Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 6: Conforto

— Se me permite, Vance… quem exatamente são seus alvos? — Raff perguntou, mantendo os olhos fixos nos dele.

Vance demorou um instante para responder.

— Pessoas comuns. Eu acho. Não pensei em um tipo específico… cada necessidade é um caso.

Raff assentiu devagar.

— Entendo. — Fez uma pausa. — Mas e se, em vez de alguém comum, você encontrar alguém forte de verdade?

Vance franziu o cenho.

— Roubar Latentes e Revelados não engajados não é tão difícil — continuou Raff, desviando o olhar por um segundo antes de inspirar fundo. — Mas servidores públicos… Revelados com um pouco mais que o mínimo de poder…

Ele parou.

— Aí já não é um risco. É sentença.

Sebastian voltou nesse momento, carregando uma maleta preta, elegante.

— Pense nisso por enquanto, garoto — concluiu Raff.

Sebastian pousou a maleta sobre a mesa com cuidado excessivo. O clique metálico do fecho ecoou mais do que deveria naquele espaço apertado. Vance acompanhou o gesto com o olhar, sentindo um incômodo estranho, como se algo tivesse acabado de ser decidido sem que ele participasse.

Raff cruzou os braços.

— Você não precisa responder agora — disse. — Só… não confunda necessidade com descuido.

Vance deu de ombros, tentando parecer indiferente.

— Eu sei me virar.

Raff soltou um riso curto, sem humor.

— Todo mundo acha isso.

Sebastian destravou a maleta.

Dentro, repousava um revolver.

— Meu deus Sebastian... eu disse algo menos chamativo e... um pouco menos letal — Raff olhava em um tom de reprovação.

— Oh senhor desculpe, mas... isso aqui era o menos chamativo. Todo o resto estava personalizado por Fios de alta qualidade ou estava já reservado. — ele disse parecendo com medo das palavras de Raff.

— Não se preocupe, na verdade... eu até que gostei. — Vance intuitivamente deixou passar um sorriso.

O revólver dourado era estranhamente bonito. Tinha um cano anormalmente longo, elegante demais para algo feito para matar, e desenhos — ou escrituras — que percorriam todo o seu comprimento em linhas finas e irregulares. Não eram simétricas. Não pareciam decorativas. Pareciam… funcionais.

Vance se inclinou um pouco para frente, os olhos presos à arma.

— Isso são runas? — perguntou, sem tirar o olhar.

Sebastian hesitou antes de responder.

— Inscrições de Fios — disse. — Nada muito sofisticado, mas o suficiente pra dar trabalho.

Raff suspirou, passando a mão pelo rosto e disse:

— É um revólver originário de um Colt M1892 mas ele não dispara projéteis comuns. Quero dizer, dispara… mas o que atravessa não é só o metal. Ela atravessa, campos de Fios, selos simples, resistências improvisadas… — Ele engoliu em seco. — Esse revólver foi equipado com um Fluxor artificial que expele energia de Fios em vez de pólvora, ou seja, seu poder de fogo é bem maior que um revólver comum.

— Em termos simples — continuou —, isso não é uma arma pra assustar. É pra encerrar encontros.

Vance finalmente ergueu o olhar.

— Encerrar?

Raff sustentou o olhar dele por tempo demais.

— Definitivamente.

Sebastian pigarreou, nervoso, e apontou para as inscrições no cano.

— O Fluxor não é estável como os usados em infraestrutura. Ele responde à intenção. Quanto mais decidido o disparo… mais limpo o resultado.

Ele estendeu a mão. Ninguém o impediu.

No instante em que seus dedos tocaram o cabo, houve uma sensação estranha, quase elétrica, como se o revólver tivesse reconhecido algo familiar. As inscrições não brilharam, não se moveram — mas Vance sentiu um leve peso no pulso, um ajuste invisível.

— Estranhamente leve — ele disse.

Raff franziu o cenho.

— Não se engane por isso. O peso real não está no metal.

