Volume 1
Capítulo 3: Sobrevivência
Vance agora tinha só um objetivo em mente, arrumar comida.
Antes de ser chamado para um orfanato, ele tinha um método. Entrava em becos escuros e nojentos que talvez nem urubus ousassem chegar perto e esperava a primeira vítima passar na calçada em frente ao beco.
Com seu corpo pequeno de criança a única coisa com que ele podia contar era com sua capacidade de fuga em pequenos buracos ou lugares apertados.
Para equiparar sua força com as das outras pessoas, ele simplesmente utilizava uma faca.
Ele lembrava de cada detalhe daquele método com uma clareza incômoda.
Não porque sentisse orgulho, mas porque o corpo nunca esquece o que foi necessário para continuar vivo.
Os becos eram sempre escolhidos com cuidado. Precisavam ser estreitos, cheios de entulho, com saídas que apenas alguém pequeno conseguisse usar. Ele aprendia os caminhos antes mesmo de pensar em agir. Observava por horas. Sabia onde um adulto ficaria preso, onde um passo em falso significava cair, tropeçar, perder tempo.
Tempo era tudo, o medo vinha depois.
Naquela época, ele não pensava nas pessoas como vítimas. Pensava nelas como silhuetas. Passos. Sombras que se aproximavam e se afastavam. O mundo era reduzido a estímulos simples: fome, frio, perigo.
E a faca.
Era pequena, mais curta do que deveria ser. O cabo estava rachado, e a lâmina nunca ficava realmente afiada. Mas era o suficiente para nivelar a balança. Não para lutar — Vance nunca lutava. A faca era apenas uma garantia. Um aviso silencioso e brutal de que chegar perto demais teria consequências.
Trabalhar em lugares comuns não eram uma opção para ele, nessa idade e com esse corpo magro, ele não era levado a sério por ninguém, elas nem se quer consideravam colocar em alguma função.
O que restava para esse tipo de jovem era o crime, as periferias de Vallum eram extremamente escassas de trabalho, e na parte central da cidade um favelado como ele não seria nem em sonho contratado.
Seu método antigo já se provavelmente seria ineficaz hoje em dia, seu tamanho não o ajudava, por mais que ele não fosse assim tão alto, ele não era de forma alguma baixo.
Atualmente ele tinha 1,79 de altura, com a evolução corpórea dos últimos anos na magia, pessoas com mais de 2 metros de altura não eram difíceis de achar por ai, mas ele tinha apenas 16 anos ainda, com sorte, ou azar, irá crescer mais até os 21.
Vance não roubaria confrontando pessoas nem usando força direta. Isso pertencia ao passado. O método que ele desenvolveu agora era silencioso, quase burocrático, baseado em algo que a cidade já fazia o tempo todo: perder coisas no caminho.
Vallum dependia de pequenos fluxos constantes — energia, mercadorias, comida, dinheiro. Em um sistema tão grande e tão automatizado, perdas pequenas não chamavam atenção. Eram previstas, calculadas e absorvidas.
Ele tentaria se mover entre essas perdas.
Ele não atacaria indivíduos. Não entraria em lojas. Não ameaçaria ninguém. Em vez disso, observaria os trajetos: entregas comunitárias, redistribuições noturnas, pontos onde a cidade cuspia recursos antes que alguém os recolhesse oficialmente. Locais onde tudo ficava alguns minutos sem dono real.
Era ali que ele agiria.
A madrugada em Vallum tinha um silêncio enganoso.
Não era ausência de som, mas excesso de ruído baixo: o zumbido distante dos Fios, o gotejar constante dos trilhos de lixo, o estalo ocasional de algum sistema falhando e se corrigindo sozinho. Era nesse intervalo confuso, quando ninguém prestava atenção em nada específico, que Vance se movia.
Ele caminhava sob a madrugada como se fosse mais um detalhe dela. A cidade tinha emagrecido nas últimas horas: vitrines apagadas, semáforos piscando em amarelo intermitente, o asfalto úmido refletindo fragmentos soltos de luz. O ar carregava um frio fino que se infiltrava pelas mangas e pelo colarinho, trazendo o cheiro distante de óleo, ferrugem e água parada.
O antigo centro de abastecimento comunitário erguia-se como um bloco esquecido no escuro. As letras metálicas da fachada estavam opacas, algumas pendendo em ângulos cansados. A tinta descascada revelava camadas de reformas antigas, cada uma prometendo um futuro que não chegara para aquele bairro. Uma lâmpada sobre a entrada lateral piscava em intervalos irregulares, criando uma respiração artificial de luz e sombra. Entre um lampejo e outro, o prédio parecia desaparecer.
