Reino da Verdade Brasileira

Autor(a): Lucas Baldi


Volume 1

Capítulo 7: Deixe-me ir

Ellie Higasa

 

Minha mãe retornara da célere ida ao reino da Rainha Alyssa; ao que parecia, era uma questão relevante o bastante para solicitar a presença da Grande Dama; a Rainha Alyssa é gentil e sempre nos considera — a família Higasa — correlação às questões do reino ou em território sob sua proteção.

Em casos mais raros, contra ladrões e monstros próximos das rotas seguras.

Eu e meu pai não demoramos a recebê-la, mas mamãe parece estar com pressa, pois já está na sala central. O queixo erguido, os olhos azuis cristalinos afiados e autoritários, uma tiara de prata em seus lindos cabelos loiros, cujo penteado dá inveja, um vestido vermelho esvoaçante de saia longa e a coluna ereta. 

Exatamente como me ensinara.

Os funcionários se curvam conforme Hanila caminha em nossa direção, sejam os que já estão ao redor do tapete vermelho ou os de passagem. 

Mamãe é fabulosa. 

— Querida — Meu pai segura suavemente sua mão e desfere um beijo cuidado, sem tirar o vermelho do azul, apaixonado e solene. 

— Mamãe.

A cumprimento erguendo a saia de meu vestido e curvando levemente minha cabeça. Ela pode não ter dito, mas seu sorrisinho de canto sempre me mostra o quanto ela fica orgulhosa. 

— Meu amor — Ela diz ao meu pai, a voz mansa mesmo com toda aquela postura, depois vira para mim. — Meu bem.

Hiroki nos leva para o escritório novamente, onde preciso pedir para estar presente nessa reunião urgente. Além do fato de que quero, de alguma forma, ter uma experiência real em dungeons, e estar mais envolvida com o que acontece ao redor dos reinos. Minha irmã tem uma parcela de culpa por eu ser assim. 

Ultimamente, eles têm ido com mais frequência a encontros com os representantes das Academias, e os soldados da defesa da cidade nunca estiveram tão a postos. Creio que tenha sido depois daquele minotauro…

O que, de fato, aconteceu naquela cidade?

Depois de lançar meus melhores argumentos, mamãe e papai me deixaram participar, contanto que eu me contentasse apenas com as informações ditas nessa mesa e não fosse buscar mais. 

Não posso dizer que prometo.  

Quando as portas são fechadas, Hanila me envolve em seu caloroso abraço, levando as batidas de meu coração para outro ritmo, mais calmo. Apenas fecho os olhos e deixo que a postura de minha mãe desmanche diante de nós. Hiroki puxa as cadeiras para sentarmos lado a lado, enquanto ele fica à nossa frente.

A luz solar ilumina boa parte da sala, sendo complementada apenas por pequenas chamas vermelhas de mana nas velas. Ela reluz nos cabelos escuros do meu pai no loiro meu e de minha mãe na bela tiara. 

 — A rainha Alyssa acredita que o incidente naquela pequena cidade se liga aos Escritores de Cinzas — A fala solene me tira um breve ofegar.

Esse nome… eu ouço poucas vezes. Nunca das pessoas comuns no cotidiano, mas daquelas envolvidas na linha de defesa ou em um dos altos cargos da academia do papai. Poucas notícias correm quando um “mascarado” é avistado nas proximidades do reino como se tentassem encobrir um perigo iminente impossível de esconder. 

— Enviei um Voin informando nossa não participação em campo — Eles se encaram, e um forte palpitar vem a mim.

Como não? Um mistério à espreita, temos bons agentes e talvez… talvez…

— Meu amor, se há uma pista que pode nos levar a apontar nossas lanças para eles, mesmo que a apenas um, poderíamos ao menos considerar os planos da rainha — O tom de minha mãe conosco é gentil e amável, quase como uma melodia. Em reuniões com o conselho ela fica… creio que assustadora seja uma definição plausível. — Entendo que esteja receoso por tudo o que aconteceu.

Meu pai pondera por alguns instantes, levando o olhar a mim algumas vezes. Aquele vermelho analítico e centrado, que perto de nós, carregava culpa pelo ocorrido naquela mansão. Mas ele sabe que não era possível evitar. Sabe que eu e Aeliana o amamos da mesma forma.

