Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 14: Comando

Vance ainda segurava o copo quando a pergunta de Elena ficou no ar.

— E então — disse ela novamente, inclinando levemente a cabeça —, o que achou?

Ele observou o reflexo dos dois no espelho atrás do balcão. As luzes âmbar distorciam as bordas, misturando rostos, sombras e movimento.

— Achei que seria pior.

Elena soltou um pequeno sopro de riso.

— Pior como?

— Mais hostil. Mais… fechado.

Ela girou o copo entre os dedos.

Do outro lado do bar, Lucian quase derrubava uma cadeira enquanto tentava ensinar alguém a acompanhar o ritmo da música. Aurelia observava encostada na parede, sorriso contido. Dorian falava algo no ouvido de Hector, que apenas assentia.

— Você percebeu, não foi? — Elena perguntou.

— O quê?

— Que a primeira mesa é diferente.

Vance assentiu.

— Eles não são só bons. Eles confiam uns nos outros.

Elena sorriu, satisfeita.

— Exato.

— E onde exatamente você se encaixa nisso, Elena?

Elena não respondeu de imediato.

O sorriso dela não desapareceu — mas mudou.

Ficou menor.

Mais controlado.

Ela apoiou o cotovelo no balcão e encarou o reflexo dos dois no espelho em vez de olhar diretamente para ele.

— Você faz perguntas perigosas rápido demais — murmurou.

Elena não respondeu de imediato.

O copo dela permaneceu imóvel sobre o balcão, os dedos ainda tocando a borda como se estivesse decidindo se continuava o movimento… ou o interrompia de vez.

— Na verdade — ela disse por fim, a voz mais baixa, menos performática —, eu tenho outros objetivos além de bebedeira e roubos descontrolados.

Vance virou o rosto completamente para ela.

— Que objetivos?

Ela não sorriu.

Não dessa vez.

Os dedos dela se afastaram do copo devagar, como se o vidro tivesse ficado pesado demais.

— Tem uma pessoa — disse, finalmente. — Uma muito importante pra mim. Ela está… mal.

A música parecia distante agora.

Vance não desviou o olhar, mas também preferiu ficar em silencio, não queria forçar uma resposta e parecer rude.

Elena sustentou o silêncio por dois segundos antes de continuar.

— O tipo de mal que não se resolve com descanso.

A resposta foi medida.

Contida.

— E eu preciso de dinheiro — ela continuou. — Muito dinheiro.

Sem dramatização.

Sem pedido de pena.

— Para ajudá-la.

Ela soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase um riso sem humor.

— Bem clichê, não é?

Vance não respondeu.

— “Garota perigosa entra no submundo por alguém que ama.” — Ela deu de ombros. — Não é exatamente revolucionário.

O olhar dela endureceu levemente.

— Mas é real.

Ela inclinou a cabeça.

— Desculpa se não correspondi às suas expectativas.

A frase veio seca.

Defensiva.

Como se estivesse preparada para julgamento.

Vance demorou um segundo antes de falar.

— Eu não tinha expectativas.

Elena manteve o olhar fixo nele por um instante, como se estivesse tentando decidir se aquilo era desinteresse… ou respeito.

— Não? — perguntou, mais baixa.

— Não.

A resposta não veio apressada. Nem carregada de ironia.

Só simples.

Ela relaxou um centímetro dos ombros, quase imperceptível.

A música voltou a invadir o espaço entre eles, mas agora parecia abafada, distante, como se o bar inteiro tivesse sido empurrado alguns metros para trás.

— Geralmente as pessoas têm — ela disse. — Acham que eu estou aqui por emoção. Ou por influência. Ou por… vaidade.

— Eu só sabia. — Ele falou sem olhar diretamente para ela dessa vez. Observava o reflexo no espelho, como se fosse mais fácil dizer a verdade através da distorção.

— Dá pra perceber pela sua expressão — continuou. — Eu sou um pouco bom nisso… eu acho.

