Volume 1

Capítulo 1: Fuga e Sequestro numa Só Noite

— CUIDE-SE.

Nunca imaginei que ouviria uma frase dessas dos meus próprios pais. Talvez tivessem sido influenciados por algum filme western durão ou por mangá, mas foi isso que meu pai e minha mãe disseram ao sair do nosso apartamento caindo aos pedaços, cujo aluguel era de vinte mil ienes. Eram dez horas da noite.

Talvez estivessem indo apenas a um izakaya? Bem, achei que voltariam até a meia-noite… Pelo menos, foi o que pensei na época. Mas, mesmo depois de vários dias, meus pais não voltaram para o apartamento. Ao que tudo indicava, eu havia sido abandonado. NOTA

— Não pode ser…

Ou melhor, em vez de abandonado, parecia que meus pais haviam fugido no meio da noite. As finanças da nossa família sempre foram um caos, principalmente por causa da bebida do meu pai e do vício em jogos da minha mãe. As pessoas ao nosso redor conheciam bem a fama deles, então os vizinhos aparentemente testemunharam meus pais fugindo às pressas. Só entendi o que havia acontecido quando me contaram como eles saíram correndo para algum lugar.

— Espera, mas amanhã é a cerimônia de abertura do meu ensino médio.

Olhando agora, é quase um milagre eu ter conseguido chegar ao ensino médio. Enquanto cuidava dos meus pais, eu trabalhava meio período todos os dias para pagar as mensalidades e, de alguma forma, consegui avançar para o segundo ano… ou pelo menos era o que eu pensava. Mas agora, quem sabe. E o aluguel? As contas de luz e água? A comida? Até agora, eu basicamente sustentava a casa, mas pelo menos meus pais ajudavam um pouco com essas despesas. Não tem como eu assumir tudo sozinho de repente.

…Acho que vou comprar o almoço.

Desisti de pensar. O relógio marcava quatro da tarde. Eu não comia nada desde a manhã. Depois de revirar o apartamento inteiro, encontrei apenas duzentos ienes que, por acaso, estavam na minha carteira.

Será que eu deveria ir à polícia? Ou talvez pedir ajuda aos meus amigos da escola? Não, eu só estaria incomodando todo mundo. O sol forte só piorava meu humor. Enquanto caminhava pelas ruas familiares, ouvi vozes vindas de algum lugar.

— Hehe.

— Ora, é mesmo?

Que maneira absurdamente refinada de responder. Ao olhar na direção das vozes, vi duas garotas usando uniformes escolares impecáveis, subindo uma ladeira suave.

Eu já tinha ouvido falar — no topo daquela ladeira ficava uma das três escolas de elite do país. Não era um cursinho qualquer; para ser direto, era uma escola de gente rica. Apenas filhos e filhas de famílias abastadas — ojou-samas e jovens mestres — estudavam ali. O nível acadêmico era extremamente alto, as instalações luxuosas, e as aulas eram levadas a sério, muito além do que se espera de um ensino médio comum. Diziam que eles levavam uma vida refinada em todos os sentidos. A cerimônia de abertura da minha escola era amanhã, mas parecia que a deles já tinha começado. Talvez escolas de elite tivessem férias mais curtas.

— Eu realmente vivo em um mundo diferente… Nem chega a ser engraçado.

Até a forma como elas andavam era diferente. A criação refinada era evidente. Eu já nem sentia inveja. Mas era raro ver estudantes daquela escola andando por aqui. Já era depois da aula, mas eu tinha ouvido que os alunos de lá normalmente voltavam para casa de carro. Era incomum vê-los simplesmente andando pela rua.

— Hm?

A caminho da loja de conveniência, notei algo parecido com um porta-cartões no chão. Peguei e olhei dentro. Era um cartão de estudante. Parecia que uma das duas garotas que eu tinha acabado de ver o havia deixado cair.

— Konohana Hinako, é?… Espera, agora não é hora de olhar o nome.

A dona estava bem à minha frente. Não havia necessidade de conferir endereço ou mais detalhes. Apressei o passo e logo a alcancei. Talvez ela já tivesse se separado da amiga, pois agora caminhava sozinha.

— Com licença!

Chamei, e a garota se virou. Seus cabelos cor de âmbar balançaram, e sob a luz do sol pude ver seu perfil perfeitamente esculpido. É isso que chamam de uma bela mulher vista de costas? Enquanto eu me distraía com o quão bonita ela era—

— Hã?

De repente, um carro preto parou bem ao lado da garota. A porta se abriu e dois homens robustos desceram. Antes que eu percebesse, eles já a tinham puxado para dentro do carro.

— O que…?

Não, era óbvio o que estava acontecendo. Eu só fiquei chocado porque esse tipo de coisa só acontece em mangás ou dramas de TV… Não era hora de ficar chocado. Bem diante dos meus olhos, um sequestro estava acontecendo.

— Ei, esperem!!

Sem conseguir simplesmente ignorar, acabei gritando.

— Quem diabos é você!?

— Você conhece essa garota!?

Os dois homens — presumivelmente os sequestradores — gritaram comigo. Infelizmente, não havia mais ninguém por perto. Então meu grito só deixou os dois ainda mais agitados.

— Merda, não podemos deixar nenhuma testemunha escapar! Você vem junto!

— O-quê!?

Um deles agarrou meu braço e me arrastou para dentro do carro também. E assim, fui sequestrado junto com a garota.

— Certo, agora vocês não vão a lugar nenhum. Fiquem quietos.

Disse o menor dos dois sequestradores.

*

 

Agora estávamos no interior de uma fábrica abandonada. Pelo visto, o sequestro havia sido bem planejado — eles tinham algemas e correntes prontas tanto para mim quanto para a garota. Além disso, as algemas de nós dois estavam ligadas por uma corrente grossa.

— Olha, acho que meus pais não teriam como pagar resgate, sabia?

— Cala a boca. Você é só um extra.

O sequestrador cuspiu as palavras. Suspirei. Meus pais fugiram, e agora eu tinha sido envolvido em um sequestro… Será que fiz algo terrível em outra vida? Meu espírito estava completamente esmagado. De qualquer forma, meu futuro parecia sombrio. Não importava como esse sequestro terminasse, não havia nada me esperando.

— Você deu sorte, chefe. Essa aqui é a ojou-sama da família Konohana. É o prêmio máximo entre nossos alvos, né?

— É… A família Konohana é uma das mais ricas entre os estudantes da Academia Kiou. Dá pra arrancar um resgate bem gordo deles.