Vance girou o pulso devagar, testando o equilíbrio. O revólver parecia se acomodar à mão dele com facilidade demais, como se tivesse sido moldado depois de já saber quem o seguraria.

— Ele se ajusta — murmurou.

Sebastian engoliu em seco.

— O Fluxor faz microcorreções. Postura, pulso, até… — ele hesitou — intenção.

Vance ergueu uma sobrancelha.

— Então se eu errar…

— Não erra — Raff cortou. — Se você quiser acertar, vai acertar.

O silêncio voltou a se espalhar pelo cômodo, pesado, quase opressivo. Vance abaixou o revólver, observando as inscrições mais de perto. Algumas linhas pareciam mais profundas, como cicatrizes no metal.

— Alguém já usou isso antes — disse.

Não foi uma pergunta.

Sebastian desviou o olhar.

— Não muitas vezes.

Raff cruzou os braços novamente.

— E todas as vezes foram finais.

Vance assentiu devagar. Não parecia chocado. Nem animado. Apenas… atento.

— Então é isso que vocês chamam de margem de segurança.

— Chamamos de última opção — corrigiu Raff. — Uma opção que você só usa quando já passou do ponto de retorno.

Vance soltou um riso baixo, quase inaudível.

Vance colocou o revólver de volta na maleta, mas não a fechou imediatamente. Seus dedos ficaram apoiados na borda por um instante a mais do que o necessário.

— Se eu encontrar alguém forte de verdade — disse, sem olhar para eles —, essa coisa vai decidir por mim?

Raff negou com a cabeça.

— Impossível. Chega um ponto que tiros são facilmente esquiváveis ou simplesmente não perfuram a pele de um Revelado muito forte. Confie em mim Vance, experiencia própria.

Vance ergueu o olhar devagar.

— Experiência própria? — repetiu, a voz baixa, quase neutra.

Raff sustentou o olhar por um segundo a mais do que gostaria.

— Nem toda cicatriz fica visível — respondeu. — Algumas só ensinam quando parar de atirar… e começar a correr.

Sebastian fechou a maleta com cuidado, como se quisesse encerrar o assunto junto com o som do fecho.

— Essa arma não te coloca acima de ninguém — acrescentou. — Ela só impede que você esteja abaixo demais.

Vance assentiu lentamente. Não parecia decepcionado. Se algo, parecia aliviado.

Raff observou aquela reação por alguns segundos, como quem confirma uma suspeita antiga. Então descruzou os braços e apoiou as mãos na mesa.

— Existe outra coisa que você precisa saber antes de sair daqui — disse, num tom mais calmo, quase administrativo.

Vance ergueu o olhar.

— Imaginei.

Raff fez um gesto curto para a maleta.

— Essa arma não é barata. Nem em dinheiro, nem em favores. E definitivamente não é algo que eu coloco na mão de alguém só por boa vontade.

Sebastian permaneceu em silêncio, os olhos alternando entre os dois.

— Mas… — Raff continuou — eu não estou interessado em te vender nada.

Vance inclinou levemente a cabeça.

— Então?

Raff respirou fundo.

— Um acordo. Trabalho mútuo.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Menos pesado. Mais atento.

— Você trabalha pra mim — disse Raff, direto. — Serviços pontuais. Alvos específicos. Nada improvisado, nada emocional.

Vance estreitou os olhos.

— E em troca?

— Em troca — Raff enumerou com os dedos —, você não paga pela arma. A manutenção, o Fluxor, as recargas… tudo por minha conta.

Sebastian assentiu discretamente.

— Além disso — Raff continuou —, cada serviço concluído rende um valor fixo. Limpo. Sem intermediários.

Vance soltou um riso curto.

— Então eu viro funcionário.

— Sim — Raff disse. — Você vira recurso. E recursos bem utilizados vivem mais.

Vance ficou em silêncio por alguns segundos, olhando para a maleta fechada.

— E se eu recusar um serviço? — perguntou.

— Pode recusar — disse Raff. — Mas não pode agir por conta própria enquanto estiver sob esse acordo.