Elena não respondeu imediatamente.

O silêncio não foi desconfortável.

Foi… atento.

— Pessoas como nós? — ela repetiu, testando a frase.

Vance deu de ombros, leve.

— Sim.

— E o que exatamente você sabe de mim?

Não havia agressividade na pergunta.

— Se formos falar de dados reais? Nada — ele respondeu. — Não sei seu passado, não sei seu sobrenome, não sei quem é essa pessoa que você quer ajudar.

Ele fez uma pequena pausa.

— Mas eu sei observar. E observar já revela bastante coisa.

Elena cruzou os braços, não na defensiva — apenas avaliando.

— Revela o quê?

Vance não desviou o olhar.

— Que você nunca se descuida com as entradas.

Ela piscou, quase imperceptível.

— Que você bebe rápido demais para alguém que veio “relaxar”.

O canto da boca dela se moveu um milímetro.

— Que você mede o ambiente antes de se mover dentro dele. E que quando ri… — ele inclinou levemente a cabeça — você continua prestando atenção no que está acontecendo ao redor.

Silêncio.

A música parecia distante novamente.

— Isso não diz quem eu sou — ela disse.

— Não. — Ele concordou. — Não completamente. Não subestime a sabedoria das ruas Elena, nós sabemos deduzir certas coisas, e induzir também.

Elena sem querer deixou escapar um sorriso, como se estivesse um pouco impressionada.

— Oh, certo. Me perdoe mestre da sabedoria das ruas. Agora eu entendo.

O resto da noite escorreu sem grandes problemas.

O bar foi ficando mais quente, mais alto, mais solto. Em algum momento, noventa e cinco por cento das pessoas já estavam bêbadas o suficiente para rir alto demais e dançar como se o chão não tivesse memória.

Lucian perdeu completamente qualquer noção de ritmo.

Dorian, surpreendentemente, não.

Aurelia alternava entre observar e provocar.

Hector continuava sóbrio demais para alguém cercado por tanto álcool.

Vance passou a maior parte do tempo no balcão.

Sebastian contava histórias antigas da fábrica — versões editadas, claramente — enquanto limpava copos que já estavam limpos. Elena voltava e saía da conversa como quem mede a própria presença: falava o suficiente, sumia o suficiente.

Não houve mais perguntas profundas.

Mas houve silêncio confortável.

Raff, por outro lado, permaneceu quase o tempo todo com a primeira mesa. Não exatamente liderando a conversa — ele nunca precisava —, mas mantendo o eixo. Quando ele se movia, os outros ajustavam levemente a posição. Quando ele ficava quieto, ninguém falava alto demais.

Vance observou isso mais de uma vez.

Perto do fim da noite, quando o ar já estava pesado de álcool e música repetida, ele decidiu sair antes que o ambiente ficasse apenas barulho.

Despediu-se de Sebastian com um aceno discreto.

De Lucian com um aperto de mão exagerado demais para alguém quase caindo.

De Dorian com um leve toque de copo.

Hector apenas assentiu.

Aurelia sorriu como se soubesse algo que ele ainda não sabia.

Elena apenas disse:

— Não suma.

Simples, sem drama.

Vance atravessou o salão, passou pela porta principal e foi atingido pelo ar frio da noite como um choque limpo.

Silêncio.

Depois de horas de música, o mundo parecia distante demais.

Ele deu dois passos para frente antes de perceber que não estava sozinho.

Raff estava encostado na parede ao lado da porta, parcialmente coberto pela sombra da noite. Um cigarro aceso brilhava entre os dedos, a brasa acendendo e apagando como um pulso lento.

— Tão cedo... — Raff comentou, sem tirar os olhos da rua.

— Acho que já conversei demais por hoje. — Vance disse, tentando amenizar com um leve sorriso.

Raff soltou um breve sopro pelo nariz — não exatamente um riso, mas próximo disso.

— Conversar também cansa — respondeu. A voz dele era estável, sem resquício do barulho que ainda vibrava atrás da porta.

