Volume 3 – Vol 3
Capítulo 5
── Perspectiva de Ichijou Ai ──
Hoje, caminhamos juntos para casa mais uma vez. Eu queria que esse tempo durasse para sempre. Para mim, o tempo passado com o Senpai trazia de volta lembranças de quando eu havia sido feliz. Era um tempo precioso, envolto naquela gentileza e naquele calor. Claro, éramos estudantes do ensino médio, então não podíamos sair e brincar em algum lugar todos os dias. Mas, se eu estivesse com ele, mesmo apenas tendo conversas vazias e comuns como essa, eu ficava feliz.
Deveria ter sido assim…… mas a parte astuta dentro do meu coração sussurrou palavras diabólicas. “Desse jeito, será que ele não vai te deixar algum dia, não importa o quão gentil ele seja? Você foi até abandonada pelo seu verdadeiro pai”, dizia.
Eu deveria estar feliz, e ainda assim meu peito começou a doer. Eu queria monopolizar esse tempo para sempre. Se o talento dele se espalhasse para todo mundo desse jeito, alguma outra mulher poderia tentar se aproximar dele.
Eu odiava isso. Meu coração foi abalado por uma possessividade demoníaca. E, seguindo isso, as palavras escaparam.
“Senpai. Quer passar na minha casa hoje?”
Hoje tinha ficado um pouco tarde, então o sol já havia começado a se pôr. Era verdade que eu o havia convidado para minha casa no nosso primeiro encontro, mas nosso relacionamento tinha se aprofundado desde aquele dia. Por isso, eu havia colocado mais significado nessa sugestão do que naquela época. E ainda doía, porque, para mim, isso significava que eu estava fugindo. Junto com uma vaga expectativa de que talvez pudéssemos fazer nosso relacionamento avançar desse jeito, eu até sentia o quão injusto era o fato de uma parte de mim querer isso.
Mesmo que eu nunca tivesse me apaixonado por ninguém, eu sabia em que direção as coisas poderiam ir se eu dissesse algo assim. Eu havia tomado cuidado para nunca dizer isso a nenhum homem além dele.
Por um instante, ele pareceu confuso. Ainda assim, me deu um sorriso gentil.
“Então… só um pouco.”
Quando ele disse isso, minha razão voltou. Até eu achava que tinha feito algo absurdo. Convidar a pessoa de quem eu gostava para dentro da minha casa — ainda mais à noite. Aquilo definitivamente era um movimento proibido. E eu morava sozinha. Até a ajudante estava de folga.
Deixar alguém entrar na minha casa quando eu o conhecia havia pouco tempo era perigoso demais.
Mas, mesmo da última vez, a sirene de alerta racional dentro de mim não tinha disparado.
Porque o homem que eu havia convidado era o Senpai.
Ao longo dessas últimas semanas, eu tinha presenciado a verdadeira natureza dele. Uma pessoa gentil que tentava ajudar aqueles que estavam sofrendo, mesmo que isso o colocasse em risco. Uma pessoa forte que conseguia continuar avançando sem desistir, mesmo em uma situação tão desesperadora. E alguém cujo caráter fazia com que as pessoas ao redor estendessem a mão para ele imediatamente quando ele estava sofrendo.
Havia muitas pessoas ao redor dele que tentavam ajudá-lo sem sequer se importar com as próprias desvantagens. Isso só podia ser prova de que ele sempre havia tratado os outros dessa maneira. Tinha sido assim também quando ele me ajudou. Eu tinha certeza de que ele vinha estendendo a mão para outras pessoas o tempo todo. Era por isso que, mesmo quando ele estava cercado de inimigos, seus verdadeiros amigos haviam permanecido.
“Você é incrível, mesmo sendo só um ano mais velho do que eu…”
Quando eu estava sozinha, eu sempre acabava pensando nele.
Do ponto de vista das outras pessoas, elas provavelmente achavam que eu era alguém que tinha tudo — dinheiro, talento, popularidade. Mas a coisa que eu realmente queria tinha permanecido perdida desde o momento em que se quebrou uma vez.
Eu o invejava por ser abençoado com pais e amigos no verdadeiro sentido. A maneira como ele tinha aquilo que eu queria e valorizava isso parecia deslumbrante.
