Volume 1
Capítulo 12: Sumiço
— O que é isso que ele quer? — Vance perguntou.
— Não sei. — Elena disse enquanto retirava a máscara.
— Meu deus, você não sabe de nada, Elena. Nem parece que trabalha com ele há tempos.
Ela soltou um pequeno suspiro pelo nariz, quase um riso contido.
— Na verdade não é há tanto tempo assim.
Vance piscou.
— Como assim?
Elena descruzou os braços e caminhou alguns passos pelo corredor, as botas ecoando no concreto.
— As pessoas acham que eu e Raff somos antigos parceiros. Que existe lealdade, história, algum pacto dramático. — Ela deu de ombros. — Não existe.
— Então por que você está aqui?
Ela parou. Pensou por meio segundo. O suficiente para escolher o que dizer — e o que esconder.
— Porque ele me encontrou num momento oportuno — respondeu, por fim. A voz saiu mais baixa, menos afiada. — Sabe, garoto… histórias como a sua não são incomuns por aqui. Gente que cresce sem estrutura, sem nome que abra portas, sem alguém para segurar quando tudo começa a ruir. A maioria aprende cedo que sobreviver não é uma escolha elegante. É uma necessidade.
Ela cruzou os braços, mas não como antes — não era postura de defesa, era contenção.
— Eu não sei muita coisa sobre o Raff. Não como você imagina. Ele não explica, não confessa, não compartilha. — Um pequeno sorriso sem humor tocou seus lábios. — Eu apenas… preciso sobreviver. E ele oferece caminhos que outros não oferecem.
Vance inclinou a cabeça, analisando-a.
— Não me leva a mal, Elena, mas você é uma Revelada. — Ele fez um gesto vago com a mão. — Um núcleo de quase dez centímetros não é pouca coisa. Você poderia trabalhar pro governo. Ou pra uma das grandes famílias. Ter segurança. Prestígio. Dinheiro.
Os olhos azuis dela endureceram um pouco.
— Poder, você quer dizer.
— É... isso.
Ela deu um passo mais perto.
— Governo e grandes famílias não contratam Revelados por bondade. Eles domesticam. Regulam. Amarram você a protocolos, monitoramento constante, implantes de contenção. Você vira ativo estratégico. Propriedade com crachá.
O silêncio ficou mais denso.
— Eu não nasci para ser ferramenta — continuou ela. — E não nasci para servir sobrenome nenhum.
Vance sustentou o olhar.
— Então você escolheu o que?
— Eu escolhi liberdade — corrigiu ela. — Mesmo que custe caro.
Ela desviou os olhos por um instante, como se encarasse algo que só ela podia ver.
— E tenho meus motivos pessoais além desses.
Dessa vez, não havia ironia. Nem provocação.
— Ainda não faz sentido para mim... trabalhar para ele é o mesmo que se submeter a ordens e coisas do tipo.
— Mais tarde você entenderá.
O tom não foi condescendente. Foi quase… cansado.
O galpão parecia mais silencioso agora. Do outro lado da porta metálica, Raff ainda estava com Elias. Nenhum grito. Nenhum som abrupto. Apenas o zumbido constante das máquinas e o eco distante de algo sendo ajustado.
— Existe diferença — ela continuou, depois de alguns segundos. — Entre escolher obedecer e ser obrigado a obedecer.
Vance franziu a testa.
— Parece a mesma coisa.
— Não é. — Elena descruzou os braços. — Quando você escolhe ficar, você ainda tem a opção de ir embora. Pode não ser fácil. Pode não ser seguro. Mas a decisão é sua.
— E você pode ir embora?
Ela demorou a responder.
— Posso.
Ele percebeu que aquilo não era exatamente verdade. Ou talvez fosse verdade demais, pesada demais para ser simples.
— Então por que não vai?
Elena desviou o olhar para o chão de concreto, como se acompanhasse uma linha invisível que atravessava o corredor.