Duas silhuetas ocupavam a lateral, abrigadas do vento. O estalo repetido de um isqueiro que falhava ecoou pequeno demais naquele vazio amplo. Quando a chama finalmente vingou, iluminou por um segundo os contornos de rostos mal barbeados, o brilho úmido dos olhos, a fumaça que subiu espessa antes de se dissolver no ar frio. Um deles soltou uma risada abafada; o som pareceu grande demais para a hora e morreu rápido.
Vance manteve o passo constante ao descer da calçada. O semáforo piscava amarelo, refletindo na superfície molhada da rua como uma ferida aberta e fechada, aberta e fechada. Um ônibus noturno cruzou a esquina quase vazio; a luz interna revelou fileiras de assentos desertos e um único passageiro adormecido com a testa apoiada no vidro. Quando o veículo passou, deixou para trás um rastro de vento que levantou papéis esquecidos na sarjeta.
Ele atravessou sem pressa. A madrugada tinha um ritmo próprio, mais lento e mais atento. Cada passo parecia ecoar um pouco além do esperado. Ao contornar o prédio, a sombra o envolveu de uma vez, abafando os ruídos da rua principal. Ali atrás, o cheiro mudava: papelão úmido, metal oxidado, mofo antigo impregnado nas paredes. Uma goteira insistente marcava o tempo em algum ponto invisível, cada pingo ecoando no concreto com precisão irritante.
As caixas estavam empilhadas próximas à porta de um estabelecimento, protegidas apenas pela indiferença das pessoas. O papelão inchado denunciava noites como aquela, em que a umidade se acumulava sem testemunhas. Ele se abaixou devagar, sentindo o frio do chão atravessar o tecido fino da roupa. A respiração formou um sopro breve no ar escuro. Ao erguer a aba da caixa aberta, o odor neutro de plastico escapou — alimento comprimido em forma de pacotes plásticos, prático, mas não muito silencioso.
Dois desapareceram sob o casaco. A mão pressionou o restante até que o alinhamento voltasse a parecer intacto. A fita foi alisada com cuidado, o polegar acompanhando o vinco como quem fecha uma pequena ferida.
Brita estalou atrás dele.
O som ecoou alto demais naquele vazio. Vance ergueu-se sem sobressalto aparente, mãos nos bolsos, olhar perdido na parede oposta. Um homem surgiu atravessando a sombra, o cigarro aceso descrevendo um ponto laranja flutuante no escuro. Ele bocejou, coçou o pescoço, cuspiu no chão. A brasa caiu, esmagada sob a sola. O cheiro acre de tabaco queimado misturou-se ao da umidade. O homem seguiu adiante, passos arrastados, sumindo na esquina.
Quando o silêncio voltou a ocupar o espaço, suas pernas já tremiam e seus pelos se arrepiavam.
Ele retornou as sombras da favela. A cidade respirava baixo. Janelas isoladas permaneciam acesas como olhos insones em prédios escuros.
Rasgou o lacre com os dentes. O alimento cedeu sob a mordida, denso e morno apesar do frio ao redor. Mastigou devagar, ouvindo o próprio maxilar trabalhar. O estômago respondeu com um aperto e depois um calor discreto que se espalhou pelo centro do corpo.
Sentou-se em um degrau. A rua à frente permanecia vazia por longos segundos, até que um carro cruzasse distante ou um gato atravessasse rápido entre as sombras. O vento deslizou pela avenida, carregando sacolas plásticas que roçaram o chão como fantasmas baixos. As migalhas presas aos dedos brilharam sob a luz intermitente do semáforo.
Veículos não eram comuns em todas as ruas das periferias. Existiam ruas em que tinham apenas estradas de terra misturadas com lixo, enquanto outras ainda tinham asfalto, mas normalmente cheia de buracos e falhas.
Ele guardou o segundo pacote em sua maleta preta. A parede atrás dele devolveu um frio constante, infiltrando-se lentamente. Ao fechar os olhos, o peso acumulado das últimas noites tornou-se mais evidente. Não era apenas o corpo; era a tensão contínua que não encontrava pausa, a atenção mantida mesmo quando nada acontecia. A cidade adormecida parecia tranquila, mas cada sombra carregava possibilidades demais.
