Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 5: Arma de Fogo

Vance ligou o novo celular e passou alguns minutos reaprendendo a usá-lo. No orfanato, havia aparelhos eletrônicos, embora não fossem comuns. Os servidores sempre carregavam um consigo; as crianças e adolescentes, nem tanto. Ainda assim, vez ou outra, alguém aparecia com um.

Ele já tinha visto celulares antes. Já tinha usado alguns, emprestados, por pouco tempo. Mas nunca um que fosse dele. Já sabendo sua utilidade, e quão necessário era para o mundo hoje em dia, comprou.

Comprar armas era extremamente burocrático. Autorizações, registros, exames, taxas. Vallum não facilitava esse tipo de coisa, pelo menos não de forma oficial. Nada que pudesse ser feito de maneira simples ou imediata.

Ele suspirou, deslizando os dedos pela tela.

Aquilo exigiria outro caminho.

Na verdade, Vance não precisava da rede para aquilo.

A periferia funcionava de outro jeito. Menos telas, mais gente. Menos registros, mais memória. E ele tinha passado tempo demais ali para sair sem deixar rastros.

Desligou o celular por um momento e pensou em nomes. Rostos. Lugares que só existiam em certos horários. Gente que não perguntava demais — desde que você também não perguntasse.

Havia um contato específico.

Não era amigo, era um vendedor de drogas. Ele já trabalhou para ele antes de entrar para o orfanato, ele trabalhava com coisas que crianças conseguiriam fazer.

O homem circulava entre depósitos abandonados, ferros-velhos improvisados e bares que não apareciam em mapa nenhum. Sempre sabia quem estava vendendo o quê.

Vance ainda tinha um bom dinheiro guardado, já contando com sua compra de arma, ele poderia ter comida por mais 3 ou 4 dias antes de seu dinheiro acabar completamente.

Ele ligou o celular novamente enquanto caminhava.

A rede se abriu diante dele como um ruído visual constante. Ícones, notificações, transmissões ao vivo, anúncios que se ajustavam sozinhos ao seu olhar. Tudo rápido demais, como se o mundo tivesse aprendido a falar sem esperar resposta.

Começou pelo óbvio, notícias.

Deslizou por manchetes que pareciam grandes demais para fazer sentido: conflitos distantes, cidades evacuadas, colapsos financeiros que duravam apenas algumas horas antes de serem substituídos por outro problema maior. Nada parecia definitivo. Tudo era urgente por alguns minutos.

Mas algo chamou sua atenção.

“A humanidade avança: Alexandre Lorian, o grande comandante conquista espaço antes perdido pelas bestas da Falha”.

 

Vance percebeu que por mais que os monstros, bestas, demônios e seja lá o que diabos se esconde mundo afora, humanidade conseguia revidar, pelo menos até certo ponto.

Pulou para fóruns.

Gente discutindo coisas que ele mal entendia, outras que entendia demais. Teorias, acusações, promessas de salvação. Um nome aparecia com frequência incomum — um culto novo, um “Deus recente”, espalhando-se rápido demais.

Ele franziu a testa achando isso semelhante ao que viu mais cedo e passou direto logo depois.

Vídeos curtos surgiam em sequência. Pessoas mostrando o que comiam, onde moravam, quanto ganhavam. Vidas expostas em pedaços editados, limpos demais. Ele se manteve assistindo aquilo quase por reflexo.

Até que lembrou que tinha outras coisas para averiguar.

Mapas.

Ampliou Vallum vista de cima. O centro brilhava como um circuito vivo. A periferia aparecia borrada, com zonas mal definidas, como se o sistema não tivesse interesse suficiente em atualizar aquelas áreas.

Isso fazia sentido.

Abriu dados públicos. Estatísticas. Custos de vida. Preços de aluguel. A diferença entre bairros era absurda. Vance fez uma conta rápida e concluiu que nunca teria pertencido ao centro, não importa o quanto tentasse, 1 mês de aluguel em uma casa comum de Vallum, era suficiente para ele comer por pelo menos 6 meses.

Aquilo não o revoltava. Só confirmava o que ele sempre soubera, pertencer era caro.

