Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 15: Destino

No caminho de volta para casa, o frio da madrugada já não mordia com a mesma força.
No quarto apertado, iluminado apenas pelo brilho fraco do aparelho, Vance abriu o aplicativo do banco quase sem pensar. A tela levou um instante a mais do que o normal para responder.
500 dólares.
Ele ficou olhando o número, imóvel, como se encarar aquilo por tempo suficiente fosse fazê-lo mudar. Como se fosse um erro.
Quinhentos dólares por um único serviço.
A ideia parecia deslocada da realidade. Mais dinheiro do que ele já tinha visto acumulado de uma só vez na vida inteira.
Sem perceber, começou a calcular.
Um aluguel simples girava em torno de setecentos. Aquilo… aquilo era quase tudo em uma única tacada.
Vance deixou o celular sobre a mesa e passou a mão pelo rosto, tentando organizar a mistura de surpresa e inquietação que crescia dentro do peito.
As palavras de Elena voltaram, pesando mais do que antes.
Agora fazia sentido.
No dia seguinte, Vance foi ao encontro de Raff, como combinado.
A cidade ainda despertava.
A luz pálida da manhã escorria entre prédios gastos, refletindo em janelas sujas e poças antigas que nunca secavam por completo. O movimento era baixo mas ainda existia.
A iluminação amarelada do sol criava sombras densas nos cantos, escondendo mais do que revelava. O ar carregava o cheiro persistente de álcool barato, ferro e um cheiro que lembrava a comemoração do dia anterior.
Vance entrou com passos firmes, ajustando o ritmo ao ambiente. Seu olhar percorreu o salão de forma discreta, procurando por Raff ou alguém relacionado.
Ele ocupava o mesmo lugar de sempre, no fundo do salão, onde a luz enfraquecia e as sombras se acumulavam como uma segunda camada do ambiente. Estava sentado de frente para o movimento, atento a tudo sem parecer interessado em nada. Um copo vazio descansava diante dele, esquecido, como se tivesse servido apenas de pretexto.
Os olhos de Raff encontraram os de Vance antes mesmo que ele cruzasse metade do caminho.
— Chegou cedo — disse, erguendo levemente uma sobrancelha, a surpresa contida mais no tom do que na expressão.
Vance puxou a cadeira e se acomodou com naturalidade.
— O horário era depois do almoço, eu sei — respondeu, apoiando os braços na mesa — mas ficar parado acabou parecendo perda de tempo. Antecipar um pouco não atrapalha. Raff inclinou levemente a cabeça, absorvendo a resposta com mais atenção do que demonstrava. O gesto foi sutil, quase automático, mas carregava aquele hábito constante de avaliar tudo ao redor.
— Faz sentido.
O silêncio que se seguiu não trouxe desconforto. Pelo contrário — parecia intencional, como se ambos aceitassem aquele intervalo antes de avançar. O bar continuava em seu ritmo próprio ao redor, mas, naquela mesa, a conversa já havia tomado outro rumo.
Raff apoiou o braço na mesa, os dedos tocando de leve a superfície desgastada.
— Pronto para entender onde está se metendo? — perguntou, mantendo o olhar fixo em Vance.
Vance sustentou o olhar sem pressa, os olhos firmes, sem desviar.
— Eu já tenho uma ideia — respondeu, com calma. Ele fez uma pequena pausa, como se organizasse melhor o próprio pensamento.
— Se você acha que ainda tem coisa que eu não vi… então vale a pena ouvir.
Raff observou Vance por mais um instante, em uma expressão indecifravel e inabalavel até para ele.
Então assentiu.
— Justo.
Ele apoiou as mãos nos joelhos e empurrou o corpo para cima em um único movimento limpo. Nenhum músculo além do necessário se contraiu, as costas alinharam assim que ficou de pé, o peso já distribuído antes mesmo do gesto terminar.
A cadeira atrás dele mal rangeu.
— Então vamos.
Raff caminhou até uma área mais limpa dentro da fabrica de costume onde uma mesa simples e um quadro estavam posicionados de forma quase didática, destoando do restante da estrutura.
Ele puxou uma cadeira com o pé e a empurrou na direção de Vance.
— Sente.
Vance obedeceu, ainda observando o ambiente.
Raff pegou um pedaço de giz e se posicionou diante do quadro.
Por um instante, ficou em silêncio, como se organizasse por onde começar.
Então traçou um ponto no centro.
— Antes de qualquer coisa… é aqui que tudo começa.
A voz dele veio mais baixa agora, menos direta, carregando um peso diferente.
— Uma pessoa comum. Um corpo comum. Uma vida que segue regras que parecem sólidas demais para serem questionadas.
O giz deslizou novamente.
Linhas começaram a surgir ao redor do ponto, irregulares, imperfeitas, como rachaduras que se espalhavam sem um padrão definido.