Os dois sequestradores sorriram de forma maliciosa enquanto conversavam. Ouvindo isso, lancei um olhar para a garota algemada ao meu lado.

Não seria surpreendente se ela tivesse sido sequestrada por algo além de resgate. Ela era bonita demais. Seus olhos eram grandes e inocentes, mas havia inteligência neles; ela parecia ao mesmo tempo fofa e esperta. Seu nariz reto transmitia dignidade, e seus lábios vermelhos, levemente úmidos, eram adoráveis. Seus cabelos âmbar brilhavam como seda, sua pele era branca como a primeira neve e incrivelmente lisa. Seus braços e pernas eram longos e esguios.

— Ei.

A garota falou.

De alguma forma… a atitude dela era diferente de quando a vi na rua. Naquele momento, ela exalava a típica aura de uma ojou-sama, mas agora parecia cansada e abatida.

Bem, é claro — ela tinha sido sequestrada. Não havia como agir normalmente. Diferente de mim, essa ojou-sama de uma escola de elite tinha o futuro garantido. Então ela devia estar muito mais assustada do que eu.

Mesmo sem futuro, talvez eu pudesse ao menos confortar a garota à minha frente. Tentei ao máximo encontrar as palavras certas para animá-la.

— N-Não se preocupe. Sequestros por resgate quase nunca dão certo, então—

— Banheiro.

— E a polícia japonesa é de primeira, então se a gente só esper… Hã?

Eu ouvi direito? Senti que tinha acabado de ouvir algo completamente fora de lugar.

— Banheiro. Vou me molhar.

A garota declarou sua necessidade com clareza absoluta. Até uma ojou-sama precisa ir ao banheiro. Isso é humano. Mas precisava mesmo dizer isso agora? E de forma tão calma?

— O que eu faço?

— Ah, bom, mesmo que você me pergunte…

— Vou me molhar.

O tom dela era tão neutro que ficava difícil saber, mas ela provavelmente estava em apuros. Me sentindo um pouco constrangido, chamei o sequestrador menor.

— Ah, com licença! A ojou-sama aqui está dizendo uma coisa!

— Hã?

O sequestrador inclinou a cabeça. A garota, sem se abalar, falou diretamente com os dois homens.

— Banheiro.

— O quê?

— Vou me molhar.

Até os sequestradores ficaram desconcertados com aquela reação inesperada, encarando-a sem acreditar. Essa garota não estava nem um pouco assustada.

— Se for pra se molhar, vá em frente. Vai ser um saco se você ficar se mexendo.

Disse um dos sequestradores, irritado. Mas a garota respondeu sem demonstrar qualquer pânico.

— Tem certeza?

Que olhos puros. Ela realmente não parecia se importar em se molhar. Até um gato de rua pareceria mais arrependido numa situação dessas.

— E-Eu acho que isso não é uma boa ideia. Se puder segurar, por favor segure. …Por mim também.

Intervi, falando no lugar dos sequestradores paralisados. Como eu estava preso à ojou-sama pela corrente, não podia me afastar muito. Se ela se molhasse, eu também seria vítima.

— Levem ela.

Disse o mais alto dos dois sequestradores.

— Mas, chefe—

— Não sabemos quanto tempo vamos ficar aqui. Não quero que isso fique nojento.

Diante das palavras do chefe, o outro coçou a cabeça, contrariado, e se aproximou da garota.

— Tch… mas não vou tirar a corrente.

O sequestrador destrancou as algemas dos nossos tornozelos. Como eu estava acorrentado a ela, fui ao banheiro junto com a garota. Ela entrou em uma cabine bem à nossa frente, sem demonstrar qualquer constrangimento.

Depois de um tempo, saiu, lavou as mãos de forma meio desajeitada e então olhou para mim e para os sequestradores.

— Pronto.

— Não precisava avisar isso — dissemos nós dois ao mesmo tempo.

Uma estranha sensação de exaustão me atingiu quando fomos levados de volta e algemados novamente.

— Ei.

A garota chamou os sequestradores outra vez.

— O que foi agora?

— Chá.

Você é invencível, por acaso? Até os sequestradores ficaram sem reação.

— C-Chefe… ela é mesmo a filha da família Konohana? Ela não parece…

— S-Sim… Ou será que é outra pessoa? Não, isso é impossível…

Com expressão preocupada, o chefe se aproximou da garota.

— Ei. Você é mesmo a única filha da família Konohana, certo?

— Sim. Mas… e o chá?

Ela estava tranquila demais. Até os sequestradores ficaram sem palavras.

— Bom, tanto faz. Vou te arrumar algo para beber. Não podemos deixar você morrer aqui… mas é melhor colaborar.

Dizendo isso, o sequestrador colocou uma garrafa plástica ao lado da garota. Mas era apenas água mineral.

— Eu disse que queria chá.

— O quê!? N-Não seja exigente! Água já está bom!

— Eu quero chá. E lanches também.

Ao ouvir isso, uma veia saltou na testa do homem.

— Ei! Você aí, garoto! Cuida dela!

— Por que eu!?

— Estamos ocupados aqui!

O sequestrador gritou. Não havia muito o que eu pudesse fazer estando amarrado, mas assenti a contragosto.

— Ei… e os lanches?

— Não parece que eles tenham algum.

— Entendo.

A garota pegou a garrafa, claramente insatisfeita. Logo depois, ouvi um som de água pingando vindo da direção dela. Olhei para trás e vi a garota completamente molhada.

— O quê!? C-Como você ficou tão molhada…?

— Não sei.

Ela inclinou a cabeça e tentou beber da garrafa novamente, mas como seus lábios estavam longe demais da abertura, a água escorreu pelo rosto e encharcou suas roupas.

— Não, está derramando!

— Não estou acostumada com garrafas.

Isso não é questão de estar acostumada ou não… Será que todas as ojou-samas são assim? Ela é relaxada demais… Era para estar sendo sequestrada, mas não parecia nem um pouco assustada.

— Me dá a garrafa. Eu te ajudo a beber.

— Você não vai tomar?

— Não vou tomar! Pelo amor de Deus!

Levantei a voz, e os sequestradores olharam na nossa direção. Droga, será que eu irritei eles…? Mas, em vez disso, apenas me olharam com pena. Não me olhem assim. Foram vocês que me arrastaram para isso.

— O chão ficou molhado. Vamos nos afastar um pouco.

— Tá bom.

A garota se levantou e se moveu comigo. Mas então, tropeçou em absolutamente nada e caiu.

— Ai.

