Volume 1
Capítulo 1: Se algum dia você me encontrar
Dia 4 de julho de 2126.
Hoje completavam 16 anos dessa data.
O homem da administração não levantou os olhos do tablet. A luz azul da tela iluminava metade de seu rosto.
— Nome.
— Vance Morren
Os dedos do homem deslizaram pela superfície de vidro. Um som breve confirmou algo.
Ele girou o aparelho para que ele visse a própria foto — tirada anos antes — acompanhada de um número vermelho piscando ao lado da data de nascimento.
16.
— Assine.
Não foi oferecida caneta. Apenas o espaço digital esperando seu dedo polegar.
Quando ele pressionou no visor, sentiu o leve choque de confirmação. O registro foi atualizado. A palavra ATIVO desapareceu. Em seu lugar: DISPENSADO.
O homem então puxou debaixo do balcão uma maleta preta compacta. Dentro, roupas dobradas às pressas, e algumas peças essenciais.
Empurrou a maleta na direção dele sem encará-lo.
— Você conhece o procedimento.
Atrás de Vance, o portão de aço começou a se mover antes mesmo que ele desse o primeiro passo.
Embora ele já estivera na rua antes, cair novamente nas graças dos becos escuros e úmidos era uma ideia no mínimo assustadora. Vance conhecia bem os arredores, mas ele conhecia melhor ainda as favelas.
A justificativa para essa expulsão era simples, homens em plena forma podem se virar sozinhos, não temos espaço para mais gente aqui.
Era um dia de chuva leve, ele vestia um agasalho fino, com calças e botas pretas. Por mais que aqui em Vallum o clima costumava ser bem frio, sua pele sentia menos, ele estava acostumado, hoje em especial fazia menos de 10 graus celsius.
Por mais que estivesse sendo expulso, Vance ainda agradecia ao orfanato, se não fosse por eles, sabe-se lá oque ele estivesse fazendo agora ou se ao menos estaria vivo para contar história.
O portão de aço se fechou atrás dele com um estalo seco.
Sem cerimônia. Sem despedidas.
Vance ficou parado por alguns segundos, observando a chuva cair sobre o concreto rachado da rua principal. As luzes artificiais de Vallum nunca refletiam direito na água — sempre pareciam tortas, alongadas, como se o chão estivesse levemente errado.
Teria de pensar o que seria de sua vida agora, sair por ai andando era como andar em uma floresta a noite, perigoso, mas nesse caso, necessário.
Ele puxou o capuz e começou a andar.
As ruas próximas ao orfanato não tinham nem uma sacola plástica sequer no chão, casos de assaltos ou crimes eram praticamente nulos, câmeras presas aos postes acompanhavam cada passo, e drones cruzavam o céu cinzento em rotas previsíveis. Era a Vallum que aparecia nos relatórios oficiais: funcional, segura, necessária, o ápice da tecnologia mundial.
Bastava passar o muro para o cenário mudar.
Os prédios, se é que poderiam ser chamados disso, tornavam-se irregulares. As fachadas, improvisadas. As ruas, estreitas demais para o fluxo de pessoas que as atravessavam todos os dias. O cheiro de ferrugem e óleo queimado se misturava ao da chuva acumulada nos becos.
As favelas.
Era de lá que ele veio. Desde a morte de sua mãe, ele caminhava com suas próprias pernas, muito antes disso na verdade, a morte dela só fez com que ele precisasse ainda mais de si mesmo.
Aos 12 anos, conseguiu entrar em um orfanato, uma lista de espera de mais de 2 anos ate chegar sua vez. Nesse meio tempo, Vance vivia por si só, caçava, roubava e até feria os outros para conseguir o que precisava, no entanto, nunca chegou a tirar a vida de alguém. Ele nem sequer tinha força para isso.
Desde que a terra fora bombardeada, invadida e usada até o limite, toda a população que restara passou a viver em grandes cercos urbanos. Vallum era um deles. Um dos maiores. Um dos últimos.
Muros altos cercavam a cidade por quilômetros, reforçados por camadas de metal, concreto e sensores. Do lado de fora, apenas zonas mortas, áreas ainda contaminadas, campos estéreis onde nada crescia direito. Do lado de dentro, milhões de pessoas comprimidas, pessoas essas que se diziam a nata da sociedade, tentando viver como se aquilo fosse normal, e do lado de fora... pobreza, morte, doenças.
Ele cresceu vendo os muros que sempre estiveram lá.
Eram como um grande abraço de mãe, que te protegeriam não importa o que acontecesse.
Como se fossem uma extensão da Terra.
