Volume 1
Capítulo 11: Mascaras
Quando Vance percebeu o portal negro se formando às suas costas, o corpo reagiu antes que a mente tivesse tempo de acompanhar. Ele deu um salto instintivo para trás, como um gato assustado, quase tropeçando. O coração disparando num ritmo descompassado.
O portal não fazia barulho.
Esse foi o primeiro detalhe que realmente o incomodou.
Não houve estalo, nem distorção visível do ar, nenhum zumbido grave ou vibração pesada — nada daquilo que ele sempre imaginara acompanhar qualquer coisa grande o bastante para dobrar a realidade. Não houve aviso. O espaço simplesmente… cedeu. Como tecido velho rasgando sem resistência.
A poucos passos deles, abriu-se um rasgo ovalado de escuridão absoluta. Não era apenas “escuro”. Era uma ausência ativa, densa, tão profunda que parecia engolir a luz ao redor. As bordas ondulavam lentamente, como fumaça presa dentro de um molde invisível, mas o interior permanecia imóvel. Não havia reflexo. Não havia profundidade discernível. Apenas nada.
— Isso aí não estava no plano — Vance disse, a voz baixa demais para ser calma, tensa demais para fingir indiferença.
Elena se levantou com uma tranquilidade quase irritante. Não sacou arma, não mudou a postura defensiva. Apenas observou o portal com atenção calculada, como quem encara uma ferramenta conhecida… mas nunca totalmente confiável.
— Estava implícito — respondeu ela. — Nosso plano B, caso tudo desse errado.
Vance soltou uma risada curta, nervosa.
— Você chama isso de implícito?
O portal continuava ali, pulsando levemente nas bordas, como se respirasse num ritmo próprio.
— Para onde isso leva? — ele perguntou, sem tirar os olhos da escuridão.
A voz de Raff soou no comunicador, limpa demais para a situação.
— Um lugar seguro.
Houve uma pausa mínima.
— Relativamente.
— Eu odeio quando você adiciona esse “relativamente” — Vance retrucou, sentindo o estômago se revirar.
— Ainda assim, você vai entrar — Raff respondeu, sem humor algum. — Ou prefere esperar alguém curioso encontrar vocês aí?
Como se a realidade decidisse colaborar com o argumento, um som distante ecoou pelos níveis inferiores da rua: motores, vozes abafadas, algo metálico sendo arrastado contra o chão. Não era imediato, mas estava se aproximando.
Vance fechou os olhos por um segundo e respirou fundo.
— Claro — murmurou. — Nada como escolher entre o desconhecido absoluto e o certamente horrível.
Elena já se movia, puxando Elias pelos ombros e reposicionando o corpo inconsciente com eficiência prática, garantindo que ele atravessaria o portal sem bater ou cair.
— Vai na frente — disse ela para Vance. — Confere o outro lado.
— Tinha que ser eu… — ele resmungou.
Aproximou-se do portal devagar. Quanto mais chegava perto, mais sentia uma pressão estranha no peito, como se o ar ali fosse mais denso, mais pesado. Não doía. Não sufocava. Era apenas um aviso silencioso de que aquilo não era um lugar feito para corpos humanos.
Vance estendeu a mão.
O frio veio primeiro.
Não era frio físico. Era seco, profundo, interno, como se algo dentro dele tivesse sido tocado diretamente. Em seguida, a sensação de atravessar algo que não queria ser atravessado — uma resistência invisível, elástica, que cedia contra a vontade.
Por um instante, não houve cima nem baixo. Não houve peso. Não houve som.
Então ele caiu de joelhos.
O impacto foi real o bastante para confirmar que o chão existia. Frio, duro, sólido. Ele apoiou uma mão no piso e respirou fundo, o peito subindo e descendo rápido demais, enquanto o mundo retornava ao lugar com relutância.
Foi então que o estômago se contraiu.
Um aperto violento, súbito demais para ser ignorado. Não era dor comum — era pressão, como se algo estivesse profundamente errado em um nível que o corpo não sabia explicar. Ele tentou puxar o ar, mas a respiração falhou no meio do caminho. O reflexo tomou conta antes de qualquer escolha consciente.
Vance se curvou.
Não tentou segurar.
O corpo decidiu por ele.
O líquido saiu de uma vez, quente, espesso, atingindo o chão com um som molhado que ecoou alto demais naquele espaço silencioso. Quando ele olhou para baixo, o choque veio atrasado: o piso estava manchado de vermelho escuro, quase negro sob a iluminação azulada e difusa dos Fios cilíndricos que serpenteavam pelo ambiente.
Sangue.
Por um longo segundo, ele apenas encarou aquilo, incapaz de reagir. A mente demorou a acompanhar o que os olhos já tinham entendido.
Ele nunca tinha vomitado sangue antes.
O gosto metálico queimava a língua, escorrendo pela garganta como ferrugem líquida. As mãos tremiam agora de verdade — não por adrenalina, mas por algo mais fundo, mais primitivo. Medo cru, sem nome.
— O que... é isso? — murmurou, a voz fraca, arranhada.
