Volume 3
Capítulo 28
Dia 12 | Ano 1***
09:00 AM
Após dias e noites consumidos por torrentes incessantes de chuva, o grupo de caçadores, liderado pelo viking montado em seu robusto corcel negro, avançava pela trilha encharcada que levava à floresta. Os raios de sol rompiam denso dossel e filtravam-se em finos feixes dourados, iluminando folhas cintilantes e poças reluzentes.
O ar carregava o perfume fresco da terra molhada, junto ao aroma vivo das folhas recém-lavadas.
Toph e Deron cavalgavam logo atrás, seus cavalos carregando a pesada caça ensacada e pingando. Rony, sempre alerta, observava as planícies distantes, onde vastos campos se espalhavam em ondas verdes pontuadas por florestas cerradas e pequenas propriedades.
Ao longe, casas de campo se destacavam como minúsculos pontos brancos, algumas com moinhos de vento girando preguiçosamente sob a suave brisa de uma manhã refrescante. E entre essas casas, uma chamou a atenção. Desgastada pelo tempo, com vinhas e rosas entrelaçadas ao redor da entrada, parecia quase uma pintura saída de um conto antigo. Mais à frente, uma figura diminuta corria com algo nos braços — uma cesta de amoras.
O grupo seguia ao ritmo dos cascos que esmagavam o solo amarelado e macio. Rony, estreitando os olhos, fixou-se em outra figura à distância: uma mulher com vestido e avental surrados, botas cobertas de lama e um lenço envolvendo seus cabelos.
Ela estendia grandes lençóis brancos em um varal improvisado.
— Ei, pessoal — chamou ele, curioso. — Aquela não é a senhorita Rose?
Anthony ergueu a cabeça, seguido pelos outros.
— Oh, é ela! — exclamou Toph com um sorriso largo. — Senhorita Rose! — Ele ergueu o braço, bradando.
A mulher se virou, surpresa, os olhos arregalando-se ao reconhecer o grupo. Ainda assim, manteve-se tranquila enquanto prendia o último lençol ao varal.
— Olá! — saudou, levantando o braço em um aceno. — Edy, venha aqui — disse suavemente, segurando a mãozinha da menina ao seu lado.
O grupo parou, observando enquanto Rose descia a colina com passos firmes, acompanhada pela garotinha.
— Ela está vindo — comentou Toph, ajustando as rédeas do cavalo. — E está com uma menina.
— Filha dela, talvez? — ponderou Rony.
Anthony, com seu olhar frio, murmurou:
— Se parece com ela.
Entre eles, Deron desmontou em silêncio, caminhando até Toph, e sua voz, baixa e grave, continha um tom de advertência, dizendo:
— Ainda tem coragem de chamá-la depois do que fizemos?
— E por que não? — retrucou Toph, despreocupado. — Ela nos trouxe o que estávamos caçando. Deveríamos agradecer.
Contudo, Deron manteve o rosto impassível.
— Devíamos partir logo — sugeriu. — É perigoso continuar nessa cidade.
— Não ainda — interrompeu Anthony, descendo de seu cavalo. — Ainda precisamos encontrá-lo.
— Quem? — indagou Toph, confuso.
Anthony estreitou os olhos.
— O homem que prometeu duas moedas de ouro para pagar sua dívida aos mercenários do império.
Toph bufou, mas antes que pudesse replicar, Rose e a menina já havia se aproximado.
— Olá, senhores — cumprimentou.
— Já faz um tempo — disse Toph com um sorriso largo, apertando a mão dela.
— Como tem passado? — perguntou Rony, inclinando-se ligeiramente.
— Bem, obrigada. E vocês?
— Sobrevivendo — respondeu Anthony, seus olhos atentos na menina que se escondia timidamente atrás da mãe. — E quem é a pequenina?
— Ah, esta é minha filha, Edwynna. Edy, querida, venha conhecer os senhores. Estes são Rony, senhor Anthony, Toph...
— Olá! — saudou Toph, animado.
— E... Deron — completou ela, o olhar hesitando sobre o homem calado que a observava com intensidade.
— Algum problema? — perguntou Rose, desconcertada pelo olhar.
Deron, imóvel, apenas respondeu:
— É a primeira vez que a vejo com os cabelos presos e cobertos.
Foi um comentário inesperado, porém divertido, que a fez rir, surpreendendo-a a si mesma.
— Tenho certeza de que não é a primeira vez que vê uma empregada — brincou com um sorriso discreto.
E, de alguma maneira, o sorriso dela foi a chave que Deron buscava para transpor as barreiras, permitindo-lhe ser ainda mais audacioso.
— Está certa, mas não uma tão bonita — disparou, como se a frase fosse a mais simples e natural a se dizer.
Rose piscou, enquanto uma breve cor tingiu-lhe as bochechas, mas ela manteve a compostura.
— Obrigada...
