Volume 2
Capítulo 1: A Proposta de Tennouji Mirei
— ENTÃO, ESTOU indo.
Ao sair do carro, fiz uma reverência para Shizune-san e para o motorista. Hinako caminhava cerca de dez metros à frente. Mantendo essa distância, segui em direção à Academia.
— Konohana-san, bom dia.
— Oh, Tomonari-san. Bom dia.
Nos armários de sapatos, alcancei Hinako, e trocamos cumprimentos. Na verdade, já havíamos nos cumprimentado mais cedo, no quarto da Hinako… mas, publicamente, aquele era nosso primeiro "bom dia" do dia.
Interpretando perfeitamente o papel da ojou-sama ideal, Hinako era encantadora e acessível, mas ao mesmo tempo exalava uma elegância inalcançável, irradiando um carisma capaz de deixar qualquer um desnorteado, independentemente do gênero.
Mas, por saber que aquela não era sua verdadeira personalidade, eu acabava preferindo a Hinako real — aquela que existia por trás da máscara.
— Isso é um saco toda vez.
— O quê?
Hinako murmurou seus verdadeiros sentimentos em voz baixa, então olhei ao redor para garantir que ninguém estivesse ouvindo antes de responder no mesmo tom.
— A gente vem para a escola junto de manhã… mas precisa se separar e depois fingir que se encontra aqui.
— Não tem jeito. Se descobrirem que estamos morando juntos, vai dar problema.
É restritivo, sim, mas as coisas melhoraram. Graças às festas do chá e às sessões de estudo, já é de conhecimento comum na Academia que Hinako e eu somos amigos. Comparado ao começo, não precisamos mais manter tanta distância. Podemos conversar normalmente em sala, e, se alguém nos vê juntos depois da aula, geralmente dá para disfarçar.
— Mesmo assim… eu queria poder vir andando para a escola com você às vezes.
— A gente vem no mesmo carro até certo ponto, não vem? Só se separa no final.
— Não é isso que eu quero dizer… — Hinako baixou o olhar enquanto falava. — Eu quero… caminhar lá fora com você, só nós dois.
Ah, então era isso. Eu entendia o que ela queria dizer, mas infelizmente não era algo fácil de realizar. Talvez depois eu perguntasse à Shizune-san sobre isso.
— Ah! Vocês dois!
Enquanto trocávamos os sapatos e seguíamos para a sala, encontramos nossa colega de classe, Asahi-san, no caminho.
— Bom dia.
— Bom dia! Ei, ouvi dizer que acabaram de afixar os resultados das provas intermediárias na frente da sala dos professores. Querem ir ver comigo?
Asahi-san alternava o olhar entre mim e Hinako enquanto falava. Na Academia Kiou, o ranking das provas é divulgado publicamente após cada teste, mas apenas os cinquenta primeiros nomes aparecem. Eu tinha quase certeza de que o meu não estaria lá.
Hinako e eu trocamos um olhar e assentimos quase ao mesmo tempo.
— Claro, parece uma boa.
— Eu também irei.
Ainda havia algum tempo antes do início das aulas. De qualquer forma, só ficaríamos matando tempo na sala, e, sinceramente, eu estava curioso sobre o ranking. No meu antigo colégio, nunca fizeram algo assim…
Nós três seguimos em direção à sala dos professores. No caminho, avistei um aluno conhecido.
— Oh, Taishou-kun.
— Yo, vocês também vieram, é? — Taishou nos notou e abriu um sorriso despreocupado.
— Você provavelmente não está na lista de qualquer jeito, Taishou-kun.
— Cala a boca. Mesmo que eu não esteja, quero ver.
Dito isso, Taishou se virou para encarar o ranking afixado no mural. Seguimos seu olhar até o quadro. No topo absoluto, em primeiro lugar, estava um nome que todos conhecíamos muito bem.
— Konohana-san em primeiro de novo, hein? Impressionante!
— Hehe, obrigada.
Hinako exibiu um sorriso elegante de ojou-sama, sua beleza atraindo os olhares de todos os estudantes ao redor. Conhecendo sua verdadeira personalidade, às vezes eu esquecia, mas Hinako era uma verdadeira prodígio, destacando-se tanto nos estudos quanto nos esportes.
Ela realmente era… excepcional em termos de habilidade. Habilidade, apenas isso.
— Ai!
Do nada, Hinako pisou no meu pé.
— Você está pensando alguma coisa ofensiva, não está?
Como ela sabia? Desviei o olhar de Hinako, que inflava as bochechas. Ultimamente, parecia que Hinako havia ficado mais expressiva. Não em sua atuação, mas em seu verdadeiro eu. Isso parecia um bom sinal. Embora eu não soubesse o que havia desencadeado essa mudança. Talvez nem todas as mudanças da Hinako fossem ruins.
Enquanto refletia sobre isso, meu olhar se desviou para o lado, pousando em uma garota de cachos loiros verticais marcantes, que se destacava mesmo no meio da multidão. Ela mantinha um dedo no queixo, com uma expressão séria. Curioso, chamei por ela.
— Tennouji-san?
— Oh, Tomonari-san, você também está aqui?
Tennouji Mirei. A refinada filha do Grupo Tennouji, um conglomerado que rivalizava com o Grupo Konohana em influência. Olhei para o mural que ela encarava e falei:
— Segundo lugar, parabéns.
— Enquanto aquele nome irritante estiver em primeiro, não dá para comemorar.
Eu havia falado sinceramente, mas o rosto de Tennouji-san se contorceu de frustração. Pensando bem, ela sempre foi extremamente competitiva com Hinako desde que nos conhecemos. Ver o nome de Hinako acima do dela devia doer.
— Ainda assim, os resultados desta vez foram significativos.
Significativos? Inclinei a cabeça, e Tennouji-san explicou.
— A diferença entre mim e Konohana-san diminuiu em relação à última vez. E não foi porque as notas dela caíram. Isso é, sem dúvida, prova do meu próprio crescimento…! Heh, finalmente consigo enxergar um caminho para a vitória…! — Tennouji-san murmurou, com chamas ardendo em seus olhos.
— A propósito, em que posição você ficou?
Ela perguntou com tanta naturalidade que demorei um instante para responder.
— Não entrei na lista. Provavelmente fiquei na média… talvez um pouco abaixo.
— Como é? — O tom de Tennouji-san carregava uma leve irritação enquanto insistia. — O que foi que você disse?
— E-Eu quis dizer, na média… ou talvez um pouco abaixo…
— Mesmo depois de receber instrução pessoal minha… você ficou abaixo da média?
