Volume 2
Capítulo 4: Sem mentiras
ATÉ ENTÃO, provavelmente tinha sido apenas mais um dia comum. Eu assisti às aulas com afinco, almocei com a Hinako no intervalo e, depois, me juntei à Tennouji-san para nossa sessão de estudos após as aulas.
Mas então, no meio de tudo isso… Depois da aula, enquanto eu trocava os sapatos no armário, notei algo incomum. Um único envelope estava enfiado dentro do meu escaninho.
Ao ver aquela carta branca, fechei a porta do armário com força por instinto.
— Nem ferrando…!
Uma carta de amor. …Uma carta de amor?! Não, não… isso é ridículo.
Uma aluna da Academia Kiou ia mesmo se apaixonar por um cara como eu?
Claro, como acompanhante, eu cuido da aparência, mas a Academia Kiou está cheia de gente absurdamente bonita. Não tem como eu me destacar só por aparência.
Meu status social, no papel, é o de herdeiro de uma empresa de médio porte. Isso chamaria atenção numa escola comum, mas na Academia Kiou — onde futuros CEOs de grandes corporações são mais comuns do que se imagina — isso não tem nada de especial. Eu não consigo pensar em um único motivo para alguém me escolher.
— O-O que eu faço? Eu conto pra Shizune-san…?
Minha cabeça estava girando, e eu queria desesperadamente falar com alguém. Numa escola normal, eu suspeitaria de uma pegadinha na hora, mas nesta academia, duvido que algum aluno se rebaixasse a uma infantilidade dessas.
Respirei fundo e abri o armário de novo. Hesitante, peguei o envelope—
— Uma carta de desafio.
Essas palavras inesperadas estavam rabiscadas na frente.
— …Hã?
Eu fiquei imóvel por quase um minuto, até meu cérebro voltar a funcionar. Isso… tem que ser pegadinha, né? Pelo menos não é uma carta de amor. Estou aliviado… ou talvez um pouco decepcionado? Não, eu nem estava esperando nada, então tanto faz. Vamos ficar com isso.
Ao abrir a carta, encontrei um horário e um lugar marcados. Sem cumprimentos nem rodeios — apenas: "Depois da aula, no dojô."
— Hm?
Ao olhar aquela caligrafia elegante, inclinei a cabeça.
— Isso… isso é a letra da Tennouji-san, não é?
De tanto estudar com ela, eu já estava acostumado com a escrita da Tennouji-san. Os traços firmes e vigorosos — como os de um calígrafo despejando a alma no papel — eram inconfundíveis: fortes, dominadores, cheios de vontade.
Por ora, fui ao dojô, como instruído. A Academia Kiou tinha um dojô bem ao lado do ginásio. Abri a porta e entrei. No centro do dojô, Tennouji-san estava sentada em seiza perfeito, vestindo hakama.
— Você veio.
Ela falou, abrindo os olhos lentamente.
— Ahn… Tennouji-san, o que é essa história de carta de desafio…?
— Primeiro, por favor, troque de roupa e vista um uniforme de kendô no vestiário.
As palavras dela tinham uma força incontestável e, embora eu estivesse confuso, obedeci. No vestiário masculino, encontrei um único uniforme de kendô. Como eu havia treinado defesa pessoal na casa dos Konohana, eu sabia como vesti-lo.
Quando eu estava prestes a sair do vestiário, notei um shinai de bambu encostado na parede, perto da porta. Eu devia levar? Ainda sem entender a intenção da Tennouji-san, inclinei a cabeça — mas peguei o shinai mesmo assim.
— Tennouji-san, eu me troquei como você pediu, mas o que é que—?
— Tomonari-san.
Levantando-se do seiza, Tennouji-san enfiou a mão nas dobras da hakama.
— O que é isto?
Ela me mostrou três fotografias. Peguei e olhei as imagens — e meus olhos se arregalaram.
— Kuh…?!
Eram fotos tiradas hoje de manhã, mostrando eu saindo da residência dos Konohana com a Hinako. Registradas com cuidado, de três ângulos diferentes, não deixavam dúvidas: as figuras eram, sem sombra de dúvida, eu e Hinako.
— Hoje de manhã, pedi aos meus subordinados que tirassem isso. …Quase parece que você mora com a Konohana Hinako, não parece?
Lembrei do grito da Shizune-san mais cedo. Na hora, achamos que tinha sido engano, mas… parece que realmente havia alguém observando.
— B-Bem, isso é… eu tive uns assuntos de família na casa dos Konohana, então…
— Então vou reformular. Onde você estava no almoço hoje, e com quem você estava?
Dessa vez, eu me calei. As fotos da manhã já tornavam a suspeita dela praticamente certa. Tennouji-san devia ter me observado — a mim e à Hinako — o dia inteiro. Eu tinha tomado cuidado com as pessoas ao redor, mas… a família Tennouji é tão influente quanto os Konohana. Uma vez que ela colocou os olhos em mim, não havia como escapar.
— Vou considerar o seu silêncio como confirmação — Tennouji-san abaixou o olhar ao dizer isso. — Em outras palavras… você me traiu, não foi?
Os olhos afiados dela me atravessaram.
— Traí? Não, não é assim, eu não quis…
— Assuma a guarda.
Tennouji-san apontou o shinai para mim.
— Eu vou esmagar esse seu coração distorcido!! — O shinai dela desceu com violência.
— Ei!?
Era um golpe poderoso, muito além do que se esperaria de uma mulher. Eu me esquivei por um triz, e o shinai roçou a ponta do meu nariz.
— E-Espera, Tennouji-san!
— Eu não vou esperar!!
Outro golpe veio em direção à minha cabeça. Nós estávamos apenas de hakama, sem armadura nem proteção. Se continuasse assim, alguém poderia se machucar sério. Ergui o shinai às pressas para defender, mas Tennouji-san girou o pulso e mudou o ângulo do ataque.
— Kote!!
— Guh…?!
Uma dor aguda explodiu no meu punho. Tennouji-san estava falando sério. …Mas isso não significava que eu pudesse revidar com a mesma seriedade. Ela é a filha da família Tennouji. Se eu a machucasse, isso poderia virar um problema gigantesco.
— Você…! — Enquanto golpeava, Tennouji-san gritou: — Você…! Você estava zombando de mim, não estava…!!
Os olhos dela brilhavam, cheios de lágrimas.
— Enquanto eu ardia de rivalidade contra a Konohana Hinako… você fingiu que me ajudava, mas pelas minhas costas estava rindo de mim…!!
Ao ouvir a voz dela tremendo, eu entendi. Tennouji-san — estava entendendo tudo errado.
— Não, não é verdade!
Defendendo o shinai dela, eu gritei:
— Sim, eu estou ficando com a família Konohana! Desculpa por esconder isso de você! Mas eu passo tempo com você porque eu quero, Tennouji-san! A Hinako não tem nada a ver com isso!!
— Não me venha com desculpas! Eu não confio em uma palavra sua, seu traidor!!
Ela empurrou meu shinai de volta. De onde aquele corpo esguio tirava tanta força? Um suor frio se espalhou pela minha pele. Eu menti para a Tennouji-san. Isso… talvez realmente conte como traição. Eu escondi meu status, minha origem, meus sentimentos. Ela confiou em mim a ponto de contar que era adotada — e eu traí a sinceridade dela.
— Tennouji-san… você está enganada. Eu nunca ri de você.
— Chega de desculpas!
Ela tinha razão. Tudo o que eu dizia soava como desculpa. Eu entendia por que Tennouji-san estava tão furiosa. Era porque ela havia confiado demais em mim.
E eu? Eu dizia que não a tinha traído, que a Hinako não tinha nada a ver… mas, ao mentir, eu já tinha provado que não confiava na Tennouji-san. A Tennouji-san é alguém em quem não dá para confiar? De jeito nenhum. Se é para dizer, quase não existe alguém tão confiável quanto ela. Não importa o que eu diga, ela sempre responde com honestidade e retidão.
— Eu admito que menti.
Falei, aparando o shinai dela.
— Admito que escondi coisas de você. Mas… não foi para te machucar.
— Eu disse: sem desculpas!
Agora, Tennouji-san estava abalada demais para ouvir. Se ela se acalmasse, com certeza entenderia. Ela suspeitava de uma provocação mesquinha, mas alguém passaria todas as tardes com ela, aguentando treinos rigorosos, só por algo tão banal?
— Essa é a verdade.
— Eu já disse que não posso acreditar—!
Tennouji-san levantou o shinai para atacar outra vez. No instante antes de ele descer, eu avancei o braço direito e agarrei o shinai dela para impedir.
— É a verdade.
Sem fingimentos, eu falei com franqueza. Segurando com força o shinai dela, eu tomei uma decisão.
Eu contaria tudo. Assim como Tennouji-san confiou em mim — eu queria confiar nela.
— Então… eu vou ouvir a sua explicação?