O vento da madrugada atravessou a rua quase vazia. A música agora era só um eco abafado através das paredes.

— Você não parece cansado — Vance comentou.

Raff manteve os olhos na rua por alguns segundos antes de responder.

— E eu não estou. Momentos como esse são finitos. — Ele soltou a fumaça devagar. — Eu gosto de aproveitar o melhor da vida enquanto está acontecendo.

Vance arqueou levemente a sobrancelha.

— O que foi? A madrugada te deixou emotivo?

Um quase sorriso surgiu no canto da boca de Raff.

— Talvez.

O vento passou entre eles, carregando o resto distante da música.

— O pessoal gostou de você — ele continuou, agora mais direto. — Isso é raro.

Vance inclinou a cabeça.

— Eu também gostei deles. — Deu um meio sorriso discreto. — Parecem… pessoas normais. Dentro do possível.

Raff soltou um pequeno sopro pelo nariz.

— Normal é uma palavra muito forte.

— Ainda assim — Vance continuou —, parecem leais. Entre eles, pelo menos.

Raff assentiu uma única vez.

— Vocês vão trabalhar juntos em breve.

Não foi dito como possibilidade.

Foi dito como fato.

O vento atravessou a calçada, mais frio agora.

Vance respirou fundo antes de mudar o rumo da conversa.

— Falando em trabalho, Raff…

O tom perdeu parte da leveza.

— O que exatamente aconteceu hoje mais cedo?

Raff não respondeu de imediato.

A brasa do cigarro iluminou o rosto dele por um segundo antes de apagar no chão.

— Seja mais específico.

Vance manteve o olhar firme.

— O sequestro. A tortura.

A palavra ficou no ar.

— Eu vim de um lugar onde esse tipo de coisa é comum — ele continuou, mais contido. — Onde ninguém se surpreende. Mas isso não significa que eu… goste.

Silêncio.

A música atrás da porta parecia distante demais para pertencer ao mesmo mundo.

— Eu ainda não sei o que pensar sobre isso — Vance concluiu. — Entende?

Raff observou a rua por alguns segundos antes de responder.

— Entendo.

A resposta veio baixa.

Sem defensiva.

— Mas você está perguntando se aquilo foi necessário… ou se foi excesso?

Vance soltou o ar devagar, como se estivesse organizando pensamentos que não queriam se alinhar.

— Não… — ele começou, passando a mão pelo cabelo por um instante. — Sinceramente, eu nem sei exatamente o que estou perguntando.

Raff permaneceu em silêncio, esperando.

— Eu entendo os prós e contras da missão — Vance continuou. — Entendo a lógica. Informação por pressão. Resposta proporcional. Mensagem enviada.

Ele fez uma pausa curta.

— Só que… sei lá. Bate estranho.

A palavra saiu crua.

Sem enfeite.

Raff não respondeu de imediato. O vento soprou entre os dois, carregando o cheiro distante de álcool e fumaça.

— Estranho como? — perguntou, finalmente.

Vance demorou um segundo.

— Como se eu estivesse assistindo e participando ao mesmo tempo. — Ele franziu levemente a testa. — Parte de mim sabe que era necessário. Outra parte não consegue simplesmente aceitar.

Silêncio.

Raff assentiu devagar.

— Eu sei como você se sente, garoto.

A voz dele não tinha dureza agora. Nem superioridade.

Só experiência.

— No começo, todo mundo sente essa fricção.

Ele cruzou os braços, encarando a rua vazia.

— A diferença é o que cada um faz com ela.

Vance olhou para ele.

— E você fez o quê?

Raff demorou a responder.

— Eu parei de esperar que o mundo fosse confortável. Isso não significa que eu gosto de tudo o que faço. Significa que eu escolhi qual desconforto eu consigo carregar.

O poste na esquina, que até então piscava como se indeciso, finalmente estabilizou a luz. Um brilho fixo, frio, constante.

