Volume 1
Capitulo 10: Direção Perigosa
— Isso é um carro automático, pise no acelerador e controle o volante, com sorte você só vai derrubar 3 ou 4 árvores, boa sorte.
Eles trocaram de lugar, as mãos de Vance tremiam.
— T-Tem certeza, Elena?
— Vai logo — Elena falou alto.
Enquanto Vance continuava a andar com o carro já em movimento, ela abaixou o corpo de Elias e efetuava vários disparos da janela para fora.
Elena era estranha, ela não usava uma arma de fogo, em vez disso, ela fazia disparos com a própria mão. Coisas aleatórias de formatos estranhos brotavam em sua mão e com uma força sobre-humana ela disparava esses projeteis.
Ele, no entanto, não teve tempo para apreciar a vista.
— Olha pra frente, Vance! — Elena gritou.
Ele mal teve tempo de obedecer. O volante parecia vivo sob suas mãos, vibrando com a velocidade irregular do carro enquanto as ruas de Vallum se embaralhavam à frente como um corredor mal iluminado que se dobrava sobre si mesmo. O painel não ajudava — símbolos demais, informação demais — e nenhum deles tinha sido feito pensando em alguém que aprendera a dirigir em meio a tiros.
— Isso aqui é rápido demais — ele reclamou, os dentes cerrados, puxando o volante com força excessiva. O carro derrapou levemente antes de se corrigir.
— Então aprenda mais rápido ainda — Elena respondeu, sem sequer olhar para ele.
Outro disparo cortou o ar. Dessa vez, atingiu o asfalto à frente, faíscas subindo brevemente antes de morrerem.
— Eles estão fechando — Raff avisou pelo comunicador. — Dois pontos. Traseira e flanco direito.
— Ótimo — Vance murmurou. — Ótima noite pra aprender algo novo.
Elena ergueu a mão
Por um instante, nada aconteceu. Então os Fios responderam.
Algo se formou na palma dela — não sólido de imediato, mas como um contorno instável, puxado do ar. O objeto tomou forma rápido demais para ser natural: um projétil irregular, alongado, com superfícies facetadas que lembravam vidro e metal ao mesmo tempo. Não havia brilho excessivo, nem luz dramática. Apenas densidade.
Ela não mirou como alguém mira uma arma.
O braço se moveu com um estalo seco, músculos tensionando além do que parecia possível. O projétil cortou o ar com um som grave, quase um assobio violento, e desapareceu na escuridão da rua atrás deles.
Um impacto distante respondeu.
— Flanco direito eliminado — ela disse, como se comentasse o clima.
Vance engoliu em seco.
— Você podia ter mencionado isso antes — falou, desviando de um bloqueio improvisado de lixo e sinalizadores quebrados.
— Não achei relevante — Elena respondeu. — Continua reto. Depois vira à esquerda. Não... a outra esquerda.
— Que? Tem certeza?
— Confia.
“Oh merda, que grande dia para derrubar arvores e ser alvejado” Vance pensou.
O carro entrou numa rua mais estreita, prédios altos dos dois lados, a iluminação falhando em intervalos irregulares. As sombras ali eram mais densas, quase pegajosas. Outro disparo ricocheteou na parede à direita, tão perto que Vance sentiu o calor passar.
Um tiro explodiu o retrovisor da esquerda, cacos de vidro voavam pelo ar enquanto o vento levava.
— Eles estão usando munição comum — Elena disse. — Não querem explodir o carro.
Vance acelerou mais do que achava seguro. O carro respondeu com um gemido baixo, o motor vibrando como um animal acuado, mas obedeceu. A velocidade distorceu as luzes, transformando Vallum em linhas alongadas e pulsantes — néon derretido, anúncios flutuando como fantasmas elétricos.
Por um segundo, ele esqueceu os tiros. Esqueceu Elena. Esqueceu Elias.
Então viu.
Uma silhueta pequena surgiu no meio da pista, atravessando entre dois blocos de concreto como se a rua não fosse nada além de um quintal mal iluminado. Uma criança. Magra demais para o frio daquela noite. Parada, congelada pelo brilho brutal dos faróis.
O mundo desacelerou.
O pé dele afundou no freio.
O som foi um grito metálico — pneus rasgando o asfalto, o volante tremendo sob suas mãos. O carro derrapou. A traseira escapou para a esquerda, o painel piscando alertas vermelhos. Ele puxou o volante com força, sentindo o peso da máquina lutar contra ele.
A criança não se mexeu.
No último segundo, Vance girou mais do que devia.
O carro desviou por centímetros — perto o bastante para que ele visse o reflexo apavorado nos olhos da criança — e então perdeu alinhamento. A lateral raspou violentamente contra a proteção de concreto. O impacto lançou o cinto contra seu peito, esmagando o ar de seus pulmões.
