Volume 2

Capítulo 2: Bem-vindo à Residência dos Tennouji

DEPOIS DE RECEBER a permissão de Hinako para visitar a residência dos Tennouji, também obtive rapidamente o aval de Shizune-san. Após as aulas, entrei em um carro com Tennouji-san e seguimos em direção à mansão onde, segundo ela, vivia no dia a dia.

— Então… esta é a casa da Tennouji-san…

Assim como Hinako, Tennouji-san aparentemente passa a maior parte do tempo em uma residência secundária, em vez da propriedade principal. Foi para lá que fui levado. Ainda assim, como no caso da casa de Hinako, não consegui deixar de pensar que essa tal "residência secundária" já era, por si só, uma mansão enorme.

Mesmo assim, sua aparência externa era bem diferente da residência dos Konohana.

Em uma palavra: chamativa. Além do portão imponente, estendia-se um jardim magnífico, repleto de flores vibrantes e multicoloridas, que chamavam a atenção mesmo à distância. Qualquer pessoa que passasse por ali certamente pararia para admirar a vista. O portão e os muros ao redor da mansão eram adornados com decorações intrincadas, fazendo-me sentir como se estivesse diante de uma obra de arte.

— Comparada à residência dos Konohana, está aqui é bem mais… chamativa. Ou melhor, extravagante… — as palavras escaparam da minha boca antes que eu pudesse contê-las.

— Você conhece a família Konohana?

— Ah, bom… sim. Já estive lá algumas vezes para prestar cumprimentos, sabe? Por causa das conexões dos meus pais.

— Entendo. Faz sentido.

Quase deixei algo escapar. A verdade é que não apenas visito a residência dos Konohana — eu moro lá todos os dias. Mas não posso deixar que ela descubra isso. O portão se abriu, e seguimos em direção à mansão, acompanhados por vários empregados.

O caminho largo estava impecável, sem um grão de poeira sequer. Tudo era meticulosamente mantido.

— Extravagância e ousadia — esse é o lema da família Tennouji. Mesmo em uma residência secundária, esse princípio nunca muda. Este jardim, por exemplo, foi projetado para ser bonito até mesmo visto do lado de fora do portão, sabia?

— Eu realmente achei lindo.

Quando disse isso, Tennouji-san abriu um sorriso satisfeito. Entramos na mansão. Como esperado, o interior era tão extravagante quanto o exterior. Um tapete vermelho luxuoso cobria o chão, e decorações em ouro e prata estavam espalhadas por todo lado. Ainda assim, nada parecia exagerado — a iluminação e a disposição eram cuidadosamente calculadas, integrando-se de forma harmoniosa ao ambiente.

Era como entrar em um cenário de filme.

— Oh, Mirei! Você voltou!

A voz de um homem ecoou do segundo andar.

— Pai, acabei de chegar.

Assim que Tennouji-san anunciou isso, endireitei imediatamente a postura. Um homem desceu a escadaria espiral branca. O cabelo penteado para trás e o cavanhaque bem aparado lhe conferiam uma presença elegante e imponente. Era alto, de ombros largos, e exalava força.

À medida que se aproximava, senti uma onda súbita de nervosismo.

— O… o pai da Tennouji-san?

— Sim. Quando mencionei que o convidaria para vir aqui, Tomonari-san, ele insistiu em conhecê-lo.

Eu não estava preparado mentalmente para isso. Apressei-me em recompor a postura. Diante do pai da Tennouji-san, curvei-me profundamente.

— M-Muito prazer. Meu nome é Itsuki Tomonari. A Tennouji-san tem sido de grande ajuda para mim na academia.

— Hmm. Sou Tennouji Masatsugu. Sinta-se à vontade hoje, tudo bem?

O tom amigável dele aliviou um pouco a minha tensão.

— Pai, não estamos aqui para socializar. O Tomonari-san veio para uma sessão de estudos.

— Ah, é mesmo! Então estudem o quanto quiserem!

Masatsugu-san disse isso com um sorriso aberto. No instante seguinte, porém, seus olhos se estreitaram, e ele se inclinou para sussurrar:

— A propósito, Tomonari-kun… qual é exatamente a sua relação com a minha filha?

— Hã? Bom, somos apenas colegas da academia…

— Só isso mesmo? Nada suspeito acontecendo? Sabe… tipo um romance juvenil—

— Pai! — A voz afiada de Tennouji-san interrompeu-o. — Sinceramente… nós não temos esse tipo de relacionamento impróprio.

Corando, Tennouji-san declarou isso com firmeza, e Masatsugu-san assentiu em concordância. Ele era mais brincalhão do que eu esperava. Ainda assim, não posso baixar a guarda. Até Kagen-san parecia gentil e obcecado pela filha à primeira vista, mas também tinha um lado implacável. Masatsugu-san pode ser igual.

— Mirei, não era etiqueta à mesa que você queria estudar?

— Sim. Se possível, gostaria de praticar etiqueta à mesa no estilo britânico.

Ao ouvir isso, Masatsugu-san levou a mão ao queixo, pensativo.

— Certo… nesse caso, eu vou participar também.

Ele lançou um olhar para mim enquanto falava.

— Hã?

Sinceramente, só o fato de estudar na residência dos Tennouji já parecia um desafio enorme. E agora eu teria que jantar com o presidente de uma corporação nacionalmente renomada…? 

Com a sugestão de Masatsugu-san, acabei sendo convidado para a mesa de jantar da família Tennouji. O que deveria ser uma simples sessão de estudos se transformou em um teste prático. Apesar da minha confusão, Tennouji-san apoiou a ideia com entusiasmo.

— A prática real é muito mais eficaz do que um ensaio.

Sem opção, apenas concordei.

*

 

Sete horas da noite. Após terminar a refeição em estilo britânico, limpei a boca com o lado interno do guardanapo e coloquei os talheres sobre o prato.

— Obrigado pela refeição.

Ao dizer isso, a tensão que eu vinha segurando se afrouxou um pouco. Sinceramente, não tive espaço mental para saborear a comida. Provavelmente era de altíssimo nível, mas eu estava focado demais em manter as boas maneiras e esconder meu nervosismo.

