Volume 1
Capítulo 2: Academia Kiou
NO DIA SEGUINTE, vesti o uniforme preto da Academia Kiou e saí da mansão. Na noite anterior, Shizune-san acabou levando Hinako-sama para a cama. Meu smartphone confiscado havia sido discretamente devolvido ao bolso do meu casaco, então aproveitei para recuperá-lo sem chamar atenção.
Um carro preto elegante estava estacionado em frente ao portão. Logo além dele, eu podia ver Hinako-sama.
— Quero ir pra casa.
— Se disser a mesma coisa daqui a oito horas, eu acatarei — respondeu Shizune-san.
— Mmph.
Shizune-san acalmou Hinako-sama, que fazia bico, com uma facilidade já bem treinada.
— Itsuki-sama, por aqui, por favor.
Shizune-san lançou-me um olhar enquanto falava. Certo — a partir de hoje, sou o herdeiro de uma empresa de médio porte. Ser tratado de forma tão formal por Shizune-san me fez sentir, com força total, o peso da minha nova imagem pública.
— Agora, Itsuki-sama, qual assento deseja?
Quando me aproximei do carro, Shizune-san fez a pergunta. Isso… é um teste-surpresa daquele treinamento de etiqueta, não é?
— O banco de trás, atrás do passageiro.
— Correto. Quando há um motorista presente, a hierarquia dos assentos é a seguinte: atrás do motorista, atrás do passageiro, o centro do banco traseiro e, por fim, o banco do passageiro.
— Mas se o motorista for considerado um acompanhante, o banco do passageiro passa a ser o de maior prestígio, certo?
— Exatamente. Você estudou bem.
Bom… depois daquele treinamento nível espartano que você me fez passar, seria estranho não ter aprendido.
— Normalmente, conduzir a ojou-sama até o carro seria dever do responsável, mas pretendo delegar essas tarefas a você aos poucos, Itsuki-sama. Agora, por favor, entre no carro.
Hinako-sama entrou primeiro. Eu a segui para o banco de trás, enquanto Shizune-san ocupou o banco do passageiro.
— Queee sonooo…
Você dormiu feito uma pedra, não dormiu? Engoli a resposta antes que escapasse. O carro começou a deslizar suavemente pela estrada.
— Como vocês dois devem viver em residências separadas, vamos deixá-los a uma curta distância da academia.
— Então vamos caminhar juntos até a escola, só nós dois? Mas e se algo acontecer, como aquela tentativa de sequestro ontem—
— Não há motivo para preocupação. Há seguranças posicionados ao redor de vocês o tempo todo. O incidente de ontem ocorreu porque a ojou-sama saiu sem nos informar. Como seu cuidador, é sua responsabilidade evitar situações assim.
— Entendido.
Meu primeiro dia de trabalho começa agora. Como cuidador dela, preciso ficar em alerta máximo.
— A propósito, eu fico na mesma sala que a Hinako… sama, certo?
— Naturalmente. Como cuidador dela, você deve permanecer ao lado da ojou-sama em todos os momentos.
Então Hinako-sama e eu seremos colegas de classe.
— Itsuki… esse jeito de falar?
— Ugh.
Ela ouviu, né… Mas deixar de usar honoríficos com Hinako-sama na frente da Shizune-san é… constrangedor.
— Shizune, deixa o Itsuki falar normalmente.
— Mas, ojou-sama, isso daria um mau exemplo aos outros.
— Então… só quando estivermos sozinhos ou quando você estiver por perto.
— Muito bem.
Relutante, Shizune-san concordou.
— Viu, Itsuki? Agora você pode falar comigo de forma casual.
— Não é como se eu estivesse feliz com isso.
O olhar de Shizune-san dói. Sinceramente, eu não me importo de falar formalmente. Depois de uma vida inteira em empregos de meio período, hierarquias já são algo natural pra mim.
— Para evitar deslizes, Itsuki-sama, utilize linguagem formal dentro da academia. Como herdeiro de uma empresa de médio porte, seu status aqui é relativamente baixo, o que ajudará a evitar atritos desnecessários.
— Entendido.
O herdeiro de uma empresa de médio porte é considerado de baixo status…? Bem, eu provavelmente vou acabar falando formalmente de qualquer jeito.
— Ughhh… a academia tá cada vez mais perto…
Hinako gemeu, soando completamente exausta.
— Itsuki…
— O quê?
— Me carrega.
O carro deu uma guinada brusca. O que essa ojou-sama está dizendo?! O motorista está surtando!
— Ojou-sama, esse comportamento é… bem, um tanto inadequado para a dignidade esperada de uma jovem refinada…
— Mas o Itsuki tem um cheiro tão bom…
— S-Sério?
Os olhos de Shizune-san se arregalaram.
— Itsuki-sama, por motivos educacionais, posso dar uma cheirada?
— Nem pensar! Eu não cheiro bem coisa nenhuma! Por favor, me dá um tempo!
— Cheira sim.
Dizendo isso, Hinako se inclinou e encostou o nariz na manga do meu uniforme. Só para conferir, dei uma cheirada em mim mesmo. …Nada de especial. No máximo, é o cheiro do detergente usado na casa Konohana.
— Ahn, Hinako-san, eu ainda sou um cara, então chegar tão perto assim é meio—
— Tom.
— Hinako.
— Aaaagora sim…
Discutir com ela claramente não adiantava. Soltei um suspiro — só para ouvir outro ainda mais profundo vindo de Shizune-san ao meu lado.
— Ojou-sama, estamos quase chegando…
— Tááá…
Cerca de trinta minutos depois, o carro chegou ao destino. Hinako e eu fomos deixados em um beco tranquilo e deserto. Não havia ninguém à vista, mas aparentemente os guardas da família Konohana estavam posicionados nas proximidades.
— Itsuki-sama, por favor, pegue isto — disse Shizune-san me entregando uma bolsa preta opaca.
— O que é isso…?
— Use caso a ojou-sama fique incontrolável demais.
Sem entender muito bem o que ela quis dizer, respondi com um vago "ah, certo" e aceitei.
— Agora, podem ir.
Shizune-san fez uma reverência respeitosa, e eu respondi com um aceno rápido antes de seguir com Hinako em direção à academia.
— Quero ir pra casa.
— Você não deveria começar a agir como uma ojou-sama?
— Ainda não tem ninguém olhando… posso relaxar.
Ao que parece, Hinako possui algum tipo de radar para detectar olhares alheios. Ela pode dizer isso, mas como cuidador, é meu dever garantir que ela mantenha sua fachada de ojou-sama. Observei atentamente os arredores enquanto nos aproximávamos da academia.
— É enorme.
Não consegui evitar murmurar ao ver o prédio majestoso, quase como uma mansão, à nossa frente. Academia Kiou — uma das instituições mais prestigiadas do Japão. O nome soa quase exageradamente pretensioso, mas não há como negar que se trata de uma escola de elite.
Hesitei antes de dar o primeiro passo. Enquanto isso, ao meu lado—
— Bom dia, Konohana-san.
— Bom dia.
Uma garota de cabelos âmbar, esvoaçando ao vento, respondia às saudações dos outros alunos com uma elegância impecável.
— Konohana-san… ela continua tão deslumbrante.
— Verdadeiramente refinada…
Sussurros assim vinham de todas as direções. Olhei de soslaio para o perfil de Hinako enquanto ela assumia completamente seu papel. Estava irreconhecível — composta, inteligente, digna. Era difícil acreditar que fosse a mesma garota que babava dormindo no meu quarto na noite anterior.
— Aconteceu alguma coisa, Tomonari-kun?
— Uou!
Hinako me encarou com um ar preocupado. Estremeci, pego de surpresa. Apressei-me em cobrir a boca e sinalizei que não era nada. Seguimos para dentro do prédio da escola e nos dirigimos à sala dos professores. Felizmente, Hinako e eu temos a mesma idade, então não precisei fingir minha idade para estar no mesmo ano. Graças aos arranjos de Shizune-san, fomos colocados até mesmo na mesma turma.
— Estávamos esperando por você. Você deve ser Tomonari Itsuki-kun.
Uma professora cumprimentou-me assim que entramos na sala dos professores.
— Sou Fukushima Misono, a professora responsável pela turma 2-A, na qual você será matriculado. É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu.
Fiz uma leve reverência.
— Você e a Konohana-san já se conhecem?
— Ah, bem…
Pego desprevenido, hesitei, procurando uma mentira aceitável. Então, Hinako, parada graciosamente ao meu lado, tomou a palavra.
— Nossas famílias são próximas há algum tempo, então já nos conhecemos faz anos. Foi por causa disso que me ofereci para mostrar a academia a ele.
— Ah, entendo!
A Fukushima-sensei assentiu, claramente satisfeita com a explicação impecável de Hinako.
— Tomonari-kun, ter a Konohana-san como guia é um verdadeiro luxo.
— Haha… é mesmo.
Ei, Fukushima-sensei, você sabia? Essa garota provavelmente se perderia na academia se estivesse sozinha.
— Hoje temos um novo aluno transferido entrando na turma.
Fukushima-sensei anunciou ao entrar primeiro na sala de aula. Eu a segui e fui até a frente do quadro-negro para me apresentar.
— Sou Tomonari Itsuki. Prazer em conhecer todos vocês.
Não houve aplausos nem reverências formais, mas os olhares e expressões dos alunos eram acolhedores. Na minha antiga escola, alunos transferidos eram praticamente inexistentes, e se algum aparecesse, viraria um grande evento. Mas essa turma parecia tranquila — madura, receptiva, com uma atmosfera calma e aberta.
— Tomonari-kun, por favor, sente-se naquele lugar vazio ali. Sei que todos estão curiosos sobre o novo aluno, mas vamos focar primeiro na aula. Hora de mudar o ritmo.
Fukushima-sensei percorreu a sala com o olhar desde o púlpito. Sentei-me — segunda fileira a partir da janela, mais ao fundo — e rapidamente tirei os livros da mochila.
A primeira aula era matemática.
— Muito bem, vamos começar. Hoje estudaremos o método da substituição para integrais.
Método da substituição? A gente não tinha visto isso só no final do terceiro ano na minha antiga escola…?
Ao que parece, na Academia Kiou isso faz parte do currículo de primavera do segundo ano.
*
— Isso é tudo por hoje. Não se esqueçam de revisar.
Fukushima-sensei concluiu quando o sinal tocou. Após uma breve reverência, os alunos entraram no clima do intervalo.
— Vou ter que agradecer à Shizune-san depois.
Consegui acompanhar a aula, mas foi puxado. Com apenas um período, já parecia que eu tinha estudado o dia inteiro. Agora… como estará a ojou-sama? Lembrando do meu dever como cuidador, olhei na direção de Hinako.
— Konohana-san, tive um pouco de dificuldade com a matéria de hoje…
— Se você quiser, ficarei feliz em ajudar.
Em público, Hinako mantinha perfeitamente a máscara de uma ojou-sama refinada. Até agora, não havia qualquer sinal de que ela fosse cair.
— Ei, novato!
Uma voz alta ecoou ao meu lado. Quando me virei, vi um estudante alto e corpulento.
— Bastante ousado da sua parte não me cumprimentar, hein? Anda logo, entrega todo o dinheiro do lanche!
— Hã?
Que tipo de abordagem é essa? Não consegui entender se ele estava falando sério ou brincando.
— Ei!
— Ai!
Enquanto eu ainda estava confuso, uma garota baixinha acertou a cabeça do cara com um golpe seco da mão.
— Você tá assustando o Tomonari-kun!
— D-Desculpa, era só brincadeira.
O garoto esfregou a cabeça e sorriu sem graça.
— Você é o Tomonari Itsuki, né? Eu sou Taisho Katsuya.
— E eu sou a Asahi Karen. Prazer!
Respondi às apresentações com um meio constrangido:
— Ah… oi.
Então aquilo de dinheiro era só uma pegadinha.
— Tomonari, você tava penando para acompanhar a aula, né?
— Como você sabe?
— Hahaha! Não esquenta, todo aluno transferido passa por isso.
— Todo mundo? Tem outros além de mim?
— Não agora, mas alunos transferidos não são raros aqui. Os estudantes desta academia muitas vezes entram no meio do ano ou se formam mais cedo por causa de questões familiares. Você também deve ter vindo no meio do período por algo assim, né?
— É… algo desse tipo.
Parece que os alunos daqui entendem bem o quão fora do comum essa academia é.
— Mas Tomonari não é um sobrenome muito conhecido. O que sua família faz?
— Área de TI. Não é uma empresa grande, mas…
Respondi à pergunta da Asahi-san, lembrando da história que Shizune-san tinha preparado. Minha família administra uma empresa de TI de médio porte, e eu sou um possível herdeiro — basicamente isso.
Ao ouvir minha resposta, Asahi-san e Taisho trocaram um olhar e assentiram.
— Você parecia meio perdido na aula, então a gente meio que imaginou… Tomonari-kun, você levou uma vida mais próxima da pessoa comum, né?
— É, mais ou menos isso.
Admiti, encarando o sorriso provocador de Asahi-san.
— Existem dois tipos de alunos transferidos. Um grupo vem de outras escolas onde já se destacavam e se transfere pra cá para "polir o currículo". O outro não estudava tanto antes, mas acaba vindo por causa de obrigações familiares. O primeiro grupo geralmente vem de famílias ricas, enquanto o segundo é mais… comum.
— Para quem estudou em escolas normais, entrar direto no currículo dessa academia é cruel. Então alunos com origens parecidas costumam se juntar e se ajudar. Eu e o Taisho somos do lado "comum", então vamos te dar uma força.