Uma veia pulsou na testa de Tennouji-san.
— B-Bem, as matérias em que você me ajudou até que foram bem, mas…
— Silêncio!
Ela me interrompeu de forma brusca.
— Como sempre, sua mentalidade é completamente insuficiente! Não importa o quanto se esforce, você nunca vai evoluir se seus objetivos forem tão baixos!
— Ugh…
As palavras dela me atingiram como uma lâmina no peito. Eu achava que estava sendo realista, buscando progresso constante dentro dos meus limites, mas talvez isso não passasse de uma mentalidade covarde.
— Postura.
— S-Sim!
Ao comentário afiado dela, endireitei imediatamente a postura, que havia se curvado sem que eu percebesse.
— Francamente… como já pensei antes, você é do tipo cujas emoções ficam evidentes na postura.
— É-É mesmo…?
Eu não fazia ideia.
— Por outro lado, se você conseguir construir uma autoconfiança inabalável, sua presença será muito mais firme.
Tennouji-san fez uma pausa, como se estivesse refletindo sobre algo. Preparei-me para o que quer que ela fosse dizer a seguir…
— Tenho uma proposta. Que tal passar um tempo comigo depois das aulas, por enquanto?
Suas palavras me pegaram completamente de surpresa.
*
Durante o intervalo após a primeira aula. Sentei-me com Tennouji-san para conversar melhor.
— Passar um tempo juntos depois da aula… o que exatamente você quer dizer?
— Eu vou te dar aulas particulares.
Tennouji-san continuou explicando suas intenções.
— Participei do grupo de estudos que você organizou antes, mas… para ser sincera, foi a primeira vez que ensinei alguém.
— Sério?
— Sim. E, com isso, percebi algo: ensinar os outros também me traz benefícios.
O que ela queria dizer com isso? Ao perceber minha confusão, Tennouji-san esclareceu.
— Em resumo, ao te ensinar, meu próprio desempenho acadêmico melhorou. Foi isso que levou aos meus resultados nesta prova. Consegui reduzir a diferença em relação à Konohana-san.
Entendi. Agora tudo começava a fazer sentido.
— Então você quer continuar com as sessões de estudo assim daqui para frente?
— Exatamente.
Assenti, compreendendo o ponto dela.
— Mas por que me escolher como parceiro?
— Porque, entre as pessoas próximas a mim, suas notas são as mais baixas.
— Guh…!
Doía, mas eu não tinha como rebater.
— Dito isso, não seria justo sobrecarregá-lo sem oferecer algo em troca. Se houver algo em que eu possa ajudar…
— Só o fato de você me dar aulas já seria uma ajuda enorme.
— Não. Ensinar você também me beneficia, então é justo que eu ofereça algo em troca para manter o equilíbrio.
Ela é tão correta. Não se tratava apenas de como eu me sentia — ela não ficaria satisfeita a menos que o acordo parecesse justo também para ela.
— Existe algo além dos estudos em que você tem dificuldade?
— Algo em que eu sou ruim, hein…
Lembrei-me dos inúmeros erros que cometi desde que me tornei o responsável por cuidar da Hinako.
Estudos, esportes, tarefas na mansão, autodefesa — eu estava longe de ser perfeito em qualquer uma dessas áreas, mas a coisa em que eu era pior de todas era…
— Boas maneiras, provavelmente.
O rosto de Tennouji-san se iluminou com um sorriso satisfeito.
— Então eu mesma vou lhe ensinar etiqueta! A família Tennouji dá grande importância às boas maneiras. Essa é a minha especialidade!
Ela levou a mão ao peito, praticamente exalando uma energia de "deixe comigo!". Sinceramente, isso seria uma salvação. Uma salvação enorme. Mas passar o tempo depois das aulas com isso não era algo que eu pudesse decidir sozinho.
— É uma oferta generosa, mas… posso pensar a respeito?
Tennouji-san franziu a testa, confusa.
— Por quê? Você parecia tão animado.
— Bem, por causa da minha situação familiar, não posso decidir minha própria agenda.
— Entendo. Parece uma família complicada.
"Complicada" talvez fosse pouco. Afinal, era o Grupo Konohana. Mesmo já tendo me acostumado um pouco, ainda me sentia deslocado às vezes. Soltei um pequeno suspiro, pensando nas minhas lutas diárias, quando percebi Tennouji-san me observando em silêncio.
— Tomonari-san, você age da mesma forma em casa e aqui?
— Da mesma forma… como assim?
— Quero dizer essa atitude tímida, quase sem espinha dorsal, como se lhe faltasse qualquer traço de confiança.
A crítica dela era brutal como sempre. Mas, se eu parecia tímido ali, então sim, provavelmente era assim também na mansão.
— Provavelmente… eu sou assim em casa também.
Tennouji-san soltou um suspiro pesado.
— Há outro motivo pelo qual eu o convidei, além das suas notas. Tem a ver com a forma como você se porta na Academia.
Ela me encarou diretamente e continuou.
— Vou ser direta. Você se sente inferior às pessoas ao seu redor, não é?
Por um instante, senti como se meu coração tivesse sido apertado. Não foi o choque de um segredo exposto — foi perceber que ela havia enxergado uma parte de mim que eu mesmo ainda não tinha admitido. Sou o único plebeu da Academia Kiou. Comparado aos outros alunos, sou inferior em intelecto, em origem, em tudo.
Não penso nisso o tempo todo, mas, de vez em quando, esse pensamento surge. Só estou aqui por causa da influência da família Konohana; não pertenço a esta escola por mérito próprio. É difícil não se sentir inferior.
Talvez… eu tenha carregado um complexo por causa disso. Essa percepção me atingiu tarde demais, enquanto eu permanecia em silêncio. Como se estivesse lendo meus pensamentos, Tennouji-san continuou.
— Não é incomum que alunos da Academia Kiou desenvolvam complexos assim. Mas, felizmente, você tem ambição. Prometo que, com a minha orientação, você pode superar esse sentimento de inferioridade.
Fiquei comovido. A proposta dela era tão generosa que quase aceitei na hora.
Quanto mais eu queria apoiar Hinako como seu cuidador, mais obstáculos surgiam. Talvez fosse ingênuo, mas eu tinha a forte sensação de que aprender com Tennouji-san — tanto nos estudos quanto nas boas maneiras — poderia resolver vários desses problemas de uma só vez.
— Devemos voltar para a sala em breve. Agradeceria se me desse uma resposta o quanto antes.
— Entendido. Aviso amanhã.
