Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 13: Comemoração

O bar não tinha nome na fachada.

A placa metálica acima da porta estava apagada havia anos, tomada por ferrugem e poeira urbana. Quem não soubesse o que procurava passaria direto, achando que era apenas mais um lugar decadente numa rua esquecida.

Mas lá dentro, a história era outra.

A iluminação era baixa, âmbar, com lâmpadas pendendo por fios aparentes que serpenteavam pelo teto como nervos expostos. O balcão de madeira escura tinha marcas antigas de copos e queimaduras de cigarro. O cheiro era uma mistura de álcool, fritura e resquício de Fios manipulados.

A música vinha de um sistema antigo, grave encorpado demais para o espaço fechado, fazendo os vidros vibrarem discretamente em músicas com grave.

No fundo do bar, atrás de uma porta comum demais para chamar atenção, ficava o acesso para a fábrica.

Mas ali, parte normal do bar, tudo parecia apenas… normal.

Gente rindo alto.

Copos batendo.

Conversas cruzadas que não faziam sentido quando ouvidas pela metade.

Vance parou um segundo antes de entrar completamente.

O contraste era estranho.

Horas atrás, aquele mesmo lugar abrigava silêncio tenso. Agora, o balcão estava tomado por corpos inclinados em direção à bebida, como se o mundo fosse simples demais para exigir cautela.

Elena passou por ele, empurrando levemente seu ombro.

— Se continuar parado assim, vão achar que é policial.

— Eu só estou olhando.

— Olhe de leve — Elena sorriu ao falar.

Ela não parecia a mesma pessoa de algumas horas antes.

A rigidez calculada do sequestro tinha ficado para trás. No lugar da jaqueta utilitária e das botas pesadas, agora usava algo muito mais deliberado.

Uma saia preta acima do joelho moldava a silhueta com precisão, presa por um cinto duplo que marcava a cintura e curvas, se conectava a tiras sutis que desapareciam sob a peça superior. Só depois de alguns segundos Vance percebeu que não era exatamente uma saia — era parte de algo maior, estruturado, quase como um uniforme reinventado para a noite.

A meia-calça escura cobria as pernas por completo, contínua, sem falhas, criando contraste com o brilho discreto da pele exposta entre o tecido e a barra da saia. As botas pretas de salto fino não eram feitas para correr — mas ainda assim, nela, pareciam tão funcionais quanto qualquer equipamento tático.

Os cabelos estavam soltos, caindo pelos ombros com descuido calculado. A luz âmbar do bar desenhava reflexos sutis nos fios roxos escuros e suavizava as linhas duras do rosto que, horas antes, observava um homem desacordado sobre uma mesa metálica.

— Você encara como se estivesse analisando uma zona de guerra — ela comentou, aproximando-se um pouco. — Isso é um bar, calma.

— Hm, eu sei... — Vance respondeu, desviando o olhar por um instante.

Elena soltou um riso leve, diferente do sorriso contido de antes.

— Relaxa. Aqui ninguém quer morrer hoje.

Ela passou por ele, deixando um perfume discreto — algo amadeirado e frio — que contrastava com o cheiro pesado de álcool no ar.

Ele fechou a porta atrás de si.

O som da rua morreu e a música o envolveu.

Raff estava encostado no balcão, conversando com Sebastian, ele segurava um copo pequeno com dois dedos.

Ali ele parecia mais solto, menos comandante.
Vance se aproximou devagar.

Raff notou sua presença antes mesmo que ele falasse.

— Achei que não viria.

Raff fez um gesto breve para Sebastian, que colocou um copo diante de Vance sem perguntar o que ele queria.

O líquido escuro refletiu a luz âmbar do teto.

— Você precisa aprender a aproveitar os intervalos — Raff disse. — Eles não duram.

Vance segurou o copo, mas não bebeu. Não imediatamente.

Raff puxou um banco de madeira ao seu lado e com um gesto simples convidou Vance a se sentar.

Sentou-se.

O banco rangeu sob o peso. A madeira era antiga, mas firme. Sebastian já havia se afastado para atender outro grupo no extremo do balcão, deixando os dois em uma espécie de bolha discreta no meio do barulho.

Raff girava o copo entre os dedos, observando o líquido como se analisasse algo mais complexo do que álcool barato.

— Você continua de pé mesmo quando senta — ele comentou

Vance franziu levemente a testa.

— Como assim?

— Ombros tensos. Mandíbula travada. — Raff não olhava para ele enquanto falava. — Parece que está esperando alguém anunciar seu nome.

Vance deu um gole finalmente. O gosto era forte, seco.

Silêncio.

A música mudou. Um ritmo mais lento, menos agressivo. Alguém começou a bater o pé no chão acompanhando a batida. Risos estouraram perto da mesa central.

Raff apoiou o antebraço no balcão.

— Você foi bem hoje.

A frase veio simples.

Sem peso dramático.