— Entendi.
Assenti, digerindo a explicação. Basicamente, eles estavam se oferecendo para me orientar como colegas "do mesmo grupo".
Cara… os alunos da Academia Kiou são de outro nível. Maduros e solidários demais.
— Eu agradeço.
— Para com essa formalidade, cara. Somos colegas de classe!
— Desculpa… é que, por causa da família, eu tenho que falar assim.
— Ah, certo… é, isso é bem comum por aqui.
Na minha cabeça, eu já estava chamando ele de Taisho, sem honoríficos. Um trabalho com moradia inclusa, três refeições por dia e um pagamento diário de 20 mil ienes? Por isso, eu faço o papel de herdeiro com perfeição.
— A propósito, Tomonari, tenho uma pergunta pra você.
O tom de Taisho ficou estranhamente sério.
— Você… qual é a sua relação com a Konohana-san?
No instante em que ele perguntou, o ar da sala pareceu congelar com um estalo seco.
O quê…? Por um segundo, juro que me vi subindo os degraus rumo a uma guilhotina.
— Vocês vieram juntos pra escola hoje, não vieram?
— Ah, hã… sim. Nossos pais se conhecem, então já tivemos algum contato antes. Como era meu primeiro dia, ela se ofereceu pra me mostrar o caminho.
— É só isso mesmo?
— É só isso, eu juro…
— Você não tá, tipo, noivo dela ou algo assim, né?
— Noivo?! Claro que não, nada disso!
Para um plebeu como eu, noivos são praticamente lendas urbanas. Dei de ombros, e Taisho começou a tremer — antes de abrir um sorrisão.
— Caramba, não me assusta assim!!
— Ei!?
Um tapa no ombro me arrancou um gemido. Observei Taisho com cautela quando ele, de repente, ficou todo amigável. A tensão que dominava a sala instantes antes havia sumido, e meus colegas voltaram a conversar tranquilamente.
— Cara, foi tenso por um momento, né?
— O que você quer dizer com isso, Asahi-san…?
— Bom, é que… a Konohana-san é tipo, super famosa na academia. Quer dizer, ela é a herdeira do Grupo Konohana, tem as melhores notas da escola e, olha pra ela — é linda demais.
Assenti, incentivando-a a continuar.
— Só que tem um detalhe: nunca houve um único boato sobre ela namorar alguém. Então, alguns de nós achavam que talvez ela tivesse um noivo fora da escola ou algo assim. Aí você aparece, vindo pra escola com ela, e todo mundo fica tipo: "Espera aí, esse cara é o noivo dela!?"
— Entendi. …Então noivos realmente existem, né?
— Pra mim, não. Mas pra alguém do nível da Konohana-san? Não seria nada surpreendente.
Pensando bem, eu nunca perguntei à Hinako se ela tem um noivo. Como ela ainda está considerando opções de casamento, eu imaginaria que não tem… mas talvez ela esteja estressada justamente porque tem um noivo.
— Aliás, eu também não tenho noiva. Então, se você encontrar alguma garota fofa por aí, Tomonari, trate de me apresentar, ouviu?
— Eu… vejo o que posso fazer.
Desviei com uma risada casual. Conversando com Asahi-san e Taisho, senti uma leve onda de alívio. Quando soube que iria me transferir para a Academia Kiou, não fazia ideia de como as coisas iriam acabar. Mas… parece que talvez eu consiga dar conta.
*
No momento em que o sinal do intervalo de almoço tocou—
— Tomonari, qual é o plano pro almoço?
— A gente vai pra cantina, mas…
Taisho e Asahi-san me chamaram enquanto eu guardava os livros na mochila.
— Desculpa, tenho algo pra resolver no horário do almoço…
— Algo?
Taisho inclinou a cabeça, e eu expliquei.
— Tenho que falar com meus pais durante o almoço… então vou comer um bento mesmo.
— Ah, entendi. …Seus pais parecem meio superprotetores, né?
— É, dá pra dizer isso.
Essa era mais uma parte da história que Shizune-san tinha preparado. Quando ouvi pela primeira vez, fiquei na dúvida se uma desculpa dessas funcionaria, mas pela reação deles, parece que eu me preocupei à toa.
— Agora que você falou nisso, a Konohana-san também é meio assim, né? Ela sempre some em algum lugar na hora do almoço.
— É… dizem que ela ajuda nos negócios da família durante os intervalos. Ouvi falar que ela até participa de reuniões online.
Enquanto ouvia a conversa deles, lancei um olhar furtivo para Hinako, sentada perto da frente da sala.
— Konohana-san, você gostaria de ir à cantina com a gente?
— Desculpe, tenho assuntos familiares para tratar durante o almoço…
Recusando educadamente o convite de uma colega, Hinako tirou um bento da bolsa e saiu da sala. Vendo isso, empurrei a cadeira para trás e me levantei.
— A gente se vê depois, então.
— Beleza.
— Se quiser ir à cantina algum dia, é só avisar!
Depois de me despedir dos dois, saí da sala e imediatamente procurei Hinako com o olhar. Ela caminhava sozinha pelo corredor. Mantendo uma certa distância, fui atrás. Perto da sala, ela foi parada várias vezes por pessoas que a cumprimentavam, mas ao atravessar o corredor de ligação, a atenção diminuiu.
Ela cortou o jardim em direção ao antigo prédio do conselho estudantil. A construção já não era usada por causa da idade, mas era limpa regularmente por questão de aparência.
Subindo as escadas, ela foi direto para o terraço. Depois de confirmar que não havia mais ninguém por perto, abri a porta.
— Bom trabalho~.
Hinako, estirada no chão com uma expressão completamente relaxada, me cumprimentou.
— Bom trabalho, eu acho.
— Tom.
— Tá, tá.
Assenti de forma preguiçosa e me sentei ao lado dela.
— Você sempre almoça aqui em cima?
— Sempre. Ninguém vem pra cá.
Como cuidador dela, eu preciso ficar ao lado da Hinako o tempo todo. Parece que, de agora em diante, vou passar todos os intervalos de almoço nesse terraço.
— E então… como tá sendo a academia?
— É uma escola de elite mesmo. Estudei feito louco ontem, mas ainda assim acompanhar as aulas é difícil.
— Continua se esforçando. …Se suas notas despencarem, você pode acabar sendo demitido como meu cuidador.
— Isso seria um problema.
Se eu não tivesse conhecido a Hinako, provavelmente estaria sem casa agora, incapaz até de frequentar a escola. Pensando bem, estou numa posição absurdamente privilegiada. Preciso me esforçar pra continuar aqui.
— Vamos comer os bentos?
— Vamos.
Junto com Hinako, abri a tampa do meu bento. A refeição, preparada pelos funcionários da casa Konohana, era um banquete luxuoso, feito com ingredientes raros e de altíssima qualidade.
— Uau… nunca vi um bento tão chique.
— Uhum. Mas a comida da cantina é ainda mais extravagante.
— Sério? …Você não come lá?
— Dá muito trabalho lidar com os olhares de todo mundo.
Imagino que esse seja o preço da fama.
— Além disso… com o bento, só vem coisa que eu gosto.
— Tem coisas que não gosta? Tipo o quê?
— Cenoura, pimentão, ervilha, cogumelo shiitake, umeboshi, tomate, abóbora…
— Isso é bastante coisa. Você só odeia legumes, não odeia?
— Me pegou.
Hinako abriu um sorriso bobo. Sério… ela parece outra pessoa comparada à Hinako da sala de aula. Se o Taisho ou a Asahi-san vissem ela assim, provavelmente teriam um treco.
Hinako pegou o bento com os hashis e começou a comer. Mas a comida que ela tentava pegar ficava se desfazendo e caindo.
— Você tá deixando cair tudo.
— Hm?
— Não, não é "hm"…
Tá bom… agora estou começando a entender por que eu sou necessário como cuidador.
É menos "assistir" e mais "cuidar" mesmo. Por algum motivo, a Hinako consegue ser a ojou-sama perfeita em público, mas em particular é totalmente desajeitada. Pensando bem, quando ela foi sequestrada, também estava derramando a bebida engarrafada para todo lado.
— Me dá de comer~.
Hinako estendeu o bento, abrindo bem a boca. Seria um desperdício deixar esse bento chique ir pro lixo com tanto derramamento. E já que não tem ninguém por perto… tá bom, fazer o quê.
— Aqui.
Peguei um pedaço de comida com naturalidade e levei até a boca dela.
— Mmm… muito bem.
Hinako assentiu, satisfeita.
— Você também deveria comer, Itsuki.
— Certo.
Incentivado por ela, peguei meu próprio bento. Comecei pelo clássico dos bentos: o omelete enrolado.
— Caramba—! O que é isso!? É bom demais!!
Depois disso, meus hashis não pararam. A carne, o peixe, a salada — tudo estava absurdamente delicioso.
— Qual é o seu favorito?
— Favorito, hein? …Tudo é incrível, mas se for pra escolher, acho que o omelete enrolado que provei primeiro.
— Então toma.
— Hã?
— Troca. Aaah~.
Hinako pegou um pedaço de omelete enrolado com os hashis e levou até a minha boca.
Ser alimentado assim deu um pouco de vergonha, e eu hesitei, mas Hinako não parecia nem um pouco constrangida.
Relutante, abri a boca e comi o omelete.
— Tá bom?
— Tá ótimo, mas você não vai ficar sem ele?
— Eu sou sua mestra, então tenho que te manter bem alimentado.
— Alimentado, é…
— Não posso deixar você enjoar de mim.
O tom dela soou só um pouco mais sério do que o normal. Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas não consegui ignorar. A pergunta escapou.
— Você tinha outro cuidador antes de mim, né? Por que ele saiu?
— Não sei.
Hinako inclinou a cabeça. Kagen-san havia dito que o anterior saiu por estresse, mas eu ainda não sabia o que tinha causado isso.
— Quanto tempo durou o seu último cuidador?
— Talvez duas semanas?
— O quê?
Isso é muito menos do que eu imaginava.
— O de antes acho que ficou três semanas. …O que durou mais ficou um mês.
— Alguma ideia de por que eles saíam tão rápido?
— Não sei.
— Não sabe?
Ela inclinou a cabeça de novo, do mesmo jeito de antes. Ela não parecia estar se fazendo de boba, mas também não demonstrava se importar. Talvez Hinako simplesmente não ligasse tanto para os cuidadores anteriores.
— Mesmo assim, esse trabalho tem benefícios incríveis. Duvido que exista outro igual.
— Benefícios incríveis?
— É. Quero dizer, moradia inclusa, três refeições por dia e um pagamento diário de 20 mil ienes. Claro, tem pressão, mas é um baita negócio. As aulas da academia são absurdamente difíceis, mas se você pensar nisso como acumular conhecimento, não é tão ruim.
Tem muita gente por aí que daria tudo para poder estudar e não pode. Eu quase fui um deles.
— E eu?
— Hã?
— Benefícios incríveis… e eu?
Não entendi muito bem o que ela queria dizer.
— Do que você está falando?
— Mmph.
Inflando as bochechas, Hinako fez cara de emburrada.
— Nenhum interesse em "subir na vida" casando?
— Ah… isso é, tipo…
Subir na vida? Quer dizer, casar com alguém rico? Não é questão de interesse — é algo completamente fora do meu alcance. O eu verdadeiro não tem nada a ver com estar sentado lado a lado com a herdeira da família Konohana assim.
— Não desista de mim, Itsuki.
— Por enquanto, não pretendo.
Ao ouvir minha resposta, Hinako sorriu suavemente e se virou de lado.
— Hora da soneca.
— Quer um travesseiro?
— Quero.
Já tínhamos tido uma troca parecida durante o sequestro, então dessa vez peguei a dica rápido. Afastei um pouco as pernas, e Hinako imediatamente apoiou a cabeça no meu colo.
— Hehe… conforto nível máximo…
— Fico feliz que ache isso.
Com a cabeça no meu colo, Hinako começou a respirar profundamente quase de imediato. Olhando para ela assim, não há como negar o quanto ela é bonita. Ainda há um traço de inocência juvenil, mas ela está em outro nível comparada a qualquer modelo.

Qualquer garoto normal da nossa idade provavelmente estaria surtando numa situação dessas. Mas, por algum motivo, eu não estou. Se algo, me sinto estranhamente calmo.
— É só… a vibe, eu acho.
Não parece que somos um garoto e uma garota. Claro, às vezes me pego notando ela como uma garota, mas tenho quase certeza de que Hinako não me vê desse jeito. Talvez seja por isso que eu consiga manter a calma. Recebi esse título frágil de "cuidador", mas nossa relação parece algo mais estranho, algo difícil de definir.
Ainda assim… não é uma sensação ruim.
— Hm?
Meu smartphone vibrou no bolso, sinalizando uma ligação. Na Academia Kiou, celulares e computadores são permitidos durante os intervalos. Alguns dos alunos ultrarricos daqui já participam dos negócios da família, então é uma medida prática. Tenho certeza de que ouvi alguém falando sobre "day trade" mais cedo.
— Shizune-san…?
Murmurando o nome que aparecia na tela, atendi a ligação.
— Você demorou para atender. Da próxima vez, atenda em até cinco toques.
— Isso foi estranhamente generoso.
— Entendo que você possa estar ocupado na academia, Itsuki-sama. Farei algumas concessões.
Shizune-san não é rígida apenas por ser rígida — ela é obcecada por resultados. Já trabalhei sob todos os tipos de chefes nos meus empregos de meio período, mas a Shizune-san se destaca como uma das melhores. A rigidez dela, porém, é de outro nível.
