Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 20: Queda

Ele avançou junto com a queda do peso.
A perna da criatura desceu com força total, comprimindo o chão no instante em que buscava apoio. Vance entrou no mesmo tempo, abaixando o centro do corpo e levando a adaga direto contra o lado da perna, mirando de baixo pra cima.
A lâmina encontrou resistência. Muita resistência.
E mais do que antes.
O impacto subiu pelo braço como um choque seco, travando o avanço antes que a lâmina pudesse afundar de verdade. Ele forçou um pouco mais, tentando atravessar no impulso do próprio movimento, mas a estrutura segurou. A sensação era de empurrar contra algo que absorvia a pressão ao invés de ceder.
A resposta veio na mesma hora.
Uma das pernas colidiu contra o lado do corpo de Vance, jogando-o para longe. Ele conseguiu girar junto com o impacto, reduzindo a força direta, mas ainda assim foi jogado contra a parede enquanto se equilibrava.
Suas costas bateram forte contra a parede branca, ainda não era nenhum tipo de ferimento preocupante, mas foi o suficiente para o deixar tonto por um instante.
— Era obvio...
A criatura não deu espaço e avançou de novo.
Dessa vez mais pesada, mais próxima, preenchendo o espaço com uma pressão contínua que não dava abertura. As pernas desciam em sequência, ocupando cada espaço disponível e empurrando Vance para trás enquanto ele ajustava o ritmo no limite, tentando não se deixar encurralar pelo volume do ataque.
Ele tentou cortar novamente.
Primeiro um golpe direto, aproveitando a passagem de uma das pernas. A lâmina encontrou a superfície e deslizou, perdendo força antes de penetrar o suficiente. Ele ajustou o ângulo, tentou de novo, agora mais rápido, mais curto — depois outro, vindo de baixo, buscando um ponto diferente.
Nada.
Os movimentos começaram a se acumular. Cortes verticais, horizontais, cruzados, todos encaixados entre desvios apertados e passos curtos. A adaga riscava a superfície da criatura, às vezes abrindo marcas rasas, outras vezes sendo desviada pela própria resistência do material. Cada tentativa exigia aproximação, e cada aproximação vinha acompanhada de resposta.
Uma perna acertou o ombro.
Não o suficiente para derrubar, mas forte o bastante para empurrá-lo para fora do eixo. Ele recuperou o equilíbrio no passo seguinte, já tendo que girar o corpo para evitar outro impacto que veio logo depois.
Tentou cortar de novo.
Mais fundo.
Mais força.
A lâmina travou no meio do movimento e foi desviada, abrindo espaço para outra colisão. Dessa vez no lado do corpo, jogando Vance meio passo para trás, quebrando o ritmo que ele tentava impor.
A cada tentativa, a resposta vinha.
Empurrões.
Deslocamento.
Perda de posição.
O espaço que ele ganhava em um movimento era tomado no seguinte.
E a criatura continuava cansando ele cada vez mais.
Era nitido que ele não poderia continuar assim.
A criatura continuava avançando, ocupando o espaço com um ritmo que pressionava sem pausa. Vance recuou mais um passo, o calcanhar raspando no chão enquanto o corpo absorvia o impacto de outra passagem próxima. A adaga ainda estava firme na mão, mas os golpes perderam profundidade, agora surgiam cortes curtos, encaixados entre desvios apertados, servindo mais para manter distância do que para impor dano. Cada tentativa de corte vinha seguida de resposta imediata, um empurrão seco, um deslocamento forçado que o obrigava a ceder terreno outra vez.
Uma perna desceu à frente dele com mais peso. O chão branco cedeu sob o impacto, formando uma fissura curta que se fechou logo em seguida. Vance girou o corpo para fora da linha enquanto outra perna passava perto do rosto, o ar deslocado pressionando a pele. 
Ele não levantou a lâmina dessa vez. O olhar desceu, acompanhando o ponto onde o contato acontecia, seguindo o caminho do impacto até a base da estrutura.
O avanço continuava, mas agora ele acompanhava.
Cada pisada marcava um instante definido, um ponto onde o corpo inteiro parecia se organizar antes de continuar. O peso descia, concentrava, sustentava — e então liberava. Vance ajustou o próprio ritmo a isso, encurtando os passos, mantendo a distância no limite enquanto observava a sequência se repetir com pequenas variações.
Outra perna desceu, mais próxima. O impacto veio pesado, comprimindo o chão por um instante antes de soltar. Vance deslizou para o lado, deixando o ataque seguinte passar por pouco, mas o olhar permaneceu baixo, fixo na base.
Mais uma sequência veio.
Dessa vez, ele não tentou cortar.
O corpo inclinou levemente para frente enquanto o pé encontrava posição. A respiração encurtou, acompanhando o ritmo das pisadas, ajustando o tempo entre um impacto e outro. A criatura avançava do mesmo jeito, mas agora havia um intervalo visível dentro do movimento — pequeno, constante, repetindo sempre no mesmo momento.
A próxima perna desceu.
E Vance entrou por baixo dela no exato instante em que o peso descia.
A adaga já vinha baixa.
Alinhada e esperando.
Quando a perna chegou perto de Vance, ele encaixou a lâmina na base, utilizando a força do peso da propria besta no ponto onde o apoio se formava. A resistência veio na hora, comprimindo o braço junto com o peso que descia.
Agora era a hora, ficar mais meio segundo ali era a basicamente sentença de morte por esmagamento.
Ele deslizou para o lado segurando a lamina e com toda a força que lhe restava ele tentou puxar a perna da criatura.
A estrutura resistiu por um instante, mantendo o ângulo… e então cedeu alguns centímetros, o suficiente para quebrar o alinhamento da pisada. O apoio perdeu o encaixe limpo, deslocando o peso para fora do eixo natural.
A reação percorreu o corpo da criatura. O ritmo que antes era contínuo se fragmentou.
Um estalo seco cortou o ar e no mesmo instante um grito ensurdecedor se fez presente.
Uma das pernas cedeu no meio do ajuste, dobrando em um ângulo que não sustentava mais nada. O corpo inteiro perdeu alinhamento de uma vez, o peso concentrando onde não havia estrutura suficiente para segurar.
E então caiu.
O impacto veio como um bloco inteiro, esmagando o chão com um estrondo pesado que se espalhou pelo ambiente. As pernas se moveram por um instante, desordenadas, buscando apoio onde já não existia encaixe.
Um sorriso curto surgiu no rosto de Vance, ainda carregado pela respiração pesada e pelo corpo tenso do esforço recente. O peito subia e descia em ritmo irregular.
Ele virou levemente o rosto, sem tirar completamente a atenção da criatura caída.
— Gostou, Raff?
A pergunta saiu leve, quase solta no ar, mais próxima de um gesto do que de uma espera real. O silêncio atrás dele não alterou o movimento seguinte.
Vance já avançava.
Os passos foram diretos, ele não correu, apenas andou encurtando a distância até a criatura enquanto a adaga voltava a se alinhar com o braço. O corpo dela ainda ocupava espaço demais mesmo no chão, as pernas em ângulos irregulares, algumas ainda se movendo em contrações curtas, atrasadas.
A aproximação veio com intenção clara agora, sem o cuidado de antes, atravessando o espaço que antes precisava respeitar. A lâmina subiu levemente conforme ele ajustava o ângulo, preparando o próximo movimento enquanto o corpo da criatura ainda tentava se debater enquanto controlava dor de sua perna quebrada.
— Agora é minha vez.

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