Volume 4 – Vol 4

Prólogo

── 13 de setembro - Perspectiva de Ai ──

   No carro, no caminho de volta do túmulo, ficamos de mãos dadas o tempo todo. Eu tinha medo de contar a verdade para ele porque havia mentido. Não consegui contar algo importante, e mesmo assim ele continuou tão gentil quanto sempre. O alívio me fez chorar. Talvez fosse porque muitas coisas haviam acontecido hoje, mas eu estava exausta.

   Ficamos em silêncio durante toda a viagem, apenas de mãos dadas. Não dizíamos nada, mas aquele silêncio era estranhamente confortável, e eu sentia como se ele tivesse me libertado, mesmo que só um pouco, do que me atormentava há tanto tempo.

“Senpai, só por um instante.”

   Depois de dizer isso, apoiei a cabeça no ombro dele. Podia sentir seu calor enquanto lentamente caía no sono.

 

 

※※※

 

   Talvez fosse porque me sentia segura. Assim que o fio da tensão se rompeu, adormeci imediatamente. Quando acordei, a paisagem do lado de fora da janela me dizia que estávamos quase chegando à minha casa.

   Eu havia dormido o tempo todo, protegida no ombro dele.

   Os outros dois ainda não haviam notado que eu estava acordada.

“Obrigado, Aono-sama.”

   Kuroi falou de repente. Preocupada que eu fosse ouvir algo que não deveria, decidi manter os olhos fechados.

“Não fiz nada que mereça seu agradecimento.”

“Mesmo assim, a jovem mestra começou a sorrir muito mais desde que conheceu você. Você conseguiu em pouco tempo o que não conseguimos em vários anos.”

   Suponho que devo ter feito Kuroi se preocupar bastante também.

   Senpai escolheu suas palavras com cuidado, tentando não deixar o clima ficar muito pesado.

“Na escola, a Ai-san é chamada de anjo ou idol, sabia? Ela é linda, elegante e quase dolorosamente frágil. Mas esse corpo delicado carregou um fardo tão pesado. A maioria das pessoas teria sido esmagada por ele.”

   Sua mão grande era quente. Ele era tão gentil e me entendia completamente. Eu queria acreditar que nosso encontro havia sido obra do destino.

   Kuroi também parecia sentir sua gentileza. Sua voz estava mais suave que o habitual.

“Isso também é graças a você. A jovem mestra se iluminou desde o dia em que o conheceu. Acredito que, até então, ela estava se esforçando ao máximo para continuar interpretando o papel da garota ideal, Ichijou Ai. Pouco a pouco, ela começou a voltar ao seu eu natural. A jovem mestra de antes de perder a mãe voltou para nós. Como servo, pode ser presunçoso da minha parte dizer isso, mas é algo que me deixa feliz. A jovem mestra finalmente poderá voltar a ter uma vida em que possa ser feliz. Isso é graças a você.”

   Ele costumava ser tão quieto e mal falava. Eu nunca soube que ele se importava tanto comigo. Isso aqueceu meu coração.

“Obrigado. Mas isso não teria sido possível sem o apoio de vocês e dos outros, Kuroi-san. Incluindo a falecida mãe da Ai-san. Graças a todos vocês, a Ai-san aprendeu a se importar com os outros. Porque todos a apoiaram, a Ai-san conseguiu chegar até aqui. E porque a Ai-san é uma garota tão gentil, creio que ela foi capaz de me salvar quando eu estava no fundo do poço. Desculpe se isso soou um pouco condescendente vindo de um estudante do ensino médio.”

“De modo algum. Nós falhamos em cumprir nossos deveres como adultos. Não podemos tratá-lo como uma criança, Aono-sama, quando você conseguiu fazer o que nós não conseguimos. Por favor, continue cuidando da jovem mestra.”

   Pensando na boa vontade das pessoas que sempre me apoiaram, segurei desesperadamente as lágrimas.

 

※※※

 

   Eu me despedi dele em frente ao Kitchen Aono. Fui convidada para comer junto, mas recusei, dizendo que queria um tempo para organizar meus sentimentos.

   Eu estava cansada.

   Estava feliz por ele ter me aceitado, mas ainda estava nervosa, e era a primeira vez que eu mesma falava sobre minha mãe, então havia sido muito doloroso.

   Troquei de roupa para algo confortável e afundei no sofá.

   Por algum motivo, senti que agora conseguia até me lembrar das coisas que odiava recordar.

   Depois que minha mãe morreu e fui liberada do hospital... eu ainda não conseguia ir à escola, mas achava que estava me esforçando para lentamente recuperar minha vida normal.

   Depois que recebi alta, comecei a receber ligações de um número privado à noite. No começo, ignorei. Achei que pudesse ser da mídia. As ligações eram tão persistentes que acabei atendendo uma sem pensar.

   Assim que eu estava prestes a protestar “Já chega...”, ouvi a voz de uma mulher do outro lado. Ela disse: “Ai. Dói. Por que você deixou a mamãe para trás?” A voz claramente não era da minha mãe. Mas aquelas palavras facilmente reabriram as feridas no meu coração. A força deixou a mão que segurava o smartphone, e ele escorregou lentamente.

   Ouvi uma risadinha zombeteira do receptor antes de a ligação ser encerrada.

[Almeranto: Isso é de ferrar cara. Quem faz isso merece conhecer o diálogo.]

   Minha mente ficou em branco e eu não conseguia parar de tremer. Eu sabia que precisava pedir ajuda a alguém, mas as palavras que eu havia dito aos motoristas próximos depois do acidente ecoavam na minha cabeça.

“Talvez se eu não tivesse pedido ajuda naquela hora, poderia ter salvado a mamãe. Talvez tivesse sido mais fácil simplesmente morrer junto com ela do que pedir ajuda.”

   Assim que esse pensamento tolo me ocorreu, meu tremor se intensificou. Mesmo que isso significasse negar os sentimentos da minha mãe. Agarrando-me à minha angústia, fui para a cama. Tentei escapar para o sono. Eu havia torcido para conseguir pelo menos sonhar com minha mãe gentil, mas até isso me foi negado.

   Acho que, a partir daquele dia, comecei lentamente a caminhar em direção à morte. Só quando estava estudando que eu conseguia escapar da dor. Mas isso durava apenas um breve momento. Quanto mais eu tentava cobrir as feridas no meu coração, mais profundas elas se tornavam.

   Pensei que talvez, se entrasse no ensino médio e mudasse de ambiente e de nome, as coisas poderiam melhorar um pouco. Mas eu ainda era eu.

   Talvez alguém me visse como eu realmente era. Mas no final, só minha aparência e status chamavam atenção, enquanto minha eu verdadeira continuava sendo ignorada. Meu espírito se desgastava cada vez mais, e a doença fatal chamada desespero começou a se acumular em meu coração.

   Ainda me lembro do grito que deixei dentro do meu coração quando fui encurralada.

“Deus... o que mais preciso te dar para que você me perdoe? Perdi minha mãe, meu pai, e até as pessoas que eu achava que eram minhas amigas... O que preciso oferecer... O que preciso fazer para que você salve meu coração...?”

   O grito não alcançou ninguém. Não, isso estava errado. Eu não conseguia fazer com que ele alcançasse ninguém.

   Quando o problema de bullying com Senpai surgiu, acabei projetando a mim mesma nele. Meu coração quebrado já havia atingido seu limite. — Vamos acabar com isso. — Com esse pensamento, fui para aquele terraço.

   Saí pela porta para o terraço e caminhei lentamente para a frente. Naquela época, meu coração entorpecido não sentia medo, estranhamente. Mas agora que estou calma, entendo que eu estava realmente aterrorizada naquela hora. Eu deveria estar ansiando pela morte naquele momento, mas agora estou desesperadamente assustada.

   E então, ele me salvou. Fugimos da escola juntos, e ele me ensinou mais uma vez sobre comida deliciosa e o calor de uma família, e eu finalmente entendi. Eu tinha medo de morrer.

   Diante da morte, fiquei insuportavelmente assustada. A dura realidade e a injustiça de não poder mais pedir ajuda a ninguém. E então me lembrei novamente da gentileza de quem estendeu a mão para mim. Ele devia estar no próprio limite, mas ainda assim me salvou. Ele me resgatou do desespero quando eu não conseguia dizer as palavras “me ajude”. À beira da morte, eu queria que alguém me salvasse.

   Mesmo nessas memórias dolorosas, a última coisa que me lembro ainda é dele, meu símbolo de esperança. E mesmo assim, ele está sofrendo por causa do bullying. Pelo menos, quero acabar com isso. É verdade que, com a prisão do líder, a situação está se encaminhando rapidamente para uma conclusão. Mas ainda não sei muito sobre o assunto do manuscrito roubado dele. Não consigo acreditar que só o clube de futebol esteve envolvido nisso. O clube de literatura, além de Hayashi-san, deve estar profundamente envolvido.

   Então, como se tivesse percebido algo, me sentei. Naquela vez em que Senpai, Endo-san, Domoto-san e eu estávamos saindo... Senpai teve uma reunião com seu editor em um café no meio do caminho. Estava quente, então eu estava me refrescando em uma sorveteria próxima quando vi.

   Uma mulher saindo... Tenho quase certeza de que era a presidente do clube Tachibana, do clube de literatura. — Por que ela estava num lugar daqueles? Apenas coincidência? Não, isso seria conveniente demais.

   Em primeiro lugar, como ela vinha operando até agora? Eu só a reconhecia como a senpai dele no clube que, influenciada pelos rumores, havia jogado fora os pertences pessoais e o manuscrito de Eiji-senpai. Achei que ela seria punida assim que a investigação da escola progredisse, então não prestei muita atenção.

   Comparada ao líder, Kondo, e aos membros do clube de futebol, achei que ela não havia causado nenhum dano real.

     Você ainda planeja atrapalhar o caminho dele?

     Eu nunca permitirei isso.

     Pensando bem, como a Amada-san fez contato com o Kondo pela primeira vez? Ela foi apresentada por alguém? Se sim, qual era o motivo deles para apresentar uma mulher que já tinha namorado a um mulherengo como ele?

   Eu tinha um mau pressentimento. O problema de bullying talvez ainda não tivesse acabado. Se havia a menor chance de Senpai ser prejudicado... eu eliminaria essa possibilidade.

   A parte fria, calculista e sombria de mim que herdei dos meus pais. Normalmente eu a odiava, mas em momentos como este, eu era grata por ela.

   Peguei meu smartphone e fiz uma ligação.

“Kuroi, tem uma pessoa que preciso que você investigue...”

 


 

Resenha dos Tradutores | Revisores

 

– Almeranto: Cara, esse prólogo foi bem profundo, mesmo sendo curtinho. Em comparação com a web novel, aqui eles detalharam mais o sofrimento da Ai e, relendo essa parte da história novamente, ela sofreu demais. Acho que faz sentido ela ter chegado ao limite. A cena do telefone é forte…

– DelValle: Oho, enfim no volume 4 hein. Aoba Leitorada, não vou poder fazer uma análise comparativa que nem o Al por que não leio a WN, vou acompanhando a LN mesmo, nos seus passos. Mas anyway, parece que alguém entrou no raio de alcance da Ai. E sobre a parte dela, apesar de prólogo, está sendo muito bom para relembrar os últimos acontecimentos, ao mesmo tempo que podemos sentir um pouco do que ele viveu na própria perspectiva dela. Bem, foi curtinho, então ainda estou com fome, até o próximo cap!

 

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