Volume 1
Capítulo 17: Geografia da Falha
O olhar de Raff permaneceu fixo, como se ainda estivesse esperando algo além da própria pergunta que tinha acabado de deixar no ar.
— Descobrir qual deles responde a você.
O giz continuava entre os dedos dele, imóvel agora, sem função. A explicação tinha chegado ao fim, mas a sensação era de que aquilo ainda não estava completo.
Vance não desviou os olhos do quadro.
— E como eu faço isso?
Raff soltou o ar de forma curta, quase sem som, e deixou o giz de lado antes de se virar parcialmente, apoiando o quadril na mesa com um movimento relaxado, porém calculado.
— Você não faz… não aqui.
A resposta veio sem hesitação, direta o suficiente para não deixar espaço para interpretações erradas.
Vance finalmente afastou o olhar das palavras escritas e encarou Raff.
— Não existe teste, não existe medição, e ninguém vai olhar pra você e simplesmente dizer qual é o seu caminho — continuou ele, inclinando levemente a cabeça. — Não ainda.
A frase ficou no ar por um instante, não por indecisão, mas como se ele deixasse espaço para que a ideia se encaixasse sozinha.
— Dentro de uma Falha é diferente. Lá, sob pressão, você acaba testando sem perceber… e é nesse processo que o seu caminho começa a se revelar, pela forma como você reage, pelo tipo de resposta que o seu fluxo favorece.
Ele fez um gesto leve com a mão, como se descartasse qualquer noção de controle absoluto.
— Mas aqui fora… — continuou, com o tom um pouco mais direto — quando você volta, existem formas de medir isso com precisão. Uma bateria de exames consegue identificar suas afinidades, o quanto você se inclina para cada caminho… até o tamanho do seu Fluxor.
Com uma pausa curta ele continuou:
— Na verdade, seus caminhos praticamente nem existem agora. Seu fluxor agora é do tamanho de uma uva pequena. É impossivel tentar descobrir nesse momento, por mais que eu quisesse.
Raff manteve o olhar em Vance por um segundo a mais, como se quisesse ter certeza de que aquilo tinha sido entendido no nível certo, não só aceito por falta de alternativa.
— É pequeno demais, instável demais… qualquer tentativa agora só ia te dar uma leitura falsa.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas também não era leve. Havia ali uma limitação clara, e nenhuma forma de contorná-la.
Vance assentiu de leve, mais para si mesmo do que para Raff.
— Então eu só avanço quando entrar em uma Falha.
Raff deu de ombros, um gesto mínimo.
— Você avança de qualquer forma. A diferença é que lá… você deixa de ter escolha. Já que você insiste tanto, vou te explicar como funciona a primeira ida a Falha.
Raff manteve o olhar em Vance por um segundo a mais, como se estivesse pesando não a resposta em si, mas a forma como ela tinha sido recebida.
— É pequeno demais, instável demais… qualquer tentativa agora só ia te dar uma leitura falsa — disse, sem alterar o tom, mas deixando claro que não era uma opinião.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas também não carregava leveza. Havia ali um limite bem definido, e nenhuma abertura para contorná-lo.
Vance assentiu de leve, mais para organizar o próprio pensamento do que para concordar.
— Então eu só avanço quando entrar em uma Falha.
Raff deu de ombros, um gesto curto, quase automático.
— Você avança de qualquer forma. A diferença é que lá… você deixa de ter escolha.
Ele fez uma pausa breve, observando Vance com um pouco mais de atenção, como se estivesse decidindo até onde valia a pena ir naquela explicação.
Um suspiro leve escapou.
— Já que você insiste tanto… — continuou, afastando-se da mesa e descruzando os braços — eu posso te dar uma noção de como funciona a primeira ida.
Ele não parecia particularmente interessado em tornar aquilo dramático, o que, por si só, tornava a explicação mais pesada.
— Não existe um padrão único, mas algumas coisas são… consistentes.
Raff começou a andar devagar pelo espaço, não por inquietação, mas porque parecia pensar melhor em movimento.
— Primeiro, você não escolhe quando está pronto. Ninguém escolhe. A oportunidade aparece… ou você é empurrado até ela.
O olhar dele desviou por um instante, como se puxasse algo da própria memória.
— A entrada em si raramente é limpa. Não é como atravessar uma porta. É mais como… perder o referencial.
Ele fez um gesto vago com a mão, como se tentasse moldar algo difícil de descrever.
— Som, espaço, direção… tudo fica instável por um instante. E esse instante é suficiente pra bagunçar quem ainda tenta entender o que está acontecendo.
Raff diminuiu o ritmo até parar por completo.
— Tudo o que conhecemos até agora… é só uma parte da Falha.
Sem pressa, ele puxou um mapa dobrado de dentro do casaco e o abriu com cuidado, segurando as extremidades para que o papel não se curvasse. O material já mostrava sinais de uso — vincos reforçados, marcas discretas, como se tivesse sido consultado muitas vezes.
Ele inclinou levemente o mapa na direção de Vance.
— Isso aqui é o que conseguimos registrar.
O desenho não era simples.
Um rio largo cortava toda a extensão do território, criando uma divisão natural clara demais para ser coincidência. A linha não era reta; ela serpenteava pelo mapa como se tivesse sido forçada a se adaptar ao terreno, separando dois lados que, à primeira vista, já pareciam distintos demais para pertencer ao mesmo lugar.