— Agora é o intervalo de almoço na academia, correto? Até que você esteja completamente adaptado ao papel de cuidador, entrarei em contato nesse horário.
— Obrigado.
— A ojou-sama está por perto?
— Sim. Ela está, ah… cochilando agora.
Não havia necessidade de mencionar a história do travesseiro no colo.
— Algum problema até agora?
— Nada demais. Mas, se eu tiver que dizer alguma coisa, as aulas foram difíceis.
— Então vamos reforçar sua preparação hoje.
— Droga, falei demais.
— Ser sincero é uma virtude.
Mas nem sempre inteligente.
— A propósito… a Hinako comentou mais cedo que os cuidadores anteriores todos desistiram em menos de um mês?
— Isso…. é verdade.
A resposta de Shizune-san soou hesitante.
— Por quê?
— Todos os cuidadores anteriores eram subordinados do pai da ojou-sama, Kagen-sama. Sendo assim, acabavam se tornando, na prática, subordinados dela também. Isso os levava a encarar suas funções com uma mentalidade de servo, o que… frequentemente desagradava a ojou-sama.
— Então a Hinako não gosta de criados?
— Não exatamente de criados, mas da atmosfera rígida e formal que eles trazem.
É… eu já suspeitava disso.
— Contratar alguém de fora, sem vínculos com a família Konohana, como cuidador é algo inédito para nós. Estávamos tendo dificuldades para encontrar um novo cuidador quando a ojou-sama recomendou você. Decidimos contratá-lo como uma espécie de experimento.
— Então foi assim que aconteceu…
Todo o processo — de ser nomeado cuidador até a transferência para a academia — aconteceu tão rápido que me deixou inquieto. Mas, ao que parece, isso também foi um experimento para a família Konohana. O jeito deles de tentar tudo e decidir rápido provavelmente acelerou as coisas.
— Como está sua relação com a ojou-sama na academia?
— Por enquanto, só dissemos que nossos pais se conhecem.
— É um bom equilíbrio. Mantenha essa distância. …Você fez alguma conexão mais próxima?
— Ainda é meu primeiro dia, então não muitas, mas… me dei bem com a Asahi Karen-san e o Taisho Katsuya.
— Hm. Então, Asahi-sama e Taisho-sama.
Ouvi a breve confirmação de Shizune-san.
— A família da Asahi-sama atua no varejo… uma rede de eletrônicos chamada J’s Electronics.
— Nunca ouvi falar.
A Asahi-san e o Taisho tinham se descrito como alunos "comuns". Isso deve significar que não é uma corporação gigantesca como a empresa da minha suposta família.
— É mesmo? Eu achava que a J’s Electronics fosse bem conhecida.
— Hã? J’s Electronics?
— Sim.
J’s Electronics — claro que eu já ouvi falar. Já até comprei lá. Os comerciais passam o tempo todo na TV, e tenho certeza de que a maioria dos meus colegas da antiga escola conhecia a rede.
— I-Isso é tipo… super famoso…!
— De fato. Como varejista de eletrônicos, está entre as cinco maiores em vendas no país.
Espera aí… e esse papo de ser "gente como a gente"? Essa garota é praticamente uma princesa da alta sociedade!
— A propósito, a família do Taisho-sama administra a Taisho Movers, uma grande empresa de transporte, conhecida principalmente por serviços de mudança.
— Essa também é bem famosa…
— Exatamente.
Senti-me traído. Os dois são nomes conhecidos em qualquer casa.
— Os negócios das famílias de seus colegas frequentemente se tornam assunto recorrente, então é recomendável manter-se informado. Por favor, reporte conforme sua rede de contatos crescer. Além disso, oficialmente, a família do Itsuki-sama administra uma empresa de TI, então a partir de hoje você estudará assuntos relacionados à área. Vamos nos empenhar para dominar programação básica.
— Por favor, vá com calma comigo.
— Continue permanecendo ao lado da ojou-sama. Caso algo aconteça, informe-me imediatamente.
Encerrei a ligação com Shizune-san. Soltando um longo suspiro, percebi Hinako me encarando fixamente.
— Itsuki… aconteceu alguma coisa?
— Nada, é só que… estou começando a perder a confiança.
Será que eu consigo mesmo lidar com um lugar como esse? Só tem elites inalcançáveis para todos os lados. Não consegui afastar a sensação de que, mais cedo ou mais tarde, eu acabaria cometendo algum erro e causando problemas para a família Konohana.
— Ei, é…
— O quêêê…?
— Por que você me escolheu como seu cuidador?
— Hmm…
Depois de pensar por um instante, Hinako respondeu:
— Achei que… você não ia puxar meu saco.
— Puxar o saco?
— Uhum.
Ela assentiu de forma decidida.
— Eu gosto de como você cuida de mim… mesmo fingindo que é um saco.
As palavras dela soaram meio desconexas, como se não se encaixassem perfeitamente. Talvez estivesse meio sonolenta.
— Quero matar as aulas da tarde…
— Nem pensar.
— O quêêê…?
*
O intervalo de almoço terminou, e a quinta aula começou.
— Agora, para este problema… Taisho-kun, poderia resolvê-lo?
— Hã? …D-Desculpa, não sei.
Chamado pela professora, Taisho respondeu de forma constrangida.
— Então, Konohana-san, poderia tentar?
— Sim.
Hinako se levantou, pegou o giz e escreveu a resposta no quadro-negro.
— É isso.
— Impecável, como sempre. Obrigada.
Enquanto Hinako voltava para o lugar, os olhares admirados dos colegas a acompanharam. Difícil acreditar que era a mesma garota que, poucos instantes antes, estava largada sobre a carteira, cochilando desajeitada, reclamando de aula e fazendo birra.
O sinal tocou, anunciando o intervalo. Girando os ombros para relaxar, vi Taisho e Asahi-san se aproximando.
— Ufa, tô morto. A quinta aula sempre me dá sono — odeio.
— Ah, você é o Taisho-kun que não conseguiu responder antes.
— Aff… pega leve. Eu só calculei mal o material de estudo, tá?
Parece que acompanhar as aulas da Academia Kiou exige uma preparação pesada. Impressionado com a atitude descontraída de Taisho, lancei um olhar discreto para o lugar da Hinako.
Espera, a Hinako sumiu?
Ao perceber que ela não estava na sala, levantei de um salto.
— Vou ao banheiro rapidinho.
Me desculpei com os dois e fui procurá-la. Nem cinco minutos tinham se passado desde o fim da aula — ela não podia ter ido longe.
Saí apressado da sala e olhei pelo corredor, encontrando-a quase imediatamente.
— Ah, ela só foi ao banheiro.
Hinako conversava animadamente com um grupo de garotas enquanto entrava no banheiro. Alguns minutos depois, voltou à sala e se sentou.
Justo quando eu ia retornar ao meu lugar, meu celular vibrou com uma ligação.
— Agora é um bom momento?
— É.
Como esperado, era Shizune-san.
— É provável que a ojou-sama tenha deixado a carteira cair.
— A carteira dela?
— Sim. Há uma discrepância entre o rastreador da ojou-sama e o que está na carteira dela.
— Ela tem rastreadores?
Quão pouco eles confiam nessa garota?
— Vou procurar imediatamente. O rastreador indica algum local específico?
— Com certeza está na ala oeste do prédio principal, mas além disso é difícil dizer.
A ala oeste, hein? Pelo momento da ligação e pela localização, tudo se encaixou.
— Provavelmente… o banheiro.
— Ah, entendo.
Ela deve ter deixado cair quando foi ao banheiro mais cedo.
— A ojou-sama é impecável em público, mas o banheiro é um dos poucos lugares onde fica sozinha. Ela costuma esquecer coisas lá.
— Sério…?
— Por favor, recupere-a.
A ligação com Shizune-san terminou.
Recupere-a, ela diz.
Fui até o banheiro feminino e parei, coçando a cabeça. Sendo homem, não posso simplesmente entrar. E agora?
— Ei, você aí.
Enquanto eu quebrava a cabeça, alguém me chamou. Ao me virar, vi uma garota que se destacava de forma absurda.
Cabelos longos e dourados caíam em cachos perfeitos em espiral vertical — aqueles cachos de broca, saídos direto de um mangá. Mesmo com o uniforme, sua silhueta era marcante; a pele clara e os olhos castanhos brilhavam com uma intensidade feroz que denunciava uma personalidade forte.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ah, bom…
— Ora, veja só, ainda não me apresentei, não é? — Ignorando minha confusão, ela falou num tom peculiar, quase teatral.
— Eu sou Tennouji Mirei! A filha única do supremo líder do Grupo Tennouji!
Ela anunciou o nome com orgulho descarado.
— Ah… oi.
— Oi…? Que resposta sem graça é essa? Você certamente já ouviu falar do Grupo Tennouji, não?
— Desculpa.
Ao ouvir meu pedido de desculpas, os olhos de Tennouji-san se arregalaram.
— N-Não é possível, você não conhece? O Grupo Tennouji, eu disse!
— Perdão pela minha ignorância.
— Ignorância é pouco!!
O grito estridente quase perfurou meus tímpanos.
— O Grupo Tennouji começou na mineração e hoje é um conglomerado colossal! Detém o maior fabricante de metais não ferrosos do Japão e uma grande empresa química, rivalizando até mesmo com o Grupo Konohana em escala!
— É mesmo?
Diante do discurso inflamado, só consegui concordar com a cabeça.
— Essa reação… você pelo menos conhece o Grupo Konohana, não conhece?
— Bom, conheço.
— Como eu imaginei… não suporto aquela Konohana Hinako…! A presença dela ofusca a minha fama…!
O rosto de Tennouji-san ficou vermelho, tremendo de algo que parecia ressentimento pessoal.
— Então, você não estava com algum problema?
Recuperando a compostura, ela me fez lembrar do motivo original.
— Verdade. Acho que alguém esqueceu a carteira no banheiro feminino, e estou tentando descobrir como pegar.
— Se for só isso, eu pego para você. Espere aqui.
Dito isso, Tennouji-san entrou decidida no banheiro. Um minuto depois, voltou segurando uma carteira rosa.
— É esta, não é?
— É sim. Muito obrigado.
— Agora que penso nisso… como você, sendo um garoto, sabia que havia uma carteira no banheiro feminino?
— Ah, é…
Minha mente correu enquanto eu respondia.
— A dona pediu que eu procurasse… e achei que o banheiro fosse o lugar mais provável.
Na prática, eu disse a verdade. Tennouji-san parecia nutrir uma antipatia por Hinako, mas não ligou a carteira a ela. Com sorte, minha explicação seria suficiente…
— Estão te usando como garoto de recados, não é? — Tennouji-san falou, claramente descontente. — Isso não é bom. Se você frequenta esta academia, está destinado a liderar pessoas um dia. Ficar sendo mandado assim é um mau presságio para o seu futuro.
— Ah… vou tomar mais cuidado.
— Falta convicção. Fale com confiança!
— Vou tomar cuidado!
— Isso, agora sim.
Tennouji-san assentiu, satisfeita.
— E fique mais ereto. A confiança começa pela postura, sabia?
Endireitei as costas como ela mandou.
— Muito melhor.
Tennouji-san esboçou um pequeno sorriso, divertido.
— As aulas vão recomeçar. Se precisar de ajuda algum dia, procure este cabelo dourado.
Ela apontou para os próprios cachos com um gesto espalhafatoso. Era, de fato, uma marca registrada inconfundível — o que me fez levantar uma dúvida.
— Só por curiosidade… pintar o cabelo é permitido nesta academia?
— O quê?!
Tennouji-san, que já se preparava para sair com elegância, congelou com um gritinho.
— V-Você acha que meu cabelo é… pintado?
— Não é?
— Está dizendo que meu cabelo é uma… imitação falsa e dourada?!
— Eu não fui tão longe assim.
Foi só uma pergunta inocente. Eu não estava acusando nada.
— Eu… eu não pintei… — Tennouji-san murmurou, em voz baixa.
— EU NÃO PINTEI!! — Com isso, ela disparou pelo corredor, gritando.
— Ela pintou com certeza.
*
A última aula do dia terminou, e a academia entrou em clima de pós-aula.
— E aí, Tomonari. Bom trabalho hoje.
— Bora fazer uma festa de boas-vindas ou algo assim?
Taisho e Asahi-san me chamaram, mas respondi com um sorriso torto e pedi desculpas.
— Foi mal, preciso ir direto pra casa.
— Justo, primeiro dia e tal.
Taisho falou, um pouco desapontado. Senti uma pontada de culpa. Eles tinham sido gentis desde a manhã, e eu recusei os convites tanto no almoço quanto agora, depois das aulas. Priorizar minhas funções de cuidador era inevitável, mas ignorar a boa vontade deles o tempo todo me deixava hesitante.
— Se tiver outra chance, posso aceitar depois? Quero conhecer melhor a academia.
— Com certeza! A gente tá sempre livre!
Taisho e Asahi-san sorriram. Nesse momento, Asahi-san tirou o celular do bolso da saia e olhou a tela.
— Meu transporte chegou, então vou indo.
— Acho que eu também vou nessa. Até amanhã, Tomonari.
Nos despedimos, e eles foram embora. Peguei minha bolsa na carteira e me preparei para sair… mas, como cuidador da Hinako, eu precisava garantir que ela voltasse para casa em segurança primeiro.
Agora, onde a Hinako foi…
Como se fosse combinado, ela se levantou do lugar. Já que oficialmente somos conhecidos, não tem problema conversar normalmente, mas prefiro manter uma distância educada para evitar confusão.
