Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 8: Álcool

O beco não parecia convidativo.

Era estreito demais para carros e muito escuro. Os prédios se aproximavam ali como se conspirassem umas com as outras, janelas altas e cegas, tubulações expostas, Fios correndo sem qualquer preocupação estética.

Vance diminuiu o passo.

O chão estava úmido, não exatamente sujo, mas marcado por pegadas antigas, respingos secos, histórias que não pediam para ser lidas. O som da cidade ficava abafado conforme ele avançava, como se estivesse entrando em outra camada da mesma realidade.

Então viu a luz.

Não vinha do fim do beco, mas de uma porta lateral, baixa, quase tímida. Um letreiro simples pendia acima dela, letras gastas demais para serem modernas: “LAST CALL”.

Sem hologramas, projeções ou propaganda.

Só luz amarelada escapando pelas frestas.

Vance parou diante da porta por alguns segundos, avaliando. Não havia fila. Não havia seguranças visíveis. Nenhuma placa dizendo quem podia ou não entrar. Apenas uma porta e a promessa implícita de algo do outro lado.

Ele empurrou.

O teto era baixo, mas o espaço se alongava, paredes de concreto cru misturadas com madeira escura, iluminação indireta criando sombras confortáveis. O cheiro era forte — álcool, fumaça leve, algo queimado que lembrava especiarias ou metal quente. Um som constante de vozes baixas preenchia o lugar, misturado a uma música lenta, quase imperceptível, mais próxima de um pulso do que de uma melodia.

As mesas eram simples. Algumas ocupadas, outras não. Pessoas espalhadas sem padrão claro: dois homens conversando em voz baixa num canto, uma mulher sozinha girando lentamente o copo, um grupo pequeno rindo demais para aquela hora.

Aquilo era um bar.

Ninguém olhou para ele por mais de um segundo.

Isso foi… bom.

Vance escolheu o balcão.

Sentou-se numa banqueta de metal gasto, colocou a maleta entre os pés e apoiou os cotovelos no tampo frio. O bartender estava secando um copo, movimentos lentos, precisos. Se aproximou de Vance e disse.

— O que vai ser? — perguntou, sem levantar muito a voz.

Vance demorou um instante.

Ele nunca bebera de fato algo muito alcoólico, o mais bêbado que conseguiu ficar foi com um gole de corote que logo após colocar na boca ele cuspiu pelo gosto parecido com a morte.

Vance era pobre, mas era fresco.

— O que me recomenda? — Vance perguntou.

O bartender ergueu os olhos pela primeira vez, avaliando Vance com calma profissional. Não havia curiosidade excessiva ali, nem julgamento — só leitura. Como quem mede resistência pelo jeito de ficar em pé.

— Algo que não minta pra você — respondeu. — Nem pra cima, nem pra baixo.

Vance mentalmente fez uma expressão de confusão, fisicamente se manteve igual.

Ele pegou uma garrafa escura da prateleira mais baixa, outra translúcida, despejou doses exatas num copo curto. Não usou gelo. Apenas girou o líquido uma vez, como se selasse a decisão.

— Beba devagar — disse, empurrando o copo pelo balcão. — Isso aqui é para esquecer as dores da vida, ou talvez... aguentar apenas.

Vance observou o copo por um instante. O líquido tinha um tom âmbar fechado, quase opaco sob a luz baixa. Cheirava forte.

Levou aos lábios com cautela.

O primeiro gole queimou.

Não foi o tipo de ardência que agride — foi direto, seco, como um aviso. Desceu pela garganta e abriu caminho no peito, espalhando um calor imediato que o fez franzir o cenho. O gosto era amargo, com algo terroso no fundo, metálico de leve. Nada parecido com o corote da memória.

Ele engoliu.

Soltou o ar devagar.

— …ok — murmurou, quase surpreso consigo mesmo.

O bartender assentiu, satisfeito, e voltou a secar copos como se aquilo encerrasse o assunto.