— Hmm.

Masatsugu-san, sentado à minha frente, fixou o olhar em mim.

— Nada mal. Você se saiu bem. Pelo menos, não senti nenhum desconforto ao jantar com você.

— Muito obrigado.

Inclinei a cabeça em agradecimento.

— Pai, você não está sendo um pouco complacente demais? Os movimentos dele ao tomar a sopa ainda estavam um pouco rígidos — disse Tennouji-san, enquanto levava a xícara de chá aos lábios com elegância. Seus gestos graciosos não eram algo que eu pudesse imitar facilmente.

— Verdade, ele parecia um pouco tenso, mas… bem, isso é natural ao jantar com alguém como eu! Hahaha!

Masatsugu-san soltou uma gargalhada sonora. Seu jeito expansivo ajudou a aliviar o clima. Pensando com calma, isso talvez fosse uma grande oportunidade. Conversar com alguém de posição tão elevada na alta sociedade é algo raro. Konohana Kagen, o chefe da família Konohana, está sempre ocupado na residência principal, então quase não tenho chance de vê-lo.

— Hum… existe algum truque para não ficar nervoso em situações como essa?

Aproveitando o momento, pedi um conselho a Masatsugu-san.

— Hmm… deixe-me perguntar uma coisa: você acha que alguém conseguiria ficar calmo numa situação dessas?

A pergunta me pegou de surpresa. Não consegui responder de imediato. Pelo menos, Masatsugu-san não demonstrara nenhum sinal de nervosismo durante o jantar…

— Você me perguntou isso porque pareci alguém que nunca fica nervoso, não é?

— O qu—!? Não, não foi isso que eu quis dizer…

— Seja honesto.

— Bom, talvez um pouco.

— Hahaha! Gosto da sua sinceridade!

Masatsugu-san riu com gosto. Eu não estava zombando dele. Pelo contrário — perguntei porque admirava sua postura confiante.

— É verdade. Sou praticamente imune ao nervosismo. Consigo manter essa atitude com qualquer pessoa.

— Qualquer pessoa…?

— Isso mesmo. Mesmo diante do primeiro-ministro, eu não vacilaria.

A menção ao primeiro-ministro me chocou internamente. Mas, para o líder do Grupo Tennouji, isso provavelmente não é nada incomum. Ele deve estar em posição de jantar casualmente com alguém desse nível. Ainda assim, manter a compostura até diante do primeiro-ministro… isso é impressionante. Ele não estava brincando. Disse aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Mas eu não nasci assim — ele acrescentou, fazendo uma ressalva. — Ninguém começa desse jeito. Até eu sofri quando era mais jovem. Foram anos construindo conquistas até me tornar quem sou hoje — seus olhos, cheios de determinação, encontraram os meus. — Construa seu histórico. Tome iniciativa. Não importa se falhar. O que te sustenta nos momentos críticos é o acúmulo dos seus esforços passados.

As palavras dele tinham um peso avassalador.

— Você deve ter pelo menos uma coisa, não é? Algo que tenha feito com convicção absoluta.

A pergunta me levou a um acontecimento de cerca de duas semanas atrás. Quando fui afastado do papel de cuidador da Hinako e quase separado dela, infiltrei-me na residência dos Konohana, determinado a ficar ao lado dela novamente. Aquela determinação era, sem dúvida, convicção.

— Sim.

Para minha própria surpresa, respondi com confiança. Ao ver minha reação, Masatsugu-san assentiu, satisfeito.

— Bom. Esse olhar nos seus olhos é forte. Essa experiência será o seu alicerce. Continue construindo a partir dela.

Quando Masatsugu-san concluiu, os empregados ao redor começaram a retirar os pratos da mesa. De alguma forma, senti que havia vislumbrado a grandeza dele. Diferente de Kagen-san, ele não exala uma aura solene. Mas isso não é porque não pode — é porque não precisa.

Masatsugu-san acredita que ninguém ousaria traí-lo, não por medo, mas porque ele conquistou essa confiança por meio de esforços incansáveis. Ele não espera sinceridade dos outros. Ele criou um cenário em que a sinceridade é a única opção, sustentada pela confiança que tem em seu próprio passado.

— Hm?

Um trovão ecoou repentinamente nas proximidades. Masatsugu-san fez um som baixo e olhou para a janela. Acompanhei seu olhar.

— Chuva? Quando começou…?

— Começou por volta da hora em que começamos a comer. Você estava nervoso demais para perceber, Tomonari-san — disse Tennouji-san, com um tom exasperado.

Ela estava certa — eu realmente não tinha notado.

— Há um alerta de chuva forte. O noticiário da manhã disse que seria fraca, mas… — Masatsugu-san comentou, olhando para o tablet.

— Pai…

— Certo. É o melhor mesmo.

Tennouji-san e Masatsugu-san trocaram um olhar cúmplice. Colocando o tablet sobre a mesa, Masatsugu-san voltou-se para mim.

— Tomonari-kun, passe a noite aqui.

— Hã? — A sugestão repentina me pegou de surpresa, e acabei perguntando de novo. — Passar a noite… tudo bem mesmo?

— Claro. Seria falta de educação mandar um convidado embora com esse tempo — disse Tennouji-san, como se fosse óbvio.

Não consegui contestar a lógica, mas ainda assim…

— Com licença, vou confirmar uma coisa.

Afastei-me e liguei para Shizune-san.

— Sim? O que houve?

Ela atendeu imediatamente.

— Bom, na verdade—

Expliquei que Tennouji-san havia sugerido que eu passasse a noite por causa da chuva.

— Entendo. Com essa chuva, não é nada inesperado.

O plano original era que Shizune-san viesse me buscar após a sessão de estudos, mas Tennouji-san provavelmente não queria incomodá-la dirigindo sob esse temporal.

— Felizmente, amanhã é feriado, então não há problema de agenda. Mas isso significa que a ojou-sama…

Shizune-san deixou a frase no ar.

— A Hinako vai ficar chateada?

— Não é difícil imaginar que ela ficará extremamente aborrecida.