Um alarme distante soou por poucos segundos e cessou. Vance abriu os olhos, ergueu-se e ajustou o cachecol até cobrir melhor o rosto. A madrugada ainda tinha horas pela frente.
Ele seguiu mais fundo a periferia, onde as luzes eram mais raras e o silêncio mais profundo. As fachadas descascadas absorviam a pouca claridade disponível. Em alguns apartamentos, televisões piscavam em volume baixo; em outros, nada além de escuridão compacta. Seus passos desapareceram gradualmente nesse tecido de sombras, levando consigo o suficiente para atravessar a noite — enquanto acima dele, a cidade permanecia suspensa entre o cansaço e a vigília, esperando o primeiro sinal pálido do amanhecer.
Com o nascer do sol, um novo dia se revelava, ele tinha acabado com sua comida, água por sorte, não era um problema, existiam muitos pontos de distribuição gratuitos por aí.
Ele não precisava de muita comida para sobreviver, viver na miséria por muitos anos o fez se acostumar com pequenas quantidades de comidas pouco nutritivas.
Seu corpo, no entanto, reagia, seus cabelos começaram a mostrar sinais de exaustão, fios brancos cresciam se misturando levemente aos pretos pois não tinham mais força para ter cores.
Esse fenômeno era relativamente comum, mas existiam pessoas que em vez de poucos fios, o cabelo crescia inteiro branco da raiz. Isso não necessariamente era um sinal de falta de nutrientes em todas as pessoas. Com o surgimento da magia todos os tipos de cabelos começaram a existir, de todas as cores e formas imagináveis, alguns mais raros, mas ainda sim existiam.
Mesma coisa com cor dos olhos, a magia possibilitava praticamente todas, se não todas as cores do espectro, tudo isso era definido de nascença.
Vance não era lá muito especial nessa questão, seu corpo magro não era muito dentro dos padrões de beleza, talvez seus olhos cinza-claros fossem um pouco raro de se encontrar por ai mas também não é como se ele tivesse muita referência de modelos super bonitos ou coisa do tipo, mas ele pelo menos, não se considerava muito atraente, e de certa forma um pouco feminino até.
Suas mãos mal tinham calos, seu rosto não tinha uma mancha ou espinha, seus cílios eram grandes como o de uma mulher maquiada e seus lábios eram estranhamente claros, parecendo mais como um leve batom rosa do que qualquer coisa.
Seu rosto e corpo mostravam mais sinais de delicadeza do que masculinidade, isso de certa forma não era ruim, ele não demonstrava perigo dessa forma, mas ele mesmo não queria.
Parecer inofensivo era uma ótima característica para furtar sem ser visto.
Noite passada ele esteve muito ocupado realizando crimes por aí, hoje, no entanto, ele tinha um novo objetivo.
Ver a casa onde morava, ou o que restava dela.
Vance caminhava, se misturando as pessoas, quase como um fantasma.
Seus pés seguiam no automático, desviando de corpos e obstáculos sem que ele realmente percebesse.
As construções continuavam baixas, improvisadas, empilhadas umas sobre as outras como se tivessem crescido sem planejamento algum. As ruas eram estreitas, cheias de remendos no asfalto e fios — não os Fios de magia que produziam energia bem organizada do centro, mas cabos velhos, mangueiras, extensões roubadas que serpenteavam pelas paredes e postes tortos. A magia chegava ali apenas em restos, vazamentos, soluções malfeitas e muitas vezes, comunitária.
Era a periferia. Era onde ele sempre estivera.
Ele seguiu por vielas que conhecia desde pequeno. Algumas haviam mudado, outras permaneciam idênticas, como se o tempo tivesse desistido delas. Um muro grafitado ainda estava no mesmo lugar. Uma escada quebrada continuava quebrada. Um cheiro específico de lixo úmido e comida velha ainda impregnava o ar.
Foi então que ele diminuiu o passo.
A casa.
Ou o que restava dela.
Não havia fitas de isolamento, nem placas oficiais. Ninguém se importava o suficiente para interditar aquele lugar. As paredes estavam parcialmente de pé, manchadas pela chuva e pelo tempo. O teto havia cedido em vários pontos, e plantas cresciam onde antes havia apenas poeira e concreto.
Vance parou a alguns metros de distância.
Não entrou.
Observou de fora, como se aquele espaço pudesse mordê-lo se chegasse perto demais. Aquele lugar não parecia real. Era pequeno demais. Apertado demais. Difícil acreditar que aquilo tinha sido o mundo inteiro dele por tantos anos.
