Volume 2

Capítulo 3: As Preocupações da Ojou-sama

NA MANHÃ SEGUINTE, acordei no meu horário de sempre e rapidamente vesti o uniforme da academia. Depois de cuidar de algumas tarefas leves como criado, fui até o meu quarto pegar a bolsa da escola quando avistei Hinako vindo em minha direção pelo outro lado do corredor.

Esse corredor leva diretamente ao refeitório. Provavelmente, Shizune-san a havia acompanhado até parte do caminho.

— Fwaa… Itsuki, bom dia…

— Ei, bom dia. Indo tomar café agora?

— Mm… — Hinako assentiu, ainda sonolenta. — Queria que a gente pudesse tomar café da manhã junto também…

— As manhãs são bem corridas com os deveres de criado, sabe? Não tem muito o que fazer.

— Você não precisa mais me acordar…?

— Tem um monte de outras coisas para fazer. Limpeza, lavanderia, esse tipo de coisa. A Shizune-san também anda bem sobrecarregada, não?

Hinako soltou um "Nmm" vago, que podia significar qualquer coisa — nem concordando, nem discordando. Enquanto a observava, uma pergunta surgiu de repente na minha cabeça.

— A propósito, faz um tempo que eu venho me perguntando… Por que você decidiu de repente que eu não deveria mais te acordar de manhã?

— Iep!

Hinako soltou um gritinho estranho. Seu rosto parecia o de alguém que teve um ponto sensível cutucado.

— B-Bem, é que…

— E você costumava pedir para eu te carregar nas costas ou no colo o tempo todo, mas parou com isso também…

Para ser sincero, no começo aquilo doeu. Cheguei a pensar que tinha feito algo errado. Mas Hinako ainda parecia confiar em mim mesmo depois disso, o que tornava tudo ainda mais confuso. O que estaria causando essa mudança nela ultimamente?

— E-Essas coisas… eu achei que já estava na hora de, sabe… deixar isso para trás…

— Deixar para trás? Tem algum motivo específico?

— Tem, mas… eu mesma não entendo muito bem… — com a voz aflita, Hinako hesitou antes de continuar lentamente. — Se o Itsuki quiser que eu faça… eu faço.

Aquela resposta me pegou de surpresa. Como posso dizer… não foi desagradável, para ser honesto. Mas ainda assim, não é algo para se levar de ânimo leve. Proximidade física demais pode ser arriscada de várias formas.

— Não é exatamente que eu queira… eu só pensei que, se você ficar independente demais, não faria mais sentido ter um cuidador por perto.

— !?

A verdade é que Hinako ainda se perde na mansão, tenta cochilar sempre que pode e me mantém bem ocupado como seu cuidador… Mas, quando eu disse isso com um sorriso torto, o rosto dela empalideceu de repente, como se tivesse presenciado uma tragédia.

Ela franziu a testa, os lábios tremendo nervosamente. Por fim, com um olhar decidido, disse:

— Me carrega.

— Hã?

— Me carrega…!

Já fazia um tempo desde a última vez que ela fizera esse pedido, e desta vez o tom não deixava espaço para discussão. Um pouco desconcertado com a mudança repentina de atitude, me movi para levantá-la com os dois braços. Quando chegamos perto o bastante para a pele se tocar, Hinako virou de lado e envolveu meus braços em torno do meu pescoço.

Ao que tudo indicava, ela queria ser carregada no estilo princesa. Era um pouco constrangedor, claro, mas não pude negar que fiquei feliz por ela ter pedido para ser carregada de novo depois de tanto tempo.

Eu a levantei com cuidado. O rosto de Hinako, visível perto do meu peito, estava completamente vermelho.

— Você, ah, está bem?

— Estou, então… só me leva até o refeitório assim mesmo…

Talvez ela não quisesse que eu visse seu rosto corado, porque enterrou a face no meu peito. Mas suas orelhas vermelhas ainda estavam à mostra, impossíveis de esconder.

— E-Eu… eu quero que você continue cuidando de mim, Itsuki…

Ela disse isso em voz baixa, apertando meu colarinho com força. Não consegui evitar um sorriso ao ouvir aquilo.

— Não tenho nenhuma intenção de deixar de ser seu cuidador, Hinako.

— Mm.

Hinako respondeu timidamente. Ela definitivamente estava diferente de antes, mas não era como se não gostasse de mim. Na verdade, quase parecia que ela estava começando a me ver como… um homem.

— Não, impossível — Murmurei para mim mesmo, tão baixo que nem Hinako conseguiu ouvir. Ela provavelmente só me vê como um membro confiável da família, nada além disso. Convencendo-me disso, carreguei Hinako até o refeitório.

*

 

Segunda-feira, depois da aula. Enquanto estudava como de costume no café ao lado do refeitório, notei que a caneta da Tennouji-san havia parado de se mover.

— Tennouji-san?

— Oh? …Ah, desculpe. Fiquei distraída por um momento.

Era raro ver a Tennouji-san tão dispersa. E não era só agora. Já fazia um tempo que ela parecia preocupada com outra coisa.

— Aconteceu alguma coisa? Você não parece você mesma hoje.

— Não, não se preocupe. Estou perfeitamente bem — dizendo isso, Tennouji-san corrigiu minha prova com uma caneta vermelha. — Já terminei de corrigir seu teste. Você tirou 98… Se concentrou tanto nas questões avançadas que acabou deixando passar algumas básicas.

Depois de corrigir minha prova de matemática, Tennouji-san explicou imediatamente meus erros. Eu fui anotando em silêncio enquanto ela explicava.

— Em seguida, vamos praticar etiqueta à mesa… Mas vamos fazer uma pequena pausa antes. Vou ao banheiro.

Tennouji-san se levantou e seguiu em direção ao prédio da escola. Observando-a se afastar, inclinei a cabeça mais uma vez.

— Ela definitivamente não está normal.

Ela disse que não havia nada errado, mas aquilo provavelmente era mentira. Sua aparência estava boa, e o jeito de andar parecia normal, então não era um problema de saúde. Ainda assim, estava claro que algo a estava incomodando. Mesmo assim, me intrometer em algo que ela queria manter em segredo parecia rude. Eu queria ajudar sem ultrapassar limites, mas…

Enquanto refletia sobre isso, uma figura familiar passou por perto. Chamei a garota de cabelos longos e negros presos para trás, que iam até as coxas.