E ele até me deixou entrar nesse círculo. Ele me deu aquilo que eu queria, mesmo que fosse de uma forma diferente.
Foi por isso que eu achei que tinha passado a gostar dele.
Porque ele salvou a minha vida…… sim, isso também foi algo enorme. Mas, em um nível mais fundamental, eu gostava dele.
Pegamos o elevador do prédio até o meu andar. Eu estava nervosa, e o Senpai também. Então ficamos em silêncio o tempo todo. Mas, estranhamente, até aquele silêncio tinha em algum lugar uma sensação confortável de tranquilidade. Minhas emoções estavam uma bagunça hoje. Eu estava cheia de contradições.
“Senpai, você está nervoso? Entrar na casa de uma garota à noite, quero dizer…… dá uma sensação de estar fazendo algo que não deveria, não é?”
Em parte para esconder meu constrangimento, eu o provoquei de propósito desse jeito. Se eu não fizesse isso, começaria a tremer.
“Claro que estou nervoso. É um pouco diferente daquela vez.”
Eu quase deixei escapar um ‘Huh?’. Era verdade que ele já tinha entrado no meu apartamento em um encontro antes. Mas naquela época não tinha sido à noite. — Mas será que ele nunca tinha ido à casa da Amada-san? — Não, provavelmente tinha. Eles deveriam ter sido próximos o suficiente para que suas famílias estivessem envolvidas.
Analisando calmamente os fatos, cheguei a uma única conclusão.
“Oh. Então eu sou especial, não sou?”
Eu fiquei tão feliz que acabei dizendo isso em voz alta. Eu estava feliz por, para o Senpai, eu ter me tornado alguém especial. E, depois de falar, percebi o quão constrangedora aquela frase tinha sido, e fui lentamente ficando vermelha. Para que ele não percebesse, desviei o olhar dele.
Como era de se esperar, ele também ficou abalado. Porque a voz dele tinha tremido.
“Sem comentários.”
Eu não consegui evitar rir.
“Por favor, não diga coisas como se você fosse um político.”
Ele provavelmente ficou ainda mais envergonhado por causa do que eu disse. — Por que será? — Nós não deveríamos nos conhecer há tanto tempo assim, e ainda assim eu o entendia bem. Era uma sensação estranha — agradável, que fazia cócegas. Eu queria que essa pequena sensação durasse para sempre.
“Mais importante, isso é mesmo okay? Não importa como você veja, é meio precipitado. Você mora sozinha, certo? Se alguma coisa der errado…”
Chegamos rapidamente ao andar para o qual estávamos indo. Se fosse ele — se ele fosse um cavalheiro — ele não faria nada de que eu não gostasse. Não havia necessidade de me preocupar em ser forçada ou atacada. Porque era Aono Eiji. Aono Eiji — o Aono Eiji de quem eu gostava — nunca faria algo assim.
E, ainda assim, dentro de mim, um sentimento impróprio estava crescendo pelo fato de eu tê-lo convidado para entrar desse jeito — um convite do qual eu não poderia reclamar, não importasse o que acontecesse.
“Você não disse isso antes também?”
Eu tentei desesperadamente agir como se tivesse sobra de tranquilidade.
“Disse?”
O tom de quem se fazia de bobo me deixou um pouco mais calma.
“Está tudo bem. Eu confio em você, Senpai. Nós só vamos tomar chá e conversar como sempre fazemos. E além disso……”
Eu estava prestes a dizer algo que não deveria. Eu estava completamente levada pelo momento.
“E além disso?”
Meus sentimentos descontrolados trouxeram claramente à tona as palavras que eu tinha engolido da última vez. Eu tinha me esforçado tanto para engoli-las naquela ocasião.
“E além disso, se for com você, Senpai… está tudo bem se eu cometer um pequeno erro.”
※※※
── Perspectiva de Aono Eiji ──
‘Está tudo bem se ela cometer um pequeno erro…’ — Essas palavras ecoaram no meu peito. O fato de a Ichijou-san dizer algo assim para mim — isso era uma honra. Até mesmo a minha razão estava vacilando bastante.