Mas não era avaliação técnica. Não havia “mas” depois. Não havia ajuste. Era constatação.

Vance desviou o olhar para o espelho atrás do balcão. O reflexo dos dois se misturava à movimentação do bar.

— Você sempre diz isso depois que algo dá certo? — ele perguntou.

— Não.

— Então por que agora?

Raff tomou um gole antes de responder.

— Porque você foi bem, simples. O que eu disse é o que é.

— Eu não acho...

— Bom, eu acho. Isso já é o suficiente.

— Olha, eu errei o tempo do enforcamento, dirigi mal, não consegui fazer muito hoje, Elena fez praticamente tudo.

— Blablabla, mas que dificuldade garoto, é tão difícil assim aceitar que você se saiu bem?

Raff virou o copo vazio e fez sinal para Sebastian, que já vinha com a garrafa.

— Sabe qual é o problema da maioria das pessoas? — Raff continuou. — Elas querem se provar antes de entender o que estão fazendo.

— E eu?

— Você... você... hm...

Raff inclinou levemente a cabeça, como se realmente estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Você quer merecer antes de existir.

Vance piscou.

— Isso não faz sentido.

— Faz sim. — Raff encostou o ombro no balcão. — Você age como se precisasse justificar o próprio espaço no mundo. Como se estar aqui já fosse um erro que precisa ser compensado.

A música abafou parte da frase, mas não o suficiente.

Vance segurou o copo com mais força do que pretendia.

— Você fala como se me conhecesse há anos. Bom, tecnicamente conhece, mas... — Vance parou a frase no meio sem encontrar palavras para completa-la.

Vance tinha mais perguntas do que respostas nesse momento, ele queria entender a trama de Elias, o que aconteceu naquela sala, se ele ao menos estava vivo.
Agora parecia o momento perfeito de perguntar.

— Ei, Ra—

— Venha, garoto. Vamos conhecer seus parceiros de firma.

Raff já estava de pé quando terminou a frase.

Vance deixou o copo pela metade no balcão e o seguiu.

A música parecia mais alta no centro do bar. A vibração subia pelo chão de madeira, atravessava as solas dos sapatos e alcançava o peito. Um grupo ocupava duas mesas empurradas juntas perto da parede lateral — copos espalhados, garrafas abertas, risadas que competiam com o grave da caixa de som.

— Pessoal — Raff anunciou, sem elevar muito a voz.

Ainda assim, o suficiente para alguns olhares se voltarem.

— Esse é o Vance.

Houve uma pausa curta. Avaliação silenciosa.

Um homem de cabelos raspados e olhos claros foi o primeiro a falar:

— O novato do portal?

— O próprio — Raff respondeu.

Vance olhou para Raff com uma expressão que falava por si só:

“Como esses caras sabem disso?”

Raff não precisou que Vance falasse em voz alta.

— Informação circula — disse, tranquilo. — Principalmente quando algo interessante acontece.

O homem de cabelos raspados inclinou o corpo sobre a mesa, apoiando os cotovelos na madeira.

— Relaxa. Quando um portal abre no meio de uma missão e ninguém morre, isso vira assunto.

— E quando alguém morre? — Vance perguntou, antes de filtrar.

Um dos homens riu pelo nariz.

— Aí vira piada.

Uma mulher com cicatriz longa no seu olho e cabelos pretos ergueu o copo na direção dele.

— Você não virou piada. Ainda.

Risos.

Vance manteve o olhar firme, mas sentiu o peso implícito nas palavras.

— Então foi você que dirigiu para fora da linha de tiro? — perguntou outro, mais jovem.

Vance hesitou.

— Sim... eu acho. Por mais que eu tenha explodido o carro.

Um segundo de silêncio.

Então gargalhadas altas apareceram.

— Explodiu o carro? — o raspado repetiu, incrédulo. — O carro?

— Tecnicamente — Vance respondeu, seco —, ele já estava destinado a morte.

— Destinado a morte — a mulher da cicatriz repetiu, segurando o riso. — Ele está justificando.

— Eu tirei a gente da linha de tiro — Vance completou. — O resto foi consequência.

O mais jovem bateu na mesa, rindo.

— Consequência é quando quebra o retrovisor. Você transformou o veículo em argumento.

Mais risadas.

Raff não ria alto. Observava.

— Ninguém morreu — ele disse, finalmente. — Foquem no que importa.

— Ainda — o raspado provocou.

Raff lançou um olhar lateral.

A provocação morreu ali.

Vance percebeu algo importante: as risadas não eram desprezo. Eram rito.

Se estivessem realmente questionando sua competência, o clima seria outro. Mais frio. Mais direto.

— Você dirige sempre assim? — perguntou a mulher da cicatriz.

— Na verdade, eu nunca dirigi.

Silêncio.

Não o silêncio desconfortável.

O silêncio de processamento.