Hinako saiu da sala. Tomando cuidado para não chamar atenção, segui atrás. Achei que ela iria direto para fora da academia, mas, por algum motivo, desviou para a lojinha da escola.
— Um desses pães, por favor.
Depois de comprar um pão, Hinako foi até os armários de calçados. Trocou para os sapatos de rua e, em vez de seguir para o portão, caminhou em direção a um jardim.
O campus da Academia Kiou tem vários jardins. O que Hinako escolheu ficava perto do antigo prédio do conselho estudantil, com um pequeno lago e algumas mesas e cadeiras. Era um lugar deserto — afastado do prédio principal e próximo ao velho prédio abandonado do conselho, então quase ninguém aparecia por ali.
Parada à beira do lago, Hinako rasgou um pedaço do pão e jogou na água. As carpas se aglomeraram imediatamente.
Talvez, como uma verdadeira ojou-sama, Hinako tivesse apreço pelas artes ou um coração gentil para os animais. Mas ela não se mexeu. Shizune-san havia me dito para evitar ficar após as aulas, então, depois de confirmar que não havia mais ninguém por perto, aproximei-me.
— O que você está fazendo?
— Alimentando elas.
Isso era óbvio. Livre da fachada impecável de ojou-sama, a verdadeira Hinako se agachou, observando as carpas devorarem o pão.
— É legal, né…? — ela murmurou, com um olhar distante. — Elas só abrem a boca, e a comida vem… queria trocar de lugar com elas…
— Aposto que até as carpas têm dificuldades que nós, humanos, não entendemos.
— Será…?
Ela não estava exatamente demonstrando carinho pelos animais — estava com inveja deles. Sentindo um misto de emoções, soltei um suspiro.
— Vamos, vamos pra casa. A Shizune-san provavelmente está esperando.
— Não.
Hinako respondeu de mau humor. Surpreso com a recusa direta, pisquei.
— Não? Quando voltar pra mansão, você pode relaxar, não pode?
— Não dá… tem aulas e essas coisas.
Então é isso. Ser a herdeira da família Konohana não é só diversão.
— Mesmo assim, ficar na academia não vai te dar mais liberdade.
— Já acabou o horário das aulas, tem menos gente. Não é restritivo.
Ela tinha razão. A Academia Kiou não tem clubes extracurriculares. A maioria dos alunos já vive ocupada com estudos ou trabalho, e suas famílias ricas podem bancar piscinas ou campos privados para qualquer atividade.
— Ainda assim, você não pode ficar aqui pra sempre. Vamos.
— Nããão…
— Fazer birra assim só vai complicar mais as coisas, sabia?
— Ugh.
O rosto de Hinako se contorceu de desgosto, mas mesmo assim ela balançou a cabeça.
— Mesmo assim… não.
Fugindo da realidade, ela voltou a alimentar as carpas em silêncio. Herdeirinha teimosa. E agora?
— Ah, é mesmo. A Shizune-san me deu isso aqui.
Lembrei da bolsa preta que a Shizune-san tinha me entregue de manhã e a tirei da mochila. Ela disse para usar caso Hinako ficasse difícil, mas o que teria dentro? Ao abrir, encontrei—
— Batatinhas!!
Hinako, que estava apática, se animou instantaneamente. Como ela mesma disse, dentro havia um pacote de batatas fritas sabor consomê.
— I-Isso é injusto… não dá pra resistir a essa tentação…
A voz dela tremia. Nunca tinha visto a determinação de alguém ruir por causa de batatas fritas.
— Certo, eu te dou isso se você for pra casa.
— Grr.
Soltando um resmungo frustrado, Hinako se levantou a contragosto e pegou o pacote da minha mão. A partir dali, seguimos o plano: Hinako e eu nos separamos. Ela passou pelo portão da escola, e um carro preto elegante parou. Shizune-san desceu para recebê-la. Observei de longe, fingindo ser apenas um estranho, e depois segui sozinho pela cidade.
Cheguei ao ponto de encontro combinado, um local discreto, e esperei. Logo, o carro com Hinako e Shizune-san encostou.
— Desculpe pela demora.
— Sem problemas. Bom trabalho hoje.
Cumprimentei Shizune-san no banco do passageiro e entrei no banco de trás. Hinako já estava lá. Para qualquer observador, pareceria que eu e Hinako tínhamos ido embora separadamente.
— Você lidou bem com suas funções na academia.
— Obrigado.
Surpreso com o raro elogio da sempre severa Shizune-san, assenti. Ao meu lado, Hinako devorava as batatinhas que eu tinha dado a ela com concentração absoluta.
— Parece que o que eu te dei de manhã foi útil.
— Foi, salvou a situação no último segundo. Quem diria que batata frita funcionaria tão bem?
— São as favoritas da ojou-sama. Ela quase nunca pode comer, então o efeito é alto.
— São só batatinhas, e ela não pode comer com frequência?
— Claro que não. Um alimento tão pouco saudável não condiz com uma herdeira da família Konohana.
Mesmo numa família rica, a liberdade tem limites. Se bobear, eles têm ainda mais restrições do que pessoas comuns. Ainda assim—
— Eu acho que batatinhas não têm problema.
— Absolutamente não. Isso também é ordem do Kagen-sama. …Embora ela possa comer batatas cortadas preparadas pelo chef da família, a ojou-sama prefere as industrializadas.
Provavelmente gosta mesmo é daquele gosto de junk food. Olhando de lado, percebi farelos espalhados no colo da Hinako.
— Você está derrubando tudo.
Apontei, e por algum motivo Hinako fez uma cara convencida.
— É tipo comer soba fazendo barulho.
— Hã?
— Derrubar farelos… é etiqueta de quem come batata.
— Isso não existe.
De onde veio esse orgulho todo?
— Eu limpo. Levanta as mãos.
— Tá bom.
Hinako levantou as duas mãos devagar. Juntei os farelos do colo dela, e Shizune-san, com perfeita sincronia, me passou um saquinho plástico para jogar fora.
— Itsuki, aqui.
Hinako chamou meu nome, estendendo o pacote de batata.
— Vai dividir?
— Não. Imitação de carpa. …Me alimenta.
Como uma carpa esperando pão, Hinako abriu bem a boca. Pelo visto, ela queria que eu a alimentasse.
— Tá bom, tá bom.
— Nhamm…
Peguei uma batata e coloquei na boca dela. O rosto de Hinako se iluminou de satisfação. Talvez ela não virasse uma carpa, mas estava definitivamente incorporando uma.
— Só pra deixar claro, faça questão de que o Kagen-sama não veja ela assim.
— Entendido.
Essa cena poderia gerar todo tipo de mal-entendido. Melhor manter em segredo.
— A senhorita vai guardar isso, né, Shizune-san?
— Eu adoraria relatar imediatamente, mas infelizmente não podemos substituir você como cuidador com tão pouco aviso. …Cheguei a sugerir que o castrássemos antes que tivesse ideias indevidas, mas…
— Por favor, misericórdia!
Inclinei-me profundamente diante da Shizune-san.
*
De volta à mansão, mergulhei direto nas aulas da Shizune-san.
— Vamos começar com a preparação para amanhã. Você tem aula de administração, então vamos focar nisso. O tema é finanças corporativas.
Muitos alunos da Academia Kiou estão destinados a cargos executivos, então as aulas de administração são extremamente práticas, focadas nas habilidades necessárias para comandar uma empresa.
— Corrigi sua prova. Oitenta e sete pontos… muitos erros por descuido. Falta concentração.
— Sim, senhora.
A preparação implacável se estendeu por três horas, até que finalmente fui liberado.
— Em seguida, treinamento de etiqueta. Além da ojou-sama, a academia está cheia de herdeiros de fortunas imensas. Falta de educação pode gerar ressentimentos desnecessários, então vamos dominar isso agora. Hoje, etiqueta à mesa no estilo francês.
Até o jantar foi uma aula particular com a Shizune-san. Segurei o garfo e a faca com o indicador ao longo do cabo. Comi o peixe sem despedaçá-lo, tomei a sopa sem fazer barulho e cortei a carne contra as fibras em pedaços pequenos.
— Não, isso está errado. Colocar os talheres às seis horas depois de comer é o estilo britânico. Na etiqueta francesa, ficam às três horas.
— S-Sim.
Posicionei a faca e o garfo de lado, à direita do prato, com a lâmina da faca voltada para dentro.
— Depois do limpador de paladar, é hora do treino de defesa pessoal. Felizmente, seus trabalhos braçais lhe deram uma boa base, então vamos focar mais em técnica do que em resistência. Hoje, jiu-jitsu. Comece com cem rolamentos para frente.
Vestindo um judogi, treinei no dojô da mansão, assim como da outra vez. Depois de praticar quedas, aprendi arremessos básicos e passei para o treino livre.
— Hah—!
— Muito previsível.
Puxei a Shizune-san para frente enquanto varria sua perna, tentando um kouchi-gari. Mas ela leu meu movimento, saiu de lado e me jogou no tatame com facilidade quando perdi o equilíbrio.
— Sua transferência de peso foi óbvia. Isso pode funcionar com amadores, mas é inútil contra alguém com treinamento em artes marciais.
— S-Sim…
Exausto, respondi com uma voz lamentável. O objetivo de aprender defesa pessoal era justamente me preparar para situações como o sequestro que levou ao meu encontro com Hinako. Sequestradores movidos por lucro costumam ser experientes, então habilidades amadoras não seriam suficientes.
— P-Posso fazer uma pausa rápida…?
— Não. Como cuidador da ojou-sama, você deve protegê-la em uma crise. Desistir tão fácil assim não é aceitável.
Ela é um demônio… um diabo espartano e sádico. Os pensamentos rodopiavam na minha cabeça, mas junto vinha o respeito. Shizune-san se destaca em estudos, etiqueta e combate, além de executar com perfeição as tarefas de criada, como cozinhar e lavar roupas. Se Hinako é a herdeira perfeita, Shizune-san é a criada perfeita.
*
— Vamos encerrar por aqui hoje. Bom trabalho.
— M-Muito obrigado…
No fim das contas, o treino de defesa pessoal só terminou duas horas depois do momento em que quase desisti.
— Você está aprendendo mais rápido do que eu esperava.
— Sério?
— Sim. Talvez você tenha talento para defesa pessoal. Com algum refinamento, isso pode se tornar algo impressionante. …Por outro lado, seus modos ainda precisam melhorar bastante.
— Ugh… desculpa.
O estilo de vida da minha família estava longe de ser abastado, para dizer o mínimo. Até hoje não estou acostumado a manusear corretamente faca e garfo.
— Seria problemático se você ficasse andando pela mansão todo suado, então, por favor, vá tomar um banho logo. No entanto, enquanto estiver de molho na banheira, dê uma olhada nisso — disse Shizune me entregando um maço de papéis.
— O que é isso…?
— Perfis dos seus colegas de classe. Não faz mal se familiarizar com eles.
Estudar até durante o banho, é? …Este é um trabalho que paga vinte mil ienes por dia. Não tenho escolha a não ser aceitar.
— Ah, a propósito, encontrei outra pessoa hoje à tarde.
— Quem seria?
— Tennouji Mirei. Ela é de outra turma, mas…
Ao ouvir isso, os olhos de Shizune se arregalam.
— Tennouji-sama falou com você?
— Falou. …Isso é um problema?
— Não, não é um problema. É só que, de acordo com os rumores dentro da academia, Tennouji-sama e a ojou-sama são como óleo e água. É uma relação delicada.
Isso é novidade para mim.
— De qualquer forma, a ojou-sama não nutre esse tipo de sentimento. No entanto, o Grupo Konohana e o Grupo Tennouji são conglomerados empresariais de porte quase equivalente. Como resultado, eles competem com frequência e, dependendo das circunstâncias, a relação entre eles pode se tornar tensa.
— Entendo.
— Vou preparar o perfil da Tennouji-sama até amanhã. Por hoje, concentre-se em memorizar os perfis dos seus colegas.
— Entendido.
As aulas de hoje acabaram, mas Shizune também me mandou estudar por conta própria. Vou tentar memorizar os perfis antes de dormir. Deixando Shizune para trás enquanto ela organizava o dojo. Até gostaria de ajudar, mas estou completamente exausto. Se eu oferecesse ajuda agora, só acabaria atrapalhando.
— Itsuki…
No caminho de volta para o meu quarto, acabo cruzando com Hinako. Ela me encarou por um instante, como se quisesse dizer algo, e então se aproximou, reduzindo a distância entre nós antes mesmo que eu encontrasse as palavras.
— Mmph.
— O que foi?
— Você está cheirando a suor.
— Bom, é claro que estou.
Afastei Hinako com cuidado; ela fez uma careta, exagerada.
— Para onde você vai?
— Voltar para o meu quarto para tomar um banho.
— Banho? …Então venha comigo.
Me puxando pela mão, Hinako me guiou.
*
— Isto é…
— O meu quarto.
Chegamos aos aposentos particulares de Hinako. Eles são pelo menos cinco vezes maiores que o meu quarto. Um grande tapete marrom e uma cama com dossel dominam o ambiente, gritando "quarto de garota rica" em cada detalhe.
— O banho… é por aqui.
Hinako abre uma porta que leva à área de banho.
— Uau… é enorme.
O banheiro é tão extravagante quanto, incomparavelmente maior do que o do meu quarto. É praticamente do tamanho do meu quarto inteiro — parece uma pequena casa de banhos pública.
Mas por que Hinako me trouxe até aqui?
— Vamos tomar banho juntos.
— Por quê?
Por quê?
