Volume 1
Capítulo 7: Cordeiro
Ao acordar, Vance percebeu, ao olhar o celular, que já eram quase dez horas da manhã.
O gesto veio antes do pensamento. As mãos deslizaram para debaixo do travesseiro e tocaram o metal frio do revólver. Estava onde deveria estar. Só então ele relaxou o suficiente para inspirar fundo.
Desbloqueando o celular uma notificação ocupava a tela, solitária demais para ser ignorada. Número desconhecido. Sem foto. Sem nome salvo, era Raff.
“Bom dia flor do dia, achou que tinha se livrado de mim? Ainda não haha”
— Como diabos esse cara achou meu telefone… — murmurou.
“Caso esteja pesando onde eu te encontrei, não se preocupe, eu sou bem informado, sabe”.
Vance soltou uma risada seca, sem humor, e passou a mão pelo rosto.
— Desgraçado.
Ele respondeu imediatamente: “Stalker maldito, já temos trabalho?”
Vance largou o celular sobre o colchão e ficou alguns segundos encarando o teto manchado, como se pudesse encontrar ali alguma resposta. A luz da manhã entrava pela janela alta em cortes irregulares, atravessando a poeira suspensa no ar. A periferia já estava acordada havia horas, mas ele não.
O celular vibrou outra vez.
“Sem pressa. O primeiro serviço não é hoje”.
Vance franziu o cenho.
— Claro que não é — murmurou. — Nada nunca é simples.
Ele se sentou na cama, os pés tocando o chão frio. O quarto parecia ainda menor de manhã, como se a noite ao menos tivesse a decência de esconder suas falhas. A cadeira torta, a mesa estreita, a fechadura frágil demais para segurar qualquer coisa que realmente quisesse entrar.
Uma nova mensagem.
“Mas eu preciso saber se você acordou vivo. Já é um bom começo”.
Vance pegou o celular outra vez. Os dedos pairaram sobre a tela por um instante, indecisos. Ele não gostava da ideia de responder. Gostava menos ainda da ideia de não responder.
Digitou:
“Não é obvio?”
A resposta veio rápido demais.
“Ótimo, então escuta. Ainda não temos nada para hoje, mas para amanhã, preciso de você aqui as 14 horas. Temos assuntos a discutir e planos a traçar”.
Vance respondeu concordando e então guardou seu celular.
O que ele precisara agora era de um bom banho matinal.
Vance se levantou devagar, sentindo o corpo reclamar mais do colchão fino do que da noite em si. Pegou a toalha dobrada em cima da cadeira torta e foi até o banheiro.
O espaço era pequeno demais para conforto. Azulejos antigos, manchas que não saíam nem com esforço, um espelho estreito que devolvia apenas partes do rosto de cada vez. Ele abriu o chuveiro e esperou. A água demorou a cair, depois veio fria, depois morna — instável, como tudo ali.
Entrou mesmo assim.
A água escorreu pelos ombros, levando o suor seco e o cheiro da rua. Vance apoiou a mão na parede e fechou os olhos por alguns segundos. Não para pensar em nada. Só para deixar o corpo acordar de vez.
Quando terminou, se secou rápido e voltou ao quarto.
Vance abriu a maleta e começou a escolher roupas.
Hoje estava frio. 2 graus celsius e sem previsão de aumentar, um inverno congelante estava se aproximando nos próximos dias.
Primeiro escolheu uma calça escura, o tecido grosso deslizava pelas pernas até se ajustar sem apertar. Depois as botas, pesadas, firmes. Amarrá-las exigiu força nos dedos. Quando ficou de pé, sentiu o chão de outro jeito. Mais distante. Mais controlável, ele até se sentiu alguns sentimentos mais altos.
— Finalmente 1,80. Chorem por mim mulheres — Vance sorriu sem remorso. Mas sabendo que ele nunca nem mesmo chegara perto de uma mulher de verdade que não fosse sua mãe.
A camisa veio em seguida, simples, sem identidade. Apenas tecido em sua pele. Sobre ela, um casaco longo e cinza. O peso caiu sobre os ombros de uma vez só. Vance passou os braços pelas mangas e fechou os botões, um a um.
Ele ajustou um cachecol branco, cobrindo a boca e parte do rosto. O ar ficou mais quente ali dentro, mais estreito também. Não era desconfortável. Era… seguro.
Apertou o cinto na cintura, sentindo o casaco se moldar ao corpo, alongando sua silhueta. No espelho estreito do quarto, o reflexo devolveu alguém diferente. Mais alto. Mais fechado. Menos exposto.
Toda essa roupa escondia seu físico magro e praticamente desnutrido. 63kg em um corpo de quase 1,80 era pelo menos magreza extrema.
Se olhando no espelho ele percebeu: ele não parecia assim alguém tão periférico. Na verdade, ele até começou a ver algum estilo saindo do espelho.
Vance pegou a maleta e colocou o revólver em um espaço entre sua calça e cintura. Já tendo passado o casaco pelos ombros e ajustado o cachecol ele abriu a porta do quarto.
