Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 4: Centro de Vallum

O frio ainda estava grudado na pele de Vance quando ele saiu da água.

Não importava o quanto esfregasse os braços ou respirasse fundo — a sensação de gelo parecia ter se instalado dentro dos ossos. O vento cortava, atravessava o casaco fino como se ele não existisse. Ainda assim, estava limpo. Ou pelo menos limpo o suficiente para não denunciar sua origem a metros de distância.

Isso já era uma vantagem.

Ele observou o próprio reflexo distorcido na superfície da água. Não parecia um morador de rua. Também não parecia alguém do centro.

Estava… no meio.

Era exatamente onde precisava estar.

Ele caminhava com sua maleta preta compacta. Dentro dela, guardava algumas roupas reservas e a comida que havia roubado. Não era pesada, mas o simples fato de tê-la consigo trazia uma estranha sensação de estabilidade — como se, por alguns instantes, ele tivesse controle sobre alguma coisa.

Ele parou, abriu a maleta e tirou uma das peças: um casaco pesado.

O banho realmente o deixara com frio.

O casaco era completamente preto, com detalhes sutis de veludo nas pontas das mangas. Não chamava atenção. Não gritava status. Mas também não parecia lixo.

Vance vestiu a peça, ajustando-a ao corpo magro, e se olhou mais uma vez no reflexo irregular da água.

— Olhando assim… eu nem pareço mais tão fora de moda.

A frase saiu baixa, quase irônica. Mas, pelo menos, não soou falsa nem desesperada.

Ele fechou a maleta e voltou a andar.

Os primeiros quarteirões ainda carregavam os sinais da periferia: ruas estreitas, postes tortos, fios improvisados correndo pelas fachadas como veias expostas. Mas algo já começava a mudar. O muro já era grande e imponente e ele já estava quase passando.

O chão deixava de ser irregular. As paredes ficavam menos remendadas. O cheiro de lixo úmido ia sendo substituído por um ar mais limpo, filtrado, quase estéril demais.

Ele sentiu isso antes mesmo de ver.

As luzes mudaram primeiro.

Não eram mais lâmpadas comuns nem Fios instáveis puxados ilegalmente. Agora eram faixas contínuas de iluminação branca, embutidas na arquitetura, sem origem aparente. Não piscavam. Não falhavam. Apenas estavam ali, constantes.

Por mais que ele ainda não estivesse no centro comercial de Vallum, ele já havia passado os muros.

A cidade mantinha uma arquitetura antiga, por dentro, algo como uma Paris do século passado. Bem, era onde ele estava de qualquer jeito. Fachadas clássicas, sacadas de ferro trabalhado, ruas largas pensadas para outra época. Mas, sobre tudo isso, camadas sutis de mudanças se acumulavam, juntas o suficiente para formar algo muito maior do que parecia à primeira vista.

Luzes de Fios percorriam as construções como veias luminosas, embutidas nas pedras antigas sem jamais quebrar sua forma. Hologramas sustentados pelos Fios flutuavam próximos às fachadas, adaptados ao relevo dos prédios, acompanhando curvas e ornamentos. Grandes telas surgiam entre uma estrutura e outra, exibindo anúncios que se misturavam à paisagem quase com naturalidade demais.

O antigo e o novo coexistiam sem conflito aparente.

Era como se a cidade tivesse aprendido a crescer sem apagar o que já existia.

Paris cresceu, e se tornou Vallum. Vista de fora era como uma grande cidade Cyberpunk, mas quando adentrava, sua arquitetura típica ainda se matinha presente.

E as árvores.

As árvores eram especialmente bonitas. Diferentes de tudo o que Vance via na periferia, onde a natureza surgia apenas em rachaduras e descuidos do concreto. No centro, elas existiam de propósito.

Troncos altos e antigos se alinhavam pelas avenidas, raízes guiadas por estruturas invisíveis sob o chão, crescendo sem quebrar a cidade. As copas se encontravam acima das ruas, formando túneis verdes que filtravam a luz artificial e a transformavam em algo mais suave, quase quente. Entre os galhos, pequenos fios de energia acompanhavam o crescimento natural da planta, alimentando-a sem forçar sua forma.

As folhas se moviam devagar, mesmo quando o vento não soprava. Algumas tinham tons impossíveis de verde, resultado da interação constante com os Fios. Outras permaneciam completamente naturais, imperfeitas, com marcas do tempo.

Existiam até arvores coloridas, rosas, amarelas, azuis.

Ele gostava daquilo.

Gostava da ideia de que, apesar de tudo, alguém ainda se importava em manter algo vivo sem transformá-lo apenas em função. A natureza ali não parecia um recurso. Parecia uma escolha.

