Volume 3
Capítulo 27
Dia 6 | Ano 1***
21:55 PM
Mais uma vez, o sol se despedia entre as planícies úmidas de um dia que parecia se afundar em uma maré profunda de gotas incessantes. A chuva continuava intensa, rangendo contra as telhas gastas, tentando afastá-las, mas a voz tensa de Timothy não era mais alta que os relâmpagos que caíam na floresta; trêmula como a chama das velas, e cortante como os raios que iluminavam as montanhas.
— Eu procurei você por horas! — ele bradou, uma de suas mãos subindo para os cabelos, enquanto a outra repousava na cintura. — Por que você fez isso?!
— Eu já disse! Eu… eu tentei ajudar aquele homem! — retrucou, embora não ousasse erguer a voz, apenas mantendo num tom suficiente para mostrar sua insatisfação.
— Havia caçadores na floresta! Caçadores que poderiam confundi-la como um desses espiões!
— Ele é um pai de família! Ele só queria achar o remédio que sua esposa precisa! — Ela apertou as mãos sobre o tecido de seu vestido gasto e surrado. — Eu fiz o que ele me pediu. Que culpa eu tenho se ele não voltou? Deve estar esperando a chuva passar!
— Não seja tola! — condenou, a voz mais séria. — Edwynna estava muito assustada!
— E daí?! — rebateu Rose, a dor e a sensação de injustiça crescendo no peito. — Eu agi como deveria ter agido! Eu fiz o que poderia ser feito! Eu consegui contornar a situação, e tudo que você fez foi chamar aquele homem, porque você não conseguiu nos salvar sozinho!
— “Aquele homem?” — questionou, apático. — Um tempo atrás, tal homem era seu amigo. O que aconteceu entre vocês para que ele a tratasse com tanto desdém?
Havia um pingo de provocação na língua dele, Rose conseguia sentir, ali, disfarçado, embora tivesse ignorado ao levantar-se e sair de sua presença.
— Está fugindo do assunto, como sempre! — cutucou Timothy, mas ela não reagiu.
Ela não ergueu a voz para ele. Ela… não fez nada.
Timothy agarrou o braço dela, vendo aqueles olhos dourados perderem seu brilho intenso enquanto fugia dele.
— Eu… não quero brigar. Me desculpe. — Soltou-a gentilmente. — Pedi para que Asher me ajudasse porque eu sei que ele a ensinou a se virar. Eu não conheço a floresta como vocês, e também, fiquei preocupado se houvesse mais homens por perto. O que eu poderia fazer, sozinho, e sem conhecer o lugar onde estou? Ele era minha única alternativa de te resgatar.
Rose, invés de sentir conforto em suas palavras, apenas virou o rosto.
— Me saí muito bem! — Ela o repeliu.
Timothy, sem entender tanto desprezo, apenas questionou:
— Por que está tão irritada? — Ele analisou a expressão dela. Os olhos semicerrados, as sobrancelhas franzidas mais que o normal, e seu lábio inferior um pouco trêmulo.
Rose não o encarou, muito menos esboçou qualquer reação que denunciasse sua postura cabisbaixa. Ainda assim, ela moveu os lábios, respondendo:
— Estou cansada. — Rose olhou as velas da estante, em seguida, para ele. — Vamos esquecer isso, pelo bem de Edy. — Ela esfregou as mãos nos braços, buscando o calor, ou, de algum modo, o conforto que o toque dele não conseguia lhe trazer.
Timothy não conseguiu se mover, ou correr para os braços dela, como sua mente lhe dizia. Na realidade, o aperto que estava sentindo dentro de si, e o frio na barriga, era uma estranha sensação que o dizia que estava prestes a perdê-la. Apesar disso, ele ouviu seu pedido.
— Tudo bem. Ela está dormindo agora. — Ele caminhou ao lado dela. — Vivian preparou o jantar antes de sair… Vai esfriar. É melhor se apressar — alertou, saindo do quarto.
Enquanto Timothy atiçava a lenha, o crepitar do fogo parecia ecoar como um tumulto em seu coração.
Rose permaneceu imóvel, as mãos firmes no tecido surrado de sua saia, como se agarrar-se àquele pedaço de pano pudesse conter o redemoinho de emoções que a consumia. Não era a repreensão dele que a perturbava. Não. Palavras duras eram familiares — vindas de sua mãe, que tantas vezes despejou suas frustrações em reclamações, ou de Timothy, que, mesmo com as melhores intenções, sempre oferecia conselhos práticos, soluções lógicas.