O corredor estava silencioso demais para aquele horário. Lâmpadas antigas piscavam no teto, lançando sombras irregulares sobre as paredes descascadas. Cada passo ecoava mais do que deveria. Ele desceu as escadas sem pressa, sentindo o peso das botas contra o concreto gasto.
Na portaria, a mulher de antes nem levantou os olhos. Vance passou sem dizer nada. A porta se fechou atrás dele com um rangido longo, quase cansado.
Do lado de fora, o frio bateu de frente.
O ar cortava a pele exposta, mesmo através do casaco. A rua ainda estava úmida da madrugada, refletindo as luzes fracas dos postes defeituosos. Tinham fios cruzando o céu como veias tensionadas. A periferia seguia em movimento: gente passando rápido, vendedores improvisados, passos sem destino claro.
Vance começou a andar sem escolher direção.
Não tinha para onde ir. Não agora.
As mãos ficaram nos bolsos do casaco. O vento jogava seu cabelo ainda úmido para trás. O corpo seguia no automático, desviando de pessoas, de poças, de sombras mais densas. A cabeça, porém, estava estranhamente vazia. Não havia urgência. Não havia fome. Não havia medo imediato.
Só tempo.
Era isso que incomodava.
Tempo demais para pensar no que fazer quando ninguém estava mandando. Nenhuma rota definida. Nenhum ponto de encontro. Nenhuma ordem disfarçada de escolha. Apenas ele e a rua.
Vance parou sob um poste falhando. A luz piscou uma, duas vezes, como se também estivesse indecisa. Ele observou o reflexo distorcido do próprio corpo no vidro de uma vitrine trincada. O casaco longo. A postura fechada. O rosto quase inteiro escondido.
Não parecia alguém sem destino.
Mas estava.
— E agora? — murmurou, mais para o frio do que para si mesmo.
Podia comer. Podia andar. Podia simplesmente desaparecer por algumas horas. Vallum oferecia opções demais para quem não sabia o que queria.
Talvez fosse isso o problema.
Vance voltou a andar, deixando o poste para trás. O dia seguia, indiferente. E, pela primeira vez em muito tempo, ninguém parecia esperar nada dele.
E isso… era estranho demais. Estranhamente confortável.
Vance queria aprender novas sensações e ver coisas diferentes. Então procurou um restaurante e entrou.
O lugar ficava numa área mais elevada de Vallum, onde os prédios tinham linhas limpas demais para serem improviso e os Fios corriam embutidos na arquitetura, quase invisíveis. A fachada era elegante sem esforço: vidro escuro, metal polido, um letreiro discreto projetado diretamente no ar, sem neon, sem excesso. Não era um restaurante de elite. Mas definitivamente não era comum
Dentro, o ambiente era silencioso na medida certa. Iluminação quente, mesas bem espaçadas, tecidos grossos absorvendo o som. O cheiro era mais complexo — especiarias, carne grelhada, algo cítrico no fundo. Pessoas bem vestidas, mas não formais. Profissionais de Vallum. Gente que não precisava provar nada.
Vance parou por um segundo após entrar.
Ali, ninguém parecia deslocado… mas ele sentiu que poderia estar.
Escolheu uma mesa lateral, perto de um painel de vidro que dava vista para a rua. Sentou-se de frente para a porta, com um campo de visão onde pudesse ver tudo ao redor e, com cuidado, acomodou a maleta ao lado da cadeira, parcialmente escondida pelo casaco longo. Não chamou atenção. Isso era bom.
Um garçom se aproximou, postura treinada, olhar atento.
— Boa tarde. Deseja algo para beber enquanto escolhe?
Vance pegou o cardápio. O material era firme, quase pesado. Leu rápido.
Até então o que ele conseguia fazer era ler vários nomes de comidas estranhas que ele não conhecia.
— Água com gás. E… — fez uma pausa curta e decidiu pegar o que ele pelo menos sabia o que era — vou querer o cordeiro.
O garçom assentiu de imediato.
— Cordeiro ao molho escuro de especiarias, com purê de raízes e legumes grelhados. Ótima escolha.
Vance apenas confirmou com a cabeça, sem entender muito porque seria uma boa escolha.
Quando ficou sozinho, apoiou os cotovelos na mesa por um instante e depois se corrigiu, endireitando a postura. Um hábito antigo tentando não se destacar demais. Observou o ambiente com atenção automática: entradas, saídas, reflexos nos vidros, posições das mesas. Tudo parecia calmo.
O prato chegou poucos minutos depois.
A carne estava perfeitamente selada, macia só de olhar, coberta por um molho espesso, escuro, brilhando sob a luz suave. O purê tinha textura firme, quase rústica, e os legumes ainda mantinham cor e forma.
Olhando assim Vance nem tinha certeza se realmente podia pagar por isso. Parecia delicioso.
Vance cortou um pedaço pequeno e levou à boca.
O gosto era novo, mas muito bom.
Não era tipo de comida que enchia rápido ou enganava o estômago. Era feita para ser apreciada, para durar. Ele comeu devagar, quase respeitoso. Cada garfada parecia exigir presença, não urgência.
Em algum ponto, percebeu que estava relaxando.
