Réquiem Brasileira

Autor(a): pedrotqz


Volume 1

Capítulo 18: Almoço estranho

Vance piscou uma vez, como se voltasse.
— Chega?
— Eu no seu lugar ja estaria dormindo — respondeu Raff, já se movendo pelo espaço, pegando o casaco com naturalidade. — E você ainda não tem estrutura pra carregar tudo isso sem começar a distorcer o que ouviu.
Ele vestiu o casaco sem pressa.
— Além disso… — continuou, lançando um olhar rápido para Vance — ficar preso nisso o tempo todo só vai te deixar com a coluna doend
Vance arqueou levemente a sobrancelha.
— Minha coluna ainda é boa o suficiente.
Raff deu um meio sorriso, curto.
— Ja andamos rapido demais, veja — Raff apontou para um relogio pendurado na parede — Daqui uma hora é ja é almoço.
Ele voltou o olhar para Vance, já girando levemente o corpo em direção à saída.
— Vamos procurar algo para comer.
Vance não respondeu de imediato.
O olhar ainda passou uma última vez pelo quadro vazio, como se alguma coisa tivesse ficado para trás,
Então ele soltou o ar, baixo.
— Certo.
Empurrou o corpo do banco com um movimento simples e seguiu.
Raff não foi em direção à saída, ele parou no meio do espaço e, sem qualquer aviso, ergueu a mão como se ajustasse algo invisível diante de si. O ar cedeu aos poucos, dobrando-se até abrir um rasgo escuro e profundo, cujas bordas tremiam de forma instável, como se aquele corte não devesse existir ali. Sem hesitar, ele inclinou levemente a cabeça e atravessou, desaparecendo do outro lado como se fosse apenas uma passagem comum.
— Veja bem, Raff… não estou afim de vomitar sangue de novo — disse Vance, ficando onde estava e encarando o portal com certa cautela. — Não tem outro jeito?
Por um instante, só o vazio respondeu.
Então uma cabeça surgiu de dentro da abertura, como se tivesse sido empurrada de volta contra a lógica do próprio espaço. Era Raff, com a mesma expressão tranquila de sempre.
— Relaxa, garoto. Dessa vez a gente vai pra um lugar bem perto… só um pouco escondido.
Ele sustentou o olhar por um segundo, como se aquilo bastasse como garantia, e então desapareceu novamente para dentro do rasgo.
Vance permaneceu imóvel por um breve momento, avaliando a abertura escura diante de si, antes de soltar o ar baixo e avançar, atravessando logo em seguida.
A travessia foi mais suave do que da última vez, sem a pressão esmagando o peito ou o gosto metálico subindo pela garganta, apenas uma sensação breve de deslocamento, como se o corpo tivesse sido puxado por um caminho mais curto do que deveria existir.
Quando Vance saiu do outro lado, o ar mudou primeiro, um frio estranho e denso, carregado por um cheiro úmido que lembrava metal antigo e algo orgânico. O espaço ao redor se revelou aos poucos, sustentado por vigas grossas e irregulares, com paredes que pareciam ter sido adaptadas ao longo do tempo, misturando metal com placas de acrilico encaixadas sem muito cuidado.
O frio era realmente um incomodo, visivel uma nevoa branca que rodeava todo o comodo.
A iluminação vinha de lâmpadas espaçadas, algumas falhando em intervalos curtos, criando sombras que se moviam mesmo quando nada ao redor se mexia.
Mais à frente, as jaulas começavam a aparecer.
Fileiras organizadas ocupavam boa parte do espaço, cada uma contendo algo diferente, formas que variavam entre o familiar e o impossível, como se estivessem presas em estados incompletos. As criatuaras permaneciam imoveis, congeladas literalmente.
Raff já caminhava entre elas, sem pressa, como quem percorre um ambiente conhecido.
— Aqui é onde eu guardo algumas especiarias— comentou, sem olhar para trás. — Isso é um freezer gigante.
Vance acompanhou, o olhar passando de uma jaula para outra enquanto absorvia os detalhes sem quebrar o ritmo, até que Raff parou diante de uma que, à primeira vista, não se destacava em nada das demais.
A criatura ali dentro tinha uma carcaça densa e peluda, com membros longos demais para o próprio corpo, articulados em ângulos irregulares que lembravam patas de aranha ampliadas além do natural. As oito pernas se mantinham parcialmente recolhidas, mas ainda assim ocupavam espaço demais dentro da contenção, como se aquela estrutura nunca tivesse sido suficiente para acomodá-la por completo.