Depois da escola, eu falaria com Shizune-san imediatamente.
— Obrigado por me procurar. Sinceramente, Tennouji-san, você tem um olhar incrível para as pessoas. Não esperava ser compreendido assim.
— Não precisa bajular. Não é nada demais.
— Não, é sério. Acho isso incrível.
Quando falei com admiração genuína, Tennouji-san desviou o olhar.
— Não é nada demais mesmo… eu só falo por experiência própria, só isso.
Suas últimas palavras foram tão baixas, quase um murmúrio, que mal conseguia ouvi-las. Mas o que ficou gravado em minha mente foi o raro e breve vislumbre de uma expressão sombria no rosto normalmente confiante de Tennouji-san.
*
Depois da escola. De volta à mansão Konohana, eu recebia minhas aulas habituais com Shizune-san.
— Isso conclui as lições de hoje. Bom trabalho.
— Obrigado.
Preparação, revisão, treinamento de etiqueta e autodefesa. Com todas as aulas encerradas, finalmente senti o dia chegando ao fim. Quando comecei, eu ficava tão exausto a esse ponto que mal conseguia falar, mas agora ainda me restava um pouco de energia. Talvez eu estivesse crescendo, tanto física quanto mentalmente.
Em seguida, eu iria ao quarto da Hinako para me preparar para o banho. Enquanto enxugava o suor e lançava um olhar para Shizune-san, notei que ela analisava alguns documentos com expressão séria.
— Que papéis são esses?
— Um cronograma para o seu treinamento, Itsuki-san. Seu progresso está mais rápido do que o esperado, então estou considerando alguns ajustes.
Shizune-san examinava os documentos com atenção. Essa podia ser a chance perfeita.
— Shizune-san, tem algo que eu gostaria de conversar…
Expliquei sobre a conversa que eu e Tennouji-san tivemos mais cedo. A proposta de ela me orientar nos estudos e nas boas maneiras depois da aula.
— Entendo. Então você teve essa conversa com Tennouji-sama.
Shizune-san pousou os papéis e refletiu cuidadosamente.
— O que você quer fazer, Itsuki-san?
— Pessoalmente, eu gostaria de aceitar. Tennouji-san é uma ótima professora e… acho que posso contar muito com ela.
O ensino da Shizune-san também era excelente, mas Tennouji-san, por ser da mesma idade, podia oferecer conselhos sob uma perspectiva mais próxima. E havia também o que Tennouji-san tinha dito.
"Você se sente inferior às pessoas ao seu redor, não é?"
"Com a minha orientação, você pode superar esse complexo de inferioridade."
Essas palavras tocaram fundo no meu coração. Tennouji-san sempre se porta com tanta confiança, realmente digna de ser uma aluna da Academia Kiou. Eu não tinha percebido completamente antes, mas acho que passei a admirá-la.
— Se eu puder aprender com a Tennouji-san… sinto que posso me tornar alguém mais digno de estar ao lado da Hinako.
Alguém que consiga acompanhá-la nos momentos de descontração e apoiá-la perfeitamente quando realmente importa. Para ser esse tipo de cuidador, ainda tenho muitas falhas. Se eu conseguir absorver ao menos uma fração das qualidades da Tennouji-san, talvez eu chegue lá.
— Não vejo problema nisso — disse Shizune-san.
Ela continuou:
— Tennouji-sama provavelmente lhe ensinará etiqueta de forma ainda mais eficaz do que eu. E… tenho uma mensagem de Kagen-sama. Ele deseja que você construa ativamente conexões em nome da família Konohana, no lugar de Hinako-sama.
— Do Kagen-san?
— Sim. Assim como quando você convidou Miyakojima-sama e Tennouji-sama para o encontro social, ele espera que você mantenha discretamente a reputação de Hinako-sama em mente.
Para ser sincero, isso me pegou de surpresa. Sempre tive a impressão de que Kagen-san não confiava plenamente em mim. Se a visão dele sobre mim mudou, provavelmente foi por causa daquela noite no encontro social. Foi a primeira vez que senti que vislumbrei os verdadeiros pensamentos de Kagen-san.
— Entendido. Se for esse o caso, farei o possível para que funcione.
— Obrigada. Mas, por favor, mantenha tudo de forma natural… dentro do que é apropriado para estudantes.
Como colegas. Como amigos. Dentro desse limite, sou livre para construir conexões. No fim das contas, só preciso ligar esses relacionamentos à Hinako.
— Itsuki?
Nesse momento, a porta do dojô se abriu, e a voz da Hinako ecoou.
— O banho… você ainda não está pronto?
— Desculpa, eu estava conversando com a Shizune-san.
— Conversando?
Hinako inclinou a cabeça, e eu expliquei.
— Eu ia falar com você também, mas tudo bem se, por um tempo, a gente não voltar para casa depois da escola?
— Hã?
Os olhos de Hinako se arregalaram de surpresa.
— Kagen-san me contratou oficialmente de novo, então quero me dedicar a estudar várias coisas. Preciso melhorar minhas notas na Academia e aprender etiqueta adequada para não passar vergonha em eventos sociais. Quero usar meu tempo depois da aula para isso.
— Você vai aprender com alguém de fora? …Por que não a Shizune?
Shizune-san respondeu por ela.
— Tenho outras funções que às vezes me impedem de me dedicar exclusivamente às lições do Itsuki-san. Especialmente agora, com as consequências do recente encontro social, minha carga de trabalho aumentou, e talvez eu não consiga dedicar tanto tempo ao treinamento dele por um tempo.
— Hmph. Então e se eu ensinar ele…?
— Hinako-sama, a senhorita tem suas próprias responsabilidades, e sua agenda é bastante apertada. Além disso, aprender com pessoas diferentes, em um novo ambiente, também trará benefícios ao Itsuki-san.
— Mmph, hmph…
Hinako claramente não parecia satisfeita. Após pensar por cerca de trinta segundos, ela finalmente separou seus pequenos lábios.
— Itsuki… isso é por minha causa?
— Não é exatamente por você, mas… é para que eu possa cumprir adequadamente meu papel como seu cuidador.
Não quero que soe como um favor, mas estou assumindo isso porque quero ser ainda mais útil à Hinako do que já sou. Hinako soltou um som hesitante, "nnn", antes de suspirar.
— Tudo bem, então. …Eu permito.
— Obrigado.
Com a permissão da Hinako garantida, decidi avisar Tennouji-san no dia seguinte que aceitaria sua proposta.
— Mas… quem é que vai te ensinar estudos e boas maneiras?
Respondi à pergunta dela.