Pensando bem, hoje no almoço, Hinako perguntou, nervosa. Mesmo sendo uma emergência, eu prometi que voltaria hoje, e quebrar essa promessa me deixaria culpado.

— Não sei se isso vai animar a Hinako, mas…

Fiz uma pausa antes de sugerir algo a Shizune-san.

— Hoje, recebi uma espécie de… aprovação sobre minhas maneiras à mesa por parte do pai da Tennouji-san, o Masatsugu-san. Então, se puder organizar as coisas conforme o planejado para amanhã…

— Entendido. Vou providenciar os preparativos.

Encerramos a breve conversa. A eficiência da Shizune-san ao se comunicar é sempre digna de elogios.

— De qualquer forma, não há problema em você passar a noite aí. Só tome cuidado para não cometer nenhum deslize.

— Entendido.

Com isso, finalizei a chamada com a Shizune-san. Voltei à mesa de jantar, onde Tennouji-san e seu pai me aguardavam.

— Desculpem a espera. Parece que está tudo certo, então ficarei por aqui esta noite. Obrigado.

— Ótimo! Preparem um quarto de hóspedes!

Masatsugu-san disse animado, e um dos empregados próximos se moveu rapidamente para providenciar o quarto.

— Tenho alguns assuntos de trabalho para resolver. Fique à vontade, Tomonari-kun.

— Sim, muito obrigado.

Agradeci sinceramente a Masatsugu-san enquanto ele se levantava para sair. O dia de hoje foi uma experiência valiosa. Com certeza colocarei em prática os conselhos que ele me deu.

— Tomonari-san, vou levá-lo até o quarto de hóspedes.

Tennouji-san me guiou até o quarto. Como era de se esperar da família Tennouji, até mesmo os corredores que levavam aos quartos transbordavam luxo.

— Este será o seu quarto, Tomonari-san.

Tennouji-san abriu a porta. Do outro lado havia um amplo quarto de doze tatames, com televisão e sofá. Já era mais do que suficiente para mim, mas aparentemente ainda havia um dormitório separado mais ao fundo.

— É… enorme.

— É mesmo? Achei que fosse bem padrão.

Tennouji-san disse, com uma expressão confusa. Pensando bem, embora eu more na residência dos Konohana, uso um quarto destinado aos empregados. Os quartos de hóspedes lá provavelmente são tão grandiosos quanto este.

— Ah, e há roupas naquele armário para você trocar quando for usar o banho principal.

— Banho principal…? Espere, eu posso usar?

— Claro. Aliás, faço questão que use. É o orgulho da nossa casa.

Tennouji-san disse com orgulho, estufando o peito. Se ela está tão confiante assim, acho que vale a pena experimentar.

— Vou para o banho também. Se precisar de algo, é só chamar algum dos empregados por perto.

— Certo.

Tennouji-san saiu do quarto. Quando a porta se fechou, soltei um pequeno suspiro.

— Que dia. Cheio de surpresas.

Tecnicamente, estou passando a noite na casa de uma garota, mas o tamanho absurdo do lugar torna difícil encarar isso dessa forma. Claro, o nervosismo vem por outro motivo.

— Ainda assim, ganhei algo com isso.

Ouvir as palavras perspicazes do Masatsugu-san foi uma grande conquista. E, considerando que continuarei trabalhando como cuidador da Hinako, provavelmente serei convidado para outras residências assim no futuro. Isso pode servir como um bom treino.

— Acho que vou para o banho.

Estou precisando relaxar um pouco. Decidi aproveitar com calma o banho do qual Tennouji-san tanto se gabava. Peguei um roupão no quarto e fui guiado por um empregado que aguardava nas proximidades até o banho principal. Troquei-me no vestiário e abri a porta com uma pontinha de expectativa.

— Uau… Agora entendo por que se gabam tanto disso.

O banho principal da família Tennouji era deslumbrante, extravagante demais para uma residência secundária. Havia duas áreas enormes de banho, cada uma do tamanho de uma piscina escolar, além de um banho ao ar livre. Eu até tinha imaginado torneiras em forma de leões dourados, mas eram ainda maiores e mais chamativas do que eu esperava.

— O teto… é tão alto.

O vapor se acumulava próximo ao teto como nuvens. Enquanto observava aquela visão incomum, lavei-me rapidamente antes de entrar na água.

— Haa… isso é o paraíso.

Não que eu estivesse morto ou algo assim. Por estar sozinho, acabei murmurando o clichê. Pensando bem, fazia tempo que eu não tomava banho sozinho. Desde que me tornei cuidador da Hinako, sempre tomo banho com ela, então hoje tudo parece estranhamente tranquilo.

Tomar um banho sozinho, com calma, não é nada ruim. Não é ruim… mas, de alguma forma, também me sinto um pouco solitário. No fim das contas, talvez eu tenha encontrado conforto em estar com a Hinako.

— Hm?

Nesse momento, ouvi a voz de uma mulher atrás de mim. Foi tão inesperado que congelei no lugar. Ao me virar em direção à voz, vi uma silhueta emergindo do vapor.

— N-Não pode ser… Tennouji-san?

— Sim, Tennouji.

A resposta veio em um tom surpreendentemente calmo. Mas não era a voz da Tennouji-san que eu conhecia. Era parecida, mas sutilmente diferente. A maneira de falar também não combinava com o estilo habitual dela.

Alguém se aproximou através do vapor. Era uma jovem mulher de cabelos castanhos presos para trás. As bochechas levemente coradas pelo calor e as gotas d’água reluzindo sobre sua pele lisa me fizeram desviar o olhar instintivamente.

Ainda assim, essa mulher não gritou nem fugiu da cena. Pelo contrário, aproximou-se ainda mais.

— Ora, ora… nos encontrarmos assim, em um lugar como este. Heehee, que primeiro encontro curioso, não acha?

Exalando uma aura suave, a mulher cobriu a boca com a mão e sorriu.

— Você deve ser o Tomonari-san. …Prazer em conhecê-lo. Sou Tennouji Hanami, mãe da Mirei. Obrigada por sempre cuidar da minha filha.