A essa altura, mesmo sem dizer diretamente, eu conseguia sentir, nas entrelinhas das nossas palavras, que nos importávamos um com o outro. Se eu me confessasse, achei que ela me perdoaria instantaneamente.
“Um erro…?”
Deixei escapar um sorriso irônico sem pensar.
“Você estava pensando em alguma coisa… pervertida?”
Ela usava um sorriso rígido, antiquado. Quando a Ichijou-san sorria daquele jeito, significava que ela estava tentando esconder o constrangimento.
A Ichijou-san era uma super-humana perfeita, mas quando se tratava de relacionamentos, ela tinha um lado condizente com a idade. Eu tinha certeza de que ela achava que estava escondendo isso, mas havia algo sombrio no sorriso dela. Achei que isso provavelmente era influenciado pela situação familiar dela.
Eu não tinha perguntado por que ela tinha tentado morrer naquele dia.
Mas, mesmo sem perguntar, eu conseguia perceber que havia algo com a família dela. Ela deliberadamente evitava falar sobre a família. Mesmo contando outras coisas pessoais sobre si mesma, ela absolutamente se recusava a tocar nesse assunto. Eu me lembrei de algo que o meu pai costumava dizer quando ainda estava vivo.
“Só o fato de haver algum problema na família, por si só, já pode ferir uma criança.”
[Del: De fato.]
Essas palavras carregavam a visão que meu pai tinha das pessoas, moldada por observar todo tipo de cliente no restaurante e por viver envolvido em trabalhos voluntários. A Ichijou-san também devia estar sofrendo há muito tempo. E, mesmo assim, ela nunca parou de seguir em frente. Talvez ela tenha se forçado demais, e foi por isso que o coração dela acabou se despedaçando.
O elevador chegou ao andar rapidamente. Eu não estava mentalmente preparado. Em silêncio, ao lado da Ichijou-san, caminhei até a porta dela, e ela a abriu.
“Entre.”
Estimulado por ela, que entrou primeiro, eu também dei um passo para dentro do quarto. Um cheiro muito doce me recebeu. Talvez aquele aroma tenha me acalmado um pouco. Eu tinha compostura suficiente para olhar ao redor do quarto. O quarto dela, que eu via pela segunda vez, de alguma forma parecia solitário.
Apesar de ter um cheiro doce, era um quarto estranhamente mecânico. Eu pensei que ela vinha mantendo o papel de “Ichijou Ai” que as outras pessoas idealizavam.
Como esperado, havia apenas o mínimo indispensável. Os móveis e a mobília eram de estilo antigo e pareciam caros, mas não havia aquela sensação de vida que deveria existir. Mesmo olhando para os móveis, isso só enfatizava a existência de “Ichijou Ai”, a figura idealizada por todos — e quase parecia uma gaiola.
Eu sentia que quase não havia nada naquele quarto que provasse que ela realmente era ela mesma. Um frio pairava no ar, como uma casa de brinquedo construída para a idol chamada “Ichijou Ai” vista pelos outros.
Mas havia um lugar que era diferente. Apenas aquele ponto estava repleto da verdadeira Ichijou Ai que eu conhecia… da personalidade dela.
“Você deixa eles exibidos.”
Eu disse isso porque vi os dois bichos de pelúcia que tínhamos ganhado — um do nosso primeiro encontro, e o outro do fliperama outro dia. Parecia que apenas aquele lugar mostrava o gosto da moradora do lugar. Os outros móveis, de alguma forma, pareciam frios, como se tivessem sido dados a ela, e isso só tornava a sensação ainda mais forte.
“Sim. Eu quero que a gente fique junto o máximo possível, então deixo eles no sofá. Esses bichinhos parecem um casal, não parecem? Achei que talvez fosse um pouco infantil.”
Ela parecia um pouco envergonhada. Aquele gesto fez a diferença entre ela e a existência perfeita que mostrava na escola ficar ainda mais evidente. Dei por mim encarando-a, incapaz de dizer qualquer coisa……
“Chá preto está bom, certo?”
“Sim.”
Ela já parecia saber que tipo de chá eu gostava. A fonte era a minha mãe. Ela provavelmente tinha deixado tudo preparado para que eu pudesse ir lá a qualquer momento.