Ela levantou o rosto e me encarou com os olhos marejados. A testa estava vermelha por ter batido no chão. Ela era um desastre sem salvação.

— C-Chefe… a ojou-sama da família Konohana não deveria ser perfeita? Não acho que ela fosse tão desastrada assim…

— Não, mas ela é idêntica a ela. Nunca ouvi dizer que ela tivesse uma irmã…

Os sequestradores cochicharam entre si. Enquanto isso, a garota esfregava a testa, com lágrimas se acumulando nos cantos dos olhos.

— Ai…

— Deixa eu ver.

Ela parecia tão triste que não consegui evitar checar o machucado.

— Está mais ralado do que inchado. Se você ficar tocando, pode infeccionar, então tenta não mexer.

— Tá bom.

Ela baixou a mão e assentiu.

— A propósito… por que você está aqui?

A garota perguntou de forma completamente despreocupada.

— Eu só estava tentando devolver a carteirinha de estudante que você deixou cair. Aí os sequestradores apareceram e me levaram junto.

— Entendo.

A garota assentiu, compreendendo.

— E a minha carteirinha?

— Hã? Ah, sim, está bem aqui.

Tirei a carteirinha do bolso e entreguei a ela. A garota a pegou e começou a mexer nela de forma desajeitada. Observando melhor, percebi um ressalto estranho no canto inferior direito, como se houvesse um pequeno botão embutido ali. Ela pressionou o relevo com a unha.

— Isso deve fazer o resgate chegar rapidinho.

Dizendo isso, ela suspirou:

— Ufa.

— Vou dormir.

Ela se deitou no chão ao meu lado. Mesmo assim, continuou me encarando.

— Vou dormir.

— Então dorme?

— Travesseiro.

Eu estava prestes a dizer "não tem travesseiro nenhum aqui", quando ela bateu levemente no meu joelho em silêncio. …Ela queria usar o meu colo como travesseiro?

Uma garota tão bonita fazendo um pedido desses fez meu coração disparar, mas lembrar do quão desastrada ela era me ajudou a manter a calma. Além disso, os sequestradores tinham me mandado cuidar dela, então suspirei e ofereci meu colo.

— Mmm… altura perfeita — murmurou, satisfeita.

— Uma canção de ninar.

— Desculpa, não tenho nenhuma no repertório.

— Então me conta algo engraçado.

Que pedido absurdo. Ainda assim, a ousadia dela foi suficiente para afastar aquele clima pesado. Normalmente, qualquer pessoa estaria apavorada e chorando, mas graças a essa garota, eu conseguia manter a calma.

— Então… outro dia, eu estava no trem com um amigo—

Não era uma história tão engraçada assim, mas ela escutou em silêncio. Depois de alguns minutos, ouvi uma respiração suave vinda do meu colo. Ela adormeceu com facilidade demais.

— Você está babando demais.

Limpei a baba do canto da boca dela com a barra da minha camisa.

— Mm.

— Ah, desculpa. Te acordei?

— Tudo bem.

Ela respondeu, se mexendo um pouco.

— Meu cabelo vai ficar oleoso.

— Se você prender mais alto, ajuda. Vira um pouco.

— Tá bom.

Prendi o cabelo dela em um rabo de cavalo alto.

— Você é bem habilidoso nisso, hein?

— Bom… eu costumava arrumar o cabelo da minha mãe.

— Hmm.

Minha mãe chegou a trabalhar por um tempo em um clube de hostess, e eu ajudava ela a se arrumar antes do trabalho. Não era exatamente uma lembrança agradável.

Então, um dos sequestradores chutou um pedaço de madeira ali perto. O barulho repentino me fez pular.

— Já chega! Se continuar enrolando, eu vou bater na sua filha!!

O sequestrador gritava ao telefone, furioso.

— Não diga coisas que provoquem os sequestradores, tá? — falei, olhando para a garota. — Não se preocupe. Se for preciso, pelo menos posso te proteger.

Mesmo sem ter nada pelo que esperar, eu podia ao menos ajudar alguém. Ainda que fosse só para me sentir melhor comigo mesmo, senti um pouco de alívio ao dizer aquilo.

— Por que você faria isso por mim?

— Quem sabe.

Eu não tinha intenção de contar a história da minha vida. Ela me olhou com curiosidade, e eu me esforcei para sorrir de forma tranquila.

— Você é uma boa pessoa — ela disse. — Eu me sinto à vontade perto de você. Você cheira a futon que acabou de pegar sol.

Isso não quer dizer que eu cheiro a ácaros mortos…? Não era exatamente o elogio que eu queria ouvir…

— Já tive muitos cuidadores, mas todos são tão rígidos.

— Entendo….

— Mas você me trata de forma tão casual que eu também consigo relaxar. Fico feliz.

Ela sorriu timidamente, e por um instante fiquei hipnotizado.

— Qual é o seu nome?

— Tomonari Itsuki.

— Entendo. Eu sou Konohana Hinako.

Ela disse isso de maneira simples.

— A partir de agora, você vai ser meu—

No momento em que ela ia continuar, uma pequena lata voou por uma janela quebrada da fábrica abandonada. Com um estrondo, a lata caiu no chão e, no instante seguinte, liberou uma fumaça branca.

— VAI, VAI, VAI!!

Um grito alto ecoou do primeiro andar da fábrica. Ao mesmo tempo, inúmeros passos puderam ser ouvidos de todas as direções.

— Droga!? Não dá pra ver nada!!

— Quando eles chegaram tão perto—agh!?

Homens que pareciam policiais surgiram do nada e dominaram os dois sequestradores em um piscar de olhos. Eles se aproximaram rapidamente de mim e da garota—

— Não se mexa!!

— Hã?

Mas estava claro que eles me tratavam como uma ameaça.

— E-Espera! Eu sou uma vítima—

— Cala a boca! Fique parado!

— Ugh!?

Eles forçaram minha cabeça para baixo e me jogaram contra o chão.

— Shizune-sama! Neutralizamos o terceiro!

— Era para haver apenas dois criminosos… Será que a equipe de reconhecimento se enganou?

À medida que a fumaça se dissipava, uma mulher surgiu, caminhando com passos perfeitamente medidos. Ela tinha cabelos negros longos que iam até a cintura, soltos, e vestia um traje preto e branco cheio de babados — basicamente, um uniforme de empregada.

— Ojou-sama, a senhorita está ferida?

— Tô bem.