— A-Ah… sou Itsuki Tomonari. Da mesma forma, sou muito grato pela ajuda da Tennouji… da Mirei-san.

— Oh, que rapaz tão educado~.

Enquanto eu permanecia rígido, Hanami-san abriu um sorriso satisfeito. Para a mãe de uma colega de classe, ela parecia incrivelmente jovem. Poderia facilmente passar por alguém na casa dos vinte anos. Como estava no banho, provavelmente estava sem maquiagem. Mesmo assim, parecia assim — sinceramente, era difícil acreditar que ela fosse a mãe da Tennouji-san.

— A Mirei sempre me conta como você é dedicado aos estudos, Tomonari-san. Sinta-se à vontade para usar qualquer coisa nesta mansão, não apenas o quarto de hóspedes.

— M-Muito obrigado…

O elogio me fez abaixar a cabeça automaticamente. Foi então que recuperei a lucidez.

— Espere! Mais importante! Tenho quase certeza de que este é o banho masculino!!

— Oh? É mesmo?

Hanami-san inclinou a cabeça, indiferente. Como essa mulher consegue ficar tão calma diante de um garoto nu?

— Acredito que sim.

— Nossa, que situação complicada, não é?

Quem está em apuros sou eu. Eu sou apenas um convidado, enquanto essa mulher, que deveria conhecer bem a casa, confundiu os banhos masculino e feminino. Cheguei até a me perguntar se não era eu quem estava errado.

— Já que estamos aqui, por que não tomamos banho juntos~?

— O quê!?

Minha cabeça começou a girar. Eu não conseguia entender o senso de limites dela. Será que ela me via como uma criança? Um aluno do primário, talvez?

— Tomonari-san?

Enquanto eu ainda estava em choque, ouvi a voz de uma garota do outro lado da parede.

— Essa voz… Tennouji-san?

— Sim, sou eu.

A Tennouji-san… a verdadeira! Ainda bem. Se for ela, talvez consiga resolver essa confusão.

— O que está acontecendo? Parece que está bem barulhento aí…

Pelo visto, o banho feminino ficava do outro lado da parede. Ao ouvir a voz preocupada da Tennouji-san, tentei explicar, evitando ao máximo olhar para a Hanami-san.

— Bom, na verdade—

— Oh, Mirei, você está aí?

Hanami-san falou antes que eu pudesse explicar. Por um instante, pareceu que o tempo havia parado. Do outro lado da parede, Tennouji-san ficou em silêncio. O único som era o pingar alto da água.

— M-Mãe!? Por que você está aí—!?

Tennouji-san, como se tivesse reiniciado, gritou em voz alta.

— Desculpe, Mirei~. Acho que confundi de novo.

— E-Esta não é hora para brincadeiras! Saia daí imediatamente! E-Eu não posso deixar um colega de classe ver minha mãe nua — isso seria uma mancha na minha história!!

É… eu entendo perfeitamente.

— Aww, mas já que estamos aqui, eu adoraria conversar com o Tomonari-san~.

— Mãe!!

— Por que você não vem para cá, Mirei?

— Mãe!?

— O Tomonari-san tem um corpo bem bonito, sabia?

Tennouji-san parou de responder. Após um breve silêncio, ouvi passos apressados vindos do vestiário—

— Mãe!!

Com um estrondo, Tennouji-san escancarou a porta do banho masculino. Olhei para ela — e imediatamente desviei o olhar. Tennouji-san estava envolta apenas por uma toalha de banho. Diferente da Hinako, o corpo bem desenvolvido da Tennouji-san fazia a toalha parecer perigosamente instável, e não consegui olhar diretamente. Além disso, recém-saída do banho, com os cabelos soltos, ela transmitia uma maturidade inesperada que quase me deixou hipnotizado.

— V-Vamos embora agora mesmo! M-Mãe, você é uma dama, então por favor tenha um pouco mais de recato!!

— Sim, sim, tudo bem.

Dizendo isso, Hanami-san se levantou. Quando eu estava prestes a fechar os olhos, percebi pelo canto da visão — Hanami-san não estava nua.

— U-Um… maiô?

— Eu estava nadando na piscina antes, então vim direto para o banho~. Até eu ficaria envergonhada nua, sabia?

Hanami-san explicou, tarde demais, para uma Tennouji-san completamente atônita. Bom… mesmo que esteja de maiô, eu continuo nu aqui…

— Mais importante, Mirei… não acha que você é quem deveria ter um pouco mais de pudor?

Hanami-san lançou um olhar para Tennouji-san enquanto falava. Em meio ao pânico, Tennouji-san não havia percebido a própria situação. Ao olhar para baixo e ver que estava apenas de toalha, seu rosto ficou vermelho como um tomate—

— Hiiiyaaaaaaa—!?

O grito da Tennouji-san ecoou pelo amplo banho. Com passos ainda mais barulhentos do que quando chegou, ela saiu correndo.

— Ora, ora, que barulho todo.

— Acho que mais da metade disso é culpa sua.

Soltei um suspiro profundo, olhando para Hanami-san, que sorria como se estivesse se divertindo.

— A propósito, Tomonari-san — de repente, Hanami-san me encarou com uma expressão séria. Mesmo de maiô, sua aparência era estimulante demais para um garoto adolescente saudável. Virei-me para ela, mas mantive o olhar levemente desviado enquanto escutava. — A Mirei está se divertindo na Academia?

A pergunta, feita em tom sério, era sobre a Tennouji-san. Como mãe, ela deve se preocupar com a filha. Talvez fosse isso que Hanami-san quisesse me perguntar desde o início.

Pensei na Tennouji-san na Academia… e assenti com firmeza.

— Sim. A Tennouji-san está sempre confiante, enfrentando tudo de frente… Tenho certeza de que ela aproveita cada dia.

— Que bom. Fico aliviada.

Hanami-san sorriu suavemente. Sua expressão parecia genuinamente tranquila, do fundo do coração.

*

 

Depois da confusão no banho, voltei para o quarto de hóspedes e estudei.

— Certo, a meta de hoje está concluída.