Não completamente — nunca completamente —, mas o suficiente para baixar a guarda por alguns minutos. O casaco pesado nos ombros, o cachecol cobrindo o rosto, a maleta fora do alcance imediato… tudo aquilo ainda existia. Só não gritava.
Terminou o prato. Bebeu um gole longo de água. Ficou ali mais alguns segundos, observando o reflexo do próprio rosto no vidro escuro à frente.
“Eu deveria mesmo ter gasto dinheiro com isso?”
Por um instante, a resposta foi automática: não. Com aquele dinheiro dava para mais dias, mais margem, mais segurança. A periferia ensinara isso cedo demais. Comer bem nunca fora prioridade, só a próxima noite.
Mas o gosto ainda estava ali, insistente. Não só na boca — no corpo inteiro. O calor discreto no peito, a sensação estranha de estar… satisfeito.
Vance soltou o ar devagar.
Talvez não fosse sobre comida.
Talvez fosse sobre provar, nem que fosse uma vez.
— Se fosse pra escolher, acho que eu poderia viver assim todos os dias, querer paz é pedir muito para alguém como eu? — ele disse em quanto conversava consigo mesmo no reflexo da janela.
Levantou-se e vestiu o casaco com mais cuidado do que ao chegar e pagou a conta. Ajustou o cachecol, conferiu a maleta, lançou um último olhar ao salão antes de seguir para a saída. Ninguém o observava. Ninguém se importava.
Isso também era novo.
Do lado de fora, Vallum continuava a mesma. Tráfego constante, passos apressados, os Fios correndo sob a superfície da cidade como um sistema nervoso contido. O frio mordeu de leve o rosto dele, trazendo tudo de volta ao lugar.
Vance começou a andar sem rumo definido.
Passou por vitrines, por prédios administrativos, por gente que falava de contratos, de prazos, de decisões que nunca chegariam às ruas mais baixas. Ele não invejava aquilo. Não exatamente. Mas observava, tentando entender onde se encaixava agora.
Ele se aproximou de uma estátua, uma que não era um ser humano. Era uma máquina antiga.
“Avião usado na segunda guerra mundial”, estava escrito em pedra.
Vance conhecia os aviões, não o suficiente. Tudo que ele sabia é que eles eram usados antigamente, mas um pouco depois do surgimento da magia eles não foram mais utilizados.
Ele andou mais um pouco e então percebeu, a tarde já estava terminando e a noite logo ocuparia seu lugar.
Vance estava se cansando, mas ao mesmo tempo curioso.
“O que de novo existe na noite de Vallum?”
A pergunta ficou ecoando enquanto as luzes da cidade começavam a mudar.
Não foi brusco. A cidade não “acendia” à noite — ela se transformava. As projeções aéreas ganharam mais profundidade, os Fios sob a superfície passaram a pulsar com ritmos diferentes, mais densos, como se a cidade respirasse mais fundo quando o sol se afastava. Tons frios substituíam o dourado da tarde. Menos transparência. Mais intenção.
Vance percebeu que o fluxo de pessoas também mudava.
Durante o dia, Vallum era funcional. À noite, ela se tornava seletiva.
Algumas ruas ficavam mais vazias, outras mais cheias. Portas que antes pareciam decorativas agora estavam abertas, revelando interiores iluminados demais ou escuros demais. Sons que não existiam antes — música baixa, conversas contidas, risadas rápidas demais para serem sinceras — escapavam pelas esquinas.
Mas tudo isso ele já sabia, ele queria outra espécie de “novo”.
Ele ajustou o cachecol instintivamente.
Não sentia medo, não exatamente. Era algo mais próximo de atenção ativa. Aquela sensação de que, se desse mais dois passos em qualquer direção, estaria cruzando algum tipo de fronteira invisível.
Passou por um bar onde a fachada mudava de forma conforme as pessoas entravam. Por uma galeria que exibia arte feita com Fios vivos, pulsando em padrões que o deixaram levemente desconfortável. Por um beco onde dois homens discutiam em voz baixa, interrompendo a conversa no instante em que ele passou.
Vance parou novamente, dessa vez sob a sombra de dois prédios altos demais para aquela área. Encostou as costas na parede fria e respirou fundo. O dia tinha sido… estranho. Bom, até. Estranho por ser bom.
Ele não estava fugindo. Não estava caçando. Não estava cumprindo nada.
Estava solto.
A palavra ainda não se encaixava direito.
Passou a mão pelo revólver, não para conferir se estava ali — ele já sabia —, mas como quem toca algo familiar para lembrar quem é. O peso era o mesmo. A realidade também
— Vallum à noite… — murmurou. — Deve ter alguma coisa esperando.
Ele se afastou da parede e escolheu uma rua que descia, mais estreita, menos iluminada, onde os Fios não estavam totalmente escondidos e corriam visíveis pelas laterais dos prédios, expostos como nervos
Se havia algo novo a descobrir, não estaria nas avenidas principais.
E Vance, pela primeira vez em muito tempo, decidiu seguir a curiosidade — não a necessidade.
E então, ele entrou em um beco entre esses dois prédios.
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