Volume 3

Capítulo 2: Um Dia Perfeito para Tênis

NA TARDE SEGUINTE.

Saí da mansão com Hinako e Shizune-san, viajamos de carro por cerca de uma hora e chegamos a uma grande instalação de hospedagem encravada nas montanhas.

— Uau, é enorme!

Depois de sair do carro e caminhar por cerca de cinco minutos, uma enorme quantidade de quadras de tênis apareceu diante de nós. Ao todo, eram doze quadras. Duas de saibro, duas de piso duro semelhante a asfalto e as oito restantes de grama artificial.

— Esta é uma das instalações pertencentes ao Grupo Konohana. No momento, está fechada para reformas estruturais, mas as quadras estão em perfeitas condições de uso.

Como o local está em reforma, naturalmente não havia hóspedes. Ou seja, aquele enorme complexo de quadras era só nosso.

— Miyakojima-sama chegou.

Um carro preto elegante entrou no estacionamento. Narika e sua acompanhante desceram do veículo. Ela nos avistou imediatamente e veio em nossa direção.

— Narika, estou ansioso pelo dia de hoje.

— Eu também! — respondeu ela, animada.

Narika parecia transbordar confiança naquele dia. Ela carregava uma bolsa de tênis no ombro e várias sacolas nas mãos.

— Isso é coisa pra caramba.

— Já que a Konohana-san preparou as quadras, achei que seria minha vez de trazer o equipamento. Raquetes, bolas e, por precaução, grips e cordas também. São todos os produtos mais recentes que trabalhamos. Confio totalmente na qualidade… Ah, e também trouxe roupas e tênis!

Enquanto falava, Narika tirava das sacolas conjuntos de roupas de tênis suficientes para todos nós. A família dela administra o maior fabricante de equipamentos esportivos do Japão, então seus produtos realmente são confiáveis. Decidimos usar o material que Narika trouxe.

— Os vestiários ficam ali — disse Shizune-san, nos guiando.

Troquei de roupa rapidamente, vestindo o conjunto de tênis que Narika havia me dado.

— Uau… é tão leve.

Eu já achava que as roupas de educação física da Academia Kiou eram de alta qualidade, mas essas eram de outro nível. No verão, a respirabilidade faz toda a diferença, e aquilo era absurdamente confortável. Os tênis também eram leves e facilitavam muito os movimentos.

— Itsuki-san, já terminou de se trocar?

Assim que terminei, ouvi a voz de Shizune-san vinda da entrada. Um pouco surpreso, respondi:

— Sim.

Quando saí do vestiário, Shizune-san estava me esperando.

— Sua gola está torta.

— Ah, desculpa…

Eu estava tão concentrado em como a roupa era confortável que esqueci completamente da aparência. Enquanto Shizune-san arrumava minha gola, fiquei refletindo.

— A propósito, Itsuki-san. Você sabe o nível do torneio?

Ela perguntou de repente.

— Ouvi dizer que é um torneio casual…

— É verdade. Mas isso é apenas do ponto de vista dos alunos.

— Como assim?

— Os alunos da Academia Kiou não se destacam apenas nos estudos, mas também nos esportes. Muitas famílias possuem equipes esportivas corporativas, então não é raro que treinem com profissionais desde cedo. Eles são versados tanto em negócios quanto em esportes. Alguns chegam a praticar ao lado de atletas profissionais.

Se a família possui uma equipe esportiva, é natural ter mais oportunidades de aprender sobre esportes. Era isso que Shizune-san queria dizer. Ultimamente, tenho percebido algo importante.

Os alunos da Academia Kiou não são bons apenas porque se esforçam mais. Eles simplesmente têm mais oportunidades de se manter motivados, seja para estudar ou se exercitar.

Cercados por CEOs, secretárias, artesãos ou atletas corporativos, nunca faltam exemplos a seguir. Eles crescem em um verdadeiro tesouro de estímulos. E, entre todos, Hinako e Narika se destacam de forma especial. Mais uma vez, fui lembrado do quão extraordinárias elas são.

— Mesmo sendo chamado de casual, provavelmente será mais difícil do que você imagina, Itsuki-san. Acompanhar aquelas duas não será fácil, mas dê o seu melhor.

— Sim.

Assenti, me preparando mentalmente. Tudo bem. Já estou na Academia Kiou há três meses. Estou acostumado a compensar com esforço.

*

 

Estranho… ainda não chegaram. Cheguei primeiro à quadra e testei o peso da raquete enquanto esperava.

— Desculpem a demora.

Pouco depois, Hinako e Narika apareceram. Ambas já vestiam roupas de tênis. Hinako usava uma camisa branca com um short-saia rosa. Narika vestia uma camisa azul-clara com um short-saia cinza.

O visual fresco das duas me deixou sem palavras por um instante. Eu deveria dizer algo como "ficou bonito"? Mas isso não era roupa casual, era roupa esportiva. Se eu elogiasse sem que esperassem, poderia soar como assédio. Enquanto eu travava nessa indecisão—

— O que você acha, Tomonari-san? — Hinako perguntou primeiro.

— Ah… ficou bem em você.

Hinako sorriu de forma adorável.

— Itsuki! E eu!? Como eu estou!? — Narika entrou na disputa.

— Também ficou bem.

— Isso soou meio sem entusiasmo, não acha?

— É impressão sua.

O que ela esperava? Dizer isso com toda seriedade é constrangedor.

— Mesmo assim, a Konohana-san fica elegante com qualquer coisa…

— Obrigada.

Hinako respondeu com naturalidade, como quem já está acostumada a receber elogios. Além da roupa de tênis, ela havia prendido o cabelo em um rabo de cavalo. Só essa pequena mudança já a fazia parecer completamente diferente. O charme natural dela era simplesmente impecável.

Depois disso, fizemos alguns alongamentos leves. Por serem filhas de grandes corporações, tanto Narika quanto Hinako — assim como as pessoas ao redor delas — se preocupavam bastante com lesões. O alongamento foi bem completo.

— A Konohana-san venceu no ano passado, mas e você, Itsuki? Qual é o seu nível? — Narika perguntou após o alongamento.

— Consigo trocar algumas bolas básicas, eu acho.

No meu antigo colégio, começaríamos a aprender tênis nas aulas de educação física no segundo ano. Mas, como me transferi para a Academia Kiou antes disso, nunca estudei tênis de verdade.

— Então vamos começar com um rali entre três pessoas. Depois fazemos saques e recepções.

Dito isso, Narika foi para o fundo da quadra. 

Hinako e eu revezávamos ralis com ela, trocando a cada três pontos. Narika enfrentava nós dois sozinha, mas não mostrava o menor sinal de cansaço.

— Itsuki! Pode bater um pouco mais forte!

— Entendi!

Segui as instruções dela do outro lado da rede. Mas, quando tentei bater mais forte, a bola ou saía da quadra ou batia na rede.

Como Narika estava do outro lado da quadra, provavelmente não nos ouvia. Falei com Hinako no meu tom normal.

— Hinako, troca comigo.

— Hm. Hoje eu vou… mostrar meu lado legal pro Itsuki.

Dizendo isso, Hinako começou a trocar bolas com Narika.

Essas duas são… absurdamente boas. Narika, claro, mas Hinako também era incrível. Como alguém tão pequena conseguia bater bolas tão rápidas? Era quase inacreditável.

Elas provavelmente acertavam o centro da bola com perfeição. Não foi à toa que Hinako venceu o torneio no ano passado.

— Itsuki… troca comigo.

Chegou a minha vez. Enquanto recebia a bola de Hinako, um pensamento escapou.

— Eu sempre penso isso nas aulas de educação física, mas você é muito boa em esportes, Hinako.

— Dá trabalho, então eu não gosto muito…

Ela soltou aquele comentário de nível gênio com a maior naturalidade.

— Mas agora… eu estou animada…

— Hã?

— Nada.

Pareceu que ela ia dizer algo, mas se fechou de repente. Depois disso, continuamos trocando bolas por cerca de trinta minutos.

— Droga… na rede.

A bola ficou presa na rede. Havia um cesto de bolas atrás de nós, mas pegar uma nova toda vez deixaria a quadra cheia, então fui buscar a bola presa.

Aparentemente pensando o mesmo, Narika também se aproximou da rede.

— Você bate melhor do que eu esperava, Itsuki — Narika disse enquanto pegava a bola. — Desse jeito, você vai ficar bem bom até o torneio.

— Que bom ouvir isso… Há algo específico em que eu deva trabalhar?

— Vou te dar conselhos depois que praticarmos tudo. Quando se trata de corrigir algo, é mais eficiente priorizar depois de enxergar o quadro geral.

Não pude deixar de me impressionar com o quão sensato aquilo soava.