Os caçadores se entreolharam, ao tempo que o ar ao redor se tornou denso com um silêncio desconfortável. Até mesmo o canto dos pássaros parecia ter se extinguido momentaneamente.
Toph limpou a garganta, quebrando a tensão como um vidro que se estilhaça no chão, e em seguida, a voz da menina soou entre eles.
— Mamãe, cadê ele? — perguntou à frente de Rose, puxando levemente a bainha do vestido da mãe.
"Ele?"
Rose franziu a testa, sem entender. Os outros caçadores também pareciam intrigados.
— Quem?
— O homem forte e bonito de cabelos escuros, com o cavalo grande e fofo — explicou a criança, com a inocência de quem fala apenas verdades. — Eu quero passear com ele.
O grupo trocou olhares confusos, exceto Rose, cuja expressão endureceu.
— Ela está falando do Asher? — perguntou Rony, genuíno.
Rose engoliu em seco, e um lampejo insatisfeito cruzou seu olhar.
— Por favor, eu peço que evitem falar nesse nome.
O mais velho e viking, com sua robusta barba, fitou os companheiros. "Outra briga?" — imaginou.
Mas pela expressão dela, foi mais feia do que Lukas contara.
Toph pensou em abrir a boca para fazer uma pergunta indiscreta, mas Deron, em um tom calmo, tomou a liderança.
— Entendemos — disse, com um raro toque de empatia em sua voz. — Precisamos ir para a cidade.
Rose hesitou, mas logo voltou a sorrir, mantendo a cordialidade:
— Quando meu marido voltar, vocês gostariam de tomar um café em casa?
— Ora, seria uma honra, senhorita Rose. Que tal amanhã à tarde? — concordou Anthony, estranhamente cooperativo.
E então, Rose assentiu com entusiasmo.
— Por mim, está bem! Vamos, Edy. Temos uma casa para arrumar para nossos visitantes.
A menina avançou em direção à casa, rindo alegremente, e Rose acenou uma última vez antes de seguir a filha. Assim que a mulher desapareceu atrás da porta de madeira gasta, Rony cruzou os braços e soltou uma provocação:
— Com uma mulher dessas, até eu viraria ladrão.
Anthony sorriu de canto.
— Será que ela e o marido transam todos os dias? — questionou Toph, sem pudor, apenas para receber um soco direto na cabeça vindo do irmão.
— Não seja mal-educado!
— Ai!
Enquanto a discussão ocorria, Deron observava a casa à distância, com um brilho indecifrável em seus olhos.
— Ela não parece ser uma mulher que gosta de homens brutos — comentou, espontâneo.
Rony arqueou uma sobrancelha.
— Como você sabe?
— Não sei — respondeu Deron, com indiferença.
— Então por que diria algo assim? Ela é filha de uma prostituta, não? Vai saber...
Deron apenas sacudiu a cabeça.
— É apenas o que acho.
Em qualquer caso, Anthony não estava particularmente curioso sobre como um marido tratava sua esposa, e com um movimento fluido e único, ele montou seu cavalo.
— Um amor que te destrói e aprisiona… é amor de verdade? — instigou, reflexivo.
— Bem, pessoas matam por amor — murmurou Rony. — E acredito que o marido dela não hesitaria em nos matar se soubesse quem somos… ou quem estamos procurando.
Anthony puxou as rédeas, o rosto indiferente.
— Isso não importa. Seja lá quantos homens aquele bastardo enganou, torturou e matou.
A última palavra reverberou no ar, fria como uma pedra, e cortante como a lâmina de sua faca de bolso.
— Nós o encontraremos. — completou Anthony, antes de dar um leve chute no flanco do cavalo, guiando-o em direção à estrada.
Os caçadores seguiram em silêncio, cada qual imerso em seus próprios pensamentos sombrios.
Era comum que homens com dinheiro contratassem outros para fins obscuros. Matar, roubar — ações que, para muitos, não passavam de meros sinônimos de destruição. Mercenários e, às vezes, até mesmo caçadores se envolviam nesses trabalhos sujos, tornando-se sombras temidas nas matas.
Quantos daqueles que caçavam javalis e cervos não eram, na verdade, predadores de sangue humano?
Ainda assim, "assassinos" não era o termo correto para todos. Muitos caçadores eram honestos, como aquele que entregava dois pés de coelho a um comerciante e recebia quatro moedas de prata por um trabalho justo. Eles viviam pela caça, não pelo sangue.
Mas havia um que se destacava.
Seus cabelos negros eram inconfundíveis, como a noite sobre um céu sem estrelas. Sua altura o fazia sobressair entre os demais homens, uma presença que parecia moldada para comandar olhares e inspirar receios. E seu nome…
— Asher!
O homem parou. Ele girou sobre os calcanhares, os olhos azuis procurando a origem da voz feminina que se escondia entre o aglomerado de pessoas que trafegavam pela feira.
Uma mulher corria em sua direção.