Enquanto caminhava pelas ruas mais estreitas fora do muro, passou por vendedores improvisados, crianças correndo descalças, homens sentados em silêncio sob marquises quebradas. A maioria desviava o olhar. Alguns encaravam demais. Avaliavam. Sempre avaliavam.
Juventude era uma moeda valiosa ali.
Ele manteve a mão dentro do bolso do casaco, segurando a pequena faca que carregava desde os 8 anos. Não era grande coisa, mas o salvara mais de uma vez. Em Vallum, não se sobrevivia apenas sendo rápido, era preciso parecer disposto.
Ele cruzou a passarela elevada com passos cautelosos. O piso improvisado — placas irregulares de pedra encaixadas sobre a estrutura antiga — fazia um barulho oco quando era pisado por sua bota. Dali, a cidade se abria como uma fenda iluminada.
Ao longe, as torres centrais se erguiam como agulhas cravadas no céu, envoltas por uma névoa espessa que nunca se dissipava por completo. A luz artificial as atravessava em tons frios — azul, violeta, branco clínico — criando halos fantasmagóricos ao redor das estruturas metálicas. Era impossível dizer onde terminava o concreto e começava a ilusão.
Drones cruzavam o ar em intervalos regulares, obedientes e silenciosos, suas luzes piscando como estrelas programadas. Eles além de apenas patrulharem, observavam, registravam, e catalogavam.
Mesmo daquela distância, as telas colossais dos centros comerciais eram visíveis — retângulos vivos flutuando entre os prédios, despejando cores vibrantes sobre a paisagem cinzenta. Rostos perfeitos sorriam promessas de conforto, implantes, ascensão social. Certas propagandas pareciam ter encontrado uma maneira de infiltrar-se em todos os cantos, até mesmo ali, onde a pobreza tentava sobreviver fora do alcance do luxo. Elas chegavam a todos. Sempre.
Vallum não era apenas uma cidade. Era um espetáculo permanente. Uma vitrine de progresso construída sobre camadas de abandono.
Enquanto observava aquela paisagem impossível, ele se lembrou dos livros que lera no orfanato: histórias de futuros decadentes, megacorporações soberanas, tecnologia sufocando humanidade. Na época, aquilo parecia exagero dramático, porém, extremamente interessante de se ler.
Agora, olhando para as torres envoltas em névoa e neon, ele percebeu:
Vallum era basicamente uma distopia Cyberpunk.
Ao redor do mundo, restavam apenas fragmentos de continentes — ilhas de civilização cercadas por ruínas. O que não fora consumido pela guerra sucumbira à temível Falha, um fenômeno tão inexplicável quanto implacável. Oceanos engoliram cidades, desertos avançaram sobre capitais, e mapas precisaram ser redesenhados com mais espaços vazios do que fronteiras.
Vallum era um desses fragmentos que sobreviveram.
A cidade nunca dormia de verdade. Mesmo na madrugada mais profunda, sua respiração podia ser ouvida no zumbido distante das turbinas de drones tecnológicos, nas luzes que jamais se apagavam. Havia algo quase majestoso naquela visão — grandioso demais para ser contemplado a partir de dentro de uma favela.
Os muros eram altos, espessos, reforçados com ligas metálicas e todo tipo de tecnologia militar. Ainda assim, os morros que se espalhavam além deles ofereciam pontos onde a cidade podia ser observada por inteiro. Bastava subir o suficiente.
Vance permaneceu alguns instantes em silêncio, permitindo-se olhar.
Lá dentro dos muros, tudo parecia calculado: organização geométrica, arranha-céus alinhados, vias iluminadas, drones em rotas perfeitas. Tecnologia pulsando como um coração artificial. Promessas de segurança, estabilidade, progresso.
Do lado de fora, onde ele estava, havia apenas sobrevivência crua. Barracos improvisados, energia instável, água racionada, pessoas que aprendiam desde cedo a não esperar nada além do próximo dia.
Do alto daquele morro, a diferença era clara demais para ser ignorada.
Ele desviou o olhar.
Aprendera cedo que encarar demais aquilo só trazia frustração.
Continuou seguindo, entrando mais fundo na favela. O chão tornava-se irregular, feito de basicamente terra molhada e restos de concreto. Algumas casas tinham luz. O cheiro de comida barata misturava-se ao de lixo úmido e ferrugem.
Passou por um grupo de homens jogando cartas sob uma lona rasgada. Um deles ergueu os olhos, analisando-o rápido demais para ser casual. Vance manteve o passo firme, expressão neutra.
Isso era corriqueiro por aqui.
Aos dezesseis anos, era velho demais para receber ajuda gratuita e jovem demais para ser levado a sério. Um espaço ingrato, onde erros custavam caro.
Ele encontrou abrigo sob uma estrutura abandonada, restos de um antigo ponto de transporte. O teto ainda segurava parte da chuva, e o vento ali era menos agressivo. Vance se sentou, apoiando as costas na parede fria.
O corpo doía.
Não era nada grave, apenas o cansaço acumulado de alguém que nunca realmente descansara.
A chuva não era necessariamente um problema, ficar exposto demais era.
Fechou os olhos por um momento, respirando fundo. Lembrou de sua mãe — não em seu rosto, que a memória já começava a apagar, mas na sensação de segurança imediata que um dia existira. Pensou no orfanato, nos dias iguais, nas regras rígidas, mas também na comida quente e nas noites sem medo imediato.
Agora, tudo isso ficara para trás.
Um som metálico ecoou distante, seguido por vozes alteradas em algum ponto da favela. Vance abriu os olhos imediatamente, a mão indo instintivamente ao bolso da faca. Depois de alguns segundos, o barulho cessou.
Nada fora do comum.
Ainda assim, algo o incomodava desde mais cedo. Uma sensação difícil de nomear. Não era medo, nem fome. Era como se o mundo estivesse… pressionado. Apertado demais.
Vance levou a mão ao peito, sentindo o próprio coração bater firme.
— Besteira… — murmurou para si mesmo.
O frio aumentava à medida que a noite se aproximava. Ele ajustou o casaco e se levantou. Precisava encontrar um lugar melhor antes que escurecesse de vez. Lugares abertos se tornavam perigosos depois que o sol desaparecia completamente atrás dos muros.
Antes de seguir, lançou um último olhar para Vallum ao longe.
A cidade parecia indiferente à sua existência.
Como sempre fora.
Respirando fundo e deu o primeiro passo rumo à escuridão crescente, sem saber que aquela seria a última noite em que o mundo permaneceria exatamente como ele conhecia.
Vance já havia dado alguns passos quando o ar mudou.
Foi algo invisível e silencioso.
Foi como se o frio tivesse ganhado peso.
Ele parou sem perceber por quê. O som distante da cidade pareceu se afastar, ficando abafado, como se estivesse ouvindo tudo debaixo d’água. A chuva ainda caía, mas agora parecia errar o ritmo — gotas chegando antes do esperado, outras depois.
Vance franziu o cenho.
Uma pressão estranha floresceu em seu peito — primeiro sutil, quase discreta — e então se espalhou pelos braços, subiu pela nuca, infiltrou-se sob a pele como eletricidade fria. Dor não era a melhor palavra para descrever. Era um puxão interno, uma tração invisível que parecia vir de dentro para fora, como se algo quisesse sair.
Seu coração disparou.
Vance puxou o ar com força, tentando dar um passo.
O corpo respondeu com atraso, como se os comandos precisassem atravessar água densa antes de alcançar os músculos.
Os dedos formigaram. Sua visão oscilou, desfocando as bordas do mundo por um segundo longo demais. As luzes da favela se arrastaram em rastros luminosos, distorcidas. Ele apoiou a mão na parede mais próxima. O concreto estava frio — frio demais para aquela noite — e a temperatura atravessou sua palma como agulhas finas.
— Agora não… — murmurou, sem saber a quem dirigia o pedido.
Uma pancada invisível atingiu seu abdômen. Depois outra. E outra. Como se múltiplos punhos o golpeassem de dentro, em ritmos desencontrados. O ar fugiu de seus pulmões. Um frio denso percorreu sua espinha, arrepiando cada fio de cabelo.
Por um instante, o mundo pareceu prender a respiração junto com ele.
Então passou.
Tão abruptamente quanto surgira.
O zumbido distante retornou. A chuva retomou seu ritmo irregular sobre as chapas metálicas. As luzes estabilizaram. A pressão no ar se dissipou, deixando apenas um eco gelado no fundo do peito — uma ausência que pesava mais do que a própria presença anterior.
Vance permaneceu imóvel, os ombros tensos, tentando racionalizar o que acontecera.
Nenhum sentimento comum parecia se encaixar na situação.
Apenas a certeza incômoda de que aquilo não fora aleatório.
Ele se afastou da parede com passos cautelosos e voltou a andar, forçando normalidade nos movimentos. Não percebeu que, por um breve e impossível instante, sua sombra se projetara na direção errada, contrariando as luzes dispersas da favela.
Ele não sabia oque ou como, mas sentia que algo parecia diferente.
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