— Você… nunca dirigiu? — o raspado repetiu, piscando duas vezes.

— Não — Vance respondeu, simples. — Aquela foi a primeira vez.

Um segundo.

Dois.

Então a mesa explodiu em gargalhadas ainda mais altas que antes.

— Ele roubou um carro, abriu um portal, saiu da linha de tiro e explodiu o veículo na primeira experiência ao volante! — o mais jovem quase engasgou de tanto rir. — Isso é talento bruto!

— Isso é estatística de desastre — a mulher da cicatriz retrucou, enxugando o canto do olho.

Raff finalmente deixou escapar um riso audível.

— Como assim “abriu um portal”, eu não abri portal nenhum, não é Raff?

— Olha... mais ou menos. Minha magia reage a meus funcionários, meio que o portal abrir foi coisa sua também. Não pense muito nisso garoto, aproveite.

Na mesa tinham o total de 4 pessoas, cada um com suas características próprias, alguns pareciam mais introvertido, outros totalmente o contrário.

— Primeira direção, primeiro carro explodido… você oficialmente já tem história pra contar.

— Não parece uma boa história.

 — As melhores não são — o mais velho respondeu — é por isso que são as melhores.

A música mudou novamente. Mais alta. Mais intensa. Alguém puxou o raspado pelo braço e ele se levantou reclamando.

— Se ele dirigir de novo, eu vou no banco de trás! — gritou antes de se afastar.

Mais risadas.

O raspado ergueu as mãos em rendição enquanto era arrastado para direção de Vance.

A mesa ficou um pouco mais espaçada.

— Prazer em conhece-lo Vance, meu nome é Lucian.

O aperto foi forte, testando.

Ele correspondeu na mesma medida.

— Vance.

— Já sei — Lucian respondeu com um meio sorriso. — Portal, carro, explosão. Difícil esquecer.

Ao lado dele, a mulher da cicatriz inclinou levemente a cabeça. De perto, a marca no olho esquerdo era mais evidente — longa, quase elegante, como se tivesse sido desenhada com intenção. O cabelo preto caía até a altura do ombro, preso de um lado por um pequeno fecho metálico.

— Aurelia — disse ela, estendendo a mão também. — Prazer.

O aperto dela era diferente.

Não forte, mas, preciso.

Como se estivesse medindo temperatura.

— Vance.

— Você sempre responde assim? Só o nome?

— Depende da pergunta.

Aurelia sorriu.

O mais jovem, que ainda não tinha se apresentado, levantou o copo.

— Dorian — disse, apontando para si com dois dedos. — Eu sou o que faz os cálculos darem certo depois que vocês fazem as coisas darem errado.

— Ele compensa nossas decisões ruins — Lucian completou.

— Eu reduzo danos — Dorian corrigiu.

O mais velho, encostado na parede até então, aproximou-se da mesa. Tinha os cabelos grisalhos nas laterais e uma postura que não precisava se impor para ser respeitada.

— Hector — disse apenas.

Lucian, energia excessiva.

Aurelia, olhar afiado.

Dorian, análise constante.

Hector, silêncio pesado.

Essa era apenas uma mesa, ainda tinha várias outras aqui.

“Essa noite vai ser longa...” Vance pensou já se arrependendo de ter vindo.

Depois de conhecer as pessoas que ali estavam, ele finalmente se sentou no balcão onde já estava no início.

Aparentemente a parte funcional da gangue, eram as pessoas da primeira mesa, o resto das pessoas que estavam no bar eram apenas funcionários da fábrica onde mexiam com a venda de armas.

Funcional eram as pessoas que efetivamente realizavam missões como a de Vance.

O que criou uma semente de dúvida na mente de Vance:

"Porque fui chamado para esse grupo principal se eu nem sequer sou um revelado?"

A música parecia mais alta agora.

Ou talvez fosse só a cabeça dele.

O copo que havia deixado pela metade ainda estava ali, intocado, como se ninguém ousasse mexer.

Sebastian o empurrou alguns centímetros na direção dele.

— Sobreviveu à mesa? — perguntou, limpando outro copo com um pano já saturado de álcool.

— Por enquanto.

Sebastian sorriu de canto.

— Então está melhor que muitos.

Vance não respondeu. Levou o copo aos lábios e deixou o líquido descer devagar, tentando organizar os pensamentos.

Vance ainda observava o reflexo difuso no espelho atrás do balcão quando percebeu a presença antes mesmo de vê-la.

O perfume veio primeiro.

Amadeirado e frio.

Elena encostou-se ao lado dele como se sempre tivesse estado ali, o ombro quase tocando o dele. A luz âmbar deslizava pelos fios soltos do cabelo e suavizava as linhas firmes do rosto — mas os olhos continuavam atentos, avaliando.

Ela apoiou o cotovelo na madeira marcada do balcão e girou o copo lentamente entre os dedos.

— E então — disse, sem pressa —, o que achou?

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