente daria resultado com tempo. Mas, faltando pouco mais de uma semana para o festival, não é o bastante para apagar completamente o trauma passado da Narika e prepará-la para encarar o evento em sua melhor forma.
Ainda assim, estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance. Começar coisas novas sem parar parece arriscado. Manter esse ritmo deve ser o mais seguro.
E quanto a mim?
Fiz vários conhecidos novos, especialmente por meio do Kita. E hoje, finalmente conversei com os alunos do topo da hierarquia — aqueles de quem eu vinha mantendo distância.
Sendo honesto, acho que não deixei uma impressão ruim. Mas—
Não é como se eu quisesse subir na hierarquia social…
Talvez isso seja só parte da minha natureza. Prefiro um ambiente um pouco caótico e descontraído a um cenário excessivamente brilhante. Estou me adaptando gradualmente a este lugar por meio dos estudos, mas preferência é outra história. …E aposto que a Hinako sente algo parecido.
Para ficar ao lado dela, preciso me relacionar com o grupo da elite. Mas fazer isso pode levar os alunos fora desse círculo a acharem que estou puxando saco.
É um problema complicado. Tentar me dar bem com todo mundo corre o risco de me fazer parecer alguém que só quer agradar.
No meu antigo colégio, eu nunca me preocupava com coisas assim.
Claro, lá também existia uma hierarquia social. Mas, naquela época, eu simplesmente não ligava. Então por que agora eu estava sofrendo tanto por causa de relacionamentos?
Até agora, tudo estava indo bem, mas falar com pessoas que eu não conhecia me deixava nervoso. E mesmo quando me deitava na cama, acabava pensando: "Talvez eu devesse ter feito aquilo de outro jeito." …Sinceramente, minha energia mental estava esgotada.
Justamente por saber como isso cansa é que, no meu antigo colégio, eu nunca me preocupava tanto. Então por que estou levando isso tão a sério agora? Um dos motivos é que eu quero ajudar a Narika a fazer amigos.
E o outro… é a Hinako.
"Itsuki… cuidar de alguém além de mim… eu não gosto disso."
As palavras que Hinako disse depois do nosso treino de tênis voltaram à minha mente, junto daquela expressão serena que ficou gravada na minha memória.
O que eu realmente sinto pela Hinako?
Eu ainda não tinha uma resposta, e o tempo foi passando. Então, alguém bateu à porta.
— Itsuki.
— Hinako?
Hinako entrou no meu quarto. Com cara de sono, ela foi direto para a cama e se jogou nela. Meus olhos se encontraram com os da Shizune-san no batente da porta. Ela fez uma reverência silenciosa e fechou a porta.
— Hinako, aconteceu alguma coisa?
— Não exatamente…
Pelo visto, não havia um motivo específico. Ou seja, tudo como sempre.
— Você está… estudando?
— Bom, mais ou menos…
Eu tinha estado estudando para a prova de Engenheiro de Tecnologia da Informação Fundamental mais cedo, então meu caderno ainda estava aberto. Provavelmente foi isso que a fez pensar que eu estava estudando. Na realidade, eu só estava quebrando a cabeça com relações humanas.
Talvez por já estar pensando nela, eu não soubesse muito bem como colocar em palavras, mas… estava com vontade de conversar com a Hinako.
— Eu estava mesmo pensando em dar uma pausa. Quer conversar um pouco?
Hinako respondeu com um curto:
— Mm.
Então ela não tinha vindo ao meu quarto só para dormir. Por um tempo, conversamos sobre coisas aleatórias — a vida na academia, o que andava acontecendo na mansão, o plano da Narika para deixar de ser solitária — uma conversa lenta, sem rumo definido.
— Pensando bem, você não tem ficado doente ultimamente, Hinako.
— Você quer dizer por causa do cansaço de atuar?
Assenti.
— Sim.
— Quando você está por perto… fica mais fácil.
— É mesmo?
— Mm… esse tempo com você é precioso para mim.
Até agora, o estresse de interpretar constantemente a Ojou-sama perfeita fazia Hinako ter febres com frequência. Mas, desde que eu me tornei seu cuidador, esses episódios diminuíram drasticamente.
Se for algo psicossomático, faz sentido que reduzir o estresse diminua a frequência. Parece que eu sou alguém que ajuda a aliviar o estresse dela. Isso me tranquilizou.
— Fwaa…
Hinako bocejou.
— Se estiver com sono, eu te acompanho até o seu quarto.
— Você não está com sono, Itsuki…?
— Ainda não… mas estou chegando lá.
Me espreguicei de leve, mas o sono não passou. Enquanto eu bocejava, Hinako, ainda deitada na cama, deu uns tapinhas no espaço vazio ao lado dela.
— De vez em quando… vamos dormir juntos?
Meu coração deu um salto. O sorriso suave da Hinako me fez desviar o olhar.
— Por mais que eu queira… vou recusar.
— Muu…
Se a Shizune-san descobrisse, eu estaria perdido, então neguei. Mas Hinako inflou as bochechas e se levantou.