A empregada se aproximou da garota deitada no chão e removeu suas algemas e correntes. Apesar de toda a confusão, a garota não parecia nem um pouco abalada. Ela bocejou, como se tivesse acabado de acordar de um cochilo.

— Peço desculpas pela demora no resgate. Mas… eu já lhe disse inúmeras vezes que precisa nos avisar antes de sair.

— Dava muito trabalho.

— É justamente por isso que coisas assim acontecem… céus.

A empregada suspirou.

— Shizune. Ele não é um sequestrador.

— É mesmo?

A garota apontou para mim enquanto falava, e a empregada pareceu surpresa. Lentamente, ela removeu minhas algemas.

— Ai…

— Minhas desculpas. Achei que você fosse um dos criminosos.

— Eu estava algemado! Como eu poderia ser um sequestrador…?

— Há casos em que grupos criminosos entram em conflito entre si. Em crimes de longa duração, como sequestros, isso acontece com mais frequência do que imagina.

…Bem, ela tinha um ponto. Sem ter como rebater, fiquei em silêncio.

— Vamos deixar a limpeza com eles. Vamos para casa. Você, venha conosco.

Pelo visto, eles iriam me levar junto. Assenti em silêncio. Mas a garota não se levantou; apenas me encarou com aqueles olhos vazios.

— Ei, Shizune.

Ela apontou para mim e disse:

— Eu quero essa pessoa.

— Entendido. Providenciarei tudo imediatamente.

A empregada fez uma reverência profunda.

— Hã?

Providenciar o quê?

— Me acorde quando chegarmos.

— Entendido.

Depois de sermos conduzidos até o carro preto, a garota adormeceu quase instantaneamente. Ela sentou no banco de trás, mais ao fundo; em seguida, eu entrei, e por fim a empregada se sentou ao nosso lado e fechou a porta.

Coloquei o cinto de segurança na garota, que já dormia profundamente, e depois coloquei o meu. De repente, senti um olhar sobre mim e virei a cabeça para ver a empregada me observando. Ela murmurou em voz baixa:

— Entendo… então é desse tipo que ela gosta.

Enquanto isso, ela afivelava o próprio cinto.

— U-Um… para onde exatamente vocês estão me levando?

— Você logo saberá.

Assim que respondeu, ouviu-se uma leve vibração. A empregada tirou o smartphone do bolso e o levou ao ouvido. Depois de cerca de um minuto falando, guardou o aparelho calmamente.

— Sua verificação de antecedentes está concluída.

— Hã?

— Tomonari Itsuki, dezesseis anos. Estudante do ensino médio Ryūgū. Filho único, ambos os pais estão vivos. …É louvável que você trabalhe para pagar a própria mensalidade, considerando a situação financeira precária da sua família. No entanto, há cinco dias, seus pais fugiram no meio da noite levando todo o dinheiro da família, deixando você em uma situação crítica.

— C-Como você sabe de tudo isso?

— Não subestime a rede de informações da família Konohana. Para nós, isso é simples.

A empregada disse isso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— A propósito, você deveria começar o segundo ano do ensino médio amanhã, mas… não frequentará mais aquela escola.

— Hã?

— A mensalidade não foi paga. Parece que seus pais planejaram fugir exatamente neste momento. O dinheiro que você juntou com tanto esforço provavelmente já foi levado.

— N-Não pode ser…

— Ao que tudo indica, o aluguel e as contas também estão atrasados há algum tempo. Você perderá aquele lugar em breve.

Então minha casa estava nesse estado…

— Sendo assim, temos uma proposta para você.

A empregada disse isso enquanto eu me encontrava afundado em desespero.

— Que tal trabalhar para a ojou-sama?

— Como é que é?

A sugestão foi tão inesperada que inclinei a cabeça, confuso.

— Ahn… eu não entendi muito bem o que você quer dizer…

— Então, vou explicar passo a passo.

A empregada, com a expressão de quem escolhia cuidadosamente as palavras, começou a falar.

— Você já ouviu falar do Grupo Konohana, não é?

— Sim.

— Imaginei. Afinal, você tem uma conta no Banco Konohana.

Ah, é verdade. Meu salário do trabalho de meio período era depositado em uma conta que eu havia aberto no Banco Konohana. Provavelmente, eles verificaram minhas informações pessoais por meio dessa conta durante a investigação de antecedentes.

— O Grupo Konohana é um grande conglomerado que não possui apenas um banco urbano, mas também grandes tradings, indústrias pesadas, incorporadoras imobiliárias, seguradoras e muito mais. Seus ativos totais giram em torno de trezentos trilhões de ienes, e sua influência se estende até o exterior.

A empregada explicou sem hesitar.

— E a pessoa que está dormindo ao seu lado é a herdeira do Grupo Konohana, Konohana Hinako-sama. Eu sou uma das empregadas que servem a ojou-sama.

Então a garota dormindo ao meu lado era uma ojou-sama de nível inimaginável. Eu já sabia que ela não era uma pessoa comum, mas ela podia muito bem ser a ojou-sama mais rica do país inteiro, não apenas da cidade.

— O que estamos lhe oferecendo é um trabalho como o meu.

— Então… vocês querem que eu seja uma empregada…?

— Não uma empregada. Um mordomo, é claro.

Ah, sim, faz sentido. Eu tinha me deixado levar por essa história gigantesca e acabei ficando completamente confuso.

— Para ser mais preciso, não exatamente um mordomo, mas algo semelhante. O que queremos é que você seja, a partir de agora, o cuidador da ojou-sama. Você aceita?

— Aceitar ou não… vocês têm certeza de que querem alguém como eu? Eu sou só um estudante comum…

— Normalmente, esse trabalho exigiria treinamento adequado… mas foi a própria ojou-sama quem pediu por você, então abriremos uma exceção. Ao que parece, ela realmente gostou de você.

Dizendo isso, a empregada lançou um olhar para a garota dormindo ao meu lado. Ela parecia completamente relaxada, babando enquanto dormia.

— Mmm… mm.

— E-Ei… não se agarre a mim assim…

A garota se virou enquanto dormia e me abraçou. Seu cabelo longo e macio exalava um aroma suave e adocicado.

— A propósito, se você tentar fazer qualquer coisa indecente com a ojou-sama… eu corto fora.

— Corta o quê?

— A parte que você acabou de imaginar.

Isso seria péssimo. Eu acabaria virando uma empregada.

— Vamos discutir os detalhes com meu empregador mais tarde.

A empregada disse isso enquanto olhava pela janela. No exato momento em que a conversa chegou ao fim, o carro parou.

— Ojou-sama, chegamos.

— Mm.

A garota, que estava agarrada ao meu lado direito, abriu os olhos lentamente. A porta do carro se abriu automaticamente, e nós descemos. Diante de mim erguia-se uma mansão tão enorme que eu nunca tinha visto nada igual.

— Isso é…

— Esta é a residência secundária da família Konohana. Agora você irá conhecer o pai da ojou-sama.

Mais do que conhecer o pai dela, fiquei chocado ao saber que um lugar desses era apenas uma residência secundária. Residência secundária…? A minha casa devia ser mais para um canil ou um banheiro externo.

— Bem-vinda de volta, ojou-sama.

Quando nos aproximamos da entrada principal, empregadas e mordomos se alinharam dos dois lados e inclinaram a cabeça ao mesmo tempo. Havia pelo menos dez criados ou atendentes, mas a ojou-sama apenas bocejou levemente e disse: — É. — e foi só isso.

Como sempre, ela seguia no próprio ritmo. Os criados pareciam acostumados, pois continuaram se curvando sem qualquer reação especial. 

As grandes portas se abriram, e entramos na mansão. A decoração interna fazia até os hotéis mais luxuosos parecerem simples. Um longo tapete vermelho se estendia à frente, ladeado por móveis opulentos. Diferente de um hotel, ainda havia ali uma sensação de lar, então o ambiente era mais calmo do que ostentoso, mas, mesmo assim, havia muitos detalhes dourados que jamais se veriam em uma casa comum.

— Uau…

— O que foi essa reação?

— N-Nada, é só que… o mundo em que você vive é tão diferente que me deu até arrepios…

— Você vai ter que se acostumar. Se for trabalhar para a ojou-sama, verá isso todos os dias, sabia?

Eu nem sequer aceitei o trabalho ainda, mas já estou perdendo a confiança.

— Ojou-sama, quanto à sua agenda a partir de agora…

— Dormir.

— Entendido. Nesse caso, como preciso orientar o Tomonari-sama, farei com que outra pessoa cuide da ojou-sama.

A empregada trocou olhares com outro cuidador que aguardava junto à parede. Porém, ao ouvir isso, a garota franziu a testa e disse:

— Na verdade, eu não vou dormir.

— A ojou-sama não vai dormir?

— Não. …Eu quero ficar com o Itsuki.

Ela disse isso enquanto beliscava a manga da minha roupa. A sensação era a de ter ganhado uma irmãzinha. Enquanto eu pensava nisso, a empregada ao meu lado arregalou os olhos.

— Impossível… a ojou-sama está adiando a soneca…

Isso era mesmo tão chocante assim? Ela tinha dormido durante o sequestro e no trajeto de carro, então eu só achei que tivesse acordado naturalmente…

Recobrando a compostura, a empregada voltou a nos conduzir. Depois de subirmos uma escadaria imponente, ela bateu na porta ao final do corredor.

— Com licença.

A empregada abriu a porta. Dentro havia um cômodo espaçoso, com um homem parado no centro.

— Você deve ser Tomonari Itsuki. Eu sou Konohana Kagen. Pai da Hinako e presidente do Grupo Konohana.

O homem — Kagen-san — se apresentou. Ele tinha um rosto jovem, mas vestia um terno caro e emanava uma aura de autoridade.

— Apesar de ser chamado de presidente, eu apenas cuido de uma das empresas do grupo. Não é um cargo tão impressionante assim.

— Não seja modesto. Alguém que será o próximo chefe não deveria se diminuir com tanta facilidade.

— Haha, não fique tão brava, Shizune. Eu só estava brincando. Se ficar tudo muito formal, o Itsuki-kun vai acabar nervoso.

Kagen-san riu enquanto falava. Mas, de repente, seus olhos ficaram afiados.

— Entendo. Ela realmente se apegou a você.

Kagen-san olhou para a garota — Hinako — que estava logo atrás de mim. Em algum momento, Hinako havia abaixado a cabeça, ainda segurando a manga da minha roupa, e estava cochilando em pé—

— Ela está dormindo em pé…!?

Ela é algum assalariado indo trabalhar de trem? E, mais uma vez, estava babando. Não tive escolha a não ser tirar um lenço do bolso e limpar a boca dela.

— Mmm…

Enquanto eu limpava sua boca, Hinako apoiou o corpo em mim.

— Ouvi dizer que você acabou se envolvendo no sequestro da minha filha, mas aconteceu alguma coisa nesse meio-tempo? É a primeira vez que vejo minha filha se apegar tanto a alguém que acabou de conhecer…

— N-Não, nada em especial.

— Entendo. Bem, Hinako vive de acordo com os próprios sentimentos, então imagino que as "frequências" de vocês simplesmente combinaram.

— Frequências, é…

Sinto que essa explicação é simples demais… Nem eu sei direito por que ela se apegou tanto a mim.

— Na verdade, Hinako sempre quis um cuidador com quem pudesse se sentir à vontade. Mas, devido à nossa posição, eu não podia simplesmente contratar qualquer pessoa. Por isso, depois de conhecê-lo por acaso, ela não quer mais deixar você ir.

É, faz sentido. Ela mesma disse isso. Sempre teve cuidadores rígidos e quer alguém mais tranquilo.

— Muito bem. Antes de explicar o trabalho de um cuidador, você precisa conhecer melhor a Hinako… Shizune.

— Sim.

A empregada, que estava parada atrás de nós, curvou-se e acionou o projetor instalado à esquerda. As luzes se apagaram, e um vídeo apareceu na parede branca.

— Esta é a ojou-sama na escola.

No centro do vídeo estava a garota — Hinako — que dormia atrás de mim. O local parecia ser… um corredor da escola?

— Bom dia, Konohana-san.

— Bom dia.

Hinako respondeu aos cumprimentos dos colegas com um sorriso gracioso.

Hã…? Tem algo estranho aqui.

A cena mudou; agora era Hinako em sala de aula, durante uma aula.

— Então, para esta questão… Konohana-san, pode responder?

— Sim.

Ao ser chamada, Hinako se levantou calmamente. Com postura impecável, caminhou até o quadro e escreveu a resposta sem hesitar. Ela exalava uma elegância impressionante. Os outros alunos a observavam com admiração. A cena mudou novamente, ainda na sala de aula. Pela luz do sol, devia ser depois das aulas. Uma aluna falou com Hinako, que estava sentada perto da janela.

— K-Konohana-san! Vamos fazer um chá no jardim daqui a pouco… V-Você gostaria de participar?

