Volume 1
Capítulo 8: Ao horizonte
Kaelan Lumi Kai
Voin.
É assim que chamam o bendito pássaro de comunicação. Como ele encontra a pessoa ou a casa? Como sabe exatamente qual janela invadir no meio da madrugada, em um dia sombrio? Eu não sei, mas é uma experiência que eu nunca vou esquecer.
Há poucos dias, ele me trouxe um pedaço de papel — que suas garras provavelmente deixaram amassos no voo — enviado por Cirlan, explicando que hoje iniciaremos uma expedição ao norte, perto do caminho da montanha do Ser de Um Olho Só.
Ele foi gentil ao anotar uma modesta lista de itens que um iniciante como eu precisaria.
Fui com meu pai e Lyra até uma feira na cidade para conseguir a bolsa de couro e uma ombreira do mesmo material. Detesto a ideia de terem monstros espreitando a região, mas saber que Kaled e Cacele são de nível Fulgor e Cirlan Dilúculo realmente me tranquilizou.
Kanro me apresentou um livro sobre as auras e seu funcionamento que encontrou na feira.
A capa estava empoeirada e continha alguns rasgos nos cantos, mas por uma moeda de prata podíamos deixar passar.
Lyra correu até uma loja próxima, pouco depois do limite da feira e perto do grande chafariz, e me arranjou um belo odre de tonalidade cinza. Escolhi um bom par de coturnos — o suficiente para me arrancar 3 moedas de prata — e uma capa sobretudo que pudesse me proteger dos ventos da montanha.
Runas em equipamentos podiam fazer “milagres”, mas Kanro havia me avisado que itens assim só podiam ser encontrados nos reinos — e nunca por menos de cem moedas de ouro.
Que tipo de monstro exige que alguém pague esse preço?
Não demoramos a conseguir uma boa veste para exploração e, mais importante, uma bolsa de coleta.
Verifico tudo duas vezes, por garantia, e desço as escadas sendo abatido pelo aroma do café da manhã. Minha mãe prepara banquetes até nos dias mais simples. Lyra está sentada à mesa com os talheres à mão e meu pai ajudando minha mãe a cortar algumas frutas.
— Bom dia! — exclamo, abrindo meus braços, e agarro minha irmã. — Você é perfeita, mãe.
— Irmão — Lyra quase me fura ao envolver os braços pelo meu pescoço.
— Obrigada, Kaelan — Seu toque em meu rosto quase me faz fechar os olhos. Ela e meu pai sentam à mesa. — Está pronto para sua primeira missão?
— Estou — direciono meu polegar para a ombreira. — Devo ao papai e a Lyra por isso — eles cruzam os braços, acenando com a cabeça. — Mas também… nervoso. Como que jovens saem para dungeons assim?
— Sem pensar nos jovens, campeão — Kanro diz enquanto mastiga uma maçã no… pão? — Essa é uma tremenda conquista. Ficou bonitão com todo o equipamento — um sorriso me escapa.
Nós treinamos no campo durante essa última semana, e eu juro que pude ouvir a voz de Elanor na minha cabeça. Tive breves avanços para recuperar meu físico e tentei meditação para encontrar meu fluxo perfeito de magia.
Mas não era tão simples quanto apenas respirar.
— Traga para mim uma flor rara ou — Lyra pronuncia, estufando o peito — uma pedra capaz de acender fogo.
— Vou procurar para você.
Ajudo com a louça quando o café termina e meu pai me chama. Um suspiro desestabiliza as batidas em meu peito ao ver o que ele tem em mãos.
— Pai, eu não acho necessário — ergo as mãos em negação, mas Kanro põe a adaga embainhada nelas.
— Sempre é bom se prevenir. Temos essa adaga guardada há algum tempo, seu avô e eu a usamos para aprender antes de irmos para nossas maiores armas — desço o olhar à capa da lâmina, com um belo símbolo dracônico, e retorno aos olhos confiantes de Kanro. — Pode ser que não precise, isso será ótimo, mas como um Kai essa é sua próxima lição.
Eu… eu não posso usar isso. Perfurar uma criatura, menor que seja, vai sair sangue e… morrer.
Um breve terror surge em meus olhos, mas engulo seco e balanço a cabeça, empurrando todos esses pensamentos para longe.
— Obrigado por confiar em mim — a coloco em meu cinto. — Não vou te decepcionar.
— Você nunca decepciona.
Após um abraço firme nele, faço o mesmo com Amice e Lyra.
— Se cuida, Kaelan. — A mão de Amice desliza pelo meu rosto, me fazendo fechar os olhos.