— Narika?

— Hm? …Itsuki! É o Itsuki!

Ao me notar, os olhos de Narika brilharam, e ela veio correndo até mim. Só de chamá-la pelo nome ela já ficou toda animada… Ela é como um cachorrinho excessivamente amigável. Quase dava para imaginar um rabo abanando atrás dela.

— Você me chamou, Itsuki!

— Bem, não exatamente "chamei", só disse oi… O que você está fazendo na academia a essa hora?

— Ah, nada demais. Eu estava apresentando alguns produtos da nossa família para uso aqui na academia. Minha família fabrica equipamentos esportivos, sabe. A academia é um cliente importante.

A família de Narika, os Miyakojima, administra uma empresa de equipamentos esportivos. Ela provavelmente estava tentando vender materiais para as aulas de educação física.

— Então era isso que você estava fazendo.

— Isso mesmo. Afinal, sou uma filha da família Miyakojima. Pode me elogiar, sabia?

— Uau, impressionante.

— Isso soou meio sem entusiasmo, não soou? — mesmo assim, Narika parecia satisfeita. — A propósito, o que você está fazendo, Itsuki?

— Estudando com a Tennouji-san. Me preparando para o exame de proficiência e praticando etiqueta.

— Ah, é mesmo? Estudando até depois das provas do meio do semestre? Você e a Tennouji-san são tão dedicados.

— É… bem… embora minhas notas não sejam tão diferentes das suas, né?

— Verdade. Talvez eu também devesse estudar mais.

Para ser honesto, as notas da Narika são piores que as minhas. Ela se sai muito bem em educação física e história, mas mal consegue passar nas outras matérias — embora nunca reprove.

Nós dois ficamos em silêncio, sem mais assunto. Narika começou a se mexer inquieta, como se ainda tivesse coisas para fazer.

— Desculpa te atrapalhar. A gente se vê depois.

— E-Ei, espera! Essa não era a parte em que você me convidava para estudar junto com vocês!?

— Uh… você não disse nada, então…

— Eu achei que você ia perceber! — Narika gritou. O que exatamente eu deveria fazer com isso…? — Ou… será que eu sou difícil demais de convidar…?

— Não é isso, de verdade…

— Tudo bem, não precisa adoçar… Eu ouvi alguns colegas comentando sobre isso outro dia.

— Isso deve ter sido duro.

— Foi… machucou bastante.

O rosto de Narika parecia prestes a desabar em lágrimas. Meu Deus, será que não dava para dar à Narika uma vida um pouco mais gentil…?

— Bem, por hoje já terminamos de estudar, mas eu vou praticar etiqueta à mesa com a Tennouji-san agora. Quer se juntar a nós, Narika?

— S-Sério? Até alguém tão "difícil de convidar" quanto eu pode ir…?

— Eu não acho que você seja difícil de convidar, e aposto que a Tennouji-san não vai se importar.

— Itsuki…! Você é realmente meu único aliado…!!

Eu preferiria que ela fizesse mais amigos além de mim, mas isso talvez fosse sonhar alto demais. Ainda assim, por hoje, fiquei grato por Narika querer participar. Eu estava preocupado com a Tennouji-san. Se ela estivesse lidando com algo que eu não podia ajudar diretamente, talvez a presença da Narika a fizesse se abrir um pouco mais.

— Oh? Miyakojima-san?

Tennouji-san, que havia acabado de voltar do banheiro, notou Narika.

— Tennouji-san, tudo bem a Narika participar do treino de etiqueta?

— Não tem problema, mas…

Tennouji-san lançou um olhar para Narika. Narika falou apressada.

— S-Só hoje! Tenho estado ocupada com os negócios da família ultimamente, mas… bem, às vezes eu também quero aproveitar para ser estudante, sabe…?

Em outras palavras, ela estava se sentindo sozinha e queria companhia. Tennouji-san, talvez já familiarizada com a personalidade da Narika por sessões de estudo ou chás anteriores, sorriu gentilmente e assentiu.

— Não vejo problema algum. Então vamos fazer uma refeição leve hoje, certo?

O rosto de Narika se iluminou na mesma hora. Que tipo de vida a Narika levava antes de nos reconectarmos…? Fiquei curioso, mas com medo demais para perguntar, então enterrei essa dúvida no fundo do coração.

*

 

— O quê!? I-Itsuki… você dormiu na casa da Tennouji-san!?

Enquanto beliscávamos um lanche no café, expliquei a situação para Narika, que arregalou os olhos em choque.

— É, meio que acabou acontecendo.

— Isso não é algo que dá pra simplesmente "deixar passar" assim…! Eu sempre pensei nisso, mas entre a Konohana-san e a Tennouji-san, como você acaba ficando tão próximo de gente tão importante…!?

Como filha da família Miyakojima, Narika também não é qualquer uma, mas parece achar que Hinako e a Tennouji-san estão em outro patamar.

— Como o Tomonari-san passou no teste de etiqueta avaliado pelo meu pai, vamos encerrar por enquanto as aulas de boas maneiras à mesa.

— Entendido.

Assenti diante do plano da Tennouji-san. A prática de hoje era como uma checagem final. Errar significaria recomeçar as aulas de etiqueta, mas depois de jantar com o Masatsugu-san na mansão dos Tennouji, eu me sentia confiante o suficiente para lidar com a pressão.

— Ainda assim…

Enquanto comíamos, lancei um olhar para Narika. Ela não era tão refinada quanto a Tennouji-san, mas seus modos à mesa eram impecáveis. Manuseava a faca e o garfo com elegância e tomava a sopa sem fazer um único ruído.

— Narika, você é… na verdade, muito boa nisso.

— Ei! Está zombando de mim!? Como eu disse, sou filha da família Miyakojima!

O rosto de Narika ficou vermelho de indignação.

— Pfft.

Tennouji-san soltou uma risadinha.

— Me desculpem… vocês dois pareciam estar se divertindo tanto.

Ela enxugou uma lágrima no canto do olho. Essa provavelmente era a minha chance de perguntar. Criando coragem, olhei para a Tennouji-san e falei:

— Hum, Tennouji-san… aconteceu alguma coisa hoje? Você já fez tanto por mim que, se houver algo em que eu possa ajudar, estou disposto a ouvir.