— Se não for um incômodo, adoraria.

— A-Ah, obrigada! Eu até preparei scones deliciosos especialmente para você, Konohana-san!

— Fufu, não precisava se dar a tanto trabalho.

Quando Hinako sorriu, a garota corou profundamente, encantada. O vídeo terminou, e as luzes da sala se acenderam novamente. Falei minha impressão sincera.

— Quem é essa?

— Essa é a Hinako-sama.

— Não é possível.

A garota do vídeo era impecável, graciosa e elegante — uma verdadeira ojou-sama. Não se parecia em nada com a garota atrás de mim, cochilando e babando… não, espera. Elas são exatamente iguais.

— A Hinako consegue agir como a ojou-sama perfeita em público.

— Em público?

— Exatamente. Mas, por outro lado, quando não está em público…

Kagen-san trocou um olhar com a empregada. Ela assentiu em silêncio e trocou o vídeo. A cena seguinte era uma sala de aula, mas sem mais ninguém. Apenas Hinako e outra garota com o mesmo uniforme apareciam na tela.

— O-Ojou-sama, a próxima aula já vai começar…

— Cansada. Vou dormir.

Hinako disse isso sem energia e desabou sobre a carteira. A cena mudou novamente — agora, um corredor.

— O-Ojou-sama! A aula de educação física é a próxima, a senhora precisa se trocar…

— Me vista.

A cena mudou mais uma vez — agora, o pátio da escola.

— Ojou-sama!? A central acabou de ligar dizendo que o seu cartão de crédito foi usado indevidamente—!

— Provavelmente eu perdi.

— P-Por que não disse isso antes—?!

O vídeo foi cortado bem quando a garota começava a gritar. É… essa última não tem graça nenhuma.

— Esta é a verdadeira Hinako.

Kagen-san disse, com expressão complicada. Ao que parece, Konohana Hinako tem uma diferença extrema entre sua persona pública e privada.

Bem, para mim, a "verdadeira" Hinako é a do sequestro — então estou mais acostumado com esse lado dela. Mesmo que tenham se passado só três horas.

— Ahm… a garota desses vídeos era uma empregada ou algo assim?

— Ela era a cuidadora anterior. Acabou sendo internada com uma úlcera no estômago por causa do estresse e, depois disso, pediu demissão.

— Nossa.

Isso é bem pesado.

— Em resumo, Hinako consegue agir como a ojou-sama perfeita em público, mas fora dele se torna tão desleixada quanto você acabou de ver. A diferença entre os dois modos é extrema. Por isso, ela precisa de um assistente capaz de lidar com ambos.

— E esse é o trabalho do cuidador…

— Exatamente.

Kagen-san assentiu.

— O papel do cuidador é proteger a imagem da Hinako como uma ojou-sama perfeita. Em outras palavras, apoiá-la discretamente para que sua verdadeira natureza não venha à tona. …Então, você aceita o trabalho? É um pedido da própria Hinako, e eu também apreciaria muito a sua ajuda.

Depois de pensar um pouco sobre a pergunta, respondi:

— Sei que pode ser meio descarado perguntar isso depois de ter sido resgatado, mas… eu vou receber pagamento?

— Claro. Você vai morar aqui, terá três refeições por dia e, além disso, será pago.

Isso é… generoso demais. Parece que a sorte literalmente caiu no meu colo. Estou prestes a perder minha casa, então essa é uma oferta impossível de recusar. …Talvez eles tenham levado minha situação em conta ao fazer essa proposta.

— Quanto ao pagamento… que tal vinte mil ienes por dia?

— V-Vinte mil!?

— Oh, não é suficiente? Mas pagar o mesmo salário de um mordomo ou empregada profissionais talvez não seja apropriado… Que tal cinquenta mil?

— Esse é o caminho errado! Isso é dinheiro demais!

Nunca imaginei que o valor fosse aumentar.

— Então diga quanto quer. Quanto você deseja?

"Diga o seu preço"… isso só existe em obras de ficção.

— Se for por dia, oito mil ienes já seriam mais do que suficientes.

Mesmo para trabalhos temporários, oito mil ienes por dia já é um valor alto. Achei que tinha dado uma resposta bem normal, mas, por algum motivo, Kagen-san franziu a testa.

— Itsuki-kun. As responsabilidades de um cuidador são muito mais pesadas do que você imagina.

Kagen-san falou com um olhar sério.

— Para ser sincero, o Grupo Konohana tem enfrentado dificuldades ultimamente. A economia é um fator importante, mas também há disputas internas por poder e concorrência com rivais — não tem sido fácil. Não estamos à beira da falência, mas também não podemos ignorar a situação. …Por isso, as perspectivas de casamento da minha filha são tão importantes.

— Perspectivas de casamento?

Kagen-san assentiu, lançando um olhar para Hinako, que dormia atrás de mim.

— A Hinako age como a ojou-sama perfeita em público para encontrar um bom partido. Na academia, em festas, em qualquer lugar onde esteja envolvida como herdeira da família Konohana, ela cumpre esse papel. …O trabalho do cuidador é ajudar nisso — proteger a reputação da família Konohana.

Ao ouvir isso, pensei novamente. Nós realmente vivemos em mundos diferentes. Perspectivas de casamento, reputação familiar… nunca pensei nessas coisas uma única vez.

— Então, quanto você quer receber?

O olhar afiado de Kagen-san me atravessou, e engoli em seco. Depois de ele ter sido tão direto, deu para entender o que realmente estava perguntando. Ele estava testando minha determinação.

Quanto você acha que o seu trabalho vale? Era isso que Kagen-san queria saber. Se eu me desvalorizasse, ele voltaria a me olhar com decepção, como antes. Mas se pedisse algo irreal, ele apenas riria, dizendo que estava fora do meu alcance.

No fim, minha resposta foi—

— Vinte mil ienes, por favor.

— Hm… então o valor inicial. Muito bem. Espero que trabalhe de acordo com isso.

Dizendo isso, Kagen-san tirou alguns papéis da gaveta da escrivaninha. Enquanto preenchia os documentos, continuou:

— Você começa a trabalhar amanhã.

— Amanhã!?

— Você viu o vídeo, não viu? A Hinako se perde até dentro da própria casa sem um cuidador. Ela precisa de apoio o quanto antes.

Bem, com uma casa desse tamanho, se perder até que é compreensível…

— Primeiro, vamos providenciar roupas para você. Há um alfaiate esperando na sala ao lado para tirar suas medidas.

— Certo. …Então vocês vão me fornecer roupas de trabalho?