Ele diminuiu o passo por alguns segundos, observando as árvores como quem observa algo raro demais para ser ignorado.

Por um instante, Vallum não pareceu tão sufocante.

Continuando, Vance manteve o passo firme.

Não rápido demais. Não lento demais, no centro, velocidade errada chamava atenção.

As pessoas também eram diferentes. As roupas tinham cortes mais definidos, tecidos melhores, menos camadas improvisadas. Ninguém carregava sacolas velhas ou olhava para o chão por tempo demais. Olhares se cruzavam e se desfaziam rapidamente, como se todos compartilhassem o mesmo acordo silencioso: não se envolver.

Era um lugar onde ninguém precisava pedir desculpas por existir.

Ele se misturou ao fluxo com naturalidade. A maleta preta ajudava mais do que ele imaginara. Não por parecer importante, mas por parecer comum. Trabalhadores carregavam coisas o tempo todo. Dados, peças, equipamentos, roupas. Ele era apenas mais um corpo funcional atravessando a cidade.

Passou por uma vitrine translúcida onde roupas eram projetadas diretamente em manequins de luz. Um sensor o escaneou por um segundo a mais do que o necessário. Nada aconteceu.

Mesmo assim, ele sentiu um arrepio subir pela espinha.

Continuou.

À medida que avançava, os sons da cidade mudavam. O zumbido das tecnologia de Fios ficava mais forte, mais organizado. Trilhos de transporte cruzavam acima da cabeça, silenciosos demais para algo tão grande. Drones deslizavam entre prédios como peixes em um aquário invisível.

Tudo funcionava.

E isso era estranho.

Muito estranho... porque tantos drones? Por mais que Vance não conhecesse muito de finanças ele sabia, ou pelo menos imaginava, que drones eram muito mais caros que câmeras de segurança, e além de tudo, ainda exigiam alguém pilotando.

Na verdade essa segunda parte não necessariamente era verdadeira, uma inteligência artificial talvez pudesse fazer esse trabalho.

Ele atravessou uma praça ampla demais para ser confortável. No centro, uma escultura abstrata feita inteiramente de Fios solidificados girava lentamente no ar, sustentada por campos invisíveis. Pessoas passavam por ela sem sequer olhar.

Aquilo custara fortunas, mas ninguém parecia impressionado.

Aos pés da escultura, uma placa simples de metal trazia uma inscrição gravada:

“Arlith Ashlight, a esperança.”

De um jeito torto, distante, quase impessoal…

era provavelmente graças a ele que o mundo ainda existia — e que ele também.

Vance não ficou parado diante da escultura por muito tempo.

Nomes grandes demais sempre vinham acompanhados de histórias grandes demais, e ele estava cansado demais para ouvir. Ajustou a alça da maleta no ombro e seguiu em frente, deixando a praça para trás.

O fluxo de pessoas aumentou conforme avançava.

As ruas se alargaram ainda mais, e os prédios passaram a se abrir em corredores comerciais. Vitrines contínuas se estendiam por quarteirões inteiros, exibindo produtos que iam de roupas e implantes estéticos até pequenos artefatos de Fios, todos organizados para parecerem acessíveis, mesmo quando claramente não eram.

O centro comercial de Vallum.

Ali, a cidade pulsava de verdade.

Telões sobrepostos disputavam atenção, e anúncios mudavam de forma conforme detectavam quem passava. O som era constante, mas controlado, música baixa demais para incomodar e alta o suficiente para impedir o silêncio.

Rostos perfeitos surgiam nas telas. Mulheres com corpos treinados, homens fortes e bem-postos, todos exibidos como promessas silenciosas. Sempre havia uma marca ao lado, um símbolo discreto, um nome que ligava beleza, sucesso e consumo na mesma imagem.

Nada ali era gratuito. Nem mesmo o que parecia apenas bonito.

Vance diminuiu levemente o passo.

Pessoas desaceleravam perto das vitrines, paravam por segundos a mais do que o necessário, mudavam de direção sem aviso. Grupos se formavam e se desfaziam. Alguns carregavam sacolas demais. Outros, nada nas mãos, mas distraídos demais com telas pessoais ou projeções diretas nos olhos.

Distração era abundante ali.

Ele escolheu um ponto próximo a um cruzamento interno do centro, onde três corredores comerciais se encontravam. Não chamava atenção. Não era um gargalo óbvio. Mas concentrava movimento suficiente para criar erros pequenos — e erros pequenos eram tudo o que ele precisava.

Vance apoiou a maleta no chão por um instante, como se estivesse apenas reorganizando as coisas. Observou.

Identificou os padrões.