…Ela é tão confiável. Lembrei-me da primeira vez em que conheci Narika, cinco anos atrás, quando eu tinha dez anos. Naquele dia, quando comecei a ficar na casa dos Miyakojima, encontrei Narika no dojô, balançando uma espada de bambu.

Eu nunca contei isso a ela, mas… na época, fiquei completamente hipnotizado pelos seus golpes. Nunca tinha visto alguém tão concentrada, tão totalmente imersa em algo. Quando Narika leva os esportes a sério, ela fica fria, elegante e imponente. Cinco anos se passaram desde então, mas ao vê-la agora, suando enquanto praticava, senti a mesma aura digna e impressionante de antes.

— A propósito, Narika… nós não vamos usar aquelas quadras de saibro ali? — Tentando esconder minha confusão interna, perguntei.

— Não. O torneio só usa quadras omni, então não vamos treinar nelas.

Conversávamos enquanto observávamos as outras quadras, um pouco mais afastadas.

— Aliás, aquelas são quadras de saibro. Como o piso é irregular, a bola quica de forma imprevisível. Já as quadras duras ao lado são planas e sólidas, então esse tipo de quique estranho acontece menos. A quadra omni que estamos usando agora é de grama artificial misturada com areia, o que reduz irregularidades, mas a deixa um pouco escorregadia.

— Entendi…

Assenti diante da explicação clara. Esfreguei levemente o solado do tênis no chão para testar. De fato, a quadra omni era plana, mas macia e levemente escorregadia. No meu antigo colégio, também havia quadras de saibro. Devem se parecer com um campo comum. As quadras duras provavelmente lembram o piso de um ginásio. Um chão rígido e plano evita quiques estranhos, mas pode sobrecarregar joelhos e quadris.

— Você sabe bastante. Como esperado da filha de uma fabricante de equipamentos esportivos.

— S-Sério? Pode me perguntar o que quiser! — Narika estufou o peito com orgulho. — Agora vamos praticar saques e recepções. Depois, voleios. No final, eu dou alguns conselhos simples.

— Parece ótimo. Conto com você.

*

 

O treino continuou por mais uma hora.

— Vamos fazer uma pausa.

Narika se aproximou, segurando a raquete e a bola. Depois de uma hora e meia em movimento, até ela parecia um pouco cansada. Já eu… estava suando como uma cachoeira.

— Itsuki, você está bem?

— Estou… mais ou menos.

O suor simplesmente não parava. Mesmo depois de me tornar o cuidador da Hinako e treinar meu corpo com defesa pessoal, minha resistência não deveria ter caído tanto… mas eu simplesmente não conseguia acompanhar a resistência da Narika.

— Itsuki, seus principais problemas são a escolha de golpes e o posicionamento em quadra. Você bate inconscientemente sempre para o centro da quadra do adversário. Precisa variar mais para a esquerda e para a direita. …O motivo de você estar tão cansado agora é que eu espalhei meus golpes de um lado para o outro. Já eu não estou tão cansada porque você sempre manda a bola direto na minha frente.

— Entendi. Eu estou facilitando a devolução do adversário.

— Exatamente.

Então não era apenas uma questão de resistência física. Gravei cuidadosamente os conselhos da Narika na memória.

— Sinceramente, Konohana-san, quase não há o que ensinar a você. Você já é muito boa.

— Não tanto quanto você, Miyakojima-san.

— Não seja humilde. Seus saques e recepções são sólidos, e seus voleios são excelentes. Essa técnica refinada é totalmente a sua cara.

Narika elogiou Hinako sem economizar.

— Mas seus golpes de trajetória alta ainda estão um pouco instáveis, especialmente os backhands. Você é ótima nos voleios e tende a avançar, mas desse jeito vai acabar presa na linha de base por bolas com efeito.

— Devo usar slices para contornar isso?

— Não. Se possível, o ideal é devolver normalmente. Não precisa de força, só controle. Se a bola vier mais fraca, você pode girar o corpo e usar o forehand.

Eu até entendia por alto o que elas estavam dizendo, mas, para alguém quase iniciante como eu, aquilo parecia conversa de outro mundo. Hinako, por outro lado, parecia compreender perfeitamente, assentindo com seriedade.

— Estou toda suada. Vou pegar um pouco de água.

Dizendo isso, Narika foi até o bebedouro. Hinako e eu a observamos se afastar.

— Quando o assunto é esporte, a Narika é realmente incrível.

— Mm… ainda bem que a Miyakojima-san não está na divisão de tênis…

Era raro Hinako elogiar alguém tão abertamente.

Sinceramente, se a Narika estivesse na divisão de tênis do torneio, a Hinako teria que treinar feito louca para tentar chegar ao campeonato. Ela provavelmente nem percebe, mas também estava falando com a Hinako de um jeito mais natural… Talvez, quando o assunto envolve os pontos fortes dela, ela relaxe um pouco.

Narika nem sempre é tensa. Talvez consiga agir naturalmente com pessoas com quem se sente à vontade ou em áreas nas quais tem confiança.

Preciso conhecê-la melhor. Sinto que há uma pista aí para ajudá-la a fazer amigos.

— Ai!?

Naquele momento, Narika soltou um grito agudo.

— Narika, está tudo bem?

— Ugh… Itsuki…

Aproximei-me dela, que estava sentada no chão. A torneira que ela usava jorrava água sem parar. Era evidente que estava quebrada.

— A torneira deve estar com defeito.

— Ugh… fiquei encharcada.

Narika estava completamente molhada da cabeça aos ombros. Um dos funcionários da família Konohana, ao ver a cena, correu até nós.

— Pedimos mil desculpas! Foi um erro nosso—

— N-Não, está tudo bem! Até que ajudou a me refrescar!

Narika sorriu de forma sem jeito para os funcionários que se curvavam repetidamente. Bem… considerando o calor, talvez realmente tivesse ajudado. Depois de tanto exercício, se houvesse uma piscina ali, eu teria pulado sem pensar duas vezes.

— Espere um pouco, vou pegar uma toalha.

Mesmo assim, ela não podia continuar treinando daquele jeito, então fui buscar uma toalha. Quando voltei—

— Itsuki… me enxuga…

— Tá, tá.

Não era só por estar molhada; o jato repentino de água deve tê-la assustado. A aura digna que ela tinha até poucos instantes atrás havia desaparecido, e agora Narika parecia um cachorrinho abatido. Peguei a toalha e comecei a secar o cabelo dela, esfregando com certa força.

…É diferente do cabelo da Hinako.

O comprimento e a textura eram sutilmente distintos. Quando cuidava da Hinako, ela relaxava completamente e entregava todo o corpo a mim. Já Narika se aproximava aos poucos, encostando de leve, guiando a toalha até os pontos que queria que eu secasse, como um cachorro grande se aconchegando ao dono.

— Hehe.

De repente, Narika soltou uma risadinha alegre.

— Eu me lembro do Itsuki fazendo isso por mim antes.

— Hã? Eu fiz isso?

— Acho que foi depois de uma chuva. Eu estava correndo pelo jardim, tropecei e fiquei com o cabelo todo sujo de lama. Aí o Itsuki limpou tudo pra mim.

Agora que ela falou, tenho uma vaga lembrança disso. Afinal, é coisa da infância. Não lembro de todos os detalhes, mas talvez Narika guarde essas memórias com mais clareza do que eu.

— Isso me dá uma nostalgia… Desde pequenos, quando o Itsuki fazia isso, eu sempre ficava mais calma.

O rosto de Narika se suavizou em um sorriso caloroso enquanto falava. Ouvir isso… não me incomodou nem um pouco.

— O que vocês estão fazendo?

Hinako, que havia surgido ao nosso lado sem que eu percebesse, perguntou.

— Ah, então… a torneira quebrou, a Narika se molhou, e eu estava secando ela.

— Entendi.

Expliquei, um pouco sem jeito, e Hinako assentiu, compreendendo. Por um instante, achei que tinha visto Hinako me lançar um olhar fulminante… mas talvez fosse só imaginação minha. Será que Hinako também veio pegar água? Ao se aproximar do bebedouro, Hinako girou a torneira — e levou um jato de água direto no rosto.

— Minhas desculpas, eu me enganei.

— Por quê!?

Eu literalmente tinha acabado de dizer que a torneira estava quebrada.

— A-Até a Konohana-san comete erros, hein…?

Narika comentou, visivelmente chocada. Dá mesmo pra chamar isso só de erro…? Hinako, agora encharcada da cabeça aos ombros, assim como Narika, aproximou-se de mim.

— Por favor, me seque também.

— Certo.

Não consegui esconder meu espanto, mas assenti mesmo assim. Felizmente, eu havia trazido uma toalha extra, então usei nela.

— I-Isso está bom…?

— Sim… Hehe, você tem um toque tão gentil.

Isso não era nada parecido com a nossa rotina de sempre. Enquanto secava o cabelo de Hinako, meus nervos estavam à flor da pele.