— Tennouji-san.
Achei que os olhos da Hinako se arregalaram levemente, então esclareci:
— Por um tempo, vou passar o meu tempo depois das aulas com a Tennouji-san.
…………………………
*
No banheiro do quarto da Hinako. Eu fazia vigia enquanto Hinako relaxava na banheira, saboreando um picolé.
— Mmm, que delícia…

Ao ver Hinako tão completamente à vontade, diferente da sua postura impecável na Academia, esbocei um sorriso torto.
— Isso compensa um pouco?
— Ainda parece meio insuficiente.
— Dá um desconto. Contrabandear picolés sem a Shizune-san perceber não é nada fácil, sabia?
Suspirei, e Hinako baixou o olhar antes de falar.
— Eu ainda não gosto muito disso… mas, se é pelo meu bem, vou deixar passar.
Mais uma vez, ela deu sua permissão para que eu passasse tempo com a Tennouji-san. Desde a conversa no dojô até agora, Hinako havia sido contra a ideia, mas o suborno do picolé selou o acordo. Com toda a confusão recente — minha quase demissão como cuidador e o encontro social — talvez ela estivesse feliz por finalmente ter um momento para relaxar.
Mesmo assim, Hinako ainda parecia um pouco insatisfeita. Chamei por ela enquanto fazia bico, encarando a superfície da água.
— Se você realmente não quiser que eu faça isso, posso recusar a proposta, sabia…?
— Eu não quero ficar no seu caminho, Itsuki.
— Entendo.
Ela está sendo atenciosa comigo? Isso deveria ser o meu papel como cuidador dela… mas, ainda assim, isso me deixa um pouco feliz.
— Para falar a verdade, fico até aliviado.
— Aliviado…?
— Eu achei que você estivesse me evitando ultimamente.
— Por que você pensaria isso?
— Bem, você não quer mais que eu te acorde de manhã, e às vezes parece que você está mantendo distância de mim.
Ao ouvir isso, Hinako inflou as bochechas.
— Não é como se eu quisesse manter distância.
— Então tem algum motivo para isso?
— Mmph.
Com uma expressão complicada, Hinako murmurou baixinho.
— Não quero dizer.
Isso despertou minha curiosidade, mas, se ela não estava pronta para falar, eu não iria insistir.
— A propósito, Hinako.
— O quê?
— Essa roupa não está meio quente?
Hinako estava usando o maiô escolar designado. Era um modelo elegante, adequado à Academia Kiou, mas parecia um pouco abafado para o banheiro.
— Não muito.
— Você costumava usar maiôs tipo biquíni, não usava? Por que mudar para o maiô escolar de repente?
— Mm… só deu vontade.
Hinako respondeu com hesitação, virando as costas para mim. Por dentro, me perguntei — será que ela estava mesmo me evitando? Mas, ao mesmo tempo, ela estava tranquila em tomar banho comigo assim e ainda disse que queria passar tempo comigo depois da aula… eu não conseguia entender o que se passava na cabeça da Hinako.
Já faz mais de um mês que sou o cuidador dela. Achei que estava começando a entendê-la, mas, ultimamente, seus pensamentos voltaram a ser um mistério. O que está acontecendo?
— Anda logo e lava meu cabelo.
— Certo.
Deixei as lamentações para depois e estendi a mão para lavar o cabelo da Hinako. Talvez por causa do calor, suas orelhas estavam levemente avermelhadas.
— Nfu…
Hinako soltou um murmúrio satisfeito. Bom, pelo menos ela não deixaria alguém de quem não gosta tocar em seu cabelo.
— Itsuki.
— Hm?
Enquanto eu ensaboava seu cabelo, Hinako falou em voz baixa.
— Não faça… esse tipo de coisa com a Tennouji-san.
Que coisa para se dizer. Não consegui evitar uma risada leve, sentindo-me um pouco aliviado ao responder.
— Como se eu fosse fazer isso.
Ela faz ideia do quanto foi difícil me acostumar com essa situação? Agora eu consigo lidar sem pensar demais, mas, quando me tornei cuidador dela, foi um verdadeiro desafio.
— Hm?
Notei que alguns fios do cabelo da Hinako haviam ficado presos na alça do maiô.
— Vou afastar um pouco a alça.
— Hã?
Quando deslizei a alça esquerda para baixo, achei que ouvi um som estranho, quase um guincho.
— Cabelos longos costumam dar trabalho em lugares assim.
— I-Itsuki…?
— Só um instante, já termino.
…!
De repente, Hinako saltou para dentro da banheira, fazendo a água espirrar. Bolhas se espalharam pela superfície. No centro, Hinako me encarava, o rosto completamente vermelho.
— Mmph…!
— Mmph?
— Seu… insensível idiota…!!
Envergonhada, Hinako se abraçou, segurando os próprios ombros.
— Insensível…?
Vindo de alguém que antes tirava o maiô sem a menor cerimônia, isso era irônico.
*
No dia seguinte. Durante o intervalo, contei à Tennouji-san que havia recebido autorização para sua proposta, e decidimos começar as sessões de estudo naquela mesma tarde.
— Prepare-se, vou pegar pesado!
— P-Por favor, vá com calma…
Enquanto os alunos iam embora, Tennouji-san e eu nos encontramos no café ao lado da cantina. Não pude deixar de me perguntar se eu sobreviveria a isso. A empolgação da Tennouji-san era quase intimidadora.
— Heheheh… vou derrotar a Konohana Hinako…! Desta vez, vou arrancar aquele sorriso falso do rosto dela…!
Tennouji-san abriu um sorriso diabólico, como alguém tramando alguma travessura. Ela havia chegado mais cedo e pedido bebidas para nós dois. Assim que me sentei, o chá foi servido à mesa.
— Primeiro, vamos definir nossos objetivos. O meu é derrotar Konohana Hinako na próxima prova de proficiência — disse Tennouji-san, inclinando a xícara de chá com elegância.
— Quando é mesmo a próxima prova de proficiência?
— Daqui a um mês.
Aparentemente, as notas da Tennouji-san e da Hinako já estão praticamente empatadas. Se a Tennouji-san estudar com afinco por um mês, talvez consiga ultrapassá-la.
— Quanto a você, Tomonari-san, espero que fique entre os cinquenta melhores nessa prova.
— Hã? — A declaração repentina dela me pegou de surpresa. — Entre os cinquenta…? Eu mal estou um pouco abaixo da média agora. Isso é um salto grande demais…
— Não precisa se preocupar. Afinal, você está sendo orientado pessoalmente por mim.