Quem andava rápido demais.

Quem caminhava devagar demais.

Quem tocava o próprio bolso com frequência.

Quem exibia distintivos.

Quem se sentia seguro.

Ele respirou fundo, sentindo o casaco pesado finalmente cumprir seu papel contra o frio. O corpo relaxou. A mente, não. Ela se alinhou.

Vance pegou a maleta novamente e se misturou ao fluxo com um novo cuidado, agora consciente de cada espaço entre corpos, de cada segundo em que alguém desviava o olhar.

O plano não precisava ser perfeito.

Precisava apenas começar.

E ali, no coração do centro comercial de Vallum, entre luzes, anúncios e gente demais para se importar…

ele finalmente estava no lugar certo para desaparecer enquanto agia.

O centro era movimento contínuo. Pessoas cruzavam em todas as direções, desviando umas das outras sem nunca realmente se tocar. Telões, hologramas e luzes de Fios competiam por atenção, mas ninguém parecia olhar para nada por tempo demais. O fluxo engolia tudo.

Vance se deixou levar por ele.

Os furtos vieram em sequência.

Um bolso interno aberto no momento errado. Um cartão metálico com a borda para fora em uma carteira. Um pequeno dispositivo escorregando da manga de alguém enquanto a atenção dele subia para um anúncio interativo. Nenhuma pressa, nenhuma pausa longa.

Andar, tocar, seguir.

Ele não precisava pensar. O corpo fazia o trabalho sozinho, guiado por brechas quase invisíveis no movimento das pessoas. Cada erro alheio surgia claro demais, como se o mundo piscasse para ele por meio segundo.

Em poucos minutos, já havia passado por várias mãos, vários bolsos, várias rotas. Objetos diferentes, pesos diferentes, valores diferentes — todos desaparecendo com a mesma facilidade.

Ninguém gritava, ninguém parava.

Ele era estranhamente bom nisso, dom natural, alguns diriam.

Para ele, isso era apenas comum. Desde que se entendia por gente, teve que roubar. Ele era profissional na arte do furto, dessa vez, ele só precisou colocar toda sua experiencia em pratica.

Vance mudava de ritmo sempre que necessário. Às vezes acelerava ou diminuía o passo. Entrava em uma galeria, saía por outra rua, atravessava um grupo, sumia em outro. Vallum facilitava isso. A cidade era grande demais para se importar.

Quando parou, foi por escolha.

Sentou-se em um banco discreto, abriu a maleta por um instante e confirmou o que já sabia. Havia o suficiente ali, mais do que o suficiente.

“Puta merda... estou rico”

Funcionou melhor que o esperado.

Tinha até carteiras inteiras cheias de dinheiro em nota ali, cartões dos mais variados tipos, e alguns dispositivos de pagamento que se fixava no pulso.

A maneira mais segura de andar com dinheiro em Vallum era com um chip colocado dentro de seu próprio corpo, era uma tecnologia recente e bem cara, a maioria das pessoas não utilizava isso ainda.

O zumbido constante dos Fios parecia diferente agora. Não mais ruído de fundo, mas algo… organizado. Como se acompanhasse seus passos.

Ainda sentado, ele viu um homem se aproximando dele.

Era suspeito demais para ser ignorado.

O sujeito vinha sem pressa, mas com intenção clara. Casaco escuro, simples demais para o centro, limpo demais para a periferia. O olhar passava pelo ambiente sem realmente se fixar em nada, como se estivesse sempre avaliando distâncias. Não carregava sacolas, não parecia perdido. Também não parecia pertencer àquele lugar.

Ele fechou a maleta antes mesmo de decidir fazê-lo.

O homem parou à frente do banco, hesitou por meio segundo — tempo suficiente para parecer indeciso — e então falou:

— Com licença.

A voz era calma. Quase gentil demais.

— Se for pedir dinheiro, não tenho — respondeu Vance, já se preparando para levantar.

— Não é dinheiro.

O homem abriu o casaco apenas o suficiente para tirar algo do bolso interno. Ele sentiu o corpo tensionar, pronto para correr.

Mas não era nada metálico.

Nem tecnológico.

Era papel.

Um panfleto simples, dobrado ao meio, impresso em tinta escura. O homem o estendeu com cuidado, como se oferecesse algo frágil.

— Palavra antiga, Deus. — disse. — Está mais em alta do que nunca.

Vance olhou para o panfleto, depois para o rosto do homem.

— Religião? Olha... perdão, mas eu não tenho uma religião. — disse, incrédulo.

O sujeito sorriu de leve.

— Alguns chamam assim, mas é a verdade garoto, as pessoas hoje em dia no mundo todo, estão pensando e discutindo sobre isso.