Terminei as tarefas de revisão e pré-estudo que a Shizune-san havia me passado. Ultimamente, como a Tennouji-san também tem me ajudado nos estudos, as metas da Shizune-san ficaram um pouco mais leves. Ainda assim, exigem concentração; se eu relaxar, acabo levando horas, então não posso baixar a guarda.

— Talvez eu estude mais um pouco.

Talvez por estar em um ambiente diferente, eu estava excepcionalmente focado. Uma leve tensão parecia manter a preguiça e o sono afastados. Com determinação renovada, abri o livro mais uma vez.

Nesse momento, ouvi uma batida na porta.

— Com licença.

Tennouji-san apareceu na porta aberta, vestindo roupas casuais de descanso.

— Tennouji-san?

— Preparei um chá de ervas. Gostaria de me acompanhar? — disse Tennouji-san, segurando uma bandeja. Peguei a xícara mais próxima dentre as duas na bandeja.

— Obrigado.

O vapor que subia da xícara roçou meu nariz. Tinha um aroma calmante.

— Você é mesmo muito focado, não é? — murmurou Tennouji-san, lançando um olhar aos materiais de estudo espalhados sobre a escrivaninha.

— Focado é exagero… é só que estou acostumado a essa rotina, então fico inquieto quando não estou estudando.

— Você realmente precisa de conquistas — após dar um gole no chá, Tennouji-san falou. — Você se esforça tanto, mas ainda assim carece de confiança porque não alcançou resultados que a satisfaçam. …Na prova de proficiência do próximo mês, você precisa, sem falta, ficar entre os primeiros colocados.

— E-Eu vou dar o meu melhor.

Masatsugu-san tinha acabado de me dizer que eu também precisava de realizações. De fato, obter uma colocação alta na Academia Kiou seria algo de que se orgulhar. Sentindo-me motivado, também passei a nutrir um profundo respeito por Tennouji-san.

Ela devia sempre agir com esse tipo de mentalidade. Sua postura confiante de sempre não surgiu do nada. Seus esforços do passado moldaram sua atitude cotidiana. Pensando nisso, olhei novamente para Tennouji-san… e notei algo diferente.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não, é só que… é a primeira vez que te vejo com o cabelo solto.

— Pensando bem, é verdade. Raramente deixo o cabelo solto na Academia… e acabei de sair do banho.

Na verdade, eu já a tinha visto com o cabelo solto quando ela entrou apressada no banho mais cedo, mas, considerando o estado em que ela estava, desviei o olhar imediatamente. Agora, observando com atenção, Tennouji-san de cabelo solto parecia mais madura. Diferente de sua aura habitual, ousada e determinada, ela transmitia uma impressão intelectual. O contraste era estranhamente cativante, e não consegui evitar encará-la.

— Aha~. Será que… você está encantado comigo?

Tennouji-san sorriu de forma travessa. Ela acertou em cheio, e eu fiquei sem palavras. Quis negar, mas já era tarde demais.

— Ao contrário de você, eu não estou acostumado com situações assim — desviei o olhar, murmurando algo que soava como uma desculpa.

— Eu também não, sabia? — disse Tennouji-san, em voz baixa. — Antes, eu só estava fazendo pose de valentona. …Até eu fico um pouco atrapalhada. É a primeira vez que um rapaz dorme aqui… e-ainda por cima com aquele incidente no banho.

Suas bochechas ficaram coradas enquanto falava. Ao vê-la agir de forma tão tímida e feminina, diferente de sua postura sempre impecável, engoli em seco sem perceber.

Isso é ruim. O clima havia ficado incrivelmente estranho. Uma tensão inexplicável se instaurou. Era até mais desconfortável do que quando jantei com Masatsugu-san horas antes.

Minha mente ficou em branco, até que notei o chá de ervas sobre a mesa. Vou beber isso para me acalmar. Pensando assim, levei a xícara aos lábios—

— Quente—!?

Na pressa de beber, uma dor ardente percorreu minha língua.

— V-Você está bem!?

Tennouji-san demonstrou preocupação às pressas. Não foi grave a ponto de me queimar seriamente. Minha língua ficou dormente, então tentei transmitir um "estou bem" com o olhar — apenas para acabar cruzando os olhos com Tennouji-san.

Ao vermos as expressões surpresas uma da outra, acabamos caindo na gargalhada. Sem percebermos, o clima constrangedor havia se dissipado.

— Nossa… faz tempo que eu não me sentia assim — disse Tennouji-san, sorrindo. — Pensando bem, você tem mexido com meu coração desde que nos conhecemos. Não conhecer o Grupo Tennouji, mas conhecer o Grupo Konohana… e-ainda dizer absurdos como que meu cabelo é tingido.

— Bem, eu ainda fico me perguntando sobre isso.

— Fique quieto.

Ela me cortou secamente, e eu fechei a boca. Nem Masatsugu-san nem Hanami-san tinham cabelo loiro. Considerando as características japonesas típicas, é bem provável que Tennouji-san tinja o cabelo.

— Não tenho muitas oportunidades de dizer isso, então vou falar agora… sou grata a você. Desde que nos conhecemos, minha vida escolar ficou muito mais rica, com chás da tarde e sessões de estudo.

Sua voz carregava uma gratidão genuína. Com um sorriso encantador, Tennouji-san continuou:

— Além disso, você é mais resistente do que aparenta, então estar com você aumenta minha motivação. …Se você conseguir ficar entre os dez primeiros na próxima prova de proficiência, vou recrutá-lo como minha mão direita depois da formatura.

— Isso… parece meio improvável.

— Se já começar assim, tímido, aí que vai ser mesmo.

Tennouji-san provocou, com um sorriso irônico.

— Mas trabalhar com você parece que seria divertido.

Ao verbalizar esse pensamento, os olhos de Tennouji-san se arregalaram.

— S-Sério?

— Sim. Graças a você, estudar tem sido divertido ultimamente, então acho que trabalhar juntos também seria ótimo.

Nunca pensei muito no futuro, mas trabalhar sob as ordens de Tennouji-san provavelmente seria gratificante. Com minha vasta experiência em trabalhos de meio período, posso dizer: ela seria uma ótima chefe.