— Esse aqui serve — disse Raff, já destravando a contenção lateral com um movimento simples.
A reação foi imediata.
A criatura avançou de forma brusca e desordenada, as oito pernas se estendendo de uma vez e colidindo contra a jaula com um impacto metálico que reverberou pelo ambiente, um som seco e pesado que pareceu vibrar nas estruturas ao redor. O movimento carregava força, mas pouca coordenação, como se cada parte do corpo respondesse com um atraso mínimo, criando uma agressividade instável.
— Isso esta vivo? — Vance perguntou surpreso.
Raff já estava posicionado.
Ele ergueu a mão e, no mesmo instante, o espaço entre os dois pareceu colapsar, comprimindo-se em um ponto invisível que travou a criatura no meio do avanço. A tensão percorreu o corpo dela por um segundo, suficiente para interromper qualquer continuidade, antes de ceder de uma vez só.
O impacto contra o chão foi pesado.
O corpo perdeu toda a força e caiu de lado, as pernas ainda tremendo por reflexo antes de se aquietarem.
— Sim.
Sem demonstrar esforço, Raff puxou a criatura para fora da jaula, arrastando o peso morto pelo chão frio, e então fechou a contenção com o pé, como quem encerra um gesto repetido inúmeras vezes sem precisar pensar nele.Ele então ajustou a pegada e lançou um olhar breve para Vance.
— Hora do almoço.
— Que?
Raff sustentou o olhar por um instante, como se avaliasse a reação de Vance com calma, e então soltou a criatura novamente no chão; o impacto foi seco e pesado, ecoando pelo espaço frio antes de se perder entre os ruídos constantes do lugar.
— Mas antes de comer… — disse ele, girando levemente o ombro, como se apenas ajustasse o corpo — você vai matar-lá.
Vance franziu levemente a testa, o olhar indo da criatura caída até Raff.
— Matar… eu? — uma pausa curta, como se organizasse o próprio raciocínio. — Matar quem? E… calma aí, a gente vai comer isso?
Raff não respondeu de imediato.
Apenas ergueu a mão outra vez.
O ar ao lado deles cedeu com mais facilidade agora, como se aquele espaço já tivesse sido moldado vezes o suficiente para aceitar aquilo sem resistência, formando um novo rasgo escuro, mais estável e contido, com bordas que tremiam menos e pareciam… firmes dentro da própria instabilidade.
— Você entende rápido — respondeu por fim, abrindo um sorriso em direção a Vance.
— Esse aqui é provavelmente o mais fraco daqui— continuou, puxando a criatura pelo membro alongado e a arrastando até a abertura. — Então pelo menos não morra antes.
Sem esperar resposta, ele atravessou, levando o corpo junto.
Vance seguiu logo depois.
Ao atravessar, a sensação de deslocamento veio rápida e limpa, sem resistência, e logo deu lugar a um ambiente completamente diferente. Ele se viu dentro de uma sala cúbica, fechada por todos os lados, com paredes revestidas por placas brancas de um material que não reconheceu de imediato, refletindo a luz de forma suave, quase artificial.
O chão parecia seguir o mesmo padrão, sólido e contínuo, sem marcas aparentes, como se aquele espaço tivesse sido feito para suportar impacto sem registrar dano.
Raff já estava a frente, puxando a criatura pelo membro alongado e deixando o corpo cair no centro da sala com um som abafado, como se o próprio ambiente absorvesse parte do impacto.
— Aqui é perfeito— comentou, olhando ao redor por um instante.
Raff caminhou em direção a Vance e instruiu:
— O segredo aqui é usar o tamanho dela contra ela mesma, é bem simples — disse, com um tom calmo, quase didático.
No meio da frase, a mão dele se moveu de forma discreta e uma lâmina surgiu, retirada de um espaço que Vance nem tinha percebido existir, como se estivesse guardada fora do alcance normal da percepção. O metal era limpo e levemente curvo, maior que uma faca comum, mas ainda distante do tamanho de uma espada.
Era uma adaga.
Atrás deles, a criatura começou a se erguer. A pelagem densa lembrava a de um urso pardo, cobrindo um corpo sustentado por oito pernas longas e articuladas como as de uma aranha, enquanto o que deveria ser o rosto se estendia em um formato cilíndrico, liso, sem olhos aparentes, sem expressão, apenas voltado na direção de Vance.
Raff girou a lâmina entre os dedos com facilidade e a estendeu para frente.
— Boa sorte.

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