Fechou os dados de aluguel e voltou a deslizar sem destino definido. Educação, saúde, mobilidade. Tudo funcionava em camadas, como a própria cidade. Quem nascia em certas zonas nunca via a engrenagem inteira, apenas a parte que esmagava.

Havia também anúncios institucionais. Programas de “reintegração social”, incentivos para jovens talentos, promessas vagas de ascensão por mérito.

Notícias e propagandas de filhos de grandes famílias eram recorrentes, eles eram em sua maioria guerreiros promissores que aparentemente mudariam a humanidade.

Em Vallum um irregular forte era muito bem pago.

Os níveis 0 e 1 eram extremamente comuns por ai, era as pessoas normais.

Um canal chamou sua atenção quase sem querer.

Imagens tremidas, gravações não oficiais. Criaturas distorcidas atravessando áreas evacuadas. Gente armada demais para parecer civil. Em um dos vídeos, alguém gritava ordens enquanto outro sangrava fora de quadro.

Nos comentários, discussões violentas, uns chamavam aquilo de exagero, outros de punição.

Alguns diziam que era o preço de existir.

Vance fechou o vídeo e abriu outra aba.

Equipamentos, nada oficial, nada explícito. Só preços absurdos e descrições vagas. “Proteção pessoal”, “ferramentas de defesa”, “itens de segurança avançada”. Tudo limpo demais. Tudo rastreável demais.

Confirmou o que já sabia.

A rede mostrava o que era permitido, o resto ainda passava de mão em mão.

Bloqueou a tela e guardou o celular no bolso interno do casaco. O peso ali era pequeno, quase insignificante — e ainda assim, representava mais acesso ao mundo do que ele já tivera.

Ele continuou andando.

Aos poucos, o centro ficava para trás. As vitrines davam lugar a fachadas menos cuidadas, anúncios menos personalizados. Vallum era bem grande, existiam áreas nobres e áreas comuns. Até as áreas comuns mesmo que menos desenvolvidas ainda eram um luxo completo para ele.

E então passou o muro, estava se aproximando de onde as coisas ainda funcionavam do jeito antigo.

Onde nomes ainda valiam mais que registros.

O encontro viria depois.

Por enquanto, Vance apenas ajustou o passo, respirou fundo e seguiu em frente — como alguém que já tinha decidido cruzar uma linha, mesmo sem saber exatamente onde ela começava.

Percebeu isso pelo cheiro antes de perceber pelos prédios.

Óleo velho, metal quente, comida barata sendo frita em algum lugar invisível. O som também mudava: menos música ambiente, mais vozes soltas, risadas altas demais, discussões que não se importavam em ser discretas. Os Fios ainda estavam ali, mas mais fracos, como se atravessassem aquela região por obrigação.

Vance diminuiu o passo.

Passar pelo muro nunca foi exatamente proibido. Só… desencorajado. As câmeras eram mais espaçadas, algumas quebradas, outras claramente ignoradas pelo sistema. Um drone passou por cima sem diminuir a altura, seguindo direto para outra rota. Aquilo confirmou que ele estava no caminho certo.

Parou perto de um cruzamento sem placas, onde três ruas pareciam levar ao nada. Olhou em volta, fingindo procurar algo no celular desligado. Esperou o tempo certo, o fluxo certo de pessoas.

Então virou à esquerda.

O bar ficava meio abaixo do nível da rua, portas de metal abertas, música antiga vazando em volume baixo. Um lugar que só funcionava à noite… mas nunca fechava de verdade. Ele parou antes de descer os degraus.

Respirou fundo e guardou o celular de vez, ajustou a postura e começou a descer.

O encontro não tinha começado ainda, mas já estava próximo o suficiente para sentir o peso dele.

Os degraus rangiam sob os pés de Vance, cada um deles afundando levemente como se o bar inteiro respirasse junto. Lá embaixo, o ar era mais quente, carregado de álcool barato e fumaça antiga. Luzes amareladas pendiam do teto, fracas demais para iluminar os cantos.

O lugar estava meio cheio. Gente espalhada em mesas pequenas, alguns jogando cartas, outros só bebendo em silêncio. Ninguém olhou para ele por mais de um segundo.