— É mais como um uniforme. Afinal, você vai passar a frequentar a Academia Kiou.

— O quê!?

Eu tinha imaginado algo como um uniforme de mordomo, então essa resposta me pegou completamente de surpresa.

— A Hinako estuda na academia. O cuidador dela precisa ir junto, é claro.

— Mas… a Academia Kiou não é uma escola super elite? Acho que eu não me encaixaria lá…

— Faça o possível para se adaptar. Isso também faz parte do seu trabalho. Suas notas na escola anterior eram boas, não eram? Então não é como se você fosse ruim nos estudos.

Eu tinha me esforçado bastante pensando em entrar na faculdade, mas uma escola de elite desse nível é outro patamar. Será que vou dar conta…? Aulas, esportes, etiqueta, convivência… minhas preocupações não acabam.

— Empregados não têm permissão para circular no campus da Academia Kiou, então você será matriculado como um aluno comum. Seu status oficial será o de um parente distante do Grupo Konohana — herdeiro de uma empresa subsidiária, alguém que visa se tornar um executivo no futuro, mas que também conhece a vida das pessoas comuns. Em outras palavras, um garoto normal.

— Chamar isso de "normal" é forçar a barra…

— Isso é normal na Academia Kiou.

Kagen-san disse isso de forma seca. Para mim, nada nessa academia parece normal.

— Digamos que a empresa do seu pai faça parte do Grupo Konohana. Assim, ficará mais natural você tratar a Hinako com deferência. …Se montarmos dessa forma, as pessoas desconfiarão menos.

É, faz sentido. Essa história de fachada vai ajudar a esconder meu verdadeiro papel.

Olhei para a garota dormindo atrás de mim. Ela estava babando de novo, então levantei levemente o queixo dela e fechei sua boca. Ao que tudo indica, vou trabalhar com ela por bastante tempo.

— A propósito, se você algum dia colocar as mãos na minha filha—

Percebendo o olhar fulminante de Kagen-san, endireitei a postura imediatamente.

— V-Vai cortar fora, não é?

— Cortar fora? Hahaha! Não, eu não faria isso!

Kagen-san caiu na gargalhada.

— Eu simplesmente te mataria.

— Ahn!?

De algum modo, isso é ainda mais assustador por ser dito com tanta naturalidade.

— Pois bem, conto com você a partir de amanhã.

Quando Kagen-san disse isso, a empregada que aguardava em silêncio abriu a porta. Justo quando eu estava prestes a sair da sala, carregando a Hinako sonolenta—

— Ah, e mais uma coisa. Pedi que investigassem sua família.

Kagen-san me chamou, com uma expressão repentinamente séria.

— Há uma filha da família Miyakojima matriculada na Academia Kiou. Não acredito que exista alguma rixa entre vocês, mas… por precaução, evite contato desnecessário.

— Entendido.

Então… isso quer dizer que ela também estuda lá. Bem, ela provavelmente nem se lembra de mim. Não tem como nossos caminhos se cruzarem.

*

 

— Ainda não me apresentei, não é? Sou Tsumuri Shizune, a criada da ojou-sama. Vou lhe passar várias instruções enquanto você aprende a ser o cuidador dela, então trate de se lembrar de mim.

Enquanto caminhávamos pelo corredor da mansão, a criada disse isso.

— Seu status oficial será o de herdeiro de uma empresa de médio porte, mas dentro desta mansão você é o cuidador. Portanto, trate a ojou-sama de forma adequada aqui dentro.

— Entendido. "Hinako-sama" está bom, certo?

Shizune assentiu.

— Por outro lado, fora da mansão, você será visto como colega de escola da ojou-sama, então deverá chamá-la de "Hinako-san".

Na academia, terei de chamá-la com o sufixo -san. Vou precisar controlar cuidadosamente a distância no nosso relacionamento. Assenti em silêncio.

— Este será o seu quarto, Itsuki-san.

Shizune abriu a porta. O quarto tinha cerca de sete tatames de tamanho, mobiliado apenas com uma cama e uma escrivaninha — simples e funcional. Provavelmente era um quarto destinado a funcionários. Depois de ficar impressionado com o tamanho da mansão, aquele espaço transmitia uma sensação reconfortante. Acho que consigo me acostumar com isso.

— Se precisar de mais algum móvel, é só nos avisar depois. Por enquanto, use este quarto.

— Obrigado.

Eu poderia pedir mais coisas, mas seria presunçoso exigir algo logo de cara. Vou pensar nisso depois de conseguir fazer meu trabalho direito.

— Mmm.

Nesse instante, com um som estranho, Hinako se jogou em cima da minha cama.

— Ah… Hinako-sama, essa é a minha cama, na verdade…

— A cama do cuidador é… a minha cama…

Com uma expressão de puro contentamento, ela enterrou o rosto no edredom.

— Bem, não tem jeito. Vamos deixar a ojou-sama dormir aqui por enquanto.

Shizune suspirou ao dizer isso.

— Itsuki-san, você será transferido para a Academia Kiou como aluno novo a partir de amanhã… mas há algumas coisas que precisa aprender antes.

— Sobre o trabalho de cuidador, certo?

— Isso é parte, mas não é só isso.

Shizune explicou:

— A Academia Kiou é uma escola de prestígio onde se reúnem os filhos e filhas de famílias ricas. O nível das aulas é muito alto, então alguém com uma formação comum não consegue acompanhar de imediato. Portanto, até o jantar, você fará apenas uma coisa: revisar o conteúdo das aulas.

— É tudo isso mesmo?

— Sim. E como você vai agir ao lado da ojou-sama com frequência, suas notas também precisarão estar à altura das dela.

— Estou começando a perder a confiança.

— Não é só estudo. Você também vai receber treinamento em etiqueta, comportamento e defesa pessoal.

— Defesa pessoal?

— Só por precaução.

Shizune respondeu com naturalidade, enquanto eu ficava sem palavras.

— O quê, está com medo?

— Não… já fiz todo tipo de trabalho braçal, então confio bastante na minha resistência.

— Entendo. Então, quando terminar os estudos, vamos ver do que você é capaz.

Sorri com confiança para Shizune, que falava com tanta calma. Pelo jeito dela, achei melhor tomar a iniciativa desde o começo. Claro, ela ainda seria minha superior como supervisora do cuidador… mas se eu deixasse, ela provavelmente me submeteria a um treinamento espartano eterno.