O casamento entre eles fora uma dessas soluções.
“Proteja sua reputação”, diziam alguns. Especialmente quando o boato da “filha da melhor prostituta” vagava de boca em boca, tornando Rose tão disputada quanto sua mãe.
Vivian não permitiria tal destino, mesmo que isso custasse a vida do filho que carregava no ventre. Uma criança fruto de um erro, de um deslize que Rose, antes, amaldiçoava. Timothy, no entanto, mudara tudo. Ele fora a melhor opção. Filho de um senhor feudal, soldado e herói de guerra, Timothy havia honrado seu país e, depois, retornado a ela. Ele jurou protegê-la. Jurou amá-la. E, contra todas as expectativas, casou-se com ela — a filha de uma vadia.
O peito de Rose apertou-se em dor, um nó se formando em sua garganta. Ela estava cansada de imaginar um mundo sem Timothy. Cansada de pesadelos em que ele não estava lá para apoiá-la, para cuidar de sua irmã; uma criança que cresceu sem pai, mas que tivera a sorte de receber o carinho de um homem melhor do que ela mesma jamais conhecera.
As lágrimas começaram a cair antes que pudesse contê-las. Elas deslizavam por suas bochechas, quentes e salgadas, enquanto soluços silenciosos cresciam em sua garganta como o trovão no céu escuro. Ela não tinha o direito de estar irritada com Timothy. Não com ele. Mas seu coração, tolo e ferido, não conseguia compreender porque doía tanto.
Timothy sempre fora gentil. Sempre amável e compreensivo. Ele não merecia aquilo. No entanto, seus pensamentos voltavam-se para os olhos dele. Olhos verdes que espelhavam um bosque encantado, como nos contos de fada, mas que, de repente, pareciam refletir o gelo de um lago congelado.
Eram os olhos de um amigo que crescera ao seu lado, e, de surpresa, a expressão indiferente de Asher tomou conta de sua mente.
A lembrança de como a amizade entre eles florescera em meio à dor dos abusos que ambos testemunharam a consumia. Além disso, trazia o gosto amargo de traição.
Ele sempre soube que ela jamais esqueceria do tom de sua voz.
“Você é idiota?”
Foi a primeira coisa que ele lhe dissera quando a encontrou largada na floresta, coberta de lama, os cabelos desgrenhados e as mãos feridas. Ele parecia cego ao seu estado, ou talvez simplesmente não se importasse. Agora, ela entendia. Ele havia pedido para que ela o tratasse como um estranho.
Um estranho…
Rose ergueu os olhos, a visão turva pelas lágrimas, e encontrou Timothy olhando-a da cozinha. Seus olhos estavam sombrios, mas gentis, e, embora ele não dissesse nada, o silêncio era resposta que ela buscava.
O “estranho” que costumava sorrir para ela, que fazia de tudo para vê-la sorrir, desapareceu.
Em raras ocasiões, Rose se lembrava de vagar pela cabana de Asher, de vê-los, mais jovens, correndo em direção à ribeira. Ela nunca soube a razão de sempre vê-lo distante, mas não distante dela, mas de sempre vê-la a distância, como se estivesse enxergando algo valioso, talvez sua mente quisesse acreditar nessa mentira. Ou, fossem seus olhos que espelhavam a cor das moedas que ele lutara para conseguir, para sobreviver e viver longe do pai que lhe espancava.
Por sete longos anos, ela se perguntou por onde ele esteve, se sentia frio, se precisava de um abraço… como ela precisava.
Timothy suspirou profundamente, e então abriu os braços. Foi tudo o que precisou fazer.
Rose correu até ele, lançando-se em seus braços como uma tempestade, seus dedos enroscando-se na camisa dele enquanto soluçava com força. Seu pranto era o de uma criança reencontrando a mãe após uma longa ausência.
Ele a segurou firme, envolvendo-a com o calor que ela tanto ansiava.
Ele beijou sua cabeça, e naquele momento, o mundo finalmente se aquietou, bem como a tempestade que outrora ameaçava varrer as folhas e galhos da floresta, dissipando o aperto em seu coração.
Horas se passaram até que o sol, tímido, emergisse novamente entre as colinas cobertas de névoa, banhando a floresta em uma luz dourada que brilhava sobre as gotas de chuva restantes. A noite anterior foi acompanhada pelo som rítmico e furioso da tempestade, que trouxera um conforto peculiar. Era o cheiro da terra molhada, da grama macia ainda fresca sob a umidade e dos troncos de árvores, ainda irrigado.