Era uma casa pequena e quadrada feita principalmente com tijolos.
Uma lembrança passou rápido demais pela mente — não um momento específico, mas uma sensação. Frio no estômago. Fome constante. O corpo sempre em alerta.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Aquilo já não era dele.
Talvez nunca tivesse sido.
Sua mãe, Lyra Morren, simplesmente sumiu um dia, Vance procurou e procurou, até que um dia em um departamento de polícia que ele entrou para fazer perguntas, ela foi simplesmente dada como morta, nenhuma investigação, nem sequer sensibilidade.
Lyra nunca falava de seu pai, toda vez que ele perguntava algo sobre, a maioria das vezes ela respondia de modo que tentasse trocar de assunto. Ele mesmo só sabia que seu pai tinha morrido antes de ver conhecer ele.
E isso era comum, era completamente normal ver pessoas e crianças na periferia que cresciam sem um pai ou sem uma mãe, ou sem os dois.
Ele mesmo não ligava muito pra isso, um pai pra ele era como nada, ele nunca tivera então não sabia como era ter.
Talvez até ter uma mãe era meio estranho. Ele não era muito próximo dela.
As coisas pesadas e sobrevivência ele aprendia na rua.
Conhecimentos básicos de todo o tipo ele aprendeu no orfanato, foram 4 anos de vida relativamente tranquila e estudos das coisas que todo cidadão deveria saber.
Depois de sair de seus devaneios mentais, ele se viu olhando o sol, agora deveriam ser no máximo 9:30 da manhã, ele precisava procurar sua sobrevivência.
Andando por aí, ele furtou de uma moto parada um pacote de pão dentro de uma sacola pendurada no guidão.
O dono dela, no entanto, estava dentro de um estabelecimento a frente e simplesmente deixou uma sacola por aí.
Ele merecia isso.
A periferia não admitia erros, esse homem provavelmente não era daqui, é possível e provável ser um filho de mãe rica se aventurando mundo a fora sem conhecer os perigos.
Seu almoço do dia estava feito.
Mas ele precisava de mais, viver por ai só roubando comida era totalmente decadente, suas roupas estavam imundas e ele mesmo estava parecendo um morador de rua, na verdade ele meio que era um de qualquer maneira.
Ele precisa de dinheiro, roubar dinheiro era uma tarefa bem mais complicada que o normal. As pessoas não deixavam dinheiro jogado no guidão da moto.
O jeito que ele conhecia e que combinava com ele era o famoso pickpocket, batedor de carteiras. Obviamente não nas favelas, e sim nos grandes aglomerados de pessoas e nas partes centrais de Vallum.
Ele já conseguia imaginar o que faria com dinheiro, comida, muita comida e roupas que realmente o cobriam do frio, nessa manhã fazia menos de 5 graus, o que ele tinha era um casaco fino que cobria sua pele, dessa vez ele estava de fato começando a sentir um frio perigoso.
Mas antes disso, ele precisava tirar as marcas de um favelado.
Seu cheiro estava horrível, depois de 2 dias sem banho, sua roupa estava começando a parecer manchada e seu cheiro corporal, por mais que não muito forte, começava a dar sinais de sujeira.
Mas tinha outro problema, o rio, onde normalmente sem tetos tomavam banho, estava extremamente frio.
5 graus é possível aguentar com um casaco e fora d’gua, agora nu e dentro de praticamente uma banheira de gelo era outra história.
Infelizmente esse sacrifício significava sua sobrevivência.
Chegando na borda de um rio isolado, ele pensou...pensou... e então desistiu.
“Impossível”
Mas então ele fez.
Ignorando seus pensamentos ele simplesmente pulou no rio.
Em vez de fazer do jeito mais fácil e tolerável de entrar devagar, ele só simplesmente pulou.
No mesmo segundo que seus corpo todo mergulhou na água ele se levantou. Era como se mesmo que sua cabeça estivesse fora d’gua, sua respiração era travada por um frio penetrante.
Como um gato ele pulou e saiu voando da água.
Mas agora vinha a pior parte... o vento frio.
E novamente, no mesmo segundo que sentiu o vento, ele pulou de volta na água, por mais que estivesse frio e com dificuldades de respirar, ainda era melhor que sentir o vento batendo contra sua pele.
E lá ele ficou, até se sentir corajoso o suficiente para encarar o vento.
Depois de algum tempo, colocou suas roupas e finalmente... finalmente estava pronto para seu trabalho criminoso.
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