Já mais composta, Tennouji-san me lançou um olhar firme. No centro do dojô, sentados em seiza um de frente para o outro, o ar entre nós estava pesado, carregado de tensão.
— A verdade é que—
Eu expliquei minha situação com honestidade. Que eu não era herdeiro de uma empresa de médio porte. Que eu trabalhava como empregado da família Konohana. Eu contei tudo.
Mas — eu não mencionei a verdadeira natureza da Hinako. Isso era algo que eu não podia revelar. Estava profundamente ligado aos assuntos da família Konohana e, além disso, expor os segredos da Hinako sem permissão me parecia errado, mesmo que eu estivesse confessando os meus próprios.
— Entendo… entendo, entendo, entendo…
Ouvindo minha explicação, Tennouji-san assentiu várias vezes.
— Então você não é herdeiro de empresa nenhuma, e sim o filho mais velho de uma família pobre, que atualmente trabalha como cuidador da Konohana Hinako — e é por isso que você é aluno da Academia Kiou. E você manteve isso em segredo porque não queria causar problemas para a família Konohana, que o acolheu. …É difícil acreditar, mas faz sentido.
Tennouji-san parecia convencida. Então, me encarando como se me perfurasse, ela disse:
— Impostor.
Ela declarou sem rodeios.
— Você é um impostor.
— Você está absolutamente certa.
Eu não tive como retrucar. Baixei a cabeça.
— Esse jeito de falar.
— Hã?
— Isso também não era atuação? Quando você segurou meu shinai, o seu tom pareceu mudar.
— Bem.
Não era exatamente atuação, mas meu jeito normal de falar era, de fato, diferente. Nem todo aluno da Academia Kiou fala de forma formal. Colegas como Taishou e Asahi, por exemplo, falam de modo casual com todo mundo.
— Fale no seu tom de verdade.
— Mas.
— Eu disse: use o seu tom de verdade.
A presença dela não deixava espaço para discutir. A essa altura, tentar manter aparência já não fazia sentido.
— Tá bom.
Voltando ao meu tom natural, vi os olhos de Tennouji-san se arregalarem.
— Então… é assim que você fala de verdade.
A expressão dela ficou solene, mas logo se aguçou novamente, me encarando.
— Jure. Daqui para frente, você nunca mais vai mentir para mim — nem com palavras, nem com atitude — ela continuou: — Se mantiver esse juramento, eu prometo que podemos continuar como antes.
— Tudo bem assim? Como antes?
— Eu já disse que confio no meu julgamento de pessoas. …No fim, você mentiu para respeitar os desejos da família Konohana, e não por benefício próprio. Eu não posso simplesmente ignorar isso.
Mesmo numa situação dessas, Tennouji-san continuava totalmente correta e íntegra. Na verdade, ela provavelmente nunca faria algo para prejudicar os outros. Ela saberia quando falar e quando recuar, conforme a situação exigisse.
— Ter segredos é inevitável. Mas, de agora em diante, se você não puder dizer alguma coisa, apenas diga isso. É isso que significa não mentir.
— Entendi. Eu não vou mais mentir para você, Tennouji-san.
Quando eu disse isso, o rosto de Tennouji-san se iluminou como se ela tivesse tido uma ideia.
— Já que estamos nisso, que tal mudarmos a forma como nos chamamos? …Quando estivermos a sós, você pode me chamar de Mirei.
— Hã?
— Que cara é essa? Você devia se sentir honrado.
Tennouji-san fez bico, claramente insatisfeita.
— Eu vou te chamar de Itsuki-san. …Vamos usar isso como um sinal de quando podemos falar livremente um com o outro.
Isso, na verdade, podia ser bem conveniente. Em público, usaríamos o tratamento formal de sempre; quando pudéssemos relaxar, mudaríamos para o primeiro nome. Por coincidência, eu já tinha um arranjo parecido com a Hinako, então não me pareceu estranho.
— Certo… Mirei.
Eu tentei chamá-la pelo primeiro nome. Na mesma hora, o rosto de Tennouji-san ficou vermelho como fogo. Ela ficou em silêncio, claramente lutando para conter a vergonha.
— Mirei?
— N-Não vai dar certo, vamos esquecer isso.
— O quê?
Mexendo nos cabelos dourados e desviando o olhar, Tennouji-san disse:
— E-Eu não consigo ficar calma se você me chamar assim… Pode continuar usando meu sobrenome. Eu vou te chamar de Itsuki-san.
Assenti com um simples "tudo bem". Se era isso que ela queria, eu não me importava.
— De qualquer forma, a partir de hoje, nada de mentiras. Para ser justo, eu também vou evitar mentir para você. …Se tiver alguma pergunta, pode me fazer.
— Qualquer coisa, é…?
Mesmo com o incentivo, não consegui pensar em nada de imediato. Ou pelo menos foi o que achei — mas havia uma coisa sobre a Tennouji-san que vinha me incomodando há um tempo. Ainda assim, decidi que talvez não fosse a melhor hora para perguntar.
— Não, não me vem nada à cabeça.
— Seus olhos desviaram agora.
Tennouji-san não deixou passar minha breve hesitação.
— Sinceramente, por que você está se segurando logo agora?
— Não, é só que… não é nada tão importante assim.
— Eu disse: sem mentiras. Além disso, se você se contém numa situação dessas, só vai me deixar mais curiosa. Pergunte qualquer coisa.
— Tá bom, então.
Já que ela insistia, decidi ser honesto.
— O seu cabelo… você pinta, não é?
— !
No instante em que perguntei, um estranho "hiiek!" escapou dos lábios da Tennouji-san.
— Q-Q-Que pergunta sem noção é essa…!!
— Eu já me perguntava isso há um tempo.
— Tsc… pensar que eu acabaria me enforcando com a própria corda tão cedo… Você realmente é um impostor…!!
Acho que essa não é culpa minha.
— Eu pinto.
— Hã?
— Eu pinto, sim! Algum problema com isso?!
O rosto da Tennouji-san ficou vermelho como um tomate enquanto ela retrucava. Eu não tinha nenhuma objeção, então balancei a cabeça. Ao ver isso, Tennouji-san pareceu recuperar a compostura, o rubor em suas bochechas diminuindo aos poucos.
— Para ter uma aparência condizente com a filha mais velha da família Tennouji, eu pinto o cabelo de loiro desde pequena. …Meu jeito de falar é a mesma coisa.
— Ah, então aquele modo de falar era intencional mesmo.
— Claro que era. …E agora, já não posso mais voltar atrás.
Disse Tennouji-san, com uma expressão complicada. De fato, conhecendo a Tennouji-san como conheço, é difícil imaginá-la de cabelo preto e falando normalmente. Eu provavelmente acharia que ela comeu algo estragado.
— Mais uma coisa, deixa eu perguntar.
Percebi que havia mais uma pergunta que precisava fazer.
— Além de você, Tennouji-san, tem mais alguém que sabe que eu estou sendo acolhido pela família Konohana?
— Não, só eu sei. Todas as investigações foram encomendadas pessoalmente por mim. …Foi minha mãe quem desconfiou primeiro, mas eu consegui despistá-la.
— Entendo.
Eu estava prestes a agradecer, mas… hesitei e fechei a boca.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não… eu só estava pensando que, agora que minha identidade foi exposta, talvez eu não consiga mais continuar nesta academia.
— !!
Não há como esconder isso da Hinako ou da Shizune-san. Eu confiei na Tennouji-san. E mesmo agora, tenho certeza disso. Ela jamais espalharia a informação que descobriu. Mas… o Kagen-san com certeza não vai me perdoar. Enquanto pensava nisso, notei que Tennouji-san me observava com uma expressão triste.
— E-Eu sinto muito. Por ter insistido tanto em te interrogar… eu não pensei tão longe assim.
— Não, a culpa não é sua, Tennouji-san.
Vendo que ela estava entendendo errado, corrigi rapidamente. Não há absolutamente nenhuma culpa da Tennouji-san nisso. Porque—
— Eu não queria continuar mentindo para você, Tennouji-san.
Não sei se consegui esboçar um bom sorriso agora. Seja um demônio ou uma cobra o que me aguarda, todas as consequências só viriam depois que eu voltasse à mansão hoje.
*
— Itsuki-san, obrigada pelo seu esforço de hoje também na aula da Tennouji-sama.
Ao retornar à mansão, Shizune-san me cumprimentou. Eu tinha o dever de relatar a Shizune-san o que havia acontecido hoje. Cerrando os punhos de nervosismo, respirei fundo e falei.
— Ahn… Shizune-san. Tem algo que eu gostaria de conversar.
— Que coincidência. Eu também tenho algo para tratar com você.
— Hã?
Parece que Shizune-san também tinha um assunto comigo. Não faço ideia do que possa ser. Mas… desta vez, com certeza o meu assunto era o mais sério.
— Então, vamos ouvir o seu primeiro, Itsuki-san.
— Sim.