Diante da minha pergunta, a expressão da Tennouji-san escureceu visivelmente. Mas então, como se tivesse se decidido, ela baixou o olhar e falou:

— A verdade é que recebi uma proposta de casamento.

Suas palavras suaves fizeram Narika e eu trocarmos olhares. Cresci como um plebeu comum, então não estou familiarizado com esse tipo de assunto. Mas, por meio da Hinako — e da família Konohana —, acabei aprendendo um pouco.

Propostas de casamento não são necessariamente algo ruim. Mas, a julgar pela expressão sombria da Tennouji-san…

— Você… não está animada com essa proposta?

— Não, não é isso.

Contrariando minha suposição, Tennouji-san balançou a cabeça.

— Como filha da família Tennouji, venho me preparando para propostas desde pequena. É só que… isso surgiu de forma muito repentina, e eu ainda estou tentando assimilar. Acho que fiquei um pouco sobrecarregada.

Era realmente raro ver a Tennouji-san tão abalada.

— Bem… para pessoas como nós, isso é praticamente um dilema predestinado — Narika disse, com uma expressão complicada.

— Você já recebeu alguma proposta, Narika?

— Ainda não. Me disseram que isso vai acontecer eventualmente, mas… e-ei!! Não entenda errado!! Eu prefiro muito mais um casamento por amor, tá!? Não vou aceitar nenhuma proposta!!

— A-Ah… certo… — Narika me encarou enquanto fazia essa declaração apaixonada, e tudo o que pude fazer foi assentir de forma constrangida. — Além disso, meus pais também não gostam muito da ideia de propostas. Já conversamos sobre isso uma vez, mas eles só disseram: "Ainda é cedo demais para você".

— Parece que seus pais cuidam bem de você.

— O que você quer dizer com isso!? — Narika pareceu ofendida enquanto eu desviava o olhar. Tentei imaginar Narika em uma reunião de casamento arranjado. Tudo o que consegui visualizar foi ela sentada, rígida como uma estátua, sem dizer uma palavra.

— Tomonari-san… o que você acha do meu noivado?

Tennouji-san perguntou, olhando diretamente para mim. Pensei por um momento antes de responder.

— Na minha família nunca se falou sobre noivados, então, sendo sincero, não sei muito sobre isso. Mas, se for uma boa escolha para você, eu vou te apoiar.

Era a minha opinião honesta. A Tennouji-san já me ajudou tanto que eu queria retribuir da forma que fosse possível.

— Obrigada a vocês dois. Conversar com vocês me ajudou a organizar um pouco os pensamentos — Tennouji-san ergueu o rosto e sorriu. — Pensando com calma, aceitar uma proposta não significa que meus relacionamentos vão mudar da noite para o dia… Talvez eu tenha pensado demais.

Assenti diante das palavras mais leves da Tennouji-san.

— Eu gosto de passar esse tempo com vocês, então, mesmo que seu noivado seja oficializado, espero que possamos continuar assim.

— E-Eu também! — Narika acrescentou rapidamente.

Depois disso, Tennouji-san voltou ao seu jeito de sempre, e terminamos a refeição antes de nos despedirmos.

*

 

Depois de se despedir de Itsuki e dos outros, Mirei entrou no carro da família Tennouji que aguardava em frente à academia.

— Bom trabalho hoje, Mirei-sama.

— Sim.

Um criado abriu a porta traseira, e Mirei entrou. Quando o carro começou a se mover, Mirei observou a paisagem passando pela janela, enquanto sua mente voltava à conversa de mais cedo.

Céus… como ele é lerdo.

Sem que ninguém percebesse, ela soltou um pequeno suspiro.

Se o meu noivado for oficializado, não vou mais poder passar as tardes depois da aula assim…

Uma vez noiva, ela hesitaria em se encontrar com outros homens além do estritamente necessário.

Eventos escolares ainda seriam aceitáveis, mas momentos privados como aqueles inevitavelmente diminuiriam. No mínimo, eles não poderiam mais se ver todos os dias como vinha acontecendo ultimamente.

Mesmo assim… o Tomonari-san foi incrivelmente indiferente… ele não podia ter dito algo a mais?

As palavras dele, dizendo que a apoiaria se fosse uma boa escolha, foram sinceras — mas também soaram distantes, quase formais.

E pensar que ele disse aquilo outro dia…

Itsuki havia comentado que talvez fosse divertido trabalharem juntos. Isso não significava que — mesmo depois de se formarem na academia — ele queria continuar ao lado dela?

Quando seus pensamentos chegaram a esse ponto, Mirei de repente percebeu uma sensação estranha se agitando em seu peito.

— Isso é estranho.

Ela havia decidido viver para a família Tennouji. Acreditava que essa era sua maior felicidade.

O que é esse sentimento…?

Era estranho. Ela não conseguia acreditar que sua felicidade estivesse no fim desse noivado.

*

 

Duas semanas haviam se passado desde que comecei a passar o tempo depois das aulas com a Tennouji-san. Essas sessões de estudo estavam planejadas para continuar até o próximo exame de proficiência, e hoje marcava exatamente a metade do caminho.

— A partir de hoje, também vamos começar as aulas de dança!

Com menos de duas semanas até o exame, Tennouji-san e eu nos posicionamos um de frente para o outro no ginásio.

— Desculpa por te dar o trabalho de reservar o ginásio.

— Não foi trabalho algum.

Agradeci à Tennouji-san, que vestia o uniforme esportivo oficial da academia. Depois de concluir as aulas de etiqueta à mesa, hoje daríamos início às lições de dança de salão. Eu já havia recebido algumas instruções básicas da Shizune-san, mas, comparado à etiqueta, meu conhecimento e experiência aqui eram extremamente limitados. Para ser sincero, eu não tinha muita confiança nessa área.

— Vamos começar com a valsa lenta.

Dizendo isso, Tennouji-san ligou a música em uma caixa de som instalada em um canto do ginásio. Uma melodia de valsa preencheu o ambiente.

— Vamos, não fique aí parado. Aproxime-se.

— S-Sim, senhora.

Na dança de salão, o homem e a mulher ficam de frente um para o outro, com os corpos próximos. Perceber isso naquele momento fez meus movimentos ficarem rígidos e desajeitados.

— Mais perto.

— A-Ainda mais…?