Tennouji-san estufou o peito com confiança, mas eu a encarei com um olhar hesitante. Reclamar provavelmente só pioraria as coisas. Eu teria que confiar nela e me esforçar.
— Você também mencionou que queria aprender boas maneiras. Houve algum motivo específico? — Refleti sobre a pergunta da Tennouji-san antes de responder.
— Quando participei do encontro social da família Konohana, percebi que… ainda não me sinto à vontade nesses ambientes. Quero aprender pelo menos o suficiente para não passar vergonha.
— É uma mentalidade louvável — Tennouji-san assentiu, satisfeita. — Nesse caso, vou lhe ensinar etiqueta adequada para eventos sociais. Etiqueta à mesa, habilidades de conversação e… provavelmente também teremos que incluir aulas de dança.
— Dança?
— Que tipos de dança você conhece, Tomonari-san?
Dança, hein? Se eu tivesse que escolher alguma… talvez aquela que pratiquei para o festival escolar…
— Soran Bushi?
— Perdão?
— Desculpa, eu não sei dançar nada.
Obviamente, eu não poderia apresentar o Soran Bushi em um evento social. Bom, talvez arrancasse risadas, mas eu certamente perderia meu cargo no processo.
— Então começaremos também pelo básico da dança — murmurou Tennouji-san. — Isso define nosso plano geral. Vamos começar as lições. Estudaremos até às seis, depois passaremos para as boas maneiras.
— Sim, conto com você.
*
Seis horas.
A sessão de estudos de hoje terminou sem problemas. Eu havia acabado de resolver alguns exercícios do livro, e Tennouji-san agora conferia minhas respostas.
— Entendo — após revisar meu trabalho, Tennouji-san murmurou. — Você tem estudado com afinco por conta própria, não é? Nesse ritmo, com certeza vai tirar uma nota melhor do que antes.
— Obrigado.
As aulas da Shizune-san ajudaram, mas Tennouji-san, por ser uma colega, sabia exatamente como direcionar os estudos para alcançar notas altas. Pensando no futuro, conhecimento amplo e diversas habilidades seriam ideais, mas, no momento, eu precisava de notas que não me envergonhassem ao lado da Hinako.
— E quanto a você, Tennouji-san? Essas sessões de estudo estão sendo úteis?
— Sim, mais do que eu esperava. Talvez eu realmente goste de ensinar os outros.
Tennouji-san parecia feliz ao dizer isso. Estudar a sós ajudava ambos a manter o foco, mas eu conseguia me concentrar porque Tennouji-san ensinava com tanta dedicação.
— Por que você é tão competitiva com a Konohana-san? — A pergunta escapou da minha boca antes que eu pudesse impedir.
— Não há um motivo profundo — Tennouji-san abaixou o olhar por um instante antes de encarar-me novamente. — Só para deixar claro, não há nenhum rancor pessoal entre mim e a Konohana-san. Se for para dizer algo… como filha da família Tennouji, simplesmente não posso me dar ao luxo de ficar atrás de outros alunos.
— Isso é como um lema da família?
— Não. É uma regra que eu impus a mim mesma.
Por que ela colocaria um padrão tão rigoroso sobre si? Enquanto eu refletia, Tennouji-san continuou.
— Esta Academia é um microcosmo da sociedade. Se eu perder para alguém aqui, provavelmente também perderei no futuro. Acredito que o Grupo Tennouji seja o conglomerado empresarial mais excepcional do Japão. Sendo assim, a minha derrota entraria em contradição com minhas convicções.
Era uma forma orgulhosa de pensar. No meu antigo colégio, alguém dizendo isso seria alvo de zombaria. Mas a Academia Kiou é um ambiente peculiar. As palavras da Tennouji-san tinham peso… e, por ela ser sempre tão sincera, sua determinação parecia genuína.
Ainda assim, como alguém nascido e criado como plebeu, não pude deixar de perguntar:
— Você nunca achou esse modo de vida… cansativo?
— Nem um pouco — Tennouji-san respondeu de imediato. — Como filha da família Tennouji, contribuir para o seu legado é o meu dever… e isso, por si só, é a felicidade que eu busco.
Sua declaração firme era tão característica dela. Arrependi-me de ter deixado minhas dúvidas escaparem.
— Agora, vamos passar para as boas maneiras.
Tennouji-san guardou os livros e começou a se preparar para a aula de etiqueta.
— Tennouji-san, tenho um pedido. Podemos focar primeiro nas boas maneiras à mesa?
— Para mim está tudo bem, mas existe algum motivo específico?
— Bem… é meio que um motivo pessoal.
Eu não estava confiante de que conseguiria explicar direito, então desviei da pergunta, sentindo-me um pouco culpado. Tennouji-san pareceu perceber isso e não insistiu.
— Nesse caso, Tomonari-san, que tal jantarmos juntos por um tempo?
— Jantar?
— Sim. Vou lhe ensinar etiqueta à mesa por meio da prática. Felizmente, esta academia oferece culinária de vários países, então podemos ter lições bem completas.
Entendi. Então eu jantaria aqui mesmo na academia enquanto aprendia boas maneiras à mesa. É uma proposta eficiente, uma que eu adoraria aceitar, mas antes precisava confirmar com a Shizune-san.
— Vou perguntar em casa.
Dito isso, me afastei, indo para os fundos do prédio da escola e pegando o celular.
— Itsuki-sama, aconteceu alguma coisa?
Shizune-san me chamou pelo honorífico de sempre. Ela provavelmente estava interpretando o papel de criada sob minhas ordens, caso alguém estivesse por perto e pudesse ouvir a ligação.
— A Tennouji-san sugeriu que eu jantasse na academia por um tempo para aprender etiqueta à mesa. Isso seria um problema?
— Entendido. Não há nenhum problema com isso, mas… — Shizune-san interrompeu a frase no meio. — Minhas desculpas. A ojou-sama deseja falar com o senhor. Por favor, aguarde um momento.
Hinako? Será que ela precisava de algo?
— Itsuki…?
— Sim, o que foi?
— Você vai chegar tarde hoje?
A voz da Hinako tinha um leve tom de decepção.
— Não só hoje. Acho que vou chegar tarde por um tempo.
Respondi, e Hinako ficou em silêncio por alguns segundos.
— Volte… o mais cedo que puder, está bem?
Com isso, Hinako devolveu o telefone para a Shizune-san.
— É isso, então. Por favor, tente retornar o mais cedo possível.
— Entendido.
