Volume 1
Capítulo 21: Boi diferente
Vance avançou sem pressa agora.
A criatura ocupava o chão em um volume disforme, as pernas espalhadas em ângulos errados, algumas ainda tremendo em respostas curtas que já não levavam a lugar algum. De perto, a estrutura parecia diferente — menos imponente, mais exposta. As articulações, antes altas demais, agora estavam ao alcance, abertas pelo próprio peso da queda.
Ele parou ao lado de uma delas.
O olhar desceu, acompanhando a junção onde duas partes se encontravam. Ali, a superfície mudava. Ainda resistente, ainda firme, mas diferente do resto. Havia linhas, pequenas variações no material, pontos onde o movimento exigia mais precisão.
A adaga entrou e rasgou — e, dessa vez, como entrou.
Não foi fundo de imediato, mas o suficiente para surpreender e marcar caminho. Vance ajustou o ângulo e repetiu o movimento, usando o próprio encaixe da articulação contra ela. O corte se aprofundou com menos resistência do que qualquer tentativa anterior no corpo principal.
Gritos agonizantes ecoaram pela sala. Sangue vermelho-escuro jorrou sobre suas mãos, e o cheiro metálico subiu pesado, preenchendo o ar.
Uma das pernas se contraiu, batendo no chão ao lado, mas o movimento já vinha sem coordenação. Vance manteve a posição e continuou. Cada golpe abria mais espaço, seguindo a linha natural da articulação até que a estrutura começou a ceder.
Um estalo, depois outro.
A perna perdeu sustentação e caiu para o lado, separando-se o suficiente para alterar completamente o formato do corpo da criatura.
Vance seguiu.
Moveu-se para a próxima.
O processo se repetiu, mais rápido agora. O padrão estava claro. As articulações não suportavam o mesmo tipo de pressão, não respondiam da mesma forma. A lâmina encontrava caminho onde antes só havia resistência.
Mais cortes, mais estalos, mais gritos… e, de repente, silêncio.
A sala branca, agora coberta de sangue, finalmente se aquietou.
Vance permaneceu ali por alguns segundos, a respiração ainda pesada, observando o resultado. O corpo já não se movia, a estrutura antes tensa agora solta, abandonada sobre o chão.
Atrás dele, Raff se aproximou.
Parou ao lado, analisando sem pressa o que restava da criatura.
— Antes de tudo, meus parabéns — disse, batendo três palmas secas. — Impressionante, eu diria… mas havia um jeito mais simples.
— Ah, claro — Vance riu, com um tom de deboche. — Sempre tem.
Ainda ofegante, ele se sentou no chão, deixando o corpo ceder enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Veja bem, Raff… eu nunca tinha esfaqueado alguém antes. Ou algo, sei lá… Isso, pra mim, foi como atirar sem mira. E falando em atirar… — Vance desviou o olhar do chão e encarou Raff. — Por que diabos minha arma mal arranhou aquele monstro? Aquilo é uma arma de fogo, deveria atravessar parede. Ele não era mais denso que uma parede. Não faz sentido.
— Acalme-se, garoto. São muitas palavras de uma vez só — Raff se sentou ao lado dele antes de continuar. — Primeiro, precisamos preparar isso. Depois, você entende.
Raff ficou alguns segundos em silêncio, o olhar passando pelas partes espalhadas como se organizasse tudo mentalmente. Em seguida, levantou-se e caminhou até o cadáver. A mão tocou uma das peças mais próximas, pressionando a superfície, sentindo a resposta do material. O sangue e o cheiro não alteravam nada em sua postura — tudo aquilo parecia apenas continuidade.
— Levante — disse, sem olhar diretamente para Vance. — Descanso vem depois.
Vance soltou o ar pelo nariz, apoiou as mãos no chão e se ergueu. O corpo ainda pesava, os músculos tensos, a respiração irregular, mas ele se colocou de pé mesmo assim. O olhar voltou para a criatura, agora reduzida a partes que já não lembravam tanto o que era antes.
Raff já trabalhava.
A lâmina se movia com precisão, seguindo linhas específicas, separando camadas com cuidado. Cada corte parecia decidido antes mesmo de acontecer.
— Você lutou de forma errada — disse, girando uma das peças para encontrar um ângulo melhor. — A superfície dela responde diferente.
A lâmina entrou limpa, revelando uma camada interna de textura distinta.