— Hehe…! Isso mesmo! Isso mesmo! Siga-me, e eu garanto uma vida plena!

Tennouji-san estufou o peito com orgulho. Ela devia estar radiante — suas bochechas levemente coradas e os olhos brilhando.

— Bem, sendo realista, para você trabalhar comigo, teria que passar no exame de admissão do Grupo Tennouji… N-Não, mas se conseguisse uma recomendação da Academia Kiou… O-Ou talvez, se você se tornasse meu noivo, um cargo de secretário estaria garantido…

— Noivo?

— N-N-N-Não é nada! Eu só me empolguei um pouco!! — Inclinei a cabeça diante da reação atrapalhada de Tennouji-san. — Ah, já fiquei tempo demais — murmurou Tennouji-san, olhando para o relógio. — Vamos decidir nosso slogan antes de eu ir!

— Slogan?

— Sim. Desde a antiguidade, exércitos usam gritos de guerra para elevar o moral nas batalhas. Coisas como "Ei! Ei! Oh!" ou "O inimigo está em Honnouji!" são famosas.

(N/SLAG: "O inimigo está em Honnouji" é uma frase histórica japonesa que se refere à traição de Akechi Mitsuhide contra Oda Nobunaga em 1582. Hoje, significa que o perigo pode vir de onde menos se espera, até de aliados próximos.)

— Entendi. Então vamos criar um desses.

Tennouji-san dizendo "Ei! Ei! Oh!" seria até fofo.

— Siga meu ritmo.

Assenti, e Tennouji-san arregalou os olhos, declarando nosso slogan:

— Derrotar Konohana Hinako!!

— Derrotar Konohana— espera, o quê!?

— O que foi?

— Não, quer dizer… esse é o nosso slogan?

— Sim! É perfeito para nós, não acha?

Se eu dissesse isso em voz alta por aí, provavelmente seria demitido do meu emprego atual… Mas não há o que fazer. Não posso explicar a situação, então só me resta acompanhar.

— Lá vai.

Tennouji-san respirou fundo.

— Derrotar Konohana Hinako!!

— D-Derrotar Konohana Hinako!!

Desculpa, Hinako.

(N/SLAG: É……… o perigo pode vir de onde menos se espera, até de aliados próximos…… KKKKKKKKK.)

*

 

Na manhã seguinte, após o café da manhã na residência Tennouji, fui buscado do lado de fora da mansão por um elegante carro preto.

— Muito obrigado pela hospitalidade.

Curvei-me profundamente para Masatsugu-san e Tennouji-san, que vieram se despedir. Hanami-san tinha trabalho e não pôde nos acompanhar, mas trocamos breves cumprimentos antes de eu deixar a mansão.

— Volte quando quiser.

— Exatamente! Estaremos esperando!

Com as despedidas, entrei no carro. Naturalmente, o veículo havia sido providenciado pela família Konohana. Tennouji-san e os outros provavelmente pensavam que eu estava voltando para casa, mas, na verdade, eu seguia para a villa da família Konohana, onde Hinako e Shizune-san estavam.

O motorista anunciou: "Vamos partir", e o carro começou a se mover. Shizune-san não veio desta vez, pois havia a possibilidade de Tennouji-san reconhecê-la como uma criada da família Konohana.

Mesmo assim… que dia tão proveitoso.

Depois, vou agradecer Tennouji-san mais uma vez. Observando a paisagem pela janela, fiz essa anotação mental.

*

 

Após ver o convidado partir de carro pelos portões da propriedade, Masatsugu virou-se para Mirei.

— Mirei. Você é próxima dele?

— Sim. Embora estejamos em turmas diferentes, temos um vínculo profundo — À pergunta do pai, Mirei respondeu com um aceno afirmativo. — Além disso… eu devo muito a Tomonari-san.

Os pensamentos de Mirei retornaram aos acontecimentos do mês anterior. A influência da família Tennouji é imensa. Por isso, Mirei sempre foi respeitada na academia, mas raramente teve a chance de conversar de igual para igual com os outros.

Foi Itsuki quem mudou isso. Ele a convidou para chás da tarde e sessões de estudo. Mais ainda: apesar de vê-la como rival, também lhe deu oportunidades de se aproximar de Konohana Hinako, alguém de quem ela desejava ficar mais próxima.

As recentes sessões de estudo também surgiram por iniciativa de Itsuki. Graças a elas, as notas de Mirei melhoraram, e ela fez amigos próximos. Embora Itsuki agora aja como se estivesse sob seu controle, no fundo Mirei sente uma gratidão imensa por ele.

E então—

"Trabalhar com Tennouji-san parece que seria divertido, não é?"

Ela nunca imaginou que ele diria algo que a deixasse tão feliz. Apesar de sua postura confiante, Mirei não está completamente livre das ansiedades quanto ao futuro. Sua rivalidade com Hinako nasce do medo de que perder para ela na academia signifique perder também no futuro.

Por isso, as palavras de Itsuki na noite anterior tiveram tanto peso para ela. Mantendo sua postura digna, Itsuki havia encontrado e acalmado as ansiedades que ela mantinha enterradas no fundo do coração.

Se eu estiver com Tomonari-san… sinto que posso superar qualquer desafio.

Enquanto Mirei se perdia nesses pensamentos, Masatsugu soltou um leve "Hmm", acariciando a barba no queixo com os dedos.

— É um relacionamento romântico?

— O quê—!? N-Não, não é nada desse tipo impróprio!!

O rosto de Mirei ficou vermelho vivo enquanto ela negava com veemência. Achando que o pai havia feito uma brincadeira repentina, Mirei fez um bico, bufando:

— Francamente!

Mas—

— Hmm… ainda bem, então.

Masatsugu assentiu com uma expressão séria.

— Na verdade, há algo que gostaria de discutir com você, Mirei. Talvez já seja hora de começar a pensar em um noivo.

A proposta veio de forma abrupta. Os olhos de Mirei se arregalaram enquanto ela repetia:

— Um… noivo?