Um estalo seco. Metal contra pedra.
O carro girou meia volta antes de parar atravessado na pista, fumaça subindo do capô como um suspiro quente.
Silêncio.
Só o cheiro de borracha queimada. Só o próprio coração martelando dentro do crânio.
Pelo retrovisor, ele viu a criança correr para a escuridão entre os prédios, engolida pela cidade como se nunca tivesse estado ali.
De repente, o vidro ao lado dele explodiu em pequenos pedaços barulhentos.
Não foi um som único — foi uma sequência irregular, como chuva de cristais arremessados contra metal. O impacto veio antes do entendimento. O ar ao lado do seu rosto se partiu, e uma linha invisível cortou o espaço onde sua cabeça estava um segundo antes.
O estampido do disparo chegou atrasado.
Vance sentiu os estilhaços riscarem sua bochecha e seu pescoço. Ardor imediato. Sangue fino, quente, escorrendo devagar demais para a violência do momento.
Elena disparava um tipo de projetil longo e pontudo enquanto dizia a Vance:
— Não pare”
Só existia a rua, e no final dela, uma pilha de metal, pilha essa que formava uma rampa improvisada não intencional.
— Avance em direção a rampa — Elena gritou.
Vance não teve tempo de pensar se aquilo era um conselho ou uma sentença. O instinto assumiu o controle antes da razão. Ele retomou o pé no acelerador, sentindo o motor protestar enquanto a pilha de metal crescia à frente rápido demais para ser evitada. Eram restos de uma obra abandonada: vigas tortas, placas arrancadas, partes de um antigo duto de Fios desmontado às pressas.
— Isso não é uma rampa — Vance disse, a voz falhando. — Isso definitivamente não é uma rampa!
— Agora é — Elena respondeu.
O impacto veio em dois tempos.
Primeiro, o carro subiu, seco, como se tivesse batido num degrau invisível. Depois, tudo ficou leve demais. O estômago de Vance pareceu ficar para trás enquanto o mundo se inclinava em um ângulo impossível. Por um instante curto — curto demais para ser bonito —, o carro esteve no ar.
Vance gritou alguma coisa. Não lembraria depois o quê.
O pouso foi violento. As rodas dianteiras tocaram o chão com um estalo duro, a suspensão gritando em protesto. O carro quicou, derrapou para a direita, quase beijou a parede de um prédio, e só então voltou a responder ao volante.
— Eu ainda estou vivo — Vance disse, incrédulo.
— Foco — Elena retrucou. — Ainda não acabou.
Na parte da frente, era possível ver fumaça saindo de algum ponto sob o capô — primeiro um fio tímido, quase discreto, depois uma exalação mais densa, cinza e nervosa, como se o carro estivesse respirando com dificuldade.
O cheiro veio logo em seguida.
Óleo queimado. Borracha. Algo elétrico derretendo.
O painel piscou mais uma vez, as luzes vermelhas refletindo no para-brisa trincado como sinais vitais entrando em colapso. A agulha da temperatura subia rápido demais .
Como se o universo tivesse ouvido, outro disparo rasgou o ar, quebrando uma luminária acima deles. Vidro caiu como chuva brilhante. Ele virou bruscamente à esquerda, entrando numa via ainda mais estreita, praticamente um corredor entre prédios antigos. O GPS do painel piscou, claramente perdido.
— Raff — Vance gritou. — Alguma ideia genial agora seria ótimo!
O comunicador chiou por um segundo longo demais.
— Joguem o carro para baixo — a voz de Raff finalmente respondeu. — Sumam no mato acima. Eles não vão acreditar.
— Para baixo? Que?! — Vance perguntou.
Elena já estava se movendo. Ela estendeu a mão novamente, mas desta vez o que se formou não foi um projétil. Os Fios se condensaram em algo mais amplo, uma estrutura irregular, quase como um gancho maciço, pulsando com energia contida.
— À frente — ela disse. — Confia em mim. De novo.
Vance viu então o fim da rua: uma antiga entrada de manutenção, meio escondida por painéis quebrados e pichações. Um declive abrupto, depois da entrada, íngreme demais para ser usado normalmente. Um acesso esquecido aos níveis inferiores de Vallum. Acima dele tinham varias arvores, como se a cidade sumisse ali, como se depois disso, não existissem mais prédios ou casas, o que era estranho, e muito, afinal, eles ainda estavam dentro dos muros.
— Isso é uma queda! — ele gritou.
— Esse é o “para baixo”.
Elena se inclinou, passou um braço firme pela cintura de Elias e o puxou contra si, sustentando o peso dele com uma naturalidade que parecia antiga demais para a própria idade.
— Se segure em mim, garoto.
A voz dela saiu estável e natural — como se estivesse falando sobre atravessar uma rua, não fugir sob tiros.