Raff acompanhou aquilo por um segundo antes de voltar os olhos para Vance.

— Grandes ambições cobram preço — disse, mais baixo agora. — E quase nunca avisam quanto vai custar no começo.

O vento atravessou a rua, levantando poeira leve junto ao meio-fio.

— Esse é o mundo.

O silêncio que se seguiu foi curto — mas denso.

Raff não desviou o olhar dessa vez.

— Vance… você tem um sonho?

A madrugada pareceu segurar o próprio som, como se esperasse a resposta junto com ele.

Vance abriu a boca, mas nenhuma resposta veio pronta.

— Um… sonho? — repetiu, como se a palavra fosse estrangeira.

Ele desviou o olhar para o asfalto, tentando puxar algo de dentro que nunca tinha sido nomeado.

Nada saía.

— Eu… nunca pensei nisso.

A admissão ficou ali, crua.

Raff não demonstrou surpresa.

— Nunca?

Vance balançou a cabeça devagar.

— Sempre foi mais simples que isso. — Ele respirou fundo. — Era sobreviver. Pegar o que precisava. Não chamar atenção errada. Não morrer cedo demais.

Ele soltou um pequeno riso sem humor.

— Sonho parece coisa de quem tem tempo.

O vento passou novamente entre os dois.

Raff assentiu levemente.

— Você está certo… — Raff disse, mais devagar agora. — Nossos arredores não permitem esse tipo de luxo. Sonhos são caros demais pra quem está ocupado demais sobrevivendo.

Ele respirou fundo.

— Mas eu não sou assim.

Vance inclinou a cabeça, interessado.

— Não?

Raff ergueu o olhar, firme.

— Eu odeio ser controlado.

A frase saiu sem hesitação.

Sem máscara.

— Sempre odiei. Desde pequeno. Quando alguém diz “é assim que funciona”, eu automaticamente quero testar o contrário.

Um meio sorriso surgiu no canto da boca dele.

— Se o mundo aponta pra esquerda, eu pelo menos vou olhar pra direita.

O vento atravessou a rua novamente, como se marcasse o peso da declaração.

— É assim que eu ganho a minha vida — Raff concluiu. — Fazendo o que dizem que não dá pra fazer.

Vance o observou por alguns segundos em silêncio.

Raff quebrou o silêncio com a mesma firmeza de sempre.

— Garoto… venha aqui amanhã cedo.

O tom já não era contemplativo, era prático.

— Vamos fazer um treinamento.

Vance ergueu levemente o olhar.

— Treinamento?

— Você ainda não é um Revelado. — A palavra foi dita com peso específico. — E isso significa que existem coisas que você precisa dominar mais do que a maioria.

Não havia desprezo na frase.

Havia cálculo.

— Instinto ajuda — Raff continuou. — Mas instinto sem base quebra sob pressão.

Ele deu um passo à frente, a luz do poste iluminando parcialmente o rosto.

— Nas próximas missões, tenho quase certeza de que você vai precisar de mais do que coragem e reação rápida.

Uma pausa breve.

— Controle do corpo. Do ritmo. Da decisão. — Ele sustentou o olhar de Vance. — E principalmente do que acontece aqui.

Raff tocou levemente a própria têmpora.

— Você aprende rápido. Eu vi isso hoje. Mas aprender rápido não substitui preparação.

O bar atrás deles já estava quase silencioso agora. A música tinha diminuído para um murmúrio distante, e apenas algumas risadas soltas escapavam pela porta entreaberta.

Raff já se virava para sair quando pareceu reconsiderar.

— Depois do almoço, na verdade. Treze horas.

Na mesma fluidez com que encerrava qualquer assunto, ele girou nos calcanhares. Empurrou a porta do bar e a luz âmbar engoliu sua silhueta por um instante.

Antes que a porta se fechasse completamente, ele fez um breve aceno para trás — simples, quase distraído.

E então desapareceu lá dentro.

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