— Isso não é da sua conta.
A resposta veio seca, cortando o assunto antes que pudesse crescer.
Vance percebeu o limite e, dessa vez, não insistiu. Não porque não estivesse curioso — mas porque reconhecia aquele tom.
A porta metálica do fundo do galpão abriu com um estalo seco.
Fumaça estranha saia como do cômodo como se ele estivesse saindo de um banho de água quente.
— Já podem entrar — a voz de Raff veio calma, como se estivesse chamando alguém para ver um projeto finalizado.
Elena foi a primeira a se mover. Vance lançou um último olhar para o chão e a seguiu.
O ar ali dentro parecia diferente. Mais quente.
A mesa metálica ainda estava no mesmo lugar. As ferramentas também. O aro com inscrições delicadas repousava encostado ao lado de um módulo de leitura.
Mas o corpo de Elias Math…
Não estava mais lá.
Vance parou no meio do passo.
— Cadê ele?
Não havia manchas de sangue. Não havia marcas de luta. Nem sequer o desalinhamento de alguém que tivesse sido movido às pressas.
A superfície da mesa estava limpa demais.
Raff estava encostado na borda oposta, retirando as luvas com movimentos tranquilos.
— O assunto foi resolvido.
Elena não demonstrou surpresa. Apenas analisou o ambiente uma vez, rápida, como quem confirma que tudo está onde deveria estar.
— Ele colaborou? — ela perguntou.
— O suficiente.
Vance sentiu um desconforto estranho subir pela espinha.
— “Resolvido” como?
Raff ergueu os olhos para ele.
Não havia sangue nas mãos dele. Nem nas roupas. Nada que denunciasse violência recente.
— Ele vai acordar em algumas horas. Em outro lugar. Sem lembrar dos rostos. — Um pequeno sorriso surgiu. — E com uma boa dor de cabeça.
Vance não sabia se aquilo o tranquilizava ou o preocupava mais.
— E o mapa? — Elena perguntou.
Raff caminhou até um terminal lateral e ativou a tela. Um conjunto de linhas tridimensionais surgiu, mais detalhado do que antes. Camadas subterrâneas. Rotas ocultas. Pontos de acesso restritos.
— Temos a infraestrutura completa — ele disse. — E o ponto exato da câmara principal
Vance se aproximou involuntariamente.
— E o… item?
Raff não respondeu de imediato.
Apenas ampliou uma área específica do mapa: um núcleo isolado, envolto por múltiplas camadas de contenção.
— Sabemos onde está.
— E o que é? — Vance insistiu.
Raff o encarou por um segundo longo demais.
— Não é informação que você precise agora.
O silêncio voltou a se instalar.
Elena cruzou os braços novamente.
— Então qual é o próximo passo?
Raff desligou o terminal.
— Daqui 3 dias.
— 3 dias? — Vance repetiu.
— Vocês voltam aqui às nove. Descansados. Alimentados.
Vance apertou os dentes, mas não respondeu.
— Hoje acabou — Raff continuou. — Vocês dois fizeram o que era necessário.
Ele caminhou até a porta principal da fábrica e a abriu parcialmente.
— Vance e Elena, se não estiverem ocupados, mais tarde o pessoal daqui fará uma espécie de comemoração, se quiserem vir.
Ele inclinou levemente a cabeça, quase casual.
— Nada formal. Só bebida, música ruim e gente fingindo que não trabalha com coisas questionáveis. Se quiserem aparecer.
Elena arqueou uma sobrancelha.
— Comemorar o quê?
— A parte boa da vida. Ah, mais tarde olhe sua conta bancaria Vance. Muito obrigado.
Ele fechou a porta com um empurrão leve, encerrando o assunto.
Do lado de fora, o frio era mais intenso. O vento entrava no bar e movia taças e garrafas.
Vance caminhou alguns passos em silêncio, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.
— Você vai? — perguntou, sem olhar para Elena.
— Talvez.
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