Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 9: Missão

— E então, está dentro? — Raff perguntou.

A pergunta não vinha carregada de tensão, nem de urgência. Era quase casual, jogada no ar como quem pergunta se alguém aceita mais um copo. Ainda assim, Vance sentiu o peso dela se acomodar no fundo do peito.

Ele assentiu com a cabeça.

Não disse nada. O gesto foi suficiente, Raff entendeu.

E assim começou o plano.

Dessa vez, ele não estava sozinho.

Junto dele uma mulher, levemente mais velha que ele, seu nome era Elena. Era difícil ignorá-la. Impressionantemente alta, postura reta como se o corpo tivesse sido treinado para nunca parecer vulnerável. O cabelo roxo escuro — quase preto sob a iluminação fraca — caía liso pelas costas, longo demais para ser prático. Os olhos, de um azul claro incomum, observavam tudo sem pressa, sem curiosidade aparente. Avaliando.

O plano era simples. Simples demais, até.

Sequestrar um engenheiro de Fios da empresa Black Rock.

Nome: Elias Math.

Nada de assassinato. Nada de explosões. Nada de mensagens políticas ou espetáculo. Apenas retirar um homem do caminho por algumas horas. Talvez uma noite. Talvez menos.

Vance não sabia o porquê. Não sabia para quê. Não sabia o que Elias Math sabia, fazia ou escondia. E, honestamente, não queria saber.

Ele estava apenas obedecendo ordens.

A noite caiu rápido sobre Vallum, como sempre fazia. Não havia pôr do sol digno de nota naquela parte da cidade — apenas uma mudança gradual na cor do céu, do cinza sujo para um azul escuro carregado de luzes artificiais. Os Fios sob a superfície reagiam à transição, pulsando em ritmos mais intensos conforme a cidade mudava de turno.

O lugar onde Black Rock se encontrava ficava em uma das zonas mais nobres da cidade, havia pontos de controle em cada acesso visível: guaritas discretas, drones patrulhando em trajetórias previsíveis, câmeras embutidas em postes que fingiam ser apenas iluminação urbana. A segurança não era ostensiva; era elegante. Invisível o suficiente para que os ricos se sentissem confortáveis, visível o bastante para lembrar aos outros que aquele território tinha dono.

Mas nenhuma fortaleza é perfeita.

Entre os intervalos das rotas automatizadas, existiam lacunas. Ângulos mortos entre prédios de vidro, zonas onde os sensores competiam entre si e acabavam se anulando, segundos exatos em que um drone virava a esquina e deixava um corredor descoberto. Pontos cegos.

Eles já estavam posicionados quando Elias Math saiu do prédio da Black Rock, exatamente no horário previsto.

Dezenove e quarenta.

Terno simples, sem marcas chamativas. Pasta de dados bem presa sob o braço esquerdo. Passos regulares, quase metódicos, como alguém que repetira aquela rotina dezenas de vezes sem nunca precisar pensar nela. Um homem comum demais para o que carregava dentro do próprio corpo, conectado aos sistemas que mantinham Vallum respirando.

Vance sentia o frio atravessar o casaco grosso, infiltrando-se pelas costuras, mas não reclamava. Estava encostado numa estrutura de manutenção, parcialmente oculto pelas sombras projetadas por um painel de energia. O metal vibrava levemente contra suas costas, um zumbido constante que ele já mal percebia.

Elena estava do outro lado da rua, apoiada de forma casual dessa vez em um poste de iluminação, como se apenas esperasse alguém que se atrasara. De longe, ninguém suspeitaria. De perto, talvez. Mas ninguém chegava perto o suficiente.

— Frequência limpa — murmurou ela no comunicador, a voz baixa, controlada. — Sem vigilância próxima.

— Movimento em trinta segundos — respondeu Raff, distante, quase sem emoção.

Elias dobrou a esquina.

Vance se moveu.

Não correu. Não acelerou o passo. Apenas se desprendeu da sombra e começou a andar, mantendo uma distância calculada. Longe demais para chamar atenção, mas perto o suficiente para perceber detalhes inúteis, como o leve arrastar do sapato direito de Elias ou a maneira como ele ajustava a pasta sempre que mudava de calçada.