Raff apontou primeiro para a margem esquerda.
— Aqui.
Do lado esquerdo, uma cadeia de montanhas se estendia em diagonal, formando uma barreira irregular que dividia aquela região em duas áreas bem definidas. As linhas eram densas, marcadas com mais força, como se quem tivesse desenhado quisesse enfatizar a dificuldade de atravessar por ali.
Na parte mais interna, próxima às montanhas, havia uma mancha em vermelho.
Não era um contorno limpo. Era irregular, quase agressivo, como se tivesse sido marcado mais por alerta do que por precisão.
— Essa área… — disse Raff, mantendo o dedo próximo, mas sem tocar diretamente o vermelho — ainda não foi explorada de forma consistente.
Ele não precisou explicar muito mais. A cor fazia isso por ele.
O dedo então deslizou pelo rio, atravessando para o outro lado do mapa.
— Do lado direito, a história muda.
Ali, o terreno se abria em algo completamente diferente: um deserto extenso, vazio o suficiente para causar desconforto só de olhar. Não havia marcações relevantes, nem estruturas evidentes, apenas uma vastidão contínua que parecia se estender além dos limites do próprio mapa.
— Nada fixo. Nada confiável — acrescentou ele, em tom mais baixo. — Quem entra aqui… ou cruza rápido, ou não volta.
Por fim, Raff moveu o dedo novamente, retornando para a região próxima às montanhas, mas dessa vez indicando o lado oposto da marca vermelha.
Ali, o desenho mudava de natureza.
Pequenas estruturas estavam indicadas, agrupadas de forma irregular, formando algo que lembrava um assentamento. As marcações eram mais organizadas, menos caóticas, e, diferente do resto do mapa, não carregavam sinais de alerta imediato.
— E aqui…
Raff levantou os olhos do mapa por um instante, observando a reação de Vance.
— É uma area povoada.
Uma pausa breve.
— E, até então, não muito hostil.
O silêncio que se seguiu não veio de dúvida, mas de cálculo. Vance percorreu o mapa mais uma vez com os olhos, como se tentasse memorizar não só o desenho, mas a lógica por trás dele.
— E quando alguém entra… — começou ele, sem desviar o olhar — aparece onde?
Raff soltou um leve sopro pelo nariz, quase como se já esperasse aquela pergunta.
— Em qualquer lugar.
A resposta veio simples demais para o que o mapa sugeria.
Vance desviou o olhar para ele.
Raff inclinou levemente a cabeça, como se ajustasse a própria resposta.
— Não existe ponto fixo de entrada. Não tem portal marcado, não tem coordenada segura… a Falha não funciona assim.
Ele passou o dedo pelo mapa de forma vaga, sem indicar um ponto específico.
— Você pode surgir perto do rio, no meio do deserto, próximo das montanhas… ou em áreas que nem estão aqui ainda.
Uma pausa curta se formou, mas dessa vez não era para encerrar — era para corrigir.
— Mas…
O tom mudou sutilmente.
— Existe um padrão.
Vance ficou imóvel, atento.
Raff desviou o olhar do mapa e voltou para ele.
— Ninguém aparece completamente sozinho.
A frase foi dita com mais firmeza.
— Você sempre surge próximo de outras pessoas. Não importa onde… sempre tem um grupo.
O dedo dele bateu de leve no papel, sem marcar nada específico.
— Pequeno, grande… organizado ou não. Mas tem.
Vance estreitou levemente os olhos.
— Coincidência?
Raff negou com a cabeça, devagar.
— Não.
Ele dobrou uma das pontas do mapa, mais por hábito do que por necessidade.
— E não para por aí.
Uma pausa breve.
— Dentro desses grupos… sempre tem alguém acima da média.
O olhar dele se fixou em Vance outra vez.
— Alguém com nível alto.
A forma como ele disse aquilo deixava claro que não era um detalhe irrelevante.
— Nem sempre é óbvio de cara, nem sempre é alguém que se apresenta como líder… mas, cedo ou tarde, fica claro quem é.
Raff descruzou os braços lentamente.
— E, na maioria das vezes, o grupo gira em torno dessa pessoa, mesmo que não perceba.
Vance absorveu a informação em silêncio.
— Então… — começou ele — a primeira coisa que eu tenho que fazer é encontrar essa pessoa.
Raff inclinou levemente a cabeça.
— Não.
A resposta veio imediata.
— A primeira coisa que você tem que fazer… é não morrer nos primeiros minutos.
Sem dureza, sem ironia. Só fato.
Ele deu um leve passo para o lado, fechando parcialmente o mapa.
— Encontrar alguém forte ajuda, mas não garante nada. Tem gente de nível alto que usa os outros como recurso, tem gente que abandona grupo… e tem gente que simplesmente não liga.
Uma pausa curta.
— Mas ignorar esse tipo de pessoa também é um erro.
O olhar dele voltou para o mapa por um instante.
— Porque, querendo ou não… a presença delas muda o ambiente.
Vance ficou em silêncio, organizando as peças.
Raff terminou de dobrar o mapa com calma.
— No fim, você não escolhe onde aparece… e, até certo ponto, também não escolhe com quem aparece.
Ele guardou o mapa de volta no casaco.
— Mas o que você faz com isso… — disse, voltando o olhar para Vance — é o que decide se você volta ou não.
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