A Ichijou-san ferveu a água com eficiência e escolheu alguns acompanhamentos de chá no armário.
Eu a observei atentamente.
“Por que você está me encarando tanto? É meio constrangedor.”
Um protesto envergonhado veio na minha direção.
“Não, é que eu fico feliz por conseguir sentir o seu dia a dia, Ichijou-san.”
“Sinceramente. Se não fosse eu, isso seria assédio sexual.”
Ela reclamou de um jeito que soava divertido. E eu fiquei feliz por ela estar me dando permissão, ainda que indiretamente.
Enquanto conversávamos como sempre, a tensão de antes foi embora.
“Senpai, você se lembra do que eu disse mais cedo?”
Enquanto preparava xícaras de chá de aparência cara e antiga, ela perguntou com um tom de pequena diabinha. Eu me fiz um pouco de bobo e respondi: “O que foi mesmo?”, mas ela fez beicinho e reclamou: “Poxa.”
Ela soltou um pequeno suspiro, e a expressão dela mudou. Era uma expressão sensual, tingida de melancolia. Hesitante, ela disse:
“O que você acha que ‘um pouquinho’ significa, exatamente?”
Eu quase cuspi o chá preto que estava bebendo. Nunca imaginei que ela avançaria até esse ponto. Eu nem sabia como deveria responder. Não — desde o momento em que ela me convidou para ir à casa dela, eu vinha pensando em todo tipo de coisa. Mas ainda assim não tinha conseguido organizar uma resposta. Talvez por estar tão abalado, algo estranho escapou.
“Quem sabe?”
Eu tentei parecer que ainda tinha algum controle. Mesmo que nós dois estivéssemos nervosos, eu não consegui evitar deixar a iniciativa nas mãos da Ichijou-san. Ela avançou ainda mais.
Mas, de alguma forma, aquilo não parecia a Ichijou que eu conhecia.
“Dar as mãos? Um beijo? Ou……”
Ela pousou a xícara de chá, aproximou-se de onde eu estava sentado na cadeira e sussurrou no meu ouvido.
“Mais do que isso?”
Provavelmente não havia muitos homens que não vacilariam diante de um ataque como esse. Minha razão quase desapareceu na hora. Mas por quê? Quando olhei para ela, seus olhos pareciam tristes, de alguma forma. A partir daí, eu não consegui mais organizar palavras, e meu corpo se moveu sozinho.
Eu me virei lentamente para ela e envolvi seu corpo macio com meus braços. Ela tinha um cheiro doce, como mel. Ela pareceu um pouco surpresa, mas logo relaxou.
A Ichijou-san me aceitou como se já tivesse se preparado. Ela lentamente passou seus braços esguios pelas minhas costas. Eu forcei uma resposta para a pergunta que ela tinha feito antes. Eu não sabia se aquela era a resposta certa ou errada. Mesmo assim, eu não podia simplesmente deixá-la ali quando ela parecia tão triste.
“Mais ou menos isso, eu acho.”
Nos meus braços não estava a veterana que deveria ser a idol da escola, uma garota brilhante que se destacava tanto academicamente quanto atleticamente. Ali havia apenas uma garota — fraca, fácil de se machucar.
“Entendo.”
A Ichijou-san parecia feliz e, de alguma forma, triste também, e me deu um sorriso aliviado. Mas a expressão complicada que ela vinha mostrando até instantes atrás tinha desaparecido. Então aquela tinha sido a cor do arrependimento. Eu finalmente percebi isso. Era tarde demais, e eu me arrependi. Ela devia estar se torturando com isso há muito tempo. Provavelmente estava preocupada e ansiosa. E eu não tinha conseguido perceber.
Como se quisesse esconder a expressão, ela enterrou o rosto no meu peito. O cheiro doce fazia cócegas na minha cavidade nasal. O cabelo longo dela — delicado e bonito como seda — balançou.
Eu a abracei com mais força.
O toque da pele macia dela. A respiração doce. O cheiro de xampu e sabonete.
“D-desculpa. Eu agi sozinha. Eu entrei em pânico. Achei que você pudesse ir para bem longe, Senpai… Eu tentei usar a sua gentileza. Por isso… eu não consigo te encarar. Então… por favor, fique assim… só mais um pouco.”