— Olhe não me entenda mal Raff, mas esse tipo de acordo normalmente prende as pessoas. Eu tenho uma condição.

Raff riu da audácia de Vance, então disse:

— Certo, certo. Diga.

Ele não sorriu de volta. Seus dedos ainda repousavam sobre a maleta, firmes.

— Se eu aceitar trabalhar pra você — disse —, eu escolho quando e como saio.

Raff arqueou a sobrancelha.

— Continue.

— Nada de dívidas invisíveis. Nada de “mais um serviço” porque alguém lá em cima decidiu. — Vance ergueu o olhar, sério agora. — Quando eu disser que acabou, acabou. Sem perseguição. Sem cobrança. Sem caçada.

O silêncio voltou, denso.

Sebastian prendeu a respiração.

Raff inclinou a cabeça, estudando Vance como se estivesse diante de uma peça rara… e perigosa.

— Você está pedindo uma cláusula de fuga — disse por fim.

— Estou pedindo liberdade — ele corrigiu. — Mesmo que temporária.

Raff apoiou as costas na cadeira e soltou um riso baixo, quase admirado.

— Engraçado… — murmurou. — A maioria pede mais dinheiro. Ou mais poder.

— Eu já sei o preço dessas coisas — respondeu Vance.

Raff ficou em silêncio por alguns segundos longos demais. Então assentiu.

— Então eu também tenho uma condição. Um mínimo de 3 serviços que eu escolher, justo não é?

Vance não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram fixos em Raff, calculando o peso real daquela proposta.

— Três — repetiu, devagar.

Raff assentiu.

— Três serviços escolhidos por mim. Depois disso, você pode ir embora. Sem rastreadores. Sem dívidas. Sem nomes jogados no mercado. — Inclinou levemente a cabeça. — Justo, não é?

Sebastian soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.

Vance apoiou a mão na maleta, pensativo.

— E se um desses três for algo que cruze a linha? — perguntou. — Algo que eu não faria nem por dinheiro.

Raff respondeu sem hesitar:

— Então você recusa. E eu escolho outro.

Vance ergueu uma sobrancelha.

— Sem penalidade?

— Sem penalidade — confirmou Raff. — A única regra é: três serviços concluídos. Não três tentativas.

O silêncio voltou, mas agora era diferente. Menos ameaça. Mais acordo.

Vance soltou um riso baixo.

— Você é melhor nisso do que aparenta, Raff.

— Eu lido com sobreviventes — respondeu ele. — Ou aprende a negociar, ou aprende a enterrar.

Vance assentiu uma vez.

— Certo. Três serviços. Depois disso, eu sou livre.

Raff estendeu a mão.

— Depois disso, você não me deve nada.

Vance apertou a mão dele. O aperto foi firme, sem hesitação.

— Então estamos entendidos.

Raff soltou um meio sorriso.

— Bem vindo a bordo, garoto.

Vance já saindo do espaço, na porta ele parou por um instante.

— Raff.

— Sim?

— Escolha bem esses três serviços.

Raff sustentou o olhar.

— Eu sempre escolho.

A porta se fechou.

Sebastian quebrou o silêncio

— Senhor... ele tem mesmo 16 anos?

— A periferia te faz crescer rápido, infelizmente ele tem.

O corredor estava vazio.

Lâmpadas antigas piscavam no teto, lançando sombras irregulares sobre as paredes descascadas. Vance caminhava devagar, a maleta — a sua, já com o revolver — pendendo da mão direita.

Três serviços, não parecia muito.

Do lado de fora, o ar estava mais frio. A noite engolia os prédios baixos e as passarelas improvisadas. Fios cruzavam o céu como veias expostas, pulsando luz fraca entre uma estrutura e outra.

Vance parou sob um poste falhando.

“Preciso dormir”

Ele não seguiu para onde vinha ficando.

Tinha algum troco agora, seu revólver saiu de graça, pelo menos em dinheiro.

Ainda não tinha muito, mas suficiente para sobreviver um tempo.

