Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 19: Impenetrável

A adaga encostou na mão de Vance com um peso que ia além do metal. Ele demorou um instante antes de fechar os dedos ao redor do cabo, como se aquele gesto simples carregasse uma consequência que não poderia ser desfeita depois. O frio do material percorreu a palma da mão enquanto ele ajustava a pegada, e nesse mesmo momento o som atrás dele mudou — um arrastar irregular, pesado, acompanhado pelo leve atrito das pernas da criatura contra o chão liso.
Quando Vance levantou o olhar, ela já estava de pé.
A estrutura do corpo parecia maior agora, expandida pelo movimento. As oito pernas se abriram em ângulos amplos, ocupando espaço demais para algo que deveria ser instável, mas que se sustentava com uma eficiência inquietante. A superfície lisa onde deveria existir um rosto permanecia voltada diretamente para ele, imóvel, ainda assim carregada de intenção. A ausência de olhos não diminuía a sensação de que estava sendo observado — pelo contrário, tornava aquilo mais difícil de interpretar.
O ambiente inteiro parecia comprimido ao redor dos dois.
— Vai ficar olhando? — a voz de Raff atravessou o espaço com naturalidade, como se aquilo fosse apenas mais uma etapa previsível.
Vance não respondeu. O corpo já tinha assumido uma postura diferente, ajustando o peso, alinhando o centro, reduzindo o excesso de movimento. Tudo isso naturalmente, sem treinamento especifico, apenas instinto puro.A criatura avançou em seguida, sem preparação aparente, como se tivesse ignorado a transição entre estar parada e atacar. O deslocamento foi bruto, direto, encurtando a distância de forma abrupta, quase como um teletransporte na visão de Vance.
A reação dele veio no limite.
Ele girou o corpo para fora da linha, sentindo o ar ser cortado pela passagem de uma das pernas que atingiu o chão com força suficiente para reverberar pelo ambiente. O impacto ecoou seco, espalhando uma vibração curta pelo piso antes de morrer nas paredes lisas. Vance já reposicionava o peso quando a segunda investida veio, mais baixa, mais encaixada.
Dessa vez, ele encontrou a defesa no tempo certo.
A adaga subiu quase sem pensar, interceptando o avanço pelo mínimo necessário para desviar o trajeto. O metal não encontrou carne, mas alterou o ângulo o suficiente para a perna passar raspando pelo lado do corpo, levando consigo um pedaço de tecido.
O espaço não diminuía.
Pelo contrário — parecia se fechar ao redor dele.
Vance recuou um passo, depois outro, ajustando o ritmo conforme as pernas avançavam em sequência irregular. Cada movimento ocupava mais área do que deveria, forçando decisões rápidas demais para análise completa.
A lâmina permanecia à frente, pequena.
O pensamento veio no meio do movimento, atravessando a pressão crescente.
“Espera…”
O pé travou por um instante mínimo antes de retomar o deslocamento lateral.
“Eu tenho uma arma.”
A mão esquerda já se movia.
Desceu até a lateral do corpo, encontrou o peso familiar preso junto ao casaco e puxou em um único gesto limpo. O metal apareceu alinhado com o braço antes mesmo do pensamento terminar de se formar.
A criatura avançou de novo.
Dessa vez, Vance não recuou imediatamente.
O braço estendeu.
O primeiro disparo quebrou o ritmo da sala.
O som foi seco, comprimido pelo ambiente fechado. O recuo percorreu o braço enquanto o projétil atingia o corpo da criatura com um impacto surdo, quase sem resposta visível. Um segundo disparo veio em seguida, depois um terceiro, todos seguindo o mesmo ponto de impacto.
Pequenas perfurações se abriram na superfície.
A criatura não desacelerou.
As pernas continuaram o avanço, atravessando o espaço entre eles como se os disparos não tivessem alterado mais do que a superfície. Uma delas colidiu com o chão próximo demais, forçando Vance a quebrar o próprio ritmo e sair da linha com um passo brusco.
Outro disparo.
Mais um.
O som ecoou de novo, mas o efeito permaneceu o mesmo — marcas pequenas, rasas, incapazes de interromper o movimento que vinha em direção a ele.
O carregador esvaziou no meio da pressão.
O último clique soou seco demais.
Sem peso.
Sem resposta.
Vance não perdeu tempo olhando.
A arma já descia enquanto o corpo girava junto, abandonando a tentativa no mesmo instante em que entendia o resultado. A criatura avançava inteira outra vez, sem hesitação, ocupando o espaço com o mesmo volume de antes.