Ela continuou escondida contra o meu peito e não mostrou o rosto. Ela provavelmente estava chorando. A voz dela tremia.
A que estava ali não era a idol perfeita e super-humana da escola. A que estava ali era a Ichijou Ai como ela realmente era — uma garota frágil, condizente com a idade, aquela que eu tinha conhecido no terraço naquele dia. Parecia que eu finalmente tinha encontrado a verdadeira ela. Então só havia uma coisa que eu precisava fazer.
Eu não achava que a escolha que estava prestes a fazer fosse a resposta certa. Mas eu tentaria seguir meus sentimentos. Talvez eu estivesse enganado. Talvez não fosse o que ela esperava. Talvez fosse pesado demais.
Mas era algo que eu tinha aprendido com o que aconteceu com a Miyuki. Eu precisava dizer o que queria dizer enquanto ela ainda estava perto o suficiente para ouvir. Porque eu não queria deixá-la ir. Porque eu queria fazê-la feliz — aquela que tinha fugido do inferno comigo naquela época…… então eu queria encará-la de frente, do jeito certo.
Eu afrouxei os braços.
A Ichijou-san pareceu um pouco surpresa e me encarou com os olhos úmidos.
O rosto dela estava vermelho vivo, e a expressão era ansiosa — carente, frágil de um jeito que eu nunca tinha visto. Ela deve ter entendido errado e achado que eu estava desconfortável. A boca dela se abriu como se fosse dizer “Desculpa”. Mas eu não queria fazê-la dizer isso. Não havia necessidade de ela se desculpar. Se fosse para alguém pedir desculpas, era eu. Mais do que isso, eu queria agradecê-la. Por ter me encontrado naquele dia. Por ter sido a primeira a acreditar em mim no meio de toda aquela confusão. E por ter se tornado minha aliada, mesmo sabendo do risco de isso colocá-la em desvantagem.
Eu estava ali por causa da Ichijou-san.
Então era culpa minha tê-la deixado insegura.
“Desculpa por te deixar ansiosa.”
A Ichijou-san pareceu confusa, porque ela estava prestes a se desculpar, e ainda assim eu me desculpei primeiro.
“Senpai?”
Coloquei as mãos nos ombros dela enquanto ela me olhava nervosa, e organizei minhas palavras.
“Você não precisa se apressar. Se você estiver bem com alguém como eu…… se puder me perdoar. Eu vou ficar ao seu lado. Eu não vou a lugar nenhum — nunca.”
Com uma expressão atônita, ela me encarou. Por um instante, pareceu que o próprio tempo tinha parado, como se fôssemos apenas nós dois deixados para trás neste mundo.
Eu tinha jogado algo pesado sobre ela — como uma confissão de amor, ou, de certa forma, algo ainda mais pesado. Aquela foi a minha resposta. Mais tarde, com certeza eu ficaria envergonhado. Mas eu também tinha certeza de que nunca me arrependeria de ter colocado esses sentimentos em palavras.
Depois de um momento de silêncio, ela finalmente pareceu entender um tempo depois e deixou escapar um curto “Huh”. Ela piscou algumas vezes, tentando aceitar a realidade.
Deve ter sido repentino demais. Ela não parecia conseguir colocar as palavras para fora. E, depois de um longo silêncio, ela deu uma pequena risada e disse: “Entendo.”
Assim como antes, ela se atirou contra o meu peito. Mas os sentimentos que ela carregava eram diferentes de antes.
“Alguém como eu… está mesmo tudo bem?”
Essa foi a primeira coisa que ela disse. Parecia a verdadeira ela.
Então eu respondi como o meu verdadeiro eu também.
“Não ‘alguém como você’. Eu quero a Ichijou Ai.”
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.
“Obrigada. Por favor… certifique-se de me segurar direito, está bem?”
Tremendo, ela respondeu, parecendo de alguma forma feliz.
Eu me apoiei nessas palavras e estendi a mão até as costas dela mais uma vez.
“Sim. Com certeza.”
Pouco a pouco, seguimos em frente.
※※※
── Perspectiva de Ichijou Ai ──
“O que você acha que ‘um pouquinho’ significa, exatamente? Dar as mãos? Um beijo? Ou…… mais do que isso?”