Asher conhecia bem aquele aroma; era quase uma memória viva para ele.
Os sons da manhã preenchiam o ar. O gotejar constante das folhas formava uma sinfonia, com o suave eco dos pingos nas pequenas poças espalhadas pela floresta. Esquilos saíam de suas tocas, astutos, enquanto os grilos teimavam em continuar sua monótona melodia. A repetição insistente o irritava, principalmente pelo que ele simbolizava: o passar do tempo; das horas que tinha que explorar, até caçar. Prazos com comerciantes que ele não poderia ignorar.
Com o arco firme em sua mão, Asher atravessava o mato alto, os olhos atentos, a mente afiada. Procurava por algo, qualquer coisa que pudesse interromper o ritmo pesado de seus passos na lama. Seu rosto estava mais sério do que de costume, as sobrancelhas franzidas devido ao peso de pensamentos que ele se recusava a articular. O calor, mesmo em uma manhã tão fresca, era opressor, encharcando seu pescoço e fazendo o suor escorrer pelas laterais do rosto.
As mechas de cabelo, agora mais longas, grudavam na pele, e o desconforto parecia aumentar a cada passo. Mas ele continuava, mais rápido, mais determinado, como se pudesse escapar do passado que ameaçava invadir sua mente.
Então, de repente, um som.
Com um movimento fluido e instintivo, Asher puxou uma flecha de sua aljava, encaixando-a no arco. Seus olhos fixaram-se na moita trêmula, e seu corpo assumiu a postura de um predador em perfeita concentração. Ele esperou, seus músculos prontos para agir.
Quando o pequeno animal surgiu — uma lebre, frágil e indefesa —, ele sentiu seus dedos se alinharem com precisão, os braços firmes, e por um instante, ele esteve à beira de disparar.
Porém, hesitou.
A respiração pesada escapou de seus lábios, e seus ombros cederam, relaxando à própria decepção. Ele baixou o arco, os olhos fixos na lebre que, alheia ao perigo, que continuou seu caminho lentamente.
— Merda! — bradou, passando a mão pela testa para limpar o suor acumulado.
Mas a visão do animal fugindo trouxe outra imagem à sua mente, uma que ele não conseguia apagar.
O rosto pálido de Rose, seus olhos assustados, brilhando como vaga-lumes sob a luz fraca do final da tarde. Ele se lembrava com clareza da maneira como as mãos dela tremiam, manchadas de lama e arranhões, e do tom de sua própria voz quando a confrontara.
“Você é idiota?!”
Contudo, era a expressão dela — desesperada, quebrada — que mais o incomodava.
Timothy estava por perto. Asher sabia disso, mas ela não.
No entanto, por um segundo, enquanto ela corria em sua direção e o agarrava com força, o mundo parecia ter parado.
Ela se aninhou contra ele, buscando calor, proteção… O coração dele doía no peito, e seus braços, instintivamente, quase se moveram para segurá-la, para carregá-la e envolver as pernas dela em sua cintura, para que não o deixasse escapar.
Ele não podia. Não devia.
Asher a afastou.
O olhar que ela lhe lançou — ou talvez o que ele imaginou estar lá — o assombrava.
E assim, seu herói surgiu, como um brilho cegamente encantador.
Asher não conseguia esquecer a maneira como ela segurou as madeixas ruivas do marido. Ela estava tão feliz… Finalmente, segura.
E se Timothy não estivesse lá? — Asher se perguntou, fitando as palmas das mãos, e os pequenos calos.
Onde suas mãos estariam? E… por onde seus lábios…?
As Perguntas que se acumulavam como um verdadeiro pesadelo, sempre rondando sua mente, sempre puxando-o para um abismo escuro. Mas a voz familiar o arrancou de suas memórias.
— Ei, olha o que eu peguei! — disse Lukas, segurando um pato-selvagem pelo pescoço, abatido, o sangue ainda escorrendo. — Vamos ter cozido hoje? — Ele sorriu de orelha a orelha.
Asher suspirou, um som quase inaudível, mas os cantos de seus lábios se ergueram levemente.
— Vai me pagar por isso? — perguntou, guardando a flecha.
— Que tal um beijinho? — Lukas fez um biquinho exagerado, rindo enquanto se aproximava.
Foi então que, no balançar da cabeça, Asher permitiu-se um sorriso.
Acompanhe também…
Príncipe de Olpheia.
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