O beco escolhido não tinha nada de dramático, no entanto, era bom o suficiente. Largo o bastante para não parecer uma armadilha óbvia, estreito o suficiente para limitar reações e rotas de fuga. Um lugar que existia apenas para ligar um ponto a outro da cidade, esquecido pela maioria.

Elena então apareceu em sua frente.

— Com licença — disse ela, firme, clara, quando Elias passou por ela.

Ele virou o rosto por reflexo, a confusão atravessando o olhar por um único segundo, como se fosse surpreendente uma mulher bonita falar com ele.

Foi o suficiente. A distração rápida de Elias foi o suficiente para Vance ultrapassa-lo e aparecer em suas costas, onde se localizava um beco escuro longe de câmeras.

— Saberia me dizer, onde exatamente fic...

Vance surgiu atrás dele como uma extensão da sombra do próprio beco. O braço envolveu o pescoço de Elias, pressão precisa aplicada no ponto certo. Não era força bruta. Era técnica, alavanca, controle do centro de gravidade.

— Rápido demais, garoto.

Elias tentou gritar, um gemido não muito alto saiu mas o som logo foi apagado pelas mãos dele. O corpo reagiu, debateu-se por instinto, mãos tentando agarrar algo que não existia. Não havia ódio ali. Nem medo real ainda. Apenas surpresa pura, crua, o choque de perceber que algo fugira completamente do controle.

— Dorme — murmurou Vance, mais para si mesmo do que para o homem.

Em segundos, Elias Math perdeu a força. O corpo relaxou, pesado demais de repente. Vance ajustou o apoio antes que ele caísse de mau jeito.

Eles o encostaram contra a parede, rápidos, coordenados, como se já tivessem ensaiado aquilo dezenas de vezes — mesmo que não tivessem.

— Como assim rápido demais, ele está desmaiado não está? — Vance disse indignado.

— Sim, mas nosso combinado era você atacar ele enquanto ele no final de sua resposta, assim não iria sobrar ar para ele gritar. Enfim, o que está feito está feito, continuemos.

Elena retirou um pequeno dispositivo do bolso interno do casaco e aplicou no pescoço de Elias. Um pulso breve de Fios anestésicos percorreu o corpo dele, garantindo inconsciência profunda, estável.

— Limpo — disse ela, guardando o aparelho.

Vance recuou um passo, observando o homem desacordado. O rosto era comum demais. As mãos, bem cuidadas, sem marcas de trabalho pesado. Nenhuma cicatriz visível. Nenhum sinal externo de alguém envolvido com algo perigoso.

— Ele não parece alguém perigoso — comentou, quase sem querer, a frase escapando antes que pudesse contê-la.

Elena olhou para Elias por um instante e depois para Vance.

— Não parece — concordou. — E provavelmente nem é, mas precisamos dele, é assim que funciona.

Eles o colocaram no veículo discreto que aguardava do outro lado da rua dali. Nenhum alarme. Nenhuma testemunha. Nenhuma perturbação visível na superfície de Vallum.

Quando a porta se fechou e o motor silencioso entrou em funcionamento, a cidade seguiu seu curso normal — alheia ao fato de que um de seus pequenos pilares havia sido removido, ainda que por pouco tempo.

Vance estava na parte de trás do carro com seu revólver em mãos para caso algo acontecesse enquanto Elena dirigia.

O veículo mal havia se integrado ao fluxo discreto das ruas secundárias quando o primeiro estalo cortou o ar.

Não soou como um acidente. Nem como algo distante.

Foi seco e rápido. Próximo demais.

Vance sentiu antes de entender — o arrepio subindo pela nuca, o instinto antigo se armando sozinho. O segundo som veio logo depois, seguido por um impacto metálico curto, agudo, como se algo tivesse raspado a lataria.

— Abaixa — disse ela, já se movendo.

O carro acelerou bruscamente por reflexo. Raff xingou baixo no comunicador enquanto Elena desviava para a direita no mesmo instante em que outro disparo passou zunindo, invisível, mas audível o bastante para não deixar dúvidas.

Tiros.

— Vance precisamos trocar, você sabe dirigir?

— Não fode, claro que não.

— Então vai aprender agora.

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