Diante da minha pergunta maldosa, ele pareceu realmente perturbado. Depois que eu disse aquilo, a autodepreciação me invadiu. Porque eu percebi que estava forçando escolhas cruéis sobre alguém tão gentil. E mesmo que o que aconteceu com a Amada-san tivesse ocorrido há pouco tempo, talvez ele ainda não tivesse tido tempo de organizar seus sentimentos — e em relação a ele, eu…… por que eu fui capaz de fazer algo tão cruel e injusto?
Eu estava em pânico. O talento dele estava muito além do de alguém como eu. Eu estava feliz pela estreia dele como escritor ter sido decidida, mas ao mesmo tempo havia uma solidão, como se eu estivesse sendo deixada para trás em algum lugar.
Eu não queria mais ser deixada para trás. A Mamãe e o Papai já tinham ido para bem longe.
Eu tinha medo de que o Senpai fosse para longe também. Por isso, acabei agindo como uma criança mimada, como se estivesse me agarrando a ele. Mesmo sendo eu mesma quem tinha medo de falar sobre aquele segredo……
As próximas palavras dele — ou suas próximas ações — me assustavam. Não importava qual opção ele escolhesse, eu ficaria feliz. Mas, ao mesmo tempo, eu conseguia me imaginar me arrependendo. Porque significaria que eu o tinha forçado a escolher. Ele nunca me culparia. Mas, enquanto eu estivesse com ele, eu me arrependeria.
Talvez porque estivesse preocupado por eu não conseguir esconder minha ansiedade, ele me abraçou sem dizer nada.
Eu fui envolvida pela gentileza dele, pela forma como ele permaneceu ao meu lado não importava o quê. Eu estava feliz. Mesmo em um momento como aquele, eu estava sendo salva pela gentileza dele de uma forma quase desesperadora.
Hesitante, ele murmurou: “Mais ou menos isso?”
O calor do corpo dele me alcançou. As costas largas dele me deram uma sensação de segurança.
Eu estava feliz. Mas então a parte descarada de mim veio à tona. Eu queria mudar nosso relacionamento — à força, se fosse preciso. — E se ele fosse para algum lugar distante? E se ele encontrasse outra pessoa para amar? — Nosso relacionamento já estava apenas atravessando uma ponte instável. Eu queria algo — algum fato estabelecido.
E eu odiava essa parte egoísta de mim mesma. Isso significava que eu estava me aproveitando da gentileza dele.
“Desculpa. Mas… só mais um pouquinho.”
Como se eu estivesse me agarrando para que ele não fosse para longe, como se estivesse mostrando a ele que eu existia.
Como se estivesse cedendo ao meu egoísmo, ele manteve aquela postura.
E então, lentamente, ele relaxou os braços.
Naquele instante, senti uma tristeza insuportável. Talvez ele tivesse passado a me odiar. Por causa dessa suspeita, parecia que o mundo estava se partindo.
“Desculpa por te deixar ansiosa.”
Eu é que deveria estar pedindo desculpas, e ainda assim fiz com que ele pedisse desculpas no meu lugar. Aquilo parecia terrivelmente errado.
Lutando contra as lágrimas, forcei a saída de um: “Senpai?”
Com uma expressão muito sincera, ele segurou gentilmente ambos os meus ombros.
“Você não precisa se apressar. Se você estiver bem com alguém como eu…… se puder me perdoar. Eu vou ficar ao seu lado. Eu não vou a lugar nenhum — nunca.”
As palavras que ele me deu estavam além de qualquer coisa que eu tivesse imaginado.
Levou um tempo para a minha cabeça entender.
Era como uma confissão feita para nos tornar amantes — e, ainda assim, mais pesada do que isso.
E era o conjunto de palavras que eu mais queria, mais do que qualquer uma das opções que eu tinha listado.
“Huh…?”
Minha mente ficou em branco, e o meu batimento cardíaco ficou cada vez mais alto. Assustou tanto que eu pensei que ele pudesse ouvir.
Tentei olhar para o rosto dele. Eu estava tão nervosa que não conseguia encarar direito os olhos dele.