Contei tudo o que havia acontecido hoje com honestidade. Que a Tennouji-san descobriu minha verdadeira identidade. E que isso — foi uma escolha minha. Nervoso, como se estivesse expiando meus pecados, expliquei tudo em detalhes.
— Eu não contei a ela sobre a verdadeira natureza da Hinako. Mas fora isso… expliquei praticamente tudo.
— Entendo.
Shizune-san assentiu, com uma expressão séria.
— Sua honestidade é louvável.
— Hã?
Eu estava me preparando mentalmente para o tipo de punição que receberia, mas Shizune-san demonstrou até um certo respeito. Sem entender, arregalei os olhos.
— Mais cedo, recebi uma ligação da Tennouji Mirei-sama. O pedido dela foi que não o expulsássemos.
Essas palavras me deixaram atônito.
— Já ouvi o panorama geral. …A Mirei-sama refletiu que, por não conseguir manter a calma, acabou desconfiando de você desnecessariamente, Itsuki-san. Ela insiste que a responsabilidade por este assunto é dela.
— Isso não é…
Provavelmente, a Tennouji-san… entrou em contato com eles logo depois de se despedir de mim. Ela é esse tipo de pessoa. Eu me sinto abalado, mas estranhamente convencido.
— Como esperado da ojou-sama da família Tennouji. Sabendo que eu tenho ciência da sua situação, ela fez questão de me contatar diretamente pelo nome. Ela deve ter percebido que relatar isso diretamente ao Kagen-sama colocaria sua posição em risco. …Eu mesma informarei o Kagen-sama. Normalmente, um erro desses resultaria em demissão imediata, mas com a ojou-sama da família Tennouji implorando com tanta veemência, nem mesmo o Kagen-sama pode ignorar isso. Do jeito que está, demiti-lo poderia, na verdade, gerar um atrito com a família Tennouji.
Se a Tennouji-san não tivesse feito aquela ligação, eu talvez tivesse sido demitido como punição por tê-la enganado até agora. Mas, porque ela me protegeu desesperadamente, a família Konohana concluiu que me demitir poderia prejudicar a relação com a família Tennouji.
— Você foi salvo, não foi?
— Sim.
— Eu também sinto que tenho parte da responsabilidade nisso. …Como esperado, quando lidamos com alguém do nível da família Tennouji, o controle de informações tem seus limites. Talvez precisemos adotar medidas adicionais.
Disse Shizune-san, com um olhar sério. Foi então que notei Hinako nos observando do corredor.
— Hinako?
Quando chamei, Hinako se aproximou em passinhos curtos.
— Vocês dois… o que está acontecendo?
— Na verdade, parece que a Tennouji-sama descobriu a verdadeira identidade do Itsuki-san.
— O quê?
Os olhos sonolentos da Hinako se arregalaram lentamente.
— O que vai acontecer com o Itsuki…? Não pode ser… ele vai ser demitido…?
— Acredito que não haja motivo para se preocupar com isso.
Shizune-san respondeu com calma. Então Hinako veio até o meu lado e—
— Ai!
Ela deu um leve chute na minha canela.
— Não me faça ficar preocupada.
— Desculpa.
Pedi desculpas à Hinako, que fazia bico.
— Mas… como ela descobriu…?
— Eu não queria continuar mentindo para a Tennouji-san. Ela não é o tipo de pessoa que usaria isso para ferir os outros… eu julguei que podia confiar nela.
— Hmph.
De repente, Hinako soltou um som emburrado.
— Você… confia mesmo nela, né.
— Confio. Mas você também sabe como a Tennouji-san é, não sabe, Hinako?
— Bom, sim, mas…
Hinako fez uma careta complicada. Então seus lábios pequenos se abriram—
— Itsuki, seu idiota.
— Hã?!
Hinako deu meia-volta e saiu andando para algum lugar. Fiquei olhando para as costas dela, completamente sem reação.
— S-Shizune-san… a Hinako… começou a me odiar…?
— Não, não é isso… — Shizune-san levou a mão à testa e suspirou. — O que eu faço agora?
*
Noite. Depois de terminar meus estudos habituais antes de dormir, alonguei levemente as costas. Ao conferir as respostas dos exercícios que resolvi, percebi que minha taxa de acertos estava mais baixa do que o normal.
Eu não consegui me concentrar direito hoje.
— Eu deixei todo mundo preocupado.
Shizune-san e Hinako. Sinto-me responsável por tê-las deixado ansiosas. Isso não é culpa da Tennouji-san de forma alguma. As mentiras — e a falta de cuidado que permitiu que a Tennouji-san percebesse tudo — foram inteiramente culpa minha.
Eu estava prestes a fechar o livro, mas acabei abrindo de novo. Só mais um pouco, vamos continuar… Foi quando pensei isso que ouvi uma batida na porta.
— ? Pode entrar.
É raro alguém aparecer a essa hora. Quando a porta se abriu, Shizune-san e Hinako estavam ali.
— Hinako?
— Mm.
Guiada por Shizune-san, Hinako entrou no meu quarto com passinhos curtos. Shizune-san, ainda à porta, apenas assentiu silenciosamente para mim e se virou. Parece que ela só veio acompanhar Hinako e não tinha nada a tratar comigo.
A porta se fechou, deixando-me sozinho com Hinako. Hinako costuma vir ao meu quarto e tirar cochilos na minha cama, então isso por si só não me deixa nervoso, mas—
— Ahn… aconteceu alguma coisa?
— Nada.
Ao que parece, ela não tinha um motivo específico. Ela não parecia zangada, mas… ao ver seu rosto, lembrei do que aconteceu hoje, então abaixei a cabeça.
— Desculpa por te preocupar hoje.
— Mm.
Com um pequeno aceno de cabeça, Hinako se jogou na minha cama.
— Se você fosse demitido… eu teria problemas.
Abraçando meu travesseiro com força, Hinako disse. Se eu fosse demitido, claro que eu teria problemas. Mas não seria só eu — Hinako também seria afetada.
Eu preciso ter mais cuidado. De agora em diante, com o que mais eu preciso me preocupar?
— A propósito, Hinako, como você costuma agir normalmente?
Perguntei enquanto ela abraçava o travesseiro.
— Por quê?
— Estava pensando que preciso me comportar melhor daqui pra frente. …Agora você parece tão natural, mas na academia age como uma ojou-sama refinada, não é? Queria saber como você faz essa mudança, só como referência.
Explicando minha intenção, Hinako assentiu em compreensão. Ela pensou por um momento e então disse:
— Hm… eu não faço nada de especial. …Só acabou virando algo natural.
É mesmo? Eu meio que esperava algum método secreto ao estilo Konohana, ou algo assim. Ter virado algo natural é… difícil saber se fico impressionado. Será que ela se adaptou por escolha… ou cresceu em um ambiente em que não tinha outra opção?
Felizmente, Hinako não parece se importar.
— Então, tipo… se você quisesse, conseguiria agir como na academia agora?
— Mm… consigo.
Assentindo levemente, Hinako se levantou devagar. Ela se aproximou de mim, que estava sentado na cadeira. Mantendo a mesma distância que teríamos numa sala de aula, Hinako endireitou a postura.
— Bom dia, Tomonari-kun.
— Uau!
O tom, a voz, os gestos — tudo mudou num instante. Surpresa com a minha reação à súbita aparição do modo ojou-sama da Hinako, ela fez bico.
— O que foi esse "uau"…?
— N-Não, desculpa. Só me assustei…
Apressei-me em pedir desculpas à Hinako, que claramente não gostou. Foi mais suave do que eu esperava… como se ela tivesse simplesmente deslizado para esse papel.
— Você muda assim tão fácil, hein…
— Mm. …Na academia é sufocante, mas aqui eu consigo relaxar.
Pelo visto, agir assim aqui não é um fardo.
Que alívio.
— Ah, mas como aqui não é a academia… eu posso te chamar pelo nome — Hinako murmurou, como se tivesse acabado de perceber algo.
Voltando ao modo ojou-sama, ela me encarou diretamente.
— Bom dia, Itsuki-kun.

— !!!
Meu coração deu um pulo. É só o meu nome de sempre, mas isso me pegou desprevenido.
— Aconteceu alguma coisa, Itsuki-kun? Você parece meio pálido…
— N-Não…
Eu não devia pensar nisso. Na academia, a Hinako é obrigada a agir desse jeito, o que a deixa estressada. Então eu definitivamente não devia pensar nisso, mas—
Isso… é perigoso demais.
É a primeira vez que ela me chama pelo nome nesse modo. Dá a sensação de uma flor inalcançável que floresce só para mim, inclinando-se bem perto. É por isso que a garota diante de mim é chamada de a ojou-sama perfeita. Eu entendia perfeitamente por que ela era chamada de a flor inalcançável da Academia Kiou.
— Itsuki-kun?
Hinako espiou meu rosto de perto. Eu quase tinha me esquecido, mas a beleza da Hinako chama atenção dez vezes mais. Eu já estava acostumado com a nossa proximidade de sempre, mas, com a Hinako em modo ojou-sama tão perto assim, não tem como não ficar hiperconsciente.
— Hinako.
— Sim, o que foi?
Ainda em modo ojou-sama, Hinako inclinou levemente a cabeça. Não dá para continuar conversando assim — isso é estressante demais para os nervos.
— Eu tenho batata frita.
— Hã?
Hinako voltou instantaneamente ao seu eu habitual. Quando tirei um pacote de batatas da gaveta, os olhos dela brilharam. Elas tinham sido dadas pela Shizune-san como último recurso para quando a Hinako não obedecesse durante minhas tarefas de cuidador, mas como ela vinha colaborando ultimamente, eu não tinha usado.
— Hmmm…
Pegando as batatas, Hinako voltou completamente ao seu estado relaxado e despreocupado. Definitivamente me sinto mais à vontade com essa Hinako.
Mas… agora que penso nisso, dar lanches a essa hora da noite talvez não tenha sido uma boa ideia.
— Não conta pra Shizune-san.
— Mm!
Hinako assentiu com um sorriso radiante.
*
No dia seguinte, após as aulas. Fui ao ginásio para as aulas de dança com a Tennouji-san.
— Ah… Tennouji-san.
Depois de trocar de roupa no vestiário, entrei no ginásio e vi a Tennouji-san, que também tinha acabado de se trocar.
Ela me lançou um olhar rápido e, em seguida, olhou ao redor.
— Itsuki-san.
Ela fez um sinal. No momento, éramos só nós dois ali. Então eu podia relaxar no jeito de falar — mas como sempre falei formalmente com ela, a permissão me deixou meio sem jeito.
— Ahn… ansioso pela aula de hoje.
— Por que você está tão nervoso?
Minha saudação desajeitada fez a Tennouji-san soltar uma risadinha. É um pouco vergonhoso, mas isso ajuda a aliviar a tensão.
— Você ligou para a família Konohana ontem, não foi? …Obrigado. Sem isso, talvez eu tivesse sido expulso.
— Não há necessidade de se prender a isso. É verdade que eu me sinto responsável — disse Tennouji-san, com uma expressão séria. — Para ser sincera, hoje observei você discretamente… e, de fato, você estava se comportando de uma forma digna de um cuidador da Konohana Hinako. Sempre sutilmente ao lado dela, pronto para ajudá-la a qualquer momento. Sinceramente, a Konohana Hinako é mesmo muito afortunada, não é?
— Ouvir você dizer isso me deixa mais tranquilo. Embora, para ser honesto, eu esteja apenas conseguindo me virar.
— Não há necessidade de modéstia. Você deve ter sido muito bem treinado pelo pessoal da casa Konohana. Como cuidador, você é mais do que excepcional — dizendo isso, Tennouji-san baixou um pouco o olhar. — Eu realmente… sinto inveja. Se ao menos você pudesse ser meu cuidador também… — Tennouji-san murmurou algo em voz baixa.
— Você disse alguma coisa?
— Não, nada.
Ela respondeu num tom levemente irritado. Será que eu disse algo que a chateou…?
— A propósito, Itsuki-san… o que você e a Konohana Hinako fazem durante o intervalo do almoço? Eu sei que vocês dois estão sempre no antigo prédio do conselho estudantil, mas…
Tennouji-san me lançou um olhar penetrante. Tudo o que eu fiz hoje no almoço foi alimentar a Hinako e deixá-la tirar uma soneca no meu colo… mas não tem como eu admitir isso.
— Bom, a gente só… almoça normalmente.
— Se é só para comer, vocês poderiam fazer isso na sala de aula. Vocês não estão fazendo mais nada, estão?
Como esperado da Tennouji-san. A intuição dela é afiada. Então não me resta outra opção senão—
— Vou ficar em silêncio.
— Oh?
Os olhos da Tennouji-san se estreitaram de forma perigosa.
— Só para deixar claro, vocês não estão fazendo nada impróprio, estão?
— Não, isso não—
De repente, lembrei da Hinako dormindo no meu colo. Isso não seria considerado inapropriado pelos padrões da sociedade? Não, mas… como nenhum de nós tem esse tipo de intenção, deve estar tudo bem.
— Eu acho que não.
— Por que você hesitou agora?
— Não estamos.
Minha ansiedade deve ter escapado pelas palavras. Neguei rapidamente, mas já era tarde demais — a Tennouji-san ficou ainda mais desconfiada.
— Como eu pensei, há algo especial entre você e a Konohana Hinako…!!
— Mesmo que você diga isso… em que você está baseando essa suspeita?
— Na minha intuição!!
— Intuição…
Em outras palavras, ela não tem prova nenhuma.
— Se eu tivesse que dizer, comparado a um cuidador comum, talvez a gente seja só um pouquinho mais próximo.
— M-Mais próximo…?
Tennouji-san franziu a testa.
— O quão próximo, exatamente?
— O quão próximo?
— Sim! O quão próximos vocês são!? Tipo, só conversam de vez em quando, ou se cumprimentam quando passam um pelo outro — existem vários níveis, não existem?!
Isso não é proximidade; isso é o que se faz com um completo estranho. Por que eu estou sendo interrogado desse jeito, afinal? Confuso, respondi:
— Por exemplo, a gente conversa um pouco.
— B-Bem, isso não é problema nenhum. Nós também fazemos isso.
— E, como eu disse, a gente come junto.
— Isso também é normal. Nós fazemos isso.
— Às vezes… eu faço carinho na cabeça dela.
— Isso nós nunca fizemos—!!
Tennouji-san gritou. Droga. Depois de ter passado pelas duas anteriores, eu baixei a guarda e deixei escapar.
— Fazer carinho na cabeça!? Fazer carinho na cabeça!? Em que tipo de situação isso acontece!?
— B-Bem, é que… às vezes o clima pede, sabe?
— Que tipo de clima!?
Tump! Tennouji-san bateu o pé com força no chão. É difícil explicar esse "clima". Enquanto eu tentava encontrar palavras, Tennouji-san, com o rosto vermelho como fogo, disse:
— Faça carinho na minha cabeça também…
— Hã?
— Faça carinho! Eu, Tennouji Mirei, não vou deixar a Konohana Hinako me superar!!
Superar…? No que exatamente a Tennouji-san estava competindo com a Hinako?
— Tudo bem, então…
Se eu recusasse, ela provavelmente ficaria ainda mais furiosa, então estendi a mão em direção à cabeça da Tennouji-san.
— Fwa…
Ao fazer carinho, Tennouji-san soltou um som estranho. Apesar da personalidade ousada, o cabelo dela é macio como seda, com uma textura diferente da da Hinako. A risca é levemente fora do centro.
Enquanto continuo passando a mão em sua cabeça por alguns instantes, as bochechas da Tennouji-san ficam vermelhas e ela se cala. Nervoso, chamo por ela:
— Tennouji-san?
— Hã—!?
Os olhos dela se arregalaram, como se tivesse voltado à realidade de repente. Quando afastei a mão, ela pigarreou de propósito.
— Ahem. Peço desculpas… eu estava distraída por um momento.
— Distraída…?
Não parecia nada com isso, mas dizer isso poderia causar problemas, então fiquei quieto.
— E-Então, você faz esse tipo de coisa… com a Konohana Hinako?
— Faço, sim.
Ao ouvir minha resposta, Tennouji-san franziu a testa.
— Heh, hehehe… como eu imaginava, a Konohana Hinako e eu somos completamente incompatíveis…!!
Ela fechou o punho e murmurou.
— Vamos começar a aula.
— Hã?
— Vamos começar a aula!!
— S-Sim, senhora!!
Por algum motivo, Tennouji-san estava furiosa de verdade.
*
— Seus movimentos estão atrasados aí!!
Uma hora já havia passado desde o início da aula. Sempre que eu errava, Tennouji-san apontava imediatamente.
— D-De algum jeito, hoje está mais rigoroso do que o normal…!
— Eu não pego leve com impostores!
— Ugh… não tenho como discordar disso.
Antes que eu percebesse, minhas pernas já estavam bambas. Eu deveria ter resistência suficiente para acompanhar a Tennouji-san, mas meus movimentos ineficientes provavelmente estavam me desgastando mais do que o necessário. Mais uma hora se passou, e finalmente paramos.
— Isso é tudo por hoje.
— O-Obrigado…
Curvando-me, limpei o suor escorrendo pela bochecha com o dorso da mão.
Tennouji-san puxou a gola da camisa para secar o rosto e, quando o uniforme subiu um pouco, vi de relance sua cintura fina e pálida. Desviei o olhar imediatamente.
— Como sempre, você aprende rápido.
— Não parece pra mim.
— Não estou dizendo isso para te bajular. O que normalmente levaria dois dias para aprender, você domina em meio dia. Provavelmente é a sua vontade de melhorar que impulsiona esse crescimento.