Antes que Asher pudesse reagir, ela se lançou contra ele, envolvendo-o com força, seu rosto afundando no peito largo.
— Senti sua falta! — exclamou Kristy, a voz abafada contra o tecido aquecido.
O toque dela era feroz e íntimo, como o de alguém que não permitiria que ele se afastasse novamente. Por um instante que pareceu eterno, Asher permaneceu imóvel. Então, seus braços finalmente se ergueram, envolvendo-a em um gesto sutil, porém contido.
— Oi, Kristy — disse Asher, a voz um pouco rouca, quase desinteressada. Seus olhos cravaram-se nela por um breve momento antes de vagarem pela multidão ao redor. — O que faz na cidade?
— Não é porque eu odeio lugares cheios que eu não sou obrigada a frequentá-los — folgou. — Estou com Lukas na taverna. Não quer descansar um pouco?
— Estou ocupado. — Asher ajustou o aperto na alça de couro desgastado da bolsa que carregava. — Vejo vocês mais tarde.
— Promete? — provocou, inclinando levemente a cabeça, como uma raposa prestes a pregar uma peça.
— Eu prometo. — Asher ergueu a mão e, com um toque inesperadamente gentil, bagunçou os fios de cabelo da cabeça dela, arrepiando-os. — Até logo.
— Ei... espere! — A voz dela se ergueu.
A mão de Kristy agarrou seu braço com determinação, mas Asher, sem perceber, quase a arrastou junto ao primeiro passo decidido que dera.
Ele parou, um pouco insatisfeito. — O quê?
— Aquele... — Kristy apontou para a fonte cercada por uma multidão, onde o murmúrio constante da cidade se misturava ao som de água corrente. — Não é o marido da sua amiga?
O olhar de Asher seguiu a direção indicada. O soldado de guerra, herói e merecedor de todos os títulos nobres que eram de seu direito, estava sentado na borda da fonte. Seus ombros estavam relaxados enquanto lia um papel amarelado — uma carta, talvez, que os ventos insistiam em tentar roubar de suas mãos.
— E daí? — Asher perguntou com indiferença que não permitia espaço para perguntas. — Vamos, eu preciso ir.
Ele puxou o braço, libertando-se do toque dela. Entretanto, ao considerar que pudesse dar outro passo, a voz abafada de Kristy o deteve.
— Eu já dormi com ele.
As palavras pairaram no ar, afiadas como lâminas invisíveis. Uma sensação estranha cortou através de Asher. Não era raiva. Não era surpresa. Não era sequer ciúme. E, no entanto, algo em seu peito se contorceu, um incômodo inexplicável.
— E você gostou? — A pergunta saiu mais curiosa do que um verdadeiro interesse.
— Está com ciúmes? — Ela sorriu, a provocação evidente.
Ele não respondeu. Sua expressão apática era impenetrável.
— Ele foi um pouco rude e não abriu os olhos uma única vez. — Ela dobrou os braços sobre o peito. — Devia estar ansioso e não conseguiu esperar até o casamento.
Asher respirou fundo, como quem se lembra de algo que preferia esquecer. Isso não era da sua conta. Ele já havia decidido que a vida dela não o pertencia mais. E quanto mais tentava esquecer, mais o universo conspirava contra sua sanidade. Ainda assim, o comentário reverberava dentro dele de formas desagradáveis, difíceis de ignorar.
— Deveria dizer a ela — propôs Kristy.
— Dizer o quê?
— Que ele dormiu com outra mulher.
— E o que você espera que eu ganhe com isso?
— A mulher que você sempre quis.
Asher franziu levemente a sobrancelha, uma faísca de surpresa em seus olhos.
— Isso é besteira.
Sim, uma grande tolice, estava convicto, apesar de Kristy ter notado um leve fio de hesitação cruzar nos olhos de alguém, que outrora, parecia tão determinado.
— Você está enganando a si mesmo se acha que destratá-la vai mudar alguma coisa.
Ele a encarou em silêncio, a tensão crescendo como uma corda esticada prestes a se romper. Era um assunto... pessoal demais. Uma informação que ela, com certeza, não deveria saber.
— Bem... eu e Lukas conversamos um pouquinho.
O nome fez o maxilar de Asher se contrair, mas ele não disse nada.
— Ele não está errado. — Kristy tocou na mão dele, gentil. — Enquanto você não olhar para frente, vai continuar preso no passado.
Houve um momento de quietude entre eles, uma calmaria estranha em meio ao caos da cidade.
— O que nós dois fizemos juntos não pode ser mudado, e nossas escolhas nem sempre levam a caminhos seguros. Mas, acredite, o que ficou para trás não nos interessa mais.
Sua mão deslizou pelo peito dele, até descansar sobre o coração.
— Você encontrará paz quando se permitir vivê-la. — Ela sorriu, seu olhar sincero. — E nós estaremos aqui para sermos a paz que você precisa.
Acompanhe também…
Príncipe de Olpheia.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios