Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 2: Guerras

Depois da terceira guerra mundial em 2049, o mundo se viu completamente devastado, fome, radiação, doenças... e quando a humanidade pensou que estava se levantando, outro tombo, A Falha.

A guerra foi tão devastadora que apenas algumas áreas do mundo permaneceram em pé, parte norte da Europa, parte sul da América do Sul, na Ásia a Rússia foi completamente dizimada sobrando apenas alguns países mais abaixo, e na África não sobrou praticamente nada, apenas partes mais perto da Europa.

Áreas como América do norte e Oceania foram completamente varridas do mapa.

A China, no entanto, não saiu ilesa, perdeu grande parte de seu poder.

Ninguém saiu sem danos nessa guerra.

E então quando surgiu A Falha em 2088, a humanidade que começava a conseguir recuperar seus territórios perdidos e conseguir de volta tecnologias parecidas com antes da guerra sofreu um baque tremendo.

Com sua população pós-guerra de 1,3 bilhões de pessoas e no auge da sua recuperação em 2087, batendo a marca de 2,3 bilhões de pessoas, teve sua cabeça novamente a prova após A Falha matar mais de 400 milhões de pessoas.

Tecnologias simplesmente pararam de funcionar, a própria física parecia não funcionar corretamente e com isso criaturas bizarras começaram a aparecer em vários lugares do mundo de maneira completamente aleatória e de lugar nenhum, vindo do nada e indo para o nada.

Forças armadas tentavam conter o avanço dessas abominações, mas dificilmente alguma coisa adiantava, muros altos foram erguidos nas grandes cidades e apenas os mais fortes restavam.

Os soldados que exploravam mundo a fora pareciam simplesmente sumir sem deixar rastros.

O mundo estava colapsando em algo que ninguém sabia o porquê.

Grandes líderes não se manifestavam, papas, presidentes, super-ricos simplesmente não mostravam o mínimo de reação a isso.

Até que um dia, um escolhido voltou.

Um homem, ou seja lá o que ele se tornara, voltou... voltou de uma expedição que mantinha uma distância de 756km da cidade mais próxima.

Sem outras pessoas do seu lado, sem comida, sem um braço, ele retornou. Não tendo, nada mas ao mesmo tempo tinha tudo, a salvação da humanidade, uma joia.

Seus companheiros foram todos dizimados pela falha, ninguém retornou para contar história, mas ele sim, seu nome, Arlith Ashlight, ficou marcado na cabeça de todas as pessoas que ainda sobravam na terra.

A joia que ele trazia consigo, permitia humanos comuns verem através da falha.

Essa conquista por si só permitiu aos cientistas de todo mundo entenderem o fenômeno. A Falha, não era nada menos que um buraco de minhoca.

Mas um especial, além de te transportar pelo espaço e tempo, ele era composto por algo novo, uma energia nova, algo nunca antes visto no universo, era como uma quarta dimensão mas sem ser uma dimensão. Era uma partícula de algo nunca antes visto, era como descobrir maneiras de usar energia escura para benefício humano.

Essa nova descoberta foi nomeada de magia, afinal o que mais poderia ser? Os humanos desesperados por alguma salvação abraçaram a primeira explicação que pensaram, mágica.

E de certa forma não estava errado.

A joia, então, foi utilizada como um meio importante em expedições, e cada vez mais e mais pessoas conseguiam retornar do mundo externo.

Essas pessoas, apresentavam características únicas, veias, artérias e vasos até 2 vezes maiores, pele mais dura, ossos resistentes, aumento de altura, todo tipo de coisa aparentemente mágica.

Essas pessoas, consequentemente, se reproduziram, seus filhos nasciam com o exato mesmo defeito biológico — como a mídia apresentava — que os seus pais e assim, em meados de 2091 surgiu a primeira geração de irregulares.

Esses irregulares não precisavam da joia para ver A Falha e lutar contra ela, eles nascem com a capacidade inata da magia, eles foram vistos pela sociedade como salvadores e a geração que levaria a terra a um novo estado.

E não estavam errados.

Porém havia um problema, todos esses irregulares, uma hora ou outra, sem exceção, passavam por uma provação, em alguns ocorria mais cedo em outros mais tarde, mas o fato era, até os 25 anos no máximo, um irregular passava por um "Puxão" onde um buraco de minhoca surgia dentro de sua cabeça e o levava para dentro da falha.

Quem sobrevivia ao Puxão, era oficialmente um irregular nível 1, e aumentava de tamanho um novo órgão dentro de si, órgão esse que só os irregulares e alguns de seus pais desenvolveram. Ficava dentro de seu coração, pode parecer estranho um órgão dentro de outro, mas era como acontecia.

Esse foi chamado de "Fluxor"

O Fluxor tinha função de captar partículas de magia que ficavam vagando por aí. Essas partículas eram vistas pela ciência moderna como radiação nobre, um tipo novo que conseguia ser usado no corpo humano sem matar seu usuário.

Essas partículas também tinham um nome, "Fios", nome esse dado pela semelhança de sua geometria molecular a um fio.

Dessa maneira, 35 anos depois da primeira geração de irregulares, todos os jovens também se tornaram um.

Além de filhos de irregulares, aparentemente manter contato com algum por muito tempo fazia com que pessoas ao redor também tivessem propensão a se tornar irregulares.

E então na sociedade atual, praticamente todos eram, até alguns mais velhos que estão vivos desde antes da falha, pelo menos do nível 0.

Filhos de famílias ricas conseguiam adiar o processo até o auge dos 25 anos ou próximo por meios não naturais, mas muitos optavam por não fazer por ser extremamente caro e nem sempre dar resultados garantidos.

Atualmente todo jovem era obrigado a passar pelo menos pelo primeiro nível da Falha,

a partir do segundo nível era opcional, não existiam mais puxões empurrando uma pessoa e ela não era obrigada a enfrentar falhas abertas por aí.

O nível 0 era chamado de Latente, o Nível 1 de Revelado.

O governo oferecia um distintivo para todas as pessoas que alcançavam níveis maiores que 1, todas essas pessoas eram vistas como a nata da nata da sociedade e eram respeitadas por todos.

Não existiam nomenclaturas para níveis maiores que 1, apenas era dito como “níveis maiores que 1”

Vance atualmente era um nível 0.

Era comum ver pessoas desmaiando na rua, quando uma pessoa sofria um Puxão para uma falha, apenas seu literal cérebro saia de seu corpo, mas suas funções vitais todas se mantinham funcionando a não ser que a pessoa morresse em uma falha.

Quando acontecia um desmaio era orientado a pessoas em volta chamarem uma ambulância para buscar o corpo.

O tratamento médico não era de graça em Vallum, mas nesses casos, o governo podia. Uma justificativa dada era de que “esses Latentes, se sobreviverem, levarão a humanidade ao seu ápice novamente”

Esse fenômeno a medicina atual não conseguia explicar ainda, como a mente literalmente saia do corpo e este se manter vivo?

Maravilhas da magia.

Vance então, passou sua primeira noite sentado em um banco dentro de uma rua escura.

Já pegando no sono ele sentiu que amanhã seria um dia complicado.

"Não tenho comida, muito menos dinheiro, que os deuses ou seja lá quem me dê sorte"

Fechando os olhos ele dormiu.

Por mais que a sociedade atual continha muitas tecnologias advindas de energia do próprio planeta, também existia a parte da ciência voltada aos Fios e a manipulação deles.

Como substituto do petróleo, os Fios começaram a ser usados como energia primordial.

Vance dormia em uma dessas tecnologias dos Fios.

Uma espécie de redoma transparente se formava em volta dele, os Fios eram manipulados por um Fluxor artificial que era utilizado fora do corpo humano, a redoma era basicamente a evolução de um guarda-chuva.

Poderia parecer um item caro para moradores da periferia, mas a magia já tinha sido difundida a mais de 40 anos, tecnologias assim já se tornaram muito comuns.

Quando a redoma se dissipou, os Fios perderam o brilho azulado e se retraíram como linhas obedientes voltando ao nada. O ar da manhã entrou pesado nos pulmões de Vance, carregado de um cheiro metálico misturado com poeira úmida.

Levantou-se devagar. O corpo ainda sentia o resíduo do Fluxor artificial, uma leve dormência nos dedos e uma pressão estranha atrás dos olhos. Antigamente, diziam que dormir envolto em Fios dava sonhos vívidos, quase proféticos. Ele nunca soube dizer se era verdade ou apenas sugestão coletiva.

Ele mesmo mal sonhava.

Hoje em especial estava mais frio que no dia anterior, ele vestiu um cachecol que guardava em sua mala e amarrou em torno de seu pescoço. Sua pele branca estava gelada como a neve, seus cabelos pretos estavam com fios brancos misturados e ao mesmo tempo alguns crescendo desde a raíz, em mais poucos meses seu cabelo provavelmente chegaria a passar da orelha.

A rua o recebeu com sons familiares e, ao mesmo tempo, estranhos. Trilhos de lixo corriam sob o asfalto, pingando de forma quase orgânica, e nojenta, postes ainda usavam luz natural, um natural tecnológico, em vez de Fios de magia era apenas lâmpadas de luz, lâmpadas normais.

A periferia já não tinha o mesmo significado de antes. Quarenta anos de difusão da magia haviam apagado algumas diferenças brutais, mas criado outras, ainda era completamente atrasada se comparada com a sociedade atual, mas ainda existia por exemplo, ruas consideradas nobres da periferia, que usavam luz de Fios, em vez de lâmpadas comuns.

Ele seguiu em direção ao antigo caminho que costumava fazer quando mais jovem.

Naquela época, não havia trilhos de lixo nem dutos pingando resíduos químicos reciclados dezenas de vezes. Havia buracos, rachaduras, mato crescendo entre o concreto. Agora, tudo estava coberto por uma camada cinzenta e lisa, com pequenos canais por onde o descarte fluía lentamente, conduzido por forças que ninguém mais questionava. O cheiro era pior do que ele lembrava.

Passou por uma pequena praça.

Ou melhor, o que restava dela.

O espaço aberto onde crianças costumavam correr tinha sido reduzido a um quadrado estreito, ocupado por uma torre de redistribuição energética secundária. Não era grande, nem imponente, apenas funcional. Os poucos bancos ainda existentes estavam rachados, com inscrições antigas quase apagadas pelo tempo e pela sujeira. Vance se sentou por um instante, observando.

Crianças brincavam e corriam pela lama, ainda existia felicidade aqui, por incrível que pareça.

A favela tinha piorado, e muito, em todos esses anos que ele passara fora. O crescimento massivo de população empurrava muita gente nova para as periferias. E em pouquíssimo tempo.

Barracos improvisados surgiam onde antes havia apenas vielas estreitas. Estruturas empilhadas sem qualquer planejamento, sustentadas por ligas baratas, restos de conduítes energéticos e pedaços de tecnologia descartada pelo centro da cidade. Os fios (com a energia dos Fios), quando presentes, eram instáveis, puxados ilegalmente de linhas principais, cintilando de forma irregular como se pudessem se romper a qualquer instante.

Vance observava tudo em silêncio.

As crianças corriam entre a lama e os resíduos, rindo, empurrando-se, inventando brincadeiras com o que encontravam pelo chão. Uma delas segurava um pequeno fragmento de cristal de Fio apagado, fingindo que era algo valioso. Outra usava uma tampa metálica como escudo. A criatividade sobrevivia onde o conforto nunca chegara.

Aquilo o incomodou mais do que prédios caindo aos pedaços.

Ele se levantou do banco rachado e seguiu adiante, desviando de poças espessas e trilhos de descarte entupidos. Pessoas passavam por ele sem reparar muito, cada uma carregando seu próprio cansaço. Alguns empurravam carrinhos adaptados com restos de tecnologia, outros discutiam preços de energia clandestina, negociando minutos de acesso a Fluxores compartilhados.

Ninguém parecia surpreso com nada.

A miséria havia se tornado parte da paisagem, tão comum quanto os postes tortos e as paredes manchadas.

Vance entrou em uma viela estreita, reconhecendo-a apesar das mudanças. Ali costumava haver um pequeno comércio improvisado, onde um senhor vendia comida simples, quente, feita mais de improviso do que de ingredientes. O cheiro costumava se espalhar pela rua inteira.

Agora, havia apenas uma porta de metal fechada, enferrujada, com um símbolo antigo riscado por cima: INTERDITADO POR RISCO ENERGÉTICO.

Ele ficou parado por alguns segundos.

Sentiu o estômago se contrair levemente, um desconforto que tentou ignorar. Continuou andando.

Passou por um abrigo coletivo, uma construção longa e baixa, alimentada por um Fluxor comunitário de baixíssima potência. Pessoas se amontoavam do lado de fora, esperando a liberação de energia para aquecer o ambiente interno por algumas horas. Um homem gritava com o responsável pelo controle, exigindo mais tempo. O responsável apenas repetia que não havia saldo suficiente.

Até o calor agora tinha preço.

Vance seguiu em direção a um antigo galpão abandonado, onde costumava se refugiar quando queria ficar sozinho. O local ainda existia, mas estava ocupado. Famílias inteiras dividiam o espaço, separadas por panos, placas e divisórias improvisadas. Ele não entrou. Não queria ser mais um corpo ocupando espaço onde já faltava tudo.

O céu começou a escurecer lentamente, tingido por tons alaranjados misturados com o azul artificial refletido pelos poucos Fios ativos da região. Ele ajustou o cachecol no pescoço e respirou fundo, o frio tinha aumentado.

Foi então que percebeu.

Não sentia apenas um leve desconforto.

Era fome.

Uma fome real, profunda, que começava a doer. O estômago se retorcia em ondas lentas, como se reclamasse por ter sido ignorado por tempo demais. Ele tentou se lembrar da última vez que havia comido algo de verdade.

Nada veio à mente.

Talvez um pedaço de alimento sintético antes de sair do orfanato. Talvez nem isso. Os dias haviam se misturado, borrados pelo cansaço, pelas caminhadas longas, pela tentativa constante de observar sem pertencer.

Ele parou no meio da rua.

Olhou em volta.

Não tinha dinheiro suficientes para comprar comida nos pontos legalizados. Na periferia, quase tudo funcionava por troca, favor ou acesso temporário a energia. E ele não tinha nada a oferecer. Nenhum item valioso, nenhum vínculo local, nenhuma reputação recente.

A magia havia se popularizado, mas a sobrevivência continuava exigindo escolhas.

Vance sentiu um gosto amargo subir pela garganta. Pensou em pedir ajuda, mas a simples ideia parecia absurda. Todos ali estavam no limite. Pedir seria tirar de alguém que já não tinha.

O estômago voltou a se contrair, mais forte dessa vez.

Ele encostou em uma parede fria, fechando os olhos por um instante. Sentiu o peso do dia inteiro cair sobre os ombros. Andara por lugares antigos, revira memórias, observara ruínas de uma vida que não existia mais.

E esquecera do mais básico.

Comer.

Abriu os olhos lentamente.

Se continuasse daquele jeito, não sobreviveria. Não naquela cidade. Não naquele mundo.

Vance sabia fazer coisas que a maioria das pessoas não era boa. Roubar e se esconder.

Ele havia prometido a si mesmo que nunca mais voltaria a isso.

Mas promessas não alimentavam ninguém.

Ele olhou para o horizonte da periferia, onde algumas linhas de Fios ilegais brilhavam fracamente, quase invisíveis para olhos comuns. Sabia exatamente de onde vinham. Sabia quem as explorava. Sabia os riscos.

Se fosse descoberto, poderia perder mais do que apenas acesso à cidade, mas continuar daquele jeito significava definhar até morrer.

Vance se afastou da parede e começou a andar novamente, agora com um destino claro em mente. Cada passo parecia mais pesado, não apenas pelo cansaço, mas pela decisão que se formava.

Medidas drásticas nunca eram bonitas.

Nunca eram limpas.

Mas, naquele mundo movido a energia, magia e desigualdade, sobreviver exigia sujar as mãos.

E ele estava com fome demais para continuar sendo apenas um observador.

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