Depois de dizer isso, Tennouji-san pareceu refletir sobre algo.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Só percebi, um pouco tarde, algo sobre meus próprios gostos. Parece que… eu gosto de pessoas que se esforçam.
Tennouji-san disse isso de repente. Provavelmente foi um comentário inconsciente. Mas, para mim, aquelas palavras eram difíceis de ignorar.
— Ahn, então… quando você diz "gosta", quer dizer…
— N-Não entenda errado!! Quero dizer que respeito como pessoa!!
— Ah, esse tipo de "gostar"…
— Claro! Caso contrário — Tennouji-san interrompeu a frase, como se tivesse caído em si. — Caso contrário, não seria apropriado.
Ela disse isso com um olhar solene. Ultimamente, a Tennouji-san vinha fazendo essa expressão com frequência. Sem saber como reagir, resolvi mudar de assunto.
— A propósito, você mencionou ser adotada, mas isso não transparece em nada. Diferente de mim, você não parece… comum, digamos.
— Fui criada na casa Tennouji desde que me entendo por gente. Nesse sentido, diferente de você, Itsuki-san, eu nunca precisei ajustar meu comportamento. Isso me poupou algum esforço.
Tendo crescido com hábitos de gente comum, eu tive que me esforçar para adquirir os modos refinados da Academia Kiou. Embora a Tennouji-san seja adotada, ela foi criada pela família Tennouji desde bebê, então nunca enfrentou essa transição.
Mas isso não significa que ela tenha se esforçado menos do que eu. Viver como a ojou-sama da família Tennouji traz uma pressão imensa, algo que eu jamais experimentaria.
— Então você não sabe muito sobre a vida de pessoas comuns, né?
— Correto. Eu estaria mentindo se dissesse que não tenho curiosidade.
Alguns alunos da Academia Kiou conhecem a vida comum. A Narika, por exemplo, costuma ir a lojas de doces.
— Mas… por enquanto, eu preciso focar nos estudos para superar a Konohana Hinako.
Tennouji-san disse isso com uma expressão séria.
— Já pensei nisso há um tempo, mas você realmente gosta de competição, não é?
— De fato. No começo, meu objetivo era ser a melhor em tudo pelo bem da família Tennouji, mas em algum momento isso acabou se tornando natural.
Isso é tão a cara da Tennouji-san.
— Especialmente desta vez… dependendo do noivado, o meu futuro é incerto. Preciso resolver as coisas com a Konohana Hinako enquanto ainda posso.
— Seu futuro? — diante da determinação dela, uma pergunta me veio à mente. — Seu futuro… esse noivado vai mudar alguma coisa?
— Sim. No pior dos casos, posso ter que deixar a Academia.
— O quê?
As palavras repentinas fizeram meus olhos se arregalarem.
— Meu noivo mora um pouco longe daqui. Parece que eles querem morar juntos o quanto antes, então, se o noivado for confirmado, provavelmente terei que sair da Academia imediatamente.
— E-Espere um pouco. Por que tão de repente…?
— Não há o que fazer. Eu mesma só fiquei sabendo disso ontem à noite.
Tennouji-san falou com calma.
— Aceitar um noivado significa isso. Seguir os desejos da família, dedicar-me inteiramente ao vínculo entre as casas. Eu não estou mais em posição de ser livre.
Seus lábios se apertaram ao dizer isso. A confiança habitual não estava no rosto da Tennouji-san.
— Eu já te perguntei isso várias vezes, mas vou perguntar de novo. Tennouji-san, você realmente se sente bem com esse noivado?
Diante da minha pergunta, o rosto da Tennouji-san vacilou por um instante, tomado por tristeza. Sem mentiras. Foi ela mesma quem disse isso. Fechando os olhos, ela exibiu um sorriso refinado… e respondeu:
— Vou permanecer em silêncio.
Isso, por si só, já era uma resposta.
*
No dia seguinte. Na sala de aula, após as aulas, durante um intervalo, soltei um suspiro profundo.
— Yo, Tomonari. Tá com cara de quem tá remoendo alguma coisa.
— O que foi~? Quer conversar? Tô aqui pra isso~!
Taishou e Asahi-san se aproximaram. Esses dois sempre aparecem quando eu preciso falar com alguém. Provavelmente não é coincidência. Ambos são os animadores da turma, sempre atentos ao ambiente. Devem perceber instintivamente quando alguém está incomodado.
— Ahn… eu queria perguntar uma coisa pra vocês dois… como é um noivado?
— O quê!? Não me diga, Tomonari-kun, que você recebeu uma proposta de noivado!?
— Não, não sou eu. É sobre uma amiga.
— Ufa, por um segundo achei que você tinha nos traído.
Traído? Inclinei a cabeça, e a Asahi-san explicou:
— Hoje em dia, noivados são coisa de grandes corporações, sabe~? Para gente do nosso nível social, um noivado é tipo… casar com dinheiro, basicamente~.
— Às vezes, mesmo no nosso nível, os pais empurram um casamento arranjado, mas não chega a ser um "noivado" formal. E, claro, dá pra recusar.
A explicação da Asahi-san foi complementada pelo Taishou. Traído… então eles acharam que eu estava tentando subir na vida ou algo assim.
— Noivados vêm mesmo sem direito de recusa?
— Depende da família… ou melhor, dos pais, pra ser mais preciso.
Taishou respondeu com um olhar sério.
— Para alguém como a Konohana-san, talvez não haja escolha. Mas, em geral, esses casos são explicados com bastante cuidado desde a infância. Além disso, com a sociedade do jeito que está hoje, as pessoas não costumam ser tão autoritárias. Se o distanciamento entre pais e filhos ficar grande demais, isso pode gerar conflitos na gestão da empresa mais tarde.
No caso da Hinako, por causa da personalidade dela, nenhum parceiro de noivado havia sido decidido. Assentindo à explicação da Asahi-san, cheguei a uma conclusão. A Tennouji-san… se quisesse, ela poderia recusar o noivado.
Mas ela não o faz. Provavelmente porque é adotada. A Tennouji-san quer retribuir à família Tennouji por tê-la criado. Por isso, ela nunca sequer considerou recusar desde o início. Dada a determinação dela, aceitaria qualquer noivado, independentemente de quem fosse o parceiro. Recusar não é sequer uma opção na mente dela.
Mas será que isso está certo? Será que eu deveria apoiar a Tennouji-san nisso?
Claro que não. Pare de fingir que não percebeu. Eu já vi isso muitas vezes. A Tennouji-san não está animada com o noivado. Os sinais sempre estiveram ali. Sempre que o assunto vinha à tona, ela ficava mais abatida do que o normal. Quando perguntei se ela se sentia bem com isso, respondeu que "permaneceria em silêncio". Eu não sou tão lerdão a ponto de ignorar sinais tão claros.
— Tomonari-kun, você está bem? Tá com uma cara super séria…
— Tô bem. Só pensando em como sabotar um noivado.
— Você tem certeza de que está bem!?
Asahi-san parecia chocada.
— Ahn… não sei exatamente o que está acontecendo, mas… talvez não faça nada muito imprudente?
— Mas é um clichê clássico da ficção, né? Invadir um noivado para salvar a heroína de um casamento indesejado, raptar a noiva. Sempre quis tentar isso uma vez…
— Se você fizesse isso, Taishou-kun, ia parecer mais uma comédia do que um drama.
— Ei, não me subestime! Quando eu levo a sério, eu sou bem estiloso, sabia!?
— Sei, sei.
Asahi-san ignorou o protesto do Taishou com naturalidade.
— Sendo realista, a solução mais inteligente é as pessoas envolvidas conversarem entre si. Hoje em dia, noivados não são tão definitivos assim, e a outra parte provavelmente já espera a possibilidade de ser recusada. Pensando desse jeito, recusar nem parece tão difícil…
Asahi-san falou pensativa, com um dedo apoiado no queixo.
— Mas, tipo, eu ouvi dizer que casamento é tudo sobre concessões, né~?
— Aff, não quero ouvir isso. Esse papo sem sonhos é veneno pra criança.
— Metade dos alunos da Academia Kiou são herdeiros de empresas antes mesmo de serem crianças, sabia?
Asahi-san sorriu de canto para o Taishou, que tapava os ouvidos. Herdeiros antes de crianças. Essas palavras ficaram ecoando na minha cabeça.
— A propósito, Tomonari-kun, você vai fazer algo com a Tennouji-san hoje?
— Vou. Até pouco tempo atrás, ela estava me ensinando etiqueta, mas com os exames práticos se aproximando, a partir de hoje vamos focar nos estudos.
— Hmm~.
Asahi-san soltou um som significativo.
— Vocês dois têm passado uma vibe diferente ultimamente, pelo menos é o que dizem os rumores~.
— Hã?
— Cara, Tomonari-kun, você tá popular~! A Tennouji-san é tão famosa quanto a Konohana-san, sabia? Quantos caras dessa Academia você acha que têm uma queda por ela?