Mas eu precisava olhar para ele e responder. Juntando coragem, encarei-o — e lá estava ele, olhando de volta para mim com ansiedade.
Vendo isso, meus sentimentos se acalmaram, e eu consegui deixar meus verdadeiros sentimentos saírem com honestidade.
“Alguém como eu… está mesmo tudo bem?”
Essas foram as primeiras palavras que saíram. Talvez tivessem sido as primeiras palavras do verdadeiro eu em muito tempo, depois de eu ter perdido completamente de vista o eu ideal que vinha representando. Ele as aceitou imediatamente.
“Não ‘alguém como você’. Eu quero a Ichijou Ai.”
A verdadeiro eu — algo que eu não tinha conseguido mostrar a ninguém desde aquele acidente — estava sendo salva. Mais do que contato físico ou ligação, ele me deu palavras pelas quais eu ansiava havia tanto tempo. Talvez eu finalmente tivesse conseguido seguir em frente. Porque, para mim, o tempo tinha parado desde aquele dia.
“Obrigada. Por favor… certifique-se de me segurar direito, está bem?”
Eu achei que fosse o melhor sorriso que eu tinha usado em anos. Um sorriso que eu nunca mostraria a ninguém além dele…… um momento precioso em que eu finalmente pude sorrir do fundo do coração.
“Sim. Com certeza.”
Ao ouvir essas palavras, eu realmente senti felicidade.
Nosso relacionamento finalmente tinha começado, no verdadeiro sentido.
※※※
── Perspectiva de Aono Eiji ──
Depois de ficarmos abraçados por um tempo, lentamente afastamos nossos corpos, ambos parecendo relutantes em soltar. Mas, de agora em diante, não precisaríamos de nenhum motivo especial para nos abraçar. Pensar nisso deixou meu coração aquecido. Tantas emoções surgiram no meu peito e depois desapareceram. Nós só tínhamos acabado de nos conhecer, e ainda assim eu sentia como se tivéssemos passado por um tempo intenso juntos. Eu tinha certeza de que esse curto período se tornaria o tempo que mudaria toda a minha vida.
Nós sorrimos enquanto escondíamos todo tipo de sentimento em nossos corações. Tornou-se um sorriso cheio de carinho um pelo outro.
“Por favor, cuide de mim daqui em diante.”
Ela sorriu timidamente. A confissão que eu tinha acabado de fazer não era normal.
Como confissão de ensino médio, provavelmente era inadequada. Porque tinha completamente… ultrapassado a linha. Mas a Ichijou-san enfatizou a parte do “daqui em diante”. Parecia que estávamos confirmando que a minha confissão tinha significado a mesma coisa para nós dois, e isso me deixou dolorosamente envergonhado.
“Sim. Você também.”
Eu sorri de forma desajeitada, escondendo o que sentia.
Normalmente falando, era aqui que um relacionamento entre um garoto e uma garota começaria.
Parecia que ela também estava escondendo o constrangimento.
Uma atmosfera indescritível pairava entre nós.
Eu bebi o chá preto, agora um pouco frio. A doçura viva e ácida da fruta e a adstringência do chá tomaram conta de mim de uma vez só. Parecia perfeito para o que eu estava sentindo naquele momento.
Ao mesmo tempo, ela também levou o chá aos lábios, parecendo encantada. Ainda assim, a Ichijou-san continuava atenciosa como sempre.
“Já esfriou um pouco. Vou preparar mais.”
“Não, está tudo bem.”
“Não diga isso. Se eu preparar mais, isso quer dizer que a gente pode conversar mais um pouco, não é? Por favor, fique comigo, nem que seja só um pouquinho.”
A forma como ela de repente mostrou aquele lado feminino fez meu coração disparar. Depois daquela confissão, ela provavelmente estava me deixando ver mais do verdadeiro eu dela. Eu ainda não conhecia todas as partes reais da Ichijou-san. Por isso, eu estava realmente ansioso pelo que viria a seguir.
“Então eu vou aceitar.”
Peguei um pedaço do chocolate importado que estava sobre a mesa.