Atrás do balcão, o dono limpava um copo com um pano que claramente já tinha limpado coisas demais na vida. Um homem grande, barba grisalha, expressão neutra casual. Os olhos, porém, atentos.

Ele se aproximou do balcão e se sentou em um dos bancos.

— Água. — disse primeiro, como qualquer cliente comum.

O homem assentiu, virou-se e pegou um copo. Antes de enchê-lo, Vance completou, em voz baixa:

— Sem gelo. A tubulação daqui ainda canta à noite.

O pano parou por meio segundo.

O dono do bar não olhou para Vance imediatamente. Apenas colocou o copo sobre o balcão, deslizando-o devagar.

— Canta mesmo — respondeu. — Principalmente quando chove na parte errada da cidade.

Agora sim, seus olhos encontraram os de dele.

Vance levou o copo aos lábios, fingiu beber.

— Raff está? — acrescentou, casual, como se comentasse sobre o clima.

O homem soltou um meio sorriso cansado.

— Depende para que — inclinou a cabeça para o fundo do bar. — E para quem.

— Vance Morren — disse enquanto fingia desviar o olhar — um velho amigo.

Raff não era de fato um amigo, mas nessas circunstâncias, isso parecia o correto a se dizer.

Ele bateu duas vezes no balcão, um gesto quase imperceptível. Em resposta, uma porta lateral se abriu alguns centímetros antes de se fechar de novo.

— Fique aqui — disse o dono, entrando pela porta. — Quando a música mudar, eu voltarei.

Ele  assentiu, terminou a água e deixou o copo vazio no balcão.

Não agradeceu nem perguntou mais nada.

Desceu do banco e escolheu uma mesa próxima à parede, onde podia ver a entrada, o balcão e o corredor lateral sem virar a cabeça demais.

O código tinha funcionado.

Agora era só esperar.

Ao trocar de ritmo, o homem voltou e se aproximou da mesa onde Vance estava.

— Não te disse para esperar no balcão garoto? — disse o homem de maneira inexpressiva.

— Apenas segurança, sabe como é... desculpe por isso.

— De qualquer maneira, me acompanhe — ele disse enquanto seguia em direção a mesma porta que ele tinha voltado — Sou Sebastian, prazer em conhece-lo, Vance.

Estendendo a mão, Sebastian cumprimentava Vance em um aperto forte.

O aperto foi firme demais para ser casual. Não agressivo, mas calculado, como se Sebastian medisse algo além de sua força.

— Prazer — respondeu Vance, sustentando o aperto o tempo suficiente para não parecer fraco.

Sebastian soltou a mão primeiro.

— Vamos — disse apenas.

Seguiu pelo corredor mal iluminado sem esperar resposta. Vance o acompanhou, o som dos passos se misturando ao zumbido cada vez mais distante do bar. Uma porta metálica no fim se abriu com um empurrão seco, revelando um espaço mais amplo, iluminado por lâmpadas frias presas diretamente no teto.

O cheiro de óleo e ferro era mais forte ali.

Caixas empilhadas, prateleiras improvisadas, peças desmontadas espalhadas sobre mesas de trabalho. Tudo organizado do jeito errado, caótico para quem não entendia

— Uma fábrica de armas... quem imaginava.

Montagem, criação, venda... aquilo parecia uma fábrica ilegal de armas.

…e não apenas armas.

Havia peças que ele não reconhecia de imediato. Canos reforçados com inscrições técnicas, mecanismos híbridos que misturavam metal comum com componentes de Fios, munição selada em estojos sem marca. Nada ali parecia improvisado — só invisível para quem não sabia onde procurar.

Sebastian percebeu o olhar dele.

— Não é exatamente uma fábrica — disse, enquanto caminhava entre as mesas. — É mais… um ponto de convergência. As coisas chegam quebradas e saem funcionando. Temos muitos soldados restauradores aqui.

Restauração era um dos 8 caminhos de poder que um Revelado poderia seguir. Além de seu Fluxor, cada um tinha pelo menos 2 caminhos inerentes que dominavam.