— Ufa…
Hinako solta um suspiro relaxado enquanto se afunda na banheira. Ela estava usando um maiô branco, estilo biquíni.
— Um biquíni, é?
— Você disse alguma coisa…?
— Não, nada.
Fiquei chocado quando ela sugeriu tomarmos banho juntos, mas ao que parece ela quis dizer com trajes. Pelo visto, Hinako já tinha planejado me chamar desde o início, já que havia um traje preparado para mim no vestiário.
— Bem… com um banho desse tamanho, até entendo por que você gostaria de companhia.
Ficar sozinho numa banheira tão grande provavelmente daria mesmo uma sensação de vazio.
— Mmm… paraíso, paraíso.
Hinako estava se espreguiçando levemente. O movimento é estranhamente sedutor. Seu rosto corado ganhava um tom rosado suave, e gotas de água escorria por seus cabelos cor de âmbar, sedosos.
— Itsuki, o que foi?
Meu campo de visão foi preenchido pelo decote discreto de Hinako, enquanto ela se inclinava para observar meu rosto na banheira. Talvez ela tenha percebido que eu a estava olhando.
— N-Nada… não é nada.
Respondi desviando o olhar, forçando minha atenção para qualquer coisa que não seja a pele clara dela. Calma. Calma. Calma, calma, calma. Estou tentando não pensar nisso, mas a verdade é inegável: Hinako é uma garota linda. Basta um segundo de descuido para que meus impulsos adolescentes ameacem ultrapassar o limite que meu dever como cuidador impõe.
Para mudar o clima, decidi ler a pilha de papéis que havia deixado por perto. Folheio os documentos em silêncio, lacrados em plástico transparente para protegê-los da água.
— O que é isso…?
— Perfis dos colegas de classe. A Shizune me mandou memorizar.
Os papéis detalhavam o perfil de todos da Turma 2-A. Eu já conhecia o Katsuya e a Karen, mas os outros são, como esperado, herdeiros de grandes corporações ou parentes de políticos influentes.
— Falando nisso, você tem amigos próximos entre seus colegas, Hinako?
— Não.
Respondeu Hinako com seu tom monótono de sempre.
— Nenhum? Eu vi você cercada de pessoas na sala.
— Hm… eles não são amigos.
Mais do que conhecidos, mas menos do que amigos, imagino. Só vivi um dia na academia, mas acho que estou começando a entender a situação da Hinako. Para o bem ou para o mal, ela se destaca na Academia Kiou. As pessoas falam com ela na sala, mas, do ponto de vista de um observador externo, parecem mais seguidores do que amigos de verdade.
— Você nunca quis ter amigos, Hinako?
— Hm…
Pela primeira vez, ela hesitou mais do que o habitual, realmente refletindo sobre a pergunta.
— Enquanto eu tiver você, Itsuki, está tudo bem.
As palavras dela carregavam uma confiança profunda. Um leve calor de alegria me percorre ao vê-la se levantar de repente.
Ela se aproximou e ficou bem à minha frente, sentando-se de costas para mim.
— Lava meu cabelo.
— Hã?
Inclinei a cabeça para Hinako, que continuava de costas, mostrando apenas a nuca.
— Lave você mesma.
— A Shizune normalmente faz isso pra mim.
Então não tem a menor intenção de fazer sozinha, hein? Soltei um pequeno suspiro. Isso é tão típico de garota rica mimada.
— Tem algum lugar coçando, ojou-sama?
— Nenhum…
É a primeira vez que lavo o cabelo de uma garota. Com o xampu fazendo espuma, começo a lavar o cabelo da Hinako. Será que é assim mesmo que se faz…?

Aparentemente, Hinako sempre lava o cabelo enquanto fica de molho na banheira. Depois, a água toda é escoada. Não consigo deixar de achar isso um desperdício de água, mas talvez seja só meu lado pobre falando mais alto.
— Mmph.
Enquanto lavava o cabelo dela, Hinako deixou escapar um leve som.
— Está quente… isso é irritante.
Dizendo isso, Hinako levou a mão para trás e desamarrou a parte de cima do biquíni.
— O qu—!?
Travei instantaneamente e desviei o olhar.
— Ei! O que você está fazendo?! Coloca isso de volta!
— Mas está quente… e usar biquíni no banho é estranho de qualquer jeito…
— A parte estranha é um cara e uma garota tomando banho juntos, pra começo de conversa!
Não que essa princesa mimada parecesse perceber isso.
— O biquíni… a Shizune ficou insistindo que eu usasse, então só coloquei porque não tive escolha…
Hinako puxou a parte de baixo do biquíni com uma expressão irritada. O gesto descuidado bagunçou meus pensamentos mais uma vez — e então…
— Espera aí.
Eu tinha acabado de ouvir uma palavra que não podia, de jeito nenhum, ignorar.
— A Shizune sabe? Que a gente está tomando banho junto?
— Uhum.
Hinako assentiu de leve, e então tudo fez sentido. Como eu não tinha notado antes? A porta do banheiro estava aberta uns cinco milímetros. Através daquela fresta minúscula, um olhar cheio de intenção assassina estava cravado em mim.
— H-Hã…!?
Meu corpo inteiro tremeu de medo. Era a Shizune. Há quanto tempo ela estava nos observando? Enquanto eu suava frio sob aquela aura opressiva, a porta se abriu um pouco mais, revelando o rosto de Shizune. Em silêncio, ela fez um gesto para que eu continuasse lavando o cabelo da Hinako.
— Mmm… isso faz cócegas.
— D-Desculpa.
De algum jeito, reprimindo o pânico, continuei lavando o cabelo da Hinako. Peguei o chuveirinho ao lado e enxaguei o xampu.
— Pronto… terminado.
A segunda metade pareceu vivida por um fio. Eu estava na banheira, mas meu corpo inteiro estava encharcado de suor frio.
— Obrigada… vamos transformar isso em rotina.
— Hã?
— Todas as noites… lave o meu cabelo.
Com isso, Hinako se levantou e foi em direção ao vestiário. Espera aí… isso queria dizer que eu teria de aguentar esse terror todas as noites?
Quando Hinako saiu, Shizune se aproximou e tomou o lugar dela. Seus olhos estavam assustadoramente frios.
— Bom trabalho, Itsuki-san.
— B-Bom trabalho… ah, quanto tempo você estava olhando?
— Desde o começo.
— Desde o começo…
Então ela também tinha me visto ficando todo atrapalhado com as palhaçadas da Hinako.
— Preparei uma troca de roupas no vestiário, então use-as quando terminar.
— Ah, sim. Obrigado.
— E mais uma coisa — Shizune colocou um pequeno frasco de remédio ao meu lado.
— O que é isso…?
— É um medicamento que induz deliberadamente uma disfunção erétil causada por remédios, explorando os efeitos colaterais de antidepressivos e anticonvulsivantes. Em termos simples… vai fazer você, bem, ficar incapaz de funcionar.
— Q-Quê!?
Se eu tomasse algo assim, estaria acabado!
Observei a silhueta de Shizune se afastando, estremecendo, enquanto ela deixava o frasco para trás.
*
Era o segundo dia da vida na academia. Nós, alunos, estávamos reunidos no enorme ginásio, já trocados para os uniformes esportivos.
— Hoje, vamos jogar badminton.
Anunciou a professora responsável pela educação física. Mesmo na Academia Kiou, que formava futuros CEOs e políticos, ainda havia aulas de educação física. Era parecido com o meu antigo colégio: duas turmas juntas, separadas por gênero. No momento, os alunos da Turma 2-A e da Turma 2-B estavam reunidos no ginásio.
— Meninas, usem as quadras do lado leste. Meninos, fiquem com o lado oeste.
— Certo, rapazes, vamos andando!
O professor responsável pela educação física dos meninos conduziu os alunos até as quadras. Comparado às aulas teóricas, isso parecia moleza. Fosse uma escola particular de elite ou um colégio público comum, o conteúdo provavelmente era quase o mesmo.
— Tomonari, você tem um físico bem sólido.
— Ah… eu faço musculação de vez em quando.
Conversei descontraidamente com Katsuya enquanto caminhávamos. Na verdade, meu físico vinha de trabalhos braçais. Eu já tinha largado esses bicos, mas o treinamento de autodefesa da Shizune devia me manter em forma. Não precisava me preocupar em ficar sedentário.
— Esse ginásio é enorme.
— Pois é, tem cerca de três mil metros quadrados. Bem grande para um ginásio.
Aquilo parecia menos um ginásio e mais um enorme salão de eventos.
— Depois do aquecimento, comecem a praticar trocas de bola.
Corremos ao redor da quadra, fizemos alguns alongamentos leves e, então, o treino de badminton começou. Aparentemente, eles já tinham tido algumas aulas antes. A prática logo passou para algo próximo de uma partida de verdade, e eu e Katsuya, aguardando nossa vez, fomos para a lateral da quadra.
— Ufa.
Graças à Shizune, meu corpo ainda estava em ótima forma. Aula de educação física? Dava pra encarar. Ainda bem. A vida na academia era puxada em muitos aspectos, mas pelo menos eu podia encarar a educação física sem ansiedade.
— Ei, Tomonari-kun! — Uma voz me chamou por trás. Virei-me e vi Karen, que parecia estar esperando sua vez e matando o tempo.
— Eu estava olhando — você manda bem!
— Não sou ruim em esportes. Você também parece bem atlética, Karen.
— Ah, percebeu? Como você disse, eu levo jeito pra essas coisas.
Karen falou com um sorriso orgulhoso, e Katsuya entrou na conversa.
— A Karen também é ótima na patinação.
— Tenho um bom senso de equilíbrio. E você, Katsuya-kun? Golfe, né?
— Isso mesmo, golfe é a minha praia. Meu velho me arrasta pro campo desde que eu era criança.
Katsuya riu.
Ouvindo aquela conversa… senti um arrepio percorrer minha espinha.
— E-Espera… isso quer dizer que essa academia também ensina patinação e golfe?
— Aham. No segundo ano, a gente também faz polo.
— P-Polo…?
— É um esporte a cavalo. Você monta no cavalo e acerta uma bola com um taco.
Montar… a cavalo? Eu nunca nem tinha chegado perto de um. Como eu era ingênuo. Achei que conseguiria acompanhar a educação física, mas nunca joguei golfe, nunca patinei e muito menos pratiquei polo. Pelo visto, eu não conseguiria escapar das lições da Shizune, afinal. Soltei um suspiro e olhei para a quadra. Ainda faltava um pouco para chegar a nossa vez.
— Aliás, os uniformes esportivos da Academia Kiou são bem estilosos, né?
— Ah, esses? Ouvi dizer que foram desenhados por um ex-aluno — disse Karen, puxando a gola do uniforme.
— Sério?
— Aham. Essa pessoa hoje é aprendiz de um estilista mundialmente famoso, então esses uniformes podem valer uma boa grana em breve.
Uau, que mundo maluco. Eu só queria fugir da realidade. A Academia Kiou estava tão acima do meu nível que nem chegava a ser engraçado.
— Olha, é a Konohana-san.
O olhar de Karen se voltou para o centro da quadra. Lá estava Hinako, empunhando uma raquete. Ela rebateu um shuttlecock lançado em lob com precisão cirúrgica, fazendo-o cair no canto da quadra adversária e garantindo uma vitória limpa.
— A Konohana-san não é só um gênio — ela também manda muito bem nos esportes.
— Totalmente. Ela é tipo a garota dos sonhos definitiva pra gente.
Não eram só Katsuya e Karen — outros alunos também observavam Hinako com admiração nos olhos. Eu tinha ouvido dizer que ela era completa, tanto em inteligência quanto em força física, e suas habilidades realmente faziam jus à fama.
— Dito isso, quando o assunto é educação física, não é só a Konohana-san que se destaca…
Katsuya desviou o olhar de Hinako e lançou um olhar para outra aluna.
— É… a Miyakojima-san também é incrível.
Karen assentiu, focando na mesma garota. Os olhares deles pousaram sobre uma aluna de cabelos negros longos, presos para trás e descendo até as coxas. Comparada à Hinako, ela era mais esguia e alta para uma garota. Seus traços eram tão marcantes quanto, pendendo mais para uma beleza fria do que fofa. A garota se movia com passos leves, cravando o volante na quadra adversária com força.
— Você provavelmente não conhece ela, Tomonari-kun. Aquela é a Miyakojima Narika. Ela não é tão famosa quanto a Konohana-san, mas é bem conhecida por aqui.
— Ela é famosa?
— Como dá pra ver, ela é um verdadeiro coringa nos esportes. As notas dela em educação física podem até ser mais altas que as da Konohana-san. E, bom… ela também é uma das maiores "belezas frias" da academia.
— Beleza fria, hein…
Ela realmente tinha um ar refinado e distante.
— Mas a maior característica dela… provavelmente é aquela.
Karen murmurou em voz baixa. Quando o treino terminou, a garota saiu da quadra. Duas alunas que estavam assistindo se aproximaram dela.
— E-Ei, Miyakojima-san! Você foi incrível lá!
— Você é, tipo, muito boa mesmo!
As duas meninas se atrapalharam ao tentar elogiá-la. Mas a garota lançou a elas um olhar afiado como uma lâmina.
— O quê?
— Ai!? D-Desculpa!
— N-Não é nada, esquece!
Intimidadas pelo tom baixo e ameaçador, as duas ficaram pálidas e saíram correndo. Karen suspirou, observando a cena.
— Odeio dizer isso, mas… a Miyakojima-san pode ser meio assustadora. Ela normalmente é bem quieta, e o rosto dela está sempre tão sério.