Vou mostrar a esse pessoal que vive uma vida elegante em uma mansão luxuosa que um estudante pobre também sabe lutar. Não subestimem um estudante sem dinheiro——.

— Cheguei ao meu limite. Por favor, tenha piedade. Vou morrer.

Naquela noite, eu estava ajoelhado no chão, curvando a cabeça diante de Shizune-san no dojô da mansão.

— Muito bem. Então encerramos as lições de hoje.

Eu tinha terminado todas as aulas de estudo, etiqueta e outras coisas, e estava tão exausto que minha consciência começava a se apagar. A aula de defesa pessoal, em especial, levou meu corpo e minha mente ao limite. Pensar que ela conseguiu me dominar com a mesma facilidade que se torce o braço de um bebê… Shizune-san era, sem dúvida, uma temível battle maid.

— Para as suas funções como cuidador, consulte este manual.

— Isso é bem grosso.

— Expliquei tudo verbalmente antes do jantar, mas se tiver qualquer dúvida, é só consultar o manual ou me perguntar.

Shizune-san me entregou o manual espesso enquanto dizia isso.

— Hum… a Hinako-sama ainda está dormindo no meu quarto.

— A ojou-sama costuma passar a maior parte do tempo dormindo quando está na mansão. Apenas deixe-a em paz.

— Bom, eu também queria dormir logo…

— Então durma no corredor. Vou preparar um futon para você.

— Estou brincando. Espere até a ojou-sama voltar para o próprio quarto.

— Tudo bem.

— Pois bem, vou me retirar por agora. Se precisar de algo, é só me chamar.

Dizendo isso, Shizune-san saiu do dojô. Depois de aceitar o cargo de cuidador, recebi um smartphone fornecido para os funcionários da família Konohana. O número de Shizune-san já estava salvo nos contatos… mas, se possível, eu preferia não ligar para ela.

— Eu já imaginava, mas… ser cuidador é mesmo um trabalho para alguém super capacitado, né?

Murmurei isso enquanto saía do dojô e voltava para o quarto. Pelo visto, as lições da Shizune-san acontecem todos os dias. Se isso continuar, em alguns meses ou eu me tornarei um super especialista perfeito, ou vou quebrar no meio do caminho.

Quando voltei ao quarto, a garota ainda estava lá.

— Mmm… hehe, hehehe…

Parece que a Hinako-sama realmente ama dormir. Ela dormiu bastante até durante o sequestro; nesse ritmo, talvez durma direto até de manhã.

Suspirei e me sentei na cadeira da escrivaninha. Estava exausto e queria dormir cedo, mas como a Hinako-sama estava na minha cama, eu não sabia bem o que fazer…

— Verdade. É para isso que serve o manual.

Folheei as páginas do manual.

— Vamos ver… aqui está. "Pontos de atenção quando a ojou-sama estiver dormindo — edição mansão.""A ojou-sama passa a maior parte do tempo dormindo quando está na mansão. Acordá-la durante um sono profundo a deixa de mau humor, portanto, sempre a conduza até o quarto dela antes de deixá-la dormir." …Já é tarde demais.

Eu até sabia onde ficava o quarto da Hinako-sama, mas será que estava tudo bem simplesmente carregá-la até lá? Enquanto eu pensava em procurar isso no manual também… de repente, meu celular vibrou.

Era uma mensagem.

Yuri: Quer ir para a escola comigo amanhã?

Ao ver a mensagem na tela, não consegui evitar um "ah".

— Droga, esqueci de explicar.

Meu celular antigo estava no nome dos meus pais, então sincronizei os dados com o aparelho fornecido pela família Konohana. Por isso, mensagens de pessoas que eu conhecia antes estavam chegando nesse celular.

Fiquei pensando em como explicar, e enquanto hesitava, as mensagens começaram a chegar uma atrás da outra.

Yuri: Se você não quiser, tudo bem! Eu vou com outras amigas!

Yuri: Ei?

Yuri: …Não me deixa no vácuo.

Eu não estava ignorando. Não importava o quanto eu pensasse, não conseguia formular uma resposta, então decidi dizer a verdade.

Itsuki: Por alguns motivos, não vou mais poder estudar naquela escola.

Yuri: Hã?

A resposta veio imediatamente.

Yuri: Você pode ligar?

Itsuki: Desculpa, estou muito cansado. Talvez outra hora

Sinceramente, meu cérebro já não funcionava mais. Se eu tentasse pensar em qualquer coisa a mais, tudo o que a Shizune-san tinha enfiado na minha cabeça iria simplesmente evaporar.

Bzzzz. O celular vibrou de novo.

Mesmo eu tendo dito "talvez outra hora"… não consegui responder. Quando deixei passar um pouco, mais mensagens chegaram.

Yuri: Por que você não responde?

Yuri: Ei

Yuri: Ei??

— Ei.

— Uaa!?

De repente, alguém falou atrás de mim e eu pulei de susto. Ao me virar, encontrei Hinako-sama de pé, com os olhos semicerrados de sono.

— V-Você estava acordada?

— Quem é essa?

— Hã? …Ah, é só uma amiga de infância que estudava comigo no mesmo colégio…

— Hmm.

Com essa resposta carregada de significado, Hinako-sama estendeu a mão em direção ao meu celular. Achei que ela queria pesquisar algo na internet, então entreguei o aparelho—

— Confiscado.

— Hã?

Segurando meu celular, Hinako-sama mergulhou debaixo das cobertas.

— Com isso, minha paz está garantida…

— Paz…? Ei, devolve isso.

— Não.

De costas para mim, Hinako-sama falou:

— Eu não gosto desse jeito de falar.

— Hã?

Jeito de falar… ah, ela quer dizer o tom educado?

— Volta a falar como antes.

— Mas…

— Se não voltar, você está demitido.

Isso é autoritário demais…

— Assim?

— É. …Assim está melhor.

— Mas a Shizune-san me disse para ser mais educado…

— Eu falo com a Shizune amanhã.

Se ela diz… então deve estar tudo bem. Amanhã eu confirmo isso diretamente com a Shizune-san.

— Itsuki.

— O quê?

— A partir de amanhã… conto com você.

Com um sorriso gentil, Hinako-sama disse isso. Por um instante, fiquei tão hipnotizado pela expressão dela que demorei a responder.

— Tá.

Aparentemente satisfeita com minha resposta, Hinako-sama voltou para debaixo das cobertas—

— Ei, espera! Se vai dormir, pelo menos volte para o seu quarto!

A ojou-sama já estava profundamente adormecida.

Ela é o Nobita, por acaso…? NOTA

 


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