Ele guardou o dinheiro no bolso interno do casaco e seguiu pela rua lateral, afastando-se das rotas conhecidas. As passarelas improvisadas rangiam acima dele, sombras de gente passando sem rosto, sem nome. A periferia nunca dormia de verdade — só fechava um olho.

Virou a esquina e parou diante de um prédio antigo, estreito, espremido entre duas estruturas mais novas. A fachada estava marcada pelo tempo, reboco descascado, um letreiro torto pendendo por um fio: QUARTOS. Nenhuma promessa além do óbvio.

Bateu.

Depois de alguns segundos, a porta se abriu o suficiente para revelar um rosto cheio de rugas, com olheiras, visivelmente cansado e avaliador.

— Quanto tempo? — perguntou a mulher, direta.

— Alguns dias — respondeu Vance. — Pago adiantado.

O olhar dela desceu até a maleta. Subiu de novo para o rosto dele. Não perguntou nada.

— Quarto 5, me acompanhe.

Ela virou de costas sem esperar resposta. Vance a seguiu.

O interior do prédio cheirava a umidade antiga e eletricidade mal isolada. As paredes eram estreitas demais, como se o lugar tivesse sido construído para não manter ninguém por muito tempo. Um corredor curto levava a uma escada íngreme; cada degrau rangia sob o peso dele.

O Quarto 5 ficava no segundo andar, no fim do corredor. A porta tinha a tinta descascada e uma fechadura simples demais para inspirar confiança. A mulher abriu, empurrou a porta com o pé e acendeu a luz.

Vance entregou o dinheiro. Ela contou rápido, dobrou as notas e guardou no bolso do avental.

— Fique até quando quiser — disse. — Desde que pague.

Entregando a chave para Vance, ela se virou e foi embora.

O quarto era pequeno. Cama de solteiro encostada na parede, um colchão gasto, uma mesa estreita com uma cadeira torta. Uma janela alta dava para um emaranhado de telhados, antenas e fios de eletricidade cruzando o céu como linhas mal desenhadas. Não havia luxo algum. Nem conforto real, mas para Vance, isso era algo que nunca realmente tivera.

Uma porta fechada do lado da mesa, quando percebeu, um banheiro.

“Uau... impressionante”.

Vance fechou a porta com cuidado e girou a chave uma vez. O clique soou alto demais naquele quarto pequeno, mas depois dele veio algo raro: isolamento.

Nas ruas não importava onde dormisse, a sensação de ter alguém te observando era comum.

Ele largou a maleta ao lado da cama e caminhou até o banheiro. Era minúsculo, mal cabia alguém em pé com conforto. Pia manchada, espelho trincado num dos cantos, chuveiro preso por um suporte improvisado. Mas era seu. Pelo menos por algum tempo.

— Impressionante… — repetiu em voz baixa, com um meio sorriso cansado.

Voltou para o quarto e se sentou na cama. O colchão afundou mais do que parecia justo, rangendo como se reclamasse da presença dele. Vance não se importou. Tirou o casaco, dobrou com cuidado e o colocou sobre a cadeira torta.

Abriu sua maleta e viu: o revólver dourado refletiu a luz fraca do teto, mais opaco ali, como se o lugar sugasse qualquer pretensão de grandiosidade. As inscrições no cano pareciam silenciosas, quase adormecidas. Ainda assim, quando ele o segurou, sentiu o mesmo ajuste sutil no pulso. Um reconhecimento que não pediu permissão.

Ao fechar a maleta e a empurrar para debaixo da cama, o revólver ficou em sua mão.

Municiando com suas 6 balas de capacidade ele levantou o travesseiro gasto, colocou a arma por baixo e ajeitou o tecido por cima, testando a posição até sentir o metal frio encostado no antebraço quando se deitou.

Onde podia alcançar sem pensar.

Deitou-se de costas, encarando o teto manchado. A periferia respirava do lado de fora, sempre alerta.

E então, pela primeira vez em algum tempo, ele conseguiu dormir em uma cama de verdade.

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