Já estávamos a menos de cinquenta centímetros de distância, mas dei mais meio passo à frente. Tennouji-san acompanhou o movimento, encurtando ainda mais o espaço entre nós. Nossos corpos se tocaram, e senti algo macio, além de um perfume doce.

— Segure minha mão direita com a esquerda. Depois, incline levemente o corpo para o lado…

Lutando para manter meus pensamentos dispersos sob controle, segui as instruções da Tennouji-san para me posicionar. Coloquei a mão direita em sua escápula, e ela apoiou a mão esquerda no meu braço.

— Essa é a postura básica, chamada hold. Agora, mantenha-a enquanto dançamos lentamente.

— Uh, mas eu ainda não sei direito os passos…

— Existe um ditado: "A prática leva à perfeição". Eu vou recuar, então me acompanhe com cuidado.

Tennouji-san puxou o pé direito para trás com leveza. Puxado pelo movimento dela, avancei com o pé esquerdo. Repetimos essa troca, girando lentamente pelo ginásio no sentido anti-horário.

— Agora, meia-volta para a direita… Muito bem, mais meia-volta…

Concentrando-me em manter nossos corpos próximos, percebi que estava seguindo instintivamente a liderança da Tennouji-san, dançando junto com ela. Fizemos uma pausa quando a música em repetição chegou ao fim.

— E então? Não foi tão difícil quanto você imaginava, certo?

— É… acho que estou começando a pegar o ritmo.

— Mesmo eu estando na liderança, você se adapta rápido, Tomonari-san. Talvez tenha aptidão natural para atividades físicas?

É verdade que sou melhor em atividades físicas do que em etiqueta ou estudos. Nunca fui ruim em esportes, então talvez a dança de salão combine comigo.

— Vamos recomeçar a partir do hold.

Seguindo sua orientação, voltamos a dançar. Normalmente, na dança de salão, o homem conduz. Deve ser mais cansativo para a Tennouji-san, mas ela não demonstrava qualquer sinal de frustração, guiando meus movimentos com total concentração.

— Isso exige mais resistência do que eu imaginava.

Depois de cerca de uma hora dançando, enxuguei o suor do queixo com a gola do meu uniforme esportivo.

— De fato. Normalmente faríamos pausas para dosar o ritmo.

Tennouji-san também enxugou o suor.

— Vamos retomar o treino. Tomonari-san, a postura.

— Sim.

Endireitei as costas e abri os braços enquanto Tennouji-san se aproximava. Relembrando o que havia aprendido, me preparei para assumir o hold — quando percebi algo de repente.

Dá para ver através. Talvez por termos dançado tanto tempo em um ginásio abafado, Tennouji-san estava suando bastante. O uniforme esportivo branco deixava à mostra, de forma tênue, a roupa íntima amarelada por baixo.

Isso… eu definitivamente não deveria encarar. Por respeito à Tennouji-san, que estava se dedicando a me ensinar, fiz o máximo para desviar o olhar enquanto mantinha a postura.

— Ei, para onde você está olhando?

Ela me repreendeu ao notar que eu encarava o vazio.

— Olhe para mim corretamente. Dançar não é só sobre os movimentos do corpo — o contato visual e as expressões também são importantes.

— Quero dizer… talvez isso seja verdade, mas…

Havia um motivo pelo qual eu não conseguia olhar, mas explicá-lo era difícil. Enquanto tentava descobrir como dar a entender, Tennouji-san segurou meu rosto e me forçou a encará-la.

— Assim. Olhe para mim.

O rosto dela preencheu minha visão, a poucos centímetros de distância. Logo abaixo, o uniforme de ginástica, encharcado de suor, grudava em sua pele.

— Ahn… Tennouji-san, isso é muito difícil de dizer, mas…

Eu não podia continuar encarando daquele jeito. Criando coragem, decidi confessar.

— Suas… roupas estão transparentes por causa do suor…

— Minhas roupas…?! — Finalmente percebendo, Tennouji-san cobriu o peito com as duas mãos. — O-O-Onde você está olhando?!

— Desculpa!

Você que mandou eu olhar!

*

 

Depois que Tennouji-san trocou o uniforme de ginástica suado por um limpo, retomamos o treino de dança, valsando por quase mais uma hora.

— Você está começando a parecer alguém da área.

— Obrigado.

Executei um giro natural para a direita e um giro reverso para a esquerda, com movimentos fluidos. O momento de abrir e fechar os passos é crucial. Se você perde a sincronia com o parceiro, a dança desmorona rapidamente.

O fato de eu estar dançando com mais facilidade do que esperava se devia a Tennouji-san se ajustando aos meus movimentos. Mesmo quando eu abria demais os passos, ela se adaptava sem esforço. O corpo dela devia ser incrivelmente flexível. Acompanhar seus movimentos graciosos parecia afrouxar minha própria rigidez.

— Vamos encerrar por hoje. É nossa primeira sessão, e talvez tenhamos exagerado um pouco.

— É… eu já estou no meu limite.

Nós dois recuperamos o fôlego. Usar músculos pouco familiares me deixou completamente exausto.

— A propósito… — enquanto arrumávamos as coisas, Tennouji-san falou de forma hesitante. — Se minhas roupas ficarem transparentes de novo, por favor me avise o mais rápido possível. É… constrangedor perceber só depois.

Ela mexia as mãos, claramente envergonhada.

— Bem… seria melhor se você mesma percebesse. Se eu apontar, significa que eu vi…

— Tudo bem. Eu confio que você não seja esse tipo de pessoa, Tomonari-san.

Ser confiado tão facilmente era um pouco inquietante. Graças a lidar com Hinako todos os dias, eu tinha certa resistência, mas até eu tinha limites. Ainda assim, aquilo era prova da confiança de Tennouji-san em mim.

Para honrá-la, assenti. Depois de limparmos os equipamentos de dança e sairmos do ginásio, a luz alaranjada do entardecer banhou meu rosto. O céu estava pintado com as cores do pôr do sol.

— Estou acostumada à dança de salão, mas acho que nunca dancei por tanto tempo assim antes.

Tennouji-san murmurou, passando a mão de leve pelos cabelos ainda úmidos de suor.

— Alguém do status da sua família recebe muitos convites para bailes?

— Depende da pessoa.