— Toma cuidado, Lumi — Lyra avisa, colando a cabeça em meu peitoral.
— Até breve, amo vocês.
*
O sol ilumina Karin pelas poucas brechas deixadas pelas nuvens escuras, e o sul traz ventos gelados que agitam a minha capa. Subo o capuz ao sentir as orelhas geladas e inicio a boa caminhada até a Raiz de Ferro.
Karin está recheada de aventureiros e novos comerciantes tentando ocupar as praças. Depois daquele incidente, muitos boatos correm pelos reinos. A maior parte desacredita que o minotauro voltou à vida mesmo sem cabeça.
Eu também não acreditaria, eu acho. Só quem esteve presente naquela praça sentiu o verdadeiro peso da aura dele.
Jowan disse que o movimento da cidade tende a aumentar por acharem que outros monstros como aquele podem aparecer aqui. Ou que o nível de magia ao redor de Karin subiu.
Todo esse tumulto termina quando cruzo a cerca de madeira da Raiz de Ferro e passo pelo campo florido e a linda fonte particular. Preciso me ajeitar uma última vez — todos esses equipamentos ficam se mexendo conforme eu ando.
O grupo me aguarda do lado de fora.
— Bom dia, Lumi. — Cirlan usa uma túnica verde que destaca os músculos de seus braços, um colar com o símbolo de uma onda, onde eu consigo sentir uma pitada de magia, e uma espada reta na cintura. Comum, parecida com as dos cavaleiros. Os olhos azuis se destacam junto ao curto cabelo loiro com tons prateados.
— Capitão Cirlan — respondo, levando a mão direita ao meu peito esquerdo, mantendo meu olhar no dele. Posso não ter toda a confiança, mas estou determinado a isso.
— E não é que o magrelo veio — Kaled tem um visual mais agressivo, mostrando os braços grandes e os caninos como uma ameaça a quem chegasse perto. Seus olhos são cinzas como o cabelo que decai até o meio do pescoço. Em sua cintura há dois punhais com um dragão de corpo alongado nos pomos. — De quebra, conseguiu uma adaga interessante — ele leva a mão ao queixo tentando analisar. — Se cair no caminho, eu fico com ela.
— Eu não vou cair — respondo com firmeza, fincando meus olhos nos dele. Mas Kaled apenas sorri de canto. — Vou ajudar vocês e não ser um peso.
— Lumi veio — a elfa me abraça de lado e meu coração vai a mil. Seus cabelos loiros vão ao meu rosto com uma brisa fantasma e o cheiro… me derrete. Kaled cai em risada ao ver o quão vermelho fiquei.
— Ca-cacele — droga, saiu tudo tremido. — É bom te ver.
Quando ela se afasta, posso ver melhor seu lindo corpete preto e seios que chamariam a atenção de qualquer macho de Karin. Os olhos âmbares ficam em mim enquanto eu aprecio o arco de uma madeira que emana magia e suas duas adagas curvadas na cintura…
Que injusto.
Tusso sem graça com o punho cerrado na boca e Cirlan passa uma breve visão da rota. Sairemos de Karin pelo portão norte direto para a subida direta na montanha. Preciso de uma flor rara usada pelos curandeiros da cidade que só cresce em alturas elevadas.
Peço para ele repetir sobre a rota dos monstros por me distrair com o vestido marrom-claro com partes de armadura de Cacele.
— Seguiremos a trilha que une as montanhas. É raro ver algum monstro nessa região, ao redor pode ser que haja pequenos goblins ou seres de mesmo porte, mas nenhum deles se arrisca a escalar apenas para ver as cabras-montesas pulando — Cirlan fala com bastante firmeza e convicção, parece que sabe tudo, mas eu dou uma risadinha no final. — Apesar de eu apreciar como esses animais conseguem se equilibrar nas montanhas mais íngremes.
— Elas com certeza ficariam deliciosas em um ensopado — Kaled diz, olhando para cima.
Eu e a linda Cacele o encaramos com desdém.
Quem pensa em uma coisa dessas?
— Não liga pra esse chato — ela puxa meu braço e eu claramente não nego. — Ele é insensível.
Caminhando com eles em meio à cidade, eu percebo que… estou indo para longe. Vou me colocar em risco para ajudar os curandeiros a ajudarem outras pessoas. É uma sensação boa que, de alguma forma, começa a apagar a tensão que aquela aura negra me passou.
Não quero viver com medo de olhar para trás, mas não posso viver olhando para o caminho errado.