Em resposta ao comentário da Asahi, o Taishou assentiu seriamente e disse:
— Eu sou um deles.
Não fazia muito tempo que a Tennouji e eu tínhamos tido um pequeno desentendimento, mas, em algum momento, parece que quem estava ao redor começou a achar que tínhamos uma boa química. Para ser sincero, revelar minha verdadeira identidade talvez tenha me aproximado da Tennouji. O ditado "depois da chuva, o chão endurece" cai como uma luva aqui.
(N/SLAG: "Depois da chuva, o chão endurece" (雨降って地固まる, Ame futte, ji katamaru) é um provérbio japonês que significa que, após um período de dificuldades ou conflitos, a situação se estabiliza e fica mais sólida e fortalecida.)
Mesmo assim, pelo bem da honra da Tennouji, eu preciso desfazer esse mal-entendido.
— Não é esse tipo de relação.
— É, eu imaginei. Mas, Tomonari-kun, parece que você anda vivendo a vida intensamente ultimamente.
— É… eu diria que estou me divertindo bastante.
Se a Asahi percebe isso de fora, provavelmente não está errada. Eu disse isso diretamente à Tennouji, mas aprender todo tipo de coisa com ela é genuinamente divertido. Ao ouvir minhas palavras, Asahi sorriu gentilmente.
— Aposto que a Tennouji também gosta de estar com você, Tomonari-kun.
Isso me deixaria feliz, mas… Não, provavelmente não é só por minha causa. A Tennouji sempre parece se divertir na Academia. Mesmo durante o chá em grupo, ela parecia animada.
Então por que ela teria que abrir mão disso? Será que a Tennouji não percebe o que está sacrificando com esse casamento arranjado? Se for esse o caso, então o que eu preciso fazer é—
*
Naquela tarde, depois das aulas. Eu estava estudando com a Tennouji no café ao lado do refeitório.
— O exame de proficiência está quase aí, não é?
— Está.
Como não havia mais ninguém por perto, falei com a Tennouji no meu tom casual de sempre. Com o exame tão próximo, não havia muitos alunos ficando na Academia depois das aulas. A maioria dos estudantes da Academia Kiou deve ter um ambiente perfeito para estudar em casa, então não há necessidade de permanecer ali.
— Eu já conversei com você sobre isso antes, mas vou explicar a situação com clareza.
Apoiando a lapiseira sobre a mesa, Tennouji falou.
— Foi-me permitido continuar matriculada até o próximo exame de proficiência. Portanto, como planejado, eu derrotarei a Konohana Hinako nesse exame. E… farei com que não haja motivo algum para eu continuar nesta Academia.
Meus olhos se arregalaram ao ouvir aquilo.
— Isso quer dizer que…
— Sim, exatamente.
Se o noivado for confirmado, a Tennouji terá que deixar a Academia de vez. Ainda assim, ela não diz nada a respeito. Ela é diferente da Hinako. A Tennouji é determinada e sabe se conter, então não consegue simplesmente dizer "me ajude" cara a cara.
— Por favor, não faça essa cara preocupada — de repente, Tennouji olhou para o meu rosto e disse: — Contribuir para a família Tennouji é a minha felicidade. Por isso, eu—
— Você realmente acredita nisso?
Eu encarei a Tennouji diretamente ao falar. Ela ficou em silêncio.
— Tennouji, você poderia reservar um dia amanhã só para mim? — Os olhos dela se arregalaram, mas eu continuei. — Você disse antes que tinha curiosidade sobre como vivem as pessoas comuns, não foi?
— Sim, eu disse algo assim.
Embora seja adotada, a Tennouji foi criada na casa Tennouji desde pequena, então não conhece o dia a dia de pessoas comuns como nós. Por isso, ela parecia tão interessada nesse tipo de vida.
— Que tal fazer uma pausa antes do exame? Como forma de agradecimento por tudo, eu adoraria te mostrar como pessoas comuns relaxam, se você topar.
Talvez tenha sido um convite repentino. Mas a Tennouji pensou seriamente por um momento antes de responder:
— Muito bem. Já que é uma oportunidade rara, vou aceitar.
Ela sorriu ao dizer isso. Uma oportunidade rara… É como se ela estivesse criando uma lembrança de sua vida como estudante desta Academia. Se é assim que a Tennouji se sente, então eu vou fazer o possível para garantir que isso não seja apenas uma lembrança.
*
No fim de semana seguinte.
Depois de convencer a Hinako e a Shizune-san a me darem permissão para sair, esperei pela Tennouji na estação.
— Agora que penso nisso, faz tempo que não tenho um dia de folga.
Era pouco depois do meio-dia. Talvez esta seja a primeira vez, desde que me tornei cuidador, que saio apenas por diversão, sem relação com trabalho. Desde que assumi essa função, passei a maior parte dos dias livres estudando, então hoje me sinto um pouco inquieto, como se tivesse tempo demais nas mãos.
E… agora que paro para pensar, hoje é um encontro. Vergonhosamente, eu nunca fui a um encontro antes. É meio tarde, mas estou começando a ficar nervoso.
— Desculpa a demora.
Uma voz veio de lado. Eu me virei e vi a Tennouji ali, mas—
— Tennouji… o que é essa roupa…?
— É um disfarce. Você vai me levar a lugares que alguém como eu normalmente não frequentaria, certo? É para evitar chamar atenção.
A Tennouji havia soltado o cabelo loiro, que normalmente usava enrolado, deixando-o liso, com uma boina azul-clara. Vestia uma blusa branca combinada com uma saia azul, um visual mais calmo e contido em comparação com a presença marcante que costuma ter na Academia.

Era uma roupa que se misturava bem à paisagem urbana. O disfarce tinha sido um sucesso completo.
Dito isso, a beleza natural da Tennouji ainda se destacava. Ela sempre foi linda, mas o visual de hoje tinha um charme diferente. De qualquer forma, sua aparência chamava a atenção de quem passava. Parece que a Tennouji simplesmente não consegue passar despercebida, não importa como se vista.
— Ahn… está estranho? — Perguntou a Tennouji, com as bochechas levemente coradas.
Ops. Eu encarei por tempo demais.
— Não, não está estranho… é só que parece diferente.
— Você já me viu com o cabelo solto na minha casa, não viu?
— Não é só o cabelo. O clima todo está diferente do normal…
Constrangido demais para dizer claramente que achava bonito e fofo, minhas palavras saíram meio emboladas. A Tennouji pareceu perceber meus sentimentos e abriu um sorriso confiante.
— Então, qual você prefere: eu de hoje ou eu de sempre?
Essa era uma pergunta difícil. Depois de pensar com cuidado, respondi.
— Se eu tiver que escolher, diria a Tennouji de sempre.
— Entendo. Então esse visual não é do seu gosto.
— Não, não é isso. É que você, do jeito de sempre, parece… mais você mesma, mais natural.
Coçando a bochecha, expliquei, e o rosto da Tennouji se iluminou com um sorriso feliz.
— Você tem razão. Sinceramente, essa roupa é um pouco apertada. O meu eu de verdade usaria algo um pouco mais… chamativo!
Colocando a mão sobre o peito, Tennouji declarou com ousadia.
— Hoje eu estou livre para te levar a qualquer lugar, certo? Não é perigoso, mas pretendo te levar a lugares que talvez não combinem com uma dama refinada da família Tennouji.
— Não tem problema nenhum. Foi exatamente por isso que me disfarcei. Mesmo que alguém me veja, enquanto minha identidade não for revelada, a reputação da família Tennouji estará a salvo. Pretendo me divertir ao máximo hoje.
Tennouji sorriu de canto, como se estivesse se gabando da perfeição do disfarce.
— Pensando bem, me surpreende sua família ter permitido isso. E sem acompanhantes também?
— Sim. Meu pai e minha mãe são bastante liberais — disse Tennouji, com um leve orgulho na voz. — Por outro lado, você conseguiu permissão sem problemas, Itsuki-san?
— Bem… dizer que não houve problema seria mentira…
A Shizune-san tem sido menos rígida com minhas ações ultimamente, então concordou rapidamente.
O problema foi a Hinako. Quando contei que queria sair sozinho com a Tennouji, ela ficou absurdamente emburrada. Expliquei que queria agradecer à Tennouji por tudo o que ela fez, e ela acabou cedendo, mas não sem resmungar várias vezes: "Depois você vai ter que compensar."
— A propósito, Itsuki-san. — Tennouji perguntou em voz baixa. — Está… tudo bem considerar isso um encontro?
— Ngh—!
Fiquei congelado, sem conseguir responder. Eu estava me esforçando tanto para não pensar nisso, e agora é ela quem traz o assunto.
— B-Bem… acho que dá pra chamar assim.
Quando admiti, as bochechas da Tennouji coraram levemente.
— É a primeira vez que saio em um encontro com um cavalheiro — ela disse, olhando para mim com um brilho provocador nos olhos. — Então… estou ansiosa, sabia?