— Da última vez que nos envolvemos, eles nos deram um recado — Por isso nos mudamos para o reino. E mamãe lembra claramente, ela baixa o olhar por apenas um instante, como se ainda pudesse ouvir todo aquele fogo, todos aqueles gritos… — Contribuímos com informações de todos os cantos de Laum, e nossos representantes mais fortes sofreriam em uma batalha contra um superior. E agora — Ele observa cada papel na mesa por meio segundo, que agora percebo ser o registro do minotauro que… reviveu? — Usando uma espécie de magia a distância para reviver uma criatura de categoria 5, é questionável até a presença de Aeliana fora do reino. A Rainha Alyssa tem outros lordes capacitados. 

— Você acredita mesmo, meu amor? — Ela desliza os dedos pelos papéis, e o lustre reflete no lindo anel dourado. — Que um minotauro se ergueu? Há outros lordes por Laum, mas nenhum deles é como você. Nenhum é um perito de fogo, nem foram capazes de confrontar um Escritor de Cinza para proteger a família. Aeliana se tornou uma guerreira feroz inspirada no pai, e Ellie está tomando o mesmo caminho. Temos recursos para enviar um agente ao campo — Ela segura as mãos dele sobre a mesa, e aqueles olhos o rendem. Meu pai não está com medo dos “Escritores”. Certamente não está, e deixa isso claro quando me olha com aquele olhar protetor e depois para a minha mãe. — É um prestígio da nossa posição sermos os primeiros a investigar isso — Hanila coloca um pequeno caderno de couro na mesa, onde no canto de uma folha solto eu posso ver… o desenho de uma pessoa. — Seja o que decidir, terá sempre o meu apoio.

Hiroki alisa o rosto de sua amada e pega o caderno, abrindo e sem demora folheando. Ele não esboçar um pingo de reação não apaga minha curiosidade, já que tem uma habilidade sobrenatural em manter o rosto sereno para qualquer situação ou informação.

Acho que é o momento perfeito. O caso está aqui, e ao redor de Karin tem dungeons onde outros nobres vão para praticar. Nivelado para um grupo de até 3 sombras, eu e um dos guardas do papai somos o bastante. Ou Avelyne, se quiser me acompanhar. 

A probabilidade deles negarem inicialmente é alta, mas é uma experiência que mudaria minha carreira como Higasa. Recebo todo o treino que preciso aqui e na Academia das Filhas da Luz Dourada, mas careço de um combate onde minha vida realmente esteja em risco. 

Oh… minhas mãos podem suar assim?

— Creio que eles tenham ligação com o minotauro. No entanto, o registro varia de pessoa para guarda, mesmo os que estavam próximos do lugar. Irei averiguar com todas as informações que temos e, então, decidir se esse caso merece nossa atenção.

— Obrigada, querido — Um sorriso de lady apaixonada, ela inclina levemente o rosto. — Eu estarei com você — Hanila pega alguns papéis e apoia as costas na almofada vermelha, cruzando as pernas. 

— Eu também! — Os dois caem com os olhos em mim, e… acho que apertei a saia do vestido. — Me deixe ajudar.

Desta vez, eu sinto as batidas contra o peito. Falar na frente deles me leva para mais próxima do cenário onde… onde eu posso ir para fora dos muros e enfrentar criaturas e me colocar à prova. Isso pode ser real. 

— Se interessou pelo caso do minotauro? São realmente criaturas fascinantes. — Meu pai quem responde primeiro, deixando uma folha para mim.

O desenho está em rabiscos pretos bem adornados, nos quais o corpo do minotauro é posto no centro do papel e sua cabeça ao lado. Como assim? Retrata um pequeno estande de madeira destruído e muitas pessoas ao redor, em especial o cavaleiro Real Alatar e um pobre rapaz que foi incapaz de correr. 

Ter tão pouca força para se movimentar… sinto pena de quem infelizmente esteve presente quando aquilo se levantou. Pelo tamanho retratado e as poucas descrições no papel, me pergunto se eu sou capaz de ferí-lo com a Brisa de Sangue. 

A categoria 5 alcança sem dificuldade um Dilúculo, o nível alcançado pelos capitães do papai. Ouço dizer que até os cavaleiros Auroras têm que se cuidar quando enfrentam um, pois podem ter picos de energia que transcendem o próprio nível de aura.

Seria o instinto natural de uma criatura de dungeon ou algo técnico que eu posso copiar?

As demais folhas do caso se resumem à chamada “magia de traço escuro”, usada uma vez por um desses Escritores de Cinzas — eles se deram esse apelido? — em um combate direto com um cavaleiro Real a cerca de 15 anos. Pouco se sabe sobre as motivações deles ou o que querem, a única suspeita do conselho dos Reis de Camelot é que precisavam de uma relíquia morta.

Papai me explicou que é o termo dado a itens que já tiveram a presença de uma magia muito poderosa, inacessível hoje em dia até para os nossos melhores magos. Não é quantidade e refinamento, como um guerreiro Caos faz, mas outro tipo de fluxo usado no corpo. 