Pensar que eu estaria cuidando da Hinako em pleno modo ojou-sama… A Hinako da mansão e a Hinako de agora pareciam pessoas completamente diferentes.

Ainda assim, o toque sedoso de seus cabelos e o leve perfume adocicado eram os mesmos de sempre. Mais uma vez, fui atingido pela constatação de que a garota eternamente sonolenta e a ojou-sama reverenciada diante de mim eram a mesma pessoa.

— Hmph.

Observando a cena, Narika fez um biquinho.

— Tomonari-san, você pode me ajudar a alongar?

— Hã? …Claro.

Hinako sentou-se no chão, preparando-se para alongar o corpo. Coloquei as mãos em seus ombros e pressionei levemente. Naturalmente, nossos rostos ficaram muito próximos.

— K-Konohana-san! Isso não está… perto demais!?

— Está?

O comentário da Narika parecia bem pertinente. Mas Hinako continuava completamente tranquila.

— Tomonari-san, assim mesmo… deixe-me me apoiar em você…

— A-Assim?

— Sim… Ah.

De repente, Hinako soltou um som suave.

— Tomonari-san, você tem um corpo bem firme, não tem?

As bochechas de Hinako ficaram levemente coradas ao dizer isso. Isso era… atuação?

— V-Vamos voltar ao treino! Agora! Já!!

Narika anunciou em voz alta. Sinceramente, fiquei aliviado. Continuar naquela posição com Hinako estava começando a me deixar estranho.

— Qual é o próximo treino?

— Deixe-me ver… Podemos trabalhar saques e voleios… mas talvez um jogo seja uma boa também.

Narika disse, pensando em voz alta.

— Falando nisso, quem é mais forte, você ou a Konohana-san?

A palavra jogo despertou minha curiosidade, e acabei perguntando sem pensar. Narika e Hinako trocaram um olhar rápido.

— Nunca jogamos uma contra a outra, então não sei.

— De fato. Ainda não tivemos aulas de tênis…

Ambas disseram que não sabiam, mas parecia haver um interesse genuíno por trás.

— Se a Konohana-san não se importar, que tal uma partida? — Narika sugeriu. Hinako hesitou por um instante, então assentiu.

— Muito bem. Será um prazer.

Eu costumava esquecer, por estar focado em mim mesmo, mas naquele dia não era só sobre mim — Hinako também estava treinando sério. E ela queria vencer o torneio.

…Um pouco de competição podia tornar o treino mais eficaz. Sentindo o clima leve, resolvi aumentar a aposta.

— Já que vai ser uma partida, que tal fazermos uma aposta?

— Uma aposta?

As duas inclinaram a cabeça, então expliquei.

— Tipo… a vencedora pode fazer um pedido para a perdedora.

Só depois de falar percebi algo. Pensando bem, aquelas duas eram ojou-samas do mais alto nível no Japão. Para nós, pessoas comuns, a punição seria pagar um almoço, mas dinheiro não era problema para elas. Se nenhuma tivesse algo que quisesse da outra, essa ideia não fazia sentido algum. Eu estava prestes a voltar atrás quando…

— E-Então… que tal a vencedora sair com o Itsuki? — Narika disse, com o rosto carregado de expectativa nervosa.

الصورة

— Comigo?

Eu não esperava ser arrastado pra isso.

— Não vejo problema.

Hinako assentiu, com um olhar sério. As duas pegaram suas raquetes e bolas e foram para a quadra.

…Bem, considerando minha posição, não é como se eu pudesse simplesmente sair com a Narika.

Eu e Narika temos muito o que conversar. Somos primos, afinal, e faz anos desde a última vez que nos vimos. Já trocamos algumas palavras na academia, mas ainda há muita coisa pendente. Só que agora trabalho para a família Konohana, então arranjar tempo para a Narika não é fácil. Talvez por isso ela tenha sugerido sair comigo como prêmio.

Embora… se eu pedisse à Shizune-san, ela provavelmente permitiria sem muita resistência. De qualquer forma, estou curioso para ver essa partida, então vou ficar para assistir.

— Uma partida de um set, com tiebreak. Tudo bem?

— Sem objeções.

Hinako assentiu à proposta de Narika.

— Itsuki, você pode arbitrar?

— Claro.

Sentei-me na cadeira do árbitro, entre os bancos. Agora… de um lado, a ojou-sama incomparável da academia, conhecida como a própria perfeição. Do outro, uma ojou-sama que, segundo rumores, supera todos nos esportes.

Quem será a mais forte? Isso promete ser um espetáculo.

Para os alunos da academia, essa seria uma partida pela qual pagariam para assistir. Elas giraram a raquete para decidir quem sacaria.

Narika venceu e pegou a bola.

Narika sacou.

Uma bola extremamente rápida acertou o canto do quadrado de saque. Hinako não conseguiu sequer tocá-la, e Narika marcou o ponto.

— Quinze a zero.

Um a zero. Narika sacou novamente.

— Trinta a zero.

Mais um ponto para Narika. Dessa vez, Hinako conseguiu devolver a bola, mas ela bateu na rede.

Como esperado… Hinako está em desvantagem?

Narika havia feito dois aces consecutivos. Nem mesmo a "perfeita" ojou-sama conseguia acompanhar Narika…? O domínio de Narika continuou, e ela venceu o primeiro game.

*

 

Após o término do primeiro game. No tênis, os jogadores trocam de lado após games ímpares. Hinako e Narika começaram a se mover para trocar de quadra.

No caminho… Hinako falou com Narika.

— Miyakojima-san, por que você quer sair com o Tomonari-kun?

Sua voz era baixa demais para Itsuki ouvir. Narika vacilou diante da pergunta.

— P-Por quê? Bem, é só que…

— Eu entendo. O Tomonari-kun é confortável de se estar por perto, não é? — Hinako disse, pegando uma bola perto da rede. Os olhos de Narika se arregalaram ao ouvir aquilo.

A ojou-sama número um da academia… nutrindo tais sentimentos por um único garoto? Ela já tinha sentido vagamente a proximidade entre eles antes. Mas ouvir aquilo diretamente de Hinako a abalou profundamente.

— V-Você também se sente assim, Konohana-san…?

— Sim — Hinako assentiu. — Da última vez que saímos juntos, foi muito divertido—

— V-Vocês saíram juntos!?

A Konohana-san, a flor intocável da academia… Hinako, que nunca havia sido ligada a ninguém, saiu com um garoto? Ignorando o choque de Narika, Hinako continuou com um sorriso gentil.

— E o Itsuki-kun é — Os olhos de Narika se arregalaram ainda mais. — Ah, minhas desculpas. O Tomonari-kun é…

— O que você disse!? O que foi que você acabou de dizer!?

Hinako inclinou a cabeça, como se perguntasse: — Do que você está falando?

Era a vez de Hinako sacar. Narika lhe entregou a bola enquanto ambas iam para suas posições.

Argh…! Eu sei, tá bom…! Eu sei que o Itsuki chama a Konohana-san pelo primeiro nome…!

Narika apertou com força a empunhadura da raquete. Ela lançou um olhar afiado para Hinako do outro lado da rede.

O que exatamente está acontecendo entre vocês dois…!?

*

 

Segundo game. Saque de Hinako. Seus golpes não tinham a potência dos de Narika, mas eram absurdamente precisos. Diferente de Narika, que jogava com força e ritmo acelerado, Hinako parecia preferir um estilo mais técnico, baseado em controle.

Ela mesclava habilmente cruzadas curtas, bolas deixadinhas e outras variações. Como Narika havia dito, sua técnica era extremamente sólida.

— Trinta a quinze.

Hinako assumiu a liderança por um ponto. No tênis, o sacador geralmente leva vantagem, já que tem mais chances de pontuar. Claro, a habilidade do jogador pode mudar isso, mas essa é a tendência, inclusive em partidas profissionais.

Isso acontece porque o saque é o único golpe totalmente sob controle do jogador — tempo, direção, tudo — sem interferência do adversário. Por isso, quando quem recebe vence um game, chama-se "quebra", um termo até grandioso. Em outras palavras, o tênis favorece naturalmente quem saca.

Como Hinako estava no saque, ela tinha vantagem, mas—

— Quarenta a quinze.

Hinako marcou mais um ponto. Faltava apenas um para fechar o game. Ainda assim, algo me incomodava.

…Hã? A Narika não está sendo ela mesma.

Seus movimentos pareciam menos afiados do que o normal. Intrigado, observei enquanto Hinako vencia o segundo game. A seguir, trocaram o saque, com Narika servindo.

Mas Hinako venceu também o terceiro game — uma quebra. A queda de rendimento de Narika continuava. Era hora de trocar de lado novamente. As duas começaram a se mover.

*

 

Enquanto se deslocava, Narika pegou uma bola próxima à rede.