Vance tinha uma noção básica disso, não necessariamente aprendera todas as nuances de cada caminho, mas ele sabia que: quanto maior o Fluxor de uma pessoa, maiores eram seus atributos. Pessoas consideradas no topo do mundo tinham um com cerca de 18 a 19 cm de diâmetro. Latentes tinham um Fluxor com diâmetro menor que 1 cm, recém revelados dificilmente começavam com mais de 3 cm.

Um Fluxor maior não necessariamente dizia que uma pessoa era mais forte que a outra, apenas que era mais capaz de acumular Fios e que provavelmente tinha atributos mais fortes.

Mas atributos nunca eram as coisas mais decisivas. De acordo com livros de magia do orfanato, quanto mais um Revelado desenvolvia seu caminho de poder, mais letal ele ficaria.

A vitória era um equilíbrio de atributos fortes e um caminho desenvolvido.

Vance manteve o passo, atento aos detalhes. Cada mesa contava uma história diferente: uma arma desmontada ao lado de ferramentas limpas demais, outra ainda quente, como se tivesse sido testada minutos antes. Em um canto, caixas lacradas com símbolos riscados à mão substituíam qualquer etiqueta oficial.

— Vallum prefere fingir que isso não existe — continuou Sebastian. — Facilita pra todo mundo.

Pararam diante de uma mesa central, maior que as outras. Sobre ela, uma arma compacta repousava parcialmente desmontada, ao lado de um pano escuro manchado de óleo.

— Espera aqui — disse Sebastian. — Ele já vem.

Vance assentiu.

O ambiente não era silencioso, mas o som ali tinha outra textura. Ferramentas sendo ajustadas, peças metálicas encaixadas, o estalo seco de algo sendo testado e aprovado. Nada era feito às pressas. Tudo tinha método.

Ele observou sem tocar em nada.

Cada mesa parecia especializada em algo diferente. Uma lidava apenas com mecanismos de disparo, outra com reforços estruturais, outra com algo que parecia mais próximo de engenharia de Fios do que armamento convencional. Em uma delas, um homem de mãos grandes e dedos manchados de óleo ajustava um cano enquanto Fios de energia percorriam a superfície como nervuras vivas.

Restauração, ele pensou.

Não criar do zero, mas pegar o que já existia — quebrado, gasto, obsoleto — e torná-lo algo novo. Algo funcional. Algo melhor.

Na verdade, nesse caso parecia mais Contrução, Vance não saberia interpretar ao certo.

Era um caminho perigoso. Exigia conhecimento, precisão e um Fluxor estável o suficiente para não colapsar durante o processo. Era comum ver muitos restauradores trabalhando juntos. Aquilo, por si só, já dizia muito sobre quem controlava o lugar.

Passos ecoaram atrás dele.

Vance não se virou de imediato. Esperou que os passos parassem, que a presença se afirmasse no espaço.

— Você cresceu.

A voz era baixa, rouca, carregada de desgaste antigo.

Ele virou o rosto.

Raff estava ali.

Mais magro do que lembrava, talvez mais alto — ou talvez fosse só a postura. Usava um casaco escuro, pesado, inadequado para o calor do depósito. O rosto trazia marcas sutis do tempo: uma cicatriz fina perto dos lábios, linhas ao redor dos olhos que não vinham de sorrisos.

Seus cabelos eram pretos e curtos, sua barba já dava sinais de velhice e seus olhos verdes ainda eram chamativos.

O olhar era o mesmo. Aquele que não pedia explicações, apenas decidia se algo valia a pena.

— Quanto tempo — continuou Raff. — Achei que o orfanato tivesse te apagado de vez.

— Infelizmente não — respondeu Vance. — Não conseguiu.

Raff observou-o por alguns segundos em silêncio, como se comparasse o que via agora com uma lembrança antiga demais para ser confiável. Depois se aproximou da mesa central e apoiou a mão no metal frio.

— Então — disse. — O que um garoto que devia estar tentando ser invisível faz entrando num lugar desses?

O depósito pareceu desacelerar ao redor deles. Não porque alguém parou de trabalhar, mas porque aquele era o tipo de pergunta que puxava atenção sem pedir.