— Vem aqui…
— Não, não, isso não vai acontecer…
Hinako segurou minha mão e me puxou em direção à cama. O braço esguio dela me fez hesitar em puxar de volta — parecia que eu me sentiria culpado se o fizesse. Acabei deixando que ela me arrastasse até perto da cama.
Ainda segurando minha mão, ela se deitou. Então, de repente, puxou minha mão com uma força inesperada.
— Uwa!?
Não esperava um puxão tão forte, perdi o equilíbrio e caí sobre a cama. Por um instante, tudo ficou confuso. Então percebi. Eu estava por cima da Hinako, nossos corpos quase encostando.

— Nnh, eh?
Hinako deixou escapar um som estranho. Era como se o próprio tempo tivesse parado — uma ilusão que me envolveu por completo. Até agora, eu já tinha ficado desnorteado pela proximidade com a Hinako inúmeras vezes. Quando ela deixava eu descansar no colo dela no terraço, ou quando eu lhe emprestava o ombro no carro, nossas peles sempre se tocavam a distâncias perigosamente íntimas.
Mas isso… isso era diferente. Meus instintos sabiam. A respiração quente e sincera da Hinako fez a franja do meu cabelo se mover. Afrouxei levemente a força do braço que me sustentava. A distância entre nós diminuiu apenas um centímetro.
Entrei em pânico e comecei a me afastar… mas me contive antes de me mover. Antes de sair dali, havia algo que eu precisava perguntar, não importava o quê.
— Hinako.
Os olhos dela se arregalaram em círculos perfeitos, e eu continuei.
— Hinako… o que você sente por mim?
Refletido nas pupilas redondas dela, meu próprio rosto parecia estranhamente sério, quase até cômico. Talvez eu tivesse feito uma pergunta desnecessária. Mas palavras, uma vez ditas, não podem ser engolidas de volta. Permaneci em silêncio, aguardando a resposta da Hinako.
— Eu… — os lábios dela se moveram lentamente. — Eu… sobre o Itsuki, eu… a…
— A…?
Eu estava desesperado para ouvir o que viria a seguir. Mas Hinako fechou os lábios, fechou também os olhos e—
— Zzz…
— Você dormiu!?
Não pode ser. Sério? Que tipo de momento é esse para pegar no sono? Mas, tratando-se da Hinako, era possível. Eu sabia que ela conseguia dormir em qualquer situação, não importando o contexto.
O choque quebrou o clima estranho. De certa forma, talvez até tenha me salvado. Olhando para o rosto tranquilo de Hinako enquanto dormia, senti meu próprio coração se acalmar.
…Pelo menos uma coisa ficou clara agora. Se nada mais, eu tinha entendido meus próprios sentimentos.
— Hinako.
Nenhuma resposta. Então isso não passou de um murmúrio egoísta… mas, para organizar meus sentimentos, resolvi dizer mesmo assim.
— Eu… vou me esforçar para me tornar alguém digno de você, Hinako.
Não porque eu precise estar ao lado dela, mas porque eu quero. Isso ficou claro para mim naquele momento. Tomando cuidado para não acordá-la, cobri Hinako com um cobertor. Já estava na hora de levá-la de volta para o quarto… mas decidi deixá-la dormir ali por mais um tempo.
*
Pela primeira vez, fiquei genuinamente feliz por ter praticado atuação todos os dias.
Fingindo dormir, Hinako se esforçava desesperadamente para manter a compostura. Pouco a pouco, ela virou o corpo de lado, como se estivesse apenas se mexendo durante o sono, escondendo o rosto de Itsuki. Ela não conseguia mais se controlar.
O rosto estava em chamas. O coração batia descontrolado. Por mais que tentasse se acalmar, não conseguia impedir que a expressão a traísse.
"Eu… vou me esforçar para me tornar alguém digno de você, Hinako."
As palavras que Itsuki dissera ecoavam em sua mente repetidas vezes. A cada repetição, uma onda avassaladora de emoções a atravessava.
Que estranho… eu… eu estou me sentindo tão estranha agora…!
A confusão não cessava. Dentro do peito, Hinako gritava.
O que é isso… o que é isso…? Esse sentimento estranho… eu não consigo conter…!
Ela queria se debater, extravasar tudo. Queria fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Se não fizesse, sentia que seu corpo poderia explodir. Apertando o cobertor com força, Hinako resistiu com todas as suas forças. Ao abrir os olhos apenas um pouco, viu as costas de Itsuki enquanto ele estudava, de frente para a mesa.
Um impulso inexplicável de tocar aquelas costas tomou conta dela. Mas ela se conteve. Tinha a sensação de que, se se aproximasse de Itsuki naquele estado, perderia completamente o controle de si mesma.
Eu…
Ela se lembrou da pergunta que Itsuki fizera pouco antes.
O que eu… sinto pelo Itsuki…?
Seu precioso cuidador. Alguém cuja companhia a deixava feliz. Era isso o que sempre pensara, e tinha certeza de que havia deixado esses sentimentos bem claros.
Mas… será que era só isso? Será que estava tudo bem encerrar aquilo com uma resposta tão simples?
Ela ainda não tinha encontrado uma resposta que a satisfizesse. Até que Itsuki voltasse a chamá-la, Hinako continuou lutando com os próprios pensamentos.
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