Hinako estava por perto.

— A propósito, Konohana-san, o Itsuki também estava secando seu cabelo agora há pouco.

Narika falou em voz baixa, baixa demais para Itsuki ouvir.

— ? Sim… e daí…?

— Você costuma deixar o Itsuki cuidar do seu cabelo?

Hinako hesitou por um instante diante da pergunta. Mas logo abriu seu sorriso elegante de sempre.

— Quem sabe? Às vezes, peço ajuda a ele…

Hinako confirmou de forma vaga. Os lábios de Narika se curvaram levemente.

— O Itsuki é bom em cuidar de cabelo, não é? Afinal, não foi a primeira vez.

— O que você quer dizer com isso?

— Quando eu era pequena, não ligava muito pro meu cabelo. Deixava crescer e ficava me movimentando pelo dojô. Mas um dia o Itsuki disse: "Assim não atrapalha pra se mover?" e amarrou meu cabelo pra mim. Desde então, comecei a pedir ajuda com mais frequência. …Ele talvez tenha esquecido, mas o meu penteado atual? Foi o Itsuki que pensou nele.

Narika pegou seu cabelo preto, preso em um único feixe, e o mostrou com orgulho. Mesmo para alguém do mesmo sexo, era um cabelo negro brilhante e bonito. Até Hinako, acostumada a receber elogios, achou o cabelo de Narika encantador.

A troca de lados terminou, e agora era a vez de Hinako sacar.

…Então eu não fui a primeira.

Enquanto lançava a bola ao ar, Hinako lembrou-se do que Narika havia dito.

Hmmm…

No canto do campo de visão, ela viu Itsuki sentado na cadeira de árbitro.

…Hmmm.

*

 

Com o início do quarto game. Até ali, Hinako tinha mantido vantagem, mas o ritmo começava a mudar novamente.

— Dupla falta. …Zero a quarenta.

Hinako havia errado o saque duas vezes seguidas. Com isso, Narika precisava de apenas mais um ponto para vencer o game. Enquanto isso, Hinako ainda não havia marcado nenhum.

…Agora quem está perdendo o ritmo é a Hinako.

Como seu cuidador, Itsuki precisava observar o estado dela com atenção. Sua primeira preocupação foi cansaço físico, mas… não parecia ser isso. Ela ainda se movia bem, e o desgaste não parecia tão grande.

Se fosse algo, parecia mais mental do que físico. De vez em quando, ela franzia a testa e lançava olhares na direção dele… mas por quê?

Hinako lançou a bola para sacar.

— Uou!?

A bola passou zunindo pela ponta do nariz dele. Normalmente, um saque não chegaria nem perto da cadeira do árbitro. Ainda mais com a habilidade de Hinako, era difícil acreditar que ela tivesse perdido o controle daquele jeito.

— D-Dupla falta…

De qualquer forma, o quarto game terminou com a vitória de Narika. As duas foram buscar a bola que havia ficado presa na rede. Enquanto caminhavam, os olhares de ambas se fixaram em Itsuki.

— Tomonari-kun.

— Precisamos conversar depois.

Por que ele estava recebendo olhares ameaçadores das duas?

*

 

A partida terminou com a vitória de Narika. No começo, ambas tiveram altos e baixos, tornando o resultado imprevisível, mas, como esperado, a capacidade atlética de Narika prevaleceu. Conforme o jogo avançava, ela mostrou sua verdadeira força, sem se deixar abalar por pequenas interferências psicológicas, e exibiu uma habilidade esmagadora.

— Itsuki! É uma promessa, tá bom?! A gente vai sair juntos da próxima vez!

— A-Ah… tá bom.

Ah, é mesmo. Elas tinham feito aquela aposta.

— Hehe… eu consegui…!

Narika comemorava de forma exagerada. Hinako, por outro lado, parecia frustrada no início, mas aos poucos foi se acalmando.

— Bem, o Tomonari-san é ocupado, então quem sabe quando essa promessa vai realmente acontecer.

— O quê—?! I-Isso não vale, Konohana-san!

— Não me lembro de ter definido um prazo.

Com um sorriso belo e totalmente impassível, Hinako fez Narika resmungar:

— Grrr!

Essas duas realmente ficaram próximas, não é… Será que a partida deu início a uma amizade? Era como dois garotos apertando as mãos depois de brigarem às margens de um rio — uma cena que, ao que parece, também pode acontecer no mundo refinado das jovens damas.

Após uma breve pausa, retomamos o treino.

Enquanto Hinako e eu trocávamos bolas, Narika observava de trás, dando conselhos precisos. As orientações em tempo real facilitavam entender exatamente onde eu estava errando.

Quando eu finalmente começava a pegar o jeito, o treino chegou ao fim. Eu queria continuar, mas o céu já estava tingido pelo pôr do sol. Logo escureceria. A quadra tinha iluminação noturna, mas bolas sob luz artificial são mais difíceis de enxergar. Eu sabia disso por experiência, de anos atrás, jogando em um parque.

Do meio da tarde até o início da noite, treinamos bastante. Tomamos banho, trocamos de roupa e então nos despedimos.

— Narika, obrigado por hoje. Foi um ótimo treino.

— Fico feliz em ouvir isso.

Ao agradecê-la, Narika assentiu com satisfação.

— Itsuki, você melhorou em pensar enquanto se move, mas isso às vezes te deixa rígido. Não tenha pressa — esforço constante dá resultado. Ler os movimentos do adversário e superá-lo é o ideal, mas, no seu caso, é melhor focar em acertar com precisão os golpes que você quer executar.

— Entendi.

Fiquei um pouco surpreso — ela havia captado exatamente no que eu vinha focando durante o treino. Na segunda metade, eu estava tentando observar os movimentos do adversário enquanto batia… mas, sim, talvez isso ainda fosse avançado demais para o meu nível atual.

— Para estabilizar seus golpes, treino contra a parede já é suficiente. Só tome cuidado para não deixar sua postura se deteriorar se fizer isso por muito tempo.

— Compreendido.

Depois vou perguntar à Shizune-san se há algum lugar apropriado para treinar contra a parede. Narika então se virou para Hinako.

— Konohana-san, você realmente tem um talento extraordinário. Já está corrigindo os pontos que mencionei antes. Com prática constante, isso vai se tornar natural.

— Muito obrigada.

Hinako se curvou com elegância. As duas, que haviam ardido em rivalidade durante a partida, agora haviam retornado ao comportamento habitual.

— Konohana-san, posso pegar sua raquete um instante?

— ? Claro, mas…

Hinako lhe entregou a raquete, ainda com uma expressão confusa. Narika concentrou o olhar na empunhadura da raquete. Ela retirou um grip novinho da bolsa, entregando-o a Hinako junto com a raquete.

— Como você é do tipo que controla a bola com delicadeza, um grip mais fino como este deve combinar melhor com você. Ele deve te dar uma sensibilidade maior nos golpes.

— Entendo… com certeza vou experimentar.

Hinako aceitou o grip. Fiquei sinceramente impressionado com a clareza e eficiência dos conselhos da Narika.

— Narika, você é muito boa em ensinar.

— S-Sério? Eu não tenho muita experiência com isso, então é a primeira vez que alguém me elogia assim.

Uma mistura de alegria e vergonha passou pelo rosto de Narika enquanto ela sorria. Surpreendentemente, talvez Narika tivesse mesmo talento para ensinar.

— Na segunda-feira é a minha vez de encarar isso, né.

Narika murmurou, olhando para o céu tingido pelo pôr do sol. Comparada à expressão confiante de antes, agora ela parecia um pouco ansiosa. Não consegui ficar calado.

— Sei que talvez não seja meu lugar dizer isso, mas se você realmente odeia a ideia, pode simplesmente não participar do torneio. Até a Konohana-san tira folgas da academia de vez em quando, e isso é algo bem comum na nossa escola, não é?

— É verdade, mas…

Muitos alunos da Academia Kiou vêm de famílias com circunstâncias especiais. Não é raro que se afastem por motivos pessoais, e a Hinako às vezes também se ausenta quando está exausta por causa dos compromissos como atriz.

Portanto, faltar ao torneio não seria impossível. Se Narika ainda estivesse presa ao trauma do ano passado e isso estivesse lhe causando sofrimento, eu achava perfeitamente válido que ela ficasse de fora. Isso seria tão justificável quanto qualquer assunto familiar.

Mas Narika balançou a cabeça suavemente.

— Eu quero superar minhas fraquezas, o quanto eu puder. Fugir não vai mudar nada.

As palavras dela soaram incrivelmente firmes.

— Narika… você é forte.

— Forte?

— É. Encarar as próprias fraquezas desse jeito não é fácil.

Ao ouvir isso, os olhos de Narika se arregalaram levemente. Mas logo ela deu um sorriso torto.