Não posso mudar o que aconteceu, mas se eu tiver alguma chance de evitar que aquilo se repita, mínima que seja, eu agarro com unhas e dentes. Ser forte como o meu pai ou meu avô é difícil para a magia que eu tenho, mas… isso não me impede de tomar a frente por Lyra e Amice ou ajudar Jowan e Lioren quando necessário.
Fico reflexivo, com os olhos vagos nos anões forjando armas, nas barracas de frutas, de armaduras velhas, nos aventureiros bem equipados, mas a tensão verdadeira surge quando paro nos portões.
Meus olhos varrem o caminho à frente, esperançosos de que isso pode realmente mudar minha jornada.
— Pensa bem, ainda dá tempo de desistir — Kaled é o primeiro a dizer.
Cirlan apenas me encara em um “você decide”.
— Vamos, vai ser divertido. Explorar as montanhas… tem lugares que você vai lembrar pra sempre — Cacele sorri com uma beleza incomparável.
Os cantos dos meus lábios se erguem… apesar do suor nas mãos e do tremor em minhas pernas, eu consigo dar esse passo. Kaled arfa desapontado e Cirlan fecha os olhos ao se virar para frente. Cacele dá um pulinho alegre e eu puxo o máximo de ar que posso, deixo a sensação mágica invadir meus pulmões e levar oxigênio para todo meu corpo.
— Vai ter que conviver comigo, senhor Kaled — ergo o queixo ao passar por ele para ficar ao lado de Cacele. — Pois eu não vou desistir.
— Tsc — o veterano põe as mãos nos bolsos e caminha emburrado, fazendo questão de não olhar para mim. — Faça o que quiser.
— Que bom que decidiu vir conosco, Lumi — Cirlan para ao lado de quatro cavalos. — O aluguel dos cavalos estava pago.
Eu e Cacele damos uma risada sincera.
*
Galopamos para além das fazendas depois do muro, adentrando nos limites da estrada de comércio e finalmente… finalmente na subida da montanha. Sou recebido por um ar congelante no peito, minha capa e meu cabelo voam para cima e não consigo sequer piscar com a sensação libertadora de…
De não sentir aquele medo.
As árvores verdes e amarelas dão espaço para aquelas cobertas de neve, a grama é trocada por uma superfície branca e gelada que os cavalos deixam pegadas. Seguro firme as rédeas e demoro a perceber que estou tão perdido no cenário que quase me afasto do grupo.
É magnífico.
Da altura em que estamos já posso ver a cidade como um ponto distante, a imensa floresta sendo agitada pelos ventos e a montanha dos grifos não mais tão longe. O horizonte parece ser infinito, posso ver vilarejos pequenos que eu nem sabia que existiam por aqui.
Aventureiros, comerciantes, alces enormes…
— Cabeça de vento — Kaled chama com desdém. — Vai ficar se distraindo com o cenário de cinco em cinco minutos?
Encaro meu veterano sem dar margem para a pergunta.
— Kaled, é a primeira experiência dele — Cacele me defende. — Você também ficou maravilhado quando veio a primeira vez. Lembra disso?
Solto uma risada breve quando Kaled acelera o ritmo de sua montaria e cavalgo ao lado de Cacele. Ela me conta de como pode ser ainda mais incrível do alto e de que há montanhas mais altas do que essa.
É estranho, mas achei que sabia bastante.
Quanto mais eu conheço e descubro, parece que menos eu possuo a capacidade de compreender a vastidão de todo esse mundo.
Cirlan permanece tranquilo em olhar e ritmo. Aqueles olhos aparentam já terem visto muito do que a vida tem a oferecer, mas ele não parece menos maravilhado do que eu. Pelo contrário, está dedicando seu tempo aos vastos campos de pétalas rosas ao longe e—
Eu enxergo um poder completamente concentrado e, ao mesmo tempo, fluido.
Minha capacidade de pressentir mana pode ser reduzida, mas eu entendo bem o equilíbrio quando sinto um.
— O que está achando? — Sua voz grossa se sobressai perante o uivar dos ventos.
Travo ao abrir a boca para responder, voltando meu olhar ao mar de nuvens que começa a se formar abaixo de nós.
— Incrível, capitão Cirlan — digo simplesmente. — Não tenho palavras que possam descrever, mas isso daria um quadro perfeito.
— É uma bela percepção — ele olha para a mesma direção que eu. — Prepare-se. Isso é apenas uma pequena parcela da perfeição do mundo que verá daqui em diante.
— Sim, senhor!
Que bom, capitão Cirlan.
Que bom.
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