Enquanto caminhávamos, Tennouji-san explicou:

— Diferente de um simples jantar, um baile exige um planejamento meticuloso para ser realizado. Normalmente, os convites já vêm com a opção de confirmar presença. Quem não gosta de dançar costuma recusar ali mesmo.

— Entendo. Diferente de jantares, é mais fácil recusar, então as pessoas ou abraçam a dança ou evitam completamente.

— Exatamente. Ainda assim, se você comparece a um baile, é desonroso dançar mal ou ficar encostado como uma flor de parede. É uma habilidade que vale a pena aprender como parte do refinamento pessoal.

Assenti em concordância.

— Não sou convidado para bailes com frequência, então não sei quando será minha próxima chance… mas gostaria de conseguir dançar com confiança diante dos outros até lá.

Depois de aprender a habilidade, provavelmente eu ia querer exibi-la. Se Hinako fosse a um baile, talvez essa fosse minha estreia na dança de salão.

— Você não pode se dar ao luxo de levar isso com tanta calma — disse Tennouji-san, abaixando o olhar. — Se meu noivado for oficialmente decidido, não poderemos mais passar tempo depois da escola assim.

— Sério?

— Claro. Quando eu estiver prometida a alguém, devo dedicar o máximo possível do meu tempo livre a essa pessoa.

Isso fazia sentido. Com um noivo, encontrar-se frequentemente e a sós com outro homem seria inadequado.

— Isso… seria solitário.

As palavras escaparam antes que eu percebesse. Tennouji-san arregalou os olhos ao me encarar.

— Solitário?

— Sim. Pensando agora, eu realmente gosto de fazer coisas com você, Tennouji-san. É sinceramente triste imaginar que esse tempo acabaria.

Ao ouvir meus sentimentos honestos, Tennouji-san corou e desviou o olhar.

— E-Entendo…

A reação dela me confundiu. Será que fui direto demais?

— Hehe.

De costas para mim, Tennouji-san soltou uma risadinha.

— Ahn, Tennouji-san?

— N-Não é nada.

Ela balançou a cabeça apressadamente.

— Bem, então, Tomonari-san, até amanhã.

— É, até amanhã.

Nos despedimos no portão da academia. A figura dela se afastando parecia mais feliz do que o normal.

*

 

— Hehe.

Depois de se despedir de Itsuki e retornar à mansão, Mirei não conseguiu evitar um sorriso enquanto se dirigia ao quarto.

— Hehehe.

Seus passos estavam leves. Apesar de ter suado bastante durante o treino de dança, o cansaço havia desaparecido, substituído por uma sensação estranhamente flutuante.

"Eu realmente gosto de fazer coisas com você, Tennouji-san. É sinceramente triste imaginar que esse tempo acabaria."

Desde que se separara de Itsuki, aquelas palavras se repetiam em sua mente. A cada vez, um calor se espalhava por seu peito.

A que se sentia solitária…

Colocando a mão levemente sobre o peito, Mirei pensou:

A que estava se divertindo… não era só eu.

Essa sensação clara e alegre não era apenas dela. Era como se os sentimentos que ela inconscientemente nutria tivessem sido validados como reais. Não um mal-entendido, nem uma ilusão — ela e Itsuki compartilhavam os mesmos sentimentos.

Como posso fazer com que esses dias continuem para sempre…?

O pensamento lhe ocorreu. Se seu noivado fosse confirmado, seu tempo com Itsuki diminuiria.

Já sei. Se eu o convidasse para ficar como hóspede da família Tennouji…

Assim, mesmo com um noivado, ela ainda poderia vê-lo. Poderiam tomar chá, estudar juntos e praticar dança como sempre. Seus olhos brilharam, como se tivesse tido uma ideia brilhante — mas então…

— Que pensamento tolo.

Ela voltou à realidade. Aquilo era impossível. Talvez para ela fosse diferente, mas para a família Tennouji, Tomonari Itsuki era apenas um estudante. Não havia motivo justificável para acolhê-lo como hóspede.

— Mirei?

Uma voz chamou por trás. Ao se virar, ela viu sua mãe, Tennouji Hanami.

— Ah, mãe. Aconteceu alguma coisa?

— Essa é a minha fala. Você estava parada no corredor murmurando sozinha, então achei que algo estivesse errado…

— Não é nada. Eu só estava pensando.

Mirei disfarçou.

— Mirei, você anda tão animada ultimamente.

— Perdão?

— Você não percebeu? Desde que começou a passar tempo com o Tomonari-san depois da escola, você tem estado feliz todos os dias.

Ela só então percebeu o quanto estava se divertindo. Não havia notado que isso já transparecia há algum tempo.

— Você se importaria de me contar? Que tipo de pessoa o Tomonari-san é para você, Mirei?

— Por que tanta curiosidade sobre ele, mãe?

— Ora, vamos lá. Ele é alguém que causou tanto impacto na minha filha. É claro que eu fico curiosa!

Hanami disse, sorrindo com alegria. Sentindo o carinho da mãe, Mirei suspirou e começou a falar.

— Bem… o Tomonari-san é uma pessoa muito dedicada.

Recordando o tempo que passaram juntos, Mirei continuou:

— No início, ele parecia um pouco frágil… sem muita confiança. Mas ele tem ambição. Dá para ver o quanto quer melhorar e o quão sério leva seus dias na academia.

Quando se conheceram, sua postura era ruim, e ele parecia nervoso. Mas essa impressão foi completamente derrubada pela dedicação que ele mostrou durante o chá de um mês atrás, nas sessões de estudo e em seus esforços recentes após as aulas.

— Os modos à mesa dele, que no começo pareciam forçados, agora se tornaram naturais. Claro, minha orientação foi impecável, mas a atitude séria dele o fez aprender rápido.

Sinceramente, ela não esperava que ele evoluísse tão depressa. Provavelmente ele também estava estudando em casa. Aquela dedicação era admirável.

— Mesmo durante o treino de dança de hoje, o Tomonari-san estava tão concentrado… fico ansiosa para ver até onde ele vai chegar.

Será que ele estava revisando os passos em casa naquele exato momento?

Só de pensar nisso, ela sentiu uma felicidade inexplicável.

— Parece que você encontrou um amigo maravilhoso.