Com um sorriso levemente travesso, mas com os olhos cheios de expectativa, Tennouji falou. A atitude dela me lembrou das lições rigorosas que já me deu antes.
Pensando bem, eu sempre passei tempo a sós com ela. Não há necessidade de pensar demais nisso agora.
— É. Hoje eu vou te mostrar como pessoas comuns se divertem de verdade.
Eu também vou aproveitar o dia ao máximo. Com a Tennouji ao meu lado, segui para a cidade.
*
— O que é isso!? O que é isso!? O que é isso—!?
Tennouji entrou em pânico, girando o volante freneticamente. De relance, olhei para ela enquanto inclinava calmamente meu volante para a direita.
O fliperama que eu não visitava havia anos ainda tinha a mesma atmosfera de antes. Uma mistura de sons enchia meus ouvidos, com crianças e adultos de todas as idades jogando ao nosso redor.
Estávamos jogando um popular jogo de corrida. No canto da tela, o carro da Tennouji saiu da pista e bateu no guard-rail.
— Aah!? — Ignorando o grito da Tennouji, segui tranquilamente em primeiro lugar.
— Isso! Primeiro lugar! — Soltei o volante e olhei para a Tennouji sentada ao meu lado.
— E você, Tennouji…
— Último lugar.
Vendo a Tennouji murchar visivelmente, não consegui conter a risada.
— Não ria! Eu estava me esforçando ao máximo!
— D-Desculpa. Mas você gritar "Isso é uma violação das boas maneiras!" para uma banana jogada no jogo foi bom demais… pfft.
— Eu disse pra parar de rir!
Não fui só eu — as pessoas ao redor também estavam rindo. Tennouji se recompôs e começou a observar outros jogos. Ainda parecia frustrada com a derrota, mas sua curiosidade era evidente enquanto analisava as máquinas.
Trazer a Tennouji ao fliperama foi a escolha certa. Assim como a Hinako, ela parece completamente leiga nesse tipo de entretenimento. Hoje, com certeza, vou conseguir mostrar a ela um mundo totalmente novo.
— Itsuki-san, o que é esse jogo de tambores japoneses?
— Taiko no Tatsujin, hein? É um jogo de ritmo. Vamos tentar.
— Jogo de ritmo? — Tennouji inclinou a cabeça enquanto eu colocava a moeda de cem ienes. Expliquei os controles e escolhi uma música imediatamente. No instante em que o jogo começou, Tennouji entrou em completo caos.
— Tch, isso não é uma apresentação musical adequada!
Para onde foi aquela postura confiante de sempre? Tennouji agitava as baquetas em completo desespero. Por fim, as pontuações apareceram na tela.
— Certo, mais uma vitória pra mim.
— Urgh…! Se isso fosse um taiko de verdade, eu com certeza seria melhor do que você…!
Foi um lamento de perdedora incrivelmente divertido. Tennouji imediatamente começou a procurar o próximo jogo.
— Itsuki-san, o que é esse!?
— Ah, air hockey. Que nostalgia.
— Isso aqui… é um pequeno disco voador? Eu jogo ele?
— Espera, espera! Vou explicar as regras!
Segurei a Tennouji antes que ela arremessasse o disco e expliquei como se joga. Ela é ignorante ou só tem conhecimento demais de coisas específicas? Difícil dizer. Mas esse conhecimento desequilibrado é tão típico de uma ojou-sama da alta sociedade. A Hinako também é assim.
Jogamos air hockey juntos. Naturalmente, eu venci.
— Próximo! Vamos!
Tennouji já começou a procurar outro jogo.
— Aquilo ali é… corrida de cavalos, certo?
— Um jogo de corrida de cavalos, hein? Quer tentar?
— De jeito nenhum! Apostar em cavalos é coisa de maiores de vinte anos!
— É só um jogo, então não tem problema.
Segurando o riso, tranquilizei a Tennouji, que estava em pânico. O cadastro de usuário deu um pouco de trabalho, mas logo começamos a jogar.
— Perdi de novo…!
— Bem, esse aqui é mais sorte do que habilidade…
A sorte definitivamente não estava do lado da Tennouji hoje. Ela ia procurar outro jogo, mas resolvemos fazer uma pausa rápida antes. Depois de comprar bebidas para nós dois numa máquina automática, sentamos em um banco perto da escada.
— Itsuki-san, você costumava vir muito aqui?
— Mais ou menos. Na verdade, eu trabalhava aqui. Às vezes, quando amigos apareciam, eu pedia permissão ao gerente para jogar um pouco.
Era por isso que eu nunca perderia para uma completa iniciante como a Tennouji.
— Um fliperama… é um lugar tão empolgante. É a primeira vez que venho a um lugar com esse tipo de atmosfera.
Pois é, pensei comigo mesmo. Esse lugar definitivamente não é conhecido por sua segurança exemplar. Os pais da Tennouji podem até ser flexíveis, mas alguém como a Kagen-san jamais deixaria a Hinako vir a um lugar desses.
Ainda assim, existem experiências que só podem ser vividas aqui. A Tennouji parecia completamente encantada com a empolgação do ambiente, reagindo aos jogos com a alegria pura — e a frustração — de uma criança.
— Hm?
De repente, senti como se alguém estivesse me observando. Atrás da máquina de pegar bonecos, do lado de fora da janela, havia alguém me encarando. A garota vestia o uniforme do colégio onde eu estudava antes. Ela me lançava um olhar de desprezo, como se eu fosse uma praga, fazendo um suor frio escorrer pela minha espinha.
— Droga.
Como pude não ter sido mais cauteloso? Essa região fazia parte do meu dia a dia antigamente. É claro que havia a chance de eu encontrar alguém conhecido.
Aquela garota — minha amiga de infância, Yuri — foi alguém com quem falei pela última vez no dia em que me tornei cuidador, há mais de um mês. Mesmo naquela ocasião, foi só uma troca rápida de mensagens, nada de uma conversa de verdade. Desde então, não entrei em contato… e, pelo jeito, ela estava realmente irritada.
Mas, para minha surpresa, a Yuri alternou o olhar entre mim e a Tennouji e, em seguida, virou-se e foi embora sem dizer uma palavra.
— Aconteceu alguma coisa?
— Nada.
Ao contrário do que eu esperava, a Yuri se afastou em silêncio. Isso é um pouco preocupante, mas agora preciso me concentrar na Tennouji.
— Que tal boliche agora? Ou talvez karaokê seja mais o padrão?
Como cuidador da Hinako, os gastos de hoje são troco de bolso para mim. Boliche ou karaokê — qualquer um serve. Eu só quero proporcionar à Tennouji experiências raras. Enquanto pensava nisso.
— Vamos fazer tudo.
Tennouji declarou, com a voz tensa.
— Vamos fazer tudo! Não vou deixar você escapar até eu vencer!
Talvez eu tenha despertado demais o espírito competitivo dela. Mas o pedido dela era exatamente o que eu queria ouvir, então apenas assenti.
*
Antes que eu percebesse, o céu já estava tingido pelo crepúsculo. O sol havia se posto, e já se aproximava das sete da noite. Alongando-me levemente para relaxar o corpo, caminhei em direção à estação.
— Faz tempo que eu não me divirto tanto assim… — murmurei quase para mim mesmo e olhei para a Tennouji. — Tennouji-san, o que achou do dia de hoje?
— Estou no pior humor possível!! — Tennouji-san gritou de forma exagerada, deixando a frustração transbordar. — No fim das contas, não venci um único jogo e ainda fui completamente humilhada no boliche!
— Mas no karaokê a disputa foi bem acirrada, não foi?
— Tirar pontuação alta cantando cantigas infantis não me satisfaz nem um pouco!
Eu dominei os jogos do fliperama e o boliche, então achei que o karaokê também seria fácil, mas não foi bem assim. Ao que parece, a Tennouji já teve aulas de canto, e a voz dela era realmente impressionante.
Dito isso, o repertório dela era limitado. Ela parecia dominar música clássica, mas não fazia ideia das bandas populares que costumamos ouvir. No fim, não teve escolha a não ser cantar cantigas infantis que todo mundo conhece. A expressão de humilhação no rosto dela enquanto cantava ainda está vividamente gravada na minha memória.
— Você parece ser alguém que gosta de desafios, Tennouji-san, então planejei o dia pensando nisso… fico feliz que tenha se divertido.
— Sim… graças a você, meu sangue não fervia assim há muito tempo.
Tennouji-san, tremendo de frustração, cerrava os punhos enquanto falava.
— E agora? Quer ir a mais algum lugar?
— Eu adoraria, mas… já está ficando tarde, não está?
— Está.
Assenti em concordância enquanto a Tennouji-san olhava para o céu já escurecido.
— Então, vamos encerrar por aqui?
Ao ouvir minha observação casual, a Tennouji-san estremeceu visivelmente.
— Que jeito cruel de dizer isso.
Ela parou de andar, encarando o chão com intensidade. Parece que a Tennouji-san realmente encarava o dia de hoje como um momento final para criar lembranças antes de deixar a Academia. Mas se hoje é realmente o fim ou não depende inteiramente das escolhas dela.
— Se você recusar o noivado, podemos continuar de onde paramos a qualquer momento.
— Mesmo que você diga isso, minha determinação não vai vacilar.
A voz da Tennouji-san tremia enquanto falava.
— De fato, hoje foi um momento verdadeiramente agradável. Mas quando se trata de algo que beneficia a família Tennouji—
— Se divertir não é o bastante?
Interrompendo-a, avancei.
— Isso, por si só, não é motivo suficiente para recusar o noivado?
Pegas de surpresa, os olhos da Tennouji-san se arregalaram em confusão.
— O-O quê…? Claro que não. Hoje foi algo pessoal meu. Já o noivado diz respeito aos assuntos da família Tennouji. A escala das duas coisas é completamente diferente.
Algumas pessoas que passavam pela rua nos olharam com curiosidade ao nos verem parar abruptamente no meio do caminho. De frente para a Tennouji-san, que mordia o lábio, declarei com clareza:
— Então, Tennouji-san… você está dizendo que jogaria tudo fora pelo bem da família Tennouji?
Tennouji-san ficou em silêncio, os lábios cerrados.
— Eu não consigo nem imaginar o tipo de pressão que você enfrenta. Mas depois de conhecer seus pais, uma coisa ficou muito clara para mim… Eles querem que você seja feliz, Tennouji-san. Não a família Tennouji, mas você — Tennouji Mirei.
Quando visitei a casa dela, a mãe, Hanami-san, me perguntou: A Mirei está se divertindo na Academia?
Desde o começo, aquela mulher nunca se preocupou com aparências ou status. Tudo o que ela queria saber era se a filha estava feliz na Academia… era isso que ela realmente desejava.
— Isso… é só coisa da sua cabeça — murmurou a Tennouji-san, ainda com o rosto abaixado. — Meu pai e minha mãe são gentis, então não me forçam a nada. Mas, no fundo, tenho certeza de que querem que eu viva pelo bem da família—
— Isso é um absurdo!
Não importa o quê — eu não posso deixar essas palavras passarem. Agora, estou realmente irritado. Por quê… por que ela não percebe?
— Tingir o cabelo de loiro! Falar desse jeito excêntrico o tempo todo! Você realmente acha que isso é para o bem da família Tennouji?
— O-O quê!? P-Por que… agora…!?
O rosto dela fica vermelho, como se dissesse: Justo agora? Quando era criança, a Tennouji-san acreditava de verdade que essas coisas beneficiariam a família. Mas agora, já crescida, ela escolheu manter essas excentricidades por vontade própria.
— E, ainda assim, o Masatsugu-san e a Hanami-san nunca disseram uma única palavra contra isso, disseram!?
— !!!
Tennouji-san prende a respiração. Talvez eu tenha deixado minhas emoções escaparem ao despejar tudo de uma vez. Ainda assim, não tenho a menor intenção de retirar o que disse. Isso não é como o caso da Hinako.
A Hinako sofria sob o peso das expectativas da família Konohana e das decisões da Kagen-san, atormentada por circunstâncias injustas. Mas o caso da Tennouji-san é diferente — não se trata de injustiça. Ela está simplesmente presa às correntes que ela mesma criou.
E isso é algo que eu simplesmente não consigo aceitar.
— Essas pessoas… colocam os sentimentos da Tennouji-san acima dos assuntos da família — declaro a verdade óbvia, clara como o dia. — Você está realmente encarando os sentimentos deles de frente, Tennouji-san?
Diferente de mim, a Tennouji-san ainda tem a chance de conversar direito com os pais. Guardando esse pensamento fundo no peito, digo o que penso.
*
O olhar sério do garoto à sua frente atravessa profundamente o coração de Mirei.
Atingida pelas palavras de Itsuki, Tennouji Mirei se lembra de momentos da infância.
— Mirei, nós só queremos que você seja feliz.
Seus pais adotivos disseram isso a ela várias vezes. Era uma declaração de que a encaravam como pais, mas também uma forma de gentileza — de não querer prendê-la. Mesmo quando criança, esse sentimento já havia chegado até ela.
Por isso, Mirei sempre quis retribuir a bondade do pai e da mãe tão gentis. Ao aprender sobre o prestígio da família Tennouji, Mirei percebeu como poderia demonstrar gratidão.
— Mãe, se eu estudar bastante, isso ajuda a família Tennouji?
Quando criança, Mirei perguntou isso à mãe. A mãe, radiante, respondeu: — Sim.
— Pai, se eu ficar famosa, isso ajuda a família Tennouji?
Ela perguntou ao pai. Ele riu alto e disse: — Isso mesmo.
A partir daí, Mirei se jogou nos estudos, tingiu o cabelo, mudou sua forma de falar e passou a trilhar o caminho de herdeira da família Tennouji. No começo, falhou muitas vezes. Suas notas eram medianas, e ela não era especialmente popular. Mas, com esforço incansável e quase desesperado, Mirei se tornou conhecida como uma estudante excepcional. Trabalhou até sentir gosto de sangue na boca, até que a antiga Mirei desaparecesse por completo.
— Mirei, você sempre estuda até tarde da noite… você sabe que pode viver de forma mais livre, não sabe?
Certo dia, a mãe lhe disse isso.
— Não precisa se preocupar. Este é o caminho que eu escolhi para mim.
Mirei respondeu sorrindo. A mãe assentiu, dizendo "Entendo", mas seu rosto estava carregado de preocupação. Talvez ela estivesse se esforçando demais. Mas, com o tempo, eles certamente entenderiam. Tudo o que ela queria era retribuir aos pais que a acolheram.
— Mirei, é bom ter boas maneiras, mas às vezes também está tudo bem relaxar, sabia?
— Não há problema. Como filha da família Tennouji, isso é o mínimo que eu posso fazer.
Quando isso começou? Antes que percebesse, Mirei já balançava a cabeça negativamente sem hesitar sempre que os pais diziam algo assim.
Ah… entendo.
As palavras do garoto à sua frente — Itsuki — ecoam em sua mente.
Você está realmente encarando os sentimentos deles de frente?
Essas palavras abalam o alicerce das crenças de Mirei.
E-Eu… estava fugindo.
Ela não tinha confiança para ser simplesmente a filha deles. Por isso, escolheu o caminho de se tornar a herdeira da família Tennouji. Era mais claro. Tirar boas notas, portar-se com elegância — isso era muito mais fácil do que corresponder aos sentimentos verdadeiros dos pais.
O garoto à sua frente a fez perceber que vinha fugindo desses sentimentos o tempo todo.
— Por quê…
A palavra escapa de seus lábios antes que consiga se conter.
— Por que… o Itsuki-san se importa tanto comigo…?
Ele não é da família. Então por que a encara com tanta seriedade? À pergunta de Mirei, Itsuki responde com uma expressão firme.
— Porque… eu quero que você viva o mais feliz possível, Tennouji-san — sem o menor sinal de constrangimento, ele declara isso com clareza. — Se você achou as experiências de hoje preciosas… por favor, não as jogue fora.
Ela se lembra de tudo o que viveu naquele dia. O fliperama, o boliche, o karaokê… talvez fossem desnecessários para uma herdeira da família Tennouji. Mas, para Tennouji Mirei, era diferente.
Hoje, ela se divertiu — de verdade, do fundo do coração.
— Seu trapaceiro.
Mirei murmura, com a voz trêmula. Não eram apenas os pais. Havia mais alguém — alguém que pensava tão seriamente em Tennouji Mirei, não como herdeira da família Tennouji, mas como pessoa. E foi por isso que ele a fez perceber.
— Trapaceiro, trapaceiro, trapaceiro… você realmente é um homem de língua afiada, não é…?
Ela segura com força as lágrimas que se acumulam no canto dos olhos, recusando-se a deixá-las cair. Suas emoções estão em completo caos. Agora mesmo, ela provavelmente está se comportando de uma forma totalmente inadequada para uma herdeira da família Tennouji.
Mas tudo bem. Porque essa pessoa não a vê assim.
— Vou deixar você me enganar — enxugando as lágrimas dos olhos com o dedo, Mirei sorri. — Vou recusar a proposta de casamento. …Afinal, não posso simplesmente abrir mão de algo tão precioso.
— Entendo.
Itsuki relaxa visivelmente, o alívio estampado no rosto. Só de ver essa expressão, talvez já valha a pena recusar o noivado.
— Bem, sendo sincero, não tenho tanta certeza de que as experiências de hoje foram assim tão preciosas—
— Não é isso.
Não se trata apenas das experiências de hoje.
Meu Deus… ele é perspicaz ou só incrivelmente lerdo?
Ela não sabe dizer.
— É você… você é esse algo precioso.
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