A diferença era clara agora.
Tiro não resolvia.
Vance recuou alguns passos, o olhar preso na criatura enquanto a mente corria mais rápido que o próprio corpo, tentando encaixar aquilo em alguma lógica que fizesse sentido.
"Se nem tiros funcionam… o que exatamente eu tô fazendo aqui?"
Ele virou parcialmente o corpo na direção de Raff, sem perder a criatura do campo de visão.
— Porra, Raff… nem tiros perfuram isso — a voz saiu mais tensa do que ele gostaria, mas firme o suficiente. — O que mais eu posso fazer?
Raff não se moveu.
Apenas observava.
— Pense — respondeu, simples, como se fosse óbvio.
A criatura avançou de novo.
Vance girou o corpo no tempo certo, deixando o ataque passar por pouco, sentindo o deslocamento de ar raspar na lateral enquanto as patas atingiam o chão com força. O impacto abriu uma pequena rachadura na superfície branca, mas o material se recompôs quase no mesmo instante.
— Você está olhando pro problema errado — continuou Raff, o tom ainda calmo, quase distante. — Nem tudo é sobre matar ou perfurar.
A criatura já estava sobre ele outra vez quando as palavras terminaram de se acomodar no ar.
Vance recuou um passo curto, o suficiente para deixar uma das pernas passar à frente do corpo, e girou para fora da besta logo em seguida. O impacto contra o chão veio pesado, mas o que chamou mais atenção não foi a força — foi o retorno. A superfície branca cedeu sob o golpe, abriu uma fissura curta… e então se fechou, lisa outra vez, como se nada tivesse acontecido.
O movimento seguinte veio mais alto.
Ele se abaixou no reflexo, sentindo o ar cortar acima da cabeça enquanto o corpo já girava junto com o próprio impulso, reposicionando-se sem abrir distância demais. A criatura continuava avançando, preenchendo o espaço com aquelas pernas que chegavam sempre um instante antes do esperado.
“Nem tudo é sobre matar ou perfurar.”
A frase ainda ecoava quando o olhar de Vance começou a se ajustar. Sua visão desceu do corpo principal para a base, acompanhando o caminho das pernas até o ponto onde tocavam o chão. Cada impacto marcava além da força, na realidade era muito mais suporte. O peso passava por ali antes de qualquer avanço, concentrando-se por frações de segundo em apoios que sustentavam tudo o resto.
Sem apoio, não teria a força.
Ele desviou por pouco de mais um ataque, o corpo saindo da linha com menos precisão do que antes, mas suficiente para manter o ritmo. Uma das pernas passou perto demais, criando um corte superficial sobre seu peito e rasgando sua vestimenta, obrigando ele a um ajuste mais brusco, e foi nesse movimento que a ideia começou a tomar forma.
Talvez não fosse sobre atravessar o corpo.
Talvez fosse sobre tirar o chão dele.
O olhar voltou para baixo, acompanhando outra sequência de apoios enquanto recuava meio passo, organizando o espaço mínimo que ainda conseguia manter. Uma perna desceu, sustentou, liberou. Outra veio em seguida, repetindo o padrão com pequenas variações.
Uma só não mudaria o suficiente.
O corpo ainda encontraria equilíbrio.
Mas duas…
O pensamento não chegou a se fechar em palavras. Ele se formou em imagem — peso deslocando, apoio cedendo, um corpo grande demais tentando se sustentar com menos do que precisava. A lógica encaixava, simples e direta, quase óbvia quando vista daquele ângulo.
Mas havia um ponto que não acompanhava a ideia.
Os tiros ainda estavam ali, marcados na superfície da criatura em pequenas perfurações rasas, incapazes de atravessar o suficiente para alterar qualquer coisa. Vance acompanhou essas marcas por um instante, ligando o que já tinha tentado ao que pretendia fazer agora, enquanto desviava de outra investida com um movimento mais apertado.
A lâmina na mão parecia menor.
Não pelo tamanho, mas pelo que precisava fazer.
Se os disparos não passavam, cortar direto também não seria simples. A resistência não estava só na superfície. Força bruta ali não resolvia.
O olhar voltou para as pernas.
No ponto exato onde o movimento começava a se fixar antes de seguir adiante. Cada apoio vinha carregado de peso, comprimindo a estrutura por um instante mínimo antes de liberar. Era nesse intervalo que o corpo aceitava carga, que a forma se organizava para sustentar o avanço.
— Quer saber... Vance disse enquanto abria um sorriso — Que se foda, seu monstro estranho. Só vamos descobrir se tentar.

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