— Sim. Estar perto do Tomonari-san é muito estimulante. Espero poder continuar passando tempo com ele—

Ao pronunciar essas palavras, a mente de Mirei esfriou rapidamente. Ela percebeu que prezava muito mais pelos dias que havia vivido até então do que imaginava. O desejo de expressar aquele anseio quase escapou de seus lábios.

Mas esses dias já estavam chegando ao fim. De agora em diante, ela teria de passar a vida ao lado do parceiro que seu pai e sua mãe haviam escolhido para ela.

— Só posso esperar que meu noivo seja alguém assim.

Mirei falou com a voz tensa. Ela não podia demonstrar isso. Não podia deixar que sua mãe percebesse que sentia sequer o menor arrependimento em relação a esse noivado.

— Mirei, como eu sempre digo, você não precisa se forçar a carregar esse fardo. Você tem o hábito de assumir coisas demais, mas, na verdade, poderia ser muito mais livre…

— Não há necessidade de preocupação, mãe.

Interrompendo as palavras da mãe, Mirei falou com firmeza.

— Eu estou vivendo livremente.

— Entendo.

Como sempre, Mirei falou com compostura, exibindo um sorriso de beleza estonteante, capaz de encantar quem a visse. Ainda assim, sua mãe assentiu com uma expressão levemente triste.

— Quanto ao noivado, estamos planejando marcar um encontro em breve. Então, Mirei… você poderia reservar um tempo nos próximos dias?

— Claro.

Reprimindo as emoções que borbulhavam dentro de si, Mirei assentiu. Como filha da família Tennouji, não lhe era permitido reconhecer esses sentimentos.

Ainda assim. Se ao menos lhe fosse permitido fazer uma única reclamação.

Ela desejava que tivessem lhe contado sobre o noivado antes de ela conhecer Itsuki.

*

 

Já me acostumei às aulas de dança com a Tennouji-san. A dança social envolve contato físico próximo entre os parceiros. Por isso, devo ter parecido bem patético no começo, mas, ao ver a postura séria da Tennouji-san, os sentimentos inadequados que eu tinha foram aos poucos desaparecendo.

— Por hoje é só.

Disse Tennouji-san, enxugando levemente o suor. Ao olhar para o relógio, notei que havíamos praticado por apenas uma hora.

— Hoje você vai encerrar mais cedo do que o normal.

— Sim. Eu gostaria de continuar mais um pouco, mas… tenho um compromisso hoje.

— Um compromisso? — Perguntei casualmente, mas, por algum motivo, a expressão de Tennouji-san se tornou sombria.

— É sobre o noivado de que falei antes. Hoje vou me encontrar com o meu prometido.

Seu rosto permaneceu ensombrecido enquanto ela falava.

— Ahn… Tennouji-san, você tem alguma ressalva em relação a esse noivado?

— Por que você acha isso?

— Você não parece muito animada.

Até então, eu tinha assumido que Tennouji-san estava entusiasmada com o noivado e planejava apoiá-la. Houve um momento em que ela parecia ansiosa, mas achei que fosse apenas nervosismo diante de uma experiência desconhecida, não insatisfação com o noivado em si.

Mas talvez eu estivesse errado. Perguntei novamente sobre seus verdadeiros sentimentos, mas—

— Não há motivo para preocupação. Estou encarando o noivado de forma positiva — Tennouji-san respondeu com um sorriso que parecia desviar do assunto. — Além disso… considerando a minha posição, não tenho escolha a não ser aceitá-lo.

— Sua posição…?

— Sim. Já que surgiu a oportunidade, vou lhe contar isso, Tomonari-san — Tennouji-san me encarou com uma expressão séria. — Eu sou… adotada.

Suas palavras fizeram meus olhos se arregalarem. Tennouji-san continuou, com calma:

— Embora eu seja adotada, fui acolhida pela família Tennouji ainda bebê, então não sinto isso com tanta intensidade… mas o fato é que não sou filha biológica deles.

Com um leve traço de culpa, Tennouji-san falou:

— Tanto o pai quanto a mãe me tratam como filha de sangue. Mas a verdade inegável é que o sangue Tennouji não corre em minhas veias. Por isso, preciso me esforçar ainda mais para agir de forma digna de uma filha da família Tennouji. Já que não herdei o sangue, devo ao menos dar continuidade ao legado deles. Esse é o meu dever.

Tentando processar aquela avalanche de informações, organizei mentalmente as palavras de Tennouji-san. Em outras palavras, por ser adotada, Tennouji-san sente que não pode trair as expectativas da família Tennouji. Ela vê isso como uma obrigação.

— Espere um pouco.

Enquanto assimilava a história dela, senti uma de minhas suposições ruir.

— Não me diga, Tennouji-san… você vai se noivar por dever?

Em resposta, Tennouji-san esboçou um leve sorriso e assentiu.

— Sim. Mas isso é comum entre pessoas da nossa classe social.

Pode até ser, mas…

— Isso é mesmo certo?

Será que está tudo bem deixar as coisas assim? Meus pensamentos imediatamente se voltaram para Hinako. Obedecer aos pais não garante felicidade. Meu tempo com Hinako me ensinou isso muito bem. Mas, nesse caso, a própria Tennouji-san parecia aceitar sua situação. Um estranho não deveria se intrometer. Eu sabia disso, mas não consegui evitar me importar.

— O meu caso é um pouco diferente, mas… você, mais do que ninguém, deve entender, não é?

— Hã…?

— Afinal, você também é adotado, não é?

As palavras repentinas dela me deixaram paralisado, de boca aberta.

— Você se lembra do que eu disse durante a sessão de estudos com a Konohana-san e os outros?

As palavras dela despertaram minha memória. Durante um intervalo da sessão de estudos, Tennouji-san havia me perguntado: "Você é mesmo o herdeiro de uma empresa de médio porte?"

— Você disse que meus modos pareciam superficiais, não como os de alguém criado como herdeiro.

— Sim. Naquele momento, suspeitei da sua origem. Achei que você fosse alguém como eu, que se esforça para sustentar um nome de família por dever.

A partir disso, Tennouji-san concluiu que eu era adotado. Mas — infelizmente, ela está errada.

Ela acertou pela metade. Assim como ela, eu me esforço para sustentar um nome de família. Mas o nome que eu protejo é o Konohana, não o meu próprio. Eu não sou adotado; sou apenas um empregado a serviço da família Konohana.