Parecia ser chocolate amargo, e minha língua — esperando algo mais doce — foi surpreendida. Mas o amargor refinado combinava bem com o chá. Era uma caixa com uma marca cujo logotipo até eu reconhecia. — Era do tipo caro, não era? — Ela realmente era uma jovem dama. Sorrindo de lado para mim mesmo por só chegar a essa conclusão óbvia naquele momento, ainda assim me senti feliz por ter criado coragem.
Eu queria, de alguma forma, me tornar um homem digno dela. Então eu me esforçaria ainda mais na escrita. Eu queria desenvolver o talento que ela tinha enxergado em mim e fazê-la feliz.
“Senpai?”
“Hm?”
De costas para mim, ela preparava o chá. As mãos graciosas dela quase me fizeram sentir uma espécie de dignidade.
“Eu sei que preciso dizer isso direito. Acho que você provavelmente já percebeu o quanto eu sou… distorcida. Eu não quero me apoiar no seu afeto sem te contar algo importante.”
No começo, fiquei um pouco confuso com o que ela queria dizer, mas logo entendi. Provavelmente era sobre a família dela.
Mas ela ainda devia não ter organizado seus sentimentos.
Mesmo que quisesse falar, ela não conseguia. Eu não queria forçar alguém que devia estar fazendo um rosto tão triste. Eu percebia que ela virava a expressão para que eu não me preocupasse, para que eu não visse. Então, até que ela conseguisse organizar seus sentimentos, eu não queria fazê-la se forçar.
“Sim. Como eu disse antes, você não precisa se forçar. Não precisa se apressar. Se quiser me contar, então me conte quando estiver pronta.”
Ela tinha permanecido ao meu lado todo esse tempo. Então agora era a minha vez… de apoiá-la.
“Obrigada. Senpai, você é muito gentil. É por isso que eu não quero depender demais de você. Se eu conseguir te explicar direito… e depois que você ouvir, se seus sentimentos ainda não tiverem mudado… então, por favor, diga estas palavras de novo.”
Ela era séria demais. Era isso que eu pensava honestamente. Eu conseguia sentir que ela tinha um passado pesado com a família. Mas o que eu gostava não era o passado dela. Era ela como era naquele momento… e a ela a partir dali.
“Meus sentimentos não vão mudar. Porque o que eu disse antes não era para a Ichijou-san do passado. Era para você, agora.”
Ao ouvir isso, ela baixou um pouco o olhar.
“Você está me dando as palavras que eu quero que você diga… obrigada.”
Pouco a pouco, estávamos avançando.
Dessa vez, eu a abracei por trás.
Ela não resistiu, e aceitou. Nosso relacionamento estava se aprofundando, sem dúvida.
※※※
── Perspectiva de Ichijou Ai ──
“Senpai, você tem tempo amanhã? Tem um lugar para onde eu quero que você venha comigo.”
“Tenho. Vamos.”
“Obrigada. Eu posso acabar fazendo você faltar à escola, mas mesmo assim está tudo bem?”
“Sim. A gente já matou aula no primeiro dia, não foi? Desta vez eu vou falar direito com o Sensei e com a minha mãe sobre o que está acontecendo — que tem algo importante que eu preciso fazer. Os dois vão entender.”
A sinceridade dele ainda parecia quente.
O Senpai bebeu o chá dele e foi embora. Tanta coisa tinha acontecido que eu desabei no hall de entrada. Mas nossos sentimentos eram os mesmos. Só de saber disso, só de saber que eu não precisava mais me apressar… não, isso estava errado.
Não era isso. Eu rejeitei a parte de mim que sempre pensava em termos de ganhos e perdas.
“Eu sou amada por um homem chamado Aono Eiji.”
Esse fato me deixou insuportavelmente feliz. Fez com que eu quisesse gritar.
Eu tinha desejado ser amada por alguém por tanto tempo. Então, finalmente entendi. Ele me fez perceber isso. E ele me amava.
“Mas, Senpai…”
Soltei um suspiro feliz.
“Eu estava preparada para ser beijada. Eu estava preparada para ser empurrada para baixo. Mas, quero dizer — ninguém espera receber um pedido desse tipo. Isso não é ‘só um pouquinho’ de jeito nenhum.”
– Almeranto: AAAOOOO POTÊNCIAAAA. Esse final sempre me pega kkkkkkk. Ousada eu diria.
Traduzido por Moonlight Valley
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