— Eu não sou forte. Se for ver, sou cheia de fraquezas… Mas um dia alguém me ensinou uma coisa. Reconhecer as próprias fraquezas é o primeiro passo para se tornar forte.

Narika continuou.

— Vocês dois provavelmente já sabem, mas eu sou terrivelmente desajeitada. E até nos esportes, que dá pra dizer que são meu único talento de verdade, nada veio naturalmente pra mim. Desde pequena, treinei de forma rigorosa para chegar onde estou.

— Hã?

Sério…? Quando conheci Narika, ela já dominava várias artes marciais — judô, kendô, aikidô — todas em um nível muito acima da média, pelo que eu me lembrava. Mas, ao que parece, aquilo não era talento inato, e sim fruto de esforço extremo.

— Desde criança, enfrentei inúmeros fracassos e dificuldades. Corri até desmaiar, balancei uma espada de bambu até as mãos ficarem cheias de bolhas. Mesmo assim, os resultados nem sempre vinham.

Narika disse, baixando o olhar para a própria palma da mão. Observando melhor, dava para ver vários calos ali. Aquelas dificuldades não ficaram apenas no passado. Narika continuava se esforçando, até hoje.

— Acho que essas experiências me deram minha força inicial… Afinal, já passei por situações bem constrangedoras. Acabei ficando boa em aceitar minhas próprias fraquezas.

Como se estivesse revelando algo vergonhoso, Narika sorriu timidamente. Mas isso não era motivo de vergonha.

Entendi… é por isso que a Narika é tão boa em ensinar.

Talvez ela mesma não perceba, mas eu compreendia. Aceitar as próprias fraquezas permite compreender as dos outros. Por isso, Narika conseguia orientar as pessoas com tanta atenção. Sua capacidade de entender as dificuldades alheias era um dom nascido de suas experiências.

…Eu queria que mais pessoas soubessem disso. Senti que o charme da Narika era algo que mais gente deveria reconhecer. Ela tinha defeitos, mas eu sinceramente achava que Narika era alguém digno de respeito. Enquanto eu pensava nisso, percebi Narika me encarando com uma expressão emburrada.

— O que foi?

— Nada.

Por algum motivo, Narika olhou para o meu rosto e soltou um suspiro. Depois de nos despedirmos, cada um seguiu para casa. Hinako e eu voltamos no carro da família Konohana, junto com a Shizune-san.

O carro começou a se mover lentamente.

— Nossa, estou acabada. Mm… não consigo dar mais um passo.

Hinako, que até então estava sentada de maneira impecável, como uma verdadeira ojou-sama, relaxou completamente e murmurou.

Depois do banho, eu também comecei a sentir o cansaço. Durante o treino, devo ter sido movido pela adrenalina, mas agora podia dormir a qualquer momento.

— Shizune-san, existe algum lugar perto da mansão onde eu possa treinar contra a parede?

— Há um ginásio do tamanho de uma quadra de basquete ao lado do dojô. O material da parede talvez não seja o ideal, mas…

— Obrigado. Vou tentar.

Quando tiver um tempo livre, vou praticar contra a parede, como a Narika sugeriu. Diferente da Hinako, eu não preciso mirar o título. Assim como nos estudos, só preciso evitar passar vergonha. Mas… já que estou fazendo, quero alcançar o melhor resultado possível.

Foi a Narika quem despertou essa mentalidade em mim. Os conselhos dela reacenderam minha motivação.

— Quero encontrar uma forma de ajudar a Narika também.

Ela se ofereceu para me orientar no tênis como um favor, mas agora eu sentia que estava em dívida com ela. Enquanto pensava em que estratégia poderíamos usar na segunda-feira…

— Eu também vou pensar nisso.

Hinako murmurou.

— Você está sendo bem cooperativa, Hinako.

Isso me surpreendeu, para ser sincero. A natureza verdadeira da Hinako não é fria com os outros, mas ela tem um lado bem preguiçoso.

— Eu meio que entendo como a Miyakojima-san se sente — Hinako disse, com a voz sonolenta. — Tanto a Miyakojima-san quanto eu… a forma como as pessoas nos veem não combina com quem realmente somos.

— Pensando bem, vocês têm isso em comum.

— Mm. Então… eu sei como é difícil.

Uma é vista como alguém de família yakuza ou de motoqueiros, quando na verdade é só uma garota tímida. A outra é venerada como a ojou-sama perfeita, admirada por todos, mas secretamente é uma preguiçosa.

A diferença crucial é que Narika não escolheu essa imagem, enquanto Hinako deliberadamente interpreta seu papel. Ainda assim, no fim, Hinako é obrigada a agir como a refinada ojou-sama por ser herdeira dos Konohana. O peso que ambas carregam deve ser semelhante.

Talvez Hinako esteja sendo tão colaborativa justamente por compreender os sentimentos da Narika.

— A propósito… Itsuki — Hinako me encarou e perguntou. — Aquele penteado da Miyakojima-san… foi você mesmo que inventou?

Seus olhos redondos pareceram se estreitar levemente, com um brilho afiado. Como a Hinako sabia disso? Eu não me lembrava de ter mencionado.

— Bom, sim. É verdade. Mas foi há muito tempo.

— Hmph… — Hinako fez uma careta, claramente insatisfeita. — Eu também quero… alguma coisa.

Ela estava dizendo que queria que eu arrumasse o cabelo dela? Fiquei sem saber como reagir àquela estranha competitividade da Hinako.

— Quer dizer, eu precisaria de uma fita ou algo assim… e eu não tenho nenhuma agora—

— Eu tenho sobressalentes, só por precaução.

Shizune-san, sentada no banco do passageiro, virou-se e me entregou duas fitas. Ela é preparada demais…

— Shizune-san, você anda sendo muito boazinha com a Hinako ultimamente.

— Sou a criada da minha ojou-sama, afinal. …Como criada, apenas apoio os desejos da minha ojou-sama.

Shizune-san voltou o olhar para frente e respondeu sem sequer me encarar. Quando nos conhecemos, ela parecia mais focada em conter os caprichos da Hinako, mas… talvez algo tenha mudado na forma como ela a vê.

Ou talvez seja a Hinako que tenha mudado, e a Shizune-san tenha percebido isso. Hinako virou de costas para mim, facilitando que eu mexesse em seu cabelo.

Olhei para as fitas que Shizune-san me deu e pensei.

Prender tudo em um feixe foi o que a Narika fez… e penteados extravagantes são coisa da Tennouji-san…

Talvez eu esteja interpretando errado, mas eu definitivamente não sou um especialista em cabelo. No mínimo, eu queria inventar algo que deixasse Hinako se sentindo mais leve. Ela costumava usar o cabelo solto e, mais cedo, tinha prendido tudo em um só. Então…

— Certo, e se for assim?

Dividi o cabelo de Hinako em duas partes e amarrei. Basicamente, duas marias-chiquinhas.

Como era de se esperar, combinou com ela. Hinako provavelmente ficaria fofa com qualquer penteado. Duas marias-chiquinhas não são tão comuns no ensino médio, mas, comparadas àqueles cachos loiros em espiral vertical, não eram nada tão exagerado.

— Uau…

Hinako pegou o reflexo na janela do carro e soltou um som admirado.

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— E então… o que achou?

— Mm… estou satisfeita.

Foi uma escolha simples, mas Hinako parecia feliz. Ela se inclinou e repousou a cabeça no meu colo. As duas marias-chiquinhas bateram de leve no meu braço, com um toque macio.

— Eu entendo como a Miyakojima-san se sente, mas… eu não vou ceder — Hinako disse em voz baixa. — Eu não quero… que o Itsuki cuide de ninguém além de mim…

Dizendo isso, Hinako fechou os olhos.

…Não tem com o que se preocupar — provavelmente não existe mais ninguém além da Hinako que precise de tanto cuidado da minha parte.

Pouco depois, o som da respiração tranquila dela preencheu o silêncio. Apesar de ter sido um dia de folga, hoje exigiu bastante fisicamente da Hinako. Ela devia estar exausta. Para falar a verdade, eu também estava quase cochilando.

— Chegamos.

O carro parou, e Shizune-san anunciou nossa chegada. Dei um leve toque na cabeça de Hinako, apoiada no meu colo.

— Chegamos.

Hinako se mexeu, sentou-se e soltou um bocejo pequeno. Ao mesmo tempo, Shizune-san saiu do banco do passageiro.

— Kagen-sama.

Do lado de fora do carro, Shizune-san fez uma leve reverência, com uma surpresa discreta na voz. Quando olhei, vi que Kagen-san tinha acabado de chegar à mansão de carro, assim como nós.

— Bom trabalho hoje. O que o traz aqui?

— Só passei durante um intervalo. Minha próxima reunião é aqui perto.

Enquanto ouvia a conversa entre Shizune-san e Kagen-san, eu desci do carro. Por um instante, meus olhos se encontraram com os de Kagen-san. Inclinei a cabeça em respeito, sentindo um nervosismo leve atravessar meu peito. Então Hinako saiu do carro.

— Nnh… papai?

— Hinako, você já voltou—

As palavras de Kagen-san morreram no meio da frase. Os olhos dele se arregalaram e, com uma expressão desconfiada, ele perguntou.

— O que é esse penteado?

Ele encarava as duas marias-chiquinhas de Hinako.

Ah, não. Um suor frio escorreu por todo o meu corpo.

— O Itsuki… fez pra mim.

— Entendo.

Hinako respondeu com toda a honestidade. Kagen-san olhou para mim, com o rosto completamente sério.

— Itsuki-kun.

— S-Sim!

— Isso é… do seu gosto?

— Não, não é!!

Para ser bem preciso, se é do meu gosto ou não é discutível — eu nem pensei nisso quando escolhi o penteado. Está tudo bem, é só por agora. Eu jamais faria algo para manchar a imagem da Hinako… Com esse pensamento, me curvei de novo.

— Hã… não é…?

Hinako ficou abatida, como se tivesse levado uma pancada de decepção.

Por favor, Hinako…!

Só fica quieta agora…!

*

 

Segunda-feira, depois das aulas. Nos reunimos no patamar da escada para discutir a estratégia.

— Sobre o plano… a Hinako-san e eu conversamos e tivemos uma ideia… Que tal usar o festival esportivo como assunto para puxar conversa com alguém? — Narika piscou, confusa, então continuei. — No sábado, quando treinamos tênis, eu notei que você parecia mais relaxada do que o normal, Narika. Você até conversou com a Hinako-san de um jeito bem natural.

— A-Agora que você falou… talvez seja verdade.

Narika assentiu, como se só então tivesse percebido. No sábado, Narika conseguiu conversar descontraidamente com Hinako até o final. Ela mesma não parecia ter notado, mas aquilo mostrava o quanto estava à vontade.

— Então eu pensei: se você estiver no seu elemento, talvez seja mais fácil falar. Que tal tentar puxar assunto com alguém do clube de kendô por causa do festival esportivo?

— M-Mas, Itsuki… eu estou em apuros justamente porque fiz uma baita confusão no festival esportivo do ano passado. Não é arriscado trazer isso à tona?

Narika confessou, com a voz carregada de ansiedade.

— É um bom ponto, mas… — era um assunto delicado, então hesitei por um momento. — Pra ser sincero, eu acho que sua fama já se espalhou pela academia inteira, então provavelmente você não precisa se preocupar tanto com isso.

— Ugh… eu odeio admitir, mas acho que você tem razão…

A imagem da Narika dentro da escola já nem parecia mais ligada ao festival do ano passado. Era como se a reputação dela tivesse virado uma coisa independente.

— Na verdade, acho que justamente quem se interessa por festival esportivo ou por kendô é quem você tem mais chance de desfazer mal-entendidos. Quanto mais sério alguém for com esporte, mais provável é que você se dê bem com a pessoa.

— Isso… pode ser verdade — Narika pareceu convencida e assentiu de leve. — Certo. Vou tentar.

Narika fez um aceno firme.

— Você sabe quem está no clube de kendô?

— Eu conheço as garotas da turma B. …Se eu vir alguma delas, vou tentar falar.

Narika engoliu em seco, deixando claro o quanto estava nervosa. Hinako e eu nos afastamos um pouco, observando Narika. Uma aluna se aproximou pelo corredor.

— T-Tá… lá vou eu…!

Em voz baixa, Narika se encorajou. Aquela garota devia ser uma das alunas da turma B do clube de kendô.

— E-Ei, você aí!

— S-Sim!?

A abordagem parecia mais um policial parando alguém para interrogar. Definitivamente não foi um começo suave. Agora… será que Narika conseguiria salvar a situação?

— V-Você estava no clube de kendô no ano passado, né?

— S-Sim…

A garota já parecia prestes a chorar.

— Você… vai competir de novo este ano?

— V-Vou…

A menina assentiu, tremendo. Narika, abrindo um sorriso que parecia de um rei demônio, declarou:

— Este ano… eu não vou perder.

— Ai… e-eu me rendo…!

Com os olhos marejados, a garota jogou a toalha. Vencer sem nem lutar — isso é força de verdade? Não, não era hora de brincar. Aproximei-me de Narika, que tinha ficado paralisada, observando a garota ir embora.

— Por que você intimidou ela desse jeito?

— Ai!

Dei um tapinha na cabeça de Narika, como uma pequena palmada. Que garota desajeitada… eu já sentia uma dor de cabeça se aproximando.

— Talvez a gente devesse repensar um pouco a estratégia?

— Não.

Depois de pensar por um instante, Narika balançou a cabeça.

— Vocês dois estão me ajudando tanto… eu também preciso me esforçar mais.

— Entendi.

A força de reconhecer as próprias fraquezas — essa era a arma da Narika. Ela não era do tipo que desistia só porque tropeçou uma vez ou outra.

— Mas eu ainda estou nervosa demais.

A determinação era ótima, mas os resultados não acompanhavam. É normal ficar um pouco nervoso falando com alguém novo, mas Narika estava tensa demais. Ela não conseguia relaxar nem um pouco?

— Não tem algum jeito de você falar com os outros como fala comigo?

— I-Isso… acho impossível.

Narika fez uma careta, claramente descrente. Sim, se ela pudesse fazer isso, não estaria sofrendo desse jeito.

— Então e se for alguém com uma vibe parecida com a minha? Talvez você consiga falar com a pessoa normalmente.

Eu achei a ideia genial. O único problema… é que, numa academia cheia de elite, era difícil imaginar alguém minimamente parecido comigo, um plebeu. Mesmo assim, talvez existisse alguém.

— Não… isso provavelmente não vai funcionar.

Ainda assim, Narika respondeu com uma expressão complicada.

— Não é sobre ser parecido. …Pra mim, você é especial, Itsuki.

Provavelmente foi uma frase pura, sincera. Ela falou com uma seriedade absoluta. Mas aquilo me atingiu com tanta força que quase perdi o equilíbrio.

— Entendi…

Eu senti o peso da confiança da Narika em mim, alto e claro. Ela sentia aquilo tão intensamente… uma mistura de alegria e vergonha subiu ao meu peito.

— Já decidiram uma estratégia?

— Gah!?

De alguma forma, Hinako apareceu atrás de Narika sem fazer barulho. Pega de surpresa, Narika deu um pulo, os ombros subindo em choque.

— Faz tempo que alguém não chega tão perto de mim sem eu perceber… Hinako-san, você tem jeito de assassina…

E o fato de a Narika se lembrar de todas as vezes em que alguém se aproximou sorrateiramente dela tornava aquilo ainda mais impressionante.

— Bom, chegamos à conclusão de que não tem outro jeito a não ser seguir pelo caminho mais direto.

Tentar encontrar atalhos não estava nos levando a lugar nenhum. Só restava insistir e encarar as coisas de frente, com persistência.

— Certo. Que tal assim: tente conversar comigo logo antes de abordar outra pessoa? Talvez isso ajude a levar esse clima mais relaxado para a próxima conversa.

— Entendi. Vou tentar.

Narika assentiu com entusiasmo. Não dava para saber o quanto essa pequena mudança ajudaria, mas era melhor do que nada. Mas… sobre o que deveríamos conversar? Depois de pensar um pouco, decidi colocar em palavras algo que vinha me intrigando.

— A propósito, Narika, você comentou que tem ido bastante à loja de doces ultimamente. Sua família não fala nada sobre isso?

— Ah, antes eles falavam um monte. Diziam que fazia mal pra saúde, ou perguntavam e se eu fosse sequestrada no caminho.

Narika respondeu, relembrando o passado. Lojas de doces costumam ficar em ruelas meio escondidas. Se a Hinako tentasse ir sozinha a uma, aposto que o Kagen-san jamais permitiria, com medo de sequestro.

— Mas, pra mim, doces estão ligados às minhas memórias com você, Itsuki. Então eu ignorei as reclamações e continuei comendo… Até que um dia meu pai teve uma ideia estranha: "Será que doces e esportes combinam?" Ele resolveu colocar doces perto dos caixas das nossas grandes lojas, e isso virou um sucesso enorme entre as crianças. As vendas dispararam. Com algumas aparições na TV ajudando, as ações da empresa chegaram a subir bastante por um tempo—

— Espera, espera, espera! Essa história é tão absurda que eu já perdi completamente o ponto principal!

Eu só queria puxar conversa, mas não esperava um relato tão intenso… Ainda assim, fazia sentido. Se os doces ajudaram tanto nos negócios, os pais da Narika provavelmente não tinham mais como reclamar. Comparada à Hinako ou à Tennouji-san, a Narika era uma ojou-sama surpreendentemente livre. Talvez fosse por isso. Sem querer, ela tinha trazido um sucesso inesperado para a família Miyakojima.

— E-E então… que tal falarmos disso depois? Sobre eu e você sairmos juntos… talvez a gente já possa pensar no dia e no lugar—

— Ah, alguém está vindo.

— O quê!? Logo agora!?

Narika entrou em pânico visível. Um aluno vinha caminhando pelo corredor em nossa direção.

— Esse cara é da nossa sala, mas acho que ele não é do kendô…

— Então dá pra ignorar.

— E-Espera, acho que ele estava no kendô no ano passado…

— Então fala com ele.

Narika soltou um pequeno gemido, claramente intimidada. Sinceridade é uma virtude. Se ele esteve no kendô no ano passado, o assunto deveria funcionar.

— E-Ei!

Reunindo coragem, Narika chamou o garoto.

— Você… você é do clube de kendô, né?

— Sou.

— E-Eentão, que tipo de equipamento você usa!?

Ela perguntou, juntando toda a coragem que tinha. Era uma pergunta boa. Eu mesmo não sou especialista em conversas, mas se estivesse no lugar dele, conseguiria responder sem problema.

Mas o garoto—

— Isso importa?

Respondeu com um claro tom de desconfiança.

— B-Bem, talvez, mas…

Narika travou, sem saber como continuar. Observando de longe, eu inclinei a cabeça.

Hã?

Aquilo parecia diferente das outras vezes.

— Desculpa, tô com pressa.

Com isso, o garoto virou as costas e foi embora. Hinako e eu nos aproximamos de Narika, que parecia abatida.

— É… é o meu rosto? O problema é o meu rosto…?

Como sempre, Narika estava culpando a si mesma. Mas — ela não tinha percebido, porém aquilo não foi o de costume.

— Narika, espera aqui.

Fui atrás do garoto que tinha acabado de falar com ela.

Não importava como se olhasse: aquele cara tinha sido grosseiro. Todas as falhas anteriores tinham alguma relação com a postura da Narika, mas desta vez era diferente. Aquele garoto fora claramente frio com ela. Falara de forma seca do começo ao fim e fora embora com uma desculpa qualquer… Uma atitude dessas machucaria qualquer pessoa, não só a Narika.

Andando pelo corredor, encontrei o garoto perto da saída da escola. Como eu suspeitava… ele não parecia nem um pouco apressado. Estava tranquilamente olhando o cardápio novo do café dentro da academia.

— Ei, tem um minuto?
Chamei.

— O quê?

Ele se virou para mim com um olhar desconfiado. Hinako e eu só tínhamos observado de longe, então, para ele, eu devia ser apenas um desconhecido.

Mas, sinceramente… eu estava bem irritado. Por que todo mundo interpretava a Narika errado? Por que ninguém tentava enxergar quem ela realmente era?

— Eu vi o que aconteceu agora há pouco… você não acha que aquela atitude foi um pouco demais?

Tentei falar da forma mais contida possível, segurando a raiva que fervia no peito.

— Isso não é da sua conta.

— É sim. Eu sou amigo da Narika.

Respondi, tentando manter a calma. Não era como se eu quisesse que todo mundo gostasse da Narika. Afinidade existia, e sempre haveria gente que não combinava. Mas, ainda assim, aquela postura tinha sido desnecessária. Ser deliberadamente frio com alguém… isso era só grosseria.

— A Narika não é esse tipo de pessoa que todo mundo imagina. Se você não se dá bem com ela, não precisa forçar amizade, mas… também não precisa agir friamente de propósito, né?

Quando eu disse isso, o garoto fez uma expressão complicada. Parecia haver algo de verdadeiro no que eu falava. Mas—

— E se ela for tão assustadora quanto os boatos dizem?

Ele franziu a testa ao falar.

— Meus pais vivem dizendo isso. "Não mexa com famílias poderosas. Se você as desagradar, elas acabam com a sua casa inteira."

Ao ouvir aquilo, minha mente ficou em branco por um instante. Aquela perspectiva — aquela possibilidade — nunca tinha passado pela minha cabeça. Não os alunos da academia, mas os pais deles. Eu nunca tinha considerado o que eles poderiam sentir em relação à Narika, a ojou-sama da família Miyakojima.

Enquanto eu ficava paralisado com aquela resposta inesperada, o garoto voltou a falar.

— Você é o Tomonari da sala A, né? Eu sei quem você é.

Meus olhos se arregalaram quando ele disse meu nome. Ele me encarou com um olhar frio.

— Nem todo mundo é tão bom em bajular quanto você.

Dito isso, ele foi embora.

— Bajular…?

A palavra escapou da minha boca, mas eu não consegui chamar aquele vulto que se afastava. Foi assim que aquele comentário me atingiu com força.

É assim que eles me veem…?

Eu nunca tinha pensado nisso. Pensar que eles viam a mim — e à Narika — desse jeito…

…Espera aí.

A situação tinha acabado de mudar. Um suor frio escorreu pela minha espinha.

Isso… não era só a Narika que estava em apuros, né?

Eu também estava no meio disso.

*

 

Depois de voltar à mansão, jantar e tomar banho com a Hinako, Afundei na cadeira do meu quarto, me preparando mentalmente.

— Certo.

Eu já tinha terminado minha preparação e revisão do dia. Agora era hora de encarar os deveres que trouxe da academia.

Eu precisava pensar nas palavras que aquele garoto jogou em mim. No significado por trás daquele olhar. Nesse momento, talvez eu nem esteja em posição de falar sobre a Narika… Primeiro, preciso refletir sobre minhas próprias atitudes.

Antes de mais nada… qual é exatamente a minha posição dentro da academia?

Preciso encarar isso de forma objetiva, não emocional. Sou um aluno transferido da Academia Kiou. Um plebeu comum, meio deslocado, que de repente passou a fazer parte da Turma 2-A.

Minha família supostamente administra uma empresa de médio porte ligada ao Grupo Konohana. A Tennouji-san percebeu que isso era mentira, mas todo o resto parece acreditar.

Já se passaram apenas três meses desde que me transferi. Em um lugar como a Academia Kiou, cheio de jovens destinados a herdar grandes corporações, a posição da minha família não é nada impressionante. E eu também não sou exatamente o melhor aluno da turma.

Ainda assim, por algum motivo, passo tempo com a Hinako — a garota admirada por toda a academia.

Se fosse só a Hinako, talvez atribuíssem isso a conexões familiares. Mas eu também ando com a Tennouji-san e com a Narika.

— Não é difícil entender por que parece que eu estou bajulando todo mundo.

Quem jogou isso na minha cara depois da aula nem era da minha turma — era da Turma B. Eu nunca imaginei que alguém de outra classe chegaria a dizer algo assim para mim. Mas isso só mostra o quanto eu tenho chamado atenção de um jeito negativo.

A raiz do problema… é que eu não fui aceito.

Se eu conseguisse me enturmar naturalmente enquanto passava tempo com a Hinako e as outras, ninguém diria coisas assim.

Então por que eu não fui aceito?

Provavelmente… porque eu e a Hinako mantemos essa distância estranha, pela metade.

Se descobrissem que eu e Hinako moramos na mesma mansão, a reputação dela sofreria um golpe. Por isso, sempre tomei cuidado para não deixar nada escapar. Como precaução, mantive o mínimo possível de interação com ela dentro da academia.

Por exemplo, almoçamos juntos, mas fazemos isso onde ninguém nos vê. Quando a Hinako deixa algo cair ou se perde, eu ajudo de forma discreta — como se estivesse apenas passando por ali, não como alguém que a segue.

Tentamos mostrar a todos que somos apenas conhecidos comuns… nada além de colegas de classe, evitando qualquer envolvimento desnecessário. Até agora, eu achava que essa era a escolha certa.

Mas parece que eu estava errado. Essa interação mínima, justamente por causa da distância que mantemos, acaba chamando ainda mais atenção.

Ou melhor… já nem é mínima, não é?

Tivemos uma festa do chá. Fizemos uma sessão de estudos. Estive ao lado dela enquanto ajudava a Narika com seus problemas. Essas cenas provavelmente não caíram bem aos olhos dos outros. Um cara como eu, que normalmente passa despercebido na sala, de repente andando com as ojou-samas de elite da academia.

Um oportunista escorregadio… não é surpresa que pensem isso.

Mas… isso quer dizer que eu deveria parar de passar tempo com a Hinako e as outras?

Será que eu deveria reduzir nossas interações ao mínimo absoluto?

Mas eu hesitei. Na academia, a Hinako age como a ojou-sama perfeita. Para quem não a conhece, ela deve parecer graciosa e impecável. Mas para mim, às vezes ela parece alguém se esforçando desesperadamente para manter as aparências. E, ainda assim, quando está comigo, ela ocasionalmente deixa escapar um sorriso suave.