Não posso explicar isso à Tennouji-san. Fazer isso violaria meu contrato com a família Konohana. Minha mente pode não ser das mais afiadas, mas consigo imaginar o tamanho do problema que causaria à família Konohana se revelasse minha verdadeira identidade ali.

— Por favor, mantenha isso em segredo.

— Claro. …Heh, como eu esperava, minha intuição estava certíssima.

Tennouji-san sorriu, visivelmente satisfeita. Uma pontada aguda atravessou meu peito. Era a culpa que eu vinha ignorando todo esse tempo.

*

 

— Itsuki?

Na residência Konohana, algum tempo depois. Hinako, percebendo que eu havia parado durante o jantar, chamou-me com curiosidade.

— Ah, desculpa. Sobre o que estávamos falando mesmo?

— Amanhã… eu quero faltar à Academia…

— Isso está fora de cogitação. E, além disso, tenho quase certeza de que não estávamos falando disso.

Hinako deu um adorável "teehee" para disfarçar. Isso mesmo, estávamos falando dos estudos na Academia. Como ambos fazemos revisões e preparações com afinco, temos muito em comum, apesar da diferença de notas.

— Itsuki… quero comer isso agora…

— Você consegue se alimentar sozinha, não consegue?

— Não consigo.

Apontar a mentira óbvia seria falta de tato, então apenas disse "tá bom, tá bom" e levei um pedaço do lombo salteado até a boca de Hinako. Enquanto Hinako mastigava feliz, eu também dei uma mordida. …Delicioso. O molho cremoso de mostarda tinha uma textura suave e rica.

— A propósito, quando você estuda enquanto está na mansão, Hinako?

— Depois da Academia, quando eu volto… até o jantar. Às vezes, eles me fazem estudar ainda mais depois disso…

O jeito como ela disse "me fazem" era tão típico da Hinako.

— Estudar à noite também… é bastante tempo.

— Não é só o conteúdo da Academia. …Para os jantares, eu preciso conhecer o desempenho do Grupo Konohana para acompanhar as conversas… e, quando participo de reuniões, tenho que preparar antes o que vou dizer…

Pensando bem, embora Hinako e eu moremos na mesma mansão, nem sempre passamos tempo juntos. Especialmente do pós-aula até o jantar, eu tenho tido aulas com a Shizune-san ou a Tennouji-san. Nesse período, Hinako deve estar estudando com afinco.

Tennouji-san não é a única que carrega o peso das obrigações familiares. Hinako também estuda todos os dias pelo bem da família—

— Isso nunca te deixa cansada de tudo?

Deixei a pergunta escapar quase sem pensar — e imediatamente percebi meu erro. Eu deveria conhecer as dificuldades da Hinako, e ainda assim perguntei como se fosse um problema alheio.

— Desculpa, eu não quis te menosprezar. Eu só… queria saber como você, como herdeira da família Konohana, lida com suas responsabilidades.

Ao reformular, vi Hinako soltar um "Hmm" pensativo.

— Estudar é… sinceramente, um saco.

Bom, isso era óbvio. Nada surpreendente.

— Mas… eu não gosto da ideia de alguém ficar triste por minha causa, então… às vezes sinto que preciso me esforçar. …Embora as coisas da família possam ser sufocantes às vezes.

Entendi. Então, Hinako também se sente sufocada por suas circunstâncias em alguns momentos. Não é de se admirar, considerando que ela já desmaiou de exaustão antes. Ainda assim, ouvir isso diretamente dela me fez perceber novamente o peso da situação.

— Então… quando você veio me ajudar, Itsuki, eu fiquei realmente feliz… — disse Hinako, com um sorriso radiante. — Isso me fez perceber… que o meu mundo não é apenas a família Konohana…

O sorriso dela era tão luminoso que era difícil desviar o olhar, como uma estrela cadente. Mesmo assim, no fundo da minha mente, o rosto de outra garota permanecia. Tennouji-san disse que noivados são comuns para pessoas da classe dela.

Será que ela… conhece um mundo além da família Tennouji?

*

 

Naquele dia, Mirei se encontrou com seu noivo.

O encontro aconteceu na residência da família Tennouji, onde ela vivia atualmente. A maioria das pessoas que visitava o local pela primeira vez se sentia intimidada pela grandiosidade, mas seu noivo não demonstrava nada disso.

Seu comportamento era refinado, suas palavras transbordavam elegância e inteligência. De fato, pensou Mirei, ele era exatamente o tipo de pessoa que seus pais escolheriam.

Ainda assim… seu coração permanecia turvo.

— Pois bem, vamos encerrar por aqui?

Anunciou Hanami, a mãe de Mirei, dando fim ao jantar. O noivo e sua mãe se despediram educadamente pela última vez antes de deixar a mansão.

— Bom trabalho, Mirei~.

— Sim… obrigada.

Depois de orientar as criadas sobre a arrumação, sua mãe voltou-se para Mirei.

— Então, o que achou dele~? Parecia que vocês se deram bem~.

— Sim, acho que sim. Ele é inteligente e parece ser uma boa pessoa.

Mirei se lembrou do homem que estivera sentado à sua frente durante o jantar.

— Ele era bem-apresentado e tinha modos impecáveis. …Nada surpreendente para o herdeiro de uma grande corporação. Como esperado da escolha do papai e da mamãe.

— Claro, nós só queremos que você seja feliz.

Disse sua mãe, com um sorriso gentil.

— Mas… ele é muito correto, ou melhor, refinado e confiável…

— Oh? E o que há de errado nisso~?

— Não é que esteja errado, mas… quando alguém é tão perfeito, não sinto que precise ensiná-lo em nada, nem me preocupar com ele cometendo erros…

— E o que há de errado nisso~?

Sua mãe inclinou a cabeça, confusa. A própria Mirei também estava confusa. O que ela estava dizendo, afinal? Sua expressão se tornou complicada.

— A propósito, só por curiosidade~… como ele se compara ao Tomonari-san~?

— P-Por que você está mencionando o Tomonari-san?

— Ah, sem motivo~. Só curiosidade mesmo, nada de segundas intenções~.

A atitude dela gritava segundas intenções. Mirei suspirou, exasperada com a mãe problemática.

— Compará-lo a um herdeiro de uma grande corporação é como noite e dia. O Tomonari-san ainda tem muitas imperfeições… tenho tanto a ensiná-lo, e, se fôssemos a um jantar como esse juntos, eu provavelmente ficaria preocupada com ele o tempo todo.