— É, já ouvi vários boatos também. Tipo que ela faz parte de uma gangue de motoqueiros ou que a família dela é da yakuza — Katsuya completou, com um ar cansado. — São apenas rumores, então não dá pra levar a sério… mas, de qualquer forma, ela tem uma espécie de muralha ao redor dela. Eu já criei coragem pra falar com ela algumas vezes, mas ela sempre me dispensou com um "tenho coisas pra fazer".
— Entendo.
A Academia Kiou era um lugar reservado apenas aos melhores. Casos de bullying ou discriminação eram raros ali. Ainda assim, parecia que alguns alunos acabavam isolados desse jeito.
— Tomonari, daqui a pouco é a nossa vez.
Com o aviso de Katsuya, fui em direção à quadra.
*
A aula de educação física terminou sem maiores problemas. Depois de trocar de volta para o uniforme no vestiário, eu seguia para a sala de aula. Procurei Hinako por precaução, mas ela estava andando com um grupo de garotas. A imagem pública dela como a ojou-sama perfeita realmente jogava a seu favor. Nos intervalos curtos entre as aulas, sempre havia alguém ao seu redor, então eu provavelmente não precisava me preocupar.
— Ah.
— O que foi, Tomonari?
— Foi mal, esqueci meus sapatos no vestiário. Vou lá buscar.
Separei-me de Katsuya e voltei para o vestiário. Fiquei tão ocupado pensando na Hinako que acabei esquecendo das minhas próprias coisas.
— Aqui estão.
Abri a porta do vestiário e vi meus tênis sobre uma mesa. A próxima aula já ia começar. Saí apressado do vestiário—!?
— Ei!?
E quase trombei com uma aluna na porta. Nossos olhares se cruzaram, ambos assustados.
— Você está bem?
— Sim. Eu sinto—
Enquanto me desculpava, olhei para o rosto da garota — e congelei. Miyakojima Narika. A garota de quem tínhamos acabado de falar durante a aula estava bem ali.
— B-Bom, eu já vou indo…
Tentando agir normalmente, virei-me para sair. Eu já estava prestes a voltar para a sala quando ela agarrou minha manga, me impedindo.
— Ei.
A voz dela ecoou.
— Você… você não é… o Itsuki, é?
Um arrepio percorreu minha espinha. Hesitante, abri a boca.
— PESSOA ERRADA.
— Não… não, não, não! É o Itsuki! Você é o Itsuki! Não tem como errar!
O rosto dela se iluminou, a voz cheia de empolgação. Ela me encarava com os olhos brilhando.
— Uwa, uwaa… Itsuki…!!
Com lágrimas se formando nos olhos, ela abriu os braços e deu um passo à frente.
— Eu senti tanta, tanta saudade de você—!! Itsuki—!!
— Ugh!?
Ela se atirou em mim com força total, me envolvendo em um abraço.
Vamos voltar um pouco no tempo e falar sobre o passado.
*
Há muito tempo, fiquei hospedado por um curto período com a família Miyakojima. A casa dos Tomonari sempre esteve à beira da ruína financeira, mas meus pais só tentaram se divorciar uma única vez. Ao que parecia, pessoas problemáticas encontravam conforto umas nas outras e, apesar de suas vidas caóticas, eles se davam bem o suficiente.
Mas, quando eu tinha dez anos, um verdadeiro drama de divórcio explodiu. Alguma coisa serviu de estopim, e meus pais começaram a jogar a culpa da nossa pobreza um no outro. Para a família Tomonari, essa briga foi incomumente intensa e acabou escalando a ponto de minha mãe decidir fugir de casa. E, por algum motivo, ela me arrastou junto.
Só que, mesmo tendo saído de casa, minha mãe já havia sido deserdada pela própria família, então não tinha para onde ir. Em vez de recorrer à casa dos pais, ela procurou a casa de um parente.
Essa casa era — a família Miyakojima. Descobri isso mais tarde, mas, ao que parece, a mãe da minha mãe era filha da família Miyakojima. Assim como minha mãe, porém, minha avó levou uma vida irresponsável, nunca chegou a ser herdeira e acabou sendo deserdada.
Mesmo assim, minha mãe se agarrou à lógica absurda de "Quem foi deserdada foi a minha mãe, não eu!!" e decidiu, à força, se aproveitar da família Miyakojima. Surpreendentemente, esse plano deu certo. E assim, aos dez anos de idade, fui levado de repente para uma mansão japonesa tradicional, luxuosa, como nunca tinha visto antes, sendo recebido como hóspede da família Miyakojima.
Exceto que éramos hóspedes totalmente indesejados. A família Miyakojima via claramente minha mãe como um incômodo, e eu, seu filho, não era diferente. Ainda me lembrava dos olhares frios que recebi naquela época.
No segundo dia em que ficamos de favor na casa dos Miyakojima, conheci Miyakojima Narika.
— Q-Quem é você!?
A garota brandia uma espada de bambu no dojô. Eu estava curioso e cheguei perto demais, só para ser repreendido.
— Ah, eu sou Tomonari Itsuki. Estou ficando aqui desde ontem.
Eu não entendia nada de etiqueta, mas tentei ser o mais educado possível. Mesmo assim, a garota estreitou os olhos.
— Escuta bem, Itsuki! Eu odeio gente fraca!!
— Tá bom.
— Ouvi falar de você pelas empregadas! Você e sua mãe são uns aproveitadores que não fazem nada, só comem de graça, né!?
— É.
Eu não esperava ser confrontado daquele jeito por uma garota da minha idade. Doeu, mas era verdade.
— Então, vou te dar um trabalho! A partir de agora, você vai cuidar de mim!!
— Hã?
Inclinei a cabeça diante da garota, que se colocava com o peito estufado, cheia de orgulho. Eu não fazia ideia do que significava "cuidar dela", mas, como alguém vivendo de favor, não tinha escolha a não ser aceitar qualquer trabalho que me dessem.
A partir daí, enquanto fiquei na casa dos Miyakojima, eu estava quase sempre ao lado dela. Ela me chamava — mais de dez vezes por dia.
— Aaaah!? Itsuki! Tem um inseto no meu quarto!!
— Tá bom, tá bom, eu cuido disso.
Expulsei facilmente a coisa preta e brilhante do quarto dela.
— Aaaah!? Itsuki! O papai ficou bravo comigo!!
— Calma, calma… isso deve ter sido difícil.
Acariciei a cabeça da garota, que chorava, tentando acalmá-la. O pai dela me lançava um olhar mortal, então, para ser sincero, quem queria chorar era eu.
— Itsuki… você é mais forte do que eu, né?
— Sou?
— É. Quer dizer, diferente de mim, você não chora quando vê insetos, e fica bem mesmo quando adultos gritam com você.
Alguns dias eram caóticos, mas outros eram mais tranquilos, e nesses ela acabava se abrindo sobre suas inseguranças. Olhando agora, acho que ela só precisava de alguém para conversar. Como a única filha da família Miyakojima, não tinha ninguém com quem pudesse se mostrar vulnerável.
Ela era forte, mas essa força era física, não emocional. Por exemplo, suas habilidades no kendô, aos dez anos, eram boas o suficiente para rivalizar com adultos. Mas o coração dela… era infantil, até mesmo para a idade.
— Ei, Itsuki. Como filha da família Miyakojima… eu quero ser forte — ela falou comigo com uma expressão pesada, sombria. — Mas eu não tenho coragem.
— Coragem, é?
— É. Eu já tenho dez anos, mas… não consigo nem sair sozinha.
Aparentemente, por ser a filha da família Miyakojima, ela foi criada em uma bolha superprotetora. Desde pequena, ensinaram a ela que "qualquer lugar fora de casa é perigoso", e assim ela acabou desenvolvendo medo do mundo exterior. Mas, recentemente, indo para a escola de carro, viu uma colega caminhando sozinha até lá e sentiu inveja.
— Então, que tal a gente tentar sair juntos?
— Hã?
— Só um pouquinho. Acho que vai dar tudo certo.
Crescendo em uma casa comum, o mundo exterior sempre foi algo natural para mim. Pensando nisso, segurei a mão dela — e saímos correndo da mansão.
— Isso é incrível!
Ela estava radiante. Era a primeira vez que saía sem um adulto, apenas com outra criança.
— Incrível! Incrível, incrível, incrível! Eu tô — livre!!
Numa rua comum, ela abriu os braços e riu, como se estivesse passeando em um campo de flores.
— Ei, Itsuki! O que é aquilo!?
— Uma lojinha de doces. Quer dar uma olhada?
— Quero!
Eu tinha um pouco de trocado, então paguei alguns doces baratos para ela. Sinceramente, ficar naquela mansão cercado pelos olhares frios das empregadas me deixava desconfortável, então eu também me sentia mais leve e relaxado do lado de fora.
— Itsuki, o que é isso!?
— É um Umaibo.
— É gostoso!
— Bom… o nome é Umaibo, né.
Ela mordiscava o salgadinho em forma de palito com os olhos arregalados de curiosidade.
Nosso joguinho de sair escondidos continuou por mais alguns dias. Como ela levaria bronca se o pai descobrisse, escapávamos da mansão sem que as empregadas percebessem e ficávamos fora apenas o tempo suficiente para não levantar suspeitas.
Mas — eventualmente, nosso jogo foi descoberto. O pai dela me deu uma bronca daquelas.
— E se algo tivesse acontecido com a Narika?! Mesmo sendo só uma criança, eu não vou perdoar ninguém que leve minha filha por um caminho errado!! Saia daqui!!
Na época, eu não entendia, mas aparentemente eu não deveria ter levado a filha da família Miyakojima para fora com tanta naturalidade. Como punição por colocá-la em perigo, minha mãe e eu fomos expulsos. Provavelmente, eles já estavam planejando nos mandar embora de qualquer jeito. As empregadas arrumaram nossas coisas com eficiência, e fomos rapidamente postos para fora da mansão.
— Itsuki!!
Enquanto saíamos, Narika gritou meu nome, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu vou ficar mais forte, com certeza!!
Essas foram as últimas palavras que ouvi dela. Aquela garota era a mesma Miyakojima Narika que agora estava diante de mim. Em outras palavras, Narika e eu — éramos primos de segundo grau.
*
— Itsuki! Itsuki, Itsuki, Itsuki!! Eu senti tanta saudade!!
— Calma, calma.
Acariciei a cabeça de Narika enquanto ela se agarrava a mim, lançando olhares discretos ao redor. Por sorte, o corredor estava vazio. Se alguém visse aquilo, eu estaria acabado. Me envolver em um escândalo por "conduta imprópria" logo no segundo dia como aluno transferido? Nem pensar.
— Narika, se acalma um pouco. E se alguém nos ver assim?
— Ugh, ugh… a-as minhas pernas falharam…
— Hã?
— Eu tô tão feliz que minhas pernas falharam…!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Narika desabou no chão. Ela… não tinha ficado nem um pouco mais forte, tinha?

Como as pernas da Narika falharam numa situação de emergência daquelas, eu a carreguei rapidamente até a enfermaria.
— A enfermeira… não está aqui?
Talvez tivesse sido chamada para algum outro lugar. Peguei uma das camas emprestada e coloquei Narika sentada sobre ela. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, então comecei a voltar para a sala de aula…
— Ugh, espera… não me deixa…!
— Tá bom, tá bom.
O pedido dela, com os olhos marejados, mexeu comigo, então acabei faltando à aula para ficar com ela. Esfreguei a testa. Ainda bem que era horário de aula, então a Hinako devia estar na sala. Ela era perfeitamente capaz de manter a fachada da ojou-sama impecável quando estava lá, então eu não precisava me preocupar com ela por enquanto.
— Itsuki. O que aconteceu com você depois que foi expulso da minha casa?
Narika, sentada na cama, perguntou, e eu respondi:
— Meus pais fizeram as pazes, e no fim deu tudo certo.
— Que bom… mas você podia pelo menos ter entrado em contato. Eu fiquei tão preocupada com o que tinha acontecido com você.
— Desculpa por isso. Mas eu nem sabia como entrar em contato com a sua família.
— É verdade.
Mesmo que eu tivesse como entrar em contato, falar com a Narika teria sido difícil. Eu e minha mãe não éramos bem-vindos na casa dos Miyakojima, então provavelmente nem deixariam a gente passar da porta.
— Já que estamos falando disso… me desculpa pelo que aconteceu naquela época. Eu fui imprudente ao te levar pra fora daquele jeito…
— Do que você tá se desculpando!?
Narika disse, quase em pânico.
— Eu sou grata a você, Itsuki! Se eu não tivesse saído com você naquela época… eu provavelmente ainda seria uma covarde hoje.
Ouvir isso me dá uma certa sensação de recompensa.
— Então você não se sente mais uma covarde agora, né?
— Ugh… b-bem, quer dizer… ainda estou meio que em treinamento, por assim dizer…
Narika hesitou, deixando as palavras morrerem de forma estranha. Não consegui conter uma risadinha. Se ela tivesse se tornado a mulher forte que disse que seria, provavelmente não teria desabado e acabado sendo carregada até a enfermaria desse jeito.
— Bom, o pai da Narika parecia um cara bem rígido. Aposto que ele não te dava muita liberdade, né?
— Não, eu derrotei meu pai.
— Derrotou?
— Sim. Kendô, judô, aikidô, caratê — todas as artes marciais que você puder imaginar, eu venci ele em todas. Essa foi a condição para escapar da vigilância da família Miyakojima. …Graças a isso, hoje em dia posso viver praticamente livre.
— E-Entendo.
Como sempre, ela é uma garota absurdamente forte — pelo menos fisicamente.
— Mas… mesmo podendo sair, é solitário quando não tem ninguém ao meu lado.
A energia de Narika se esvaiu num instante, e ela murmurou, olhando para baixo.
— Pensando bem, Narika, parece que você é muito mal interpretada nessa academia, né?
Lembrei do que o Taishou e a Asahi-san tinham dito. Chamavam ela de delinquente ou de yakuza, mas não tem como isso ser verdade.
— É… é tudo um mal-entendido.
— Como isso acabou acontecendo?
Quando perguntei, Narika soltou um longo suspiro.
— O lema da família Miyakojima é: "Mens sana in corpore sano". Por causa disso, desde pequena eu fui treinada em praticamente todas as artes marciais que existem. NOTA
— Quando a gente se conheceu, você estava praticando kendô, né?
— É. A família Miyakojima é, de certa forma, um clã de lutadores.
Um clã de lutadores… que linhagem peculiar. Mas, depois de ter ficado na casa deles, sei que não é exagero. A propriedade dos Miyakojima não só tinha um dojô particular dentro da mansão, como também administrava outro dojô ao lado. Naquela época, eu ouvia com frequência os gritos dos discípulos, então lembro bem disso.
— Talvez por causa do histórico da minha família, as pessoas acabam achando que somos perigosos. E, além disso — e só estou te contando isso porque é você, Itsuki… — eu sou péssima em fazer amigos. Quando fico diante das pessoas, fico tão nervosa que meu rosto endurece. Aí elas acham que eu sou assustadora.
O rosto da Narika pende mais para o bonito, com olhos afiados e marcantes como seu traço principal. Quando ela fica nervosa e a expressão se fecha, realmente parece que está encarando alguém com hostilidade.
— Bom… você sempre foi assim, não foi? Age toda valente, mas quando a gente realmente convivia, você chorava fácil e ficava acanhada com tudo…
— V-Você pensava isso de mim…? Isso machuca um pouco, sabia.
— Mas é verdade, não é?
— Ugh… é.
Narika suspirou mais uma vez.
— No começo, eu queria fazer amigos e curtir a vida escolar. Mas fico nervosa demais pra conseguir conversar direito, e só de tentar fazer contato visual já acham que eu estou encarando… A-Antes que eu percebesse, começaram a me chamar de delinquente, de yakuza, falando todo tipo de coisa horrível… Uuuugh…!!
Que situação cruel. É como se o azar só fosse se acumulando.
— O que eu faço agora…?! Anda, Itsuki, por favor, me ajuda…!!
Lágrimas começaram a se formar nos olhos da Narika enquanto ela implorava. Depois de ouvir a história dela, ela parece uma garota tão digna de pena. Se eu pudesse ajudá-la, gostaria de fazê-lo… mas, nesse instante, senti meu bolso vibrar.
— D-Desculpa, preciso sair um instante.
Saí da enfermaria e peguei o celular. Como esperado, era Shizune-san.
— Itsuki-sama, onde o senhor se encontra neste momento?
— Desculpa, uma aluna passou mal, então eu a levei para a enfermaria.
— Entendo. Os dados de localização do senhor estavam diferentes dos da Ojou-sama durante a aula, então eu estava me perguntando o que havia acontecido, mas, sendo esse o caso, vou deixar passar.
— Obrigado.
— Por favor, retorne à sala o quanto antes. Ajudar os outros é louvável, mas não se esqueça de suas obrigações como cuidador.
Eu estava me preparando para levar uma bronca, então aquela troca de palavras foi estranhamente anticlimática. Espera… ela sabe exatamente onde eu estou? Por enquanto, devo me apressar e voltar para a sala, como ela disse. Mas antes disso, vou checar a Narika mais uma vez.
Quando abri a porta da enfermaria, Narika se virou para me olhar.
— Ei, Itsuki.
— O que foi?
— Pensando bem, por que você está nessa academia?
…E agora, como é que eu escapo dessa?
Minha história oficial é que eu sou o "herdeiro de uma empresa de médio porte", e que minha ligação com a Hinako é só "um leve conhecido por causa dos nossos pais". Mas essa mentira não vai funcionar com a Narika. Ela conhece o meu verdadeiro passado.
Como cuidador, preciso proteger a imagem pública da Hinako como a "ojou-sama perfeita" a qualquer custo. …Tenho que responder com cuidado.
— Eu te contei antes que minha mãe era viciada em jogos de azar, né?
— Sim. Ouvi dizer que era bem grave.
Narika assentiu, solidária.
— Ela deu um golpe de sorte no jogo e ganhou uma grana enorme. Foi assim que eu consegui pagar a Academia Kiou.
Não é uma mentira ruim pra algo inventado na hora, pensei, sentindo-me um pouco satisfeito.
— Isso é mentira.
Narika estreitou os olhos.
— A Academia Kiou não é um lugar onde você simplesmente entra pagando. Eles fazem uma investigação minuciosa do histórico dos candidatos. Dinheiro vindo de jogo não seria considerado legítimo.
Então é assim…?
Como foi que a família Konohana conseguiu me matricular aqui? Talvez exista algum caminho alternativo que só gente poderosa consegue usar.
— Itsuki… por que você está mentindo? Tem algo que você não pode me contar…?
Com minha mentira exposta, ela agora me encarava com clara desconfiança. Enquanto um suor frio escorria por mim, meu celular voltou a vibrar no bolso. Provavelmente era a Shizune-san. Receber outra ligação tão pouco tempo depois da última devia significar algo urgente.
— D-Desculpa… recebi outra ligação…
Comecei a sair com um pedido rápido de desculpas, mas—
— E-Espera!
Narika segurou meu braço.
— V-Você… não vai desaparecer de novo, vai…?
A voz dela tremia enquanto perguntava. Ao ver a expressão triste no rosto dela, senti uma pontada de culpa. É verdade. Eu tinha deixado a Narika ansiosa. Seis anos atrás, eu tinha sumido da vida dela sem aviso. No começo, pensei muito naquele dia, mas, com o passar do tempo, a lembrança foi se apagando, e eu parei de pensar nisso.
Mas a Narika era diferente. Até me conhecer, ela nunca tinha tido a chance de sair e brincar com crianças da idade dela. Diferente de mim, ela carregou aquele dia — e aquela ansiedade — durante todo esse tempo.
— Está tudo bem. A gente vai se ver de novo.
— De verdade…?
— De verdade.
Nos reencontrarmos aqui foi inesperado, mas eu fiquei genuinamente feliz por isso. Só porque eu sou o cuidador da Hinako não significa que eu precise afastar a Narika.
— Então… é… faz um cafuné na minha cabeça…
— Hã?
— Naquela época! Você fazia isso o tempo todo! Tipo quando meu pai brigava comigo…
Pensando bem, eu realmente fazia cafuné na cabeça da Narika com frequência naquela época. Meu celular continuava vibrando insistentemente. Melhor fazer isso rápido.
— Tá bom, tá bom.
Enquanto eu acariciava a cabeça dela, o rosto da Narika se suavizou em um sorriso bobo.
— Ahh… isso realmente me faz sentir segura.
— Uma aluna do segundo ano do ensino médio se sentir segura com um cafuné é meio estranho, sabia?
— E-Eu sei! É só que… isso é uma lembrança preciosa pra mim. …Pra falar a verdade, eu achei que nunca mais fosse te ver.
As palavras dela, como sempre, eram diretas e sinceras. Sentindo um pouco de vergonha, continuei fazendo cafuné em sua cabeça.
— Desculpa por antes. Por ter sumido daquele jeito.
— Agora a gente se reencontrou. Está tudo bem.
Narika sorriu, completamente relaxada. Foi então que a porta da enfermaria se abriu de repente.
— O que vocês estão fazendo?
Ao ouvir aquela voz, parei imediatamente de acariciar a cabeça da Narika. Hinako apareceu do outro lado da porta.
— Hina—
— Ko, Konohana-san!?
A voz da Narika abafou meu deslize, ecoando pela sala.
— P-Por que a Konohana-san está aqui…?
— Eu estava me sentindo um pouco mal, então saí da aula mais cedo.
Hinako respondeu com calma, encarnando perfeitamente a ojou-sama impecável. Ao mesmo tempo, meu celular parou de vibrar. Droga. Era isso que a Shizune-san estava tentando me avisar?
— Por que você e a Miyakojima-san estão aqui, Tomonari-kun? — Hinako perguntou.
Ao lançar um olhar para a Narika, vi que o rosto dela tinha se enrijecido de tensão. …É exatamente por isso que as pessoas têm medo dela. Para quem vê de fora, parece que a Narika está lançando um olhar mortal para a Hinako. Mas a Hinako não parecia nem um pouco abalada.
Eu precisava responder.
— Ah… bem, eu vi a Narika desmaiar no corredor, então a trouxe para a enfermaria.
— Entendo. …A Miyakojima-san bateu a cabeça?
— A cabeça? Não, não foi isso…
— É mesmo? Pensei que talvez tivesse sido, já que você estava fazendo cafuné na cabeça dela.
O tom dela continuava calmo como sempre, mas eu poderia jurar que, por um breve instante, o olhar dela escureceu. Ela viu aquilo, não viu…?
— K-Konohana-san, escuta! O Itsuki e eu nos conhecemos desde muito tempo atrás!
Narika falou, com a voz tensa de nervosismo.
— Desde muito tempo…?
— Sim! Quando a gente tinha dez anos, o Itsuki ficou na minha casa…
— Ficou?
A Hinako acabou de franzir a testa por um instante? Narika parecia não notar e assentiu com força.
— Isso! Naquela época, o Itsuki cuidava de mim!
— Cuidava de você?
A testa da Hinako se franziu diante da explicação da Narika. Não era exatamente "cuidar"; eu era mais um companheiro de brincadeiras, mas…
— O Itsuki cuidou de mim quando eu era pequena. Ele é praticamente meu benfeitor. Por isso eu fiquei tão feliz de reencontrá-lo.
— Entendo.
Hinako assentiu, embora por um breve momento sua expressão parecesse conflituosa.
— Ei, Itsuki. Que tal você ir lá em casa algum dia? Só pra passar o tempo, ou… s-se você não se importar, talvez a gente possa ser como antes…
Narika se virou para mim. Mas, como cuidador da Hinako, isso não é algo que eu possa fazer.
— Narika, isso—
— Isso não será possível, Miyakojima-san — Hinako me interrompeu antes que eu pudesse recusar. — O Tomonari-kun trabalha na minha casa agora.
— Hã?
Enquanto a Narika soltava um som estranho, eu encarei a Hinako, chocado.
— Hina—Konohana-san, isso é um pouco—
— O que foi, Tomonari-kun? É a verdade, não é?
É verdade, sim… mas isso não deveria ser segredo?
Felizmente, dizer que eu trabalho para a família Konohana não revela a verdadeira natureza da Hinako. Mesmo assim, eu preferia manter nossa relação em sigilo. Se a Narika espalhar isso por aí, eu e a Hinako viraríamos assunto na academia inteira. Isso tornaria meu trabalho como cuidador muito mais difícil.
— O-O-O que isso quer dizer, Itsuki!? Você trabalha na casa da Konohana-san!?
— B-Bem, é que…
Olhei para a Hinako, completamente desnorteado. Mesmo que eu negasse agora, não adiantaria de nada se a Hinako confirmasse.
— É, é isso mesmo. Na maior parte do tempo… cuidando das coisas dela.
Os olhos de Narika se arregalaram ao ouvir minha resposta.
— Isso não é justo.
Ela lançou um olhar cheio de ressentimento para Hinako.
— Isso não é justo! V-Você… quer dizer…! O Itsuki era meu originalmente…!!
— Não sei sobre o passado, mas o local de trabalho do Tomonari-kun agora é a minha casa.
Hinako disse isso com um sorriso radiante.
— Tomonari-kun, a Miyakojima-san parece bem agora. Não deveríamos voltar para a sala de aula?
— S-Sim… você tem razão.
Tenho quase certeza de que meu rosto estava tremendo sem parar naquele momento. Hinako lançou um último olhar para Narika e fez uma reverência.
— Eu também já estou melhor, então vou me retirar.
Com um sorriso gentil, típico de uma ojou-sama, Hinako fechou a porta da enfermaria. Do outro lado, ouvi o gemido da Narika:
— Uuuugh…!!
Desculpa, Narika. Agora, eu sou o cuidador da Hinako. Não posso simplesmente ir contra ela. Além disso… há algo que eu quero conversar com a Hinako, só nós dois.
— Você veio à enfermaria por minha causa?
— Mm. …Eu me perderia se viesse sozinha, então disse que não estava me sentindo bem e pedi que alguém me acompanhasse até parte do caminho.
Hinako assentiu, deixando cair a fachada perfeita de ojou-sama.
— Desculpa por isso. Eu sou seu cuidador, mas não estava ao seu lado. …Mas o que foi aquilo antes? A Shizune-san disse que deveríamos manter nossa relação em segredo, não foi?
Sinceramente, eu não achava que a Narika sairia espalhando boatos por diversão, mas sempre existe essa possibilidade. Caminhando ao meu lado, Hinako respondeu em voz baixa:
— Eu só pensei.
— Hã?
— Pensei que… talvez fosse melhor deixar as coisas claras…
Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer. Ou será que…? Ela ficou com ciúmes? …Não, impossível. Relembrei tudo o que vivi com a Hinako até agora. Ela não parece o tipo de pessoa que teria esse nível de profundidade emocional.
— Itsuki.
Hinako me olhou, inclinando levemente a cabeça.
— De quem você é cuidador?
— Isso é óbvio. Seu, Hinako.
— Mm. …Então está tudo bem.
Ela parou de andar, abriu um sorriso satisfeito e me encarou.
— Vamos… levar uma bronca da Shizune juntos, tudo bem?
— É.
Assenti, soltando um suspiro profundo. A essa altura, a bronca era inevitável.
E se eu for demitido…?
— Eu não vou te demitir.
*
Depois da aula, no dia em que me reencontrei com a Narika. Enquanto explicava a situação para a Shizune-san no carro, a caminho da mansão, ela disse isso.
— Pelo que ouvi, não foi apenas culpa sua, Itsuki-san. A ojou-sama também causou problemas. Na verdade, se ela não tivesse dito nada desnecessário, talvez você tivesse conseguido contornar a situação.
— Mas tudo começou porque eu me envolvi com a Narika.
— A Miyakojima-sama desmaiou no corredor, não foi? Nesse caso, é natural que você se envolvesse.
Agradeci silenciosamente à Shizune-san. Ela é rígida, mas justa. Não é fria a ponto de proibir até pequenos atos de bondade só porque sou um cuidador.
— Eu achava que entendia a relação entre o Itsuki-san e a família Miyakojima, mas parece que minha investigação foi insuficiente.
— Você sabia disso?
— Eu sabia que vocês dois eram primos de segundo grau, mas não sabia que eram próximos. …Muito provavelmente, a própria família Miyakojima suprimiu essa informação. Como as famílias Tomonari e Miyakojima são afastadas, deve ter sido para evitar suspeitas desnecessárias.
Antes, a Kagen-san já havia feito comentários que sugeriam conhecer a relação entre as famílias Tomonari e Miyakojima. Ela deve ter percebido a conexão naquela ocasião.
— Portanto, neste caso, eu também carrego parte da responsabilidade. …Dado como as coisas se desenrolaram, o melhor seria explicar a situação para a Miyakojima-sama até certo ponto. Primeiro, explique detalhadamente que você trabalha na casa Konohana e, depois, tente negociar o silêncio dela.
— Entendido. Quanto a manter segredo… acho que não haverá problema, mas vou avisá-la por precaução.
Pelo jeito da Narika, ela provavelmente não sairia espalhando boatos. Além disso… ela nem parece ter amigos com quem fofocar.
— Como empregados não podem frequentar a Academia Kiou, o status oficial do Itsuki-san continuará sendo o de herdeiro de uma empresa de médio porte. Além disso, diremos que você trabalha na casa Konohana como parte de um treinamento… Fico aliviada que a verdadeira natureza da ojou-sama não tenha sido revelada, mas, sinceramente, eu teria preferido que ninguém soubesse que você trabalha lá. Isso pode se tornar um obstáculo quando a ojou-sama começar a procurar um pretendente para casamento.
— Um obstáculo?
— Afinal, um colega de classe do sexo masculino vive e trabalha na mesma casa. Isso não causaria uma boa impressão nos possíveis pretendentes.
— Entendo.
Então é para proteger a imagem dela como uma ojou-sama adequada.
— A Academia Kiou também funciona como um campo social. Por favor, continue sendo cauteloso ao construir relacionamentos.
Diante das palavras da Shizune-san, assenti e respondi:
— Sim.
— Hum, Shizune-san. Tem mais uma coisa que eu gostaria de perguntar…
— O que seria?
— É que… seria possível eu sair para me divertir com meus colegas de classe?
— Sair…?
A Shizune-san estreitou os olhos de forma afiada.
— Não é que eu só esteja brincando por aí. É que um colega de classe me convidou para sair outro dia… fico sem jeito de continuar recusando, e se eu nunca me juntar a eles, talvez as pessoas comecem a achar que eu sou antissocial…
— Esse é um ponto válido.
Parecendo convencida, a Shizune-san pondera por um momento.
— Tudo bem. Se você me avisar a data com antecedência, eu darei apoio.
— Obrigado.
Não pretendo negligenciar minhas responsabilidades, mas provavelmente é melhor socializar um pouco para não chamar atenção pelos motivos errados.
— Não sou a pessoa mais indicada para dizer isso, mas tanto você quanto a ojou-sama deveriam refletir sobre o que aconteceu desta vez.
Assenti às palavras da Shizune-san. No entanto… a Hinako, sentada ao meu lado, não reagiu em nada.
— Ojou-sama, você está dormindo?
Shizune-san se virou para o banco de trás, e eu dei um sorriso sem jeito.
— Ela não está dormindo… mas está grudada em mim como um coala.
Hinako estava segurando firmemente meu braço direito, puxando-o para perto do peito. Ela está assim desde que entramos no carro.
— Me faça carinho — Hinako enterrou o rosto no meu braço e sussurrou baixinho. — Faz carinho na minha cabeça…
— Tá bom, tá bom.
Atendendo ao pedido, fiz carinho na cabeça de Hinako. Shizune-san soltou um suspiro voltando a olhar para frente.
*
Depois de voltar à mansão, tive mais uma aula com a Shizune-san, dei banho na Hinako e, por fim, terminei minhas tarefas do dia. Secando meu cabelo ainda um pouco úmido com uma toalha, voltei para o meu quarto.
Abrindo a porta, Hinako — que vinha me seguindo — se jogou na minha cama.
— Deitar logo depois do banho… felicidade pura.
— Eu entendo o sentimento, mas ainda assim…
Por que você está dormindo no meu quarto?
— Se você dormir aqui, vou ter que te acordar num horário estranho.
— Mmmm…
E fui ignorado.
— Ela realmente dorme demais.
Ela também cochilou no caminho de volta, e se dormir até de manhã, isso dá mais de doze horas de sono. Se fosse só de vez em quando, tudo bem, mas a Hinako dorme assim todos os dias. Cubria-a com um cobertor e estudei mais um pouco.
*
Algumas horas depois, olhei para o relógio e percebi que já passava da uma da manhã. Espreguicei-me levemente.
— Hinako, eu quero dormir logo… você devia voltar para o seu quarto.
— Mmm…
Quando me virei, encontrei Hinako deitada na minha cama, olhando para mim.
— Você está acordada?
— Não consigo dormir — disse Hinako com uma expressão claramente insatisfeita. — Dormir demais.
Eu sabia. Parece que nem mesmo a Hinako consegue dormir para sempre.
— O que eu faço agora?
— Mesmo que você me pergunte…
Esfregando a testa, afastei os livros e peguei o manual que estava sobre a mesa.
— Vamos ver o que o manual diz para situações como essa…
Lendo o manual, que tem instruções detalhadas sobre como lidar com a Hinako. Ele até cobre o que fazer quando ela não consegue dormir. Porém—
"Se ela não conseguir dormir, fique com ela até o amanhecer." …Mas eu tenho aula amanhã, sabia? Pelo bem das minhas notas, não quero negligenciar os estudos. Já é difícil acompanhar as aulas daquela academia sem dormir direito.
— Eu tô com muita vontade de sair correndo agora…
— Não.
Aparentemente inquieta, Hinako começou a se mexer, e eu a interrompi imediatamente.
— Eu preferia que você não ficasse agitada, mas talvez um pouco de exercício ajude. Se você se cansar, quem sabe não fique com sono de novo?
Felizmente, há um banheiro no quarto da Hinako, então suar um pouco não é problema.
— O único problema é como fazer exercício…
Enquanto pensava em como seria problemático se ela realmente começasse a correr, Hinako puxou a manga da minha roupa.
— Vamos dar uma volta?
Mesmo assim, não podemos simplesmente sair da casa sem permissão. Mas a Hinako também sabe disso. Então o que ela sugere é—
— Uma volta pela mansão? Bom, ela é grande o suficiente para isso contar como exercício de verdade.
— É.
Segurando minha manga, Hinako concordou com a cabeça.
— Mesmo assim… a atmosfera é outra.
A mansão à noite é envolta por um clima único. Parece que estamos num cenário de filme de terror, como se estivéssemos testando coragem. É mais provável que eu comece a suar frio de medo do que de exercício. Mas, acima de tudo, minha cabeça estava cheia de um único sentimento.
Sono. Ao contrário da Hinako, eu estava planejando ir dormir logo. Sinceramente, até caminhar parece um esforço. Hinako, por outro lado, está completamente desperta, me puxando enquanto andavamos pela mansão.
— Por ali… acho que é o refeitório.
— É mesmo.
Na verdade, isso é a sala de estudos.
— E ali… é a sala de estar.
— É mesmo.
Na verdade, isso é a biblioteca. A Hinako de verdade não gosta muito de usar a cabeça, então costuma confundir os cômodos. Mas esta noite eu não tenho energia para corrigi-la toda hora.
— Mmm… Itsuki, você está me ouvindo? — Hinako perguntou, olhando para mim.
— Desculpa… estou só um pouco sonolento.
— E eu ia te mostrar tudo direitinho.
Ao ouvir isso, fiquei meio sem graça. Em outra ocasião, eu teria adorado… mas, sendo sincero, a maioria das minhas noites também já estavam ocupadas. Talvez andar assim pela mansão com a Hinako seja uma oportunidade rara.
— Você tem algum lugar favorito ou algo assim?
Esfregando a testa e me forçando a espantar o sono, perguntei à Hinako.
— Um lugar favorito?
— Você não passa todo o tempo no seu quarto, passa? Tipo, quando eu estou tendo aulas com a Shizune-san, onde você fica se não for no quarto?
Ao ouvir isso, Hinako faz um leve aceno de cabeça, como se algo lhe viesse à mente.
— Vou te mostrar.
Hinako segurou minha mão e me puxou.
Dez minutos depois, após nos perdermos várias vezes, finalmente chegamos ao destino.
É uma pequena porta dos fundos no fim de um corredor.
— Esse é o seu lugar favorito?
— É. …É a saída da mansão.
— Por quê?
Por que esse seria o lugar favorito dela…?
— Às vezes eu… saio escondida para o jardim por aqui.
— Ei.
Pelo que parece, essa porta fica fora do campo de visão da maioria das pessoas. É longe de onde os funcionários costumam trabalhar, então as rondas quase nunca passam por ali. Ainda há um portão antes de realmente sair da propriedade, então dá apenas para ir ao jardim, mas entendo… é o lugar perfeito para entrar e sair sem ser notada.
— Tem certeza de que é uma boa ideia me contar isso? Eu posso muito bem te dedurar para a Shizune-san, sabia?
— O Itsuki não faria isso. …É justamente por ser você, Itsuki, que eu te contei — disse Hinako, sorrindo.
Ser tratado com tamanha confiança me fez querer corresponder à altura.
— Fwaah… acho que estou começando a ficar com sono — Hinako levou a mão à boca ao bocejar.
— Vamos te levar de volta para o seu quarto.
— É.
Parece que se movimentar um pouco realmente a deixou com sono de novo.
De volta ao quarto dela, Hinako desabou imediatamente na cama.
— Bom… acho que vou voltar para o meu quarto e dormir também.
O corredor estava silencioso quando—
— O que você está fazendo?
— Uah!?
A pergunta veio de trás. Ao erguer o olhar, encontro Shizune-san parada ali, me observando com olhos afiados.
— Acho que essa reação foi um pouco rude, não acha?
— D-Desculpa…
O silêncio absoluto da madrugada, sem ninguém por perto, me deixava mais suscetível a sustos. A luz da lua, entrando pela janela, envolvia Shizune-san. Vê-la daquela forma me deixou, por um instante, sem palavras.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ah, bem… é que é a primeira vez que te vejo fora do uniforme de empregada…
Até a perfeita super-humana que é Shizune-san também estava de folga agora. O cabelo solto, vestindo pijama.
— Isso é estranho?
— Não é estranho, mas… parece diferente, ou talvez… um pouco infantil em comparação com o normal…
— Está tentando arrumar briga comigo?
— Não, desculpa! Não foi isso que eu quis dizer!
Talvez tivesse sido melhor dizer que ela parecia mais jovem. Mas isso também poderia soar rude. Acho que não estou pensando direito por causa do sono.
— Só para constar, eu ainda sou universitária.
— Espera, sério?
— Sim. Então, por favor, diga que eu pareço ter a minha idade.
Eu imaginava que ela fosse jovem, mas não pensei que ainda fosse estudante.
— Mas e a universidade? Você está sempre aqui na mansão.
— Estou de licença.
Então dá para simplesmente se afastar da universidade quando quiser? Talvez o futuro da Shizune-san na casa Konohana já esteja decidido.
— Então, o que você estava fazendo a essa hora?
— Não é nada demais, mas…
Expliquei para ela sobre a Hinako não conseguir dormir e que estávamos andando pela mansão.
— Entendo, então era isso.
— A Hinako dorme muito, então… achei que esse tipo de coisa pudesse acontecer com frequência.
— Não, essa foi a primeira vez que aconteceu.
Sério?
— Mas havia uma seção no manual para esse tipo de situação.
— Por favor, leia com atenção. Aquela seção é para quando a ojou-sama quer virar a noite, não quando ela não consegue dormir.
Então é assim. Parece que a rotina diária da Hinako não é tão desregrada quanto eu pensei.
— Ela provavelmente só se sente segura e está com a guarda baixa. Para o bem ou para o mal… — disse Shizune-san em voz baixa. — Desde que você chegou, Itsuki-san, a ojou-sama mudou..
— Desculpa.
— Não estou dizendo que seja algo totalmente ruim, então não estou te culpando. É só que… — pensativa, Shizune-san continua: — Só espero que a Kagen-sama não se incomode.
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