— Sua arma entrega impacto concentrado — continuou, passando o dedo pela abertura. — Mas aqui… isso se espalha.
Vance se aproximou, observando.
— Espalha como?
Raff ergueu levemente a peça.
— Está vendo essa camada? — apontou para o material amarelado no interior. — Isso absorve o impacto. A força entra e se distribui antes de atravessar. Você não enfrentava algo mais duro. Enfrentava algo que lida com o impacto de outro jeito.
Vance franziu o cenho.
— Então atirar nela não adianta? E se não é dura… por que foi tão difícil cortar?
— Atirar adianta, dependendo da munição, da arma, do formato — respondeu Raff, direto. — Tudo muda de acordo com o que você enfrenta. E quanto ao corte… sua técnica é péssima.
Uma pausa.
— Mas funcionou.
Vance desviou o olhar, soltando um ar leve.
— E você esperava o quê?
Raff riu.
— Você fez do pior jeito possível. E ainda assim funcionou. — Ele balançou a cabeça, ainda rindo. — Usar o próprio peso pra forçar a perna fora do eixo… sinceramente, foi bonito de ver. Então me diz… quem é o monstro aqui?
As risadas cresceram, ecoando pelo espaço.
Vance deu um meio sorriso.
— O importante é que deu certo. Se minha técnica é tão ruim, o que mais eu podia fazer?
— Foi uma saída boa. Arriscada… mas boa. — Raff se virou, já voltando ao trabalho. — Agora vem a parte útil.
Ele fez um gesto leve com a lâmina.
— Vamos carnear esse boi.
Raff já se movia antes mesmo da frase terminar. Escolheu uma peça maior e a girou com o pé até encontrar um bom ângulo. A lâmina entrou logo em seguida, precisa, abrindo a superfície em um corte contínuo e revelando um interior mais claro, organizado em veios bem definidos.
— Aqui — disse, sem parar — acompanha essa linha.
Vance se aproximou e se ajoelhou ao lado de outra parte. De perto, as diferenças saltavam mais aos olhos. Não era uma massa uniforme. Havia direção, padrão, lógica.
Ele posicionou a adaga com mais cuidado.
A lâmina entrou mais limpa.
O corte seguiu sem travar, abrindo espaço de forma contínua. Vance ajustou o movimento, acompanhando o contorno que se revelava sob a lâmina. A sensação era diferente agora. Menos força. Mais controle.
— Nem tudo é força — comentou Raff. — Deixa a estrutura guiar.
Vance reduziu a pressão, permitindo que a lâmina deslizasse. O corte respondeu melhor, separando uma peça mais uniforme.
O chão branco já havia desaparecido sob o vermelho escuro. As partes organizadas ao redor começavam a dar outra forma ao ambiente.
Raff levantou uma das peças e analisou.
— Essa aqui tem gosto melhor — disse. — E segura bem no calor.
Vance arqueou a sobrancelha.
— Você fala como se fosse rotina.
Raff deu de ombros.
— Em certo nível, é.
Ele apontou com a lâmina.
— Evita aquela parte. Instável. Boa pra sopa.
Vance assentiu e continuou.
O som das lâminas passou a preencher o espaço. O ritmo mudou completamente.
— Então… — Vance começou — como a gente cozinha isso?
Raff soltou um leve riso.
— Com calor.
Vance olhou ao redor.
— Com o quê?
Raff apontou para a parede. Uma linha discreta cortava a superfície branca. Ele se aproximou, passou a mão até encontrar um ponto específico. Um clique soou, e um compartimento se abriu. Dentro, uma placa metálica começou a brilhar em vermelho.
Vance riu.
— Tá de sacanagem.
— Preferia lenha? — respondeu Raff, já posicionando uma das peças — Nem se acostume, dentro da Falha o fogo é por sua conta.
O chiado veio imediato. A carne mudou de cor aos poucos, liberando vapor.
Vance observou.
— Cheiro… diferente.
Raff virou a peça.
— Um pouco.
Fez um gesto.
— Coloca a sua.
Vance fez o mesmo. O som veio mais alto, e ele recuou por reflexo antes de se ajustar.
O ambiente agora carregava calor.
Vance cruzou os braços, olhando.
— Engraçado…
— O quê?
— Diferente esse boi — disse, rindo de leve.
Raff virou a peça mais uma vez.
— Bem diferente.
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