— Não estou interessado.

— Pegue — respondeu o homem, sem se ofender. — Mesmo assim, vale a tentativa.

Ele deixou o panfleto no banco, ao lado da perna de Vance, e deu um passo para trás.

— Leia se quiser. Ou jogue fora. — Ajustou o casaco. — Mas há coisas que encontram a gente mesmo quando a gente não procura.

Antes que Ele pudesse responder, o homem já se afastava, dissolvendo-se no fluxo de pessoas como se nunca tivesse parado ali.

Vance ficou alguns segundos parado.

Esperando.

Nada aconteceu.

Nenhum drone se aproximou, nenhuma sirene, nenhuma abordagem.

A polícia de Vallum, não se fazia assim tão presente quanto deveria.

Só então ele pegou o panfleto.

O papel era áspero, velho demais para os padrões do centro. Não havia hologramas, nem códigos visíveis. Apenas texto impresso e um símbolo discreto no topo.

O símbolo era como se fosse uma cruz, mas com uma base.

Ele franziu a testa.

No papel dizia coisas como:

“Se arrependa em quanto há tempo”, “Novo Deus”, “Deus de todos”, “O apocalipse está próximo”.

Vance não conseguiu ter outra reação se não achar graça.

Soltou uma risada curta, abafada, mais de incredulidade do que de humor. Dobrou o panfleto uma vez, depois outra, como quem encerra um assunto sem importância.

— Apocalipse… — murmurou, balançando a cabeça. — Claro.

Guardou o papel na maleta sem pensar muito. Não por acreditar em nada daquilo, mas porque jogar fora ali mesmo parecia chamar atenção demais. E atenção, ele já tinha tido o suficiente por um dia.

Levantando do banco, o fluxo o engoliu de novo.

Enquanto caminhava, a cidade retomava seu papel de sempre: vitrines chamativas, anúncios personalizados demais, pessoas seguindo rotas previsíveis. Vallum continuava funcionando perfeitamente, indiferente a deuses novos, antigos ou inventados.

Depois de tudo, fazer compras parecia… adequado. Normal. Um gesto simples, quase banal, que ajudava a colocar as coisas no lugar. O dinheiro tinha vindo fácil demais. Gastar um pouco dele ajudaria a torná-lo real.

Entrou na primeira loja sem pensar muito.

Periféricos mágicos, comprou uma mala parecida com a dele, mas com uma diferença, ela vinha com uma tecnologia de fios que permitia aumentar muito o seu espaço interno sem afetar o seu externo.

Era preta, comum, não chamava atenção, mas agora ele precisaria de algo espaçoso, ele não tinha uma casa para guardar itens, quanto mais espaço melhor.

A mala cabia pelo menos 5 vezes mais coisas que a sua mala antiga, mantendo a mesma proporção externa.

Não de forma descontrolada. Vance não era idiota. Começou usando um cartão completo, daqueles que exigiam verificação lenta e só acusariam irregularidade depois de algumas horas — tempo mais do que suficiente para que o cartão já estivesse no fundo de algum rio, dissolvido no fluxo da cidade.

Comprou primeiro o essencial.

Roupas extras, dobráveis, resistentes. Tecidos que não amassavam fácil e não retinham cheiro. Nada chamativo, nada caro demais para levantar suspeita. O tipo de vestuário que permitia passar despercebido em quase qualquer lugar.

Depois vieram os pequenos luxos funcionais.

Um celular, normal e funcional. Um carregador portátil compatível com Fios públicos. Ferramentas simples, fáceis de esconder, úteis demais para serem ignoradas. Armas brancas, como facas. Tudo pago em lugares diferentes, em horários diferentes.

A nova mala ajudava mais do que ele esperava.

Por fora, parecia idêntica à antiga. Mesmo tamanho. Mesmo peso aparente. Por dentro, o espaço se expandia conforme ele organizava os itens, como se a própria mala entendesse a necessidade de ordem. Nada se chocava. Nada fazia barulho ao ser guardado.

Era perfeita.

Vance descartou a mala antiga em um ponto de coleta automatizado algumas ruas depois. Sem olhar para trás.

Passou ainda por uma loja de alimentos. Comprou coisas simples, embalagens discretas, fáceis de carregar e fáceis de descartar. Nada perecível demais. Nada que exigisse identificação.

Quando saiu, o céu já começava a mudar de tonalidade, mostrando o início da noite. As luzes de Vallum se ajustavam sozinhas, suaves demais para parecerem reais.

Ele parou por um instante, apoiando a nova mala no chão.

Estava na hora de conseguir uma defesa verdadeira.

Uma arma de fogo.

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