Vance respirou fundo.

— Eu preciso de uma arma.

Direto, sem rodeios.

Raff arqueou levemente uma sobrancelha.

— Todo mundo aqui precisa de uma arma — respondeu. — O que você tem de diferente?

Vance sustentou o olhar.

— Dinheiro.

Raff soltou uma risada curta, seca, sem humor.

— Dinheiro todo mundo acha que tem — disse. — Especialmente antes de perder.

Ele se afastou um passo da mesa, cruzando os braços, observando Vance de cima a baixo com mais atenção agora. Não como um cliente. Como um risco.

— Quanto? — perguntou.

Ele não respondeu de imediato. Abriu a maleta com calma, o suficiente para que o gesto não parecesse apressado. Dentro, notas dobradas com cuidado, cartões metálicos empilhados, dois dispositivos de pagamento ainda lacrados. Nada espalhafatoso. Só volume.

Raff não tocou em nada. Apenas olhou.

— Hm.

O som saiu baixo, quase um hábito.

— Parece que te ensinei bem — comentou

— Aprendi a não cair.

Raff inclinou a cabeça, reconhecendo a resposta.

— Ah, então o orfanato foi mais difícil que a sua vida anterior, interessante não é. — ele sorriu de forma irônica — De qualquer maneira não me interessa.

Ele se aproximou de novo da mesa central e tocou o pano escuro, cobrindo parcialmente o objeto abaixo.

— Uma arma não é só metal — continuou. — É decisão. É consequência. É alguém olhando pra você depois e sabendo que não tem volta.

Fez uma pausa curta.

— Você sabe disso, certo?

Vance assentiu, uma vez.

— Na verdade Raff, além disso tudo, também é intimidação, respeito e poder. Não é como se eu pretendesse sair por ai matando as pessoas.

Raff manteve o sorriso por um instante a mais, como se saboreasse a resposta. Depois, ele sumiu — não abruptamente, mas do jeito que certas expressões simplesmente se cansam de existir.

— Intimidação, respeito e poder… — repetiu, em tom baixo. — Bonita teoria. Quase acadêmica.

Ele puxou o pano de vez, revelando a arma por completo. Era simples à primeira vista, mas havia algo na geometria dela que denunciava cuidado demais. Nada ali gritava violência; tudo sussurrava eficiência. Era uma espécie de rifle, mas manipulado com Fios.

— O problema — continuou Raff — é que o mundo não pergunta o que você pretende. Ele só reage ao que você carrega.

Passou os dedos pela lateral da arma, sem pressa.

— Você anda armado, as pessoas te olham diferente. Mesmo quem nunca vai encostar num gatilho entende isso instintivamente. É um idioma universal.

Levantou o olhar para Vance.

— E quem aprende esse idioma cedo demais costuma pagar caro.

Sebastian observava de longe, fingindo estar ocupado demais para ouvir, mas não havia dúvida de que cada palavra estava sendo registrada.

— Você não quer matar — disse Raff. — Ótimo. Isso te coloca à frente de metade dos idiotas que entram aqui. Mas não se engane: no momento em que você puxa uma arma, o mundo assume que você está disposto a ir até o fim.

Ele deu um passo mais próximo, invadindo o espaço pessoal de Vance sem agressividade, apenas presença.

— E aí não importa mais o que você quer. Só o que você aguenta.

O depósito parecia menor agora.

— Então me diga — concluiu Raff. — Quando alguém não recuar… quando intimidação não bastar… quando respeito virar desafio…

Um silêncio curto, afiado.

— …você aguenta?

Ele não respondeu de imediato. Não desviou o olhar, não endureceu a postura. Apenas respirou, uma vez, fundo o suficiente para ser consciente.

— Se eu não aguentasse — disse por fim — eu não teria vindo até aqui. Além do mais, não é como se eu tivesse muita escolha.

Raff o encarou por longos segundos. Então soltou um suspiro lento, quase cansado.

— Certo — disse. — Isso eu compro.

Ele se virou para Sebastian.

— Prepare algo adequado para nosso grande amigo.

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