Conversei com Shizune-san sobre o horário em que ela deveria vir me buscar, refletindo com cuidado. Não posso esquecer meu verdadeiro propósito. Eu sou o cuidador da Hinako. No momento, estou aprendendo muito com a Tennouji-san, mas não posso deixar que isso vire tudo de cabeça para baixo. Preciso ficar ao lado da Hinako o máximo possível.
— Desculpe a demora.
Quando voltei ao café, Tennouji-san já se preparava para a próxima lição.
Ela deve ter falado com os funcionários do local, pois diversos utensílios de mesa estavam organizados com cuidado.
— Isso está bem elaborado…
— Estou apenas correspondendo ao seu entusiasmo — disse Tennouji-san com orgulho, estufando o peito.

— Sei que é um pouco tarde para perguntar, mas… isso está mesmo tudo bem? Parece que só eu estou me beneficiando.
— Já resolvemos essa questão. Estou aproveitando esse tempo de uma forma significativa para mim, então não precisa se preocupar — Tennouji-san disse isso e, em seguida, continuou em um tom mais baixo: — Além disso… você agora me lembra um pouco de como eu era antes, então não consegui deixar de me intrometer um pouco.
As palavras dela me fizeram inclinar a cabeça.
— O que você quer dizer com isso…?
— Ora, ora, vamos começar a lição.
Ignorando minha pergunta, Tennouji-san deu início à aula.
*
Oito horas da noite.
Após as lições da Tennouji-san, voltei à mansão Konohana em um carro preparado.
— Cheguei.
— Bom trabalho, Itsuki-san.
Assim que entrei na mansão, encontrei Shizune-san.
— Provavelmente voltarei por esse horário por um tempo.
— Entendido. Posso perguntar o que você aprendeu, só para confirmar?
— Claro.
Enquanto caminhávamos até meu quarto, expliquei o que a Tennouji-san havia me ensinado.
— É basicamente isso.
— Entendo… Devemos agradecer formalmente à Tennouji-sama depois. Pelo que você descreveu, ela está ensinando com bastante dedicação.
— É.
Eu sentia o mesmo. Tennouji-san disse que também estava aproveitando aquele tempo, mas, do ponto de vista de qualquer um, era óbvio que eu era quem mais se beneficiava. Eu precisaria agradecê-la adequadamente mais uma vez.
— Mas por que você priorizou aprender etiqueta à mesa?
— Ah, bem…
Era um pouco constrangedor, mas achei que não haveria problema em contar à Shizune-san. Expliquei meus motivos.
— Entendo.
Shizune-san assentiu, parecendo convencida.
— É reconfortante saber que você não se esqueceu do seu papel como cuidador.
— Bem… é justamente por isso que estou aprendendo tudo isso com a Tennouji-san.
Ao ouvir isso, Shizune-san exibiu um sorriso satisfeito.
— A ojou-sama deseja vê-lo, então, por favor, vá até ela assim que puder.
— Hoje não teremos aulas de autodefesa?
— Quando as aulas de dança começarem, elas exigirão bastante da sua resistência. Pensando no futuro, vamos reduzir a prioridade do treinamento de autodefesa por enquanto.
Após conversar com a Tennouji-san, decidimos começar as aulas de dança em cerca de uma semana. Naturalmente, não dava para fazer aulas de dança em um café, então ainda precisávamos organizar um local. Como isso não foi resolvido hoje, não houve aula de dança.
— Além disso, o dojô tem estado bem movimentado ultimamente.
— Movimentado?
Ao perguntar, Shizune-san fez uma expressão complicada.
— Depois que você derrotou completamente os guardas da família Konohana, parece que o orgulho deles sofreu um golpe considerável. Desde então, mais pessoas têm treinado no dojô.
— Ah, desculpa por isso.
— Não é sua culpa. Se algo, foi um bom choque de realidade para eles — Shizune-san disse, suspirando. — Se algum dia você planejar se tornar um guarda-costas da família Konohana, podemos retomar imediatamente as aulas de autodefesa. O que acha?
— Não tenho planos para isso, então vou recusar por enquanto.
— Entendo. Que pena.
Uma pena, é? O tom da Shizune-san era, como sempre, difícil de interpretar, mas soou como se houvesse um toque de sinceridade ali.
Espere… isso seria mesmo possível? Será que esse tipo de caminho de vida também poderia ser uma opção?
*
Depois de ajudar Hinako com o banho, voltei ao meu quarto para me preparar para as aulas do dia seguinte.
— Cara, meu cérebro está frito.
Apoiei a caneta no caderno e me espreguicei levemente. Eram onze horas da noite. O dia inteiro havia sido praticamente consumido pelos estudos.
— Não, agora é justamente a hora de aguentar firme.
Peguei a caneta novamente e folheei o livro. Tennouji-san havia acabado de elogiar o fato de eu ter criado o hábito de estudar. Não podia relaxar agora. Às vezes, até eu me surpreendo com o quão aplicado me tornei.
Todos que conheci na Academia Kiou estão em outro nível. Conviver com eles acabou me puxando junto, transformando o estudo diário em um hábito. No começo, eu só seguia as instruções da Shizune-san, mas agora isso partia de mim mesmo. A própria Shizune-san deve ter percebido, pois ultimamente parou de me cobrar tanto sobre preparação e revisão.
Nunca havia me esforçado tanto antes. Nem por outra pessoa, nem por mim mesmo — apenas atravessei o ensino médio sem rumo, ou pelo menos é assim que parece agora.
— Aqueles caras… o que será que estão fazendo agora?
Pensei nos relacionamentos que eu tinha antes de me tornar cuidador. Quando as coisas se acalmarem, talvez eu queira encontrá-los e colocar a conversa em dia. Nesse momento, alguém bateu à porta.
— Pode entrar.
A porta se abriu, e Hinako entrou no quarto.
— Hã… Hinako?
— Mm.
Fiquei surpreso quando Hinako soltou um pequeno som.
— Você veio sozinha até aqui? E não se perdeu?
— Hmph… que grosseria. Esta é a minha casa.
Não, não, ela tem muita coragem de dizer isso. Não vamos esquecer — essa garota se perde até dentro da academia quando anda sozinha.
— Seu quarto fica mais longe do que eu pensava… levei, tipo, uns trinta minutos desde o meu.
— Não é possível que tenha levado tanto tempo assim.
O quê, ela estava explorando uma dungeon?
— O que você está fazendo?
— Me preparando para amanhã. A Tennouji-san me ensina muita coisa prática, mas isso é para situações específicas. Eu ainda preciso acompanhar as aulas normais.
Como havia chegado a um bom ponto de pausa, virei-me para Hinako.