Esse é… o meu papel, não é? Eu posso realmente negar esse sorriso?

— Itsuki.

— Wah!?

Uma voz atrás de mim me fez pular.

— H-Hinako… quando você entrou no meu quarto…?

— Já faz… um tempo.

Eu não tinha percebido nada. Devia estar completamente perdido nos meus pensamentos.

— Você veio sozinha?

— A Shizune me acompanhou… até a metade.

Faz sentido, pensei. Sem alguém guiando, a Hinako levaria uns trinta minutos para encontrar meu quarto. Não vi a Shizune-san por ali. Ela provavelmente tinha outros afazeres e já havia ido embora. De repente, Hinako me encarou com uma expressão preocupada.

— Você está com… uma cara séria.

— Estou com um problema na cabeça.

Não era algo que eu pudesse explicar abertamente. Então fiz apenas o mínimo — a pergunta mais importante.

— Ei, Hinako. Mesmo na academia… você quer ficar comigo?

Hinako inclinou a cabeça, confusa.

— Nós ficamos juntos… na hora do almoço, não ficamos?

— Não só no almoço. Fora isso também… tipo conversar juntos na sala, nos intervalos.

Hinako assentiu imediatamente.

— Claro. …Eu quero ficar com você, Itsuki, o tempo todo.

— O tempo todo, é?

Isso é uma coisa bem grandiosa de se dizer. Mas, para mim, foi algo que me deixou feliz.

— Entendi. …Vou dar o meu melhor.

Minha decisão estava tomada. Graças à Hinako — ou talvez, mesmo sem ela dizer nada, eu teria chegado à mesma conclusão. Eu sinto o mesmo que a Hinako…. Meu papel como cuidador dela já não importava. Isso não era sobre obrigação. Era sobre o que eu sentia.

Eu… quero ficar com a Hinako e com as outras também.

Hinako, Tennouji-san e Narika. Neste momento, as pessoas ao nosso redor não me veem como alguém digno de estar ao lado delas. Por isso, eu preciso mudar. Porque, se não mudar, posso acabar causando problemas para todos.

— Eu preciso conquistar o respeito de muita gente.

Foi a primeira vez na minha vida que tive uma preocupação desse tipo. Mesmo assim, decidi que não iria recuar.

*

 

Depois que Itsuki a acompanhou de volta ao quarto, Hinako estava rolando na cama, abraçando o travesseiro com força.

— Com licença.

A porta se abriu, e Shizune entrou. Ela se aproximou de Hinako, que estava jogada sobre a cama, e olhou os documentos que tinha em mãos.

— Ojou-sama, sobre o jantar oficial da próxima semana—

Ela interrompeu a frase no meio.

— Nfu…

Hinako estava diferente do normal. Com um sorriso bobo e estranho no rosto, ela continuava rolando de um lado para o outro.

— Nhehe…

— O que houve, Ojou-sama? — Shizune perguntou ao ver Hinako com uma expressão completamente radiante.

— O Itsuki disse… que vai tentar ficar comigo até mesmo na sala de aula…

— Na sala de aula também? — Shizune inclinou a cabeça, e Hinako assentiu com um pequeno:

— Mm. Isso me deixa… tão feliz. …Nhehe.

Como se estivesse em um sonho, Hinako abriu um sorriso suave e bobo.

— E o que o Itsuki-san disse sobre como pretende ficar com você?

— Isso… eu não sei — Hinako se lembrou da visita ao quarto de Itsuki mais cedo. — Ele disse… que precisa ser reconhecido por muitas pessoas.

Foi isso que Itsuki murmurou no final.

Ela não entendeu exatamente o que ele quis dizer, mas se lembrava claramente de como a expressão dele havia sido incomumente séria.

— Entendo. Esse é um caminho espinhoso — Shizune murmurou em voz baixa. — Há uma mensagem do Kagen-sama sobre o jantar oficial da próxima semana. O local será—

Shizune continuou, repassando as informações planejadas. Diferente do jantar anterior, ao qual Itsuki a acompanhara, este seria um evento pequeno. Não duraria nem trinta minutos. Provavelmente seria menos cansativo. Hinako respondeu apenas com sons sonolentos de:

— Mm… mm…

— Então, com licença.

Ao terminar o relatório, Shizune fez uma reverência e se virou para sair do quarto de Hinako.

— Shizune. Você está… com mais pressa do que o normal? — Esfregando os olhos sonolentos com o dorso da mão, Hinako falou. Ela teve a impressão de que Shizune havia passado pelas informações mais rápido do que o habitual.

— Peço desculpas. Eu pretendia ir ao quarto do Itsuki-san em seguida.

— Ao quarto do Itsuki…? Então eu—

— A Ojou-sama acabou de voltar de lá, não foi? Por favor, vá dormir agora.

— Muu…

Hinako quis protestar, mas sabia que, se ficasse acordada até tarde, levaria uma bronca severa. Desta vez, cedeu a contragosto. Hinako, que já dormia bastante, costumava cometer deslizes na academia quando não descansava o suficiente. Shizune sabia disso muito bem.

— Então, com licença. …Boa noite, Ojou-sama.

— Mm… boa noite.

Aconchegada em sua cama macia, Hinako adormeceu quase imediatamente.

*

 

Depois de acompanhar Hinako até o quarto, eu estava no meu, mais uma vez refletindo sobre a vida na academia. Eu precisava me tornar alguém que pudesse ficar ao lado da Hinako e das outras sem parecer deslocado.

Mas eu não fazia ideia de como, na prática, alcançar isso. Se eu depender da Hinako ou das outras para me apoiarem, vai dar errado…

Hinako e as outras têm muita influência na academia. Se elas falassem bem de mim, a visão das pessoas poderia mudar um pouco. Mas isso também poderia reforçar ainda mais a impressão de que eu estava bajulando. Por isso, eu hesitava em contar com elas.

— Pensando bem, o Taishou e o Asahi são incríveis.

Provavelmente, eles não pareceriam deslocados ao lado da Hinako e das outras. Eles mesmos diriam: "Isso é demais pra gente!", mas… os dois são praticamente os animadores da Turma A. São populares e têm um círculo amplo de amizades.

Taishou e Asahi se relacionam com pessoas fora do grupo da Hinako e do meu. Talvez essa seja a diferença entre nós…

— Com licença.

Enquanto eu pensava nisso, ouvi uma batida na porta. Quando ela se abriu, quem apareceu foi—

— Shizune-san…?

— Você parece estar mergulhado em pensamentos — Shizune-san disse, observando meu rosto. — Ouvi da Ojou-sama. …Itsuki-san, você quer ficar ao lado dela com orgulho dentro da academia, não é?

— Sim.

Eu não tinha entrado em tantos detalhes com a Hinako. A percepção da Shizune-san era impressionante.

— E, como consequência, você está refletindo seriamente sobre suas relações dentro da academia.

A isso, também só havia uma resposta possível. Quando assenti, Shizune-san soltou uma respiração longa e profunda. Não foi um suspiro. Soou quase como… admiração genuína.

— Até hoje, nenhum cuidador durou mais de um mês antes de desistir — Shizune-san começou a falar de repente. — Por isso, nenhum dos cuidadores anteriores chegou a se preocupar com relações dentro da academia. Em apenas um mês, não dá nem tempo de construir vínculos profundos o suficiente para enfrentar esse tipo de dilema.

Fazia sentido. Nem eu teria tido preocupações assim logo no primeiro mês como cuidador. Eu estava ocupado demais tentando acompanhar a Hinako e a própria academia.

— Em outras palavras, você é o primeiro cuidador a encarar de frente a dinâmica social da Academia Kiou — o olhar sério de Shizune-san se fixou em mim. — Haverá muitos desafios pela frente, mas permita-me dizer isso com clareza — como se estivesse colocando o coração nas palavras, Shizune-san abriu lentamente os lábios e disse. — Você fez um ótimo trabalho chegando até aqui.

Ela me encarou diretamente ao dizer isso. Era como se estivesse genuinamente feliz por eu estar enfrentando esse problema. A atitude dela me deu certeza de uma coisa. Ter esse tipo de preocupação era o caminho certo. Eu poderia ter recuado. Como cuidador, poderia ter escolhido manter distância da Hinako e das outras.

Mas escolhi seguir em frente — e essa foi a decisão correta. Shizune-san, que conhece Hinako há muito mais tempo do que eu, estava confirmando isso. Senti como se alguém tivesse me dado um forte empurrão nas costas.

— Vamos pensar nisso juntos a partir de agora — Shizune-san disse, com um tom surpreendentemente gentil. — Itsuki-san… como você pode, de fato, se tornar um verdadeiro aluno da Academia Kiou?


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