O estômago se contraiu outra vez, mas não saiu mais nada. Apenas dor difusa e a sensação horrível de que algo dentro dele havia sido forçado além do limite permitido.
Vance limpou a boca com a manga do casaco, deixando uma mancha escura no tecido, e respirou com cuidado, como se até isso pudesse quebrá-lo mais.
— Que porra é essa, Raff?! — gritou, a voz ecoando de forma estranha naquele espaço fechado.
— Acalme-se, garoto — Elena disse, surgindo logo atrás dele enquanto carregava Elias nos ombros, como se o peso fosse irrelevante. — Isso não é nada além de sangue. Você não vai morrer.
Ela desceu Elias com cuidado no chão e continuou, o tom quase didático:
— Isso aconteceu porque seu Fluxor é muito pequeno. E, pelo jeito, você nem foi puxado ainda, não é?
Vance levantou o olhar, confuso, ainda sentindo o estômago embrulhado.
— Não… — respondeu. — Se o meu é muito pequeno… quão grande é o seu?
Elena arqueou uma sobrancelha e virou o rosto, exageradamente constrangida.
— Oh… menino levado. Não faça perguntas tão íntimas — disse, fingindo pudor. — Atualmente, nove centímetros de diâmetro. Satisfeito? Não é todo mundo que tem um Fluxor desse tamanho.
— Ah… entendo… — Vance murmurou, tentando processar aquilo enquanto se recompunha. — Sobre ser puxado… eu realmente não fui. Por sinal, está demorando. Pessoas como eu normalmente são puxadas mais cedo. Enfim… isso é conversa pra outro momento. Onde estamos?
— Em uma dimensão de bolso — Elena respondeu. — Pessoas que seguem o caminho da distorção conseguem criar algo assim. Não todos. Mas se forem fortes o suficiente… sim.
Antes que Vance pudesse fazer outra pergunta, um novo portal se abriu à frente deles. Diferente do primeiro, este parecia mais estável, menos agressivo. De dentro dele saiu Raff, caminhando com naturalidade impossível, um sorriso grande demais no rosto.
— Falando no diabo…
— Olá, pessoas. Parabéns — disse ele, abrindo os braços. — Isso aqui, Vance, é a minha dimensão de bolso. Gostou?
Vance olhou ao redor mais uma vez, ainda sentindo o gosto de sangue na boca.
— Hm… acho que sim — respondeu, tentando não soar animado demais… embora estivesse. Mesmo que tivesse vomitado sangue, isso ainda era novo para ele.
Raff riu.
— Como podem ver, aqui não existe nada além quatro paredes cinzas e um chão cinza, e também... um teto cinza. Antes de tirar vocês de lá eu precisava primeiro puxar vocês para mais perto de mim. Mesmo para alguém como eu, fazer um portal de uma distancia tão grande é impossível, desculpe por isso Vance.
Ele se virou e apontou para o mesmo portal de que veio.
— Bem… vamos sair daqui então.
Ao atravessar o portal, Vance esperou outro súbito vomito de sangue, mas simplesmente não aconteceu.
Do outro lado, ele viu a fábrica de onde recebeu sua arma, mas dessa vez, vazia.
— Estamos de volta — Raff disse, atravessando o portal logo depois, ajustando as mangas do casaco como se tivesse apenas passado por uma porta comum.
O rasgo negro atrás deles se fechou sem som algum, as bordas se dobrando para dentro até desaparecerem como se nunca tivessem existido.
Elena surgiu em seguida, carregando Elias nos ombros com a mesma facilidade desconcertante de antes. Ela caminhou até uma mesa metálica larga, coberta por ferramentas dispersas e componentes de Fluxores desmontados.
Com cuidado inesperado, colocou o engenheiro desacordado sobre a superfície fria.
O som do corpo encontrando o metal ecoou seco no galpão.
Ele limpou o canto da boca com o polegar por instinto.
— Então… — ele começou, a voz ainda levemente rouca — o que fazemos agora?
— Interrogamos
A palavra saiu da boca de Raff sem pressa, sem ênfase, como se estivesse dizendo “jantamos” ou “esperamos”. Simples. Direto. Inevitável.
Vance sentiu o peso dela se acomodar no ar.
Elena puxou uma cadeira com o pé e sentou-se ao lado da mesa, cruzando as pernas com elegância. A luz amarelada do galpão desenhava sombras longas no rosto dela, acentuando os olhos claros que agora estavam fixos em Elias como se ele já estivesse acordado.
— Ele ainda vai demorar uns minutos — ela disse. — O pulso anestésico foi profundo.
Raff caminhou até um armário de metal no fundo da fábrica e abriu a porta. O rangido ecoou pelo espaço. Lá dentro, não havia instrumentos de tortura exagerados ou equipamentos grotescos — apenas dispositivos compactos, cabos finos, módulos de leitura de Fios.
Ferramentas técnicas.
O que, de alguma forma, era pior.
Vance observava em silêncio.
— Você vai machucar ele? — perguntou, sem olhar diretamente para Raff.
Raff retirou um pequeno aro metálico com inscrições delicadas na superfície.
— Só se for necessário.
Ele jogou uma máscara para Vance e ao mesmo tempo para Elena.