— Você precisava de algo?
— Não exatamente.
— ? Então por que veio?
Com isso, Hinako inflou levemente as bochechas.
— Eu preciso de um motivo para vir?
— Não, não é isso, mas…
Não é que ela não pudesse, eu só não sabia como lidar com a situação. Como ela não parecia querer nada em específico, voltei aos estudos, mantendo-a no canto da minha atenção.
— Mmm…
Enquanto rabiscava minhas anotações, Hinako soltou um pequeno resmungo. Então, com um "plof", ela se jogou na minha cama.
— Eu vou… dormir aqui hoje.
— Hã?
— Dormir.
Hinako disse, com um tom levemente firme.
— O refeitório fica longe do meu quarto, então vai ser um incômodo de manhã. Seria melhor você dormir no seu próprio quarto…
— Nã-ãhn…
Ela já estava meio adormecida. Não consegui evitar um sorriso torto ao ver Hinako piscando os olhos, sonolenta.
— Itsuki…
— Hm?
— Vem aqui.
— Tá bom, tá bom.
Deixei os estudos de lado e fui até ela.
— Faz carinho.
Hinako disse, com os olhos semicerrados de sono.
— No encontro social, você não gostou quando eu fiz carinho na sua cabeça. Agora tudo bem?
— Eu não disse que não gostei — Hinako se virou, ficando de costas para mim. — Ultimamente… eu tenho me sentido estranha.
— Estranha? Você está se sentindo mal?
— Mmm…
Quando perguntei com preocupação, Hinako inflou as bochechas outra vez. Não parecia que ela estivesse doente. Passei a mão suavemente por sua cabeça e, por um instante, Hinako se sobressaltou, mas logo relaxou, aceitando o gesto. Aquela reação era nova — algo que eu só havia visto recentemente. Ela disse que não desgostava, mas ainda assim isso despertava minha curiosidade.
— Estou ficando com sono também.
Enquanto fazia carinho em Hinako, sentei-me no chão e murmurei.
— Então dorme.
— Não, eu ainda tenho que te levar de volta para o seu quarto…
Mas, enquanto dizia isso, comecei a sentir o sono me dominar de verdade. Meu cérebro devia estar exausto de tanto pensar hoje. Antes que eu percebesse, fui engolido pelo sono—
*
— Itsuki?
A mão que fazia carinho em sua cabeça parou, e Hinako se sentou lentamente. Itsuki estava ao lado da cama, respirando suavemente enquanto dormia. Tomando cuidado para não fazer barulho, Hinako se levantou e o observou.

— Talvez esta seja a primeira vez que vejo o rosto dele dormindo.
Exausta de sua atuação diária, Hinako costumava cochilar sempre que podia. Por isso, enquanto os outros viam seu rosto adormecido, ela raramente tinha a chance de ver o de alguém mais.
— Ele estava… cansado?
Agora que parou para pensar nisso, Itsuki parecia mais sonolento do que o normal enquanto estudava hoje. Hinako sabia muito bem o quanto era cansativo lutar contra o sono. Decidiu deixá-lo dormir daquele jeito.
Seu olhar então pousou sobre os materiais de estudo espalhados pela mesa. Ao observar o caderno repleto de equações escritas com cuidado, algo mais chamou sua atenção.
— Isso é… o manual do cuidador?
Ela pegou o livro grosso e folheou suas páginas. Originalmente, não existia algo como um manual do cuidador. Porém, devido à alta rotatividade de funcionários, explicar o trabalho apenas verbalmente havia se tornado trabalhoso demais, o que levou à criação daquele manual.
O livro estava repleto de post-its e marcações com marca-texto, destacando pontos importantes aos quais se devia prestar atenção. Na página de anotações livres, Hinako encontrou uma lista das marcas de sorvete que ela mais gostava. Bem ao lado, em letras grandes e marcadas, havia uma observação:
"Comprar sempre que encontrar e guardar no freezer do quarto!"
Uma dor aguda apertou seu peito. Antes que aquela sensação pudesse se dissipar, alguém entrou no quarto.
— Ojou-sama? — Shizune se aproximou, com uma expressão confusa. — A porta estava aberta, então fiquei curiosa e vim verificar…
— Shh.
Hinako levou um dedo aos lábios, lançando um olhar para Itsuki, que dormia tranquilamente. Com aquele gesto, Shizune compreendeu a situação.
— Francamente, dormir antes da ojou-sama? Ele falhou como cuidador — disse Shizune, mas sua expressão não demonstrava raiva. Talvez ela também reconhecesse os esforços recentes de Itsuki.
Itsuki era diligente por natureza. Mesmo sem Shizune dizer nada, ele provavelmente acordaria depois e refletiria por conta própria.
— Ojou-sama, devo acompanhá-la de volta ao seu quarto?
— Mm.
Hinako assentiu e saiu do quarto com Shizune.
— Shizune.
— Sim?
— Eu… me sinto estranha — Hinako murmurou. — Fico feliz por o Itsuki ser meu cuidador, mas… às vezes, quando penso nele cuidando de mim, sinto um aperto estranho.
— Culpa?
No passado, Shizune poderia ter suspeitado que Itsuki fosse o problema, mas não agora. Depois de mais de um mês sob o mesmo teto, ela sabia que Itsuki era sincero.
— Você está insatisfeita por o Itsuki-san ser seu cuidador?
— De jeito nenhum.
Hinako balançou a cabeça, mas sua expressão ainda carregava inquietação. Ao chegarem ao quarto, Shizune abriu a porta. Hinako entrou lentamente.
— Não é isso… mas só isso não basta.
Dizendo isso, Hinako afundou na cama. Colocando o braço sobre os olhos, Hinako expressou sua ansiedade.
— O Itsuki só me escuta… porque esse é o trabalho dele?
Ao ouvir aquelas palavras, Shizune finalmente entendeu a verdadeira origem da inquietação de Hinako. Ela sentiu um calor afetuoso surgir em seu peito, embora contivesse qualquer mudança em sua expressão.
— Pode ficar tranquila — com um tom suave, Shizune falou. — O Itsuki-san não está ao lado da ojou-sama apenas porque esse é o trabalho dele.
— Sério?
— Sim. Se a senhorita esperar só mais um pouco, acho que vai entender.
No começo, Itsuki havia assumido o papel de cuidador apenas porque precisava do dinheiro. Mas, se o dinheiro fosse sua única motivação, ele não teria discutido com Kagen para voltar a ser cuidador.
Antes, talvez fosse diferente, mas o Itsuki de agora não era o mesmo. Ele encarava o papel de cuidador com algo a mais do que simples obrigação profissional. Hinako era alheia a isso justamente nos momentos mais importantes. Era algo que deveria ser óbvio com um pouco de reflexão.
— Mesmo assim, esta é a primeira vez, não é? A ojou-sama me procurando para falar de algo tão pessoal.
— É?
— Sim.
Inclinando a cabeça, com um "Hmm?" curioso, Hinako tentou se lembrar do passado. Observando-a, Shizune esboçou um sorriso suave. Um sentimento semelhante ao de ver uma filha crescer brotou em seu peito.
— Isso não é bom.
Ainda não era hora de se tornar mãe. Depois de cobrir Hinako, agora adormecida, com o cobertor, Shizune saiu do quarto.
*
Uma semana havia se passado desde que comecei a passar o tempo depois das aulas com a Tennouji-san.
— Bom dia.
Ao abrir a porta da sala, cumprimentei todos como de costume. Os alunos próximos retribuíram com sorrisos amigáveis, aquecendo um pouco meu ânimo enquanto eu tomava meu lugar.
Ultimamente, ainda que pouco, eu sentia que estava me acostumando com o ambiente da Academia Kiou. Parte disso era simples familiaridade, mas aprender boas maneiras com a Tennouji-san provavelmente havia sido o verdadeiro gatilho. Quanto mais eu aprendia sobre etiqueta, mais percebia o esforço que os alunos dali colocavam nisso. O desejo de acompanhar esse nível, em algum momento, acabou alimentando minha própria vontade de melhorar.
— Yo, Tomonari.
— Bom dia, Tomonari-kun!
Taishou e Asahi-san se aproximaram de mim.
— A propósito, Tomonari, você anda fazendo alguma coisa com a Tennouji-san ultimamente?
Taishou perguntou, do nada.
— Heheheheheh… tem rolado bastante informação de testemunhas, sabia? Dizem por aí que vocês estão se encontrando todo dia depois da aula.
Asahi-san completou, com um sorriso travesso. Sentindo que eles estavam tirando conclusões precipitadas demais, resolvi esclarecer as coisas.
— Na verdade, a Tennouji-san tem me ensinado boas maneiras ultimamente.
— Boas maneiras?
Asahi-san repetiu, e eu assenti.
— É tipo uma continuação do grupo de estudos que a gente fez antes.
— Ah, é só isso? E eu aqui achando que você estava buscando uma história de Cinderela, Tomonari-kun!
— Desculpa desapontar, mas não é nada disso.
Cortei firmemente a especulação exagerada da Asahi-san.
— Falando nela…
Taishou lançou um olhar em direção à porta da sala. Seguindo seu olhar, vi a Tennouji-san parada ali. Ela estava olhando na minha direção — mais especificamente, para mim — e acenava com a mão. Sem saber o que era, fui até ela.
— Bom dia, Tennouji-san. Aconteceu alguma coisa?
— Bom dia. Na verdade, há um pequeno assunto que eu gostaria de discutir.
Um assunto?
— Eu havia me esquecido até hoje, mas o café que costumamos usar tem um dia fixo de folga. E esse dia é hoje.
— Ah… entendo.
Normalmente, fazíamos nossas sessões de estudo no café ao lado da cantina depois das aulas. Com sua variedade de pratos internacionais, era perfeito para praticar etiqueta à mesa.
— Então devemos procurar outro lugar para a sessão de estudos… ou dar uma pausa nas aulas de etiqueta?
— Pensei nisso, mas tenho uma proposta — Tennouji-san continuou: — Você gostaria de ir à minha casa?
— Perdão?
A sugestão repentina fez com que eu inclinasse a cabeça, confuso.
— Quando se trata de dominar boas maneiras, a familiaridade é a maior inimiga. Não importa o quão sério alguém estude no começo, com o tempo acaba relaxando à medida que se acostuma com a situação ou o ambiente. Mas esse relaxamento vem da familiaridade com o cenário, não de um verdadeiro domínio da etiqueta.
— Faz sentido.
— Exato. Para evitar que você fique confortável demais, acredito que o ideal seja mudar o local periodicamente. E, já que esta é uma boa oportunidade, que tal realizarmos a sessão de estudos na minha casa?
Tennouji-san explicou com uma lógica clara e objetiva. Diante da proposta dela, eu—
*
— E essa é a situação. O que você acha?
Durante o intervalo do almoço. Como de costume, encontrei Hinako no antigo prédio do conselho estudantil e contei a ela sobre a proposta da Tennouji-san. Embora eu fosse livre para construir relações dentro da academia, eu ainda era o cuidador da Hinako. O mais sensato era ouvir a opinião dela primeiro.
— Hmph.
— Hinako?
— Hmph, hmph, hmph…
De forma incomum, Hinako estava pensativa. Sinceramente, não achei que fosse algo que exigisse tanta reflexão, mas Hinako estava de braços cruzados, com uma expressão séria no rosto.
— Itsuki.
— Oi?
— Você vai… dormir lá? — Por algum motivo, evitando meu olhar, Hinako perguntou com hesitação.
— Não, estou pensando em ir e voltar no mesmo dia.
— Então, tudo bem — apesar das palavras, a expressão de Hinako continuava complicada. — Itsuki… você está se divertindo com as sessões de estudo da Tennouji-san?
— Bem, sim. A Tennouji-san é do tipo que não pega leve nem com pessoas próximas, então isso naturalmente me mantém atento…
— Hmmm.
Pessoas que conseguem ser rigorosas até com conhecidos são raras. Normalmente, alguém se preocuparia em ser malvisto, mas a Tennouji-san não parecia se importar com isso. Ela deve ser tão confiante em si mesma que prioriza suas próprias ações em vez da opinião dos outros.
Esse tipo de postura firme é algo que eu realmente admiro, mesmo deixando de lado minha posição atual. Enquanto eu me perdia nesses pensamentos, Hinako puxou a barra do meu uniforme.

— Você é meu cuidador.
— Hã?
— Itsuki… você é meu cuidador.
Ela me encarou de muito perto. Seus traços refinados preencheram meu campo de visão, e senti um leve aperto no peito. Mesmo morando sob o mesmo teto, Hinako sempre cheirava bem de algum jeito.
— Eu sei.
Soltei um suspiro lento para acalmar meu coração. Então voltei minha atenção para a marmita à minha frente.
— Já que você sabe, então, por enquanto… pare de esconder legumes no meu almoço.
— Você me pegou.
Minha mestra continuava ardilosa como sempre.
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