— Eu quero ir. 

Inocentes sofrem pela falta de monitoramento. Mas… não é culpa da Rainha, não havia nem monstros por lá. O que me leva a crer que Alatar já sabia sobre- sabia?

— Para onde, querida? — Seu tom é dócil quando vira para mim.

— Me deixe ser sua agente em Karin — Digo antes que Hanila arregale os olhos. — Tenho treinado com o senhor desde minha infância, quero me aprimorar como Aeliana faz e ajudar você e a mamãe.

Engulo seco apenas uma vez, me esforçando para permanecer… firme. Ignoro as batidas constantes em meu peito e respiro exatamente como minha mãe faz antes de tomar uma decisão. 

— Meu bem, você sabe o quão perigoso uma ida ao campo pode ser — Minha mãe quem continua.

— Quer dizer que Karin não está segura? — Um momento de silêncio. — Foi apenas um caso. Eu me mantenho longe de perigos e investigo para a senhora, se eu for disfarçada… não, ninguém lá sabe quem eu sou.

— Como tem certeza disso? — pergunta meu pai.

— Sei que apenas informações essenciais vão para as cidades mais afastadas, e para as ausentes de monstros chegam ainda mais filtradas. O senhor me ensinou a sempre buscar ser melhor, e é isso que tenho tentado fazer.

Hanila olha para meu pai e coloca a mão por cima da dele, aguardando enquanto nosso maior protetor pondera com aqueles olhos vermelhos presos em mim, repletos de amor e preocupação. 

— Eu não a impediria de fazer algo que quer muito, Ellie — Uma inspiração espontânea escapa, mas, neste instante, não importa. — Terá o meu apoio e falaremos sobre as condições para que esse cenário venha a acontecer — Hanila me olha orgulhosa, dando um breve aceno de rosto. — Caso não cumpra tudo que for proposto, não terá permissão para ir. 

— Obrigada… Obrigada! 

Um misto do mistério e dos perigos se infla em meu peito, mas com meu treinamento posso facilmente controlar. Manter-se sempre neutra é uma regra entre as Ladies. 

Eles pedem um momento para falarem sobre as tais condições. Aguardo na janela, observando o reino acordado, uma única área protegida do sol por uma nuvem circular, indo da torre da muralha do castelo até a praça dos anões ferreiros. 

Naquelas montanhas ao longe, há uma dungeon de categoria 9. Normalmente os soldados mais experientes vão em grupo com os veteranos para treinar, mas nunca voltam da mesma forma. Ter a manha de aventureiro para entender o local é diferente da de um guerreiro para entender o campo de batalha.

Dizem que as feras são previsíveis. 

— Querida, temos o veredito — Minha mãe chama. Meus passos não fazem barulho na madeira escura, e o calor do sol deixa de beijar minhas costas. Me sento sobre a poltrona acolchoada. 

— Sua mãe estudará com você as rotas até Karin, a cultura local e os grifos na montanha ao redor — Ele diz sem pressa. — Pedi um foco à montanha do Ser De Um Olho Só, mas quero que pesquise apenas em bibliotecas da cidade; é extremamente proibido sair dela sem comunicar a mim.

— E seu pai ficará responsável por suas capacidades físicas. Notamos que melhorou o bastante para clarear o estado de sua aura — Ela percebeu. Que perspicaz. — É mais do que adequado para uma cidade ausente de monstros, e onde há poucos guerreiros sombras. No entanto, toda prevenção é pouca. 

— Entendido — Fecho brevemente meus olhos, eles, de fato, não tentaram me impedir. As condições são plausíveis, e eu tenho o nível adequado para- — Treinaremos juntos, papai? 

— Sim, minha filha — Ele solta uma risada contida ao notar o meu cenho franzido. — Faremos um espetáculo de pai e filha, eu mesmo postarei você. 

— Será uma honra, pai — Ele alcançou o nível Aurora graças à sua incrível magia de chamas avançadas e estratégias em campo. Não é respeitado apenas pelo seu status de lorde, mas pelo que faz com quem desafia seu nome.

— Estou de acordo com os termos — estendo a mão, dando um breve sorriso de canto, o qual mamãe julga “convencido”, e eu apenas retribuo com um “humph”.

— E mais uma coisa, querida — Ela leva uma mecha do meu cabelo para trás da orelha. — Designaremos um guarda de uma família próxima para ir com você. Não deve se afastar dele.

— Deixa eu adivinhar: é o Aarom?

Pela reação deles, eu tenho certeza que é. 





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