— Sim. Já penso nisso há algum tempo, mas achei cedo demais para tocar no assunto. No entanto, recentemente conversei com um representante da família Konohana em um evento social. O tema do noivado da filha deles surgiu, e parece que estão avançando ativamente nisso. Aparentemente, é uma medida para afastar pretendentes indesejáveis.

Com uma expressão grave, Masatsugu continuou:

— No futuro, muitos provavelmente se aproximarão de você buscando a influência da família Tennouji. Alguns, claro, podem ter intenções maliciosas. Considerando isso, o raciocínio da família Konohana faz sentido. Pessoalmente, ainda acho um pouco cedo… mas, se você estiver aberta à ideia, não vejo problema.

Não parecia que ele estivesse anunciando um noivado já decidido. Criada para carregar o legado do Grupo Tennouji, Mirei sempre soube que um dia seria prometida a alguém. Mas acreditava que isso ainda estava distante. Mais importante do que o momento, porém, era outra coisa.

— Isso… beneficiaria a família Tennouji?

Por algum motivo, sua voz tremeu. Como se quisesse abafar aquele tom frágil, Mirei perguntou novamente ao pai:

— Se eu ficasse noiva, isso contribuiria para a família Tennouji?

— Bem, certamente tornaria o planejamento mais simples.

Para a alta sociedade, um noivado é uma ferramenta para fortalecer laços existentes. Se ela estivesse prometida ao herdeiro de uma empresa próxima, negociações futuras fluiriam com muito mais facilidade. Quando a outra parte é praticamente da família, os riscos de conflitos corporativos diminuem, abrindo caminho para grandes acordos, como aquisições ou fusões.

— Nesse caso, então — Mirei, como sempre, abriu um sorriso ousado e límpido ao responder: — Eu aceito.

*

 

— Bem-vindo de volta.

Ao chegar à residência da família Konohana, fui recebido por Shizune-san.

— Voltei… desculpe pelo que aconteceu ontem, por ter ficado fora assim, de repente.

— Isso já é água passada. O passado é menos importante do que o problema atual.

Problema atual? Soou como se estivéssemos lidando com algo sério neste exato momento…

— Por favor, anime a ojou-sama imediatamente. Ela está absolutamente furiosa.

— Furiosa? — Inclinei a cabeça diante da expressão preocupada de Shizune-san. Eu imaginava que ela pudesse estar de mau humor, mas não a esse ponto. Ainda assim, é difícil imaginar Hinako furiosa. Conhecendo-a, duvido que ela fizesse um escândalo ou algo do tipo…

Segui até o quarto de Hinako e respirei fundo diante da porta. Então, bati.

— Hinako, posso entrar?

— Mm.

Uma voz claramente emburrada veio do outro lado. Ela estava mesmo de mau humor. Com cautela, abri a porta. Hinako estava largada na cama, enrolada em um cobertor. Quando entrei, seu corpo se mexeu levemente sob as cobertas.

— Bem-vindo de volta, Itsuki.

— Sim, eu vol—

— Mentira, Itsuki.

As palavras de Hinako me interromperam como um golpe direto. Vendo-a irritada pela primeira vez, congelei, com a boca meio aberta.

— Você disse que seria só uma ida e volta no mesmo dia…

— Bem, aquilo foi, digamos… uma emergência…

— Você voltou de manhã — Hinako me encarou fixamente. — De manhã.

— Tá, ok, colocando assim, foi uma volta pela manhã, mas—

Essa forma de dizer podia gerar uns mal-entendidos bem estranhos, então eu preferia que ela não usasse isso. Talvez fosse melhor explicar tudo direito, para mostrar minha sinceridade.

— Então, deixa eu explicar. Eu realmente planejava voltar no mesmo dia. Mas ontem à noite o tempo virou de repente… Você ouviu os trovões, né, Hinako? Então, acabar ficando na casa da Tennouji-san foi meio inevitável…

Enquanto eu explicava, suando frio, Hinako continuava me encarando em silêncio. A expressão dela era ainda mais difícil de ler do que o normal.

— V-Você entende…?

— Mm — Hinako assentiu levemente. — Ficar inventando desculpas sem parar… parabéns.

Não deu certo. Ela está furiosa mesmo.

— Chega aqui.

— Hã?

— Chega aqui.

Com um olhar emburrado, Hinako bateu com a mão no espaço ao lado dela na cama, me chamando para sentar. Quando me aproximei, ela de repente enterrou o rosto no meu peito.

— Ei, Hinako?

— Cheiro — Hinako murmurou baixinho. — Não é o cheiro do Itsuki… me deixa inquieta.

Meu cheiro? O que isso quer dizer… Pensando bem, quando nos conhecemos, ela disse que eu tinha um "cheiro bom". Talvez Hinako tenha um olfato muito apurado ou algo assim.

— Você comeu com a Tennouji-san…?

— Bom, sim.

— Você tomou banho na casa da Tennouji-san…?

— Tomei.

Já que fiquei lá, comer e tomar banho era o normal.

— Você tomou banho com a Tennouji-san…?

— Não, claro que não—!

No instante em que comecei a negar, a imagem da Tennouji-san vestida apenas com uma toalha surgiu na minha mente.

— Gh.

Deixei escapar um som estranho.

— Hã?

— N-Não, não é nada…

— O que foi isso agora…?

Não adianta. Não tem como fugir disso. Contei tudo sobre o acidente no banheiro.

— Mrr…! Mrrrr…!!

Como esperado, o rosto de Hinako ficou vermelho de raiva.

— Você disse que não faria…!

— Foi um acidente! Um acidente! Não é como se a gente tivesse tomado banho junto, foi só que acabamos no mesmo lugar!

Achei que tinha explicado bem, mas Hinako claramente não estava convencida.

— Comer com a Tennouji-san, tomar banho na casa da Tennouji-san… você está fazendo as mesmas coisas que faz comigo…! Itsuki… agora é o cuidador da Tennouji-san…!?

— Não é isso! Eu sou o seu cuidador, Hinako!