Sua mascará era vermelha com dois chifres grandes. Claramente um demônio. Um sorriso maléfico era estampado na boca da máscara, e os olhos eram nada mais que vazios.
— Antes que perguntem, isso vai adiantar, vou fazê-lo esquecer o rosto que viu antes de ser enforcado.
Raff fechou o armário com o quadril, voltando para a mesa.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante das máquinas da fábrica. Um zumbido constante, quase hipnótico.
Elias começou a se mexer.
Primeiro, os dedos. Um tremor leve. Depois, a respiração mudou de ritmo. O dispositivo em seu pescoço piscou duas vezes e apagou.
Elena levantou-se imediatamente.
— Está voltando.
Os olhos de Elias se abriram de repente.
Ele olhava ao redor tentando entender onde estava.
Tentou se levantar, mas Raff colocou a mão firme em seu ombro, pressionando-o de volta contra a mesa.
— Calma — disse ele. — Você está seguro.
A mentira foi dita com suavidade suficiente para quase parecer verdade.
Elias olhou ao redor, os olhos correndo pela fábrica, pelas sombras, pelos rostos desconhecidos.
— Quem são vocês? — a voz dele saiu seca.
— Pessoas interessadas no seu trabalho.
Ele engoliu em seco.
— Black Rock vai—
— Black Rock não sabe onde você está — Raff interrompeu, a voz ainda controlada. — E, se colaborar, talvez nunca precise saber.
Vance permaneceu um pouco mais afastado, encostado em uma das colunas metálicas do galpão. Observava. Tentava ler o rosto de Elias.
Não havia arrogância ali. Nem postura de alguém poderoso.
Havia medo.
— Eu não tenho dinheiro — Elias disse, rápido demais. — Se é resgate, estão perdendo tempo.
Raff sorriu levemente.
— Não queremos seu dinheiro.
Ele colocou o aro metálico sobre a mesa, bem à vista.
— Queremos o mapa e também... acesso.
O silêncio mudou de textura.
Não era mais apenas tensão — era cálculo.
Elias ficou imóvel por alguns segundos, encarando o aro metálico sobre a mesa como se fosse mais perigoso do que qualquer arma.
— Mapa de quê? — ele perguntou, tentando ganhar tempo.
Raff inclinou a cabeça levemente, como quem avalia uma criança fingindo não entender.
— Da infraestrutura subterrânea da Black Rock. Túneis técnicos, dutos de Fios, câmaras de contenção, rotas de emergência. — Ele apoiou as mãos na mesa. — Tudo.
O rosto de Elias perdeu um pouco mais de cor.
— Isso é informação restrita.
— É por isso que você está aqui.
Ele se aproximou de Elias devagar.
— Além do mapa — continuou, quase em tom casual — queremos saber onde está guardado o item.
Elias franziu a testa.
— Que item?
Raff não respondeu.
Em vez disso, inclinou-se e sussurrou algo diretamente no ouvido dele.
Vance não conseguiu ouvir. Nem Elena.
Mas viu.
Viu o momento exato em que a respiração de Elias falhou.
Viu as pupilas dilatarem.
Viu o suor surgir na testa quase instantaneamente.
— Eu… — Elias tentou falar, mas a voz falhou. — Eu não sei do que você está—
Raff endireitou-se lentamente.
— Você sabe.
O engenheiro começou a balançar a cabeça.
— Ele não é… não é algo que se pega e leva embora. Vocês não têm ideia do que estão pedindo.
— Então explique — Elena disse, a voz levemente distorcida pela máscara.
Elias olhou para ela, depois para Vance.
Depois para Raff.
— Eu não tenho acesso completo — ele disse finalmente. — Eu só mapeio as camadas externas. A infraestrutura. A parte estrutural. Eu não entro na câmara principal.
— Mas sabe onde fica — Raff afirmou.
Silêncio.
Elias fechou os olhos.
— Fica dentro das favelas de Vallum — murmurou. — Dentro de uma suposta fábrica de energia abandonada.
Vance sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Raff olhou para Vance e Elena e disse:
— Saiam daqui.
Não houve explicação. Nem tom elevado. Apenas decisão.
Elena estreitou levemente os olhos por trás de sua mascara totalmente branca.
— Você vai ficar aqui... sozinho?
— Sozinho.
Vance não gostou daquilo.
— Raff—
— Agora.
A forma como ele disse não deixava espaço para debate.
Elena levantou-se primeiro. Segurou o braço de Vance por um instante — firme, não agressivo, mas definitivo.
— Vamos.
Ele ainda hesitou um segundo antes de se afastar da mesa. A sensação era estranha. Abandonar alguém ali — mesmo que esse alguém fosse um sequestrado — não parecia exatamente parte do plano que ele imaginava.
Eles atravessaram a fábrica até a porta de metal que dividia eles e o bar. Elena abriu e andou até o corredor.
O som do trinco ecoou ao fecha-la.
Do outro lado, silêncio.
— O que ele vai fazer? — Vance perguntou, em voz baixa.
Elena encostou-se na parede, cruzando os braços.
— Não faço ideia.
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