— Ora, ora… soa como o seu tipo ideal~.

Sua mãe disse algo, mas Mirei não captou direito e decidiu ignorar.

— Pensando bem, nunca perguntei… o que a família do Tomonari-san faz?

— Acredito que seja uma empresa de TI ligada ao Grupo Konohana. …Ainda não ouvi o nome da empresa.

Agora que parava para pensar, ela e Itsuki nunca haviam falado sobre esse tipo de assunto. Normalmente, entre os alunos da Academia Kiou, esse tema surgia em menos de uma semana. Não para medir status, mas por simples curiosidade.

No caso do Tomonari-san… isso só mostra o quanto há coisas interessantes sobre ele.

Tanto para o bem quanto para o mal, Itsuki era alguém com tantos assuntos para conversar que nunca sobrava tempo para falar sobre origem familiar. Para Mirei, isso era refrescante — e estranhamente reconfortante.

— Uma empresa de TI, hein~? Mas, para um herdeiro, ele é surpreendentemente simples, ou melhor… acessível, não é~? — disse sua mãe, apoiando o queixo na mão.

Embora fosse herdeiro de uma empresa de médio porte, Itsuki era, sem dúvida, alguém com os pés no chão. Mirei sabia o motivo. Sabia que não deveria contar, mas sua mãe parecia gostar bastante de Itsuki. Certamente não causaria problemas, então sua língua acabou se soltando.

— Só entre nós, ele é adotado, assim como eu. Então não é de se estranhar que seja tão acessível.

Ela esperava que sua mãe compreendesse, já que a própria Mirei era adotada. Mas, por algum motivo, a expressão da mãe ficou um pouco mais séria do que o normal.

— Diga-me, Mirei. Isso quer dizer que… eles adotaram o Tomonari-san porque queriam um herdeiro, certo~?

— Sim… deveria ser isso.

Sem entender a intenção da pergunta, Mirei respondeu, confusa.

— Que estranho~. Eu nunca ouvi falar de uma empresa de TI do Grupo Konohana que tivesse problemas para encontrar um herdeiro~…

— O quê?

*

 

Três dias depois de ouvir sobre o jantar de Tennouji-san com seu noivo, chegou a segunda-feira. Como de costume, eu ia para a Academia com Hinako.

— Itsuki…

— O que foi, Hinako?

Enquanto saíamos da mansão e caminhávamos em direção ao portão sob a luz do sol, Hinako perguntou:

— As sessões de estudo com a Tennouji-san… como estão indo?

— Estão indo bem. Desse jeito, minhas notas devem melhorar… e estar perto de alguém como a Tennouji-san acabou me fortalecendo em muitos sentidos.

Tennouji-san tem uma presença singular, mas é o retrato de uma estudante da alta sociedade da Academia Kiou. Acostumar-me a interagir com ela me deixou menos intimidado por pessoas desse meio. Tenho certeza de que vou lidar melhor com o próximo evento social do que com o anterior.

— Os estudos da Tennouji-san também vão bem… você pode acabar perdendo para ela na próxima prova, Hinako.

— Hmph.

Hinako soltou um resmungo levemente emburrado. Ainda sonolenta, não disse mais nada.

— Vocês dois, chega de conversa. Continuem andando.

— Desculpa.

Aumentei um pouco o passo em direção ao carro. Ao nos aproximarmos do elegante carro preto, o motorista que aguardava curvou-se em silêncio. Eu retribuí com um leve aceno.

Nesse momento, os olhos de Shizune-san se aguçaram, fitando algo ao longe—

— Intruso!!

— O quê?!

Surpreso com o grito repentino de Shizune-san enquanto ela apontava para fora da propriedade, congelei. Instantaneamente, a segurança da família Konohana correu para o local indicado.

Um minuto depois, um dos seguranças se aproximou de Shizune-san e informou:

— Tudo limpo.

— Então foi um engano meu — disse Shizune-san, com uma expressão desconfiada. — Peço desculpas. Senti que alguém nos observava.

— Tsc, só isso…?

Nunca imaginei ouvir a palavra "intruso" no Japão moderno.

— Ainda assim, é estranho. Meus instintos costumam estar certos…

Murmurou Shizune-san.

— Se não foi imaginação minha, quem quer que fosse é bastante habilidoso.

Suas palavras sinistras me fizeram engolir em seco. Afinal… em que tipo de confusão estou sendo arrastado? 

*

 

Saímos do carro e seguimos para a Academia.

— Tomonari-san.

Enquanto trocávamos os sapatos no armário, Tennouji-san me chamou.

— Bom dia, Tennouji-san.

— Bom dia.

Era raro encontrá-la ali. Quando a encarei, percebi que sua expressão estava séria. Será que queria falar sobre algo?

— Tomonari-san, vou ser direta. Você está escondendo algo de mim?

A pergunta dela apertou meu coração como um torno. Fiquei abalado, mas não podia deixar transparecer. Há duas mentiras que contei à Tennouji-san.

A primeira: que frequento a Academia Kiou sob uma identidade falsa.

A segunda: que estou sob a tutela da família Konohana.

Nenhuma delas pode ser revelada.

— Nada que me venha à mente.

— Entendo.

Tennouji-san assentiu, com um leve traço de decepção no rosto.

— Peço desculpas por perguntar algo tão estranho.

— N-Não, está tudo bem…

Por que ela teria perguntado isso de repente? Fiquei curioso, mas insistir parecia arriscado, então me contive.

— Ah, e a aula de hoje está cancelada. Surgiu algo urgente.

— Entendi. …Tem relação com o noivado?

— Não, isso é outra coisa — com um brilho que parecia raiva em seus olhos, Tennouji-san disse: — É algo muito mais importante.

*

 

Naquela tarde, após as aulas. Ao abrir meu armário, vi algo inacreditável. Dentro dele, havia um único envelope. Em sua superfície, escrito em caligrafia elegante, estavam as palavras:

Uma carta de desafio.

(N/SLAG: Uma mensagem formal enviada para provocar ou convocar alguém a enfrentar uma prova, duelo ou confronto. Pelo menos é isso que eu acho que é. A RAW não deixa muito claro. E estou com preguiça de buscar pela raw japonesa. Espero que esteja certo.)

 


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