Vance apoiou o antebraço no balcão e ficou ali, quieto. Bebeu outro gole, menor dessa vez. Sentiu o corpo responder aos poucos, não com tontura, mas com peso. Um peso suportável. Confortável, até.

Olhou ao redor com mais atenção.

O bar não parecia um lugar de encontros nem de despedidas. Era um intervalo. Um espaço entre decisões. Ninguém ali parecia querer ser visto, mas também ninguém se escondia de verdade. Pessoas existindo juntas, separadas o suficiente para não precisarem explicar nada.

Ele gostou disso.

Terminou o copo lentamente. Não pediu outro, ele não precisava testar seus limites hoje.

Quando pagou, deixou algumas moedas a mais no balcão sem pensar muito. O bartender apenas fez um gesto breve com a cabeça, aceitando sem cerimônia.

Ao sair, o bar não reagiu à ausência dele. A música continuou igual. As vozes também. Como se Vance tivesse sido apenas mais um pensamento passageiro naquele lugar — e isso era exatamente o que ele queria.

O beco o recebeu de volta com o ar frio da noite.

Dessa vez, não parecia ameaçador. Só estreito e claustrofóbico.

Vance ajustou o casaco, subiu a rua sem pressa e deixou Vallum passar ao redor dele. As luzes refletiam no asfalto úmido, os Fios pulsavam sob a cidade como algo vivo, contido.

Quando chegou ao prédio dos quartos, subiu as escadas em silêncio. Entrou no Quarto 5, fechou a porta e largou o peso do dia junto com o casaco na cadeira.

Abriu a maleta. Tirou o revólver. Colocou-o sob o travesseiro, onde pertencia agora.

Vance ficou deitado por alguns minutos, olhando para o teto escuro, acompanhando o som distante da cidade atravessando paredes finas demais. Passos no corredor, um rádio antigo tocando em algum quarto abaixo. Água correndo em canos que pareciam reclamar do próprio trabalho.

Tudo aparentemente normal.

Ele ajustou o travesseiro com cuidado, sentindo o contorno duro do revólver sob o tecido. Não era conforto exatamente. Era confirmação. Um lembrete silencioso de que, mesmo quando descansava, ainda estava pronto. Ainda precisava estar.

Pensou no restaurante, no gosto da carne, no jeito como o corpo tinha relaxado sem que ele percebesse. Pensou no bar, no copo simples, no calor que não prometia nada além do que entregava. Pequenas coisas. Pequenas experiências que, até pouco tempo atrás, pareciam pertencer a outro tipo de gente.

Não à periferia, não a alguém como ele.

Talvez Vallum fosse isso. Uma cidade que oferecia demais e demais ao mesmo tempo. Onde tudo parecia possível, desde que você estivesse disposto a pagar o preço certo — em dinheiro, em tempo, ou em si mesmo.

Vance não sabia ainda qual seria o preço dele.

Sabia apenas que, pela primeira vez em muito tempo, não estava correndo. Não estava fugindo. Não estava contando horas até o próximo problema. O amanhã existia, mas não batia à porta com urgência.

O corpo começou a pesar de verdade.

Os pensamentos perderam nitidez, como se alguém estivesse baixando lentamente o volume do mundo. O calor do álcool já tinha virado apenas um resquício agradável, misturado ao cansaço real de quem andou demais, pensou demais, sentiu demais para um único dia.

Antes de apagar de vez, uma última ideia atravessou sua mente — simples, quase boba:

Talvez viver não fosse só sobreviver entre uma noite e outra.

Talvez fosse isso aqui. Esses intervalos. Esses momentos em que nada precisava ser decidido.

Se fosse assim…

Talvez ele pudesse aprender.

O quarto ficou em silêncio.

A cidade seguiu viva lá fora.

E Vance dormiu, profundamente, enquanto Vallum respirava ao redor dele — indiferente, imensa e inesperada.

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