— Garoto? Garoto nada… — ele murmurou, quase sem ar, os lábios mal se movendo. — A gente tem quase a mesma idade.
Foi baixo o suficiente para que só ele escutasse. Ela lançou o objeto.
O gancho se fixou na estrutura metálica acima da entrada com um impacto profundo — um som denso, quase orgânico — vibrando como se tivesse mordido algo vivo.
Linhas sutis de Fios percorreram o metal enferrujado, preenchendo rachaduras, endurecendo juntas antigas, reforçando a estrutura por um breve e precioso instante. O aço, que parecia prestes a ceder, se tornou sólido como uma promessa.
— Agora!
Vance não discutiu.
Soltou o volante e o carro despencou.
Por um segundo suspenso, não houve gravidade — apenas a sensação de vazio abrindo sob eles. Elena o envolveu com um braço firme, o outro ainda sustentando Elias contra o peito. O impacto da proximidade tirou o ar dele mais do que a queda.
“Que humilhante…”
Pensar naquilo naquele momento era ridículo. Ainda assim, pensou.
O carro caiu primeiro.
A lataria atravessou a borda da plataforma metálica e desapareceu no espaço abaixo — uma rua esquecida, ou talvez um abismo urbano formado entre níveis da cidade. Lá embaixo, terra bruta e mato cresciam sobre concreto rachado, como se a própria Vallum estivesse tentando esconder aquela camada inferior.
O impacto veio como um trovão abafado.
Metal retorcendo em batalha com o peso das 3 pessoas.
Depois silêncio.
O gancho tensionou. O cabo estalou, absorvendo o peso. Elena usou o impulso da queda para alcançar a borda da estrutura. As botas tocaram o metal reforçado pelos Fios — ainda firme, mas já vibrando sob o esforço.
Ela não hesitou.
Em menos de cinco segundos, estavam escalando a entrada metálica. Movimentos rápidos, precisos. Vance puxou primeiro, ignorando o tremor nos braços. Elias foi empurrado por Elena, praticamente arremessado para cima. Ela veio por último, soltando o gancho no exato momento em que o reforço dos Fios começava a se dissipar.
O metal gemeu atrás deles.
Mas não cedeu.
Ao mesmo tempo, o matagal os engoliu.
Grama alta, arbustos densos, o cheiro úmido de terra esquecida entre camadas de concreto e aço. A cidade parecia distante ali — como se aquele pedaço não pertencesse a Vallum.
Apenas a própria respiração
Finalmente silencio.
Eles sentaram na terra e deitaram o corpo de Elias.
Finalmente, podendo relaxar — ainda que só o mínimo necessário para não desmaiar — Vance se deixou cair de costas sobre a terra úmida.
O mato amorteceu o impacto.
A grama alta roçou em seu rosto, fria e áspera. O cheiro de terra viva invadiu seus pulmões, substituindo aos poucos o gosto metálico da fumaça e da pólvora. Ele fechou os olhos por um segundo… depois os abriu.
Acima dele, o céu.
Não o céu limpo dos cartões-postais antigos — mas um fragmento dele, recortado entre as plataformas suspensas e as passarelas metálicas de Vallum. Entre as estruturas, era possível ver manchas de estrelas lutando contra a poluição luminosa. Pequenas. Persistentes.
Uma delas piscou.
Ou talvez fosse apenas um drone distante, patrulhando outro nível da cidade.
Vance soltou o ar devagar.
O corpo começava a cobrar o preço: o ardor dos cortes no rosto, o peso nos ombros, o latejar nas costelas. A adrenalina estava indo embora, deixando apenas a exaustão crua.
O sangue de seu pescoço já estava controlado, mas a do rosto ainda não estava perto de estancar, pelo menos não parecia.
Ao lado, ouviu o som irregular da respiração de Elena. Mais controlada agora. Ela permanecia sentada, atenta, os olhos varrendo o matagal mesmo quando nada se movia.
— Estamos fora do alcance imediato — ela murmurou, mais para si do que para ele.
Vance não respondeu imediatamente.
— Eu… — ele começou, depois desistiu.
— Você aprende rápido sob pressão — ela disse. — Não morreu. Isso já te coloca acima da média.
Vance soltou uma risada curta, nervosa, quase histérica.
— Eu odeio essa cidade — ele murmurou.
— E quem gosta — Elena respondeu.
Um período curto de um silencio constrangedor seguiu.
— Meus parabéns, vocês se saíram muito bem, já estou providenciando a saída de vocês. — Seus corpos quase pularam de susto enquanto de repente ouviu a voz de Raff pelo comunicador — Olhem para trás — Ele disse.
Algo preto e redondo apareceu em suas costas, parecia querer sugar o ambiente em volta.
Era um portal.
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