Para começar, eu não faço com a Tennouji-san as mesmas coisas que faço com a Hinako. Tudo bem, comemos juntos, mas eu não dei comida na boca da Tennouji-san como faço com a Hinako. E sim, houve o incidente do banho, mas eu não lavei o cabelo da Tennouji-san como faço com a Hinako.

— Então…! — Hinako segurou a manga da minha roupa e me puxou para mais perto. — Então… o Itsuki deveria ficar ao meu lado mais do que ao lado de qualquer outra pessoa…

A mudança repentina para um tom tão frágil me pegou desprevenido. Eu devo tê-la deixado insegura. Será que ela pensou que eu iria deixá-la para trabalhar com a Tennouji-san ou algo assim? Isso nunca aconteceria.

— Está tudo bem. Eu entendo.

— Não entende. Se entendesse, eu não precisaria dizer isso.

— Não, eu entendo sim.

Logo depois de eu dizer isso com firmeza, a porta se abriu.

— Com licença. Ojou-sama, o almoço está pronto.

— Mm.

Shizune-san fez uma reverência educada ao anunciar. Mesmo emburrada, Hinako não resistiu à fome: ela saiu lentamente da cama e seguiu para a sala de jantar.

Quando Hinako chegou, um empregado puxou a cadeira para ela imediatamente. Ela se sentou com naturalidade, colocando o guardanapo sobre o colo.

Observando a cena, puxei a cadeira à sua frente.

— Posso sentar aqui?

— Itsuki?

Os olhos de Hinako se arregalaram ao perceber que eu a tinha seguido até a sala de jantar. Ela sempre almoçava sozinha, então me ver ali, ainda mais no almoço, devia ter sido um choque.

— Hoje, Itsuki-san irá acompanhá-la na refeição.

Com as palavras de Shizune-san, os olhos de Hinako se arregalaram ainda mais. Shizune-san olhou para mim, sinalizando que agora era minha vez de explicar.

— O combinado era que eu não poderia comer com você até dominar as boas maneiras à mesa. Então pedi para a Tennouji-san me ensinar. Consegui aprender, então hoje finalmente posso comer com você.

Enquanto eu explicava, Shizune-san assentiu e acrescentou:

— Por precaução, observarei as maneiras de Itsuki-san mais uma última vez. O almoço de hoje se aproxima mais de um menu de jantar. Se não houver problemas, a partir de agora você poderá acompanhar a ojou-sama tanto no almoço quanto no jantar.

Ou seja, este era o teste final. Pelo que vi, o almoço era italiano. Havia vários pratos, sugerindo um estilo mais próximo de um jantar, embora não tão elaborado quanto um menu completo.

Mesmo sendo a herdeira do Grupo Konohana, Hinako não come refeições de vários cursos todos os dias. Ainda assim, há padrões mínimos de etiqueta a serem mantidos.

Shizune-san me lançou um olhar silencioso. Entendido — não posso baixar a guarda. Sentei-me pelo lado esquerdo da cadeira. Um guardanapo estava sobre a mesa. Dobrei-o ao meio e o coloquei no colo, com a dobra voltada para mim. Ao limpar a boca, usaria o lado interno, como manda a etiqueta. O ponto principal é nunca usar um lenço pessoal ou papel, pois isso seria falta de educação. Usar algo próprio em vez do guardanapo fornecido passa a mensagem de "não quero usar isso".

Os talheres devem ser usados de fora para dentro. À direita, havia duas facas e duas colheres; à esquerda, três garfos. A ordem era: entrada, sopa, peixe e carne. Como não havia garfo à direita, não teria massa hoje.

Segurei a faca e o garfo com cuidado, evitando qualquer ruído ao usá-los. Depois de comer o carpaccio de entrada, tomei a sopa silenciosamente. A sopa deve ser retirada com a colher, nunca bebida diretamente da xícara. Inclinar levemente o recipiente para pegar o restante é aceitável.

Ao dar uma mordida no peixe grelhado da estação, Shizune-san fez um leve aceno de aprovação e desviou o olhar. Será que eu… passei? Soltei um suspiro discreto de alívio e percebi Hinako me observando do outro lado da mesa, com os olhos arregalados.

— Itsuki… você cresceu tanto…

— Bom, eu me esforcei bastante.

Pensando agora, o que me faltava provavelmente era confiança. Masatsugu-san disse que não sentiu nenhum desconforto ao jantar comigo. Isso significava que eu já tinha o conhecimento básico desde então. Mas, por falta de confiança, fiquei nervoso e me questionei o tempo todo. A última peça para dominar a etiqueta era — confiança.

— Se estiver tudo bem para você, Hinako, eu gostaria de comer juntos o máximo possível a partir de agora. Pode ser?

Dizer algo tão sentimental em voz alta foi estranhamente constrangedor. Se ela recusasse agora, seria a maior mancha da minha vida, sem dúvida — mas esse medo se mostrou infundado.

— Mm! — Hinako abriu um sorriso radiante. Parece que o humor dela finalmente melhorou. — Então… a partir de agora, você também está em "modo relaxado", Itsuki…

— Hã?

Inclinei a cabeça diante das palavras dela e vi Hinako desabar dramaticamente.

— Ufa…

Ela apoiou o queixo na mesa, soltando um suspiro preguiçoso.

— Hã, Shizune-san? Não deveríamos manter as boas maneiras durante a refeição…?

— Não existe uma regra assim. No entanto, como Kagen-sama às vezes janta aqui, uma postura inadequada poderia causar uma má impressão.

Então era por isso. Parece que Shizune-san me fez aprender etiqueta para que eu não passasse uma imagem ruim diante de Kagen-san. Ela estava cuidando da minha posição o tempo todo.

— Itsuki… aqui.

Hinako bateu na cadeira ao lado dela, me chamando para sentar ali. Seguindo o gesto, sentei-me ao seu lado, e ela abriu um sorriso suave e relaxado.

— Vamos comer… juntos?

Sua expressão, mais jovem e solta do que o normal, mostrava que ela estava completamente à vontade. Respondi com um breve "sim" e comecei a almoçar com ela.

Poder ver esse sorriso — isso tudo é graças à Tennouji-san. Na segunda-feira, vou agradecê-la direito.

 


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