— Até que algo… cede.
Ele observou o desenho por um instante, como se reconhecesse aquilo.
— A realidade, do jeito que você conhece, funciona porque mantém forma. Mantém consistência.
Uma pausa breve.
— As falhas são o oposto disso.
O olhar dele se deslocou levemente, como se lembrasse de algo distante.
— Lugares onde essa consistência se desfaz. Onde o mundo deixa de seguir as próprias regras.
O giz tocou o quadro mais uma vez.
— Como você bem sabe, as dentro das Falhas é como se a historia da humanidade se misturassem em passado e presente. Estruturas antigas são avistadas e estruturas que as vezes eram ditas apenas como lendas. Mas...
O giz tocou o quadro mais uma vez.
Um traço atravessou o ponto.
— Criaturas estranhas são vistas nesses lugares, e por estranhas eu digo do tipo que te fazem querer correr e se esconder em baixo da terra e nunca mais sair.
Vance permaneceu em silêncio, absorvendo.
Raff desenhou uma pequena forma ao lado do ponto — algo que lembrava um cristal, mas sem simetria perfeita.
— Dentro de uma falha, existe sempre um caminho de volta. Arlith Ashlight foi a primeira pessoa a descobrir como fazer isso.
Raff manteve o giz próximo ao quadro por um instante, como se a simples menção daquele nome exigisse um cuidado maior ao seguir.
— Ele não sobreviveu por força — continuou, o tom mais contido — sobreviveu porque entendeu.
Ele traçou uma linha fina partindo do desenho da joia, conectando-a ao ponto central.
— Enquanto todos tentavam lutar, correr ou simplesmente resistir… ela observou.
O giz se moveu devagar, quase preciso demais.
— Percebeu que aquele lugar não era apenas hostil. Era estruturado.
Vance inclinou levemente a cabeça.
— Estruturado como?
Raff olhou de relance para ele, então voltou ao quadro.
— Como um sistema.
Ele circulou o desenho irregular das falhas.
— Cada criatura, cada espaço, cada distorção… tudo seguia algum tipo de lógica, mesmo quando parecia puro caos à primeira vista.
Raff fez uma breve pausa, deixando a ideia se acomodar.
— A joia não estava ali por acaso.
O giz tocou o quadro com leveza, marcando o desenho como algo central.
— Ela não é uma recompensa. É uma chave.
O silêncio ganhou peso.
— Arlith foi a primeira a perceber que a saída não estava escondida… estava condicionada.
Vance cruzou os braços, absorvendo, o olhar mais estreito agora.
Raff sustentou o olhar dele.
— Sair com vida não resolve. Você precisa… ser aceito pela própria falha.
A frase ficou no ar por um segundo a mais.
— E qual é essa lógica? O que define essa aceitação? — Vance perguntou, direto.
Raff se virou por completo então, o corpo finalmente acompanhando o olhar.
Por um instante, apenas observou Vance.
Então, um sorriso surgiu — leve, quase natural demais para o assunto.
— Esse é o ponto.
Ele soltou um pequeno sopro pelo nariz, como se achasse graça na própria resposta.
— Ninguém sabe ao certo.
O sorriso permaneceu, mas havia algo por trás dele agora.
— Nem os que estudam isso há anos. Nem os que voltaram mais de uma vez.
Raff inclinou levemente a cabeça.
— Cada falha parece… escolher de um jeito diferente.
O olhar dele voltou rapidamente para o quadro.
— Algumas favorecem força. Outras, adaptação. Outras… algo que nem faz sentido quando você tenta explicar.
Ele deu um passo lento, afastando-se um pouco.
— E é isso que torna tudo mais interessante.
O sorriso diminuiu, dando lugar a algo mais contido.
— Você entra sem saber o que vai encontrar… e sai sem entender exatamente por que conseguiu.
Os olhos de Raff voltaram para Vance, mais atentos agora, como se aquela parte exigisse um cuidado diferente.
— Existe um padrão.
A pausa veio breve, medida.
— Pessoas de famílias nobres… quase sempre atravessam.
Ele deixou a frase se sustentar por um instante antes de continuar.
— Com mais consistência. Com mais frequência.
O olhar se manteve firme.
— Como se já chegassem… reconhecidas.
Raff inclinou levemente a cabeça, pensativo.
— Preparação ajuda, claro. Treinamento, métodos, conhecimento acumulado por gerações.
Uma respiração curta.
— Mas isso não explica tudo.
Os dedos dele bateram de leve no quadro, próximos ao desenho da falha.
— Tem algo além disso. Algo que não foi registrado, nem ensinado.
Ele voltou a encarar Vance.
— E, até hoje, ninguém conseguiu reproduzir esse fator fora dessas famílias.
O silêncio voltou, mais carregado dessa vez.
— O resto de nós… — Raff completou, com um tom mais baixo — depende do mais puro destino.

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